segunda-feira, 19 de outubro de 2015






EU E A MÚSICA
A SÃO PAULO DE ADONIRAN BARBOSA
(...de Joca, Mato Grosso e Iracema)

“Meu São Paulo
foi da garoa, tempo frio que já mudou.
Cantada pelo filho do italiano
está mais quente a cada ano,
é o samba urbano que chegou.
Bexiga, Barra Funda, Lapa e Mooca,
e a maloca que, saudosa,
hoje não existe mais,
porém a caravana colorida
evolui na avenida
evocando os bons tempos do Brás

Com empolgação,
meu São Paulo é um poema
de Malvina, Adoniran,
Mato Grosso e Iracema.

Trem das onze,
as mariposas vão sambando na estação,
lembrando da moçada o sacrifício,
a derrubada do edifício,
o antigo Albion.
Acende o candeeiro de mansinho,
traz de volta o cavaquinho
pra encantar meu bem querer.
Cidade de trabalho e de progresso,
seu poeta e seu sucesso
nós vamos cantar outra vez
...”

(“A São Paulo De Adoniran Barbosa” – de Augusto Pellegrini)

Esta é a letra de um samba que eu fiz em homenagem a Adoniran Barbosa no ano de 1975 para concorrer à escolha do samba-enredo para o carnaval de 1976 pela G.R.E.S. Escola de Samba Pérola Negra, Vila Madalena, São Paulo, cujo tema era exatamente “A São Paulo de Adoniran Barbosa”. A música concorreu, não ganhou, mas eu me senti premiado por ter convivido com o poeta, ainda que por breves instantes, pois isso enriqueceu a minha alma.
Gostaria de ter absorvido mais um pouco da sensibilidade de Adoniran, mas o nosso tempo foi muito curto. Enfim, como ele mesmo dizia – “mas isso num faz mal, num tem ‘portança’...”

                                                                 -0-

Desde muito jovem a música sempre me encantou.
Talvez por isso eu gostasse de exercitar o meu lado compositor, na maioria das vezes fazendo sozinho a letra e a melodia da música, mesmo não conhecendo coisa alguma sobre teoria musical nem tendo a prática de executar qualquer instrumento.
A música era produzida dentro da minha cabeça, e eu tinha que a cantarolar dezenas de vezes para não esquecer a linha melódica. Enquanto isso, o arranjo e a orquestração – violão, violinos, metais, piano, percussão – iam tomando sua forma definitiva, mas sempre dentro da minha cabeça.
Os compositores leigos, como eu, sabem do que eu estou falando.
Isto causava sérios problemas quando eu queria cantar as minhas composições acompanhado por algum instrumentista, pois evidentemente a harmonia que ele extraía do instrumento era bem diferente daquela que eu havia concebido.
Quando comecei as minhas tentativas, fui influenciado pela música brasileira da época – coisas de Antônio Maria, Dolores Duran, Alberto Ribeiro, Tito Madi, Fernando Cesar, Klécius Caldas, Armando Cavalcante, Henrique Lobo e Luiz Bittencourt, todos autores de sambas-canções que eram interpretados com alma pela mesma Dolores, pelo próprio Tito Madi, por Nora Ney, Agostinho dos Santos, Dóris Monteiro, Lucio Alves, Cauby Peixoto, Dick Farney e alguns outros tantos.
Mesmo assim, a minha música não possuía as características específicas do samba-canção e não obedecia à configuração tradicional dos seus versos, uma sequência de primeira estrofe-segunda estrofe, pois o samba-canção convencional não utiliza refrãos com frequência.
Além do mais, eu “quebrava” a melodia às vezes de forma inusitada, coisa típica – de acordo com a opinião de músicos e especialistas – de quem não é engessado pela teoria e sente mais liberdade para simplesmente expor seus sentimentos.

“Sozinho pela madrugada
não procuro amigos,
só procuro paz.
Partiu, não me disse nada,
não deixou resposta, não,
isso não se faz...

Eu tenho um pressentimento que me fala
mais alto que o desalento que em mim cala.
Nunca mais encontrarei quem me consola,
e dos sonhos que sonhei eu vivo agora
...

Sozinho pela madrugada,
não procuro amigos,
só procuro paz.
É muito fácil compreender,
mas é difícil resistir.
Sozinho pela madrugada,
vou ficando triste,
vou ficando só
...”

(“Sozinho Pela Madrugada” – de Augusto Pellegrini)
 
Mas logo chegou a bossa nova, e eu incorporei o estilo às minhas composições, sem abandonar o jeito da canção e do samba-canção. E continuei distante daquilo que João Gilberto chamava de “samba autêntico” – tipo Ary Barroso, Assis Valente, Ataulfo Alves, Dênis Brean – como também do samba-canção tipo deprê, também chamado “dor-de-cotovelo” – Lupicínio Rodrigues, Fernando Lobo, Herivelto Martins, Jair Amorim – que abordava o romantismo de forma dramática, como o tango, e dos quais eu até gostava, mas não me identificava a ponto de compor coisas do gênero.
A bossa nova me mostrou que a gente podia fazer poesia com as coisas mais simples do dia-a-dia e da natureza, sem necessidade de utilizar parnasianismos ou erudição nas palavras.

“Descanso,
é gostoso de ver
as nuvens brincando,
e figuras formando
bem alto, no alto do céu,
não penso,
quero fugir da vida
como o dia perdido
no qual eu fugi de ti.

Morreu o sol,
escurece depressa
igual ao momento
em que escureceu
o dia sem luz que eu vivi.
Desperto,
meu descanso não era,
era sonho, quimera,
eu não fujo, eu não posso fugir
...”

(“Descanso” – de Augusto Pellegrini)

Por trabalhar dentro dessa linha de composição, foi com muita surpresa que recebi em 1974 um convite para ingressar na ala de compositores da paulistana Pérola Negra, que na época era recém-egressa do Grupo B.
O convite partiu de um dos integrantes da ala, um engenheiro chamado Francisco Siqueira, sambista bissexto que eu conheci por força do meu ofício, o nada romântico trabalho de inspecionar equipamentos, o que eventualmente acontecia na indústria onde ele era o gerente industrial.
A princípio relutei em aceitar, pois aquilo ia contra todas as convicções musicais que eu havia cultivado até então – jazz, samba-canção, bossa nova – mas dada à insistência do Chico acabei aceitando o desafio.
Fiquei na escola durante seis anos, fiz parceria com o Chico Siqueira e com outros compositores, participei das festividades regulares, dos eventos de samba de quadra, dos ensaios na rua, das escolhas dos sambas-enredos, e logrei ser o vencedor em 1979 com o samba “Carnaval, Intrigas e Opiniões” – cujo tema era as discussões sobre a origem do samba – em parceria com meu depois compadre Nelson Gengo (música gravada em LP 230023 pela CBS e elogiada em um artigo de 15 de fevereiro de 1979 no Jornal do Brasil pelo crítico musical José Ramos Tinhorão, um luxo!).

“Até parece que o samba
procura imitar a vida
as divergências da história
permanecem na memória.
Nascido no Cariri,
ou então em Salvador,
se veio da ginga dos bambas
ou do jongo do interior,
importante é conseguir
unir todas as correntes,
fazendo com alegria
o canto da nossa gente

Samba, sambé, sembahó
ou sambaquixaba,
passado que todos discutem,
futuro que nunca se acaba.

Eram castanholas e pandeiros,
depois flauta e cavaquinho.
Intrigas e opiniões
jamais dividirão
os nossos corações.
No céu um repinique de estrelas
mostrando o carnaval de amanhã,
na terra virá a Pérola Negra
sambando ao som de Aldebarã
”

(“Carnaval, Intrigas e Opiniões” – Augusto Pellegrini e Nelson “Zurumba” Gengo)

Por ocasião dos desfiles os compositores eram também responsáveis pela harmonia da escola, o que nos permitia participar deles como um todo, percorrendo o trajeto em toda a sua extensão, indo e voltando, e tentando manter as diversas alas cantando em uníssono e com entusiasmo, evitando também o aparecimento de espaços em branco entre os sambistas, o que a nomenclatura do samba chama de “buraco”.
Era empolgante a gente se sentir iluminado pelos holofotes, sustentados por uma bateria vibrante e por uma alegria contagiante que descia das arquibancadas para a avenida, que naquele tempo ainda não era chamada de “passarela do samba”.
Durante o ano a escola se dividia em múltiplas atividades, todas voltadas para a execução de um desfile perfeito. A bateria ensaiava paradinhas e filigranas sob a batuta do seu mestre; o cantor principal, chamado de “puxador” cantava o samba-enredo por horas a fio para afinar as cordas vocais e depois fazer com que todos os elementos da escola memorizassem o samba; as costureiras, em geral familiares dos participantes, produziam as fantasias elaboradas pelo diretor de carnaval, que acumulava as funções de figurinista; os artistas plásticos se confinavam em galpões escondidos dos olhos do mundo e preparavam as alegorias e os carros alegóricos.

                                                                      -0-

Foi nesse ambiente ímpar que eu conheci uma figura também ímpar do poeta popular Adoniran Barbosa.
Adoniran era, ao lado do conjunto Os Demônios da Garoa e do sambista Germano Mathias, o mais legítimo interprete das coisas de São Paulo, e se dava ao luxo de atentar contra a língua portuguesa sem o menor pudor, uma homenagem aos seus avós que como tantos outros italianos aportaram na cidade no final do século 19 para tentar uma vida mais digna.
Foi um batalhador em busca de um lugar ao sol, trabalhando como comediante, locutor e cantor tão logo conseguiu vislumbrar a oportunidade de mostrar o seu talento nas ondas do radio. 
Entre outras coisas, Adoniran também era um compositor que não conhecia teoria musical. O espírito urbano das suas composições retratava o ator que morava nele, às vezes histrião, às vezes irônico, às vezes dramático, como de resto o era a sua interpretação como cantor.
De certa forma éramos dois peixes fora d’água que se encontravam no mesmo lugar, sob o mesmo céu estrelado, sem ter muita relação histórica com o que se passava ao redor.
Havíamos aceitado o desafio, eu como compositor, ele como protagonista, e estávamos no mesmo barco até que o mesmo chegasse ao nosso porto seguro.
Numa escola de samba, as pessoas que são homenageadas com o tema assumem a condição de padrinhos e madrinhas da associação durante o período que vai da escolha do tema pela comissão de carnaval até o dia do desfile.
Nessa condição, elas frequentam a escola durante os ensaios, decidem se vão desfilar e de que forma irão desfilar e se tornam amigos de todos, desde os membros da diretoria até o sambista de ala mais humilde, embora poucas vezes esta amizade se prolongue depois do carnaval.
Um dos pontos altos da celebração é a escolha do samba-enredo, quando o personagem do tema participa de uma festa com direito a ouvir e apreciar mais de uma dezena de sambas feitos em sua homenagem.
Adoniran não era habituado a comparecer a ensaios, pois os mesmos duravam horas a fio, e o poeta, apesar de apreciar o sereno que lhe dava inspiração, não tinha na alma a retumbância de surdos e alto-falantes, mas o aconchego de uma cantina ou de uma esquina à luz de um poste, onde ele podia sussurrar poesia com sua pouca voz ao lado de uma taça de vinho ou de um violão solitário e preguiçoso.
Aparentemente também, Adoniran não chegou a se comover pelo fato de ser cantado em prosa e verso. Ele, que já cantara tantos personagens, fictícios ou não – Iracema, Ernesto, Nicola, Malvina, Pafúncia, Mato Grosso, Joca, Geralda – sabia conviver perfeitamente com essa inversão de papeis.
Mas na noite da escolha do samba-enredo ele lá estava, de bigodinho aparado, chapéu e gravata borboleta, só faltava o cachecol que o acompanhava nas noites garoentas de São Paulo, e se mostrava muito animado.
Seus olhos miúdos brilhavam com a intensidade dos olhos de um gato e seu sorriso com o canto da boca equilibrava o costumeiro cigarro sem filtro que aceleraria a sua morte oito anos depois.
Ele percorreu várias mesas para cumprimentar as pessoas que o aplaudiam, subiu ao palco para receber homenagens enquanto era saudado pelo presidente da escola – o que de certa forma o constrangeu, homem simples que era – e terminou na chamada “mesa da diretoria” onde sentavam alguns diretores e compositores, e onde a cerveja rolava ao som do samba.
Amante de um bom uísque, Adoniran foi presenteado com uma garrafa e um balde de gelo, com o que se regalou.
Um diretor se desculpou pela pobreza da agremiação, que na impossibilidade de lhe oferecer algo mais requintado optou pelo brasileiríssimo Old Eight e algumas peças de frango a passarinho feito por uma das tias da escola.
Adoniran se limitou a responder – “num tem portança” – e em pouco mais de uma hora secou a garrafa.

 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015


 
 
 
 
 
 
É TEMPO DE MUDANÇA 

Por uma questão de fechamento da matéria, estou escrevendo meu artigo antes do jogo em que o Brasil enfrentou a Venezuela em Fortaleza, de modo que as impressões marcadas na minha mente e retina ainda são as da malfadada partida do último dia 8, contra o Chile, em Santiago.
O leitor deve lembrar muito bem que perdermos por 2x0, mas que o placar poderia ter sido muito mais elástico se os chilenos, nossos antigos fregueses, não tivessem desperdiçado tantas chances de gol.
No entanto, é de se esperar que o Brasil mesmo jogando mal mais uma vez tenha passado pelos venezuelanos. É de se esperar também que a comissão técnica continue justificando que não existe adversário fácil, que a Venezuela jogou com dez jogadores atrás da linha da bola, que faltou espaço e que com a volta de Neymar as coisas vão voltar à normalidade.
Voltar à normalidade?
Parece que já estamos vivendo uma infeliz normalidade que só foi interrompida com a enganosa conquista da Copa das Confederações de 2013. De resto, a seleção brasileira vem capengando há mais de dez anos e parece que não há interesse algum da CBF em analisar com seriedade as razões desta mediocridade que de repente assola o futebol pentacampeão do mundo. 
É bem verdade que com o ex-presidente na cadeia e o atual presidente impedido de sair do país, a alta cúpula da CBF tenha lá outras preocupações, mas enquanto dura esta estagnação, o mundo continua girando, os fatos continuam se sucedendo e as outras seleções, nossos potenciais adversários, vão se fortalecendo.
Não foi à toa que o futebol da Espanha, sempre amorfo, cresceu e colocou o país no patamar dos favoritos das competições internacionais, mesmo com uma miríade de jogadores estrangeiros atuando pelos seus clubes. Não é à toa também que a Alemanha reencontrou em 2014 o futebol que já lhe havia dado três títulos mundiais no século passado. O segredo disso pode ser resumido em duas palavras: planejamento e trabalho.
O mesmo planejamento e trabalho que estão sendo desenvolvidos agora pela Holanda, cujos resultados vão frutificar possivelmente na Copa de 2022.
Estes países estão mudando a filosofia de trabalho nas categorias de base, buscando conjugar jogadores talentosos e polivalentes com disciplina tática, rapidez e um sistema de jogo que privilegie tanto as características específicas de cada jogador como o desenho tático projetado pelo treinador.
Os jogadores vão sendo peneirados através dos campeonatos das suas categorias, coordenados por equipes técnicas que adotam o mesmo estilo de jogo e agem de maneira uniforme, até chegar o momento em que a seleção pode contar com trinta ou quarenta jogadores preparados e aptos para entrar em campo e fazer o que a Alemanha fez em 2014.
Mas a produção não para: a cada ano novos jogadores vão sendo testados, treinados e moldados às exigências do futebol do seu país, de modo a perpetuar a qualidade do seu jogo.
Evidentemente o talento individual, a capacidade de improvisar, o arrojo e a malandragem não devem ser deixados de lado, mas há que se considerar que apenas estas qualidades, sem uma disciplina tática e a batuta de um maestro poderão fazer efeito em algumas ocasiões, mas não sempre.
Outro aspecto que deve ser mantido é a continuidade de um trabalho.
Querem um exemplo devastador?
A nossa seleção quase olímpica tem se apresentado relativamente bem e está num processo de ajuste com o técnico Rogério Micale. Os jogadores estão formando conjunto e assimilando as suas funções enquanto realizam treinamentos e amistosos tendo em vista a conquista da primeira medalha de ouro do futebol.
Mas dois meses antes dos Jogos, Micale será substituído por Dunga, que fará a sua convocação baseada na sua escolha pessoal, incluindo três jogadores mais velhos totalmente alheios à esta fase de preparação, escalará o time de acordo com a sua preferência e determinará o posicionamento e o estilo de jogo que melhor lhe aprouver, pondo por terra todo o trabalho de preparação desenvolvido até agora.
O relacionamento da atual comissão técnica com os jogadores será drasticamente alterado, a confiança conquistada ao longo do tempo será interrompida, e assim todo o trabalho de Rogério Micale poderá ser jogado na lata do lixo.

 

 

(artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 16/10/2015)

 

 

domingo, 11 de outubro de 2015







EU E A MÚSICA
UM PIANO NO FIM DA TARDE
(a trilha sonora de um filme mudo)

José Eduardo Coutinho Maia era meu conhecido de infância. Éramos vizinhos, embora não necessariamente amigos, pois não mantínhamos maiores contatos nessa época. Seus pais lhe impunham uma educação excessivamente vitoriana e proibiam a ele e a seu irmão de saírem à rua para brincar e se enturmar com os garotos vizinhos. A própria família, classe média alta, não se entrosava muito com a vizinhança.
A condição financeira da família de Eduardo parecia muito estável, pois eles se davam ao luxo de ter uma governanta exclusiva para as crianças e um Chevrolet “do ano” que era obrigado a estacionar na rua, pois a casa, embora grande, não tinha garage, fato mais ou menos comum a boa parte das casas do bairro na época.
Na verdade, Eduardo e eu começamos a trocar ideias apenas depois da nossa maioridade, quando ele conseguiu afinal a alforria do velho Nazir – seu pai – muitas vezes ao lado de uma boa caneca de chope numa churrascaria chamada Forte Apache ou num bar chamado A Gloriosa, que era o point da moçada de então.
Eduardo gostava de cinema e fotografia, e eu já naquela época me interessava por escrever. Este foi o principal motivo da nossa aproximação, e as nossas conversas geralmente versavam sobre a tal da “ideia na cabeça e uma câmera na mão” decupada por Glauber Rocha, o realismo italiano, e a invasão da nouvelle vague e do cinema novo. Discutíamos de Eisenstein a Griffith e de Chaplin a Orson Welles, e eu cheguei a comprar livros sobre técnicas de direção e edição para melhor entender o assunto.
Daí nasceu a feliz ideia de fazermos um filme – chegamos de fato a fazer vários filmetes, que se perderam no tempo – onde Eduardo cuidaria da parte cinematográfica e eu ficaria com o roteiro e a parte cênica.
O filme, rodado no velho sistema dezesseis milímetros, foi chamado “A Busca e A Fuga”, baseado num conto-crônica que eu havia escrito alguns anos antes, e versava sobre a situação incômoda de um cidadão que não conseguia se ajustar à sociedade em que vivia.
O tema podia ser pretensioso, mas o filme, mesmo modesto, chegou a participar de alguns festivais de cinema amador, onde foi objeto de elogios precipitados dos amigos, de aplausos benfazejos dos entusiastas e de comentários desairosos dos críticos mais acerbados.
Como cenário para uma determinada parte da filmagem, nós escolhemos o pavilhão da Bienal do Parque Ibirapuera, que havia sido inaugurado em São Paulo em 1954 e estava vazio naquela ocasião, recebendo merecidos reparos naquele ano de 1967.
Suas características arquitetônicas com vãos livres enormes sem paredes internas, nascidos da concepção modernista de Oscar Niemayer, e o descortino de um horizonte arborizado naquele fim de tarde dariam a medida exata do que precisávamos em termos de enquadramento para provocar a sensação de solidão e fuga.
É claro que em preto e branco, por ser mais barato e mais cult.
Para lá nos dirigimos, eu com os meus projetos, Eduardo com seu equipamento, Sergio Martire – encarregado da fotografia – com seus medidores de intensidade de luz e seus conhecimentos técnicos, Élio Lammardo, uma espécie de assistente geral com seu entusiasmo e incentivo, e o nosso ator Luiz Carlos Gertel, um sujeito com cara de galã que era repórter da Radio Bandeirantes.
Subimos para o vão aberto do segundo andar e começamos a caminhar pelo piso deserto procurando o ponto mais conveniente para que Luiz Carlos começasse a atuar. A vastidão e o silêncio do cenário ajudavam a criar o clima Felliniano que desejávamos.

-0-

No meio de tanta brancura avistamos como que surgindo do nada um piano negro com a asa aberta, que crescia dentro do cenário emitindo acordes jazzísticos formidáveis. O som e a imagem que chegavam até nós, ao invés de quebrar o encantamento da cena, trazia uma aura de imponderabilidade, como se todo o ambiente tivesse de repente começado a flutuar.
Caminhei em direção ao piano, com o som do jazz agora ocupando todo o espaço, e num instante reconheci “How About You?” (Burton Lane e Ralph Freed), e por trás do instrumento ninguém menos do que Dick Farney, que também estava ali para uma gravação e naquele instante aquecia os dedos – conforme ele nos confidenciou.
Dick recebeu nossa intromissão com um semblante sorridente e a expressão levemente enigmática, uma extensão dos seus shows de jazz aos quais eu me habituara a assistir em algumas noites de quarta-feira no auditório de A Folha de São Paulo na Rua Barão de Limeira ou em alguma boate da região central da cidade.
A sua presença solitária naquela hora e naquele lugar parecia estranhamente etérea e conveniente.
Farney não perguntou o que fazíamos no seu território – a parafernália que trazíamos em mãos acho que era mais que suficiente para qualquer bom entendedor – mas isto não nos intimidou e logo travamos uma rápida conversa com ele.
Afinal, estávamos frente a frente com um dos músicos que ajudaram a escrever a história da música brasileira nos Estados Unidos e que fazia parte de uma revolução de ideias que culminaram com o advento da bossa nova dez anos atrás, usando como recurso apenas a sua voz e seu piano, como se isso fosse pouco.
Além de “How About You” Farney gravara standards famosos como “She’s Funny That Way” (Richard A.Whiting e Neil Moret), “These Foolish Things” (Jack Strachey, Holt Marvell e Harry Link), “What’s New?” (Johnny Burke e Bob Haggard) e “You Go To My Head” (J.Fred Coots e Haven Gillespie). A gravação de Farney feita nos Estados Unidos em 1947 para a música “Tenderly” (Walter Gross e Jack Lawrence) havia sido feita em primeira mão, antes mesmo das versões de Sinatra e Nat “King”Cole.  
Tudo isto sem prejuízo da discografia nacional do final da década de 1940 e de toda a década de 1950, com gravações que serviram de base histórica para o surgimento da bossa nova – “Perdido De Amor” (Luiz Bonfá), “Copacabana” (João de Barro e Alberto Ribeiro), “Nick Bar” (Garoto e José Vasconcelos), “Você Se Lembra” (Haroldo Eiras e Victor Berbara), “A Saudade Mata A Gente” (Antônio Almeida e João de Barro), “Um Cantinho E Você” (José Maria de Abreu e Jair Amorim), “Se O Tempo Entendesse” (Marino Pinto e Mario Rossi), “Somos Dois” (Armando Cavalcanti, Luiz Antônio e Klécius Caldas), “Ponto Final” (Alberto Ribeiro e José Maria de Abreu), “Outra Vez” (Antonio Carlos Jobim) e outras tantas maravilhas.
Dick Farney sempre se interessou pelo jazz e pelos clássicos americanos, tanto na voz quanto tocando piano, e seu debut na Radio Cruzeiro do Sul foi cantando a mais improvável das musicas – “Deep Purple” (Peter DeRose e Mitchell Parish), na época em que os cantores amadores se especializavam em Noel Rosa, Ary Barroso, Lamartine Babo e Assis Valente.
Ele apareceu na música brasileira no local e na hora certa – Rio de Janeiro, num momento em que a juventude carioca frequentava a Lojas Murray em busca do que havia de mais moderno em discos de jazz e standards – e provocou inclusive a criação do primeiro fan-clube de que se tem notícia no Brasil, o Sinatra-Farney Fan Club), que infelizmente durou apenas um ano.
                                                            -0-
 
A nossa filmagem se deu mais tarde, em um ponto distante de onde estava Dick Farney, pois não pude deixar de ficar estático durante alguns minutos me inebriando com o som daquele piano no fim da tarde.
E aquele som – “I like New York in June, how about you?... – acompanhou o nosso trabalho como uma benfazeja e inesperada trilha sonora.
Afinal, o filme era mudo, mas felizmente não era surdo...

 

 


sábado, 10 de outubro de 2015







DE PERNAS PRO AR 

O São Paulo F.C. sempre passou a imagem de ser um clube organizado e movido pelas boas regras da etiqueta.
Seus diretores são chamados pela imprensa e pela torcida de “cardeais”, e a sua postura sempre foi a de um clube que estava muito além do prosaico futebol.
Mas, igual com o que acontece com muitos milionários falidos, quer porque não se adaptaram às novas exigências do tempo, quer porque os filhos plantaram dissidências internas insuperáveis, o tricolor teve em seus dois últimos presidentes a quebra total do seu paradigma e começou a ostentar todos os barracos existentes nos seus rivais diretos no futebol tupiniquim.
Até que, em meio a uma crise financeira e a uma crise técnica que culminaram com a saída do treinador e o descontentamento de muitos jogadores do elenco, o que poderá ainda dar muito pano pra manga, o vice-presidente de futebol meteu literalmente a mão na cara do presidente do clube em uma reunião realizada num hotel chique da capital paulista, rompendo com uma lealdade construída em nome da governabilidade da agremiação e, de quebra, provocando a queda de todo o corpo diretivo.
Tem mais: na semana passada, durante uma partida disputada por uma liga amadora de Minas Gerais, um árbitro sacou de uma arma e ameaçou um jogador, só não atirando porque foi contido e dissuadido pelos próprios auxiliares e porque os jogadores, sabiamente, abriram espaço.
As coisas estão ficando de pernas pro o ar.
Isto lembra 1967, quando o jornalista João Saldanha se desentendeu com o goleiro Manga na festa que comemorava o título carioca na sede náutica do Botafogo, no Mourisco, e sapecou-lhe alguns tiros, fazendo com que o jogador pulasse um muro de três metros de altura (dizem), assustado, mas satisfeito com a má pontaria do João Sem Medo.
Mas isto aconteceu numa época em que o mundo não era ungido pelo espírito da paz e da fraternidade, como deveria ser hoje em dia.
No final do século passado, futurólogos, astrólogos, quiromantes e palpiteiros em geral teciam alvíssaras para o novo século que chegava, começando a contagem regressiva para a Era de Aquário, mesmo que ela viesse a explodir somente lá pelo ano de 2150.
A Nova Era, precedida por muita expectativa e tendo como aval a chegada ao século 21, preconizava a paz e um acelerado desenvolvimento cultural, social, científico e humanístico que iria colocar a humanidade em patamares nunca antes vividos.
Pois bem, o século 21 chegou, e parece que o planeta Terra tomou um porre tão marcante na noite do seu réveillon histórico que até agora não conseguiu encontrar o seu rumo.
A partir daí, o mundo, que já era complicado, desatinou de vez, quer seja pela vulgarização dos mitos, pelo culto à violência, pela ganância desenfreada ou pela busca insana por alguma coisa que ninguém sabe ao certo o que seja.
Nunca se matou tanto por tão pouco e nunca o homem foi tão refém do outro homem. Nunca a natureza foi tão maltratada.
As notícias absurdas, algumas inéditas, se sucedem. Somente nos últimos dias a força militar americana bombardeou um hospital humanitário no Afeganistão, o governo sírio auxiliado pelos russos desencadeou um bombardeio sem precedentes no seu próprio território e, na França, operários demitidos de uma montadora automobilística tentaram linchar toda a diretoria.
No Brasil, o motorista de um senador agrediu um deputado durante um desentendimento causado no estacionamento do Congresso.
Parece que ao invés da era de Aquário nós estamos entrando da Era do Apocalipse.
Com todos estes indicadores, o esporte não poderia ficar de fora.
Espocam escândalos em todas as áreas e em todos os países. Nunca antes tantos dirigentes sérios e sisudos forem desmascarados como escroques e nunca os esportistas se doparam tanto.
E diretores de clubes tradicionais, que estão no cargo para manter o equilíbrio e dar tranquilidade aos jogadores e esperança aos torcedores, trocam tapas entre si como numa briga de rua.

 

 

(Artigo publicado no caderno SuperEsportes do jornal O Imparcial de 09/10/2015)

 

terça-feira, 6 de outubro de 2015





                                                            EU E A MÚSICA

TRÊS ATOS COM BILLY PAUL
(360º de Billy Paul)
Existem certas coincidências que acontecem na vida da gente que valem a pena ser lembradas, por insólitas que são.
A marchas e contramarchas da vida me levaram a conhecer o pacato e venerando cidadão Paul Williams, hoje com respeitáveis oitenta anos, na época em que ele era cenicamente conhecido como Billy Paul, um divertido e versátil cantor e um artista de grande talento, utilizando com maestria a sua voz e o seu corpo a serviço da black music, com muito soul, funk e swing.
Não fossem, porém, as ditas coincidências puramente circunstanciais, eu talvez nunca tivesse assistido a um show seu nem tivesse tido a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente.
O fato é que, sem nunca ter procurado pelo seu show e sem jamais ter gasto sequer um tostão com ingressos, acabei, ao longo de vinte anos, assistindo não a um, mas a três shows de Billy Paul. 
A primeira vez em que Billy Paul veio ao Brasil, no início dos anos 1970, eu ainda morava em São Paulo e tinha uma legião de amigos que eram, à sua moda, envolvidos com música – proprietários e atendentes de lojas de discos, divulgadores de gravadoras, cantores de boates e relações públicas de artistas.
Dercy Gonçalves, homônimo da comediante e às vezes tão engraçado quanto ela, era divulgador da gravadora Continental e estava preocupado com a entrevista coletiva que Billy Paul daria à tarde num hotel da cidade. Em virtude de eventos paralelos, o intérprete contratado pela gravadora e pela Rádio Bandeirantes, parceira no evento, não poderia estar presente, então Dercy lembrou-se de mim, um amigo que “arranhava” o inglês e que poderia ajudar na coletiva com as perguntas de praxe e a posterior tradução.
A irresponsabilidade é muitas vezes companheira da criatividade e do sucesso.
Para o bem geral de todos, a coletiva não apenas transcorreu de uma maneira melhor que o esperado como deixou os promotores muito satisfeitos. Billy Paul também se divertiu bastante com a entrevista improvisada, ou pelo menos assim me pareceu.
É bem verdade que ele estava praticamente iniciando a sua carreira internacional e que tudo lhe parecia novo e interessante, e que naqueles tempos românticos estes assuntos técnicos não eram tratados com o rigor de hoje em dia.
Ao término da entrevista, a produção do show agradeceu a minha participação e me deu, provavelmente à guisa de pagamento, ingressos para “o show de logo mais à noite”.
Assim eu, que até então nunca tinha sequer ouvido falar de Billy Paul, fui pela primeira vez a um espetáculo seu, realizado no Teatro Paramount, sendo apresentado aos seus sucessos “Me And Mrs. Jones” (Kenny Gamble e Leon Huff), “Your Song” (Elton John), e “It’s Too Late” (Carole King), com os quais fiquei imediatamente encantado.
O tempo correu e desembocou na década de 1980.
Certo dia estava eu fazendo nada no estúdio da Rádio Mirante-FM em São Luís-Maranhão,  quando o locutor César Roberto, que também provavelmente fazia nada, posto que o seu programa já havia terminado, perguntou se eu “aguentaria uma dose de música pop num show que aconteceria à noite” (era uma pequena provocação, ou então uma cândida tentativa de fazer piada, porque minha atividade na emissora era produzir e apresentar música de jazz).
Quando retruquei que “dependia do show”, ele foi mais explícito – tratava-se de soul music, com um dos grandes nomes internacionais do estilo, Billy Paul. César Roberto havia recebido alguns ingressos da produção do cantor para distribuir entre o pessoal da radio.
Deliciado com a coincidência, pois o show seria um revival daquela noitada alegre do Paramount, é claro que concordei, e à noite fomos nos acomodar nas cadeiras ordenadamente distribuídas na quadra de tênis descoberta do Hotel Quatro Rodas.
Era noite de lua cheia – ou plenilúnio, como diriam os parnasianos – e o céu dos trópicos cintilava de estrelas. A brisa suave que vinha do mar a poucos metros do local não conseguia refrescar o calor emanado pelo show, e o cheiro da maresia era atenuado pelo sabor da cerveja comprada dos estandes ao redor ao pista e pelo leve odor do perfume usado pelo público que estava mais chique do que o evento exigia.
Billy Paul, que naquela noite estava extraordinariamente animado, desceu do palco para cantar e dançar no meio da plateia, que naquela altura arrastou as cadeiras do lugar e transformou a quadra de tênis numa autêntica discoteca ao ar livre.
Aproveitei para conversar com Billy e comentar sobre o evento da Radio Bandeirantes em São Paulo, do que ele evidentemente não se lembrou, mas gentilmente fez de conta que havia me reconhecido.
Mais uma década se passou.
Eu estava novamente em São Paulo, desta vez cuidando da edição do meu livro “Jazz – Das Raízes Ao Pós Bop”, quando meu amigo Eduardo Sérgio Fracalanza convidou-me para jantar, após o que iríamos a um show de jazz na casa mais conceituada da cidade.
Depois de uma excelente anchova na manteiga com amêndoas, regada por uma cerveja geladíssima (e não por um bom vinho, como o maître queria), partimos para o Bourbon Street para afinal descobrir que naquela noite especial não teríamos o tradicional jazz do local, mas uma apresentação de... Billy Paul!
O repertório não havia mudado muito nos últimos vinte anos e não faltaram os seus velhos sucessos – afinal, era o que o público queria ouvir – e Billy continuava bastante jovial.
Com a nossa mesa relativamente longe do palco, poupei a ele a gentileza de mais uma vez “se lembrar” dos nossos encontros anteriores.  
Mas contei a Fracalanza a singularidade da minha relação com o pop-star.

 

segunda-feira, 5 de outubro de 2015





EU E A MÚSICA
                                                   PARADA DE SUCESSOS!
Estranhamente, para uma crônica que se propõe comentar aventuras musicais, falar sobre futebol parece francamente uma excrescência, embora vozes saudáveis costumem muitas vezes relacionar as duas coisas e eu próprio ter como atividade cultural tanto uma coisa – música – como a outra – futebol – nas minhas digressões literárias.
Assim, num certo dia de 1953, um rapaz de pernas tortas, a quem chamavam de Garrincha – possivelmente pelo seu hábito de, desde criança, caçar passarinhos do mesmo nome – entrou no gramado de treino do campo do Botafogo, lá na Rua General Severiano.
Garrincha foi escalado para jogar na ponta-direita, num espaço de campo defendido por um lateral de nome Nilton Santos, que desde 1948 reinava absoluto no Botafogo e pintava na seleção brasileira, e que viria a ser chamado enfaticamente de “A Enciclopédia”, pois sabia tudo de futebol.
Garrincha não se importou nem um pouco com a fama do seu adversário e começou nesta mesma tarde a sua campanha mundial de desmoralização dos marcadores que a partir de então, até meados dos anos 1960, teriam a infelicidade de enfrentá-lo.
Dizem aqueles que viram o famoso Nilton Santos tomar um grande baile sem música daquele novato desengonçado, que ao término do treino o lateral foi o primeiro a recomendar a sua contratação ao então presidente Ibsen de Rossi.
Considerando que este duelo aconteceu num treino sem maiores pretensões, num dia de semana sem qualquer significado especial e cercado de nenhuma expectativa, a quantidade de gente que garante ter estado presente é assustadora, pois de longe suplantaria a lotação do estádio, que era de vinte mil pessoas.
Este prólogo vem a calhar quando se fala do nascimento da bossa nova.
Aqui não se trata de vinte mil, mas de vinte milhões de brasileiros que de uma maneira ou de outra contam como vivenciaram o evento e como as suas vidas mudaram a partir de então.
Parece que todos passaram por uma experiência semelhante à que eu passei ao serem apresentados à novidade que estremeceria as bases da cultura musical brasileira e modificaria o seu futuro de forma definitiva.
Meu relato é semelhante a milhares de relatos correlatos e a sensação de que algo de muito importante estava acontecendo com a música brasileira é compartilhada com estes milhares de felizardos.
Era 1958, talvez agosto, talvez setembro. Meio-dia.
O sol brilhava, o céu estava colorido de um azul radiante, o Brasil ainda estava eufórico com a conquista da Copa do Mundo na Suécia em junho e tudo parecia cor-de-rosa.
Eu estava no pequeno jardim da minha aconchegante casa no bairro da Aclimação, em São Paulo, que era cercado por um gradil baixo de madeira no estilo Hollywood, com o portãozinho acolhedor para as visitas bem intencionadas; algumas florezinhas bem distribuídas salpicavam o verde de amarelo, rosa e violeta, enquanto lá na cozinha, nas mãos da cozinheira minha mãe, o feijão exalava seu perfume generoso.
O aparelho de rádio – uma portentosa peça do móvel conjugado rádio-e-vitrola dotada de um moderníssimo olho mágico verde-esmeraldino – estava ligado, como sempre acontecia nessa hora, no programa “Parada de Sucessos”, transmitido pela Rádio Nacional de São Paulo, que apresentava as músicas mais tocadas e os discos mais vendidos da semana, na voz vibrante de Hélio de Alencar.
O bordão, anunciado ao som de “Saint Louis Blues” tocado pela orquestra de Glenn Miller era – “Paraaada de Sucessosss! – um desfile das músicas que o povo consagraaa! – patrocínio Lojas Assumpção, uma loja em cada bairro para melhor servir você!” – e servia de cenário para 10 caprichados hits da época, entre eles “Balada Triste” (Dalton Vogeler e Esdras Silva) com Agostinho dos Santos, “Escultura” (Adelino Moreira e Nelson Gonçalves) com Nelson Gonçalves,  “Interesseira” (Bidu Reis e Murilo Latini) com Anisio Silva, “Meu Mundo Caiu” (Maysa) com Maysa, as internacionais “Cachito” (Consuelo Velásquez) com Nat ‘King’ Cole, “You Are My Destiny” (Paul Anka) com Paul Anka, e as versões “Love Me Forever” (Beverly Guthrie e Gary Lynes) com Lana Bittencourt, “Patrícia” (Pérez Prado) com Emilinha Borba e “Diana” (Paul Anka) com Carlos Gonzaga.
Uma selva bastante diversificada, como se vê, reunindo no mesmo pacote sambas-canções, baladas, boleros e a pop music da época.
Esta diversificação de certa forma incomodava uma certa parcela de jovens que, como eu, se interessavam pelo jazz ou por um tipo de música que contivesse uma mensagem que fosse poética e harmonicamente diferenciada – Sylvia Telles, Os Cariocas, Dick Farney, Lucio Alves, Johnny Alf, Chet Baker, Barney Kessell, April Stevens, Julie London, The Hi-Lo’s – fugindo das estruturas comuns, das paixões desesperadas, dos dós de peito ou das rimas pouco sutis.
A gente sabia, no entanto, que estas músicas não vendiam o suficiente para estar numa parada de sucessos e cada qual se contentava em curti-las no seu ambiente particular.
Eu e a minha turma, por exemplo, ingeríamos altas doses de boa música – e um outro tanto de gim-tônica – no recôndito do nosso garage club, batizado com o sugestivo nome de Bop Street, nome de uma música gravada pelo grupo de rock “Gene Vincent & seus Blue Caps”. Ou então nos revezávamos nas casas de outros amigos para ouvir as novidades que faziam bem para os ouvidos e para o espírito.
De volta àquela hora de almoço que iria mudar a história do mundo, as músicas apresentadas no programa eram anunciadas na ordem inversa, começando pelo décimo até chegar ao primeiro lugar, com Hélio de Alencar gritando bem ao seu estilo: “Em décimo lugarrr – Chega de Saudade, João Gilberto, uma novidade em primeira mão!!!”.
João Gilberto? Quem seria? Que diabo de música seria essa?
A resposta veio em seguida, e a partir daí a música brasileira nunca mais foi a mesma: a flauta mágica de Nicolino Copia, o Copinha, começa a introdução que me deixa estático em frente ao portão. Não é samba, não é choro, não é samba-choro. O violão acompanha com uma batida nunca antes utilizada, com uma divisão estranha adornada por acordes dissonantes, funcionando como um suave acolchoado para acomodar as notas da flauta.
De repente surge a voz, intimista como Chet Baker, preguiçosa como um solo de Lester Young, clara, nítida e articulada como Sinatra, e emitida como um sopro, como a voz de Julie London, sem o menor esforço.
Pronto, acabei de ser apresentado a João Gilberto, que descobriria mais tarde tratar-se de um gênio, não devido à minha avaliação, mas a um conceito universal que regula o bom gosto musical.
Nos próximos dez anos ele iria tomar conta do mundo e seria considerado uma unanimidade nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, pelo seu modo de interpretar e de tocar violão. Músicos de jazz e da música standard se curvariam à sua maneira não convencional e absolutamente discreta de mostrar a sua arte.
No Brasil, surpreendentemente, existe um divisor de águas entre aqueles que o idolatram – pela sua genialidade – e aqueles que o desprezam – quer por não entenderem seu modo de interpretar quer por estranharem sua maneira de interagir com o público.
Almocei às pressas o feijão da minha mãe com todos os acompanhamentos, saí de casa, apanhei o trolleybus e fui ao chamado centro da cidade – Rua Barão de Itapetininga – em direção à loja Breno Rossi para adquirir no ato o disco “Chega De Saudade” (Antonio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes), com João Gilberto, sua voz e violão em 78 rotações, selo Odeon, arranjos e direção musical de Antônio Carlos Jobim (como no caso de Copinha, vim saber deste detalhe muito depois), o que colaborou com a genialidade da gravação; no lado B, “Bim Bom” (João Gilberto). O LP seria lançado em 1959 incluindo outras preciosidades, como “Desafinado” (Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça), “Lobo Bobo” (Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli) e “Brigas, Nunca Mais” (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes).
Esta é a história que, mutatis-mutanti, teve o efeito da chegada do Anjo da Anunciação para os ditos milhões de pessoas que incluem a mim, a minha turma da Bop Street, a turma carioca do Sinatra-Farney e do Dick Haymes-Lucio Alves Fã Clubes, Roberto Menescal, os amigos do jazz, o pessoal de Ipanema e outros bem-aventurados que sentiam estarem sendo abertas naquele momento as portas do Reino do Céu.

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015






COM JEITO VAI 

“Vai com jeito, vai, senão um dia a casa cai...” – já dizia uma marchinha carnavalesca de Braguinha, também conhecido por João de Barro, gravada por Emilinha Borba em 1956.
A letra da marchinha dizia respeito a uma garota sapeca que aceitava convites festivos de namorados também sapecas, e acabou servindo de alerta aos desavisados para que cuidassem do seu comportamento profano porque quando menos se espera a casa que pensávamos ter erigido sobre uma rocha foi construída em terreno arenoso, e cai (Mateus 7.24.27).
Ir das delícias da opulência para o amargor do inferno é apenas uma questão de tempo.
José Maria Marin partiu direto de um dos melhores hotéis de Zurich para  uma das melhores prisões da Suiça – Dielsdorf, Limmattal, Pfäffikon, Meilen, Winthertur, não se sabe ao certo – porque foi pego com a boca na botija com outros sete dirigentes ligados à Fifa, num processo movido pela justiça dos Estados Unidos. Na agenda, irregularidades e corrupção na escolha das sedes das Copas do Mundo de 2018 e 2022 e contratos de exclusividade para a transmissão dos jogos.
O atual presidente da CBF Marco Polo Del Nero teve que declinar de um convite para se reunir com outros presidentes de confederações também na Suíça para discutir sobre a reforma da entidade e sobre as novas eleições para substituir o atual presidente Blatter, porque se ele sair do Brasil poderá ter o mesmo destino do seu antecessor. Os americanos denunciam que Del Nero dividiu propina com Marin e Ricardo Teixeira, e a desistência da viagem é a maior prova que algum crime foi cometido.
Na semana passada foi a vez do poderoso Jérôme Valcke, afastado de suas funções de super-secretário geral da entidade por suspeita de ter participado de um esquema de venda ilegal de ingressos para a Copa 2014. Possivelmente a sua ida para a cadeia seja apenas uma questão de tempo.
No olho do furacão se encontra atualmente o presidente Joseph Blatter que tem a sua possível participação na bandalheira investigada, com fortes indícios de negociações espúrias com a Concacaf.
Esta semana foi a vez de dois outros ilustres caírem na malha da investigação: o ex-craque Michel Platini, atual presidente da UEFA – União das Federações Europeias de Futebol e virtual candidato a substituir Blatter na presidência da Fifa, e o atual craque Neymar junto com a sua sagrada família.
Platini está sendo acusado de ter recebido 2 milhões de dólares de Blatter de forma irregular – um fato curioso, pois pelo que se sabe ambos são inimigos cordiais, pois o francês sempre que possível dá as suas alfinetadas no presidente da Fifa, tendo inclusive sugerido a sua renúncia ou destituição.
Já Neymar, juntamente com seu pai, seu agente, o Santos e o Barcelona, está sendo investigado por apropriação indébita e crimes fiscais, além de corrupção e fraude em fundos de investimentos, e isto poderá dar muito pano pra manga.
O jogador já acusou o golpe, pois após ter recebido a notícia teve uma atuação apagada contra os alemães do Leverkusen pela fase de grupos da Liga dos Campeões.
Do lado de cá do Atlântico, emanam de Curitiba mandados de prisão a torto e a direito, punindo cidadãos aparentemente acima de qualquer suspeita – políticos, empresários, administradores públicos – por terem ultrapassado a linha da decência, da ética e da moralidade.
Na verdade, este tipo de infração, em maior ou menor escala, sempre existiu. No futebol, o jornalista britânico Andrew Jennings há muito denuncia a corrupção na Fifa, e em outros campos de atividades sempre houve suspeita de falta de lisura em contratos, transações e movimentações financeiras.
Nada parecido, no entanto, com as descobertas acontecidas no século 21, o século da lavagem da roupa suja.
Os desavisados perderam o medo e a compostura, e agora começam a pagar pelos seus pecados.
Assim, as casas vão caindo, e não foi por falta de aviso.

 

(artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 02/10/2015)

 

 

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015







 ECOS DO 7º LENÇÓIS JAZZ & BLUES FESTIVAL

São Luís não tem o hábito de comentar espetáculos artísticos depois que o evento termina. É como se as emoções também fizessem as malas e partissem junto com os artistas que fizeram a cena.
Se por um lado isto pode evitar o constrangimento do redator quando ele precisa comentar os às vezes inevitáveis equívocos ocorridos, por outro lado deixa de manter viva a chama que aqueceu o público por algumas horas e que corre o risco de jamais ser acendida novamente.
Assim, é necessário que se faça um registro para a posteridade.
O 7º Lençóis Jazz & Blues Festival realizado em São Luís foi sem dúvida um dos pontos altos da qualidade musical levada aos palcos da cidade em 2015, posto que reuniu em dois dias, no mesmo local, seis atrações que a cidade terá dificuldade em rever, tal a importância dos músicos e das suas agendas lotadas. Não vou comentar a etapa Barreirinhas, igualmente vitoriosa – que contou com astros internacionais, nacionais e locais – porque não estive lá presente. Deixo a tarefa para um comentarista que possa resumir em palavras o encanto das noites de jazz naquele paraíso.
Mas de Barreirinhas me restou uma conversa descontraída com o pianista Darrell Lavigne, que lá havia se apresentado na semana anterior e veio para São Luís para ministrar um workshop sobre Creole Music e dar algumas pinceladas sobre a música e a cultura de New Orleans, uma prova do amadurecimento do Festival, cujos organizadores merecem o meu aplauso.   
Em São Luís a produção foi também muito feliz não apenas na escolha dos convidados, mas também na sequência que foi estabelecida em ambas as noites do festival, sempre iniciando com uma apresentação jazzística moderna para aquecer as turbinas do bom gosto, passando pela brasilidade da bossa nova para convidar o público a cantar com os artistas e terminando com um mexe-remexe frenético que incluiu elementos do jazz & blues na música mágica dos Beatles e no mais puro black & soul music que convidou o público a deixar as cadeiras de lado e cair na dança.
Tudo começou na noite de sexta-feira, 25 de setembro.
No palco, a primeira atração – o André Marques Sexteto – um grupo que decolou numa viagem maravilhosa e inovadora, misturando sons nordestinos como o baião e pitadas do bumba-meu-boi com o que há de mais progressivo no jazz contemporâneo. André é um gigante de pouco mais de um metro e meio de altura, mas a sua tímida simpatia o faz crescer ainda mais. 
A sonoridade forte dos metais – trombone e trompete – em contraponto com a singeleza das notas do piano e uma criativa inversão entre melodia e harmonia deu a tônica da apresentação do grupo.
O tempo recuou mais de cinquenta anos para dar passagem à bossa cheia de estilo de Roberto Menescal e Wanda Sá, fazendo o público navegar ao som de O Barquinho, Rio e outras composições do par perfeito Menescal & Boscoli e outros compositores que também foram premiados com o passar do tempo.
Menescal é como o vinho, e um vinho muito especial, cujo sabor se encorpa nos nossos ouvidos a cada taça tomada, a cada música executada.
A alegria e o companheirismo mostrados pelos Blues Beatles ainda nos camarins se transferiu para o palco, misturando irreverência e descontração, e revelando uma boa dose de blues com fortes citações dos elementos sonoros da banda de Liverpool.
Donos de uma forte presença de palco e liderados por um vocalista que irradia energia, a banda encerrou a noite num clima de alto astral, deixando antever mais curtição da boa para a noite de sábado.
Sábado chegou, e quem foi à Praça Maria Aragão não se arrependeu.
Começando com o pianista Gadi Lehavi, um menino de dezenove anos nascido em Israel e residente do mundo, que encantou com uma técnica apurada e uma simplicidade emocionante. Seu parceiro, o veterano e competente baixista brasileiro Paulo Russo valorizou in extremis a sua performance musical.
Entre canções jazzísticas interpretadas com rara inspiração, Gadi tocou Pixinguinha e Cartola e também tocou os corações de quem estava presente, num momento de puro encanto, fazendo o público delirar.
Na sequência tivemos a categoria e o carisma de Daniel Jobim, neto de Tom, que levou para o palco a imagem, a voz e os acordes do avô, num momento belo e introspectivo, pois se resumiu exatamente a isso – piano, voz, e uma imagem que lembrava o velho Tom de terno preto e chapéu Panamá, como era do seu feito. “Passarim quis voar”, e desta vez voou para o alto do Corcovado. Sua modéstia cativou a todos, na plateia, no palco e nos camarins.
Faltou o charuto, mas deixa pra lá.
A noite chegou ao seu clímax com os Serial Funkers que abusaram do estilo black não apenas nas músicas como também no look. Comandados pelo cantor Regis Paulino, os Funkers também botaram o pessoal para dançar, esbanjando vitalidade, criatividade nos arranjos, competência e, sobretudo negritude, qualidade essencial para quem deságua na leitura soul, black e funk.
O festival chegou ao fim com aquele gosto de “quero mais”.
Quem perdeu, perdeu.

sábado, 26 de setembro de 2015







COMEÇAR DE NOVO 

A seleção brasileira foi novamente convocada, desta vez para começar a luta pela classificação para a Copa do Mundo de 2018, a ser disputada na Rússia.
As Eliminatórias sul-americanas terão a participação de dez países, sendo que os quatro primeiros estarão classificados automaticamente e o quinto colocado ainda terá uma chance de disputar uma repescagem contra um representante do continente asiático.
Cada seleção disputará nove jogos em casa e nove no campo dos adversários, o que torna aparentemente mais confortável a trajetória do Brasil e da Argentina, times muito difíceis de ser vencidos quando atuam nos seus próprios domínios.
No entanto, dada a atual turbulência por que passa o futebol brasileiro, todo cuidado é pouco.
Depois de ficar em quarto lugar na Copa 2014 disputada em casa, o Brasil tem a oportunidade e a obrigação de se redimir diante da sua torcida e diante do mundo, que perdeu a confiança na tão decantada qualidade do “melhor futebol do mundo”.
A lista de Dunga não apresenta grandes novidades depois dos amistosos contra Costa Rica e Estados Unidos, e nem poderia ser diferente.
Na verdade, com a impossibilidade de contar com Neymar e Daniel Alves, mais alguns lesionados menos importantes, Dunga não está buscando uma formação com novos nomes, está simplesmente contando com o que existe no mercado, mesmo tentando dar uma cara renovada à seleção.
A safra não é muito encorajadora, pois dos vinte e três nomes da lista temos no máximo seis jogadores que poderiam ser realmente considerados numa convocação séria, se não como titulares absolutos, pelo menos para compor o grupo.
Mas o grande problema da seleção não são exatamente os jogadores.
O grande problema é que o mundo evoluiu e a gente continua jogando o mesmo futebol de vinte anos atrás.
O leitor dirá que neste interregno nós ganhamos uma Copa – 2002 – mas então nós tínhamos jogadores melhores que esses que estão aí, e tivemos nosso trajeto facilitado por enfrentarmos seleções sem expressão, além de uma ajudazinha aqui e ali da arbitragem contra a Bélgica e contra a Turquia.
Vencemos a Alemanha na final, é certo, mas o nosso esquema de jogo já se mostrava em declínio.
Se o leitor analisar bem, verá que a coisa não mudou muito em termos de ordem tática: naquele tempo havia a chamada “ligação direta” com chutões da defesa para a correria de Ronaldo, que fazia valer a sua técnica e o seu vigor para, com a ajuda de Rivaldo, criar o pânico na defesa adversária. Hoje o chutão vai em direção de Neymar.
Como Neymar não joga as duas primeiras partidas, a eficiência desta jogada fica um tanto comprometida.
O futebol hoje em dia pode ser resolvido até sem a necessidade de um craque; basta que os jogadores tenham um nível razoável, assimilem a noção de conjunto, ocupem todos os espaços e se movimentem constantemente. E tenham um bom preparo físico para correr 120 minutos se necessário.
O grande problema para estes jogadores, no entanto, é a deficiência nos fundamentos: os atacantes se atrapalham na hora do gol e os defensores se confundem no posicionamento, deixando vazios para que um avante esperto chegue para definir.
Os técnicos estrangeiros estão alguns anos à frente dos técnicos brasileiros – e a gente pode sentir isto claramente apenas observando qualquer partida de uma liga europeia e as partidas disputadas pelos times da Séria A do Campeonato Brasileiro.   
Além disso, o prestígio da seleção também anda em baixa.
Depois de Diego Costa, que no ano passado trocou o Brasil pela Espanha, chegou a vez de Rafinha, lateral do Bayern Munich. Convocado por Dunga, e sabedor de que na cotação do treinador está atrás de Daniel Alves, Danilo e Fabinho, preferiu a Alemanha, onde depois que se naturalizar poderá eventualmente ser o substituto do lendário Philipp Lahm, que se aposentou da seleção.

 

 

 

(Artigo publicado no caderno SuperEsportes do jornal O Imparcial de 25/09/2015)

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015







OLHO NO LANCE! 

Os torcedores do século passado que assistiam futebol pela TV devem se lembrar de um dos bordões televisivos criados pelo locutor esportivo Silvio Luiz para animar a narração sempre que havia alguma jogada com perigo iminente de gol.
“Olho no lance!!! – gritava ele.
O título deste artigo não se deve, porém, a uma homenagem ao velho narrador – que aos 81 anos ainda se encontra na ativa – nem faz uma simples visita ao passado. Ele se deve a uma esperança futura.
Pelo andar da carruagem – eis aqui outras pérolas do Silvio – está chegando a hora de soltar um grito na garganta e conferir no replay.
Finalmente alguém está se mexendo a fim de modernizar a arbitragem do futebol e utilizar a tecnologia para corrigir as tão frequentes distorções do homem do apito, mesmo que por enquanto fique apenas nos torneios e campeonatos principais.
E a frase “Olho no lance!” tem um significado duplo porque, caso a proposta seja aprovada, o futebol passará a contar com um olho muito especial e imparcial, posto que eletrônico, para analisar os lances polêmicos do jogo.
É uma conquista dos torcedores, dos jornalistas, das redes sociais e das pessoas de bom senso, que estão fiscalizando com mais atenção as atitudes dos poderosos.
Na sua edição de domingo último, o caderno SuperEsportes de O Imparcial trouxe a notícia em primeira mão para fazer companhia ao aperitivo que acompanha a leitura do jornal e antecede o almoço familiar.
A CBF acabou cedendo às reclamações dos clubes das Séries A e B, que a cada rodada se veem prejudicados por erros grosseiros de arbitragem, e está criando um projeto a ser aprovado pela Fifa para a adoção de recursos tecnológicos na arbitragem brasileira a partir de 2016, quiçá alcançando depois uma abrangência mundial.
O projeto está a cargo do ex-árbitro Manoel Serapião Filho, atualmente diretor da Escola de Arbitragem.
Antes de entrar nos detalhes do plano da CBF, vale a pena lembrar que não é de hoje que as coisas da arbitragem são vistas com muita preocupação, e que no Brasil já aconteceram muitos casos nebulosos que chegaram a decidir campeonatos sem que houvesse uma condição de direito de que o erro fosse consertado.
Em pelo menos duas vezes os fatos se transformaram em escândalo e foram levados aos tribunais – em 1982, com a Máfia da Loteria Esportiva e em 2005, com o affair Edilson Pereira de Carvalho. E deve ter muita coisa escondida debaixo do tapete.
É de se imaginar que num país onde se descobre que a corrupção corrói as entranhas de órgãos do governo, de empresas estatais e de grandes grupos empresariais, o esporte não esteja imune. Então, qualquer dispositivo que seja criado para acabar, ou pelo menos minimizar com os malfeitos de arbitragem será imensamente bem-vindo.
Afinal, como bem disse o poeta Guimarães Rosa, “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”.
Não é a primeira vez que alguém levanta esta bandeira. Desde a época de João Havelange, muitos clubes e jornalistas sugeriam para que recursos extracampo fossem utilizados para auxiliar a arbitragem e fazer resultados mais justos.
Naquele tempo a tecnologia era precária, mas mesmo assim teria sido possível evitar muita injustiça se uma comissão de notáveis pudesse ter criado um plano adequado para o momento.
Mas Havelange sempre foi contra a ideia por achar que “o futebol perderia a sua graça se não houvesse polêmica”, uma declaração própria de quem está no comando de muita bandalheira, como veio a ser provado recentemente.
A Fifa, com sua tradição secular, também sempre se mostrou contra, e o assunto tem sido página virada nas reuniões dos velhinhos da International Board, que sempre acabam com muitos tapinhas nas costas, charutos e chá com rosquinhas, mas poucos resultados de ordem prática. 
A sugestão de mudança propõe a criação de um árbitro adicional denominado Árbitro de Vídeo, que pode informar ao árbitro de campo eventuais incorreções não assinaladas ou assinaladas erroneamente após rever o lance algumas vezes pelo replay através de diferentes câmeras.
O Árbitro de Vídeo terá a atribuição de corrigir erros técnicos e disciplinares gritantes que possam alterar o resultado ou o desenvolvimento de uma partida.
Em tempo de televisão e de câmeras “Big Brother” espalhadas a torto e a direito, este sistema será um divisor de águas, servindo também como professor de arbitragem para os árbitros mal preparados ou mal intencionados.
É a tecnologia a serviço da transparência e da honestidade.   

 

 

 

 

(artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 18/09/2015)