quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

 


ATENTOS, POIS!

(Augusto Pellegrini)

É engraçado como as coisas mudam
E como as coisas mudam as pessoas
Conheço gente que foi respeitável
Mas que depois de uma longa vida estável
Se transformou num reles coisa-à-toa

É interessante como a gente aguenta
Mas à medida que a paciência esgota
Notamos quão enganados já fomos
E estes enganos viram desenganos
Pois nos sentimos míseros idiotas

É bom olhar de perto com uma lente forte
Aqueles que se fazem de cordeiros
Pois quando surge a hora da vantagem
Eles, do alto da sua gatunagem
Nos fazem de idiotas por inteiro

É importante ficar sempre atento
Porque o inimigo age na surdina
Propõe maciamente os seus projetos
Se faz de amigo, mas é só um esperto
Com a intenção de ver nossa ruína

Por isso, cidadãos, conclamo a todos
Muita atenção para o que vai em sua volta
Passando um pente fino nos sujeitos
Que se fazem de mais do que perfeitos
Se precavendo assim de uma derrota

Te afasta, belzebu, com esse sorriso falso
Fica longe de mim, que eu te esconjuro
E leva o teu veneno e o hálito da morte
Deixe-me procurar por uma luz bem forte
Pra me livrar de vez do teu escuro

Dezembro 2018

 

domingo, 13 de fevereiro de 2022

 


A MEIA MELANCIA
(Augusto Pellegrini)
 

           O sujeito com cara de infeliz foi a uma frutaria para comprar melancia. A bem da verdade, ele queria apenas a metade de uma, mais que suficiente para a sua necessidade de consumo.

            O atendente que o atendeu era uma espécie de troglodita cheio de músculos, piercings e tatuagens que foi logo deixando claro que “nós não vendemos meia melancia, só inteira”. E ponto final na conversa.

            ”Mas uma melancia inteira é muito para mim, eu só preciso da metade” – lamuriou o sujeito com cara de infeliz.

            “Não vendemos meia melancia!” berrou o casca grossa. ”Se quiser, vá falar com o dono, que está lá dentro”, apontou uma porta e fundo com a papada do queixo.

            E lá foi o sujeito, aceitando a sugestão e entrando na sala da chefia decidido a mudar o resultado o jogo.

            “Bom dia! Eu queria comprar meia melancia, mas o animal com cara de gorila que me atendeu disse que vocês não vendem a metade da fruta...” – e, olhando por cima do ombro viu que o troglodita estava bem ali, ao seu lado, com cara de poucos amigos.

            Lépido e ligeiro mudou imediatamente o discurso – “e este ‘cavalheiro aqui presente’ muito gentilmente me orientou para falar com o senhor...!    

           

 

sábado, 12 de fevereiro de 2022

 


PONTOS DE VISTA
(Augusto Pellegrini)

Filinto Querubim, um político popular, mas no afã de ser ainda mais popular, se isolou nos cantões do Himalaia a fim de aprender com os antigos monges algumas práticas e filosofias que o pudessem diferenciar dos outros políticos.

Entre outras coisas transcendentais, ele aprendeu a levitar e a exercitar o antinatural e o ilógico.

Depois de um longo período de hibernação e isolamento, ele voltou para o seu país e se dedicou com afinco a disputar uma eleição importante na sua cidade, na verdade um lugarejo perdido a quatrocentos quilômetros da capital.

Como em todo período eleitoral, a troca de farpas entre os candidatos, os membros dos partidos dos candidatos e os simpatizantes dos candidatos e dos partidos dos candidatos era feroz.

Obedecendo a uma estratégia de marketing que ele aprendeu não com os monges, mas com os coaches ferozes em palestras sobre gestão de cargo político, Filinto resolveu chocar a patuleia e simplesmente caminhar sobre as águas do lago que adornava a praça!

Isto posto, convocou a imprensa, os correligionários e a populaça em geral para assistir a sua performance que seria executada às seis horas da tarde, depois das badaladas da Virgem Maria.

Dito e feito.

Logo depois das seis Filinto Querubim colocou um terno todo branco para melhor contrastar com o negrume do lago ao crepúsculo e – fantástico! – adentrou as águas e caminhou alguns metros sobre ela. Depois, girou nos calcanhares e voltou calmamente sem perder a concentração, galgando a terra firme sem maiores dificuldades ou sequer molhar a barra da calça, para começar o seu discurso messiânico.

Comoção geral! Isto não é possível, deve haver alguma artimanha circense, como aquelas usadas por prestidigitadores e ilusionistas – porém nada foi encontrado, nem uma corda. nem um arame, nem um tablado, nem um parceiro, nada que indicasse um ardil.

No dia seguinte, os jornais publicaram fotos e textos sobre o milagre, encimando a primeira página com manchetes do tipo “Incrível! Filinto Querubim caminha sobre as águas do lago” e “Candidato, Filinto Querubim cumpre o que promete” (essa, do diário que apoiava a sua campanha).  

O jornal da oposição simplesmente noticiou a seguinte manchete: “Querubim provou que não sabe nadar”.

Sem quaisquer fotos ou maiores comentários.

 

2019  

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

 


À MODA DA CASA 

(Marcha-Frevo de Augusto Pellegrini)

 

Silenciosamente eu saio à rua

A manhã flutua

E o nevoeiro da noite passada passou

Silenciosamente cuido de mim

Num botequim

Cerveja preta gelada

E um misto quente na chapa

Indiferente

À moda e à marca da casa

 

Silenciosamente no barulho

Milhões de embrulhos

Pacotes muitos, laços cor de rosa nas mãos

Silenciosamente sons musicais

Sons guturais

São discos tocando alto

E gente ganhando a nota

Indiferentes

À moda da casa

 

O grande sucesso do momento

É de ciúme, de queixume

Ou puro ardume de amor

Com azedume eu saio à rua

Com coragem

Não é fácil enfrentar monstro-motor

À moda da casa eu vejo o caso

Com descaso

Por acaso eu sou alguém?

Não sei

Então eu sigo à moda da casa

Esqueço o caso num silêncio

Até que eu faço muito bem

 

Perigosamente o povo vive

Mais uma crise, mais uma virgem

Pétala de rosa no chão

Naturalmente sempre os dramas existem

E as damas insistem

A convidar na calçada

Ao menos lá na avenida

Indiferentes

Às coisas da vida


1968

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

 


     PÁGINAS ESCOLHIDAS

O FANTASMA DA FM (1992)
(Augusto Pellegrini)

 CLICHÊS – A SAPATARIA

“Pois não?”
Vendedor-atendente de loja de calçados é a figura mais rápida e prestativa da face da terra, algo assim como um anjo da guarda do consumidor, um simpático atendente de ordens, um valete de copas.

A coisinha enxuta, saia com os joelhos à mostra, calçando sandália de tiras e usando uma blusinha arejada, se senta diante do espelho naquela posição geográfica na qual se sentam todas as coisinhas enxutas que vão comprar calçados – talvez por isso os vendedores não reclamam dos baixos salários nem da aporrinhação do chefe.

Vem a sandália vermelha – “não é bem esse tipo que eu queria” – e vem a cor havana – não gostei da cor, não combina com a minha pele” (qualquer cor, senhorita, combina com a sua pele) – e o vendedor alisa o pé da enxutinha (que dedos, meu Deus!), devolve a sandália para a Caixa e vai buscar outra analisando o tornozelo (que perfume, meu Deus!), vislumbra os seus joelhos e por aí vai.

E dá-lhe sandália – sandália de tira, sandália sem tira, sandália de todas as cores e feitios, enquanto as caixas vão se amontoando. A Cinderela enfim não encontra o sapatinho de cristal, se desculpa e vai embora, deixando no atendente um olhar de saudade.

Então vem a matrona que estava aguardando a vez, com o olhar austero e penetrante caindo de chofre no apatetado rapaz, interrompendo seus devaneios.
“Quer me atender, agora?”
“Pois não, madame, o que a senhora deseja?, com a disposição de quem vai para a guerra.
“Quero uma sandália que combine comigo!”

Então vem a vermelha – “não gostei” – vem a azul-escuro – “horrível, essa fivela!” – vem a prateada – “detestei esse modelo! – e vem a de tira preta…
O vendedor angustiado calça e descalça sandálias (que coisa, meu Deus, esse pé cheio de calos!), abre caixa e fecha caixa (que cheiro, meu Deus, liguem o ventilador!), olha para a cliente enquanto ajeita a tira para desviar do joanete (que cara, meu Deus, parece um buldogue remelento!), e vai por aí afora.

Vendedor-atendente de loja de calçados é também a figura mais infeliz da face da terra, algo assim como um segurador de alça de caixão, um lacaio de ordens, um dois de paus.  
           

(Aventuras e desventuras de um atendente de loja de calçados) 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

 


SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 14/02/2020
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106,9 MHz
São Luís-MA

WYNTON MARSALIS – THE ALL AMERICAN HERO

Wynton Marsalis é um dos mais respeitados trompetistas da música americana. Conhecido como um músico comprometido e estudioso, ele toca com a mesma facilidade qualquer estilo de jazz e também executa com perfeição solos eruditos. Atualmente é uma espécie de embaixador da música americana em todo mundo, viajando constantemente a diversos países para apresentações, aulas e palestras, além de ser diretor do Lincoln Center, em Nova York, um renomado teatro e escola de música. Nesta gravação, feita em 1980 quando tinha apenas 19 anos, ao lado do consagrado grupo ArtBlakey’s Jazz Messengers, Wynton Marsalis mostra a sua competência e maturidade em músicas da primeira linha, como “My Funny Valentine” e “Round ‘Bout Midnight”. Uma viagem ao bebop e ao cool jazz, e principalmente a uma época muito especial que o jazz vivenciou nos Estados Unidos.

Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

 

                                                            (Augusto Pellegrini) 

           O maitre do hotel de luxo em Belém (me refiro a Belém do Pará) apresentou o menu para as duas velhinhas que faziam uma excursão para desbravar a Amazônia, a seu modo. Na frente delas desfilavam os nomes dos pratos típicos, todos muito bem recomendados pelo maitre, com alguma explicação superficial sobre alguns deles.

Dona Antonieta achou muito sedutora a figura de um majestoso peixe frito que quase excedia as bordas da travessa e apontou com o dedinho magro, como que tomando a decisão sobre a iguaria que iria degustar.
          “Ah, uma excelente escolha, disse ele, as senhoras vão adorar! Um peixe delicioso! Pirarucu”.

Ao que dona Antonieta, muito velha, meio surda e não acostumada com a pronuncia local replicou, demonstrando satisfação e agradecimento, como soe acontecer com todas as velhinhas que fazem turismo em grupo:

“Ah, tiraram, é?”     

sábado, 5 de fevereiro de 2022



 SINFONIA NOTURNA

(Augusto Pellegrini)

Ao acender o abajur na mesa de cabeceira
Sentiu na alma uma imensa alegria
A luz com seu fulgor se espalhou pelas beiras
E pôs fim às sombras, como se fosse dia

Observou na mesa os livros que ama ler
Que falam para a sua alma e que lhe dão prazer
Os personagens, todos juntos, lhe fazem companhia
Na solidão da madrugada que ora se inicia

Sentiu o ar da noite entrar pela janela aberta
E ouviu o canto musical e único do vento
Com mil imagens feitas no seu pensamento
Até cerrar os olhos na noturna sesta

À noite, a natureza impera nua, pura e solta
Insetos de asas vão em vêm, fazem a festa
E o gato, enrodilhado no lençol da cama
Faz companhia ao dono, como um cão de escolta

Então, luz apagada, começam a surgir os sonhos
E aí o inverossímil cresce por inteiro
O gato já mudou de lado, e o travesseiro
Guarda o calor do rosto suado e dos seus poros

Amanhece, a luminosidade atravessa a janela
A sinfonia noturna toda se modificou
O gato não mais dorme, tristonho olha a tigela
E aguarda que o dono ponha leite dentro dela

Dezembro 2018

 

 

 



quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

 


A ALIENAÇÃO DA MÚSICA BRASILEIRA 

A mudança de conceitos já estabelecidos, quando se fala em arte, sempre foi um objeto de intensa discussão acadêmica.

Ela é responsável pelo aparecimento de novas tendências e pela criação de novas escolas, embora possa, como fonte de experimentos, ocasionar problemas de qualidade.

A história mostra que os conservadores sempre se mantiveram de sobreaviso contra mudanças consideradas agressivas, e que os vanguardistas sempre buscaram impor as suas ideias de renovação, fossem elas boas ou simplesmente inaceitáveis do ponto de vista do bom gosto. Mas as duas correntes, mesmo conflitantes, têm sido responsáveis pela evolução que a música apresentou ao longo dos séculos em todo o mundo.

A renovação bem-sucedida, no entanto, não nasce simplesmente do nada, pois mesmo nas novidades mais extremadas de cada nova tendência, essa tendência é baseada em elementos que já existiam na velha escola.

Esta mudança é dinâmica, e vale para todas as artes.

O que vale também para todas as artes são as conceituações sobre a sua qualidade (ou falta de) e a velha e discutível máxima de que “gosto não se discute”.

As mudanças na forma de expressar a arte se processam de forma cíclica e inevitável, mas a história costuma fazer a sua devida depuração, de modo que o próprio tempo se encarrega de mandar para a lixeira muitas tentativas de conspurcação a fim de reestabelecer uma mínima qualidade artística.

Infelizmente com a música – estou falando da música brasileira – não é bem isso o que está acontecendo. Parece que a depuração está ficando mais lenta.

O grande culpado por esta queda de qualidade é o aumento do consumo – leia-se dinheiro envolvido – por conta da febre mercantilista que leva produtores de shows, programadores de rádio e músicos ávidos pelo sucesso fácil, a investirem maciçamente neste segmento, que é produzido especialmente para que muita gente ganhe fortunas.

Há que se entender, antes de mais nada, que a verdadeira música pode ser expressa apenas pela melodia, pela harmonia e pelo andamento, ou seja, ritmo e letra são meros complementos de beleza.

O sucesso popular de uma música atual, porém, vem via de regra quando a percussão assume um volume insuportável e quando a letra contém apenas grunhidos, exclamações, gritos e obscenidades.

A deterioração da música brasileira começou as poucos nos anos 1990 e a cada década vai se acentuando, num verdadeiro atentado contra a produção celestial de Jobim, Chico, Caetano, Caymmi, Gil, Djavan e João Bosco, apenas para citar alguns, onde música e poesia se completam de forma inequívoca.

A eletrônica e a computação prestaram um grande auxílio à qualidade sonora e às facilidades para gravação, mas os técnicos e produtores exacerbaram e deram a estes recursos um valor acima do necessário. Criou-se um monstro.

Por outro lado, a dança popular e a manifestação do público durante a realização de shows há muito deixaram de ser coisa de gente civilizada, e as grandes festas são apenas mais um motivo para a galera se enturmar e ouvir música em volume ensurdecedor, não importa o tipo de música que estiver tocando. Ensandecidos pelo emburrecimento, pelo álcool e pelas drogas o público está ficando com a mente embotada de tanto ouvir coisa ruim.

Felizmente, como as grandes orquestras sinfônicas, o jazz convencional, a música popular autêntica e a preservação do folclore tradicional teimam em continuar existindo, existe também a tênue esperança de dias melhores para aqueles que ainda lutam, mesmo que aparentemente seja contra moinhos de vento.

Eu, por exemplo, quando faço minhas tertúlias musicais jazzistas e bossanovistas procuro sempre incluir no repertório “standards” americanos como “Autumn Leaves”, “Night and Day”, “Summertme” ou “Unforgettable”, e alguns sambas-canções da época de Dolores Duran, Dick Farney ou Johnny Alf. O resultado tem sido compensador, pois além de satisfazer as pessoas exigentes eu estou conseguindo recuperar alguns ouvintes.

Ah, eu também gosto do velho e bom rock and roll, com o seu volume alto e a sua informalidade organizada levada no balanço distorcido do rhythm & blues, mas este é um outro assunto, objeto de um outro artigo. 

2018         

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

 


A BUSCA  

(Bossa - Música de Renato Winkler e Letra de Augusto Pellegrini)

 

Ah, esta eterna procura

Do que não se perdeu

A gente onde é que está?

Ah, esta sempre vontade

De ser e de saber

Tudo o que é e tem seu valor

 

É busca da gente em si mesma

É busca no tempo e no espaço

É busca do amor que não veio

Com a esperança de um dia encontrar

 

Ah, a procura daquela

Nova dimensão

A dimensão da paz

De tudo o que se quis um dia

De tudo o que se fez um dia

Pra ter aquela Maria

Pra ter aquela Maria