domingo, 22 de julho de 2018





YEAH, THE BLUES!
(o Brasil no circuito mundial dos festivais)
Parte 3 - Final


Foi nesse clima, em maio de 1990, que aconteceu o Segundo Festival de Blues no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo (o Primeiro Festival havia acontecido em Ribeirão Preto-SP, na Cava do Bosque, no ano anterior).
O festival teve a produção da LUKR Eventos, comandada por Roberto Cocenza. Também fazia parte da equipe meu amigo e parceiro Renato Winkler que 
insistiu para que eu fosse assistir ao festival em São Paulo e para tanto me enviou uma credencial de imprensa, dessas que a gente pendura no pescoço vinte e quatro horas por dia – “Pellegrini Augusto – Radio Mirante FM – São Luís-MA” – posto que eu era – e ainda sou – radialista especializado em jazz (e dizem que em blues, com o que não concordo).
O festival transcorreu de uma forma empolgante e reuniu no mesmo espaço músicos antológicos como Magic Slim, Bo Diddley, Buddy Guy, Junior Wells, Koko Taylor, John Hammond, The Blues Machine, Big Daddy Kinsey & The Kinsey Report e os blueseiros locais André Christóvam, Blues Etílicos e a Brasilian Blues All Stars, composta por Ed Motta, Flavio Guimarães e Roberto Frejat.
A grande vantagem de possuir uma credencial é poder ser uma sombra presente nas entrelinhas do espetáculo, nos bastidores, nos camarins e no hotel onde a trupe se hospedava, local onde via de regra acontecia alguma jam session para confraternizar o blues, além da possibilidade de entrevistas nem sempre exclusivas, mas sempre muito especiais, e a descoberta maravilhosa de que por trás dos artistas consagrados se escondem seres humanos cheios de história para contar.
Boa parte das histórias acabaram se tornando descartáveis, e serviram  apenas para ilustrar alguns dos meus programas radiofônicos, mas uma conversa, em especial, ficou registrada, posto que histórica.
Bo Diddley, nascido Ellas Otha Bates, tinha sessenta e dois anos na ocasião do festival, embora aparentasse mais.
Ao contrário da maioria dos artistas presentes, que esbanjavam vitalidade, Diddley mantinha uma atitude melancólica, cansada e pouco sorridente, embora aparentemente tudo corresse às mil maravilhas na turnê blueseira.
Bo Diddley era o “low profile” que não combinava com a vibração do evento.
Cantor, guitarrista e compositor (suas músicas eram assinadas como Ellas McDaniels), Bo Diddley com sua guitarra quadrada foi talvez a figura mais emblemática do festival. Ele se constitui num dos elos mais importantes de um tipo de música que uniu o blues ao rock and roll e influenciou, entre outros, os astros Buddy Holly, Jimi Hendrix, Eric Clapton e Elvis Presley, além de Beatles e Rolling Stones. O que não é pouco.
Foi exatamente a menção a Elvis Presley que esquentou o assunto e soltou a língua do velho bluesman.
Apesar de ser mundialmente reconhecido como um dos maiores artistas do blues e do rhythm & blues, Bo Diddley reclamava que a sua carreira poderia ter sido muito mais bem sucedida se alguns produtores de discos e de shows não tivessem interferido de forma tão negativa e decisiva no seu desenvolvimento.
Ele, Diddley, teria sido o pioneiro a mostrar nos palcos a famosa performance do “rebolado do rock and roll” que se imortalizou com Elvis “The Pelvis” e que os pudicos dos anos 1950 consideravam obscena e atentatória aos bons costumes (mas que os jovens rebeldes sem causa simplesmente adoravam).
Possivelmente”, prosseguiu Diddley, “tenha sido um outro negro, Chuck Berry, quem realmente iniciou aquele tipo de dança lasciva, mas Berry podia ter tudo – ritmo, drive, empolgação – mas não conseguia passar para o público nem um pingo de malicia ou de sensualidade. Chuck era mais feio do que eu”. E riu, pela primeira vez durante a nossa conversa.  
Na sua própria descrição, Bo Didley era negro, feio e não tinha a estatura necessária para estar dentro dos padrões de beleza universalmente aceitos. No entanto, a novidade deste tipo de dança na nova música era tão empolgante que os produtores de shows decidiram que o rebolado devia ser incrementado por algum outro cantor, desde que fosse branco, bonito, atlético e sensual.
Assim, nos meados dos anos 1950, Bo Diddley foi descartado e caiu no limbo do rock and roll, derivando seu talento para uma área com menor apelo mercantil, o blues. 
Os produtores saíram então em campo à cata do homem com o biótipo ideal que tivesse o DNA para vender discos e aguçar o espírito da juventude, e descobriram um jovem cantor e guitarrista natural do Mississipi que estava fazendo um relativo sucesso no rádio e na televisão cantando uma espécie de ballad-country e de rock-blues.
Seu nome era Elvis Presley, ex-motorista de caminhão que estourou para o grande público com o bluesThat’s All Right Mama” (Arthur Crudup) e “Blue Moon Of Kentucky” (originalmente uma valsa escrita em 1946 por Bill Monroe), músicas que receberam um tratamento diferente por parte do guitarrista Scotty Moore e do baixista acústico Bill Black, nascendo daí – junto com o trabalho de outros pioneiros – o estilo “rock-a-billy”, uma fusão da country music com o rhythm & blues. 
O rebolado pra valer começou em 1957 com “Jailhouse Rock” e “King Creole” (ambas de Jerry Leiber e Mike Stoller), depois de uma série de baladas românticas, que no futuro iriam se constituir no ponto alto das suas interpretações – como “Love Me Tender” (George R.Poulton, W.W. Fosdick  e Ken Darby), “Lovin’ You” (Jerry Leiber e Mike Stoller).
De acordo com Diddley, foi nestas circunstâncias  que os produtores “roubaram” a sua ideia e que um eventual título, “The King of Rock‘n’Roll”, lhe teria sido usurpado.
O depoimento histórico foi encerrado abruptamente com a chegada de alguém da produção convocando Diddley para uma foto, a pedido de um repórter.  Não tenho certeza, mas ficou a impressão de que sobrou no rosto do velho bluesman um certo ar de alívio quando ele se despediu de mim, o que provavelmente acontecia por quase quarenta anos sempre que seu coração se abria para algum desconhecido.

terça-feira, 17 de julho de 2018







YEAH, THE BLUES!
(o Brasil no circuito mundial dos festivais)
Parte 2

Estranhamente, apesar das pesquisas e da diferença na aceitação popular, jazz e rock foram apresentados pela primeira vez para as grandes plateias do Brasil no mesmo ano.
A primeira edição do Rock in Rio foi realizada entre os dias 11 e 20 de janeiro de 1985 – evidentemente na cidade do Rio de Janeiro. Ela foi absolutamente marcante e contou com a presença dos astros internacionais Queen, Iron Maiden, Whitesnake, James Taylor, George Benson, Rod Stewart, Scorpions, Yes, Ozzy Osbourne, Nina Hagen e AC/DC, e dos artistas locais Ivan Lins, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Lulu Santos, Pepeu Gomes & Baby Consuelo, Gilberto Gil, Erasmo Carlos, Ney Matogrosso, Kid Abelha e outros.
Por ter sido o primeiro festival desse porte, o Rock in Rio foi um evento que precisou de muito fôlego e coragem, mas no final correspondeu plenamente às expectativas.
O público total chegou a quase um milhão e quinhentas mil pessoas e deu uma resposta entusiasmada à aposta do publicitário e produtor Roberto Medina, embora ele próprio tenha admitido que realizar o festival “foi uma maluquice”.
O projeto Rock in Rio foi tão bem-sucedido que se multiplicou nos anos seguintes – até 2017 foram sete edições realizadas no Brasil, sete em Portugal, três na Espanha e uma nos Estados Unidos, sempre com o mesmo nome, o que acabou o transformando em uma lucrativa trademark.   
Surpreendentemente, foi também em 1985 que aconteceu ao mesmo tempo no Rio e em São Paulo o primeiro Free Jazz Festival, patrocinado pela Companhia Souza Cruz, que aproveitou o nome de um dos estilos de jazz – o free jazz – para promover em grande estilo o lançamento da sua marca de cigarros Free, naquele tempo em que não existiam restrições para a sua propaganda e que o hábito de fumar ainda tinha o seu lado romântico. A companhia aérea Pan-Am também deu o seu apoio, notadamente no que disse respeito às viagens internacionais.
Não se sabe ao certo quem foi o idealizador do festival, mas sabe-se que a Rede Globo de Televisão ficou o tempo todo supervisionando e administrando o espetáculo.
A primeira edição trouxe atrações especialíssimas – Bobby McFerrin, Chet Baker, Ernie Watts, Sonny Rollins, Pat Metheny, McCoy Tyner, Joe Pass, Hubert Laws, Phil Woods, David Sanborn e Toots Thielemans, e os brasileiros Azymuth, Cesar Camargo, Egberto Gismonti, Wagner Tiso, Grupo D’Alma, Luiz Eça, Hélio Delmiro, Heraldo do Monte, Orquestra Tabajara, Paulo Moura, Zimbo Trio e Uatki, entre outros.
Em 1986 tivemos vinte e dois participantes, sendo quatorze brasileiros e oito internacionais, média que continuou sendo mantida até o fim do projeto em 2001 (o Free Jazz Festival foi descontinuado devido às leis antitabagistas e em 2003 foi substituído pelo TIM Festival, que perdeu as características originais e passou a focar um tipo de música alternativa, que incluía indie, eletrônica, rock e – felizmente – o próprio jazz). A partir de 2005 o TIM Festival estendeu a sua abrangência para outras capitais como Curitiba, Belo Horizonte, Vitória e Porto Alegre.
A febre dos festivais se espalhou pelo Brasil, e agora a gente pode curtir encontros menores, mas de alta qualidade, a cada ano também em Ouro Preto e Governador Valadares (MG), Paraty, Rio das Ostras e Búzios (RJ), Guaramiranga (CE), Olinda e Garanhuns (PE), Cascavel (PR), Brasília (DF) e São Luís (MA) - este último através do Lençóis Jazz & Blues festival, que completará dez edições em 2018. 
Apesar de bastante popular, o Free Jazz Festival nunca chegou a causar o mesmo impacto do Rock in Rio, principalmente porque tradicionalmente o rock sempre costuma reunir multidões em festivais realizados em grandes áreas ao ar livre em todo o mundo – vide Woodstock (Nova York-EUA), Altamond (Califórnia-EUA), Central Park (Nova York-EUA), Hyde Park (Londres-Inglaterra) e Ilha de Wight (Inglaterra) – ao passo que o jazz sempre teve um público menor, mais comportado e, pode-se dizer, mais exigente em termos de estrutura e conforto.





YEAH, THE BLUES!
(o Brasil no circuito mundial dos festivais)
Parte 1

Desde o final dos anos 1980, o Brasil tem se tornado um lugar bastante concorrido para a realização de festivais de rock, jazz e blues.
Mas nem sempre foi assim.
Demorou algum tempo para que o público brasileiro viesse fazer parte do roteiro dos megafestivais de música.
Naquela época os festivais de rock faziam comercialmente mais sentido do que os seus congêneres de jazz, pois tinham como suporte de mídia alguns bem sucedidos encontros internacionais produzidos e trabalhados mundo afora pelo show business.
É claro que isto não significa que o jazz não estivesse acontecendo no cenário mundial, mas parecia mais acertado apostar num movimento mais performático, como as bandas, os astros do rock e os seus grandes espetáculos de luz e cor, do que numa música que privilegiava mais os ouvidos e a sensibilidade.
O rock possuía um apelo mais popular, talvez por ter surgido mais recentemente. Afinal, o velho jazz foi apresentado ao mundo no início do século vinte, cinquenta anos antes que Chuck Berry afinasse a sua guitarra e produzisse o fenômeno que na época foi conhecido como rock-a-billy – uma mistura de country music com rhythm & blues, derivando para o rock and roll com a posterior intromissão do boogie-woogie.
A modernidade do rock era portanto mais propícia para agregar o público mais jovem, que não se importava em deixar o conforto de lado para se divertir como bem entendesse.  
Desde o seu nascimento, o rock teve uma boa penetração na mídia e era divulgado, embora ainda que timidamente, em programas radiofônicos e festinhas de família onde no final da década de 1950 Bill Haley disputava espaço com Cely Campello e Carlos Gonzaga.
E isto não definitivamente acontecia com o jazz e com o blues.

-0-

O Brasil da Era do Swing tinha programas radiofônicos de jazz com as grandes orquestras tocando ao vivo pela Voz da América, mas isto acabou com o fim da Segunda Guerra Mundial e com a mudança da mentalidade da juventude que começava a se tornar rebelde.
Por se constituírem num público menor e mais maduro, e por consumirem uma música mais sofisticada, jazzófilos e bluesófilos passaram então a viver num quase esquecimento, vendo-se obrigados a ouvir os seus estilos prediletos em casa por meio de gravações discográficas e a acompanhar de longe as trajetórias dos festivais de jazz mais famosos – Monterey (EUA), New York (EUA), Newport (EUA), Montreux (Suiça), JVC (França), Blue Note (Bélgica), North Sea (Holanda) e mais uma centena de outros – através de reportagens de colunas especializadas de jornais ou revistas, ou então por meio de discos long-play, cujas contracapas e encartes nos davam a noção do que se passava por lá, tudo documentado com as devidas fotos. Os discos muitas vezes traziam músicas gravadas ao vivo, o que adicionava uma emoção a mais ao ouvinte.
E a gente só sonhava, ainda que acordado.
De acordo com pesquisas não muito oficiais, o interesse que o jazz e o blues despertavam nos apreciadores de música era muito pequeno para se pensar num evento de largo consumo. Essa barreira, no entanto, foi finalmente  ultrapassada graças a alguns produtores arrojados que apostaram na inteligência do público e tiveram o apoio de patrocinadores fortes para tornar a ideia viável.

SEGUE

domingo, 15 de julho de 2018





O MENINO E A ROSEIRA
1979

(Nelson Gengo – Augusto Pellegrini)

O menino falou
Que a roseira lhe feriu o dedo
O menino falou
Que a roseira não é um brinquedo

A rosa despetalou
Revelou o seu segredo
O menino vacilou
Mexeu na roseira e feriu o dedo

O menino falou
Que a roseira lhe feriu o dedo
O menino falou
Que a roseira não é um brinquedo

Menino, não chore não
Pois sofrer começa cedo
Se a roseira machucou
Esqueça da dor e caminhe sem medo

O menino falou
Que a roseira lhe feriu o dedo
O menino falou
Que a roseira não é um brinquedo

Se essa dor for desamor
Dessa dor eu não entendo
Sou menino cantador
Não deixo a roseira me ferir o dedo



quinta-feira, 12 de julho de 2018





UMA ORQUESTRA DANÇANTE
Swing pra que te quero
Parte 3 - Final

Harry James e sua orquestra encerrariam a sua temporada no Brasil se apresentando em São Paulo no dia 27 de outubro, depois de passar pelo Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Curitiba. Esta seria a sua última turnê pela América do Sul, pois o maestro estava enfrentando problemas de saúde e começaria a rarear os shows – na verdade James viria a morrer cinco anos depois, em Las Vegas.
O grande show em São Paulo foi realizado em grande estilo num grande salão chamado Boite Aquarius, e eu novamente participei da grande festa, desta vez sem a presença de Bob Mount.
A Aquarius era uma das discoteques mais badaladas da cidade e a sua pista de dança normalmente fervilhava nas noites de sexta e sábado com as músicas quentes do final dos anos 1970 como “I Will Survive” (Gloria Gaynor) com Gloria Gaynor, “Macho Man” (Henri Belolo, Victor Willis e Jacques Morali) com o Village People, “Stayin’ Alive” (Barry Gibb, Robin Gibb e Maurice Gibb) com os Bee Gees e “Dancing Queen” (Benny Andersson e Bjorn Ulvaeus) com o grupo ABBA e seu B invertido, com direito à devida decoração e efeitos psicodélicos especiais.
Aquela noite foi muito particular, tanto na sonoridade quanto na decoração do salão que mudaram drasticamente, pois o ambiente voltou no tempo e as músicas retrocederam quarenta anos, variando de “Ciribiribin” (Alberto Pestalozza, Harry James e Jack Lawrence) e “Trumpet Blues” (Harry James) até “You Made Me Love You” (Joseph McCarthy e James V.Monaco), “It’s Been A Long Long Time” (Jule Styne e Sammy Cahn), “Jealousie” (Jacob Gade) e “Sleepy Lagoon” (Eric Coates-Jack Lawrence), seis dos maiores sucessos de James que não haviam feito parte do repertório de Belo Horizonte, fazendo com que a Aquarius se transformasse num grande Savoy Ballroom dos anos 1940.
Depois da apresentação a orquestra se retirou do palco, mas as músicas do show haviam sido gravadas e continuaram ecoando por cerca de quase uma hora para que o pessoal pudesse continuar dançando, e alguns músicos caíram na gandaia junto com o público.
Entre eles, lá estava o nosso amigo Sonny Payne, que esbanjava alegria e dançava um insuspeito lindy hop, para a alegria dos presentes.
Num momento de repouso, encontrei-me com ele e voltamos a trocar ideias junto ao balcão do bar, relembrando a madrugada do Hotel Del Rey acompanhado por mais outras tantas latinhas de cerveja.
Ele estava feliz em ter vindo para o Brasil e fazia planos para retornar num futuro breve, talvez pegando carona com alguma orquestra que viesse fazer alguma temporada por aqui.
Mas Sonny não conseguiu concretizar os seus planos, pois na sua volta para os Estados Unidos ele contraiu uma gripe fortíssima que se transformou em uma insidiosa pneumonia, à qual não resistiu.
Sonny Payne morreu três meses depois do nosso encontro, no dia 29 de janeiro de 1979, com apenas 53 anos de idade e toda uma carreira de baterista de jazz e swing pela frente.
Mas deixou seu nome registrado na história e particularmente  na minha história.

terça-feira, 10 de julho de 2018






MARIA DO CÉU

(Augusto Pellegrini)

Ela se chama Maria
Maria do Céu
Jeitinho tão doce
Pãozinho de mel

Desde o dia em que vi Maria
Parece, eu sabia
Estar o céu a encontrar
Um instante pra ver foi o bastante
Maria do Céu no céu deve morar

Com Maria dançando
Seus pés flutuando
Assim, deslizando no ar
A gente começa a subir
Vai pro céu devagar, sem sentir

O céu junto a mim a dançar
E a Maria do Céu
Sobre as nuvens rodar
É um momento perfeito
Misterioso efeito
Que pude encontrar

1958


segunda-feira, 9 de julho de 2018





UMA ORQUESTRA DANÇANTE
Swing pra que te quero
Parte 2

Depois de cerca de duas horas de espetáculo, contando com o tradicional “bis”, eis-nos de volta ao hotel bastante animados e dispostos a fechar a noite diante de mais algumas cervejas. Afinal, tínhamos assunto de sobra para conversar, Bob lembrando os shows dançantes da sua juventude em Des Moines, no Iowa, e eu me atendo aos discos das grandes orquestras que ouvia desde os tempos de adolescente.
Novamente no bar, naquela altura quase vazio, experimentamos um petisco mais substancioso, pois afinal não havíamos jantado. Dado o adiantado da hora, já nem fazia sentido a gente reverenciar a culinária local, então partimos para um filé trinchado ao molho madeira que, dizia o cardápio, era uma das especialidades da casa.
De repente, entre vozes e gargalhadas, nos deparamos com dois alegres camaradas chegando para ocupar uma mesa ao lado da nossa, dirigindo-se ao garçom e também pedindo cerveja, mas numa mistura de inglês e castelhano.
Um deles era negro, de meia idade e de estatura mediana, os cabelos já prateando nas têmporas, e o outro quase ruivo, mais alto e parecendo uns vinte anos mais jovem, ambos com a camisa branca desabotoada no pescoço e as mangas arregaçadas.
Nós imediatamente os identificamos como músicos da orquestra de James, que coincidentemente estava hospedada no mesmo hotel. Prontamente nos apresentamos e iniciamos uma conversa, o que foi facilitado pelo fato de Mount também ser americano, o que quebrou o gelo instantaneamente.
Os nossos companheiros de fim de noite eram o baterista Sonny Payne e o sax-tenorista Norm Smith, que ficaram felizes por termos estado presentes no show e se declararam encantados com a receptividade do público.
Really great!”, eles pontuaram.
Bob Mount aproveitou para matar saudades das coisas gringas – e eles usaram muitas vezes de um linguajar tão local que alguns detalhes me escaparam totalmente, em meio às suas gargalhadas – e eu aproveitei para pedir seus autógrafos na capa do LP que eu havia adquirido no saguão do teatro.
Sonny Payne tinha pedigree, era uma figura histórica no mundo das big bands.
Em pouco tempo, desde meados dos anos 1940 até meados dos anos 1950, ele havia tocado em diversas orquestras – entre elas Dud & Paul Bascomb, Earl Bostic, Tiny Grimes, Erskine Hawkins e Count Basie – chegando também a comandar a sua própria formação.
Foi apenas em 1966 que ele ingressou na orquestra de Harry James, numa tentativa que James fez na época de levar para a sua orquestra a pegada da “cozinha” de Count Basie – coisa que James jamais negou (a história conta que James conseguiu contratar o “beat” de Sonny Payne, mas não o “bounce” completo pois não convenceu o guitarrista Freddie Green nem o baixista Eddie Jones a mudar de time).
Durante um certo tempo Sonny Payne dividiu o seu trabalho liderando um trio e se transformando no baterista pessoal de Frank Sinatra, com quem tocou em diversos shows. Mais tarde, ele retornou para a banda de Basie por algum tempo e finalmente voltou a tocar com James, onde estava agora, e onde iria encerrar a sua carreira.
Menos conhecido, Norman Smith havia tocado em diversas bandas, inclusive nas orquestras de Stan Kenton e Ted Herman, da qual saiu para se juntar a Harry James, e era um saxofonista muito seguro, embora não fizesse parte do time dos mais selecionáveis.
Atravessamos boa parte da madrugada num alegre papo entre muitas cervejas, a lembrança de muitas canções, muitas histórias e muito aprendizado, até que o garçom viesse sinalizar que o serviço de bar seria encerrado.
Quer pelo cansaço, quer pela condição de astro principal, Harry James não desceu para o bar e preferiu ir para a cama ou tomar a sua cerveja no próprio apartamento, assim como os demais membros da sua entourage, o que para nós foi uma pena.
Na manhã seguinte dormi até mais tarde, e apesar do amuo do motorista, a Rural Ford seguiu para a nossa missão no Distrito Industrial quando o sol já estava alto.







SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 07/04/2017
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106,9 Mhz
São Luís-MA

GIULIO GRANATI QUARTET - LIVE AT MOODS  

Quando os primeiros músicos de jazz americanos levaram o novo estilo para a Europa no início do século 20, poucas pessoas podiam apostar no crescimento do interesse do europeu pela nova música. A Europa era musicalmente setorizada, com cada país desenvolvendo seu sentimento próprio até que o jazz foi tomando conta e globalizou todo o continente, fazendo franceses, alemães, italianos e todos os povos pudessem dialogar na mesma linguagem musical. Um belo exemplo dessa atitude é o pianista italiano Giulio Granati, que fez da Itália, Alemanha e Suiça o seu palco predileto e aqui se apresenta com seu quarteto trazendo um jazz de vanguarda com muita música autoral ao lado de uma surpreendente interpretação intimista da tradicional "Over the Rainbow". A gravação foi feita ao vivo em Zurique no ano de 2003.


Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini

sábado, 7 de julho de 2018







UMA ORQUESTRA DANÇANTE
Swing pra que te quero
Parte 1


O dia era 19 de outubro de 1978.
Eu estava em Belo Horizonte na companhia de um engenheiro americano de nome Robert Mount, ambos a serviço de uma empresa multinacional para a qual trabalhávamos na época. Eu de São Paulo, ele do Texas, duas almas perdidas na capital mineira.
O dia havia sido quente, abafado e cansativo. Após ficarmos o tempo todo expostos à poluição do Distrito Industrial, finalmente voltamos para a cidade no fim da tarde, chacoalhando na Rural Ford que nos servia de transporte.
O sol se punha no belo horizonte das alterosas, recortando a cadeia de montanhas da Serra do Curral em contraponto com um céu de um fundo alaranjado brilhante, e as primeiras luzes da noite começavam a se fazer presentes, piscando aqui e acolá como uma árvore de Natal se espalhando pelas calçadas, enquanto a caminhonete finalmente alcançava as artérias principais, a esta altura intensamente movimentadas, até nos desembarcar como um par de malas em frente ao tradicional Hotel Del Rey.
Uma hora mais tarde, após um breve e refrescante repouso, nos encontramos no bar do hotel para enfim tomar a nossa merecida cerveja bem gelada e fazer os planos para um jantar à mineira, muito embora os pedaços de queijo também mineiro e a delícia do torresminho frito que vieram como acompanhamento já honrassem devidamente a culinária local.
Sobre a mesa asséptica com tampo de fórmica escura, ao lado de um cardápio plastificado e dos costumeiros porta-guardanapo, cinzeiro e galheteiro encontrava-se um pequeno folheto informativo anunciando para “19 de outubro, às nove da noite, o show do ano”’, o que se afigurava simplesmente imperdível, pois se tratava da orquestra de Harry James se apresentando no Palácio das Artes!
Dia 19 de outubro... é hoje!!!
Seduzidos pela oportunidade de assistirmos a um espetáculo memorável, deixamos prontamente de lado a ideia do jantar à mineira para nos engajar numa típica noitada norte-americana.
Bob já havia assistido a uma ou duas apresentações da orquestra de Harry James nos Estados Unidos – ele não sabia precisar exatamente onde, mas acreditava ter sido em Nova York, ou em Pittsburgh, cidade sede da empresa onde trabalhávamos, ou ainda em Houston, onde ele morava – mas para mim, que conhecia James apenas por um par de filmes de Hollywood e por alguns discos, seria uma oportunidade fantástica. 
O Palácio das Artes ficava a uma distância não muito grande do hotel, mas por via das dúvidas e pelo adiantado da hora resolvemos apanhar um taxi, o que acabou sendo providencial porque de repente caiu uma chuva fina inesperada que serviu para amenizar a temperatura da noite, mas que bem poderia ter esfriado o nosso ânimo.
À porta do teatro se formava uma fila caudalosa, o que atestava o interesse do público e atrasaria o início do show, mas auspiciava o sucesso do espetáculo. Afinal, tratava-se de Harry James, um dos pioneiros das grandes orquestras dos anos 1930, época em que surgiu como um dos mais promissores solistas de trompete para se transformar a partir dos anos 1940 em um sucesso mundial, quando liderou uma orquestra que variava entre o swing tradicional e a mais pura e romântica música dançante.
Harry James era possuidor de um sopro peculiar, forte, limpo, macio e tecnicamente perfeito. Dono de um timbre inconfundível e de um “drive hipnótico, ele aliava muito lirismo a um balanço formidável que convidava à dança.
Já veterano, James trazia consigo para a temporada brasileira alguns músicos bastante rodados – caso do trompetista Nick Buono, remanescente do seu antigo grupo, do baterista Sonny Payne, que durante muitos anos havia feito parte da orquestra de Count Basie, e do trombonista Art Dragon, que tocava regularmente tanto na sua orquestra como na Disneyland Band. A orquestra também mesclava outros músicos bem mais jovens, como a louríssima e bela saxofonista-barítono Beverly Dahlke-Smith (única mulher do grupo), o baixista Ira Westley com sua cabeleira fashion anos setenta, o sax-tenorista Fred Waters e um vocalista quase desconhecido chamado Francis Dennis.
Harry James, uma lenda na história da música instrumental, reeditou o brilho da época de ouro do swing e fez uma apresentação de gala, com muito fôlego e muita elegância, sempre imprimindo uma liderança segura sobre o grupo.
As músicas se sucediam dentro de um repertório irrepreensível – “Two O’Clock Jump” (Harry James, Benny Goodman e Count Basie), “Cherokee” (Ray Noble), “Don’t Be That Way” (Benny Goodman, Edward Sampson e Mitchell Parish), “Opus Number One” (Sy Oliver e Sid Garris), “You’ll Never Know” (Mack Gordon e Harry Warren), “Sweet Georgia Brown” (Ben Bernie, Maceo Pinkard e Kenneth Casey), “You Go To My Head” (J.Fred Coots-Haven Gillespie), “Serenade In Blue” (Mack Gordon-Harry Warren) – tendo como base uma pegada orquestral majestosa que servia de suporte para o som aveludado de James.

quarta-feira, 4 de julho de 2018




O FIM DA MEADA

Fico pensando, em meu canto
Que o mundo não vale nada
Você faz, fala e acontece
Pra sair de uma enrascada
E vai levar a vida inteira
Pra achar o fim da meada

Fim, começo, tanto faz
Eu quero uma ponta-guia
Que me ajude na procura
De uma boa companhia
Que me traga encanto e paz
Vinho, amor e simpatia

Penso que achei, mas não acho
Pois a pista é sempre falsa
Parece que é uma ponta
Aquilo que a gente encontra
Mas é só uma parte solta
Bem no meio da enrolada

E tudo isso se sucede
Mesmo tomando cuidado
Os caminhos que aparecem
Desviam pra todo lado
E via de regra acontece
De apontar pro lado errado

Pra achar a ponta do fio
É preciso ter paciência
Mas na maioria das vezes
O acaso não tem clemência
E zomba da nossa lida
Com a maior indiferença

E, por procurar ao léu
Desisto desta empreitada
Pra recomeçar a vida
Busco um outro carretel
Que já tenha definido
O início da caminhada

Não se trata aqui, no caso
De achar o fio da meada,
Tentando reencontrar
Um pensamento perdido
Que terminou confundido
Por quem não entende nada

O que procuro é o início
De uma meada confusa
Não tem nada figurado
E quando for encontrado
Espero que me conduza
Ao caminho desejado

Isto não é figurado
É realmente o começo
De uma busca extremada
Para seguir o caminho
Fio da meada eu desprezo
Fim da meada eu desejo

2018