segunda-feira, 22 de julho de 2019





Letra construída por Augusto Pellegrini sobre melodia de Renato Winkler

TRISTE DESPEDIDA 

Faz desta canção o meu lamento
Que é meu modo de chorar
E das minhas queixas faz lembrança
Que é a maneira de ficar
Faz desta saudade um barracão
Faz de mim a solidão
Vive dentro dela, ausente
Fica no teu tempo e no teu mundo, assim
Mas sai de mim, do meu viver e ser
Leva nesta triste despedida
Meu adeus e esta calma manhã 
Mesmo que a expressão finja sorrir
Nesta hora de partir
Nos teus olhos vejo mágoa
Fica no teu tempo, e eu no meu mundo, assim
Que dói em mim, mas o que eu vou fazer?

sábado, 20 de julho de 2019






SERÁ QUE ALGUMA COISA ACONTECEU POR CAUSA DE ADRIANA?
(excerto)

Depois de breves quinze dias, Adriana partiu sem esses adeuses de cortar o coração.
O ônibus estava quase vazio e o rubro do sol matinal já surgia anunciando um outro dia abafado, irisando os para-brisas dos taxis estacionados à espera de passageiros, com o barulho do motor ligado obrigando todos a falar mais alto.
Despedidas, frases feitas, até algum dia, quem sabe?
O ônibus já se perdia na primeira curva, e Fredo começou a sentir um inexplicável alívio. Voltou para o apartamento meio compungido, afinal Dona Odete fora viajar e pediu para ele ficar tomando conta do imóvel até ela voltar, e ele aproveitou para transformar o santuário da velha senhora em um antro de farras.
O problema maior era aquele busto do índio de bronze com todos os colares do sincretismo religioso montando guarda sobre a cristaleira espelhada, que a tudo observava atentamente. O apartamento era demasiadamente pequeno para os dois, Fredo considerava.
Ele iria voltar para lá, colocaria tudo em ordem – a lâmpada nova na cozinha, o índio em posição de sentido, sempre alerta para combater as más influências, apertaria o botão de descarga, e começaria a frequentar o lugar apenas uma ou duas vezes por semana, deixando de programar suas orgias até a volta da velha senhora.
Ao chegar, foi abordado pelo porteiro – “telegrama para o senhor, ‘seu’ Fredo” – sempre amável e educado.
Tomou o elevador sem vontade de abrir o telegrama. Devia ser de Dona Odete dizendo em que lugar se encontrava no momento e que talvez fosse demorar mais um ano para voltar. Sai do elevador, percorre o corredor silencioso observado por todas as portas, gira a chave na fechadura e entra. O sol passa pela janela da cozinha e mesmo filtrado pela cortina mostra a sala em desordem.
Senta-se na velha poltrona e finalmente abre o telegrama. Lê vagarosamente, uma vez, duas vezes, a cada vez sentindo os cabelos se eriçarem na nuca.
“Dona Odete faleceu meia-noite pt corpo seguindo para São Paulo pt”.
Telegrama expedido do Rio de Janeiro.
Naquele instante, no seu carro funerário, Dona Odete devia estar cruzando na estrada com Adriana, no seu ônibus. Ambas dormindo.
Dona Odete partiu sem esses adeuses de cortar o coração.   


quinta-feira, 18 de julho de 2019






THE GRAMMAR BIBLE

ENGLISH IN DROPS
      Copyright Michael Strumpf & Auriel Douglas)

(ver tradução abaixo)


IN-WITHIN  
Question: “What’s the difference between “in an hour” and “within an hour?” asked an attorney.
Answer: An event that will take place “in an hour” will occur at the end of sixty minutes. An event that will take place “within an hour” may occur any time between the present and sixty minutes from the present. The difference is crucial, especially if you are to meet someone at a specific place and time.   


TRADUÇÃO

EM UMA HORA – DENTRO DE UMA HORA

Pergunta: “Qual é a diferença entre dizer “em uma hora” e “dentro de uma hora”?, perguntou um advogado.  

Resposta: Um evento que irá acontecer “em uma hora” vai ocorrer daqui a sessenta minutos. Um evento que irá acontecer “dentro de uma hora” pode ocorrer a qualquer instante entre o presente momento até dentro de sessenta minutos. A diferença é crucial, especialmente se você tiver que se encontrar com alguém num lugar e numa hora específica.



quarta-feira, 17 de julho de 2019






Letra de Augusto Pellegrini sobre uma canção musicada por Renato Winkler

HELÔ 

Estou sozinho, Helô
Lápis na mão
Meus companheiros são
Papéis inúteis pelo chão

Paredes brancas
Quadros sem cor
Meus versos sem valor
Refletem só vazio, Helô

Velhas poltronas
Livros abertos
Cadeiras duras
Relógios lentos
Lâmpada acesa
Cinzeiro cheio
Mesa empoeirada
Porta se abrindo...

Noite outonada, Helô
Chuva sem graça, Helô
Estrada molhada, amor
Cansado o passo, Helô


1970

segunda-feira, 15 de julho de 2019







O JANTAR
(excerto - II)

Este será sem dúvida o último jantar.
Tudo na vida tem o seu último dia, até os Papas morrem, embora não todos de uma vez, pela evidência da unicidade – ninguém jamais contaria Papas saltando cercas para poder dormir. É certo que surgem outros, mas Papa ou carneiros, nunca serão os mesmos, nem seria justo que fossem, o correto é uma vida de Papa e uma reencarnação de carneiro para fazer jus à lei das compensações.
Nem a mulata requebrante que traz e leva os pratos e as terrinas consegue mais disfarçar, pois as cadeiras parecem rebolar de um jeito falsificado, sem autenticidade na sua filosofia. Ou fingimos todos ou somos mesmo todos meros marionetes, o que talvez seja mais correto.
Amanhã, Esmeralda vai a um concerto – melhor que fosse a um conserto, a máquina já um pouco desarranjada, resfolegando como aquele carro naquele dia naquela praia, as dobradiças chiando, e eu estarei longe daqui, numa outra praia, com o sol lá no alto marcando outro meio-dia, no respingo das ondas, com o mar subindo e descendo, arfante como os seios da sereia.
Este será o último jantar, a última noite da temporada.
Já vejo Esmeralda à distância, a cabeceira da mesa entrando na linha do ponto de fuga e Esmeralda fugindo ao longo dela.
Este será o nosso último jantar, a última cruzada de talheres sobre o prato.  
  

domingo, 14 de julho de 2019






NOVOCABULÁRIO INGLÊS
(Copyright MacMillan)

(ver tradução após o texto)

HAND-ME-UP

Maybe as a child you had to wear clothes that were handed down from your older brother or sister. And now, as an adult, the humiliation continues, because many of your possessions are HAND-ME-UPS. Your mobile phone belongs to your son – he’s replaced it with the latest model; and you’re wearing a dress of your daughter’s – it was lest year’s fashion.    
 “It was a HAND-ME-UP from my son, Jim, who turned into a conservative guy and wouldn’t wear it anymore” (Standard Net, Utah, 19th June, 2005)
  

TRADUÇÃO
DE SEGUNDA MÃO
Quando criança, você teve que vestir algumas roupas que haviam sido usadas pelo seu irmão ou irmã. Agora, como adulto, a humilhação continua porque muitas coisas que você possui são também DE SEGUNDA MÃO. Seu celular pertence ao seu filho – ele o substituiu por um novo de última geração; e você está usando o vestido da sua filha – porque ele saiu de moda.     

 “Eu ganhei esta roupa DE SEGUNDA MÃO do meu filho, que se tornou um sujeito conservador e jamais iria vesti-la novamente”. (postado no Standard Net, Utah, em 19 de junho de 2005)

sexta-feira, 12 de julho de 2019




Mais uma letra de música. Esta é uma marcha-rancho

NAMORADA 
1965
(Augusto Pellegrini)

Parques, jardins
E a praça cheia de gente
Bate o sol do mesmo jeito
Mas o tempo passou, sem sentir
Meses, semanas
Tanto encontro em tantas horas
Nos caminhos que decoram
De leveza e também noites claras
Quase brincando
Como voa a coisa boa
Que é este tempo de morena
De pequena e de passeios
Mesmo embora envelhecendo
Sem vontade

Sem saudade desmaiada
Sem sofrer nas madrugadas
Pois o encanto se supera
A cada dia e em cada tarde
Vem chegando a namorada
Nas vitrines, na calçada
Vou passando pela esquina
Vou dizendo, vou de vida
Vou de encontro, vou de brisa
Vou vencendo, indo

Vendo, chegando
Sem ter nunca que ir embora
Pelos cantos que devoram
De tristeza o restante do mundo
Vendo, chegando
E ficando, sem partida
Mesmo o tempo já passado
Em cores lindas pintou

quinta-feira, 11 de julho de 2019






A CORDA
(excerto - II)

De repente, a corda se distendeu mais do que devia e depois afrouxou. Ao mesmo tempo soou um grito, parecia uma sirene, foi se distanciando e terminou com um baque sinistro. Lá em baixo, um corpo retorcido no solo, esborrachado como um tomate.
-0-0-0-
“Eu fui pra praia sexta-feira à noite” – começa Zacarias a contar. “A noite estava clara, quente, e eu suarento. Peguei minha roupa de banho e de baixo, apanhei o ônibus e fui pra praia. Não tenho testemunhas, mas estava lá. A praia estava quente, clara, e eu suarento. Era noite, mas mesmo assim tomei um banho de mar – você já fez isso? – é uma beleza! As ondas estavam altas, a orla deserta e a água subia até o fim da areia, a lua parecia maior no seu contraste com o céu de fundo negro. Água de coco gelada, cheiro de mar”.
“Tudo estava maravilhoso, eu havia até esquecido meu apartamento com meus livros, minhas gravuras, meus anjos de porcelana, meus problemas. Mas uma armação de madeira, dessas enormes feitas para colar cartazes, trouxe-me à mente o meu drama”.  
“Estão pintando o lado de fora do edifício onde moro, onde armaram uns andaimes de madeira e corda pra acomodar os pintores com as suas tintas. Existe inclusive uma corda descendo na vertical bem em frente à minha janela. Uma corda grossa, cheia de nós, para segurar a madeira e o pintor sentado nela”.
“Fugi de casa e fui pra praia porque estou ficando maluco”, continuou Zacarias. “Cada vez que acordo à noite e olho a corda penso escutar a polícia batendo na minha porta para me levar aos berros pelo corredor cheio de eco, me atirando no elevador e depois numa cela, ditando a minha sentença”.
“Cortaram a corda, professor, cortaram a corda bem na cara da minha janela!”.  


terça-feira, 9 de julho de 2019






THE GRAMMAR BIBLE

ENGLISH IN DROPS
      Copyright Michael Strumpf & Auriel Douglas)

(ver tradução abaixo)


MRS. MALAPROP  
Writing for the magazine Smithsonian, James J.Kilpatrick added to the lore of hospital solecisms with this report.
“I commend to your patients” charts in any hospital in the nation, and you will find Mrs. Malaprop alive and well. The lode is inexhaustible.
·         “He was eating his tray, so I didn’t examine him.”
·         “For impotence, we will discontinue the meds, and let his wife handle him.”
·         “He was advised to force fluids through his interpreter.”
·         “Patient has an electric chair for transportation.”
·         “She slammed the phone down on the nurse.”
·         “When she fainted, her eyes rolled around the room.”
·         “Patient walks six blocks now. The doctor told him it may take a year to come back.”


TRADUÇÃO

SRA. DUPLO SENTIDO

Obs.: “Malaprop” significa o uso ou a combinação de palavras que podem alterar o sentido da comunicação, o que geralmente resulta em um texto engraçado e sem sentido. Assim, quando as frases forem relacionadas abaixo, nós vamos distinguir “aquilo que o autor quis dizer” de “aquilo que o leitor pode entender”.

James J.Kilpatrick (jornalista, escritor e gramático americano) ao escrever para a revista “Smithsonian” mostra uma seleção de solecismos encontrados em relatórios hospitalares.
Analisando relatórios medicos em qualquer hospital do país, você perceberá que a Sra. Duplo Sentido está sempre presente, firme e forte. Trata-se de uma coleção inesgotável de jóias da redação.

·         He was eating his tray, so I didn’t examine him.
A intenção foi: “Eu não o examinei porque ele estava almoçando”.
Mas pode ser entendido como: “Ele estava comendo a bandeja, então eu não o examinei”.

·         For impotence, we will discontinue the meds, and let his wife handle him.
A intenção foi: “Como se trata de um caso de impotência, nós vamos parar com os medicamentos e deixá-lo aos cuidados da esposa”.
Mas pode ser entendido como: Como se trata de um caso de impotência, nós vamos parar com os medicamentos e deixar que a esposa o manuseie”.

·         He was advised to force fluids through his interpreter.
A intenção foi: “Informamos ao seu intérprete que ele devia eliminar os fluidos”.
Mas pode ser entendido como: “ Ele foi aconselhado a eliminar os seus fluidos em cima do seu intérprete”.

·         Patient has an electric chair for transportation.
A intenção foi: “Para ser transportado, o paciente usa uma cadeira movida a eletricidade”.
Mas pode ser entendido como: “O paciente será transportado numa cadeira elétrica”.

·         She slammed the phone down on the nurse.
A intenção foi: “Ela desligou o telefone na cara da enfermeira”.
Mas pode ser entendido como: “Ela jogou o telefone na cara da enfermeira”.

·         When she fainted, her eyes rolled around the room.
A intenção foi: “Quando ela desmaiou, seus olhos reviraram”.
Mas pode ser entendido como: “Quando ele desmaiou, seus olhos saíram rolando pelo quarto”.

·         Patient walks six blocks now. The doctor told him it may take a year to come back.”
A intenção foi: O paciente já consegue andar seis quadras. O médico disse que ainda pode levar um ano para a total recuperação”.
Mas pode ser entendido como: “O paciente já andou seis quadras. O medico disse que pode levar um ano para ele voltar”.






domingo, 7 de julho de 2019





CHEGA DE SAUDADE
(excerto)

Agosto de 1958. Um dia que iria mudar a história do mundo...
As músicas apresentadas naquele programa da hora do almoço pela Rádio Nacional eram anunciadas na ordem inversa, começando pelo décimo até chegar ao primeiro lugar, com o locutor Hélio de Alencar gritando bem ao seu estilo: “Em décimo lugarrr – Chega de Saudade, com João Gilberto, uma novidade em primeira mão!!!”.
João Gilberto? Quem seria? Nunca tinha ouvido este nome. Que diabo de música seria essa?
A resposta veio em seguida, e a partir daí a música brasileira nunca mais foi a mesma: a flauta mágica de Nicolino Copia, o Copinha, começa a introdução que me deixa estático. Não é samba, não é choro, não é samba-choro.
O violão acompanha com uma batida nunca antes utilizada, com uma divisão estranha adornada por acordes dissonantes, funcionando como um suave acolchoado para acomodar as notas da flauta.
De repente surge a voz, intimista como Chet Baker, preguiçosa como um solo de Lester Young, clara, nítida e articulada como Sinatra, e emitida como um sopro, como a voz de Julie London, sem o menor esforço.
Pronto, acabei de ser apresentado a João Gilberto, que descobriria mais tarde tratar-se de um gênio, não devido à minha avaliação, mas a um conceito universal que regula o bom gosto musical.
Nas décadas seguintes, ele iria tomar conta do mundo e seria considerado uma unanimidade nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, pelo seu modo de interpretar e de tocar violão. Músicos de jazz e da música standard se curvariam à sua maneira não convencional, inventiva e absolutamente discreta de mostrar a sua arte.
No Brasil, surpreendentemente, sempre existiu um divisor de águas entre aqueles que o idolatram – pela sua genialidade – e aqueles que o desprezam – quer por não entenderem seu modo de interpretar quer por estranharem sua maneira de interagir com o público.
João Gilberto é o avesso do pop-star e representa a música discreta que precisa ser ouvida em silêncio e degustada como um conhaque importado.
                                                              -0-0-0-
Almocei às pressas o feijão da minha mãe com todos os acompanhamentos, saí de casa, apanhei o ônibus e fui até o chamado centro da cidade – Rua Barão de Itapetininga – em direção à loja Breno Rossi para adquirir no ato o disco “Chega De Saudade” (Antonio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes), com João Gilberto, sua voz e violão em 78 rotações, selo Odeon, arranjos e direção musical de Antônio Carlos Jobim. No lado B, “Bim Bom” (João Gilberto). O LP correspondente seria lançado em 1959 incluindo outras preciosidades, como “Desafinado” (Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça), “Lobo Bobo” (Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli) e “Brigas, Nunca Mais” (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes).
Esta é a história que, mutatis-mutandis, teve o efeito da chegada do Anjo da Anunciação para os ditos milhões de pessoas que incluem a mim, os amigos da adolescência, a galera carioca do Sinatra-Farney e do Dick Haymes-Lucio Alves Fã Clubes, Roberto Menescal, os amigos do jazz, o pessoal de Ipanema e outros bem-aventurados que sentiam estarem sendo abertas naquele momento as portas do Reino do Céu.