domingo, 10 de dezembro de 2017





QUEM É QUEM NO GRUPO DO BRASIL

(artigo publicado no O Imparcial de 10/12/2018)


As bolinhas, que o folclore diz podem ser quentes ou geladas, marcaram o destino da seleção brasileira na Copa do Mundo que se aproxima, e o sorteio nos reservou como adversários a Suíça, Costa Rica e a Sérvia.
Como diz o popular, sorteio é sorteio, mas acima de tudo numa Copa do Mundo ninguém pode escolher adversários. As pedreiras vão aparecer, cedo ou tarde.
Nossos adversários na primeira fase não tem pretensões ao título, mas se esforçarão para fazer uma boa figura. Sair classificado num grupo que tem a força do Brasil será para qualquer dos três países um motivo de comemoração.
Os analistas se dividem ao comentar a dureza ou as facilidades que o Brasil encontrará para se livrar dos três primeiros adversários e avançar em direção às oitavas de final, com um afunilamento seletivo que poderá fazer com que cruzemos na sequência com Alemanha ou Espanha.
Considerando o nível técnico e o atual ranking das seleções, o Brasil não tem o que temer - estamos em 2º lugar, a Suíça está na 8ª posição, Costa Rica é a 26ª colocada e a Sérvia ocupa o 37º posto, dentro de um universo de 206 países.
O problema está na forma de jogar dos nossos adversários, que têm em conta que o Brasil fatalmente passará para a outra fase e brigam entre si pelo segundo lugar no grupo. Assim espera-se que os nossos três adversários joguem totalmente retrancados contra nós para colher um empate ou mesmo perder de pouco a fim de decidir a segunda vaga entre si, num jogo aberto.
A história é francamente favorável às cores brasileiras no que diz respeito aos nossos concorrentes.
Brasil e Suíça já se enfrentaram 8 vezes, sendo a primeira um empate de 2x2 no Mundial de 1950, jogando no Pacaembu. As outras sete partidas foram jogos amistosos, com cinco delas disputadas na Suíça e apenas duas no Brasil - em Cuiabá e no Recife. No total o Brasil venceu três vezes, a Suíça venceu duas e aconteceram três empates, mas os resultados foram todos muito magros, jamais passando de dois gols para o time vencedor.
A Suíça já participou de dez Copas do Mundo, e o seu melhor desempenho foi em 1934 e 1938, onde foi eliminada nas quartas de final, o que não significa muito, pois a quantidade de disputantes era menor e o regulamento diferente.
A principal característica dos suíços é o seu forte sistema defensivo, chamado de "catenaccio", palavra italiana que significa "parafuso", que é a forma como os seus jogadores "apertam" os seus adversários. Seus principais jogadores são o lateral direito Stephan Lichtsteiner (que atua pela Juventus-Itália), o meiocampista Granit Xhaka (Arsenal-Inglaterra) e os meias Xherdan Shakiri (Stoke City-Inglaterra) e Admir Mehmedi (Bayer Leverkusen-Alemanha).  
O retrospecto brasileiro contra Costa Rica é avassalador: em  10 jogos realizados, o Brasil venceu 9  e sofreu apenas uma derrota, 3x0 num amistoso disputado em 1960 em San José. Os costarriquenhos já nos enfrentaram em duas Copas do Mundo (1990 e 2002), ocasiões em que o Brasil venceu por 1x0 e 5x2 respectivamente, e outras duas vezes na Copa América (1997 e 2004), com duas goleadas brasileiras, 5x0 e 4x1. No total, foram 32 gols marcados pelo Brasil contra apenas 9 de Costa Rica.
A Costa Rica esteve presente em apenas quatro Copas do Mundo (1990, 2002, 2006 e 2014) e sua melhor classificação foi um 7º lugar na Copa de 2014. Seus dois jogadores mais badalados são o atacante Brian Ruiz (que joga no Sporting-Portugal) e o goleiro Keylor Navas (Real Madrid).  
A Sérvia é um adversário com o qual não temos história, pois  houve apenas uma partida disputada entre os dois países, em 2014, quando o Brasil venceu por 1x0 um amistoso em São Paulo. A antiga Iugoslávia, da qual a Sérvia fazia parte junto com Bósnia e Herzegovina, Croácia, Eslovênia, Macedônia e Montenegro, sempre produziu um futebol de respeito, técnico e aguerrido, e sempre foi um adversário difícil de ser batido. Com a fragmentação do país em diversas repúblicas independentes, o seu futebol ficou enfraquecido.
A Sérvia participou da Copa do Mundo de 2010 e conseguiu uma vitória memorável contra a Alemanha.  Mesmo assim, foi eliminada na fase de grupos por ter sido derrotada por Gana e pela Austrália. É uma equipe homogênea, que tem como destaque o ala Aleksandar Kolarov (Roma-Itália) e o meia Nemanja Matic, que atua pelo Manchester United-Inglaterra.     


         

sábado, 9 de dezembro de 2017





I REMEMBER KAFKA

Conto publicado no livro “O Fantasma da FM” em 1992.

(Parte1)

Estou mudando de residência.
A reentrância do tubo de esgoto onde eu mantinha o meu aprazível logradouro passou a não mais me satisfazer depois que começaram a usar um produto detergente à base de amoníaco que me revolta as vísceras e me afugenta e me atordoa os sentidos a cada banho tomado.
Na verdade, somos seres indefesos, sempre à mercê dos homens que insistem em nos desbaratar à sua maneira, uma delas é degradar a natureza com seus agentes químicos e desengordurantes, atacando até as paredes dos sumidouros e também a camada de ozônio lá no alto, abrindo um buraco para que algum dia o sol derrame toda a sua irradiação sobre a crosta do planeta, aniquilando com a vegetação, fervendo a água dos mares e cozinhando os peixes e crustáceos numa imensa caldeirada, derretendo cidades e assando vivos bilhões de seres humanos além de transformar outros em mutantes radioativos.
Só nós, seres indefesos é que tentaremos sobreviver nos aprofundando nas fendas e nas cavernas como temos feito nos últimos milênios.
Mas mesmo assim estou mudando de residência.
Achei um armário bem confortável de madeira onde guardam cereais e farinha e lá não descobri vestígio algum de veneno. Meu avô me ensinou que nós sempre devemos desconfiar de certas guloseimas que nos parecem saudáveis, mas que escondem bioletrinas, butóxicos de piperonitas e octibiciclohepteno – dicarboximidos na aparência de bolachas de chocolate ou gelatina em pó.
Mas o avô vem de outra época, hoje todos nós sabemos que ninguém é suficientemente imbecil para colocar estes tipos de tóxico perto da própria comida, dentro de um armário cheio de maisena, arroz, orégano e canela em pó, embora eu saiba perfeitamente que alguns deles são suficientemente imbecis para ingerir o próprio tóxico em orgias desenfreadas e proibidas por lei (mas este tipo de tóxico eles não guardam em armários de cozinha ou, se assim o fazem, disfarçam muito bem para evitar o escândalo – isto é cocaína ou araruta?), com a polícia farejando cada fresta de porta e cada salto de sapato e cada fundo de gaveta à procura de evidências.
Aqui neste cantinho eu me sinto confortável.
Aqui tem o agradável calor que provém do fogão a gás bem à minha esquerda e as migalhas derramadas me servem de cama, igual àquele gordo de camiseta que assiste televisão esparramado na poltrona babando na sua lata de cerveja, apanhando punhados de amendoins com a mão cabeluda e derramando sal e restos por toda a região circunferencial ocupada por suas protuberâncias.  
Nas noites de verão me arrisco a dar um passeio pelo jardim para encontrar alguns amigos, discorrer sobre os perigos desta vida e curtir o verde entre vagalumes e besouros e aquela flor perfumada que dizem se chamar “dama da noite” e que nos faz ter a impressão de que este mundo é realmente uma maravilha.
Às vezes faço minhas incursões pelos intestinos da casa – tudo tão quente, abafado e escuro – como um engenheiro inspecionando um abrigo antiaéreo, é por aqui ou mais embaixo que começa a se reunir o nosso exército que algum dia ainda dominará o mundo, não importa a guerra química de que somos vítimas nem a discriminação ou o comportamento que as pessoas têm a nosso respeito.
É verdade que também temos nossos inimigos, outro dia eu vi uma companheira acossada por um turbilhão de formigas gigantes e nada pude fazer para defendê-la, para intimidar as malditas ou mesmo para minorar o seu sofrimento. A cada ferroada um tremor de dor e de pavor, morrer sim, que todos somos mortais, mas não devorado vivo, sem clemência ou perdão.
Mas a natureza que nos fez odiados e repelidos foi a mesma que nos fez indefesos e inofensivos. Não atacamos, não mordemos, não mutilamos nem devastamos o ecossistema, e talvez por isso sejamos perseguidos como seres danados.
Na busca constante pela verdade e na troca de experiências com a vida e com os outros seres vivos a gente a gente aprende que a discriminação que nos aflige não atinge somente a nós, mas a milhões de outros que são caçados e esmigalhados como se com isso fosse possível destruir toda a nossa espécie de invertebrados.         
Esses homens são tolos.
Nossa família é de certa forma interminável, pois embora mortais na individualidade somos imortais na essência, crescemos e nos multiplicamos progressivamente e acredito até que tenhamos uma certa semelhança com Deus, por isso Ele não permite que sejamos dizimados até o extermínio final.

SEGUE

 


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017





TRISTE DESPEDIDA

Faz desta canção o meu lamento
Que é meu modo de chorar
E das minhas queixas faz lembrança
Que é a maneira de ficar
Faz desta saudade um barracão
Faz de mim a solidão
Vive dentro dela, ausente
Fica no teu tempo e no teu mundo, assim
Mas sai de mim, do meu viver e ser

Leva nesta triste despedida
Meu adeus e esta calma manhã
Mesmo que a expressão finja sorrir
Nesta hora de partir
Nos teus olhos vejo mágoa
Fica no teu tempo, e eu no meu mundo, assim
Que dói em mim, mas o que eu vou fazer?

(Letra feita para uma melodia composta por Renato Winkler)



quinta-feira, 7 de dezembro de 2017







SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 09/12/2016
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106,9Mhz
São Luís-MA

A ARTE DA BOSSA JAZZ
NOVAS ESTRUTURAS - LUIZ CARLOS VINHAS  /  EMBALO - TENÓRIO JR

A revolução estética da bossa nova não teve apenas repercussão na poesia e na música de banquinho e violão. Sua afinidade com o jazz e sua linha harmônica dissonante logo fez crescer um grande número de músicos - boa parte deles pianistas - que começaram a instrumentalizar o movimento. Entre mais de uma dezena de trios, onde se destacam Zimbo Trio, Tamba Trio, Jongo Trio, Sambalanço Trio, Bossa Jazz Trio e outros, que se transformaram em quartetos, quintetos e outros "etos" iremos destacar dois em especial para entreter os ouvintes de jazz nesta sexta-feira. Trata-se dos grupos liderados por Luiz Carlos Vinhas e por Tenório Jr., em dois álbuns antológicos (Novas Estruturas e Embalo, respectivamente), ambos gravados em 1964. Aqui, a bossa nova é mostrada com toda a sua intensidade, com arranjos belíssimos que se perderam no tempo, dando espaço infelizmente a uma algaravia de sons que tomaram conta da música contemporânea. 
     
Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini






O MURO

(Parte Quatro)

(Conto escrito para o livro “À noite, todos os gatos”, publicado em 1998)


Mas, como dizem, nesta vida infelizmente não existe riso sem lágrima e não há ponto sem nó.
A felicidade é passageira, chega o dia em que o castelo de cartas desaba e as cartas são varridas como que por um vendaval.
            Veio esse belo dia, que na verdade não foi um belo dia, mas por sinal um dia muito horroroso, desses já nascidos com maus presságios, e a minha casa foi vendida.
Ouvi o dono conversar com um homem muito alto, de gravata e óculos, um engenheiro de cabelos amarelados e sorriso desanimado, dizendo que ele iria se mudar para um outro bairro no outro lado da cidade onde comprara um apartamento que ficava próximo à escola da sua filha e do seu novo escritório e, além do conforto e da segurança – “você sabe, hoje em dia está um perigo morar numa casa, ainda mais numa rua sossegada como esta” – ganharia um bom dinheiro com a venda da casa – a minha casa! – que poderia ser transformada em um excelente ponto comercial.
Tudo foi combinado a contento e dali a duas semanas, numa magnífica manhã de sol, enquanto eu e Celeste trocávamos olhares concretos, foi feita a mudança dos móveis e utensílios, carregaram com os bancos que estavam no jardim e com as cortinas que cobriam os janelões do alpendre, a chave da casa foi entregue ao engenheiro e nós ficamos de repente abandonados, eu, a casa e o jardim, o bougainville triste e desconfiado com a súbita falta de cuidados, o portão amarrado com correntes e as correntes trancadas por um cadeado. 
           Não era todo mal sentir esta quietude, o pior ainda estava por vir.
Eu continuava amigo dos passarinhos, dos insetos, do guarda-noturno e até do casal de namorados, continuava a flertar com a minha estática Celeste e a olhar os fatos do cotidiano, apenas a minha placa de bronze perdeu o viço.


 Fomos assim levando a vida como manda a eternidade até que certo dia tenebroso o caminhão da Construtora Elipse apareceu novamente, como um pesadelo, com seus homens e suas ferramentas macabras, e o engenheiro de cabelo amarelo dando as ordens.
           O jardim será transformado em estacionamento – vamos concretar o piso – e a varanda será envidraçada com vidro fumê para servir de recepção. Acho que dá para manter o bougainville para enfeitar a fachada, mas o muro será derrubado e substituído por uma corrente para fechar o estacionamento e evitar estranhos.
O muro será derrubado??!!
           Passo alguns dias em estado de pânico e prostração e procuro tranquilizar a parede celeste enquanto vejo passar pelo meu portão uma montanha de areia, alguns sacos de cimento, madeira e ferro liso.
           Vejo os homens da Construtora Elipse, da construtora apocalipse, se chegando com seus instrumentos de tortura e demolição, marretas, pás e carrinhos de mão e, depois da primeira pancada aos poucos vou me transformando num monte de entulhos.
           A parece azul, minha adorável Celeste, permanece impassível e distante, talvez nem sofra calada, e os pombos, na falta do meu cocuruto vão arrulhar no topo das árvores ao redor.
           O meu portão e o meu galardão de bronze, número trinta e quatro, são despejados sobre a carroceria do caminhão e me dão um mudo adeus.
           De repente, não mais existo e vou parar de pensar.
            Para Celeste, deixo como herança um mundo desmazelado.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017








INTERESTING FIGURES ABOUT THE ENGLISH LANGUAGE


(World Population in 2017 = +/- 7,6 billion)

500 MILLION SPEAKERS ARE NATIVE (USA, United Kingdom, Canada, Australia, Ireland and New Zealand)

TWO BILLION SPEAKERS ARE NONNATIVE (use English as a second language in 55 countries – Jamaica, Nigeria, South Africa, etc.) - and 27 State Entities (Puerto Rico, Hong Kong, etc.)

TWO BILLION PEOPLE ARE ENGLISH USERS (in many places excluding natives and second language speakers)

EIGHT HUNDRED MILLION PEOPLE SPEAK ENGLISH  IN 10 COUNTRIES, IN THIS ORDER - US, India, Pakistan, Nigeria, Philippines, UK, Germany, Bangladesh, Egypt and Canada.  

(it means that more than 50% of the planet speaks or makes use of English)

AT LOCAL PLACES (US, UK, ETC.) WE FIND FEW, BUT RELEVANT MISPRONUNCIATION (EX. Thank you, New York, library, nice, yesterday, etc. )

AT INTERNATIONAL PLACES (FRANCE, BRAZIL, ETC.) WE FIND MORE MISPRONUNCIATION (EX. Restaurant, mirror, etc.)

76% OF THE PEOPLE HAVE VISUAL CONTACT WITH THE IDIOM (Signs, billboards, subtitles, computer language, etc.)

24 % OF THE PEOPLE HAVE AUDIO CONTACT WITH THE IDIOM (Music, cable TV, etc.)

80% OF THE NET INFORMATION AND NAVIGATION IS IN ENGLISH

56% OF SITES ARE WRITTEN IN ENGLISH

60% OF THE WORLD BUSINESS AND TRADE IN DONE IN ENGLISH (AGAINST 12% OF SPANISH AND ONLY 28 % IN LOCAL LANGUAGES)

TEENS LISTEN TO ENGLISH 4/6 HOURS A DAY








O MURO

(Parte Três)

(Conto escrito para o livro “À noite, todos os gatos”, publicado em 1998)

Este bronze trinta e quatro foi realmente um marco na minha vida.
Eu ficava todo orgulhoso cada vez que a empregada da casa perdia alguns minutos passando polidor na minha placa, com a esperança renovada de que eles decidissem pintar-me de novo, pra valer, como manda o figurino das lojas de tintas.
E a coisa surgiu naturalmente, como acontecem as mais simples coisas da vida.
Veio a festa de aniversário da menina, e com os preparativos da festa uma discussão bem aqui na minha frente, a dona dizia que o muro deveria ser pintado para ficar bonito – eu agradeci sorrindo entre os tijolos – e o dono fazendo como sempre os cálculos mentais do custo da festa de quinze anos pensando em optar por um outro retoque à cal hidratada, cor de rosa ainda por cima, vejam só que despautério! Felizmente acabou prevalecendo, como sempre prevalece nestes casos, a opinião da matrona, que se encarregou de chamar um pintor de verdade com todo o seu aparato – lixa, escova, espátula, e até um desnecessário andaime – para uma recuperação completa da minha cútis, cobrindo as fendas, nivelando a argamassa e usando material de primeiríssima para meu embelezamento final em branco.
Foi um período de glória.
A festa foi sobretudo um sucesso, a casa regurgitava de gente bonita e bem cheirosa que, de curiosa, se colocou fora do alcance dos galhos intrometidos do bougainville do jardim e assoprou as nuvens de algodão para alhures.
Mas, como dizem, festa acabada, músicos a pé,
Voltamos ao dia-a-dia de fastio mantendo porém a minha brancura imaculada, os vadios foram pintar em outra freguesia para a alegria de toda a minha família e eu me sentia um pouco mais seguro.
Certo dia o terreno baldio à minha frente começou a ser desmatado e plainado, os ratos e as baratas fugiram pelos bueiros em direção a algum outro terreno das cercanias onde pudessem ser brindados com restos de comida, caixas de papelão, pneus rasgados e excrementos, e chegaram então alguns homens com um caminhão cheio de materiais de construção – Construtora Elipse, estava escrito – e, maravilha das maravilhas, começaram a construir a mais graciosa parede que eu tive a oportunidade de ver, na verdade a primeira, mas divinamente bela, com ornatos de pedra e um pequeno gradil harmoniosamente desenhado com motivos bizantinos, e finalmente pintaram-na de azul celeste.
Agora sim eu tinha a quem admirar e a quem mostrar todo o meu garbo nos dias de sol, nas tardes de chuva, nas noites de céu estrelado, no inverno cheio de neblina ou no verão cheio de insetos soltando as asas.
-0-
E assim nasceu um grande amor.
Murilo e Celeste de repente se entreolhando, depois se olhando com firmeza, dia e noite sem parar, buscando – quem sabe – perpetuar numa eternidade de esfinge essa admiração mútua, mesmo se com o passar do tempo o azul fosse desbotando, mesmo se o branco voltasse a ser riscado com maldade e ignorância, mesmo que o arbusto crescesse e viesse abrigar não apenas um, mas diversos sacos de lixo a seus pés.
Eu cá enfeitado de bougainville à minha destra, Celeste emoldurada pelos ornamentos decorativos, a a minha placa 34 reluzindo o reluzir dos metais nobres, como se fosse uma medalha de iuro.
Até parece que os passarinhos em revoada não cantavam sobre nós, mas para nós.

SEGUE

   

terça-feira, 5 de dezembro de 2017






SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 07/10/2016
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106,9 Mhz
São Luís-MA

 DOIS POR DOIS / O GRANDE AMOR

O Sexta Jazz desta semana vai apresentar dois momentos diferentes da nova música popular brasileira, que mistura o molho do samba e do frevo com a finesse da música clássica, tudo contando com um forte tempero contemporâneo. A primeira parte irá focar a obra musical dos compositores paulistas Luiz Millan e Moacyr Zwarg, trazida a público através do álbum "Dois por Dois", na interpretação do pianista popular-erudito Michel Freidenson e do flautista e saxofonista Teco Cardoso. Pela sua orientação erudita, a música apresentada por esses dois virtuoses "valoriza a tradição do século passado, mas aponta para o futuro", nas palavras dos próprios compositores.  A segunda parte do programa mostra o trio do trompetista suíço Peter Schärli executando clássicos da música brasileira de Baden Powell, Vinícius de Moraes e Ary Barroso, entre outros, no álbum chamado "O Grande Amor". A parte vocal fica por conta de Ithamara Koorax, que saiu de Niterói para ganhar o mundo, sendo apontada pelos críticos especializados com uma das maiores cantoras de jazz - ou não-jazz - do mundo.
   
Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017






Nota: Este artigo foi escrito para ser publicado em O Imparcial um dia antes da realização do sorteio em Moscou. 


SORTEIO DA COPA DO MUNDO

Na sexta-feira,dia primeiro de dezembro, foi realizado em Moscou o sorteio para o chaveamento da Copa do Mundo 2018. O Brasil ficou sabendo quais são as seleções que iremos enfrentar na primeira fase da Copa do Mundo da Rússia e hoje, portanto, ao ler este artigo, o leitor já conhece quais serão os nossos primeiros adversários.
Problemas com o fechamento da matéria me obrigaram a escrever antes da divulgação feita pela Fifa e a pular este capítulo, que será oportunamente melhor analisado com vistas às nossas pretensões e possibilidades de passar para as oitavas de final.
Enquanto isso, vamos fazer uma retrospectiva de como o Brasil se comportou na fase inicial em todas as cinco Copas que conquistou.
Em 1958, na gelada Suécia, o Brasil entrou como o mais promissor dos sul-americanos, mas perdia em favoritismo para a Alemanha Ocidental, que mantinha a sua base de 1954, quando ganhou o título, para a Hungria, derrotada na final de 1954, mas ainda considerada uma grande força,  para a União Soviética, cujos jogadores, amadores, haviam ganho o ouro olímpico em 1956 e para a Suécia, dona da casa. A Inglaterra sofrera um baque terrível com o acidente aéreo que havia vitimado alguns dos seus titulares, todos jogadores do Manchester United, e teve que refazer seu planejamento, incluindo alguns veteranos que haviam disputado o Mundial de 1950, no Brasil. Foram 16 equipes disputantes (12 da Europa e 4 das Américas). Os ingleses se enfraqueceram tecnica e psicologicamente, e ficaram pelo meio do caminho.
O grupo do Brasil era muito forte, contando com a União Soviética, a Inglaterra e a Áustria, mas terminamos a fase em primeiro lugar com 5 pontos em três jogos, junto com os soviéticos (naquele tempo a vitória contava apenas dois pontos).
Em 1962, no Chile, o Brasil entrou como um dos favoritos, ajudado pela mística de Pelé. O Uruguai, outro favorito por disputar a Copa praticamente em casa, decepcionou e foi despachado na primeira fase.  Os outros favoritos  - União Soviética, Alemanha Ocidental, Hungria e Chile (colocado nesta condição por ser o país-sede), seguiram em frente. O grupo do Brasil era novamente muito forte, pois contava com a Tchecoslováquia (contra a qual a gente disputaria a partida final), a Espanha  e o México. Pelé acabou se machucando na segunda partida e ficou fora do torneio. O Brasil terminou a fase novamente em primeiro, com 5 pontos em três jogos, finalizando com uma vitória sobre a Espanha numa partida em que os espanhóis reclamaram muito da arbitragem.
Em 1970, no México escaldante, com um regulamento diferente, onde as substituições passaram a ser possíveis e onde os cartões começaram a ser aplicados, o Brasil mais uma vez entrava como um dos favoritos e teve no seu grupo três países europeus - Inglaterra, Romênia e Tchecoslováquia. Terminamos a fase em primeiro lugar com três vitórias em três jogos, e seguimos em frente ao lado dos outros favoritos União Soviética,  Itália, Alemanha Ocidental e Inglaterra, para fazermos a final contra os italianos. A Copa marcou a ausência de países importantes naquele momento - Portugal, França, Hungria, Argentina e Espanha - que não conseguiram se classificar.
Em 1994, em pleno verão nos Estados Unidos, o Brasil voltava a se encontrar com o título após 24 anos de jejum. Foi uma Copa exaustiva devido às distâncias entre as sedes, o que provocou grandes viagens, e devido ao calor reinante durante os jogos disputados ao meio dia para fazer face às transmissões de TV em horários adequados para o resto do mundo. Apesar de o futebol ser um esporte de importância secundária nos Estados Unidos, esta Copa bateu todos os recordes de público, número mantido até os dias de hoje. O Brasil terminou em primeiro lugar com 7 pontos em três jogos, num grupo que tinha Suécia, Rússia e Camarões e seguiu rumo ao título jogando um futebol pragmático, forte na defesa e incisivo no ataque formado por Bebeto e Romário. A seleção inaugurava a "Era Dunga", onde abdicava de um futebol esteticamente bonito para se fixar no "futebol de resultados".
Em 2002 a Copa foi pela primeira (e única) vez disputada em dois países - Japão e Coréia do Sul. O Brasil disputou a primeira fase na Coréia, enfrentando Turquia, Costa Rica e China, que provavelmente se constituiu no grupo mais fraco que a seleção brasileira teve numa primeira fase  em todas as cinco Copas que venceu. Sem praticar um futebol envolvente, o Brasil passou por alguns sustos por esta etapa mas terminou com três vitórias em três jogos. Os favoritos - França, Argentina, Itália e Portugal - foram pouco a pouco decepcionando e sendo eliminados, ficando para a final duas seleções que chegaram na Ásia relativamente desacreditadas - Brasil e Alemanha. O Brasil tinha Rivaldo e Ronaldo, e eles fizeram a diferença.

         

domingo, 3 de dezembro de 2017





O MURO

(Parte Dois)

(Conto escrito para o livro “À noite, todos os gatos”, publicado em 1998)

Durante um certo tempo passei a não me importar com mais nada, a vida perdeu o sentido e eu me sentia esquisito, como uma muralha de um castelo mal-assombrado, como um paredão de fuzilamento.
Nem aquele casal de pombos arrulhando feliz e fazendo cocô na minha cabeça, nem o arisco gato do vizinho escalando meu dorso com suas unhas afiadas, nem a barriga fria da lagartixa muito séria à cata das moscas que excursionavam risonhas e eternamente satisfeitas, esfregando as mãos em delírio, nem a chuva que umedece meu âmago de argila, desbota a minha maquiagem e descasca a minha pele já trincada pela inclemência do sol, nada me faz esquecer as pinceladas mal feitas a brocha com cal hidratada de segunda qualidade que, apesar dos disfarces, deixava transparecer um pouco os hieróglifos traçados pelos dois mequetrefes.
Assim passei um bom tempo apenas pensando no futuro incerto e observando a vida se desenrolar ao meu redor.
Nas noites de terça-feira, quando a lua se escondia por detrás das nuvens e o guarda-noturno trilava o seu apito na esquina, aparecia aquele casal de namorados, a moça trabalhava na casa que ficava ao lado do terreno baldio que ficava bem à minha frente servindo de paisagem para o arbusto que vigiava o saco de lixo e o rapaz sabe-se lá onde morava e de onde vinha, e se punham a esfregar no meu peito bem ao lado de uma incipiente rachadura que ameaçava virar fenda, até que o trilar do guarda chegasse cada vez mais perto, a lua se desnudasse esplendorosa ou a vizinha ao terreno baldio acendesse as luzes do terraço e então os dois se recompunham e ficavam disfarçando por alguns instantes, aguardando o guarda passar – “boa noite!” – e fosse trilar o seu apito na outra esquina, a lua a cobrir os seus olhos atrevidos com o galho do bougainville ou por detrás de uma outra nuvem de algodão e a luz do terraço de novo morrer para se engalfinharem novamente como dois lutadores furiosos.
Depois de tudo terminado, lá se iam eles de mãos dadas como dois inocentes sem saber que eu estou aqui, rijo e frio como me convém, mas anotando detalhe por detalhe no meu cérebro inorgânico.
De madrugada, quando a lua aparece novamente diáfana e despida de nuvens, vejo ratos correndo pelo terreno baldio como se estivessem num play-ground, ouço pequenos guinchados e alguma luta por um naco de comida ali jogada por algum humano bestial, vejo baratas atravessando a rua em todas as direções sem o perigo de serem esmagadas por um automóvel, algumas delas subindo pelo meu costado, me fazendo cócegas com suas pernas serrilhadas e indo em direção ao jardim, quem sabe em direção à varanda para algum dia serem descobertas na sua louca aventura e então dizimadas pelo agente dedetizador, pobres cretinas.  
O amanhecer é lindo, apesar das moscas.
Mesmo com o corpo disfarçado de cal e temendo um outro ataque de vandalismo – outro dia escreveram timidamente “Murilo”, a carvão, e este bem que poderia ser o meu nome – vejo o  sol brilhar e o meu branco agressivo a refletir no suor do atleta barrigudo que faz neste dia a sua caminhada matinal, vejo o rapaz da bicicleta entregando os jornais e vejo os meninos seguindo em direção à escola, e me sinto importante quando o dono da casa abre o portão que me pertence e sai todo pimpão com seu automóvel que, assim como eu, também anda precisando de uns reparos.
-0-
A pedido do dono da casa uns homens de broca em punho afixaram no meu lado direito, próximo ao portão, uma placa de bronze com o número 34, o que me deixou envaidecido, pois agora, além de nome tenho também um número de identificação.

SEGUE