quarta-feira, 18 de março de 2020





A MÁSCARA   
(Excerto II)

Ganhei uma máscara de presente, feia como o diabo. Disse-me o amigo que me presenteou que ela me traria sorte.
Para agradar o presenteador, coloquei a dita cuja na parede da minha sala. A operação pendura-máscara tomou-me quase dez minutos entre o arrasta cadeiras, o trepa e destrepa, e o confere a posição, mas finalmente a cara foi gloriosamente afixada.
Após descer cuidadosamente da cadeira, para não arriscar um tombo e começar a descrer das propriedades benfazejas do singular objeto, andei de costas até a parede oposta para melhor observar o efeito do mais novo adorno da sala. Parei, boquiaberto ao perceber que a máscara me piscava com o buraco do olho esquerdo.   
“Que será isto?” – pensei. Talvez a cerveja misturada com aguardente de cereja esteja fazendo efeito, talvez o sobe-desce da cadeira me tenha deixado meio desorientado, talvez a iluminação insuficiente estivesse a me pregar peças, talvez seja uma ilusão de ótica causada pelos desenhos do vime trançado ou talvez – considerei com um ligeiro arrepio – este piscar seja um polido cumprimento, uma advertência ou um aviso.
Para quebrar o encanto decidi desligar a luz e fui para o quarto.
Tentei dormir, mas meu descanso não foi nada tranquilo, pois aquele piscar de olho não saía da minha cabeça. Ouvia ruídos estranhos – seria o gato afiando as unhas ou o rato vagabundo a lhe fazer desaforo? Seria a madeira estalando no verão intenso ou algum som da natureza produzido fora da casa?
Cansado pela emoção e pelos humores alcoólicos consegui enfim adormecer.  
Veio então o sonho vívido onde criaturas estranhas dançavam trajando vestes de palha colorida e portando máscaras. No meio delas, a “minha” máscara se destacava com o mesmo ar de deboche e gargalhava, fazendo com que a tonalidade cor de esmeralda se tornasse mais brilhante a cada grito.
A máscara sem corpo começou a se aproximar e já não parecia estar no sonho, mas ao lado da minha cama.
A gargalhada ficou mais forte, e seu som lembrava o cacarejar de um galo.
-0-0-0-
Acordei num sobressalto, ainda de madrugada, e de fato um galo cantava na vizinhança.
Revirei-me na cama durante longos minutos sem saber se tentava dormir de novo ou se atendia o desejo de voltar para a sala para ver como estavam as coisas com meu estranho hóspede.
Decidi por voltar para a sala, onde escancarei a janela gigante, daquelas de duas folhas. Olhei para a parede onde afixara a máscara, mas ela não estava mais lá! Ela agora estava na parede oposta, com a expressão preocupada de quem passara a noite inteira coletando más notícias.
Foi quando o telefone tocou.
Do outro lado da linha veio a informação pausada e em tom grave de que o amigo que me dera a carantonha de presente havia falecido na madrugada, vítima de um acidente de trânsito.

sexta-feira, 13 de março de 2020





PANDEMIA
(Augusto Pellegrini)

Pandemônio! Pandemia!
O mundo ficou exposto
Na sua imensa geografia
A um perigo sem rosto

Pandemia! Pandemônio!
Não dá nem pra acreditar
Vidas, lucro, patrimônio
Tudo de pernas pro ar

Um ser insignificante
Bolinha cheia de espinhos
Se multiplica bastante
Deixa o caos pelo caminho

Como cidadãos comuns
Pouco podemos fazer
A não ser colaborar
Com os ditames da lei

Aceitemos, por prudência
As regras do bem viver
Basta usar a consciência
E um pouco do conhecer

Lavar as mãos é um fato
Histórico e corriqueiro
(Não como Pôncio PIlatos
Covarde e politiqueiro)

Hoje em dia isto é um estudo
Provado por cientistas
Pra manter boa a saúde
Contra doença oportunista

Muita água e sabonete
Ou então o álcool-gel
Também tenha sempre em mente
Usar toalha de papel

Se se sentir resfriado
E começar a tossir
Tenha o devido cuidado
De com a mão a boca cobrir

E se a febre aparecer
E o corpo ficar dolorido
Deve em casa se manter
Com repouso e comprimido

Pela orientação rasa
Dos doutores de plantão
Permaneçamos em casa
Se assim requer a ocasião

Mas não perca o bom humor
Porque, sem muita demora
Com nossa ação e vigor
A pandemia vai embora

Março 2020







CANTO DE GENTE TRISTE 

(canção composta por Augusto Pellegrini)

Deixe que eu cante a essa gente
Tristeza é pra se cantar
Quem sabe toda essa gente
Terá com que me alegrar
Violão tem sons na calçada
E a serenata em sereno
Pequeno mundo de sonhos
Em tua janela um segredo

Vem sorrindo com teu riso
Ensolarar noite escura
Abre a janela, em teu quarto
Vai clarear branca a lua
Violão tem sons na calçada
E a gente passa e nem sente
Deixe que eu cante a essa gente
No brilho sem sol da lua


sexta-feira, 6 de março de 2020





MUDANÇAS
(Augusto Pellegrini)

Vi, pensei, mudei de opinião duas vezes
(e depois mais duas para me convencer)

Ler, precisei três vezes
(e mais três vezes além das três)

Tive que dez vezes me embebedar de palavras e de imagens
(e outras dez vezes mais, além das dez)

Tive também que amar cem damas perfumadas
(e amar cem damas mais, além das cem)

Tive que voltar mil anos
(e outros mil ainda)

Para entender a presença da mulher-poema
na história das alcovas e fora delas.

2017

terça-feira, 3 de março de 2020






SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 06/04/2018
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106,9 Mhz
São Luís-MA

WALT WEISKOPF QUARTET 

Não muito conhecido internacionalmente, Walt Weiskopf é um saxofonista, multi-instrumentista, compositor, escritor e professor de jazz descrito por críticos de jazz como "um dos melhores músicos da cena moderna". Ele passeia por estilos de vanguarda, como o hard-bop, o jazz avant-garde, o post-bop, o modal jazz e o free jazz, sempre com muita personalidade. Antes de se lançar na carreira solo, Weiskopf ganhou maturidade ingressando na Buddy Rich Big Band e posteriormente na Toshiko Akiyoshi Big Band, onde tocou por quatorze anos. Neste álbum, gravado ao vivo na Universidade de South Carolina em 2008, ele lidera um quarteto que tem a presença da pianista Renee Rosnes, do baixista Paul Gill e do experiente baterista Tony Reedus, que faleceu um ano após a apresentação e em cuja homenagem o álbum foi lançado em 2011. Weinkopf interpreta músicas da sua autoria, inserindo no repertório a emblemática "Love For Sale", de Cole Porter.     
   
Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini
                                                                                                                                    



segunda-feira, 2 de março de 2020





O TOCADOR DE TUBA   
(Excerto II)

“Não é todo dia que a gente tem uma promoção como esta, nem um aumento de salário tão generoso”, pensou o pacato Josefino ao aceitar o convite do sátiro da repartição para irem festejar na “casa das primas”.
E para lá foram ao sair do serviço e lá ficaram na pândega até pouco antes de a madrugada raiar.
Foi só quando a casa fechou que eles resolveram ir embora.
O amigo saiu para um lado, e Josefino saiu para o outro, cantarolando e tropeçando pelo alvorecer, alegre como um macaquinho no circo, inconsequente como um bobo da corte, ansioso por partilhar com a esposa Adelina o seu mais novo status na repartição. Agora sim, ela poderia trocar o fogão e a geladeira, e comprar o bendito aspirador de pó com cuja necessidade ela apoquentava a sua cabeça.
E lá foi ele, fazendo planos para um futuro conjugal feliz. Só que, ao chegar em casa, encontrou a luz acesa e ouviu, após um silêncio profundo, os primeiros rugidos da mulher.
Adelina estava transtornada, sem saber o que tinha acontecido com o marido. Pela sua cabeça se atropelavam mil imagens, uma pior que a outra, pois Josefino, pacato como um frade franciscano e inofensivo como um passarinho, não saberia como se defender contra qualquer infortúnio da vida.
No entanto, quando ouviu a voz tartamudeante do marido e entendeu que ele estava bêbado como um peru de véspera, Adelina deixou seus cuidados de lado e ficou realmente furiosa.
Em vinte anos de casados, Josefino nunca se atrevera a chegar em casa depois das oito, nunca havia se embriagado dessa maneira e nunca lhe faltara com obediência e respeito.
Ainda em dúvida se enchia o desgraçado de pancada ou se simplesmente o atirava para o meio da rua, ela cometeu a imprudência de abrir a porta.
Josefino se esgueirou para dentro de casa como um cachorro assustado, mas ela prontamente o agarrou pelo pescoço e começou a berrar, alto e bom som – “...vagabundo! canalha! vá dormir na rua, que lá é o teu lugar!!!”
Em vão, o pobre coitado tentava contar que a festa toda era devida ao futuro garantido do casal, ao desejado fogão, às poltronas novas, à frente da casa pintada de rosa e ao aspirador do anúncio da TV. Seu destino era o olho da rua, sem necessidade de maiores explicações.
De passagem para o relento, Josefino esticou o braço e carregou com ele a tuba que estava sobre a mesinha ao lado da porta e – zás! – foi com tuba e tudo parar na calçada deserta.
Josefino sentou-se resignadamente no meio-fio, espichando os olhos tristes para a parede descascada da sua casa, agora totalmente às escuras, e decidiu tocar uma serenata para ganhar o perdão da meiga Adelina.
Agora, tudo depende da reação dos vizinhos.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020






 BRINCADEIRA 

(Melodia de Renato Winkler – Letra de Augusto Pellegrini)

Violão
E o jeito de quem quer brincar
Volume no meu gravador
Está no ar

Vem o sol
Rimando com o céu azul
Mostrando a escala que se faz
Cristalizar

Emoção
O som subindo para o sol
No sol menor desta canção
Tão singular

Canto o céu
Azul como este olhar tão seu
Brincando de esconder no meu
Mesmo sem ser

Violão
Trazendo uma recordação
Você nesta improvisação
Nesta canção


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020








AS – LIKE – HOW – AND OTHER THINGS

A palavra “COMO” em português pode ser mencionada em inglês de diversas maneiras diferentes, dependendo da sua função gramatical e do que você está querendo dizer. Pode ser uma preposição, uma palavra explicativa, um advérbio de intensidade, um advérbio interrogativo, um verbo, uma conjunção ou uma palavra de realce.

He works as a teacher – “Ele trabalha como professor” (ele é um professor)

She sings like a bird – “Ela canta como um pássaro” (ela não é um passaro)

He dances so well… – “Como ele dança bem…”

I will tell you how it happened – “Vou te dizer como isso aconteceu”

I eat eggs everyday – “Eu como ovos todos os dias”

Really? What did you say? – “Como é? O que você disse, mesmo?


terça-feira, 25 de fevereiro de 2020





DOIS DE NÓS

Nossas línguas entrelaçadas
enredadas
encantadas como duas serpentes indianas

Nossas mãos abraçadas
subjugadas
enraivecidas como dois leões numa jaula

Nossas mentes extasiadas
enfeitadas
engolfadas como ventos em desordem

Nossas vidas realçadas
inflamadas
incendiadas como bandejas de fogo

Nossas almas enlaçadas
fechadas
alumiadas como velas sagradas

Dois de nós significa um
E cada um de nós significa dois
Você e eu somos dois
E nós dois juntos somos um

Dez 2016

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020







SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 01/02/2019
RÁDIO UNIVERSIDADE FM 106,9 Mhz
São Luís-MA

HERB HARRIS - NY DAZE & KNIGHT  

Um dos mais brilhantes sax-tenoristas da geração que surgiu durante os anos 1980, Herb Harris se firmou no universo do jazz, sendo hoje uma referência no instrumento, no qual mantém a essência do jazz do século 20. Influenciado por John Coltrane, Dexter Gordon e Sonny Rollins, Harris encontrou sua própria sonoridade e durante muito tempo se apresentou com personalidades do jazz contemporâneo, como o pianista Marcus Roberts e o trompetista Wynton Marsalis, com os quais excursionou pelos Estados Unidos e pela Europa. O álbum mostrado no programa foi gravado em junho de 1992 e me foi enviado diretamente pelo próprio Harris, acompanhado de uma carta manuscrita, na qual ele diz coisas amáveis e estreita os laços entre o Sexta Jazz e a sua música. Todas as músicas do repertório são de sua autoria.
Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini