sexta-feira, 20 de outubro de 2017




RETALHOS E REBOTALHOS

(Parte Três)

Todos os dias é a mesma coisa, a mesma alternativa cruel.
O que mata não é a rotina, mas a chatice subliminar da rotina, principalmente quando a gente esbarra nos pilares do bom gosto, o que faz tudo desmoronar, esmagando a arte e o refinamento como um Sansão atormentado faria com um templo repleto de filisteus.
Soprando meu saxofone cor de ouro no ermo do meu apartamento eu me sinto iluminado. Passeio pelas frases construídas por Coltrane, copio a aspereza de Gordon, e outro dia me comovi na aventura inenarrável de  guinchar como um morcego no cio, de um jeito que talvez nem Ornette Coleman fizesse melhor.
Os vizinhos surpreendentemente concordam, ou pelo menos não vivem reclamando com o síndico nem com a ronda policial mais próxima.
Isto não tem partitura, nem academicismo.
Basta ouvir, deixar a música penetrar em cada poro, sentir as notas correndo pelas veias e suar o sangue da harmonia que foi absorvida pelo organismo como uma vitamina numa simbiose perfeita, eu e a música.
Quando saio do meu apartamento carregando o estojo negro junto com o meu próprio corpo, começa a alternativa cruel.
Eu me dirijo como um autômato para o mesmo “night-club” onde me aguardam um conjunto musical bem ensaiado – uma banda, como dizem os jornais – aquele garçom simpático e aquele outro carrancudo, e também o sócio-gerente daquele lugar que é mais chegado a “vaudeville” do que a “American bar”, para tocar os grandes sucessos da moda e fazer a alegria daqueles que jamais farão a nossa alegria.
Para ouvir estas músicas não é preciso sair de casa com o bolso recheado de cartões de crédito, enfrentar o trânsito cada dia mais confuso, brigar pela vaga do estacionamento e ter que dar gorjeta para aquele cuidador de carros que jamais irá cuidar de coisa alguma. Basta refestelar-se na poltrona da sala, desligar a televisão com as suas mesmices e ligar o rádio em qualquer estação de efe-eme, que dizem ser mais nobre.
Tocar, sim, mas tocar a música deles e tocar essa música pra eles é o que me enfara e me enfada.
Mas é dali que surgem os trocados que me permitem prosseguir na faina dos estudos – prática, composição, contraponto e regência – e pagar o absurdo do aluguel do apartamento para aquele judeu safardana que além de me descascar e espremer como a um limão tem o desplante e a desfaçatez de todo mês, no dia marcado para o acerto de contas do aluguel, fazer uma vistoria minuciosa nos meus aposentos para ver quantos pregos foram enfiados na parede, quantas lajotas de piso foram riscadas de preto pelo salto de borracha do meu sapato barato, quantas baratas se escondem por detrás do armário e por dentro do ralo do banheiro, quantos azulejos estão se soltando do reboco e quantas marcas de dedos foram deixadas na sala, naquela pintura duvidosa feita à base de cal hidratada.
Ele é o tipo do sujeito capaz de desenrolar todos os rolos de um fardo de papel higiênico só pra constatar se de fato cada rolo contém os quarenta metros mencionados na embalagem. Depois faz o cálculo do consumo mensal e distribui um pedaço para cada membro da família.          
Ainda outro dia ele se achegou num acesso de verborragia sócio-econômica acerca da nova lei do inquilinato, aquela que cada vez que é renovada permanece com os mesmos defeitos: “esta lei, senhorr Porfírrio, só favorrece o locatárrio, o senhorr entende que com essa pouquinha coisa que o senhorr paga não dá pra juntarr dinheirro pra reformarr o imóvel quando o senhorr forr embora!” – e eu pensando – “ou para o dia em que este velhaco bater as botas e tiver vontade de levar tudo consigo para além túmulo, dinheiro e apartamento, ações e debêntures e aquelas peças de ouro que estão depositadas no banco, velhote miserável!” – mas acabo apenas retrucando com um simples assentir de cabeça e um sorriso desbotado, vendo-o caminhar em direção ao elevador e depois sumir com o seu corpo mirrado e a cabeça calva, fazendo lembrar um cogumelo – “então até logo e muito obrigado!” (“muito obrigado?!”), e corro de volta para a sala para soprar o desabafo em um prolongado lá maior sem vibrato.


quinta-feira, 19 de outubro de 2017





RETALHOS E REBOTALHOS
         1992

(Parte Dois)

Ricky López é um saxofonista tenor que também ataca de alto. Seu nome de batismo é Ricardo Porfírio Máximo de Souza Lopes, nascido em Oliveira dos Brejinhos, no sertão baiano, soprador de berrante, tocador de bois, mas hoje ele é Ricky López, músico que tenta a vida nos Jardins, o Éden incrustado na Paulicéia, o sax, as luzes, o agitado e frenético “way of life”.
Ricky mora no primeiro andar de um prédio de apartamentos com jardim verde-florido e tudo mais. Na sala, cinzeiro, cigarro, camisa amarrotada e um copo d’água pela metade, o cenário enfeitado por uma pirogravura mostrando a fachada da antiga Faculdade de Medicina e um calendário de parede Pan-Am, mostrando aqueles lugares da Alemanha e da Suíça que estão definitivamente fora do nosso alcance e do nosso bolso e da nossa cultura.
Sapato tombado de lado, meia revirada, mesa de centro com capas de discos de vinil – Lester Young, Cannonball Adderley, Jimmy Giuffre – Ricky López “wants to be on the top”.  
Mas Ricky Porfírio anda arregaçado com os nervos.
Primeiro a adaptação. Afinal, começara tocando na banda da brejeira Oliveira, aprendendo o sopro com o tio Emérito – “olhe aqui, menino, isto é uma palheta, isto é um bocal, o saxofone é mais bonito, tu ficas bem com o instrumento no pescoço!” – na verdade, ele mais parecia um boi de parelha com aqueles arreios todos e o pescoço pendido para baixo, feito bago de uva, mas ele não deixou por menos, soprou e soprou, aprendeu a diferenciar fusas de semi-fusas, e percebeu que existia algo mais do que o bonito, algo muito mais sensual e humano na voz do sax-tenor, nas curvas do sax-tenor, no “sax-so-funny”, no “sex-soul-phony”, com todos os seus tentáculos e todas as suas ventosas, as tentações do vício, as tentações da carne, as tentações da noite, a carta da tia chorosa, da tia Jerusa,  - “volta, filho, vem de volta tocar seu bombardino nas festas da cidade, deixa isso de aventura, chega de tanta querência, tio Emérito está esperando, já está com oitenta mas ainda é forte e parrudo, ainda apronta suas chamuscadas nos forrós da praça, ainda curte a sua cana brava na vida caiana!”.  
Mas Porfírio foi ficando, foi se adaptando à metrópole, passou longe do demônio dos vícios, soprou numa festa de estudantes de direito e caiu no gosto dos presentes – “toca Summertime!!, toca Stardust” – e ele que só sabia soprar as músicas do soldado Ambrósio. Na calada das madrugadas, porém, ele foi se esgueirando por entre as casas musicais, ou então ficava em casa se habituando com o vibrato de Coleman Hawkins ou com a enxurrada de notas de John Coltrane nas noites solitárias ou nos dias de granizo.
Assim nascia Ricky López, artista de jazz, paletó largo, camisa estampada e colorida, sapato branco e dedos ágeis, apertando aqui e ali, acariciando a coluna dorsal do seu sax dourado, cujo brilho refletia todas as cores e todas as caras apesar da fumaça embaçada e da meia obscuridade das lâmpadas cada vez mais “dim”.   
É preciso ser artista para ser artista.
É preciso ter persistência para enfrentar as portas batidas na cara quando à procura de oportunidades, é preciso ter estômago para não vomitar na cara daquele figurão que pensa que sabe tudo e te trata como um idiota, é preciso ter saco para aturar aquele público errado, sempre pedindo para você tocar aquela música que você não conhece ou que conhece e detesta, é preciso ter sorte para descobrir um emprego onde você possa dar asas às emoções das notas musicais, das “suas” notas musicais, bem entendido, e ainda ganhar o miseravelmente necessário para cobrir o mínimo das suas necessidades.
É preciso ser de pedra para aturar o desaforo daquele sujeito cretino que pede para você tocar a música errada na hora errada, e vê-lo, um apanágio da incultura, gargalhar acompanhado pela fêmea mais “cover girl” do pedaço, ela que também deve ser uma burra de penacho para concordar com aquela cara, com aquele jeito, com aquele mau gosto e provavelmente com aquele bafo.
É preciso ser falso para conseguir chegar ao prazer todas as noites tocando exatamente a mesma coisa; é preciso ser mágico para tentar encontrar naquela harmonia alguma nota ou alguma pausa escondida, alguma passagem que não seja rotineira.
É preciso seu um gênio para sair daquele buraco às quatro da manhã, observando a decadência pouco a pouco tomar conta de cada um dos “habitués” de voz pastosa, o garçom colocando três ou quatro doses a mais na conta – “esta é para o santo” – e a sempiterna reclamação que nunca resolve absolutamente nada.
É preciso ser um santo para estudar música oito horas por dia.
É preciso ser Deus para tocar como Charlie Parker.


quarta-feira, 18 de outubro de 2017






Conto escrito para o livro “O Fantasma da FM”, publicado em 1992

RETALHOS E REBOTALHOS

(Parte Um)

Chove granizo na minha sala de visitas.
Janela aberta, verão a pleno, tapete de juta. As pedrinhas saltam como pulgas de cristal e se desfazem magicamente, deixando sua marca molhada sobre as tranças do tapete.
Não é noite ainda, embora ela se aproxime lenta e silenciosamente como uma lagartixa.
O tilintar da chuva sobre o telhado e sobre o vidro superior da janela e sobre todas as coisas – plantas, banco de madeira e lata de lixo – parece uma sinfonia. Tento captar algum som que me lembre o jazz, e o máximo que consigo é ouvir o rufar maluco de Buddy Rich nos pratos e na caixa.
E eu tentando dormitar nesta cama que nem sequer é cama, uma dessas poltronas monta-desmonta comprada à prestação em alguma casa do ramo, como dizem as propagandas e os entendidos.
Sinto uma mão invisível se aproximar do meu pescoço tão devagar como se fosse regulada por um parafuso milimétrico, demorada, mas inexorável, sabendo estarem meus olhos semicerrados e minhas mãos, braços e pernas atados aos lençóis pelas cordas do sono. Alguém já sentiu isso? Essa horrível letargia, a gente parece que está acordado, mas está semidormindo, a gente tem vontade de gritar e de se levantar, mas “a coisa” não deixa – “Largue! Deixe-me gritar!” – como dizia aquele antigo anúncio do Xarope São João.
Esta mão lenta me aterroriza, não por causa da sua cor verde clorofila, nem pelas suas escamas furta-cor, mas pelo seu anel de um pálido redondo, que eu sei tratar-se de um botão que quando apertado vai fazer esta coisa medonha saltar como uma rã e transformar minha garganta em fios dilacerados.
Eu durmo (durmo?!) como se estivesse me revirando em cima de uma grelha rubro incandescente ou branca e quebradiça, feita de gelo.
Durmo? Não é nada agradável este calor nem este frio, nem este sono agitado ou esta mão sem corpo.
Então acordo de supetão, como se estivesse entrando ou saindo de um vórtice, a chuva ainda caindo, Buddy Rich em êxtase, mas os dedos verdes se desfazendo no ar, a garganta felizmente em ordem.

Se não, como eu faria para soprar na noite-madrugada?

segunda-feira, 16 de outubro de 2017






INCOERÊNCIA

Quando acordado finjo estar dormindo
Pois me enclausuro e fico desligado
Faço de conta que não vejo as coisas
Me faço de morto pra não ser notado

Evito desta forma desconfortos
Que infelizmente esta vida nos traz
Ficando alheio a tudo o que me cerca
E fechando os olhos pra encontrar a paz

Quando estou sóbrio só cometo asneiras
Tropeço ideias e sou inconveniente
Só quando o vinho esquenta a minha alma
Eu me transformo em cidadão decente

Quando eu me irrito me abro em sorrisos
Mas o desejo cresce lentamente
Da mão se esgueirar envolvendo o pescoço
Para apertá-lo como um torniquete

Louco não sou, apenas transpareço
Viés que me foi dado um dia por direito
Pra que eu me defendesse de outros mais loucos
Assim sobrevivendo do meu próprio jeito

Janeiro 2011


 

sábado, 14 de outubro de 2017




IMPRESSÕES COLHIDAS NO INFERNO
1988

(Parte Sete – e final)

Viver até que é bom, mas não desta forma, não com esta dúvida. 
Acho que os intestinos me revoltaram a cabeça, pois não sou mais o mesmo de antes das ostras, de antes da quaresma.
Será castigo divino? Desse Deus que vive castigando depois de nos dar o livre arbítrio só para se comprazer, já deve estar tramando algo para as festas de junho, se não são ostras serão pinhões, o resultado será o mesmo.
Relembro coxas novamente, e agora sei por que. É um reflexo de Dante e dos seus poemas eróticos, onde ele projeta a sua incompetência nas laudas manuscritas, falando vontades e pensando Beatriz. Relembro coxas, e parece que o ar da noite está desembotando a minha memória congelada.
Vejo-me diante de um bar bastante agitado.
Bebida, música, risos. Gente cantando ao abrigo e fora do tom, homens e mulheres se acotovelando na melodia. Eu entro na falta de harmonia e vou para junto do balcão ouvindo frases desconexas decoradas por garrafas e latas coloridas.
Peço uma porção de tremoços amanhecidos e uma cerveja preta para espantar a indisposição, de repente me vejo jogado num poço de olhar mais profundo do que todo o espaço e mais negro do que todo o espaço, são olhos que me tragam, e me engolfam, e me tolhem, a voz saindo fraca e pastosa, em direção ao garçom – “traz outro copo e mais uma, bem gelada! – os tremoços no prato e os olhos negros cantados por Dante fulminando a minha retina.
Beatriz, que para Dante não passa de uma angústia reprimida, está ao alcance do meu olhar, eu pressinto, eu sei.
O chão está repleto de pés e o ar está saturado de fumaça, mas mesmo assim sigo avançando milímetro a milímetro em direção aos olhos que me encantam, coleando como uma agulha magnética. A luz intensa não me permite avaliar a quantidade de fantasmas e de diabos que também se acotovelam, mas são eles, sem dúvida, que turvam a minha vista e que murmuram nos meus ouvidos algo assim como o Rondó das Campainhas.
Seguro suas mãos quentes e macias, de onde emana um suave perfume floral e ouço uma voz muito diferente daquele mi sustenido dantesco.
Pergunto seu nome, embora já o adivinhasse – “Beatriz” – ela confirma com os olhos sorridentes.
Ela também bebe, come e fala, humana como os humanos, e o faz de uma forma muito viva e inventiva.
Dante que me perdoe, Deus sabe que eu não tive culpa, estava apenas caminhando pela cidade de tons avermelhados e irrompi num bar como tantos outros, com balcão de mármore, cerveja preta e tremoços. Agora tenho Beatriz me aquecendo a noite pesada, com cerveja, tremoços e coxas. Uma ode.
Pobre Dante.
Pobre Dante das caminhadas sem vontade, dos poemas sem rima, do queixo de estátua. Tome esta pedra, Dante, esta bem pesada, antiga, com visgo e limo, amarre-a no pescoço com uma corda forte e salte para bem dentro de um inferno de águas.






O LADO DO TORCEDOR

Quem viu as comemorações do povo egípcio na cidade do Cairo no último domingo e não está antenado nas coisas do cotidiano deve ter imaginado que eles estavam celebrando uma vitória cívica, como a capitulação de um país inimigo numa guerra ou, mais modestamente, a eleição de um novo presidente.
Na verdade, tratava-se da conquista de uma vaga na Copa do Mundo, da qual o Egito não participava desde 1990 (esta é a terceira vez que eles conseguem tal façanha – a primeira foi em 1934).
Iguais comemorações foram vistas em outros países – entre eles Argentina, Portugal e Islândia (esta pela primeira vez na história) – e aconteceram mesmo naqueles países cujas seleções ainda terão que passar por uma repescagem para assegurar a vaga, caso de Austrália e Honduras.
Participar de uma Copa do Mundo é uma realização para todo país onde se pratica o futebol, e é possivelmente uma das melhores maneiras de um povo exercitar seu patriotismo. Chegar à Copa e passar pela Fase de Grupos é motivo de orgulho nacional. Chegar entre os quatro finalistas é a realização de um sonho quase inatingível. Ganhar o título é a glória máxima.
O Brasil é o único país que esteve presente em todas as edições do torneio a partir de 1930 até hoje, e foi o primeiro a se classificar para a vigésima-primeira, Russia-2018, totalizando então 21 disputas. Em seguida vem a Alemanha, com 19 participações, pois o país não se interessou pela Copa em 1930 e foi banido em 1950 por uma sanção imposta pela Fifa em virtude dos estragos causados na Segunda Guerra Mundial. A Itália, com 18, a Argentina, com 17 e o México, com 16, vêm a seguir.
É interessante notar que mesmo sendo o país mais vitorioso, com 5 títulos conquistados contra 4 da Alemanha, 4 da Itália, 2 da Argentina, 2 do Uruguai e apenas um da França, Inglaterra e Espanha, a seleção brasileira não provoca o mesmo frenesi entre os seus torcedores que estes outros países proporcionam.
Tudo transcorreu conforme o esperado de 1930 até 1966, quando o escrete teve o torcedor ao seu lado dentro das limitações do acesso às notícias que o cidadão tinha naquela época (sem internet nem transmissão direta das emissoras de televisão, a informação era movida a telegrama e telex). Em 1970, porém, com “noventa milhões em ação”, a torcida brasileira ficou dividida entre aqueles que torciam a favor por uma questão de patriotismo e aqueles que torciam contra, por associarem a ideia de que uma seleção vitoriosa traria um bônus de simpatia ao governo militar então no poder.
A partir daí, com maior ou menor incidência, o torcedor brasileiro oscilou entre torcer pela a seleção, torcer contra a seleção e se manter indiferente, preferindo gastar os seus cartuchos com o seu time do coração.
Anos mais tarde, quando começaram a espocar as primeiras suspeitas de que a CBF não agia com a desejada lisura, somou-se ao grupo “do contra” aqueles que pregavam a derrota da seleção como uma solução para que as coisas fossem mudadas na Confederação.
O caldo entornou de vez e os insatisfeitos engrossaram suas fileiras com a sequência de fiascos da seleção, Alemanha-2006 (quinto lugar com Parreira), África do Sul em 2010 (quinto lugar com Dunga) e Brasil-2014 (quarto lugar com Felipão)
É claro que aqueles que torcem sistematicamente contra o sucesso da “canarinho” somam uma minoria que praticamente desaparece quando as vitórias vão se sucedendo, o que nos faz prever uma grande festa popular tomando conta das cidades do país caso a seleção de Tite consiga trazer o ouro de Moscou após a grande final da Copa em 15 de julho de 2018.  

 (Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 14/10/2017)






quinta-feira, 12 de outubro de 2017




IMPRESSÕES COLHIDAS NO INFERNO
1988

(Parte Seis)


Havia trechos nos poemas de Dante que eram bem interessantes, trágicos, mas interessantes, “madrugada de neve na Via Appia” – escrito assim, em português – e “Giovanna com os cabelos desgrenhados suicidando”, embora não diga a quem, o verbo assim em suspenso, um erro de gramática que se transforma numa joia da literatura universal, uma comunicação perfeita, Giovanna suicidando e alguém morrendo. O sapato me aperta o pé esquerdo e eu manco suavemente, dentro do ritmo, como uma barata a quem arrancaram uma perna.  
Na Suécia, a estas horas, haverá casais em desordem, lençóis amarrotados e um sol à meia-noite; no Oriente, canhões em fúria despejando toneladas de morte, destruição e selvagens em conflito.
Na minha cidade, as pessoas passam por mim como se eu fosse invisível, e eu sou mesmo, procurando sabem o que pensam, se é que pensam, provavelmente estão criando monstros terríveis nas suas mentes e cimentando um muro sem limites em torno de si, como um jazigo no infinito.
Monstros... Dante não falou sobre isso, nem escreveu sobre monstros nos seus infernos, pelo menos não esta espécie de monstro, apocalíptico, nascido dos maus pensamentos e alimentado por más intenções, pensamentos com fedor de enxofre a intenções com gosto de vermes, envolvendo todo o planeta com sua aura tinhosa.
É isso que sufoca e oprime, é isso que catalisa e cria pesadelos, é isso que açoita os fantasmas que arrastam suas correntes e produzem o som de um portal de um velho calabouço. É isso que pesa no mundo, que diminui a sua rotação e reduz a sua energia ígnea, como se um bicho enorme estivesse encarapitado na sua crosta.
Isso Gonzaga não lembrou de falar nas suas histórias sobre os problemas giratórios do universo, que a bola flutua num vazio sem fim, que se compacta e se materializa num grão de areia assim que nos distanciarmos trilhões e trilhões e trilhões de séculos-luz.         
Aí então seremos superiores a toda essa estupidez reinante, a toda essa mesquinhez reinante, a toda essa maldade reinante, e então teremos a sensação de que podemos tocar o globo azul com a ponta do dedo médio, ou até chutá-lo para o infinito, antes que ele se converta em uma só massa etérea. Aí então seremos extra-temporais, andaremos fora do espaço e discutiremos com Deus as razões para tanta incongruência.
Discutiremos as razões de tamanha alienação, tamanho preconceito, tantas bombas, a superpopulação, as crises nervosas e estomacais, as ostras estragadas, a morte dos gênios, a longevidade dos canalhas, os gases venenosos, os olhos fundos de Dante, os ouvidos moucos, meus ouvidos loucos e as queixas surdas e sem resposta.
Está tudo tão errado que parece que os errados somos nós, que não fabricamos o universo, e se não conseguirmos melhorar nada com a nossa costumeira e ineficaz cantilena, pelo menos sabemos da nossa covardia, como eu sei da minha; conheço Dante e seus complexos e, finalmente, sei que esta história do paraíso terrestre é uma grande bazófia e que esta noite sem graça vai acabar me transformando em um filósofo mesmo antes de me embriagar.
Na paisagem da cidade sobram a praça arborizada, o verde cinzento, luzes contrastantes, um velho cambaleando com o capote em frangalhos e o chapéu encardido. Patos dormindo no lago.
A morte está dia a dia mais próxima de cada um de nós, todos se dirigindo a uma estação terminal ou a um descarrilamento repentino, com o trem se lançando em disparada. Talvez ela tenha um encontro comigo marcado aqui mesmo, como em Samarra; talvez eu a veja na multidão e ela sorria para mim com a expressão estranha e dentes muito grandes e brancos, dizendo – “ainda não, ainda não é aqui nem hoje, não se preocupe...” – mas sempre por perto, sempre presente, sempre se fazendo lembrar. 
Tem sempre alguém chegando a alguém partindo, apesar dos desvelados cuidados, pois existem pílulas para nascer, pílulas para não nascer, pílulas para salvar e pílulas para matar, basta entrar na drogaria e escolher a droga a dedo, dentro de uma infinidade de nomes e marcas, “made in USA” ou “made in Taiwan” ou fabricada clandestinamente em qualquer bodega.
Uma lata de lixo azul está atada a um poste, uma banca de revistas possui uma imprópria iluminação própria, e um punhado de papéis amarrotados estão amontoados no meio-fio. Só temo abrir o jornal num dia destes e ler o meu nome na página de óbitos, a família agradecendo aos amigos e conhecidos e convidando a população para a missa de sétimo dia.
Para onde vou eu não sei, e talvez por isso vá; o que importa neste momento é fugir de Dante, agora que aparentemente o aparelho digestivo fez as pazes incondicionais com a paciência, agora que a noite se encheu de estrelas, que a lua aparece quase inteira e que a bruma avermelhada começa a tomar conta da cidade.
Incêndio não é, que não estamos em Pompéia, óxido de ferro também não, que não há siderúrgica alguma numa redondeza de mil quilômetros, radiações atômicas talvez, nos corroendo até o abstrato, que vamos morrer de qualquer forma, canonizados alguns, ionizados outros, a companhia de águas e esgotos deixou a rua cheia de trincheiras como se a guerra tivesse acabado de acabar, ou pior, como se estivesse para começar.
Relembro coxas, não sei por que, poderia ser flores ou nuvens, mas são coxas, o pensamento se afasta lubricamente para o longínquo e o corpo caminha como um autômato. Eu não sei para onde vou, mas vou do mesmo jeito.






IMPRESSÕES COLHIDAS NO INFERNO
1988

(Parte Cinco)

Paganini toca no estéreo da sala com o violino de Grumiaux, e com as mãos de Grumiaux, e com o pescoço de Grumiaux, e com os olhos cerrados de Grumiaux. Eu o sinto, eu o vejo, demoníaco, mergulhado na sombra, com a expressão de fauno por detrás da capa negra, trazendo com ele as diabruras de mil diabos.
Dante ainda gesticula enquanto eu me dirijo à janela à procura de olhares mal intencionados e de passos mal caminhados, sentindo nas narinas um odor acre que emana de alguma venta diabólica.
Padre não sou, e se fosse não seria confessor. Louco não sou, e se fosse não seria confidente. Não sou filósofo, nem filantropo. Que faço então na minha sala ouvindo as lamúrias de Dante com remates em mi sustenido de Nicolò –“ho lasciato tutto per uma donnaccia” – emoldurados por imprecações tamanhas que a imagem tranqüila do avô assentada no porta-retrato se recolhe para baixo do móvel, ele que nunca ouviu alguém falar italiano, nem na temporada lírica.
Dante termina se dando um profundo soco no peito, e depois tira do bolso da calça cor de azeitona uns papéis cheios de dobras que desde já sei tratar-se de outros poemas pessimistas falando da sua paixão não correspondida, dos seus desejos contidos e da sua misantropia, para que eu e todos os diabos presentes lêssemos ou ouvíssemos com o cenho carregado.
O séqüito do Grande Imundo cresceu tanto que nem todos os horrores já perpetrados, nem todas as leviandades, nem todas as guerras e abominações são repasto suficiente para essa enorme família das trevas. O que cada alma viva faz é esperar pacientemente pelo fim dos tempos, seja Dante cheio de lágrimas ou Beatriz com os seus olhos negros, seja o rapaz de óculos de aro grosso lendo o existencialismo de Sartre ou a menina-moça de blusa vermelha entretida com a leitura erótica, seja o guarda-livros fazendo as suas estripulias contábeis ou o sodomita fazendo suas mágicas, seja o vigário com seus exorcismos ou a freira com seus tremores ocultos sob a tenda engomada, seja Nils, Britt ou Gonzaga.
Os diabos não mudam, apenas se multiplicam, são a mesma coisa desde o início dos tempos, quando o homem e a mulher foram defenestrados do Éden sem direito a roupa, bagagem ou passaporte, tudo por obra e arte do Onipotente, que os colocou diante de um sério dilema – trabalha ou morre de inanição, pois não mais terás direito aos frutos que antes eram permitidos e graciosamente ofertados nem à proteção automática dos anjos. E mais – mulheres parirão com dor e homens comerão o pão fabricado com o suor das suas frontes, além de outras bondades agnósticas paginadas no Velho Testamento.
Então, vamos trabalhar e vamos parir, voltando ao grande dilema – parir ou parar. Chega! Vamos dar um basta! Chega de gerar mais pessoas para chorar, chega de produzir mais suor para fazer o pão, se já falta a farinha, se já escasseia o trigo!
Os diabos não mudam, o inferno é que está ficando diferente.

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Faz-me falta a solidão, não o simples recolhimento ao nosso canto, mas a solidão completa, bucólica, ermitã. Quase retorno ao gabinete sanitário para lá ficar sentado e meditando o restante do dia; há dois dias eu me sentia muito mal, com o Etna em atividade no lugar da vesícula, mas pelo menos tinha paz, uma paz vazia, mas existente, uma paz sem diabos.     
Dante percebe a situação insustentável e se vai com Paganini e todos os maus espíritos, deixando em seu lugar leveza, cortinas esvoaçando e um silêncio sem violino. Ao ”allegro com fuoco” segue-se a “pastorale”, com as luzes apagadas e sombras nos cantos.

Livre, vou caminhar nas ruas com as duas mãos nos bolsos. Não faz frio, mas os dedos se enrolam e as mãos se fecham vigorosamente. A noite está tão pesada quanto o dia, o cianureto bate nas janelas fechadas e trancadas com cadeados negros cujas chaves negras foram jogadas dentro de um poço.

terça-feira, 10 de outubro de 2017




IMPRESSÕES COLHIDAS NO INFERNO
1988

(Parte Quatro)

Sofrendo todos aqueles percalços intestinos, só me faltava um visitante indesejável para servir-me de epitáfio. E ele chegou, insidioso e inesperado, como a morte.
Macilento, com a expressão de uma estátua descascada, Dante chegou do nada. Ele era um boquirroto, embora às vezes se tornasse um filósofo pensador – “dobbiamo dare tempo al tempo” – dizia entre outras palavras e algumas blasfêmias em italiano cantado como flauta doce, além de alguns refrões em latim, palavras encomendadas como prescrição homeopática, inclusive para as curas e para as incúrias, para as causas e para os efeitos, para os cautos e para os incautos.
Dante se aproximou da minha porta.
Mesmo que eu não o visse, sentiria o odor forte de maresia e ouviria o ranger das suas dobradiças mal lubrificadas.
Dante veio devagar, arrastado, sem vontade, como se estivesse partindo.
Ele sempre deu essa impressão longínqua desde que o conheci, naquele dia do rompimento do seu suposto caso amoroso com Beatriz – “a doce Beatriz”, conforme retratam as suas memórias – horas depois de ela tê-lo abandonado talvez em busca de carinhos menos canhestros e de conversas menos barrocas.
Enlouqueceu? Terá enlouquecido?
Ele hoje passa horas compondo poemas e passa dias inteiros os relendo, e à noite vem mostrá-los para mim. Não passam de poemas desbocados e tresloucados que foram escritos para servir de escapatória, criados com o frenesi de quem nunca disse ou fez qualquer coisa que realmente valesse e pena, declamando em mi sustenido as suas peripécias, com a força e a ênfase da fantasia.
Dante não passa de um sadomasoquista intelectual em mi sustenido, um poeta “gauche” em mi sustenido fora de tom, um tipo que se suicida aos poucos e que algum dia vai se suicidar completamente, de quem Beatriz fugiu certa madrugada para saciar os sentidos inexperientes.
Eu não conhecera Beatriz, e isso ajudava nos poemas de Dante, que a moldava ao seu modo – ao menos ele podia desfilar os seus lamentos com as mentiras e as meias-verdades que lhe viessem à mente, sem enrubescer ao me olhar olhos nos olhos. Eu não passo de um mero ouvinte, a cabeça assentindo enquanto ele brada como uma prima-dona de Bellini.
Sem outra alternativa, eu ouço, embora não consiga entendê-lo.
Participar os meus banquetes de ostras ele não participa, ouvir Gonzaga falar das coisas do mundo ele nunca ouviu, provém da Itália, e como tal nunca viu a Suécia a não ser nas cartografias romanas, nunca dormiu com Beatriz nem ficou acordado ao lado dela, nunca trocou as toalhas xadrez das cantinas pelo balcão branco de mármore dos bares alternativos, e ainda assim se diz um intelectual.   
Ele está arrebatado, os braços se movimentando como se movidos por um cordão invisível, o rosto muito pálido e os maxilares crispados quando se cala. Não é uma donzela chorosa, apenas um homem decepcionado, um homem deslocado no tempo, um Dante da Galiléia.
Dante – a quem o cão fiel decepou uma das mãos numa mordida de satisfação, a quem eu volto minha atenção mesmo ainda sentindo na boca e no nariz um hálito fortemente digestivo.      
No seu devaneio, Dante saiu por aí fuçando latas de lixo e cavoucando bueiros entupidos onde Beatriz poderia estar escondida. Saiu por aí esticando o pescoço para dentro de bares suspeitos onde Beatriz poderia estar escondida. Saiu por aí invadindo as igrejas silenciosas e os mercados barulhentos onde Beatriz poderia estar escondida. Mas jamais olhou para o espelho e viu seus próprios olhos opacos, onde Beatriz estava realmente escondida, diafanamente nua, mergulhada na esclerótica, fantasiando a sua visão.
Saiu às tontas pela cidade, fazendo parte do mundo estático e civilizado dos postes e das paredes envidraçadas, das vitrines e dos cartazes, das esquinas adormecidas e dos parques abandonados, e como nunca conseguiu sair de si mesmo, acabou vindo à minha casa.
Será esta a casa do Cão?


segunda-feira, 9 de outubro de 2017





IMPRESSÕES COLHIDAS NO INFERNO
1988

(Parte Três)

O ventilador ligado à altura da minha cabeça zune como se estivesse varrendo uma cascata de monstros milimétricos com asas de mosca. Ou será minha cabeça que zune, enquanto o ventilador fica parado, apenas aparentemente girando, as pás em repouso?
Mesmo se estiver parado, porém, nada justifica esta opressão nem este sufoco, só se eu estiver com as narinas obliteradas por cunhas invisíveis que empurram o ar de volta para o fole dos pulmões, envenenando o sangue e promovendo um furacão interno, criando então o ruído incessante que cascateia na minha cabeça.
Parir ou parar – eis um dos dramas do mundo atual. Ouçam esse vozerio que se levanta nas ruas, esta superpopulação barulhenta que zune em uníssono com o ventilador e com a minha caixa craniana com todos os seus roletes e engrenagens.
Quase não vim trabalhar hoje.
O despertador tinia sem necessidade, pois eu não dormira nem um sonho durante toda a noite de azia, rolando nos lençóis como um peixe arrancado para fora da água, mas por via das dúvidas achei melhor arriscar um desastre intestinal dentro do ônibus do que perder o dia assalariado por falta de uma justificativa médica oficial – “ora, isto não é nada, tome um sal de frutas!” – com o paternal sorriso clínico – “isto não é nada porque não é o doutor que sente o que eu sinto, não teve a noite insone nem tem as dobras assadas”.
Enfim, cheguei, passando por bafos e perfumes, por ruas apinhadas de homens-formiga com o sentido e a direção matematicamente traçados, como um robô. Passei pelos jornais da manhã, pelas revistas da semana, pelos fascículos do mês, pelos crimes de ontem e pelos criminosos de hoje.
O ventilador zoa, o telefone toca, os teclados crepitam letras e símbolos, o calendário já foi devidamente mudado e a mesa devidamente espanada. Muito bem! Hoje é um novo dia, cheio de esperanças e afinal de decepções. A janela está permanentemente fechada e lá fora o céu turvou-se no turvo da manhã fria.
Viana tosse, Maia está com cara de sono, Roberto ri como um freio de carroça e Gonzaga espirra escandalosamente. O chefe, Flávio, reprova. Lá fora, a garoa fina se mescla com a poluição cinzenta na fantasmagórica massa de ar que recorta prédios e torres em silhuetas.
Trabalhar deste jeito é como apanhar um ônibus circular para descer no ponto anterior, mesmo sabendo que o trajeto vai demorar dois dias e duas noites, repletos de chuvas, sóis e estrelas, sem toalete a bordo para os usos diários. Eu sei que tudo é uma questão de referencial, de ponto de origem, de relatividade e de outros conceitos metafísicos, mas que não faz sentido não faz.
Ainda outro dia o tempo estava desta forma, lúgubre, lento e sonolento, e Gonzaga estava contando suas histórias por detrás dos óculos de lentes verdes – que a terra rola e gira e se mexe toda como uma mulherinha na cama, e assim como a mulher e como a lua, também tem as suas estações e as suas fases. Isso a gente compreende muito bem, só que a terra hoje em dia parece estar toda mergulhada em um tanque saturado de gás cianídrico, poluindo a vida desde o berço até o túmulo, desde a intra-uterina até a extraterrena, forçando o sol a se esconder numa outra galáxia para não morrer sem luz, tossindo e cuspindo pedaços de inferno.
Há corpos luminosos e corpos iluminados” dizia o meu professor de Física, mas com certeza se esquecia pos pôsteres de tinta fosforescente e da sinalização das estradas, e do vermelho que avança no escuro, criando assim uma espécie de corpo intermediário, mais do que luminescente.
Fiat lux” – mas que depois disso o sol fugiu para além das escarpas algodoadas de neve eu já não tenho mais dúvida, pois de tempos para cá a única luz que ilumina a minha carcaça é a luz das centenas de “watts” dependurados firmemente os postes de iluminação, na minha trilha de noctívago.  
Termina o dia. Agora o sol se escondeu mesmo, só na Suécia onde, dizem, ele brilha também nas noites de verão, o amor é livre e todos têm consciência apurada, cada qual dono da sua – “nosce te ipsum” – e não existem Dantes para chorar de amor, nem semi-virgens coradas, nem moluscos esculhambados por falta de uso, mas somente Nils, Olav, Gustav, algumas Britts e Birgittas e, finalmente, Estocolmo.