sábado, 25 de julho de 2015




Uma noite divertida
Aí você sai de casa no início da noite de uma sexta-feira nobre e arrisca aquele bar da moda junto a três ou quatro amigos, para acrescentar novas sensações à sua vida e adicionar mais uma noite de encantamento no seu currículo.
Você chega, estaciona, entra e se depara com uma casa cheia, gente bonita, um burburinho que atesta muita animação e perspectiva de uma esticada noturna cheia de emoções.
Somos acomodados em uma mesa grande que faz lembrar ambiente de fazenda, de madeira nua e sem adereços, e depois de transcorridos quinze minutos chega enfim o garçom trazendo os cardápios – um para os comes e outro para os bebes – e aí começa nossa angustia, pois ele retorna apenas outros quinze minutos depois para saber o que iremos consumir.
Quinze minutos é bastante tempo para lermos pelo menos duas vezes as ofertas da casa, então já optamos por três chopes, uma cerveja preta e um suco de abacaxi com xarope de pêssego.
Temos duas opções para o chope – caneca de 350 e de 500 mililitros – e optamos pela de 500 por ser mais prática, pois adia-se a demorada visita do garçom, e mais econômica (meu amigo faz os cálculos rápidos usando regra de três e coisa e tal, e conclui que ganhamos assim uns trocados por caneca).
Isto posto pedimos canecas de 500 mililitros e somos informados que eles só servem chope nas canecas de 350 mililitros, pois as de 500 mililitros são reservadas para os sucos.
Questionamos o fato de eles não servirem o chope em canecas de 500 mililitros apesar de constar do cardápio e somos candidamente informados que o cardápio será trocado, e ponto final.
Depois de alguns minutos de negociação, concordamos com as canecas de 350 mililitros e autorizamos a remessa, depois de termos consultado o cardápio dos comes e pedido uma porção de batata rústica – é o que estava escrito lá.
Mais um período de quinze minutos e volta o garçom, desta vez trazendo uma atendente mais graduada para explicar que o chope estava “quente” e que eles aconselhavam cerveja “long neck” que deveria estar gelada (mas que no fim das contas, nem estava tão gelada assim).
Tudo bem, concordamos com a “long neck” para então começarmos outra negociação dolorida – quantas cervejas eles deveriam colocar no balde? – intensa metafísica para quem está acostumado a servir os clientes da noite.
Depois de mais uma aresta aparada, eis que chegam enfim as cervejas, para que pudéssemos fazer um brinde mais de uma hora depois de sentarmos à mesa.
Quinze minutos depois perguntamos pela batata rústica e entendemos que o garçom ainda não havia feito o pedido porque “não sabia se nós iríamos comer as batatas depois de termos trocado o chope quente pela cerveja “long neck” não muito gelada”.
Confirmamos o pedido e eis que, quinze minutos mais tarde e depois de um outro balde com algumas garrafas e pouco gelo, chegam as gloriosas batatas rústicas, duas, para sermos exatos.
O prato consiste de duas batatas grandes cozidas, cada qual cortada longitudinalmente em seis partes, fritas em azeite de oliva e festejadas por um copinho de molho bechamel, e não dá nem para o começo para acompanhar a cerveja à guisa de tira-gosto.
Após confabularmos por alguns minutos sobre a conveniência de pedirmos outra porção de alguma coisa e vermos o tempo escoando pela ampulheta em direção ao dia seguinte, decidirmos por mais um balde de cervejas – agora decididamente quente – e pedimos a conta, que fatalmente chegará após as garrafas já estarem vazias, obedecendo o penoso ciclo de quinze minutos que parece preceder qualquer atendimento a que estejamos submetidos.  
A noite foi afinal divertida porque os amigos são divertidos, mas na próxima vez vamos tomar cerveja e comer tira-gostos em casa.
 





A CAMPANHA BRASILEIRA NO PAN 

O desempenho do Brasil nos XVII Jogos Pan-Americanos que estão sendo disputados em Toronto já supera as nossas expectativas, criando uma atmosfera positiva para o possa acontecer com os nossos atletas daqui a um ano nas Olimpíadas do Rio de Janeiro.
O quadro de medalhas dos Jogos se altera a cada hora, portanto o resultado definitivo somente será conhecido amanhã à noite. Quando, porém, esta matéria foi escrita, já havíamos alcançado a marca de 32 ouros, abaixo apenas dos Jogos disputados no Brasil em 2007 e no México em 2011, quando fechamos com a marca de 54 e 48 medalhas respectivamente. Entre ouro, prata e bronze, já conseguimos 114 medalhas, contra 161 de 2007 e 141 de 2011. Os números obtidos até aqui deverão subir, mas não chegarão a alcançar os dois recordes anteriores.
Os últimos dias de competição sempre reservam muitas emoções e vão proporcionar alguma possibilidade de melhorarmos o nosso índice porque estarão em disputa algumas competições nas quais tradicionalmente somos bastante competitivos no âmbito continental, como futebol, basquetebol, handebol, vôlei e canoagem.
Por outro lado, costumamos levar desvantagem em outras modalidades, como atletismo, beisebol e boxe, além de outros esportes pouco praticados por aqui como raquetebol, hóquei sobre grama e softbol.
Na prática poderemos apenas ser alcançados pela Colômbia e por Cuba, mas não alcançaremos os Estados Unidos, que estão liderando com folga, e o Canadá, que também leva grande vantagem e estatisticamente sempre se posiciona melhor do que o Brasil.
Nas quinze edições já disputadas, a melhor classificação alcançada pelo Brasil foi um segundo lugar em São Paulo-1963, seguida por quatro terceiros lugares – em Chicago-1959, Winnipeg-1967, Rio-2007 e Guadalajara-2011. Este terceiro lugar parece que vai se confirmando também em Toronto-2015.
Nossa participação mais fraca no Pan foi aquela disputada na Cidade do México-1955, onde ficamos em sétimo lugar e nos limitamos a 2 medalhas de ouro num total de 17 alcançadas, mas aquela foi a segunda edição dos Jogos e teve poucos participantes e pouca repercussão. Hoje, a três dias do final desta edição dos Jogos, os 114 pódios conquistados superam o nosso recorde histórico de medalhas, ficando apenas abaixo das marcas de 2007 e 2011.  
Esta marca nos glorifica dentro do limite das três Américas, mas parece não representar muito no contexto mundial, isto é, as dificuldades que iremos enfrentar nos Jogos Olímpicos serão gigantescas, mesmo tendo o Rio de Janeiro como sede, pois além dos americanos e canadenses teremos adversários do tamanho da China, Grã Bretanha, Rússia, Coréia do Sul, Alemanha, França, Itália, Austrália e Japão, somente para citar alguns que costumam ficar na nossa frente. Todos estes países nos suplantaram por ocasião dos Jogos de Londres-2012, última edição disputada, quando terminamos na modesta 22ª posição.
A quantidade total de 108 pódios alcançados pelo Brasil em 18 Olimpíadas realizadas, desde 1920 – a primeira da qual participou – é inferior à conseguida em cada um dos quatro últimos Pan-Americanos.
Nos últimos Jogos Olímpicos de Londres-2012 o Brasil conquistou apenas 3 medalhas de ouro (Sarah Menezes no judô, Arthur Zanetti na ginástica e a equipe do vôlei feminino), comprovando que a participação brasileira nas Olimpíadas tem sido opaca ao longo dos anos.
Até hoje, apenas 23 ouros olímpicos foram obtidos (com o recorde de 5 medalhas em Atenas-2004), e se compararmos com as marcas obtidas nos Jogos Pan-Americanos (401 ouros até hoje) podemos notar com um certo desânimo a diferença de nível entre as duas competições.
A falta de investimentos em novos atletas e em equipamentos e a ausência de uma política de troca de experiência com países que levam o esporte olímpico a sério será infelizmente sentida quando começarem as competições no Rio-2016.

 

(artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 24/07/2015)

 

sexta-feira, 17 de julho de 2015





AS BARATAS  

Dizem que as baratas e os ratos são bichos tão resistentes que sobreviveram, sobrevivem e sobreviverão a qualquer catástrofe que atingiu ou possa atingir o planeta. Principalmente as baratas.
Há relatos que afirmam elas terem passado incólumes pela devastação causada pelo meteoro que acabou com a espécie dos dinossauros, pelo Grande Dilúvio e pelas explosões atômicas que destruíram Hiroshima e Nagasaki no ocaso da Segunda Guerra Mundial, e que provavelmente ainda saíram fortalecidas geneticamente com alguns poderes típicos dos super-heróis, pela radiação absorvida através das suas asas de carapaça e das suas antenas de extraterrestre.
Mas mesmo tendo a sua presença espalhada pelos quatro cantos do mundo e mesmo com o seu extermínio em massa aprimorado com a utilização de possantes inseticidas, baraticidas e dedetizadores de ambiente, elas permanecem impávidas, pois a cada baixa acusada elas parecem se multiplicar por quatro.
A corrupção no esporte obedece ao mesmo critério. É claro, dirá o leitor, que isto não acontece apenas no esporte, pois se espalha por todas as camadas sociais do mundo, desde o pequeno comerciante até o industrial de base, desde as organizações policiais até os grandes tribunais, desde o político iniciante até a ratazana velha com cinquenta anos de mandato, desde uma liderança sindical até o fazedor de opinião que se troca por dinheiro, desde uma simples associação de bairro até o impoluto Banco do Vaticano.
Mas como o nosso espaço no jornal se limita à área esportiva, é por aí que eu vou discorrer.
Há muita barata cascuda no esporte se escondendo nos desvãos das calçadas, no ralo do banheiro e atrás do armário de mantimentos. Elas já foram vistas por todos, todo mundo as conhece, mas a sobrevida da qual elas são dotadas permitem a elas não apenas conviver em sociedade com o restante do mundo habitado como também continuar emporcalhando o ambiente que frequentam.
De acordo com o jornalista inglês Andrew Jennings, nascido na Escócia, a corrupção institucionalizada no futebol internacional teria começado na gestão João Havelange, que correspondeu a uma nova era em termos de uma concepção moderna, abrangente e inclusiva do futebol.
No discurso de abertura da sua cerimônia de integração de posse em maio deste ano, o atual presidente Joseph Blatter defendeu o brasileiro e disse que “Havelange pegou uma Fifa destruída por uma gestão que privilegiava os times ricos até 1974 e desde então incomodamos muita gente que não queria dividir a Copa do Mundo com os pobres”. Trata-se de um discurso populista que procura justificar os malfeitos das gestões posteriores – a de Havelange e a sua – com a inclusão social oferecida pela participação de países terceiro-mundistas no futebol do planeta em troca de muita propina, muita mutreta e muito jogo de favores.
Blatter, que foi vice de Havelange até ser eleito em 1998, diz que até a época de Sir Stanley Rous, que dirigiu a entidade de 1961 a 1974, “só europeus de olhos azuis podiam participar, mas nós trouxemos o povo para dentro, os africanos, os asiáticos e os caribenhos”, se esquecendo de que de 1930 a 1962 diversos países considerados do Terceiro Mundo, incluindo africanos, asiáticos, sul-americanos e caribenhos – Bolívia, Chile, Coréia do Sul, Cuba, Egito, Índias Orientais, México, Paraguai, Peru e Turquia – haviam participado da fase final da competição, sem contar os que ficaram fora nas Eliminatórias.
Blatter joga farofa no ventilador ao denunciar a derrota da Hungria para a dona da casa Alemanha Ocidental em 1954 “porque era um país socialista” e a conquista da anfitriã Inglaterra (país de Stanley Rous) sobre a Alemanha em 1966 com um gol onde a bola não teria entrado.
A Fifa tenta tapar o sol com a peneira, pois os escândalos apurados contra ela depois das gestões de Havelange e Blatter tomaram dimensões tão assombrosas que uma dúzia de dirigentes foram presos e estão sendo processados.
Assim, a Máfia dos resultados, a manipulação das arbitragens, as tabelas dirigidas e os julgamentos equivocados dos Tribunais do esporte são meras formiguinhas se comparadas às baratas cascudas que proliferam impunemente nos corredores da Fifa e das organizações que gerenciam o futebol nos cinco continentes.
Na história da humanidade, os corruptos são tão eternos quanto as baratas.

 

 

(Artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 17/07/2015)

 

sexta-feira, 10 de julho de 2015




                                                       HERANÇAS DA COPA 

A atual situação econômica do país está castigando praticamente todas as áreas de atividades. Algumas delas foram engolfadas pela boca do dragão de uma forma devastadora, fruto de uma inflação crescente, de uma desaceleração da economia que puxa o poder aquisitivo para baixo e da falta de investimentos, o que conduz à recessão e ao desemprego.
Isto quer dizer que em vários setores este drama está sendo inevitável, e a reversão só virá com o tempo, através de muita luta e muita paciência.
Mas nem toda a desordem econômica foi fruto de um gerenciamento equivocado ou de uma distração passageira.
Reportemo-nos à calamitosa decisão de construir estádios caríssimos em recônditos onde o futebol nunca foi artigo de primeira necessidade – estamos falando de Cuiabá, Manaus e, em menor escala de Natal e até de Brasília, que teve um estádio praticamente reconstruído.
Qualquer projeção honesta mostrava na época que estes estádios se tornariam inviáveis por causa do custo de manutenção e da impossibilidade de os clubes locais lotarem pelo menos 60% das suas dependências algumas poucas vezes por ano. Mesmo assim foram construídos para uma orgia que durou um mês e nem chegou a ser orgia. 
Falou mais alto a ganância e a sede ao pote, num país repleto de construtoras levianas e administradores desonestos e oportunistas, como os que estão agora sob investigação, com processos em andamento.  
Cabe aos estados ou às prefeituras bancarem o prejuízo.
Apesar do esforço em se levar partidas do Campeonato Brasileiro para estes rincões, as despesas superam as receitas e mais uma vez a diferença é coberta pelo dinheiro do contribuinte, devidamente drenado do seu bolso através dos impostos e taxas cada dia mais escorchantes.
Para que a matemática desse certo seria necessário lotar os estádios cobrando pelos ingressos preços inacessíveis para o torcedor ou conseguir a ajuda de patrocinadores, o que se tornou impraticável dentro a atual conjuntura de contenção de custos vivida pelo empresariado.
Além deste legado negativo, sobra também o negativo legado do futebol.
Até o momento, a derrota de 7x1 para a Alemanha que estarreceu o torcedor é vista com naturalidade pelos responsáveis pela CBF e pelos próprios jogadores envolvidos, mais preocupados com os seus contratos milionários com os superclubes europeus do que com a reputação da seleção canarinho.
Na esfera de comando, a coisa é ainda pior.
Esta semana, um ano depois do inglório evento, ex-treinadores da seleção brasileira se reuniram na sede da CBF com a atual comissão técnica e não houve qualquer consternação, nem uma análise mais apurada de “onde foi que eu errei?”
Dunga, com todo o brilhantismo verborrágico que possui, declarou que “as datas ficam marcadas”, e explicou a frase mística comparando a derrota em 1950 com a conquista das cinco Copas, dando a mesma importância emotiva às derrotas e às vitórias na história da seleção. “A gente tem que ver pelo lado positivo”, completou ele, justificando o vareio de bola a que fomos sujeitos, coisas que nem os alemães conseguem explicar.
Zagallo foi além, e disse que “não devemos nada às outras seleções e temos tudo para ganhar a próxima Copa do Mundo”. Não satisfeito, ele emendou de sem-pulo – “não temos que nos preocupar com as Eliminatórias, mas com a Copa”.
Único a falar alguma coisa de útil, o Coordenador de Seleções Gilmar Rinaldi havia dito alguns dias antes que “é necessário reavaliar a convocação de certos jogadores, principalmente aqueles que atuam em lugares menos competitivos, como a China e os Emirados Árabes Unidos”.
E, da mesma forma com que Parreira confessou que sabia de antemão que a seleção de 2014 não tinha condições de ganhar a Copa, Gilmar deixou claro que a equipe da Copa América era jovem demais e sentiu o peso da responsabilidade de reabilitar o futebol brasileiro depois do trauma de, mesmo favorita, perder a Copa em casa.  


 

(artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 10/07/2015)

 

sexta-feira, 3 de julho de 2015






AS UVAS ESTÃO VERDES 

De acordo com o diretor técnico da Seleção Brasileira de Futebol, Carlos Caetano Bledorn Verri - codinome Dunga - a Copa América não vale nada, o que interessa é a Copa do Mundo, ou seja, as Eliminatórias que vêm por aí.
As uvas estão verdes.
Enquanto disputava – e vencia – uma série de amistosos para preparar o time exatamente para esta agora menosprezada Copa América, o treinador afirmava que estava montando uma equipe com a finalidade de repor a seleção brasileira no seu devido patamar e, evidentemente, ganhar o torneio continental fazia parte dos seus planos.
Perdendo, seu discurso mudou.
Resta saber qual será o próximo discurso caso cheguemos ao fundo do poço com a não classificação para a Copa do Mundo de 2018, num torneio seletivo longo que se prevê difícil, com partidas de ida e volta, e com apenas quatro seleções entre as dez participantes se classificando automaticamente (uma quinta irá para a repescagem contra um adversário da Ásia).
Só está faltando isso para coroar a sequência de vexames.
Afinal, o que estamos vendo na Copa América mostra que o Brasil está tecnicamente abaixo da Argentina, da Colômbia, possivelmente do Uruguai e do Chile, e no máximo nivelado com Paraguai e Peru. Tirando as exceções de todos os lados – Neymar pelo Brasil, Messi pela Argentina, Suárez pelo Uruguai e James Rodriguez pela Colômbia, os elencos se equivalem, mas o que fará a diferença serão a disposição tática e o jogo de conjunto, exatamente o ponto mais fraco da nossa seleção. Em outras palavras, temos jogadores absolutamente comuns e um técnico abaixo da média.
Mas não é só a seleção principal do Brasil que está em crise. O que está em crise é o nosso futebol como um todo.
Os resultados deste ano estão confirmando aquilo que todos temiam depois da perda da Copa do Mundo de tão má memória.
Participamos de três competições internacionais e perdemos todas.
No Mundial Feminino fomos eliminados pela Austrália nas oitavas de final, no Mundial Sub-20 fomos derrotados na final pela Sérvia e na Copa América caímos fora nas quartas de final, devidamente despachados na cobrança de penalidades pelo Paraguai.
Na disputa da Copa Libertadores, dos cinco brasileiros que iniciaram a competição, sobrou apenas o Internacional, um Dom Quixote solitário, disputando as semifinais.   
A explicação para isso parece residir na falta de estrutura de base para descobrir jogadores talentosos e dar a eles disciplina tática e foco naquilo que estão fazendo, e nisso a CBF tem uma participação decisiva. Conta também com a mercantilização excessiva, que conduz o esporte e as sua importância lúdica para um campo puramente comercial pela valorização indevida de muitos jogadores.
Isto leva à presunção de que basta ser um jogador mediano e vestir a camisa de algum clube europeu para ter a sua convocação garantida – gente como Fabinho, Fernandinho, Fernando, Luis Gustavo, Felipe Luís, Casemiro, Marquinhos e Douglas Costa não seriam sequer lembrados se jogassem no Brasil.
Finalmente, paira a desconfiança cada vez mais forte de que a intermediação dos empresários e os valores das transferências milionárias de nossos jogadores para clubes europeus tenham muito a ver com a sua convocação. Além da caixa preta das transações, o jogador em questão começa a se sentir tão importante que se esquece de jogar futebol – afinal um superstar vive também da imagem cultivada por carrões, cabelos e roupas fashion, exposição nas redes sociais e belíssimas gatas que emolduram instagrans, selfies e baladas.
Ainda não caiu a ficha de que as coisas andam mal planejadas e a desculpa dada pelos dirigentes pela eliminação da Copa América é a mesma dada pela perda da Copa do Mundo. Eles alegam um “acidente de percurso”.
A desculpa é usada tanto pela entidade como pelas comissões técnicas – assim foi com Felipão, assim está sendo com Dunga e assim será com qualquer um que venha a ser convidado para comandar a seleção e que mantenha a postura arrogante de quem acha que nós não temos mais nada que aprender.      

 

 

(Artigo publicado no caderno SuperEsportes do jornal O Imparcial de 03/07/2015)

 

 

sexta-feira, 26 de junho de 2015





O NIVELAMENTO ESTÁ GERAL 

A fotografia mais exata do futebol brasileiro no momento não ilustra cenas de jogos heroicos, não retrata jogadores levantando troféus nem mostra a empolgação da torcida. Ela mostra números, como uma planilha de contabilidade, e os mostra de uma forma clara, honesta e contundente, sem necessidade de interpretação, sem manipulação e sem pedaladas.
A começar pelo Campeonato Brasileiro, que apresenta uma aparente inversão na tabela: enquanto Sport e Atlético Paranaense habitam a parte de cima da classificação, os tradicionais Vasco, Flamengo e Palmeiras se debatem nas últimas posições. Com oito rodadas disputadas, Cruzeiro, Santos e Internacional também não têm do que se orgulhar.
Pior: o futebol jogado pelos times que estão encabeçando o campeonato e por aqueles que já se candidatam ao rebaixamento é praticamente o mesmo, não se constituindo qualquer surpresa eventuais triunfos de Joinville, Chapecoense ou Avaí contra Cruzeiro, Fluminense ou Corinthians, mesmo com o time de menor expressão jogando na casa dos grandes.
Este cenário desolador tem uma constatação oficial.
A seleção brasileira tem 5 Copas do Mundo conquistadas, mas a última foi em 2002, isto é já temos um jejum de três competições. E perdemos as três últimas Copas jogando mal.
Existe a renovação, mas as novas safras que estão surgindo também não são muito animadoras. Dos 19 Mundiais Sub-20 disputados vencemos apenas 5, sendo a última em 2011, isto é, perdemos as duas mais recentes.
A seleção olímpica se constitui no nosso maior fracasso: 23 disputas, nenhum título e apenas 3 vice-campeonatos.
Em 16 disputas pelos Jogos Pan-Americanos conquistamos 4 títulos, mas o último foi há 28 anos, em 1987.
Temos tido um relativo sucesso na Copa das Confederações, mas dizem que as outras seleções não veem este torneio com a mesma seriedade que nós, encarando-o mais como preparação para a Copa do Mundo que se realiza um ano depois. Independentemente desta concepção, o Brasil foi 4 vezes vencedor em 7 disputas, e é o atual campeão.
Resta a Copa América, mas aí a situação se inverte. Diz a lenda que só recentemente o Brasil começou a encarar o torneio com a importância que lhe á devida. Isto custou caro, pois em 43 disputas ganhamos apenas 8 e contabilizamos 11 vice-campeonatos.
No futebol feminino o problema é ainda maior.
Apesar de contarmos com Marta, uma das melhores jogadoras do planeta, com 4 premiações como Melhor do Mundo e diversos outros prêmios, nunca ganhamos uma Copa do Mundo, em 7 disputas realizadas. O mesmo registro negativo ocorre nas Olimpíadas, com 5 participações e nenhum título e no Mundial Sub-20, com 7 participações em branco.
No âmbito local, no entanto, a seleção feminina não encontra grandes problemas, pois foi 6 vezes campeã da Copa América e 2 vezes nos Jogos Pan-Americanos.
Voltando aos homens, o torneio de clubes mais importante do mundo é o Mundial de Clubes da Fifa. No seu novo formato o Brasil conquistou 4 títulos em 11 disputas, sendo a última conquista em 2012, com o Corinthians. E, ainda falando de clubes, em 54 edições da Copa Libertadores conseguimos 17 conquistas, sendo a última em 2013, com o Atlético Mineiro.
Esta dose maciça de números está comprovando no momento aquilo que todos já sentíamos e temíamos. A lenda cultivada durante muito tempo que outorgava ao Brasil o adjetivo de “o melhor futebol do mundo” já perdeu o prazo de validade.
Pelo que estamos vendo nesta Copa América, não importa o que venha acontecer daqui pra frente temos que encarar a verdade de frente. Ou a seleção melhora o seu desempenho e começa a impor o seu futebol ou corre o risco de ver a Copa da Rússia pela televisão.

 

(artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 26/06/2015)

 

sexta-feira, 19 de junho de 2015


 
 
 
NEYMARDEPENDÊNCIA 

Em 1966 o Brasil levou para a Copa da Inglaterra uma seleção meia-boca, acreditando que o tricampeonato (havíamos vencido em 1958 e 1962) viria num estalar de dedos.
Uma preparação pífia, feita em cinco lugares diferentes por força de acordos com prefeitos de estâncias, a chamada de quarenta e sete jogadores para agradar a todos e uma convocação final equivocada foi o início de uma caminhada que estava fadada ao fracasso.
Os jogadores foram para a Europa sem nenhuma noção de conjunto. Alguns foram convocados fora da sua real posição e outros – caso de Garrincha e Pelé – viajaram fora das suas melhores condições físicas (Pelé não jogou contra a Hungria e Garrincha não jogou contra Portugal, e perdemos as duas partidas, ambas por 3 x 1).
Mesmo machucado, e com Garrincha definitivamente fora de combate, Pelé era a esperança brasileira, pois a equipe contava com alguns jogadores medianos e com os veteranos Gilmar, Djalma Santos, Bellini e Orlando sem a mesma pegada de quatro ou oito anos atrás. Havia ainda os promissores Tostão, Jairzinho e Gérson, mas estes iriam brilhar apenas quatro anos depois, na Copa do México.
Na véspera da partida contra Portugal, o jornal A Gazeta Esportiva publicou uma manchete que mostrava bem a angústia do torcedor brasileiro: “Pelé, jogai por nós!”, isto é, com a ausência de Garrincha, mesmo no ocaso da sua carreira, o time era Pelédependente.
A história todos sabem – perdemos e ficamos fora da Copa – mas ficou a lição que não se pode depender apenas dos lampejos de um único jogador para que um time seja vitorioso, pois afinal, o futebol é um esporte coletivo.
Nas Copas que se seguiram, conquistando o título ou não, o Brasil não era dependente de nenhum jogador, pois o elenco sempre teve mais do que um jogador para desequilibrar e atormentar a vida dos adversários.
Houve um hiato de craques entre 1990 e 1998, mas mesmo assim ganhamos o caneco em 1994 com um futebol pragmático e sem brilho, graças a Deus e a Romário.
Em 1970 tínhamos Carlos Alberto, Gérson, Tostão, Pelé e Rivelino; em 1974 tínhamos Rivelino, Paulo Cesar Caju e Jairzinho; em 1978 tínhamos Cerezo, Zico e Reinaldo; em 1982 tínhamos Junior, Falcão, Zico, Cerezo e Sócrates; em 1986 tínhamos Sócrates, Zico, Muller e Careca; em 1990 tínhamos Romário, Muller e Careca.
Depois da década de 1990, voltamos a ter protagonistas nas Copas de 2002, com Rivaldo, Roberto Carlos, Kaká e Ronaldo e em 2006, com Kaká, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo. Em 2010 começou a fase em que se acentuou significativamente a falta de um ou mais protagonistas ou – podemos definir assim – a ausência de craques e de um técnico que construísse uma equipe a partir do material que tinha em mãos.
Em termos de quantidade de craques, o momento presente não me parece muito promissor, e isto já ocorre desde 2012, seja com Mano Menezes, seja com Felipe Scolari, seja com Dunga. Nas três situações, com especial destaque para a Copa de 2014, o time se mostrou extremamente dependente de Neymar, quer por causa do seu distanciamento técnico dos demais, quer por causa da tática aplicada, que nunca chegou a mudar, fosse o treinador o Mano, o Scolari ou o Dunga: dá um chutão na direção de Neymar e seja o que Deus quiser; se ele dominar a bola a oportunidade de gol vai aparecer! 
No momento o que temos é um punhado de jogadores com alguma habilidade e boas noções de fundamentos, mas o único que desequilibra é Neymar.
Os outros dependem de um técnico que os posicione em campo, que treine jogadas ensaiadas e que explore com inteligência o potencial e as características de cada um.
Isto pode acontecer com o tempo, e é bom que aconteça, porque este elenco que aí está, sujeito a duas ou três modificações, é o que temos para disputar as Eliminatórias da Copa 2018 contra as equipes sul-americanas que estão ficando dia a dia mais atrevidas e mais difíceis de serem batidas.
O Peru, derrotado na bacia das almas, e a Colômbia, que acabou com a invencibilidade Dunga, não me deixam mentir.
Em suma, o craque nós temos, mas precisamos de um time, ou então voltamos à mesma oração de 1966 – “Neymar, jogai por nós! – clamor que no momento não faz sentido.
E que não deu certo em 1966.
 

(Artigo publicado no caderno SuperEsportes do jornal O Imparcial de 19/06/2015)

 

sexta-feira, 12 de junho de 2015






A FÁBRICA DE DINHEIRO 

A corrupção no futebol ataca como uma doença insidiosa e maligna, e seus efeitos se fazem sentir nos mais variados setores. Ela afeta as finanças dos clubes, o futuro de muitos jogadores, a lisura da competição e os resultados obtidos, que podem ser o efeito de combinações ligadas à máfia da loteria.
No caso das denuncias sobre a CBF e das recentes investigações levadas a cabo devido ao escândalo da Fifa, ficamos todos com o pé atrás sem saber se o que estamos vendo é realidade ou ficção, isto é, se a convocação dos jogadores da seleção brasileira e a escalação da equipe obedecem a uma lógica cartesiana ou se são forçadas por empresários com o intuito de valorizar a sua mercadoria. 
É claro que a empresa que detém o poder de definir os locais e as datas dos amistosos da seleção brasileira tem também muito poder em outros aspectos, como por exemplo o de definir o preço dos ingressos.
Afinal, na contabilidade dos jogos,considerando-se de um lado os gastos com o evento e as propinas pagas a terceiros e do outro lado o resultado financeiro da empreitada, entende-se que deva haver expectativa de lucro.
O amistoso morno entre Brasil e México do último domingo em certos momentos mais parecia um casados x solteiros sem compromisso, chegando a irritar alguns comentaristas e não empolgar os narradores, mas quem estava no estádio se divertiu muito.
Famílias inteiras da classe média alta paulistana participaram da festa, todos com enormes sorrisos nos lábios, principalmente quando eram flagrados pelos telões do estádio, e em determinado momento deixaram o futebol de lado para se concentrarem nas entusiasmadas “olas”, fenômeno que acontece apenas em exibições da seleção (aposto que ninguém jamais viu “ola” alguma num Fla-Flu ou num Derby paulista).
Para quem infelizmente já se acostumou com as torcidas repletas de baderneiros é até gratificante a presença de gente ordeira, alegre e descontraída torcendo (ou não) pelos jogadores e arrancando gritinhos e “uuuuus” empolgantes quando aquele jogador que eles nem sabem quem é chuta uma bola em direção ao gol adversário, mesmo quando essa bola vai para as alturas.
Mas o verdadeiro torcedor, aquele que vai ao estádio chova ou faça sol, aquele que acompanha o futebol, tem pelo menos dois motivos para não ir ao estádio em dia de amistosos da seleção, principalmente quando enfrentamos um time suplente do México – que já é um tradicional freguês – ou Honduras.
Motivo um: Há tempos que a seleção brasileira não seduz ninguém. A única estrela capaz de gerar emoção é o craque Neymar. A maioria dos outros jogadores não seria sequer reconhecida caso alguém topasse com eles num aeroporto ou num supermercado.
Motivo dois: O público presente à Allianz Arena para o jogo Brasil x México foi de 34.659 pagantes para uma arrecadação de R$ 6.737.030,00, o que nos dá o valor médio do ingresso de R$ 194,30 por torcedor, aí incluso as inúmeras crianças presentes.
Isto significa que um pai de família que compareceu à festa futebolística com a mulher e dois filhos gastou um salário mínimo para ver o jogo, sem contar as despesas com o estacionamento, com as guloseimas e provavelmente com a pizza depois do jogo porque, afinal de contas, era dia de domingo.
A comissão técnica do Brasil vai dizer com plena razão que estes amistosos são necessários, porque visam preparar e entrosar o time para a Copa América que começou ontem no Chile. E que a seleção terá a missão de resgatar o seu futebol, relegado a um plano menor depois de uma Copa do Mundo cheia de expectativas e vazia de bons resultados.
O que não se entende, no entanto, é a glamorização excessiva dos jogos da seleção, tendo como público-alvo gente que assiste futebol como espetáculo e não como competição, o que colabora com o afastamento do torcedor comum, aumenta o distanciamento da seleção com o público e serve como pretexto para a mercantilização do esporte, com visíveis efeitos negativos com respeito à ética e aos bons princípios. 

       

(artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 12/06/2015)

 

sábado, 6 de junho de 2015


 
O SÉCULO DA CORRUPÇÃO 

Dada a intensa repercussão causada pela prisão dos sete dirigentes esportivos ocorrida na semana passada, o que gerou manchetes espetaculares e comoção em todo o mundo, eu havia decidido me manter à parte do problema, até porque parecia que tudo o que era impactante e deveria ser dito já havia sido dito.
Mas casos como esses sempre têm efeitos colaterais, a gente prossegue na expectativa de que mais algum indiciado dê com a língua nos dentes – como o fez o empresário J.Hawilla, dono da Traffic, o que antecipou a prisão de Marin e dos outros envolvidos.
Apesar de as irregularidades terem sido cometidas por dirigentes de entidades de diversos países – Brasil, Chipre, Costa Rica, Ilhas Cayman, Nicarágua, Uruguai e Venezuela – que estavam reunidos na Suíça, país que não é berço de nenhum deles, as autoridades dos Estados Unidos determinaram as suas prisões tendo como base jurídica o fato de que os crimes foram cometidos utilizando-se de instituições financeiras norte-americanas. 
Além desses dirigentes, outros onze (três de Trinidad e Tobago, três da Argentina, dois dos Estados Unidos, um do Paraguai e os brasileiros José Hawilla e José Marguiles) também foram indiciados.
Indiferente à celeuma que envolvia feitos administrativos da Fifa, Joseph “Sepp” Blatter conduziu a sua reeleição, mas acabou renunciando quatro dias depois por não suportar a pressão que abalou a sua imagem e a da instituição.
As denuncias que pesam sobre a Fifa e sobre outras confederações são as mais variadas, incluindo as duas próximas Copas do Mundo (Rússia e Qatar) e alguns torneios no Brasil e no continente americano, como a Copa América, a Copa das Confederações, a Copa Libertadores e a própria Copa do Brasil.
Por enquanto, avalia-se o preço da corrupção em cerca de 150 milhões de dólares, mas tudo indica que o rombo deverá aumentar com o prosseguimento das investigações.
O motivo do escândalo não é técnico, isto é, não envolve arbitragem nem combinação de resultados. O motivo é puramente financeiro, e diz respeito a propinas altíssimas pagas em nome dos locais da realização das Copas de 2018 e 2022 e, no caso brasileiro e sul-americano, em nome de exclusividade de transmissões e de exploração de direitos.
A extensão do problema está ocasionando as investigações em pauta e já causou o afastamento ou a demissão de alguns dirigentes da Fifa, além de ressuscitar velhos fantasmas, como João Havelange e Ricardo Teixeira que estão, como se diz no jargão jornalístico, com as barbas de molho.
A cada investigação iniciada começa um efeito dominó que ameaça mexer com outras coisas que estavam quietas e aparentemente domadas, como a Copa de 2014 no Brasil e o devastador padrão Fifa que direcionou fortunas para meia dúzia de beneficiados, além das denuncias contra as Federações brasileiras de Vôlei, de Basquete, de Judô e de Futsal e a manutenção no poder à custa de votos viciados de dirigentes que enriquecem e se eternizam sem dar a devida compensação ao esporte que dirigem.
O escândalo da Fifa pode também estar tirando o sono de algumas emissoras de televisão e até de algumas agências de publicidade, porque o esquema de corrupção utilizado foi realmente violento e deve ter seus tentáculos espalhados por muitas pessoas e muitas empresas, entre corruptores, facilitadores e corrompidos.
De qualquer modo, nota-se que a bandalheira não está presente apenas no Brasil, terra do Mensalão, do Petrolão e de outros escândalos superlativos, mas espalhada por todo o mundo.  
Assim como o século 18 ficou conhecido pelo início da Revolução Industrial, o século 19 marcou pela série de Invenções e Descobertas Científicas e o século 20 foi a Era da Tecnologia, o século 21 está começando a marcar o seu lugar na história como o Século da Corrupção, pontuado pela falta de escrúpulos, pela avidez e pelo consumismo.
Problemas ambientais e guerras à parte, a corrupção poderá determinar o desequilíbrio definitivo da humanidade, produzindo um caos tão formidável que corremos o risco de não chegar ao século 22.

 

 (Artigo publicado no caderno SuperEsportes do jornal O Imparcial de 06/06/2015)

 

sexta-feira, 29 de maio de 2015







A GRIFE EM CRISE

A demissão de Vanderlei Luxemburgo na última segunda-feira eleva para cinco o número de treinadores notáveis desempregados atualmente no Brasil: fazendo companhia a Luxemburgo estão Muricy Ramalho, Luiz Felipe Scolari, Abel Braga e Mano Menezes.
E a quantidade ainda aumenta se a gente incluir nesta lista outros que talvez não sejam tão notáveis, mas que se habituaram a chefiar comissões técnicas de muito clube grande, como Joel Santana, Ney Franco, Adilson Batista, Celso Roth, Dorival Junior e até Alexandre Gallo, que deixou o comando técnico das seleções brasileiras de base ainda este mês e Carlos Alberto Parreira, que se declarou aposentado.
Em apenas três rodadas o Campeonato Brasileiro da Série A já soma três demissões, com Ricardo Drubsky se alinhando ao lado de Scolari e Luxemburgo. E os dois Oliveiras – Oswaldo e Marcelo – já estão no bico do corvo, provavelmente dependendo do resultado da rodada de domingo.
Na Série B a coisa é ainda pior: em seis rodadas, oito técnicos já foram dispensados.
Isto leva a algumas reflexões.
A lógica poderia indicar que a dispensa destes figurões teria sido forçada pela atual conjuntura econômica por que passa o futebol brasileiro, que a exemplo de diversos outros setores carece de uma criteriosa análise de custo x benefício para poder sobreviver. Poderia também indicar um novo direcionamento dos dirigentes em busca de uma renovação, tendo como objetivo modificar as características do futebol no Brasil para voltar em poucos anos a competir internacionalmente com o brilho que sempre nos foi tradicional. Poderia também ser fruto de campanhas medíocres que teriam levado a direção dos clubes e os torcedores à mais completa exasperação, causando uma reformulação forçada como se partindo do zero.
Ou uma soma dos três fatores.
Considerando os parâmetros analisados, porém, esta não é toda a verdade.
A questão financeira cai por terra quando vemos que os clubes continuam pagando salários milionários por técnicos e jogadores às vezes não mais do que medianos, ou comprometendo a receita com negociações precipitadas. A renovação fica em dúvida quando vemos pouco interesse ou total desinteresse no investimento em técnicos e jogadores da base. Quanto às campanhas medíocres, percebe-se um planejamento inadequado, sem o qual não pode existir uma cobrança séria, pois não é dado tempo a muitos treinadores para que ele estabeleça um sistema de jogo, ganhe a confiança e o respeito do elenco e galgue posições no ranking.
O principal motivo pela queda de tantos profissionais parece ser o despreparo e o amadorismo dos dirigentes das agremiações.
Eles contratam errado, pagando fortunas – o que se traduz no atraso do pagamento de salários – dão palpite no trabalho do elenco e criam despesas às vezes evitáveis, como o interminável pagamento de multas rescisórias.
Ao analisar as demissões deste campeonato, constatamos que Scolari foi contratado numa época errada onde a sua competência era fortemente questionada e ele estava claramente fragilizado pela ressaca da Copa do Mundo. No que diz respeito a Luxemburgo, que substituiu intempestivamente Jayme de Almeida e não conseguiu dar padrão ao time, talvez o procedimento correto tivesse sido a sua dispensa ao final do Campeonato Carioca.
Quanto a Drubsky, quem o contratou cometeu um sério erro de avaliação. Definitivamente não era o momento de um técnico com a sua história pequena assumir um clube com os problemas que o Fluminense estava tendo, com o elenco rachado e com o patrocínio em cheque.
Comparando com o futebol europeu, o Real Madrid acabou com a era Ancelotti, mas para isso esperou o final da temporada, a fim de que o seu sucessor tenha tempo de trabalhar, e o Bayern Munich continua apostando as fichas em Pepe Guardiola mesmo com os últimos insucessos. Isto é um sinal que a estabilidade técnica de um time também se consegue quando a diretoria pensa com a cabeça, não com o instinto de torcedor.  

 

 

(artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 29/05/2015)