quarta-feira, 26 de outubro de 2022

 


MAL MAIOR 

1979

(Samba de Augusto Pellegrini)

 

Você gosta de mim

Esqueça

Eu não sou tanto assim

Esqueça

Ouça o conselho de quem sabe

Aonde esta vida vai levar

Antes que um mal maior aconteça

 

Pense que o mundo tem milhões

De coisas boas pra lhe dar

E que em cada segundo

Tudo pode melhorar

Não deixe o coração

Falar mais alto que a razão

Antes que a solidão aconteça

 

Pense que a vida tem razões

Que a própria vida vai negar

No fundo são mistérios

Que ninguém sabe explicar

Não deixe o coração

Ficar doente de paixão

Ou que a desolação aconteça

 

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

 


O REENCONTRO

(Augusto Pellegrini)

Desde que te conheci (e te perdi)
Sinto um vazio que me devora a alma
Painel descolorido do que já vivi
Lembrança inútil que jamais me acalma

Por que será que as coisas se sucedem
E seguem soltas, ao sabor do vento
Se as decisões tomadas sempre impedem
De comandar o próprio pensamento?

Há muito tempo veio a despedida
Sequer aconteceu, passado se apagando
Com cada qual vivendo a própria vida
Cada um de nós a vida em vão levando

São muitos anos de distanciamento
Amadurecemos sem ficarmos velhos
Fazendo do reencontro um único momento
Voltando ao tempo, longe dos espelhos

Ainda guardo imagens firmes e sem corte
Dos bons momentos feitos por nós dois
São sonhos vívidos de tempero forte
Cheio de antes, com poucos depois

Este momento tem um tom marcado
Que evoca outros momentos, na verdade
É que o destino certo deu errado
E o sonho, que era bom, virou saudade

2018

 

 

 

 

sábado, 22 de outubro de 2022

 


PÁGINAS ESCOLHIDAS

De um livro de contos que ainda não foi publicado
(Augusto Pellegrini)

EU SOU SUA MÃE!


Minha mãe morreu há seis anos, mas eu continuo morando na mesma casa em que vivíamos, por ser um bem de família e eu ser um filho único. Eu ainda sinto a sua presença na sala, como se ela estivesse lá, no mesmo lugar, vendo televisão, ou mesmo à noite, diante da porta fechada do quarto onde ela dormia.

Minha mulher diz que não acredita nessas coisas e que é para eu deixar de bobagem. Chegou a mudar os móveis de lugar e a transformar o quarto que minha mãe ocupava em dispensa e adega.
Diz também que há muito exagero quando eu me refiro à sua semelhança com Clarinha.
“Uma criança se parece com outra criança, não com uma velha de setenta anos”, disse ela. Eu me senti indignado com a forma como ela se referia à minha mãe, mas assenti, mudo, para evitar maiores aborrecimentos.

Mas ela tem lá suas razões, pois mal teve tempo de conhecer a minha mãe, que morreu apenas algumas semanas depois que nos conhecemos, e encara a vida com modernidade, o que a impede de admitir os fantasmas que eu ouso ver e sentir.

Outro dia Clarinha estava fazendo uma malcriação qualquer, dessas que os pais toleram com um riso amarelo e que os amigos sentem vontade de pespegar logo umas palmadas. Birra, dizem os psicólogos, manha, dizem os avós.
Mas a malcriação começou a ficar insistente e eu comecei a perder a paciência. Pela malcriação e pela tentativa de me vencer pelos gestos e pelos resmungos, eu comecei a repreendê-la, primeiro carinhosamente, como convém à repreensão a uma criança de três anos deidade; depois, como a malcriação aumentava, procurei com mais empenho usar a razão, e finalmente apelei para a autoridade, talvez de uma forma equivocada e precoce, considerando a idade da menina.
Eu falei para ela, de uma forma bastante incisiva, elevando o tom de voz e brandindo o dedo indicador – “Clarinha, me respeite, porque eu sou o seu pai!”.
Fez-se um pesado silêncio, e eu temi pela consequência da minha súbita explosão – um muxoxo magoado ou talvez um choro convulsivo.
Ela, porém, permaneceu estática por um momento, depois olhou seriamente para mim, apertou a ponta do narizinho, pendeu o pescoço para o lado esquerdo e disse, com uma seriedade e um tom de voz que nada tinha de infantil:
“...E eu sou a sua mãe!”.
Calei, não ser ter sentido antes uma súbita onda de calor e frio a me subir pela espinha.
Minha mulher a tudo observava, boquiaberta e com o olhar imóvel, encostada no batente da porta”.

 

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

 


NOVOCABULÁRIO INGLÊS

(EF – English Live)

Most common English idioms and phrases 

(ver tradução após o texto)

 

YOU CAN’T JUDGE A BOOK BY ITS COVER   

This expression means “to not judge someone or something based solely in appearance”. 

“You can’t judge a book by its cover. In Los Angeles, for instance, some of the richest people wear jeans and a T-shirt”    

 

           

TRADUÇÃO 

Expressões idiomáticas mais comuns na língua inglesa 

YOU CAN’T JUDGE A BOOK BY ITS COVER (não se deve julgar um livro pela capa). No Brasil, “NUNCA JULGUE PELA APARÊNCIA”

 
A expressão significa “não se deve julgar alguém ou alguma coisa apenas pela aparência”. 

“Você nunca deve julgar as coisas somente pela aparência. Em Los Angeles, por exemplo, as pessoas mais ricas costumam andar de jeans e camiseta”

           

 

terça-feira, 18 de outubro de 2022

 


O MEU CONDADO
(Augusto Pellegrini)

As ruas do meu condado
Têm calçamento de pedra
Em cujos espaços medra
Verde musgo alcatifado

O chão está preservado
Pela ausência de passantes
E quem aqui viveu antes
Não deixou qualquer legado

É uma cidade fantasma
Casas poucas, mal-cuidadas
Com paredes descascadas
Como um presépio sem alma

Das janelas pendem flores
Protegidas pelo tempo
Da ação do inclemente vento
Do sol e outros dissabores

Os homens que aqui viveram
Em tempos imemoriais
De muitos anos atrás
Não honraram seus herdeiros

Não deixaram coisa alguma
Móveis, qualquer utensílio
Passado de pai pra filho
Ou seja, herança nenhuma

A morada tem, de fato
A natureza como abrigo
Onde a escuridão amiga
Protege insetos e ratos

Mas no meio do vazio
Onde a solidão impera
Tudo é sempre primavera
E flores há, sem plantio

Silêncio é música ouvida
De sons ao sabor do vento
Que sopra a todo momento
Na paisagem combalida

Este é o meu condado
E dos meus antepassados
Que não tiveram o cuidado
De deixar qualquer legado

2018



 


FAÇA DE CONTA 

1978

(Samba de Nelson Gengo e Augusto Pellegrini)

 

Faça de conta que tudo

Não passou de intriga

E a briga que existiu

Foi sem querer

Vamos rever o passado

E esquecer nossas vidas

Avaliando a situação

Prometendo não mais

Reviver a dor

 

Eu não chorei pelo que aconteceu

E nem pelo dissabor que me aborreceu

 

Vivi

Sempre sentindo saudade

Fugindo da realidade

Tentando esquecer teus apelos

Senti

Senti dentro de mim um aperto

Neste momento te peço

De braços abertos espero

Pelo teu regresso

 

Senti

 

Senti dentro de mim um aperto

Neste momento te peço

De braços abertos espero

Pelo teu regresso

 

 

sábado, 15 de outubro de 2022

 


PÁGINAS ESCOLHIDAS

De um livro de contos ainda não publicado
(Augusto Pellegrini)

DO OUTRO LADO DO ESPELHO


Percorro com os olhos os quatro pontos cardeais que me cercam neste cubículo onde habito há dias, ou anos, ou séculos, pelo que me diz o relógio da minha semiconsciência.

Estou deprimido, e o mundo que me cerca é este miserável quarto sem luz, de onde tento olhar por uma fresta de janela fechada e vislumbrar um jardim florido e coberto pelo sol, com borboletas coriscando aqui e acolá tendo como fundo um céu de azul sereno retocado por algumas nuvens de algodão.

O que vejo, no entanto, é um beco imundo sem saída e cheio de detritos, com a face amarga do inverno se avolumando sombria e insetos mortos boiando em poças de água, tornando a paisagem desalentadora como a minha vida.

O mundo fede, e o mau cheiro penetra pela fresta da janela como um gás venenoso que me invade as narinas.

Não encontro ninguém para responder minhas perguntas nem para satisfazer meus questionamentos.

Grito, e o meu grito se perde no eco do local vazio e fechado, como o lamento de um moribundo dentro de uma masmorra.

Há um homem no parlatório na sala ao lado, separado de mim por uma parede de vidro tão espesso que não consigo ouvir a sua voz.

Tenho a impressão de que o conheço, seu rosto não me é estranho, mas meu torpor me impede de concatenar ideias.

Ele me olha fixamente nos olhos, e eu percebo que repete tudo o que eu digo, imita meus gestos e, por incrível que pareça, guarda no rosto a mesma expressão desanimada que estampo na cara macilenta de quem não dorme há duas semanas. Pelo menos é isto que me parece, já que a minha noção de tempo está prejudicada pelos meus desvarios.

Não sei ao certo onde estou nem o que estou fazendo aqui, e a exaustão embota o meu raciocínio.

 

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

 


NOVOCABULÁRIO INGLÊS(EF – English Live)

Most common English idioms and phrases

 

(ver tradução após o texto) 

TO ADD INSULT TO INJURY  

 

This expression means “to make a situation worse”. 

“To add insult to injury the car drove off without stopping after knocking me off my bike”    

 

 

           

TRADUÇÃO

 

Expressões idiomáticas mais comuns na língua inglesa

 

TO ADD INSULT TO INJURY (insultar e aumentar o prejuízo). No Brasil, “PARA PIORAR AS COISAS”

 
A expressão significa “tornar uma situação ainda pior”.

 
“Para piorar as coisas, o carro acelerou e fugiu depois de bater na minha bicicleta”

           

 

 

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

 


SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 30/08/2019
RÁDIO UNIVERSIDADE 106,9 Mhz
São Luís - MA

BADEN POWELL SWINGS WITH JIMMY PRATT / CESAR CAMARGO MARIANO & HELIO DELMIRO

A partir do evento bossa nova e da formação de trios e pequenos conjuntos, a música instrumental brasileira se tornou realmente exuberante, não só pela sua natural riqueza harmônica e melódica, mas também em virtude da qualidade dos intérpretes. Num só programa nós conseguimos reunir na primeira parte Baden Powell, Copinha e Moacyr Santos (com a participação do baterista americano Jimmy Pratt) e na segunda metade César Camargo Mariano e Hélio Delmiro. A primeira parte se destaca pelo ritmo e pelo calor da interpretação do grupo e a segunda parte pelo lirismo, pontuado pelos diálogos entre piano e violão. A gravação de Baden é apenas mais uma das dezenas que ele realizou dentro do seu estilo personalista de tocar violão, que apresenta um vasto repertório de recursos. A gravação de César Camargo e Hélio Delmiro mostra um exuberante crescimento na música instrumental brasileira, a ponto de ser considerado pela crítica especializada como um dos dez melhores discos no gênero.

Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini

 

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

 


ALEGRE DESPEDIDA 

1978

(Samba de Augusto Pellegrini e Luís Albuquerque)

 

Nem mesmo foi preciso que você falasse

Havia um pressentimento dentro de mim

Há muito, na expressão de sua face

Senti que o nosso amor ia chegando ao fim 

Hoje, para encontrá-la eu quase não vim

Pois tinha tanto medo desse desenlace

Mas tudo terminou, e foi melhor assim

Também para você que terminasse

O nosso amor

 

Nosso amor não durou mais do que um dia

Uma flor que morreu quando desabrochou

Um perfume que ao surgir desvanecia

Morreu como um pôr-do-sol que perdeu a cor 

Agora, pra terminar com a incerteza

Brindemos, nesta alegre despedida

A natureza é assim, escreve certo

Nas linhas tortuosas desta vida