terça-feira, 3 de fevereiro de 2015







IDIOTAS NO COMANDO  

 (ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 03/02/2015) 

Existe um preceito jornalístico que limita o tempo de pergunta e a objetividade da resposta nos programas de entrevistas, tudo pautado na boa educação e no respeito que ambos – entrevistador e entrevistado – devem ter entre si e com o espectador. Esta regra vale para qualquer que seja o assunto em questão, seja ele de natureza científica, política, econômica ou educacional, seja ele sobre o nosso brejeiro futebol.
Interrupções no discurso são indesejáveis, como é indesejável impedir que a outra parte desenvolva o seu raciocínio quando tenta fazer com que a conversa fique mais clara para o público espectador.
Ao longo do tempo, porém, nos acostumamos a ver nas entrevistas esportivas muitos dirigentes e técnicos desequilibrados dando declarações arrogantes e muitas vezes ofensivas e não admitindo qualquer tipo de diálogo. São os “donos da verdade”.
Já nos habituamos a ver e ouvir as fanfarronices do chefão Eurico Miranda e a ironia do professor Vanderlei Luxemburgo, a insolência de Dunga, a má educação de Andrés Sanchez e soberba de Ricardo Teixeira. Também já estamos cansados das respostas mal-humoradas de Muricy Ramalho e Émerson Leão.
A maioria das entrevistas, no entanto, termina de uma maneira tranquila, com pedidos de desculpas explícitos ou embutidos.
Não foi o que aconteceu na semana passada, quando tivemos a oportunidade de assistir ao suprassumo da estupidez em que se transformou a entrevista de Mario Gobbi, atual presidente do Corinthians – que está de saída, para a felicidade do torcedor corintiano – no programa Bate Bola da hora do almoço na ESPN Brasil.
Ao invés de responder aos comentaristas com clareza e objetividade, o presidente esbravejou durante meia-hora sem dar espaço aos interlocutores, tendo o cuidado de afirmar que os jornalistas não estavam preparados para lhe fazer perguntas e se colocou num pedestal que, ao invés de traduzir conhecimento, demonstrou apenas falta de educação e ignorância.
Tudo começou quando o comentarista pediu que ele desse a sua versão para o fato de a torcida organizada do clube ter contratado o rapaz que lançou o sinalizador na Bolívia, causando a morte do menino Kevin Espada.
Mario Gobbi se enfureceu e disse não haver provas de que ele teria lançado o artefato e que “a prisão dos dez integrantes da Gaviões da Fiel em Oruro tinha sido um crime muito mais grave do que a morte do jovem boliviano”!
E então deitou falação sobre os procedimentos da lei boliviana, numa clara ingerência na soberania jurídica de um outro país, ao mesmo tempo em que dizia para os comentaristas boquiabertos que eles deveriam aprender sobre leis antes de interpelá-lo.
O show de grosseria e desvairamento terminou com a chamada dos comerciais.
Este é o perfil de muitos dirigentes do futebol brasileiro, que são despreparados para exercer a liturgia do cargo. O seu destempero muitas vezes açoda a desarmonia e estimula a violência.
A lista dos idiotas que estão no comando não é pequena, e neste exato instante ela tem entre os seus principais representantes o atual presidente do São Paulo, Carlos Miguel Aidar, que em pouquíssimo tempo só colecionou desafetos pela forma grosseira como conduz as discussões tanto interna quanto externamente, mas que diferentemente do presidente corintiano ainda está no início do mandato.
Já Mario Gobbi, que vai entregar o cargo neste mês de fevereiro, é o tipo de dirigente que nada acrescentou ao Corinthians nem ao futebol, e com certeza não vai deixar saudades.

 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015






MINISTRADAS E MINISTRICES 

(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 29/01/2015) 

Inexperiente não apenas na liturgia ministerial como também na administração do assunto que lhe foi dado para ministeriar, George Hilton, o recém-empossado Ministro do Esporte já começou a meter os pés pelas mãos.
Não que tivesse posto em prática alguma política danosa ao esporte ou que tivesse se envolvido em algum desvio de conduta pouco recomendável, o que infelizmente vem sendo a tônica de muitos políticos aqui no Brasil.
Talvez, porém, pelo seu inequívoco envolvimento com o ministério religioso, o senhor (ou talvez devemo-lo chamar de pastor) Hilton se esqueceu de separar as atribuições do seu cargo atual (Ministro do Esporte) com o seu cargo de ofício (ministro de Deus) e declarou que a sua primeira ação no Ministério seria implantar procedimentos religiosos entre os jogadores, “para afastá-los das drogas”, disse ele.
Trata-se de duas coisas muito importantes que ajudam na formação dos jovens – religiosidade e prevenção contra o uso de drogas – mas que parecem estar sendo formuladas no momento e no fórum errados. E do modo errado.
O esporte brasileiro, em particular o futebol, nossa maior paixão, vive um momento de desencontro. Há um descompasso técnico, emocional e financeiro que começa a criar um abismo entre o Brasil e outros países que praticam este esporte, alguns se fortalecendo, como os europeus, outros se reforçando, como os asiáticos, outros se repaginando como os norte-americanos.
Além disso, vemos se aproximarem os Jogos Olímpicos de 2016 sem que possamos confiar na estrutura dos locais e dos equipamentos necessários e sem que possamos confiar nos atletas que representarão o Brasil, quer por causa dos problemas de preparação e treinamento, quer por falta de uma verba que dê suporte estrutural às modalidades, algumas das quais no meio de uma intensa crise de credibilidade, como o vôlei, a canoagem e o taekwondo, ou de funcionabilidade, como o futebol feminino, o atletismo, a natação e a ginástica.
Por fim, existe o problema de que o Brasil, como um país laico, não pode obrigar que os clubes ministrem compulsoriamente aos seus atletas qualquer tipo de religião, seja ela evangélica (como no caso do Ministro), católica ou provinda de raízes africanas, não apenas porque isto desviaria do atleta o seu foco principal – que é estar preparado para competir – como também porque criaria uma separação indesejável em grupos de atletas com diferentes crenças ou práticas religiosas.
O esporte deve ser tratado como esporte, e quaisquer desvios que possam afetar o desempenho do atleta e comprometer o seu rendimento devem ser tratados com reserva, inclusive aqueles relativos a uso de droga.
São conhecidos alguns casos de consumo de drogas no esporte (ou de uso de dopping, mais comum, mas igualmente condenável), mas felizmente esses casos são ínfimos se considerarmos a quantidade de atletas e profissionais que têm o esporte como meio de vida.  
Existem naturalmente, sem necessidade da interferência ministerial, muitos atletas evangélicos que se intitulam Atletas de Cristo, que a seu modo procuram transmitir aos companheiros algum tipo de formação religiosa, e os clubes – com exceção de alguns técnicos que são totalmente contrários à ideia – não se importam que isso aconteça. 
Alertado por alguém, George Hilton mudou o discurso e disse que a sua preocupação inicial será a formação de jovens atletas, o futebol feminino e a Olimpíada de 2016, omitindo qualquer menção a questões religiosas.
Mesmo assim, Hilton não deixou de preencher os principais cargos do seu Ministério com políticos do PRB, todos pastores da Igreja Universal do Reino de Deus, que obviamente farão do seu trabalho uma cruzada religiosa dentro do esporte.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015





O FUTEBOL DO AMANHà

 (ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 22/01/2015) 

O Campeonato Sul-Americano de Futebol Sub-20 é um tradicional torneio que existe desde 1954 e é organizado pela Conmebol – Confederação Sul-Americana de Futebol que, como o próprio nome indica, reúne jogadores jovens dos países da América do Sul.
Até agora foram realizadas 26 disputas, sem muito respeito à periodicidade (apenas a partir de 1995 é que ele é jogado a cada dois anos). Mesmo assim, mantém uma boa média, pois o torneio tem sido disputado a cada 2,3 anos.
O Brasil vem reinando com folga no alto do pódio, pois conquistou 12 títulos, contra 7 do Uruguai, 4 da Argentina, 2 da Colômbia e 1 do Paraguai.
Por estranho que possa parecer, nenhuma das edições do torneio foi realizada no Brasil, isto é, o Brasil é o único dos 10 países que compõem a Conmebol que jamais sediou o torneio.
Um dos motivos desta ausência é que os dirigentes brasileiros de uma forma geral ignoram torneios amadores, assim como não dão muito valor ao Torneio Pré-Olímpico e aos próprios jogos de futebol das Olímpíadas, provavelmente porque eles têm uma importância financeira menor.
Assim, nunca houve por parte da CBF (e do próprio governo) o mesmo empenho mostrado com respeito à realização da Copa do Mundo ou aos Jogos Olímpicos como um todo, onde se misturam interesses políticos, turísticos, particulares, e até esportivos. 
Além do mais, ao contrário do que acontece em países como Espanha, Alemanha, Itália e Argentina, nunca houve no Brasil uma atenção maior para as categorias de base e chega a ser realmente fantástica a qualidade individual dos nossos jovens que, jogados à própria sorte, sem acompanhamento escolar, médico, físico, técnico e psicológico, ainda conseguem se sobressair no mercado profissional, alguns até com louvor.
A primeira edição do Campeonato Sul-Americano Sub-20 foi realizada na Venezuela, para jogadores com a idade limite de até 19 anos, e durante sete edições teve um valor puramente simbólico. A partir de 1977, porém, o torneio passou a classificar as melhores seleções para o Campeonato Mundial Sub-20 da Fifa, e aí aumentou o seu pedigree.
A partir de 1988, no torneio que foi disputado na Argentina, o limite de idade foi elevado para 20 anos e isso se mantém até hoje.
As seleções são divididas em dois grupos de cinco, classificando-se as três melhores de cada grupo para a disputa de um hexagonal por pontos corridos, sem a tradicional partida final em disputa pelo título ou pelo terceiro lugar.
O Brasil vai caminhando em direção à classificação, com duas vitórias contra Chile e Venezuela e uma derrota contra os uruguaios, donos da casa.
Mas a seleção brasileira precisa melhorar seu rendimento no torneio hexagonal se estiver pretendendo alguma coisa.
Nota-se no time dos meninos as mesmas falhas estruturais encontradas na seleção principal, o que confirma a necessidade de uma chacoalhada geral nos nossos conceitos se quisermos chegar a algum lugar no futuro.
Na derrota para o Uruguai tomamos o que se chama de “nó tático” simplesmente porque os uruguaios mostraram um futebol de toques rápidos, organizado e taticamente disciplinado.
O que não é novidade.
Os amistosos que as equipes brasileiras estão fazendo neste início de temporada mostram exatamente isso. Adversários nem sempre tecnicamente brilhantes dão uma aula de administração e postura dentro de campo, contrastando com o futebol sem objetividade que estamos mostrando.
Temos muito trabalho pela frente e precisamos ter a humildade necessária para encarar os fatos.    

terça-feira, 20 de janeiro de 2015






ALEMANHA 3 x 1 BRASIL 

(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 20/01/2015) 

Dias atrás, as redes sociais postaram uma piada que podia não ser engraçada, mas não deixava de ser alarmante. Alguém reproduzia palavras, frases e nomes que estavam entre os mais ouvidos e pronunciados no Brasil em 2014, estando entre elas termos como protesto, crescimento zero, inflação, corrupção, Petrobrás, institutos de pesquisa, eleições e... gol da Alemanha!
Pode parecer brincadeira, mas cada uma destas palavras encerra um drama, uma angústia, um alerta ou um questionamento.
Como a nossa praia é o esporte, vou deixar de lado tudo o que se refere à política, economia ou comportamento e me fixar somente na dolorosa constatação de uma goleada impiedosa, embora nem tanto inesperada, que se abateu sobre o nosso orgulho nacional.
Em abril de 2013, o ex-lateral alemão Paul Breitner, campeão mundial em 1974 e atual comentarista de TV, esteve no Brasil e foi entrevistado no programa Bola da Vez na ESPN. Na ocasião, o antigo craque da seleção, do Bayern Munich e do Real Madrid declarou que “os brasileiros precisam aceitar que estão jogando um futebol do passado”. Ele disse que nós precisávamos “seguir o exemplo da Alemanha que, após perder a final para o Brasil na Copa de 2002, resolveu mudar, planejar”, e que a Alemanha era a favorita para ganhar a Copa de 2014.
Muita gente não gostou das declarações do alemão, que foi chamado de presunçoso e ultrapassado.
Afinal, o que é que esses “cinturas duras” que sempre privilegiaram o preparo físico em detrimento da malícia, da ginga e da individualidade, marcas registradas do futebol brasileiro – que não seria pentacampeão por acaso – tinham para nos ensinar?
Não sei, nem vou entrar em detalhes, mas a história acabou dando razão a Breitner.
Na concepção tupiniquim, o favorito para a Copa de 2014 era o Brasil, não apenas por jogar em casa, ajudado pelo calor dos trópicos e pelo calor ainda maior do uma torcida espalhada de norte a sul, numa onda verde-amarela que iria apequenar e varrer todos os seus adversários, mas também porque aqui se jogava “o melhor futebol do mundo”.
A vitória grandiosa por 3x0 na Copa das Confederações de 2013 sobre a Espanha, então campeã do mundo, era mais do que uma constatação de que o bicho viria mesmo pra pegar.
Mas o futebol envolvente, altamente técnico e ao mesmo tempo competitivo desenvolvido pelos germânicos acabou mostrando naquele momento a que eles vieram, e os resultados não custaram a aparecer.
Os responsáveis pelo nosso futebol continuam achando que tudo não passou de mera falta de sorte, mas a gente continua assistindo no momento um futebol brasileiro tecnicamente menor se comparado com o que é apresentado em outros países.
O ano foi iniciado com mais uma vitória alemã.
Representado por Corinthians e Fluminense na Florida Cup, o Brasil perdeu três jogos contra um para os alemães representados pelo Bayern Leverkusen e Colonia FC, respectivamente terceiro e décimo-primeiro colocados da Bundesliga 2014-2015 (o Colônia conquistou o título da Florida Cup por ter conseguido o maior numero de pontos nas partidas disputadas).  
É bem verdade que os times brasileiros estão iniciando a temporada ainda desentrosados e testando novos jogadores, mas é também verdade que os alemães, embora em meio de temporada, saíram de uma temperatura negativa para enfrentar o calor da Flórida e dosaram o seu esforço distribuído entre o estádio de futebol americano de Jacksonville e as delícias turísticas que vão desde a praia de Atlantic Beach até o irrecusável chope do Beer and Margueritas.
E mesmo assim ganharam por 3x1.

  

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015








O SALVADOR DA PÁTRIA 

 (ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 15/01/2015) 

Vejo nos comentários esportivos que alguns clubes brasileiros estão se preparando para a temporada apostando em um estilo diferente de reforço.
Normalmente quando se fala em reforço o torcedor logo pensa em um lateral que possa cobrir as deficiências do Joãozinho, que marca bem, mas apoia mal, ou do Zezinho, que apoia bem, mas não sabe marcar. Ou do Pedrão, aquele zagueiro central pé furado que não sabe se posicionar, marca a bola e esquece o adversário, e ainda acha que é o Franz Beckenbauer.
O time carece também daquele maestro para enfiar as bolas corretas para o ataque, pois o armador Felisberto não consegue acertar um passe de cinco metros. E precisa ainda de um centroavante para o lugar de Bernardão, trombador que se atrapalha com a bola na hora de finalizar.
Mas tudo isso, na verdade, demanda muito dinheiro e nem sempre traz os resultados esperados.
Além do mais, os jogadores “sonho de consumo” são caros -  e às vezes eles preferem ficar aguardando na moita sem facilitar a sua transferência porque têm fichas para gastar e não irão tomar nenhuma atitude precipitada. Enquanto isso, os clubes tentam aproveitar algum negócio de ocasião ou jogadores em fim de contrato.
Mesmo assim, os clubes sempre encontram dificuldades porque o mercado está inflacionado e a faixa salarial está muito além da lógica de uma economia em recessão.
É aí que entra o reforço inesperado.
Esse reforço não chegará a vestir a camisa para entrar em campo e tentar marcar os gols salvadores da pátria. Ele ficará boa parte do tempo em um escritório com ar condicionado pesquisando, estudando, preparando relatórios, negociando patrocínio e dando retaguarda ao presidente.
Ele vai atuar na posição de “diretor de futebol”.
O Palmeiras acaba de contratar Alexandre Mattos, ex-diretor bem sucedido do Cruzeiro, para ocupar o cargo de diretor executivo, e Alexandre Mattos acaba de marcar o seu primeiro gol, deixando Corinthians e São Paulo falando sozinho e levando o atacante-revelação Dudu para o Parque Antártica, digo, para o Allianz Parque.
A contratação deste dirigente faz a torcida se lembrar com euforia do período áureo do clube entre 1993 e 2000, a chamada Era Parmalat, quando o alviverde conquistou onze títulos, numa média de quase dois títulos por ano.
É claro que aquele momento foi diferente, pois junto com o dirigente José Carlos Brunoro, egresso do voleibol, vieram muitos e muitos dólares da Parmalat, o que possibilitou a formação de um elenco inesquecível com Marcos, Velloso, Cafu, Arce, Antonio Carlos, Roque Junior, Junior Baiano, Roberto Carlos, Junior, Cesar Sampaio, Rivaldo, Djalminha, Zinho, Edilson, Edmundo, Evair, Muller e Paulo Nunes.
Ninguém sabe a mágica que fez o Alexandre Mattos, como de resto ninguém sabe como funcionam as transações milionárias do futebol, isto é, quem determina, quem avaliza e quem paga.
O que se sabe é que este é o tipo de reforço que está sendo garimpado pelos presidentes dos clubes para lhes dar a sustentação necessária para que mantenham a máquina funcionando com sucesso.
Os clubes que carecem deste combustível estão em palpos de aranha, como o Botafogo, que precisa se contentar com contratações de segunda linha, ou o Santos, que tem que se desfazer de seus melhores jogadores para fazer frente ao pagamento do salário dos demais.      

 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015







HÁ SINCERIDADE NISSO? 

(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 12/01/2015) 

Em 1952, estreava no Teatro Recreio, centro do Rio de Janeiro, um novo espetáculo musical que levava o nome de “Há Sinceridade Nisso?”.
O Brasil, cuja sede de governo era o Rio de Janeiro, era governado na época pelo presidente Getúlio Vargas – que iria se suicidar dois anos depois – e o clamor popular mostrava uma certa insatisfação, do que se aproveitava a oposição política com o auxilio de alguns jornais e comunidades artísticas para exercer suas críticas mordazes e nem sempre sutis.
“Há Sinceridade Nisso?”, produzido por Roberto Ruiz, era um espetáculo burlesco do gênero teatro de revista, e como tal mostrava uma colcha de retalhos incluindo mulheres sedutoras vestindo maiôs e biquinis reluzentes e reduzidos, ricos cenários, um corpo de bailarinas executando coreografias ao som de grandes orquestras, cantores e cantores da moda e sketches teatrais que não mediam palavras para dizer o que os autores do texto pensavam.
Com o tempo, o teatro de revista propôs uma abertura mais ampla para o público e abriu espaço para um tipo de cinema conhecido como “chanchada”, cujo humor escrachado era mais contido.
“Há Sinceridade Nisso?” era uma sátira em torno das promessas, dos pronunciamentos e das atitudes dos políticos e da sociedade da época, e retratava o comportamento brincalhão e descompromissado do carioca.
Mesmo sem significar exatamente a mesma coisa, cabe nos tempos modernos essa mesma indagação quando deparamos com as manobras nos clubes e nas federações para perpetuar este ou aquele no poder.
Suspeita-se que não haja sinceridade alguma nos gestos dos dirigentes esportivos quando eles dizem que estão preocupados em melhorar a imagem e a qualidade do esporte no país.
Candidato único ao cargo de presidente da Confederação Brasileira de Futebol – CBF, Marco Polo Del Nero foi eleito por 44 dos 47 votantes e começa seu mandato em abril deste ano. O atual presidente, José Maria Marin será o seu primeiro vice-presidente por ser o vice mais velho. A eleição foi garantida após a aprovação das contas da entidade (o que nem chegou a acontecer, nem para dar um pouco mais de seriedade ao processo de transmissão de cargo).
Esta pressa no processo tem a ver com prazos a serem cumpridos de acordo com os regimentos internos, que inclusive estabelecem um tempo para que Del Nero faça a transmissão do cargo que ocupa como presidente da Federação Paulista de Futebol.
Como Del Nero assumirá a presidência da CBF, a partir de abril o atual vice da FPF – Reinaldo Carneiro de Barros – assume em São Paulo, e tudo fica em casa.
A disputa pela CBF previa lances mais emocionantes com a chegada de uma chapa de oposição a Del Nero-Marin formada pelo ex-presidente corintiano Andrés Sanchez e pelo presidente da Federação Gaúcha Francisco Noveletto, mas a coisa não evoluiu pela dificuldade de articulação dos dois, que não reúnem muitos simpatizantes dentro do círculo fechado dos presidentes de clubes e federações.
Na sua sabedoria burlesca, o teatro de revistas, uma espécie de Pasquim ou de Charlie Hebdo das artes cênicas, está fazendo falta nos dias atuais. Foi substituído impropriamente por alguns programas humorísticos de televisão, pois o seu caráter de diversão para um público adulto e fechado lhe permitia dizer as coisas mais às claras, à guisa de crítica satírica.
Talvez essas manobras dos nossos cartolas e as suas atitudes nem sempre transparentes justificassem a apresentação de um outro musical – “Tem Gato Na Tuba” – encenado pela Companhia Walter Pinto em 1948.    

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015






O MINISTRO DO ESPORTE 

(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 08/01/2015) 

Muitos comentários negativos sobre a escolha do novo Ministro dos Esportes estão na ordem do dia.
A ONG “Atletas pelo Brasil”, uma influente organização de atletas e ex-atletas, atualmente presidida pela ex-jogadora Ana Moser, e que congrega esportistas de renome, como Raí, Cafu, Dunga, Lars Grael, Bernardinho, Oscar Schmidt, Rogério Ceni, Flavio Canto, Fernando Meligeni, Hortência, Paula, Gustavo Borges, Kaká, Paulo André e Rubens Barrichello, entre outros, não ficou atrás.
Esta organização manifestou oficialmente o seu descontentamento pela escolha de George Hilton para a pasta de Ministro do Esporte neste segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. 
Em nota oficial, a entidade reclamou da falta de critério para a indicação de Hilton exigindo “mais respeito e cuidado com o esporte no Brasil”.
Eles lembram que 2016 será um ano olímpico e que a falta de profissionalismo de uma pessoa na área governamental para lidar com o problema poderá ser um sério entrave para o correto funcionamento de uma competição tão importante como essa, num momento em que pululam denuncias de malversação de verbas e que as empresas responsáveis pelo andamento das obras – já atrasadas – estão respondendo a processos judiciais.
A nota exalta que “infelizmente, há anos, o Ministério do Esporte é usado na barganha política” e que a familiaridade do ocupante do cargo com qualquer tipo de modalidade ou de gerenciamento esportivo é absolutamente nula.
Desde 1937, o esporte nacional era administrado pelo Ministério da Educação (MEC), e apenas em 1995, na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso ele ganhou um Ministério exclusivo, chamado Ministério Extraordinário do Esporte, embora os assuntos técnicos e administrativos fossem ainda controlados pelo MEC através da Secretaria de Desportos a ele vinculada.
No mesmo ano, porém, foi criado o Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto (INDESP), que se desvinculou do MEC e se subordinou ao novo Ministério.
Em 1998 o nome foi mudado para Ministério do Esporte e Turismo, que manteve o INDESP funcionando sob sua subordinação.
Com o presidente Lula, o Turismo ganhou um Ministério próprio e o órgão passou a ter o nome de Ministério do Esporte.
A rigor, apenas entre 1995 e 1998 o Ministério teve alguém alinhado com o esporte no seu comando – Edson Arantes “Pelé” do Nascimento, que dispensa qualquer biografia.
Na gestão FHC o Ministério mudou três vezes de titular, começando por Rafael Greca em 1999-2000 (economista, engenheiro, escritor, urbanista, poeta, editor, historiador e político), passando por Carlos Carmo Melles em 2000-2002 (agrônomo, empresário rural e político) e finalizando com Caio Cibella de Carvalho em 2002-2003 (turismólogo e político).
Com Lula e Dilma, os ministros foram Agnelo Queiroz em 2003-2006 (médico e político), Orlando Silva em 2006-2011 (só político) e Aldo Rebelo em 2011-2015 (jornalista e político).
É pouco provável que, com a evidente exceção feita a Pelé, esses senhores ministros tenham tido algum interesse em qualquer modalidade esportiva, tenham lido colunas de esporte nos jornais por prazer, tenham acompanhado o noticiário esportivo como lazer, ou mesmo chutado uma bola na juventude, e o senhor George Hilton (teólogo, radialista, apresentador de programas evangélicos na TV e político) não foge à regra.
Isto é um retrato do que acontece com a grande maioria dos titulares dos outros Ministérios, pois o interesse maior do governo costuma ser o seu conforto político ao invés do conhecimento técnico da pasta ministerial.  

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015





A COPINHA  

 (ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 05/01/2015) 

Janeiro é o mês onde as equipes começam a engraxar as suas engrenagens tendo em vista a temporada que se inicia com os campeonatos regionais, e vai além com as competições nacionais e internacionais para aqueles mais bem sucedidos.
Os clubes fazem o chamado planejamento, procurando adequar as suas necessidades técnicas e financeiras com a consequente liberação de atletas que não mais interessam e a chegada de outros para serem titulares ou simplesmente comporem o elenco.
Mas janeiro também é o mês da Copinha, como é carinhosamente chamada a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Este torneio de tiro curto faz a alegria dos meios de comunicação esportivos pela cobertura que propicia, e também dos clubes e jogadores pela visibilidade conseguida.
A Copinha existe desde 1969, e de lá para cá 45 edições foram disputadas, com apenas um hiato em 1987 porque a competição era então organizada pela Prefeitura de São Paulo e o prefeito Jânio Quadros decidiu não realizá-la naquele ano.
O Corinthians é o seu maior vencedor, com 8 títulos (e 7 vice-campeonatos, o que lhe confere a proeza de ter sido finalista em 15 das 45 edições disputadas, ou seja, mais de 30%). A seguir vêm o Fluminense, com 5, o Internacional, com 4, e São Paulo, Santos e Atlético Mineiro, com três conquistas cada um.
Entre os 12 principais clubes do país apenas Palmeiras, Botafogo e Grêmio jamais faturaram um título. Em compensação, clubes pequenos como Nacional-SP (1972 e 1988), Marília-SP (1979), Ponte Preta (1981 e 1982), Juventus-SP (1985), Guarani-SP (1994), Lousano Paulista-SP (1997), Roma Barueri-SP (2001), Santo André-SP (2003) e América-SP (2006) já levantaram o caneco (não estou incluindo a Portuguesa, o América Mineiro e o Figueirense nesta relação de “pequenos” considerando a história destes clubes nos seus estados).
No total, os clubes paulistas venceram o torneio 27 vezes, contra 8 dos cariocas, 5 dos mineiros, 4 dos gaúchos e 1 dos catarinenses.
Esta disparidade talvez se explique pela maior quantidade de times paulistas na disputa, mas também tem algo a ver com a dedicação que os centros de treinamento de certos clubes costumam tratar os seus atletas de base.  
Este torneio é visto com muito carinho por agentes, técnicos e dirigentes, pois é historicamente responsável pela revelação de muitos craques que fizeram e fazem parte do universo do futebol.
Alguns dos muitos jogadores revelados na Copinha se tornaram internacionalmente famosos – todos com passagem pela seleção brasileira: Paulo Roberto Falcão (Internacional, 1972), Toninho Cerezo (Atlético Mineiro – 1972), Edinho (Fluminense – 1973), Casagrande (Corinthians – 1980), Raí (Botafogo de Ribeirão Preto – 1985), Cafu (São Paulo – 1988) e Dida (Vitória – 1993).
Kaká (São Paulo – 2001) e Robinho (Santos – 2002) também participaram, mas eram reservas e ficavam no banco (!).
Além desses, temos Djalminha, Junior Baiano, Marcelinho Carioca e Paulo Nunes (todos Flamengo – 1990), Dener (Portuguesa – 1991), morto em um acidente quando despontava para a fama, e o zagueiro Lúcio (Internacional – 1998).
Mais recentemente, a Copinha nos deu Neymar (Santos – 2008) e Lucas (São Paulo – 2010, que então era chamado de Marcelinho).
Só a revelação desses craques já justificaria a existência do torneio.  

 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014


 
 
RIO ANTIGO
Quero um bate-papo na esquina
Eu quero o Rio antigo com crianças na calçada
Brincando sem perigo
Sem metrô e sem frescão

O ontem no amanhã...”
(Rio Antigo – Nonato Buzar e Chico Anysio)
De repente o poeta surgiu do nada.
Não me conhecia, foi-me apresentado – “este é Augusto Pellegrini, faz um programa de jazz aqui na rádio” – e parece que não prestou muita atenção.
Aliás, a rigor parecia que ele nunca prestava atenção em nada, pois seus sentidos estavam mais ligados no irreal, no surreal, no abstrato, de onde lapidava as suas frases, seus pensamentos e os seus acordes.
Sua filosofia de vida.
O poeta estava triste, havia morrido seu irmão, me contaram, e ele deixara o habitat que escolhera, cidade do Rio de Janeiro, para cumprir com seus deveres fúnebres em São Luís e, depois de fazê-lo, resolveu procurar os amigos. Como era dia, foi a uma emissora de rádio e às ruas do Centro velho; fosse à noite, talvez procurasse pelos bares das quebradas.
O poeta não era só poeta.
Cantor, compositor e produtor musical, nascido no interior do Maranhão na pequena Itapecuru-Mirim em 1932 (naquele tempo, muito pequena), Raimundo Nonato Buzar foi brilhar no Rio, para onde viajou aos 21 anos num verdadeiro mergulho no meio do desconhecido.
Fez seu debut nas noites cariocas cantando e tocando as suas composições nos bares da moda – Bottle’s e Little Club – e logo teve o seu talento reconhecido por dezenas de artistas e frequentadores da noite, entre eles donos de casas noturnas, diretores de gravadores e produtores artísticos.
Compôs um total de 162 canções, tanto solo como ao lado de parceiros como Paulo Sérgio Valle, Ronaldo Bôscoli, Carlos Imperial, Chico Anysio, Chico Feitosa, Torquato Neto, Nelson Motta, Paulinho Tapajós, Roberto Menescal, Rosinha de Valença, Orlandivo, Tibério Garpar, João Nogueira, Nosly, Gerude, Rogeryo du Maranhão, e muitos outros. 
Maysa, Elis Regina, Elizeth Cardoso, Nana Caymmi, Cauby Peixoto, Jair Rodrigues, MPB4, Wilson Simonal, Silvio César, Erasmo Carlos, Nelson Gonçalves e Ithamara Koorax, entre outros, gravaram canções suas e ajudaram a imortalizar o seu nome.
Nonato Buzar também atacou de produtor, sendo responsável na RCA Victor por discos de Jair Rodrigues, Wilson Simonal, Turma da Pilantragem, Regininha e Jimmy Cliff e também por um álbum do Festival Internacional da Canção, um concurso de músicas criado por Augusto Marzagão para a TV Globo que durou de 1966 a 1972.
Chegou às paradas europeias com “Vesti Azul” e compôs um punhado de músicas para novelas de televisão – “Irmãos Coragem” (com Paulinho Tapajós), “Verão Vermelho”, “O Homem Que Deve Morrer” (com Torquato Neto) e trilhas para outros programas de tevê e filmes diversos.
O poeta, simples como um detalhe da natureza, não era pouca coisa não, mas não vivia sobre seus louros.  
Sujeito estranho, mas simpático, desdenhava completamente a aura do sucesso obtido principalmente quando estava no Maranhão, seu feudo, onde cultivava amigos e novos amigos com o mesmo desprendimento e a mesma afeição.
Depois de cinco minutos de conversa, ele me confidenciou que devido ao seu luto familiar não se sentia tentado a cair na farra durante a noite e sabia que se encontrasse a turma da boemia nos bares da vida, a coisa iria inexoravelmente descambar para tal.
Então, pediu meu endereço e prometeu me fazer uma visita, para espairecer um pouco, posto que tinha passagem marcada de volta para o Rio na manhã seguinte.
Passei o endereço e as referências – aquela rua do supermercado, na esquina do posto de gasolina, depois de um muro amarelo cheio de pichações – e ele anotando tudo na mente privilegiada.
Veio a noite, eu estou com a televisão ligada falando para as paredes enquanto leio um delicioso romance de Campos de Carvalho – “A Lua Vem Da Ásia” – quando ouço palmas no portão.
Da porta da sala vislumbro a silhueta do meu novo amigo-poeta, faço-lhe a devida vênia e carrego com ele para a sala de jantar, onde meu filho e seu amigo confabulam sobre uma nova composição para a banda em que tocam.
Nonato Buzar é universalista.
Para ele não existem jovens nem velhos, e as suas músicas que mesclam irreverência, força e ternura tanto podem ser apreciadas e tocadas por um grupo de menestréis setentistas como por uma banda de rock inconformista.
Ele pede uma dose de uísque e um violão.
Tudo à mão, é atendido com reverência e tem a seu dispor uma plateia composta por três pessoas. Bebe a primeira dose como um retirante sedento e a segunda com um pouco menos de sofreguidão. Só então se lembra do gelo.
O uísque é de boa procedência – Chivas Regal 12 anos – e ainda não havia sido inaugurado.
Entre um gole e outro, sucedem-se as canções, sob o silêncio respeitoso e o olhar de quem flerta com o inesperado.
“...Eu estou no céu ou estou no carrossel
De pé pro ar, sou barquinho de papel
À beira-mar, sou criança outra vez...

(Dez Pras Seis – Nonato Buzar e Paulo Sérgio Valle)
“...Dizendo que eu devia vestir azul
Que azul é cor do céu e seu olhar também
Então o seu pedido me incentivou...

(Vesti Azul – Nonato Buzar)
“...Nada pra fazer, apenas ver
Que a paixão chegou por causa de
você
Quando se descobre ser capaz de amar assim...
 
(Coração Na Voz – Nonato Buzar, Nosly e Gerude)
“...Num dia igual a qualquer um
Eu despertei dentro de mim
Se fez manhã no meu viver
Se fez igual a terra e o céu...

(Assim Na Terra Como No Céu – Nonato Buzar, Paulinho Tapajós e Roberto Menescal)
...Manhã despontando lá fora
Manhã, já é sol, já é hora
E os campos se abrindo em flor
Que é preciso coragem
Que a vida é viagem
Destino do amor...

(Irmãos Coragem – Nonato Buzar e Paulinho Tapajós)
 “...Camisa verde-claro, calça Saint Tropez
Combinando com o carango, todo mundo vê
Ninguém sabe o duro que dei
Pra ter fon-fon trabalhei, trabalhei...

(O Carango – Nonato Buzar e Carlos Imperial)
“...Vem pra roda, me dê a mão
Traz o seu olhar
Vou girando na roda
Vou cantando à sua espera
Quem me dera um dia ter seus olhos
Cor da primavera...

(Menininha Do Portão – Nonato Buzar e Paulinho Tapajós) 
“...Um pregão de garrafeiro
Zizinho no gramado, eu quero um samba sincopado
Taioba, bagageiro, e o desafinado
Que o Jobim sacou...”
(Rio Antigo – Nonato Buzar e Chico Anysio)
No silêncio da noite, entre goles e canções, apenas meia dúzia de palavras pronunciadas, embora o mestre falasse para si mesmo, os ouvintes não ousando quebrar o encanto da audição.
As palavras vinham com a música.
Fim de uísque, início de madrugada, o poeta se levanta, o semblante tranquilo embora aparentando cansaço, e me agradece com um abraço e um cálido “boa noite”.
E vai de encontro ao alvorecer, seu parceiro de vida.
 
 
 

 
 
 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014





FELIZ NATAL 

(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 22/12/2014) 

Fim de ano.
Hora de a torcida deixar de lado as emoções vividas em 2014 e recarregar as energias para 2015, que vem fervendo, cheio de expectativas e promessas.
É claro que eu estou me referindo ao futebol e ao esporte em geral, pois esta é a praia desta coluna, mas esta previsão vale para as torcidas de qualquer atividade que possamos exercer.
Quanto ao futebol, para quem tem o saudável vício de assistir a eventos esportivos, felizmente sempre existem os jogos dos campeonatos europeus que as tevês por assinatura transmitem durante as pausas dos nossos campeonatos, e os espetáculos acabam se constituindo em um bom pretexto para uma cervejinha com queijo gorgonzola, de preferência com algum amigo que curte o riscado, embora ninguém empunhe a bandeira do time que está jogando nem ofenda a mãe do juiz porque ele marcou um pênalti inexistente.
É fim de ano.
Na falta de atualidades, os cronistas esportivos concentram a sua atenção na montagem das equipes para o ano próximo, na análise sobre o que deu certo e o que deu errado. Discute-se a tradicional dança das cadeiras dos treinadores, a renovação de contratos de alguns jogadores, a liberação de outros tantos e a inevitável contratação de novos reforços.
Ninguém mais fala em táticas e estratégias para as partidas, nas deficiências técnicas das equipes ou na tomada de decisão dos treinadores para tentar virar o jogo. Isto, no momento, é passado. E também é futuro.
As diretorias dos clubes começam a planejar, mas vão além do planejamento. Fazem promessas que sabem não serão cumpridas, procuram alinhavar contratos vantajosos com patrocinadores de porte para aliviar o fardo financeiro que pesa às suas costas e contam com a ajuda de algum Mecenas para trazer jogadores que consigam trazer público para os estádios, mesmo que seja para uma única temporada.
Afinal, isso aconteceu com o fenômeno Ronaldo, com Ronaldinho Gaúcho, com Seedorf, e mais recentemente com Kaká, e de certa forma deu certo, pois aumentou a presença de público e trouxe bons resultados para os clubes que apostaram na fórmula – Corinthians, Flamengo (depois Atlético Mineiro), Botafogo e São Paulo – durante o período em que os craques importados vestiram as suas camisas.
É fim de ano, e talvez o momento seja de reflexão.
É preciso repensar o pagamento de salários fora do contexto para técnicos que ganham entre 500 e 700 mil reais por mês (cerca de 20 mil reais por dia ou 8 milhões e meio por ano), num país como o Brasil.
É preciso também repensar um piso salarial para jogadores, levando em conta um plano de análise de eficiência, comprometimento e resultados, pois uma empresa só consegue dar certo quando as receitas superam as despesas, gerando lucros para reinvestimentos.
É preciso repensar o calendário procurando aprimorar as tabelas dos jogos para aproveitar melhor as viagens longas, levando-se em conta as distâncias deste enorme Brasil.
É preciso que os clubes dispensem mais atenção às suas divisões de base e que as federações procurem fortalecer o futebol do interior, antigo e eficiente celeiro de craques.
É, enfim, hora de valorizar mais o torcedor e trazê-lo de volta aos estádios através de promoções, campanhas de sócio-torcedor e atrativos para tornar os preços dos ingressos menos abusivos.
É hora de desejar Feliz Natal a todos os leitores, e um Ano Novo cheio de coisas boas.