AS CORES DO SWING
(Livro de Augusto Pellegrini)
CAPÍTULO 15 - O EFEITO WALL STREET
(continuação)
Os “anos dourados” foram
extremamente felizes e altamente descontraídos, mas trouxeram junto com a
prosperidade e a euforia uma inesperada dissolução de costumes, evidentemente
indesejada pelos moralistas tradicionais que ditavam as regras de conduta da
sociedade.
Por
outro lado, apesar de uma explosão industrial sem precedentes, a repressão
trouxe uma série de situações negativas, como o crescimento do crime
organizado, o contrabando e a fabricação clandestina de bebidas, uma
especulação financeira sem regras nem controle e o recrudescimento da
intolerância racial por parte dos integrantes da Ku Klux Klan, uma seita de
encapuzados que vestiam um manto branco para aterrorizar as comunidades negras,
em especial no centro-oeste e no sul do país, com a discriminação se
transformando em ódio, e o ódio em perseguição e morte.
Assim,
os acontecimentos do final dos anos 1920 dividiram o país em dois humores
distintos: de um lado uma descontração alegre e irresponsável, como se fosse o
final de uma grande festa, e do outro lado, a intolerância e as regras de
exceção agindo como um torniquete sobre as pessoas, como se fosse a ressaca do
dia seguinte.
Os ricos e os
novos ricos, que enriqueciam principalmente especulando na Bolsa e adquirindo
terras e imóveis, inventavam maneiras criativas de gastar o seu dinheiro,
incluindo nessa roda-viva as roupas finas, as viagens, o jogo, as orgias, os
supérfluos, a bebida proibida e – obviamente – as drogas.
A indústria automobilística
apresentava lucros extraordinários com a fabricação acelerada e a venda de
carros de luxo – Hudson, Packard, Studebaker – que eram geralmente pilotados de
uma forma perigosa e pouco responsável por artistas, empresários e alguns frequentadores
do “jet set”. Vivia-se conforme um dito da época – “bebida proibida e velocidade liberada”.
As
pessoas discutiam abertamente as teorias de Sigmund Freud, antes limitadas a
consultórios e encontros acadêmicos, e começavam a tratar o sexo de uma maneira
escancarada, antes reservada aos segredos de alcova ou a cochichos de mesa de
bar. As intrigas amorosas, também antes restritas a quatro paredes, passaram a
ser assunto de conversa nas festas elegantes frequentadas pela alta sociedade e
pelos glamorosos astros e estrelas de Hollywood, sem o menor pudor. A classe
alta americana começou a consumir o gim e o uísque de maneira ostensiva e exagerada
– apesar de proibido – e também fazia parte do perigoso cardápio a marijuana, o
ópio e a heroína, uma constante na vida dos apreciadores dos prazeres mundanos.
Assim
eram os “incríveis anos vinte” nas ricas cidades do norte-nordeste do país,
cujo crescimento vertiginoso se dera, em parte, pelos dividendos que adoçaram a
economia local recebidos como espólio de guerra em consequência da rendição da
Alemanha na Primeira Guerra Mundial.
As
mulheres começaram a se emancipar politicamente de uma forma firme e
reivindicatória, lutando pelos seus direitos de cidadania e praticando uma
filosofia epicurista, onde a busca do prazer a qualquer custo era alimentada
por um desejo de igualdade entre os sexos. Assim, elas também bebiam e fumavam
em público, usavam roupas ousadas e mantinham suas aventuras amorosas
abertamente. Com o swing, elas aprenderam a dançar de forma livre e
provocativa, exibindo toda a sensualidade que o momento permitia.
Algumas das
músicas mais tocadas na época, como “Hot
Lips”, “I Need Lovin’ ”,
“Up In Mabel’s Room” e “Her Purchase Price”, continham
alusões obscenas veladas.
Este tresloucado “American
way of life” foi retratado com perfeição por Francis Scott Fitzgerald, um
escritor que, mais do que simplesmente um novelista, foi um genial crítico de
costumes. Seus livros “The Beautiful And Damned”, de 1922, e “The Great
Gatsby”, de 1925, são na verdade uma fina reportagem sobre o comportamento
da sociedade de classe alta nas grandes cidades americanas.
O próprio Scott e
sua mulher Zelda Sayre fizeram parte deste movimento que incluía a música
vibrante – como o swing, o charleston e o fox-trot – a moda refinada, os carros possantes e os
embalos das festas granfinas. Lá, o figurino requintado se misturava com droga
e álcool, constituindo o ambiente de onde Scott extraía as ideias que o
transformaram em um dos primeiros best-sellers do país.
Pode-se imaginar o
que acontecia por detrás dos panos quando sabemos que o próprio Scott, tido
como um grande devasso, ao escrever uma carta para a sua filha em 1938, dois
anos antes da sua morte, declarava que era moralista demais para ter se permitido
acompanhar as andanças licenciosas de Cole Porter, Richard Rodgers e Lorenz
Hart – simplesmente três dos maiores compositores e letristas americanos de
todos os tempos!
É claro que o establishment
vitoriano teria que reagir diante de tal quadro por demais modernista e
aterrador para os seus padrões de comportamento. Assim, as inevitáveis
providências foram tomadas através de pacotes de leis que visavam controlar a
vida do cidadão, americano ou não, que vivesse nos Estados Unidos.
Os presidentes
Warren Harding, eleito em 1921, seu sucessor “post-mortem” Calvin Coolidge, que tomou posse em 1924, e Herbert
Hoover, eleito em 1928, apesar de governarem um país economicamente em alta, baixaram
decretos que, entre outras coisas, interferiam nas ações internas dos bancos,
restringiam a chegada e a ação dos imigrantes com claríssimas conotações
antissemitas e – especialmente Hoover – combateram a política do laissez-faire e se utilizaram de um
policiamento de força. O magnata da indústria automobilística Henry Ford
manifestou sua simpatia pelas restrições ditadas pelo governo ao declarar “I
know who makes wars. The international
Jewish bankers arrange them so they can make money out of them” (“Eu sei quem faz as guerras. Os banqueiros
judeus internacionais as estimulam a fim de ganhar dinheiro com
elas”).
Financeiramente, o
país parecia andar às mil maravilhas, embora alguns analistas tivessem um
estranho pressentimento de que alguma coisa não estava caminhando dentro da
conformidade. Era como um trem em alta velocidade prestes a saltar dos trilhos.
E o trem
efetivamente saltou dos trilhos numa quinta-feira, 24 de outubro de 1929.
Milhares de ricos
empobreceram do dia para a noite, quando mais de cinco bilhões de dólares se
transformaram em papel sem valor devido à quebra da Bolsa de Valores de Nova
York. Ao final do ano, a quantia se elevaria para dezesseis bilhões, e o pânico
tomaria conta definitivamente da economia americana.
Era o final dos
felizes anos vinte.