sexta-feira, 25 de abril de 2014







COPA 2014 – AS DIFICULDADES DO GRUPO D

O Grupo D da Copa é sem dúvida o mais equilibrado. Ao final da primeira fase pelo menos uma seleção de ponta vai voltar mais cedo para casa.
O grupo reúne nada menos do que três campeões mundiais, representando sete títulos conquistados ao longo de dezenove disputas, a partir de 1930.
Uruguai (campeão em 1930 e 1950), Inglaterra (1966) e Itália (1934, 1938, 1982 e 2006) não deverão ter dificuldades em despachar a Costa Rica, mas um vacilo contra os caribenhos poderá significar o fim de qualquer pretensão.
O Uruguai já participou de 11 Copas do Mundo, com dois títulos e três quartos lugares na bagagem. É conhecido como “Celeste Olímpica” pela cor da sua camisa e por ter sido duas vezes medalha de ouro nos Jogos Olímpicos (1924 e 1928).
No cenário continental, em 43 edições da Copa América e do antigo Campeonato Sul-Americano o Uruguai venceu 15 vezes.
O grande nome da seleção uruguaia é o atacante Luiz Suárez (Liverpool), mas o time tem outros jogadores experientes como Diego Forlán (Bola de Ouro na Copa de 2010 e maior artilheiro do país, hoje com 34 anos e jogando no Cerezo Osaka do Japão), Diego Lugano (zagueiro do West Bromwich) e Edinson Cavani (atacante do PSG).
Muitos dos convocados vão se sentir em casa, pois atuam no Brasil, como Martin Silva (goleiro do Vasco), Alvaro Pereira (São Paulo), Sabastián Eguren (Palmeiras), Maxi Rodriguez (Grêmio) e Nicolás Lodero (Botafogo).  
A trajetória celeste para chegar à sua décima segunda Copa não foi fácil, pois a vaga foi conseguida apenas na repescagem, contra a Jordânia.
A Inglaterra, que se vangloria de ser o inventor do futebol association, tem na verdade uma pálida participação em Copas do Mundo, com apenas um título em 13 disputas, tendo chegado às semifinais apenas uma vez, em 1990.
Dentro da Europa também não obtém sucesso, pois em 14 disputas pela Eurocopa o máximo que conseguiu foi chegar às semifinais em 1968.
Mesmo assim, reza a tradição que é um país a ser temido. Apesar dos times ingleses serem fortes, a seleção fica enfraquecida porque a maioria dos jogadores que disputam a Premier League não são ingleses.
Mas como sempre, o English Team apresenta ao mundo alguns jogadores diferenciados, como os veteranos Steven Gerard (Liverpool), Frank Lampard e Ashley Cole (Chelsea), e o também rodado Wayne Rooney (Manchester United). Atenção também para Glen Johnson, Daniel Sturridge e o jovem jamaicano Raheem Sterling (todos do Liverpool) e Steven Caulker (Cardiff).
Teoricamente, a Itália é a seleção mais consistente do grupo, com uma defesa forte e um ataque criativo. Tradicionalmente a equipe se supera nas Copas do Mundo e geralmente alcança excelentes resultados.
Participou de 18 dos 19 torneios disputados e, além dos 4 títulos conquistados, tem a seu favor um vice-campeonato, um terceiro e um quarto lugares.
Na história da Eurocopa, a Itália conquistou um título (1968) e dois vice-campeonatos.  
A base atual da Azzurra é o time da Juventus. O craque da Itália continua sendo Andrea Pirlo e a segurança vem do veterano capitão e goleiro Luigi Buffon (ambos do time de Turim). Os zagueiros Giorgio Chiellini, Andrea Barzagli e Leonardo Bonucci (todos também da Juventus) são quase intransponíveis, e o ataque fica por conta de Mario Balotelli (Milan) e Alberto Gilardino (Genoa). O time tem ainda Daniele De Rossi (Roma), Sebastián Giovinco (Juventus) e Stephan El Shaarawy (Milan).
A Costa Rica entra como coadjuvante, na esperança de fazer um bom papel e roubar pontos dos favoritos. Segunda colocada nas Eliminatórias, abaixo apenas dos Estados Unidos, apresenta os jogadores Bryan Ruiz (Fulham), Leylor Naves (Levante) e Joel Campbell (Olympiakos) como destaque. Seu principal jogador, Bryan Oviedo, que atua pelo Everton, está contundido, e fora da competição.
                                                                                         

segunda-feira, 21 de abril de 2014





O EXEMPLO QUE VEIO DA GRÉCIA

A Grécia é um país milenar, berço da civilização ocidental, mas nem por isso ocupa um lugar de destaque no cenário europeu, do qual é certamente um dos primos mais pobres.
Recentemente, o país se viu envolvido em uma crise sem precedentes, da qual ainda está tentando se livrar com a ajuda da Comunidade Europeia e dos Estados Unidos.
País sem recursos, a quem foi dada a chave do cofre quando entrou na Eurozona, a Grécia transformou a fragilidade do dracma no poderio do euro, mas foi administrada de uma forma pífia por políticos e administradores que não enxergavam muitos palmos adiante do nariz, o que precipitou o problema.
Uma das marcas do desastre foi a realização da Olimpíada de Atenas em 2004, que serviu para celebrar os primeiros Jogos realizados na mesma cidade 108 anos antes, ou seja, em 1896. 
A corrupção, o superfaturamento, o atraso nas obras e a fartura de dinheiro público à disposição dos organizadores inflacionaram os preços, reduziram a qualidade do projeto e impediram um bom planejamento técnico e econômico, provocando um gasto de cerca de 9 bilhões de euros.
Pior: o legado que as construções deixaram para os cidadãos gregos é praticamente nulo, pois grande parte dos prédios, instalações e entornos se encontra totalmente deteriorada.
Com certeza, esta loucura de bancar gente rica foi uma das principais responsáveis pela derrocada que se seguiu nas áreas de sobrevivência da população.
O Brasil está vivendo uma aventura semelhante.
Apenas para a Copa do Mundo, o país está investindo cerca de 25 bilhões de reais (que poderá chegar a 30, o que equivaleria aos mesmos 9 bilhões de euros da Grécia), dos quais 82% são provenientes dos estados e dos municípios e apenas 18% são bancados pela iniciativa particular.
Em 2016 o país vai sediar os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, o que pode até representar um avanço significativo em termos de imagem, além das vantagens provenientes do ponto de vista do turismo, mas o custo será altíssimo.
A previsão de gastos até o momento é de 36,7 bilhões de reais, aí incluídos uma série de benefícios que deverão ficar como legado à comunidade, como obras de metrô, vias para ônibus, melhorias no meio ambiente e na infraestrutura da cidade, mas isso só será conferido daqui a uma dezena de anos.
De acordo com os organizadores dos Jogos do Rio, 60% da verba é proveniente dos cofres públicos e 40% da atividade particular. A conferir.
O grande problema é a falta de credibilidade dessa gente, pois depois de gastarem 4 bilhões de reais com o Pan 2007 (10 vezes mais do que a estimativa inicial) não deixaram como legado praticamente nada, inclusive a Vila Olímpica, que foi transformada em residências populares mas está caindo aos pedaços, e o Engenhão, que foi doado para o Botafogo e no momento se encontra abandonado, enquanto o poder público se concentra em gastar mais 1,2 bilhão na construção de um novo Maracanã.
Uma das exigências do Comitê Olímpico Internacional para 2016 seria a despoluição da Lagoa Rodrigo de Freitas e da Baía da Guanabara, mas peixes mortos e lixo nada orgânico continuam flutuando nas águas, o que pode transferir as provas aquáticas ao ar livre para outros locais, pois já não existe tempo hábil para a devida recuperação ambiental. 
Acrescente-se a isso a possibilidade de greves em serviços essenciais, superlotação de aeroportos, manifestações nas cidades sede e a indigência nos serviços de telefonia e transmissão de dados, e nos veremos de frente com uma espécie de caos que teremos que administrar, independentemente da qualidade ou dos resultados dos jogos da Copa do Mundo ou da Olimpíada em si.      
                                                                                                                                                                                               

quinta-feira, 17 de abril de 2014






COPA 2014 – A ESPANHA VAI DEFENDER O TÍTULO

 

As seleções da Espanha, Holanda, Chile e Austrália, pela ordem do sorteio, fazem parte do Grupo B da Copa. Com jogos em São Paulo, Salvador, Cuiabá, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Curitiba.
A Espanha, atual campeã do mundo, surge como a favorita natural a ficar com uma das vagas e seguir adiante. Os espanhóis também são com certeza um dos favoritos ao título.
Sua campanha atual é irretocável: foi campeã da Eurocopa, primeira colocada no seu grupo nas Eliminatórias e vice-campeã da Copa das Confederações após manter uma invencibilidade de 29 jogos.
Desde 2012, num total de 20 jogos disputados (entre eles um único amistoso, no qual venceu a Itália) a Espanha colecionou 14 vitórias, 5 empates e apenas uma derrota, os 3x0 para o Brasil na final da Copa das Confederações.
O elenco espanhol é um dos melhores da atualidade, com diversos jogadores atuando no Barcelona, no Real Madrid, no Chelsea, no Arsenal, no Bayern e em outros grandes da Europa. Fica difícil destacar alguns, entre tantos craques, mas vale mencionar o goleiro Iker Casillas e o volante Xabi Alonso (Real Madrid), os atacantes David Silva e Jesús Navas (Manchester City), o artilheiro brasileiro naturalizado Diego Costa (Atletico de Madrid), Cesc Fabregas (Barcelona) e os maestros Xavi Hernández e Andrés Iniesta, também do Barcelona, que são o termômetro da equipe. Com eles inspirados, a Fúria poderá ir longe na Copa.
Na história das Copas, no entanto, a Espanha não tem uma participação das mais brilhantes, chegando apenas a um quarto lugar em 1950 e ao título de 2010, isso em 13 torneios disputados.
Na teoria, a Holanda surge como a segunda força.
Vice-campeã mundial em 2010, perdendo o título para a própria Espanha, a seleção teve uma série de tropeços na Eurocopa, sendo desclassificada prematuramente, mas se recuperou em 2013 nas Eliminatórias alcançando 9 vitórias, entre elas um 8x1 contra a Hungria, e apenas um empate. No único amistoso disputado este ano perdeu para a França por 2x0, mas mesmo assim continua se mostrando uma seleção a ser respeitada.
Favorita em 1974, perdeu a final para a Alemanha, e em 1978, já desgastada, perdeu o título para  Argentina. Em 2010 foi outra vez vice, desta vez para a Espanha.
Os principais nomes da Laranja Mecânica são os internacionais Robin Van Persie (Manchester United), Arjen Robben (Bayern), Rafael Van der Vaart (Hamburgo) e Nigel Jong (Milan), além do veterano Wesley Sneijder (Galatassaray). Mas estará desfalcada de Kevin Strootman (Roma), contundido.
Ninguém se surpreenda, porém, se o Chile ficar com uma vaga. Os andinos terão a seu favor o fato de enfrentar a Holanda às 13h00 em São Paulo no terceiro e último jogo da primeira fase, podendo se aproveitar do cansaço do adversário.
Entre os convocados, quatro jogadores atuam no Brasil – Jorge Valdivia (Palmeiras), Charles Aránguiz (Inter), Marco González (Flamengo) e Eugenio Mena (Santos), além de Eduardo Vargas, que já jogou pelo Grêmio. Mas os nomes de destaque são Mairicio Isla e Arturo Vidal (Juventus) e Alexis Sánchez (Barcelona).
A Austrália aparece como mero figurante e se confessa feliz por jogar sem pressão por vitórias. Franco atirador, festejará qualquer resultado que não seja uma tragédia. Tem a maioria dos seus jogadores espalhados pelo mundo, mas não defendem nenhuma equipe de ponta.
Destaque para Josh Kennedy (Nagoya Grampus – Japão), Mark Bresciano (Al Gharafa – Qatar) e o veterano Tim Cahill (New York Red Bulls – EUA).

              

 
 

COPA 2014 – A COLÔMBIA DESPONTA NO GRUPO C

 

O Grupo C da Copa do Mundo terá como participantes a Colômbia, o Grécia, a Costa do Marfim e o Japão.
Visto sob a ótica do retrospecto, este grupo pode ser considerado o mais fraco de todos, pois reúne seleções que nunca chegaram a assustar. Teoricamente existe um certo equilíbrio porque apesar de a Colômbia ser a cabeça de chave, o Japão, último a ser escolhido no sorteio, possui mais tradição tanto na quantidade de Copas disputadas como nos resultados obtidos.  
Mas a imprensa especializada e os comentaristas de diversos países colocam a Colômbia entre as seleções que podem surpreender, pois ela está atualmente em quarto lugar no ranking da Fifa, atrás apenas da Espanha, Alemanha e Portugal, e à frente do Uruguai, Argentina e Brasil.   A equipe possui alguns jogadores de renome que atuam no futebol europeu e disputou com muito brilho as Eliminatórias Sul-Americanas, terminando em segundo lugar a apenas dois pontos da Argentina.
Historicamente, porém, a Colômbia nunca chegou a cumprir um bom papel em Copas do Mundo. Sua melhor participação foi em 1990, quando chegou até as oitavas de final, terminando na 14ª posição. Em 1962, 1994 e 1998 apenas cumpriu tabela, sendo eliminada logo na primeira fase.
No Brasil, a equipe tem condições de seguir em frente, pois jogará contra a Grécia sob o calor de Belo Horizonte à uma da tarde, enfrentando depois a Costa do Marfim em Brasília e o Japão em Cuiabá.
A Colômbia vem credenciada por ter na sua escalação os jogadores Cristian Zapata (Milan), Héctor Quiñones (FC Porto), Juan Camilo Zuñiga (Napoli), Fredy Guarin (Internazionale), Juan Guillermo Cuadrado (Fiorentina), e espera poder contar com Falcao Garcia (Monaco), que se recupera de contusão. Na lista, dois conhecidos dos brasileiros – Edwin Valencia (Fluminense) e Dorlan Pabón (São Paulo).
Sua maior conquista foi a Copa América de 2001, disputada na própria Colômbia.
O Japão é a seleção mais laureada da Ásia. Tetracampeão asiático – 1992, 2000, 2004 e 2011 – conseguiu seu melhor lugar em Copas do Mundo em 2010, quando alcançou as oitavas de final e chegou em 9ª lugar na classificação geral. Foi também 9º em 2002. Em 1998 e 2006, porém, não passou da primeira fase.
O Japão não possui grandes destaques individuais, mas trabalha um futebol bastante disciplinado e com grande noção de conjunto. O meia Keisuke Honda (Milan) e o atacante Shinji Kagawa (Manchester United) poderão fazer a diferença, ao lado de Atsuto Uchida (Shalke 04), Gotoku Sakai (Stuttgart) e Takashi Inui (Eintracht Frankfurt).
A Grécia, campeã da Eurocopa em 2004, disputou apenas duas Copas do Mundo – 1994 e 2010 – chegando em 23º e 25º lugar, respetivamente. É verdade que se classificou com sobras para esta Copa, fazendo 25 pontos ao lado da Bósnia, deixando o terceiro colocado a 12 pontos de diferença, mas seu futebol não anima nem os mais otimistas. 
Seus principais jogadores são o zagueiro Sotirios Kyrgiakos (Sunderland), e os atacantes Theofanis Gekas (Konyaspor – Turquia) e Giorgios Samaras (Celtic).
A Costa do Marfim surge como uma incógnita, o que costuma ser uma marca registrada das seleções africanas. Sua presença na Copa do Mundo se limita a duas passagens opacas – 2006 e 2010 – onde foi eliminada na primeira fase e ficou respectivamente em 17º e 19º lugar.
Os marfinenses estão com dois sérios problemas. O volante Yaya Touré (Manchester City) sofreu uma contusão grave no último domingo num jogo pelo campeonato inglês e está praticamente fora da Copa, e o veterano atacante Didier Drogba (Galatassaray-Turquia) chegará no Brasil se recuperando de uma lesão. Sobra para Kolo Touré (zagueiro do Liverpool), Didier Zokora (volante do Trabzonspor-Turquia) e para o atacante Gervais Yao Kouassi, mais conhecido como Gervinho (Roma).

                                                                                   Augusto Pellegrini

terça-feira, 15 de abril de 2014




EU E A MÚSICA – DIAGONAL

A tranquila cidade de São Paulo oferecia durante os anos 1960 um fantástico circuito de barzinhos que fizeram parte da renovação da música brasileira após o surgimento da bossa-nova.
O mapa do bom gosto era praticamente confinado ao bairro da Consolação – Praça Roosevelt e arredores – onde a noite fervilhava de boa música com Djalma Ferreira, Dick Farney, Ed Lincoln, Sambalanço Trio, Leny Andrade, Araken Peixoto, Geraldo Cunha, Luiz Carlos Paraná, a iniciante Elis Regina e tantos outros.
Vários tipos de pessoas se misturavam na noite sem fim, às vezes curtindo um espetáculo vanguardista no Teatro de Arena ou uma sessão de cinema também vanguardista no Cine Bijou para depois encerrar a noitada no Bar Redondo, reduto de toda a fauna boêmia que se possa imaginar, até que chegasse o alvorecer a pleno sol.
A música corria leve e solta no Farney’s (que depois virou Djalma’s), no Bon Soir, no Stardust ou no Cave.
Mais adiante, na Vila Buarque, também havia o Baiúca (a primeira casa e introduzir este tipo de show), o Ela Cravo e Canela e o João Sebastião Bar.
Em contraponto com a noite da Praça Roosevelt, não muito longe dali, em outra praça, a das Bandeiras, no início da Avenida Nove de Julho, ficava o Claridge (depois Cambridge) Hotel, cujo American bar apresentava o mesmo tipo de música, mas voltado para aqueles que não tinham hábitos noctívagos, pois abria as portas já no início da noite, para um discreto “happy hour” de shows semiacústicos com a presença de astros como Zimbo Trio, Manfredo Fest Trio, Bossa Jazz Trio, Alayde Costa, Claudette Soares, Pedrinho Mattar Trio e Johnny Alf.
Eu tinha o hábito de frequentar o Claridge na medida em que meus bolsos podiam aguentar, e passava algumas horas de encantamento sorvendo algumas cubas-libres e me inebriando com aquela música especial que preenchia o espaço refinado do local.
Mesmo quando não havia algum espetáculo programado, ou nos intervalos das apresentações, o show continuava, pois a casa tocava um west-coast discreto que variava de Chet Baker a Shorty Rogers, ou alguma coisa estilo third stream que tanto podia ser o Modern Jazz Quartet como Dave Brubeck e seu quarteto, tudo para tornar o ambiente realmente acolhedor.
Contrariamente à maioria dos bares e boates, as conversas aconteciam em voz baixa e não se ouviam as irritantes gargalhadas de algum piadista desprovido da capacidade de ouvir e entender música de qualidade. O som da casa era perfeito e, nos shows, realçava os atributos dos músicos e do cantor.
Numa daqueles inícios de noite, lá fui acompanhado pelo meu amigo José Roberto “Pulga” Marques para conferirmos uma apresentação de Johnny Alf, figura carismática do movimento bossa-nova e do seu derivado, o bossa-jazz.
Compositor e cantor pré-bossa, ele não se alinhava exatamente na nova postura dogmática Lyra-Menescal-Gilberto, pois sua bossa-jazz tinha traços definitivos do antigo samba-canção de Dolores Duran e Custódio Mesquita e um piano cujo drive denunciava tada uma formação jazzística. Seu forte não era a nova batida do violão trazida por João Gilberto e compartilhada por Carlos Lyra, Roberto Menescal, Durval Ferreira e outros mais. Seu forte era um piano impregnado de jazz, produzindo um som dissonante que variava entre Lennie Tristano e George Shearing.   
Pulga tinha a seu crédito o fato de ter-me apresentado ao primeiro LP de Johnny Alf, chamado “Rapaz de Bem”, que eu frequentemente ouvia em casa com a atenção e a fascinação que lhe eram merecidas.
Evidentemente, a aquisição de outros discos do cantor foi apenas uma sequência natural, e a presença de Johnny no Claridge naquela noite foi motivo de festa.
No início da noite lá estávamos eu e o Pulga, sorvendo os goles da cuba-libre no copo longo e suado e ouvindo em silêncio, absolutamente concentrados, as músicas que iam se sucedendo – “Ilusão À Tôa” (Johnny Alf), “Fim De Semana Em Eldorado” (Johnny Alf), “Céu E Mar” (Johnny Alf), “Tudo Distante De Mim” (Johnny Alf), “O Que É Amar” (Johnny Alf) e outras preciosidades.
Nossa mesa ficava próxima ao palco.
Enquanto Johnny sorria agradecendo os aplausos depois de mais uma interpretação de tirar o chapéu, eu me enchi de coragem e, sob o olhar curioso do amigo Pulga, pedi, no impulso da empolgação – “Johnny, canta Diagonal!”.
Diagonal” (Maurício Einhorn e Durval Ferreira) é uma música que faz parte do seu segundo LP, gravado em 1965.
Em “Diagonal” Johnny não canta a letra da música, mas faz um notável “scat-singing”, a exemplo do que havia feito em “Tema Sem Palavras” (dos mesmos Mauricio Einhorn e Durval Ferreira) e “Que Vou Dizer Eu?” (Victor Freire e Klécius Caldas) no primeiro LP em 1961.
No caso de “Diagonal”, porém, ele faz um duplo “scat-singing”, pois contracanta com ele próprio.
Não dá pra cantar essa música” – disse Johnny gentilmente – “pois falta uma segunda voz para fazer o contracanto”, ao que eu, que conhecia a música de cor, canto e contracanto, atrevidamente repliquei - “eu posso fazer a segunda voz...”.
Johnny meditou por breves segundos, colocou o microfone que ele tinha junto ao piano mais para o lado, a fim de possibilitar o uso para duas pessoas, e simplesmente me convidou para subir ao palco!
Uma vez atrevido, atrevido e meio.
O baixista e o baterista (não me recordo quem eram) me olharam meio desconfiados, mas a um sinal de Johnny eles começaram a introdução.
Sem titubear, comecei a cantar com o meu ídolo, respondendo a sua primeira frase -  Tara (taturá) parutaratutára (pararaturará)...” - sem me intimidar nem ficar vermelho.
Não me lembro bem como ficou o dueto, mas ao final o público aplaudiu e o amigo Pulga congratulou-se comigo. Os músicos sorriram, e Johnny continuou o show como se tudo tivesse sido ensaiado.
Mesmo tendo privado posteriormente da amizade de Johnny Alf graças a alguns amigos que tínhamos em comum, antes de ele voltar a residir no Rio de Janeiro, o “happy hour” do Claridge se tornou inesquecível, e o breve contato que mantivemos naquela noite apenas comprovou a grandeza de alma de um artista que compensava a complexidade da sua criação musical com a simplicidade da sua condição de ser humano.

 

segunda-feira, 14 de abril de 2014





UM DOMINGO DE DECISÕES

 

O futebol brasileiro viveu ontem mais um dia de gala.
Os grandes centros conheceram os seus campeões regionais, numa comprovação de que os campeonatos estaduais, tão combatidos por muitos, ainda mantêm o seu glamour.
Finalmente o público resolveu ir ao estádio em todas as praças onde houve decisão de título, acrescentando aquela pitada de rivalidade tão necessária para a sobrevivência do futebol.
Independentemente da ausência de alguns clubes chamados grandes não terem chegado até a luta pelo título, as finais abrigaram aqueles que de fato tiveram o seu mérito, depois de uma maratona de jogos às vezes desinteressantes e de pouca afluência de torcedores.
Em Goiás, tudo foi pura emoção. O Atlético Goianiense anotou o seu gol salvador já nos acréscimos, para desespero e desencanto da torcida do Goiás.O Atlético alcançou o seu décimo-terceiro título estadual contra 24 títulos do adversário.
No Paraná a decisão ficou por conta de Londrina e Maringá, que não tomaram conhecimento do Atlético e do Coritiba, os tradicionais papões, nem do Paraná, considerado a terceira força. O título ficou com o Londrina, nos pênaltis. É o quarto da história.
Na Bahia, deu Bahia contra o eterno rival Vitória. O tricolor já havia vencido o primeiro jogo e o empate só fez confirmar a sua melhor fase.  São 45 títulos do Bahia contra 27 do Vitória.
Em Minas, um superclássico de arrebentar corações entre os donos da maior rivalidade do futebol brasileiro. Cruzeiro e Atlético Mineiro, dois clubes embalados pela classificação conseguida para a segunda fase da Copa Libertadores justificaram o atual equilíbrio de forças e emplacaram o segundo 0x0 no mata-mata da decisão. Melhor para o Cruzeiro, que jogava com a vantagem de dois empates por ter tido uma melhor campanha durante o campeonato e acabou ganhando o título de forma invicta. São 39 títulos, contra 42 do Atlético.
No Rio Grande do Sul, outro clássico de tradição, reunindo Internacional e Grêmio, desta vez disputado na cidade de Caxias porque o Inter, mandante do jogo, não pode utilizar seu estádio novinho em folha, cujo entorno ainda parece um canteiro de obras, o que poderia causar problemas com a segurança dos torcedores.
O resultado foi surpreendente, considerando o equilíbrio que geralmente norteia este clássico, e os 4x1 impostos pelo Inter poderá inclusive causar um forte abalo no emocional gremista, que precisa agora dar a volta por cima para encarar a Libertadores.
A história registra 43 títulos do Colorado contra 36 do rival tricolor.
Em São Paulo, outra surpresa: após ficar na frente do Corinthians no seu grupo, vencer o São Paulo e eliminar o Palmeiras nas semifinais, o Ituano se credenciou a uma final histórica contra o Santos, o melhor time do campeonato.
E, mesmo perdendo o jogo por 1x0, acabou ganhando o título na cobrança das penalidades.
O Ituano já havia sido campeão em 2002, mas aquele campeonato não teve a participação dos clubes grandes, que estavam empenhados na disputa do Torneio Rio-São Paulo. Desta vez o título veio pra valer, com uma campanha de qualidade.
No Rio de Janeiro, outra vez o Clássico dos Milhões, entre um Flamengo abatido pela eliminação precoce na Copa Libertadores e um Vasco que vem alternando boas e más exibições. Infelizmente, com outro erro crasso da arbitragem – que eu prefiro chamar de infelicidade – o Vasco foi prejudicado e o título ficou nas mãos do Flamengo, o que veio coroar um campeonato pífio e mal planejado. O resultado de 1x1 teve a clara influência dos árbitros, pois o empate aconteceu de uma forma irregular.
Eis um título para não ser comemorado.

                                                                                               

quarta-feira, 9 de abril de 2014






EU E A MÚSICA – A SÃO PAULO DE ADONIRAN BARBOSA

Meu São Paulo
foi da garoa, tempo frio que já mudou.
Cantada pelo filho do italiano
está mais quente a cada ano,
é o samba urbano que chegou.
Bexiga, Barra Funda, Lapa e Mooca,
e a maloca que, saudosa,
hoje não existe mais,
porém a caravana colorida
evolui na avenida
evocando os bons tempos do Brás

Com empolgação,
meu São Paulo é um poema
de Malvina, Adoniran,
Mato Grosso e Iracema.

Trem das onze,
as mariposas vão sambando na estação,
lembrando da moçada o sacrifício,
a derrubada do edifício,
o antigo Albion.
Acende o candeeiro de mansinho,
traz de volta o cavaquinho
pra encantar meu bem querer.
Cidade de trabalho e de progresso,
seu poeta e seu sucesso
nós vamos cantar outra vez
...”

(A São Paulo De Adoniran Barbosa – de Augusto Pellegrini)

Esta é a letra de um samba feito em homenagem a Adoniran Barbosa em 1975 para concorrer à escolha do samba-enredo do ano, cujo tema era exatamente “A São Paulo de Adoniran Barbosa”. A música concorreu, não ganhou, mas eu me senti premiado por ter convivido com o poeta, ainda que por breves instantes, pois isso enriqueceu a minha alma.
Gostaria de ter absorvido mais um pouco da sensibilidade de Adoniran, mas o nosso tempo foi muito curto. Enfim, como ele mesmo dizia – “mas isso num faz mal, num tem ‘portança’...”

                                                                 -0-

Desde muito jovem sempre gostei de exercitar o meu lado de compositor, na maioria das vezes fazendo sozinho a letra e a melodia da música, mesmo não conhecendo coisa alguma sobre teoria musical nem tendo a prática de executar qualquer instrumento.
A música era produzida dentro da minha cabeça, e eu tinha que a cantarolar dezenas de vezes para não esquecer a linha melódica (afinal, eu não sabia cifrar, e naquele tempo ainda não existia outra maneira prática de gravar uma melodia). Enquanto isso, o arranjo e a orquestração – violão, violinos, metais, piano, percussão – iam tomando sua forma definitiva, mas sempre dentro da minha cabeça.
Isto causava sérios problemas quando eu tentava cantar as minhas composições acompanhado por algum instrumentista, pois evidentemente a harmonia que ele extraía do instrumento era bem diferente daquela que eu havia concebido.
Quando comecei a compor fui influenciado pela música brasileira da época – coisas de Antônio Maria, Dolores Duran, Alberto Ribeiro, Tito Madi, Fernando Cesar, Henrique Lobo e Luiz Bittencourt, autores de sambas-canções que eram interpretados pela mesma Dolores, pelo próprio Tito Madi, por Nora Ney, Agostinho dos Santos, Dóris Monteiro, Lucio Alves, Cauby Peixoto, Dick Farney e outros tantos.
Mesmo assim, a minha música não possuía as características específicas do samba-canção e não obedecia à sequência tradicional dos seus versos (primeira estrofe-segunda estrofe, pois o samba-canção convencional não utiliza refrãos com frequência), “quebrando” a melodia às vezes de forma inusitada, coisa típica – de acordo com a opinião de músicos e especialistas – de quem não é engessado pela teoria e sente mais liberdade para simplesmente expor seus sentimentos.

Sozinho pela madrugada
não procuro amigos,
só procuro paz.
Partiu, não me disse nada,
não deixou resposta, não,
isso não se faz...

Eu tenho um pressentimento que me fala
mais alto que o desalento que em mim cala.
Nunca mais encontrarei quem me consola,
e dos sonhos que sonhei eu vivo agora
...

Sozinho pela madrugada,
não procuro amigos,
só procuro paz.
É muito fácil compreender,
mas é difícil resistir.
Sozinho pela madrugada,
vou ficando triste,
vou ficando só
...”

(Sozinho Pela Madrugada – de Augusto Pellegrini)
 
Mas logo chegou a bossa-nova, e eu incorporei o estilo às minhas composições, sem abandonar o jeito da canção e do samba-canção. No entanto, continuei distante daquilo que João Gilberto chamava de “samba autêntico” – Ary Barroso, Assis Valente, Ataulfo Alves, Dênis Brean – como também do samba-canção tipo deprê, chamado dor-de-cotovelo – Lupicínio Rodrigues, Fernando Lobo, Herivelto Martins, Jair Amorim – dos quais eu até gostava, mas não me identificava a ponto de compor coisas do gênero.
A bossa-nova me mostrou que a gente pode fazer poesia com as coisas mais simples do dia-a-dia e da natureza, sem necessidade de utilizar parnasianismos ou erudição nas palavras.

Descanso,
é gostoso de ver
as nuvens brincando,
e figuras formando
bem alto, no alto do céu,
não penso,
quero fugir da vida
como o dia perdido
no qual eu fugi de ti.

Morreu o sol,
escurece depressa
igual ao momento
em que escureceu
o dia sem luz que eu vivi.
Desperto,
meu descanso não era,
era sonho, quimera,
eu não fujo, eu não posso fugir
...”

(Descanso – de Augusto Pellegrini)

Por trabalhar dentro dessa linha de composição, foi com muita surpresa que recebi em 1974 um convite para ingressar na ala de compositores de uma escola de samba, a paulistana G.R.E.S. Pérola Negra, sediada na Vila Madalena, na época recém-egressa do Grupo B.
O convite partiu de um dos integrantes da ala, um engenheiro chamado Francisco Siqueira, que eu conheci por força do meu ofício, o nada romântico trabalho de inspecionar equipamentos, o que eventualmente acontecia na indústria onde ele era o gerente industrial.
A princípio relutei em aceitar, pois aquilo ia contra todas as convicções musicais que eu havia cultivado até então – jazz, samba-canção, bossa-nova – mas dada à insistência do Chico acabei aceitando o desafio.
Fiquei na escola durante seis anos, fiz parceria com o Chico Siqueira e com outros compositores, participei das festividades regulares, dos eventos de samba de quadra, dos ensaios na rua, das escolhas dos sambas-enredos, e logrei ser o vencedor em 1979 com o samba “Carnaval, Intrigas e Opiniões” – cujo tema eram as discussões sobre a origem do samba – em parceria com meu depois compadre Nelson Gengo (música gravada em LP 230023 pela CBS e elogiada em um artigo de 15 de fevereiro de 1979 no Jornal do Brasil pelo crítico musical José Ramos Tinhorão).

Até parece que o samba
procura imitar a vida
as divergências da história
permanecem na memória.
Nascido no Cariri,
ou então em Salvador,
se veio da ginga dos bambas
ou do jongo do interior,
importante é conseguir
unir todas as correntes,
fazendo com alegria
o canto da nossa gente

Samba, sambé, sembahó
ou sambaquixaba,
passado que todos discutem,
futuro que nunca se acaba.

Eram castanholas e pandeiros,
depois flauta e cavaquinho.
Intrigas e opiniões
jamais dividirão
os nossos corações.
No céu um repinique de estrelas
mostrando o carnaval de amanhã,
na terra virá a Pérola Negra
sambando ao som de Aldebarã

(Carnaval, Intrigas e Opiniões – Augusto Pellegrini e Nelson “Zurumba” Gengo)

Por ocasião dos desfiles os compositores eram também responsáveis pela harmonia da escola, o que nos permitia participar deles como um todo, percorrendo o trajeto em toda a sua extensão, indo e voltando, e tentando manter as diversas alas cantando em uníssono e com entusiasmo, evitando também o aparecimento de espaços em branco entre os sambistas, o que a nomenclatura do samba chama de “buraco”.
Era empolgante a gente se sentir iluminado pelos holofotes sustentados por uma bateria vibrante e por uma alegria contagiante que descia das arquibancadas para a avenida, que naquele tempo ainda não era chamada de “passarela do samba”.
Durante o ano a escola se dividia em múltiplas atividades, todas voltadas para a execução de um desfile perfeito. A bateria ensaiava paradinhas e filigranas sob a batuta do seu mestre; o cantor principal, chamado de “puxador” cantava o samba-enredo por horas a fio para afinar as cordas vocais e fazer com que todos os elementos da escola memorizassem o samba; as costureiras, em geral familiares dos participantes, produziam as fantasias elaboradas pelo diretor de carnaval, que acumulava as funções de figurinista; os artistas plásticos se confinavam em galpões escondidos dos olhos do mundo e preparavam as alegorias e os carros alegóricos.
Foi nesse ambiente ímpar que eu conheci uma figura também ímpar do poeta popular Adoniran Barbosa.
Entre outras coisas, Adoniran também era um compositor que não conhecia teoria musical. O espírito urbano das suas composições retratava o ator que morava nele, às vezes histrião, às vezes dramático, como de resto o era a sua interpretação como cantor.
De certa forma éramos dois peixes fora d’água que se encontravam no mesmo lugar, sob o mesmo céu estrelado, sem ter muita relação histórica com o que se passava ao redor.
Havíamos aceitado o desafio, eu como compositor, ele como protagonista, e estávamos no mesmo barco até que o mesmo chegasse ao nosso porto seguro.
Numa escola de samba, as pessoas que são homenageadas com o tema assumem a condição de padrinhos e madrinhas da associação durante o período que vai da escolha do tema pela comissão de carnaval até o dia do desfile. Nessa condição, elas frequentam a escola durante os ensaios, decidem se vão desfilar e de que forma irão desfilar e se tornam amigos de todos, desde os membros da diretoria até o sambista de ala mais humilde, embora poucas vezes esta amizade se prolongue depois do carnaval.
Um dos pontos altos da celebração é a escolha do samba-enredo, quando o personagem do tema participa de uma festa com direito a ouvir e apreciar mais de uma dezena de sambas feitos em sua homenagem.
Adoniran não era habituado a comparecer a ensaios, pois os mesmos duravam horas a fio, e o poeta, apesar de apreciar o sereno que lhe dava inspiração, não tinha na alma a retumbância de surdos e alto-falantes, mas o aconchego de uma cantina ou de uma esquina à luz de um poste, onde ele podia sussurrar poesia com sua pouca voz ao lado de uma taça de vinho ou de um violão solitário e preguiçoso.
Aparentemente também Adoniran não chegou a se comover pelo fato de ser cantado em prosa e verso, ele que já cantara tantos personagens, fictícios ou não – Iracema, Ernesto, Nicola, Malvina, Pafúncia, Mato Grosso, Joca, Geralda.
Mas na noite da escolha do samba-enredo ele lá estava, de bigodinho, chapéu e gravata borboleta, só faltava o cachecol que o acompanhava nas noites garoentas de São Paulo, e estava – diria eu – muito animado.
Seus olhos miúdos brilhavam com a intensidade dos olhos de um gato e seu sorriso com o canto da boca equilibrava o costumeiro cigarro sem filtro que aceleraria a sua morte oito anos depois.
Ele percorreu várias mesas para cumprimentar as pessoas que o aplaudiam, subiu ao palco para receber homenagens enquanto era saudado pelo presidente da escola – o que de certa forma lhe constrangeu, homem simples que era – e terminou na chamada “mesa da diretoria” onde sentavam alguns diretores e compositores.
Amante de um bom uísque, Adoniran foi presenteado com uma garrafa e um balde de gelo, com o que se regalou.
Um diretor se desculpou pela pobreza da agremiação, que na impossibilidade de lhe oferecer algo mais requintado optou pelo brasileiríssimo Old Eight e algumas peças de frango a passarinho feito por uma das tias da escola.
Adoniran se limitou a responder – “num tem portança” – e em pouco mais de uma hora secou a garrafa.

 

segunda-feira, 7 de abril de 2014


 

 

ESTRELAS FORA DA COPA

 

A pouco mais de dois meses do início da Copa do Mundo os torcedores e as comissões técnicas dos países participantes estão fazendo toda a sorte de mandinga para que nenhuma fatalidade ocorra com os craques das suas seleções, um problema que se repete a cada magna competição.
A Copa do Mundo é um torneio de tiro curto profundamente desgastante que requer muita dedicação e muito preparo físico e psicológico dos jogadores. Eles têm que estar cem por cento dentro das condições atléticas, físicas e mentais para tentar a superação que cada partida exige.
Qualquer coisa que venha desequilibrar o estado emocional pode ser fatal – vide como exemplo a estranha crise nervosa de Ronaldo no dia da final contra a França em 1998 e o resultado dela consequente.
Mas apesar de toda essa reza braba e de todos os cuidados tomados, alguns jogadores que poderiam fazer a diferença no Brasil já estão inexoravelmente fora de combate.
Assim, o torcedor brasileiro, os milhares de turistas estrangeiros que virão prestigiar as suas seleções e os milhões de telespectadores em todo o mundo que acompanharão a Copa pela TV deixarão de ver alguns atletas que costumam acontecer com sucesso nos finais de semana nos jogos dos seus campeonatos nacionais.
Alguns jogadores que poderiam fazer a diferença estão fora da Copa, como o maestro do meio-campo holandês Kevin Strootman (que atua pela Roma), os atacantes ingleses Jack Wilshere e Theo Walcott (ambos do Arsenal), o meia-atacante alemão Sami Khedira (Real Madrid) e o experiente goleiro espanhol Victor Valdés (do Barcelona).
Existe alguma possibilidade de a Colômbia contar com o seu principal atacante Falcao Garcia, que se recupera de uma grave lesão no joelho, mas mesmo voltando ele com certeza não estará dentro das condições necessárias para fazer uma boa competição.
Outros lesionados que não estarão participando do torneio por causa de contusão são Bryan Oviedo, costarriquenho que atua no Everton, da Inglaterra, Giuseppe Rossi, italiano da Fiorentina e o português nascido em Guiné-Bissau Armindo Tué Na Bangna, conhecido pelo nome de Bruma. Também está fora da Copa o zagueiro da seleção da Croácia Josip Simunic que atua pelo Dínamo de Zagreb, suspenso pela Fifa por dez jogos oficiais por causa de uma saudação fascista inoportuna.
Esta situação não é nova, pois em Copas anteriores muitos ídolos deixaram de desfilar o seu futebol por problemas de contusão, inclusive os brasileiros Tesourinha (1950), Rogério (1970), Clodoaldo (1974), Zé Maria e Nunes (1978), Careca (1982), Ricardo Gomes (1994), Juninho Paulista, Marcio Santos, Flavio Conceição e Romário (1998), Emerson (2002) e Edmilson (2006).
Acrescente-se à lista o espanhol Santiago Cañizares e o inglês Rio Ferdinand (2002), e o inglês David Beckham, o mexicano Salvador Cabañas e o alemão Michael Ballack (2010), só para mencionarmos alguns casos mais recentes.
O argentino Alfredo Di Stefano é um caso à parte.
Entre os anos 1940 e 1950 o craque vivia o melhor momento da sua carreira, formando um ataque avassalador ao lado de Boyé, Moreno, Labruna e Lostau, e a Argentina seria a franca favorita para brigar pela conquista das Copas de 1942 e 1946, talvez rivalizando apenas com a Itália.
Mas Di Stefano deixou de se consagrar porque as Copas não aconteceram, em virtude da Segunda Guerra Mundial.
Já veterano, Di Stefano foi convocado para defender a Espanha na Copa de 1962, mas viajou para o Chile contundido, e a seleção espanhola foi eliminada pelo Brasil antes que ele adquirisse condição de jogo.   
São as trapaças da sorte...