sábado, 17 de maio de 2014








ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” NO DIA 12/05/2014 

 

A SELEÇÃO QUE NÃO FOI

 

Agora que já saiu a convocação definitiva para a Copa, peço ao leitor que deixe a imaginação correr solta, como se estivesse assistindo a um filme de ficção ou envolvido em um sonho delirante.
No dia 12 de junho de 2014 o Brasil entra em campo para enfrentar a seleção da Croácia pela partida inaugural da Copa e, em meio aos gritos de incentivo e da “ola” ensaiada pela torcida ensandecida, o locutor do estádio anuncia a escalação da equipe através dos alto-falantes, cujos nomes são mostrados no telão: Matheus Caldeira; Lucas, Durval, Émerson e Bruno Cortez; Henrique, Fellype Gabriel, Renato Abreu e Elkeson; Kleber Pinheiro e Osvaldo.
Pareceria mais uma dessas desconhecidas seleções Sub-20, Sub-17 ou Sub-qualquer coisa, não fossem as presenças de figurinhas carimbadas como Renato Abreu e Bruno Cortez. Mas, exceção feita ao goleiro, todos esses jogadores foram ou são titulares em clubes importantes; e todos tiveram a chance de se firmar na seleção principal, pois foram chamados para algumas partidas preparatórias entre 2011 e 2013 contra adversários nada desprezíveis – Argentina, Itália, Rússia, México, Escócia, Costa Rica e Bolívia. Infelizmente – para eles – eles não conseguiram mostrar serviço que justificasse a continuidade nas convocações.
Algumas presenças foram deveras estranhas, como a do quarto goleiro do Corinthians, Matheus Caldeira, do veteraníssimo Durval, do Santos (agora no Sport), e do centro-atacante Kleber Pinheiro (do F.C.Porto, com uma passagem inexpressiva pelo Palmeiras).
Para o Superclássico das Américas contra a Argentina em 2011 o então técnico Mano Menezes só podia contar com jogadores que atuavam no Brasil e chamou sete dos onze listados acima. E Felipão, em 2013, completou a convocação para os jogos contra a Itália, Rússia e Bolívia levando o jovem goleiro corintiano e o são-paulino Osvaldo, embora apenas o atacante tenha atuado em uma partida.
Algumas das promessas caíram no ostracismo ao se transferirem para clubes sem a menor expressão internacional, como Fellype Gabriel, que foi para o Al Sharjah, dos Emirados Árabes Unidos e Elkeson para o Guangzhou Evergrande, da China.
O lateral-ala Cortez não deu certo no São Paulo nem no Benfica e agora está disputando posição no Criciúma. E o famoso Renato Abreu, ex-Corinthians e Flamengo, teve uma passagem melancólica pelo Santos e atualmente está sem clube.
É claro que isto acontece em maior ou menor escala durante o período de preparação para as Copas do Mundo, mas não com esta intensidade.
Antes da Copa de 2006 as surpresas ficaram por conta de Daniel Carvalho, Dudu Cearense, Gustavo Nery e Afonso Alves, mas todos eles possuíam no mínimo a experiência de atuar no exterior. Para a Copa de 2010 foram testados sem maior sucesso os laterais Richarlyson, Juan e Mancini.
A seleção pode até admitir um ou outro jogador sem maior pedigree, como aconteceu com Paulo Sérgio em 1994, Zé Carlos em 1998, Vampeta em 2002 e Doni em 2010, mas felizmente esta convocação de jogadores “impossíveis” é bastante escassa.  
Um caso emblemático diz respeito a Zagallo. Um ano antes da Copa de 1958 ele não era cogitado e sequer havia disputado qualquer jogo pela seleção (amistosos, Eliminatórias, Taça Bernardo O’Higgins, Campeonato Sul-Americano, Copa Roca e Taça Oswaldo Cruz), preterido em nome de Raimundinho (do Fluminense de Feira de Santana), de Wassil (do Bahia), de Tite (do Santos) e também de Garrincha e Joel, que se revezavam na ponta esquerda como eventuais reservas de Pepe. No ano da Copa, Zagallo passou a ser a terceira opção depois de Pepe e de Canhoteiro e ganhou a convocação final porque Canhoteiro tinha medo de viajar de avião e apreciava as noitadas mais do que o recomendável.
Pepe chegou na Suécia se recuperando de uma contusão, Zagallo assumiu a posição e acabou virando titular absoluto do escrete.
Sua história vencedora a partir daí todo mundo conhece.  

                                                                                       Augusto Pellegrini

sexta-feira, 16 de maio de 2014


 
 
 
Grupo F – O FAVORITISMO DA ARGENTINA

 

O sorteio do Grupo F foi magnânimo com o nosso maior rival. A Argentina lutará pela passagem para a segunda fase contra três adversários menores, a irregular Nigéria, a desacreditada Bósnia e o pouco experiente Irã.
A princípio não parece ser uma tarefa muito difícil. Seleção de muita tradição, dona de um elenco formado por grandes jogadores, e atualmente navegando em águas tranquilas, os platinos devem passar e podem sonhar em ir mais longe.
A Argentina venceu duas Copas do Mundo (1978 e 1986), uma Copa das Confederações (1992), tem dois ouros olímpicos no futebol (2004 e 2008) e ganhou 14 vezes a Copa América, sendo ao lado da França o único país do mundo a conquistar a chamada “quádrupla coroa” ganhando estes quatro torneios.
Foi duas vezes vice-campeã mundial (1930 e 1990) e seus jogadores são considerados, ao lado dos brasileiros, os grandes artistas do futebol, capazes de desequilibrar uma partida e até decidir uma Copa do Mundo – caso de Garrincha, Pelé, Romário, Kempes e Maradona.
Os argentinos dizem que chegou a vez de Messi escrever o seu nome nesta galeria.
O Mundial mostrará o talento e a raça de alguns dos seus craques que se encontram espalhados pelo mundo: o goleiro Sergio Romero (Monaco), os defensores Ezequiel Garay (Benfica), Nicolás Otamendi (Atlético Mineiro), Pablo Zabaleta (Manchester City) e Federico Fernandez (Napoli), os volantes e meias Javier Mascherano (Barcelona), Maxi Rodriguez (Newell’s Old Boys), Angel Di Maria (Real Madrid) e Fernando Gago (Boca Juniors) e os atacantes Gonzalo Higuaín (Napoli), Sergio Aguero (Manchester City), Ezequiel Lavezzi (PSG) e Lionel Messi (Barcelona), Bola de Ouro em 2010, 2011 e 2012.
Herdeiro mais pobre da antiga Iugoslávia, a Bósnia e Herzegovina tem um cartel pouco animador desde que se tornou independente em 1992.
É a primeira vez que se classifica para uma Copa do Mundo e nunca se classificou para a Eurocopa.
No entanto, a Bósnia tem algumas atrações que vêm despertando a atenção dos comentaristas esportivos, como o zagueiro Emir Spahic (Bayer Leverkusen), o meia Zvjedan Misimovic (Guizhou Renhe – China) e os atacantes Vedad Ibisevic (VfB Stuttgart) e o craque do time Edin Dzeko (Manchester City). Com sorte, poderá lutar pela segunda vaga.  
O objetivo do Irã nesta Copa é não fazer feio.
Nas quatro vezes que participou (1978, 1998 e 2006) nunca passou da primeira fase, sofreu seis derrotas, marcou dois empates e conseguiu apenas uma vitória (2x1 sobre os Estados Unidos em 1998). Conquistou a Copa da Ásia três vezes (1968, 1972 e 1976) em quinze torneios disputados.
Seus principais jogadores – entre eles o atacante Sardar Azmoun (Rubin Kazan – Russia), chamado de “Messi iraniano” – exercem um papel secundário no cenário do futebol mundial. Destaque para o volante Javad Nekouran (Al-Kuwait), e os atacantes Ashkan Dejagah (Fulham), Masoud Shojaei (Las Palmas), Reza Goochannejhad (Charlton United) e Karim Ansariford (Tractor Sazi Tabriz – Irã).
Com exceção da Copa das Nações Africanas, a qual venceu três vezes em dezesseis disputas, a Nigéria sempre foi um coadjuvante nos grandes torneios internacionais. Seu melhor resultado talvez tenha sido a medalha de prata do futebol olímpico conquistada em 2008. Em quatro Copas do Mundo disputadas (1994, 1998, 2002 e 2010) os “Super Águias” – como são chamados – sempre foram eliminados precocemente.
No entanto, eles têm alguns jogadores de destaque, como o volante John Obi Mikel e o atacante Victor Moses (ambos do Chelsea), bem como o goleiro Vincent Enyeama (Lille), o zagueiros Kenneth Omervo (Chelsea) e Taye Taiwo (Bursapoor – Turquia) e os atacantes Ahmed Musa (CSKA Moskva), Emmanuel Emenike (Fernebahçe – Turquia) e Brown Ideye (Dynamo Kiev). 

quinta-feira, 15 de maio de 2014








ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTE” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 01/05/2014

Grupo E – A FRANÇA DEVE LARGAR NA FRENTE

Se as Eliminatórias europeias funcionassem como um fiel de balança, a desacreditada Suíça seria favorita disparada para se classificar no Grupo E da Copa do Mundo 2014.
A Suíça terminou a fase classificatória em primeiro lugar e de forma invicta, com 7 vitórias e 3 empates, fato bastante promissor para um país que teve como melhor resultado em nove Copas disputadas apenas um discreto 6º lugar em 1950, com a presença de somente 13 participantes.
Nestas Eliminatórias, os suíços tiveram a sorte de não enfrentar nenhum bicho-papão – seus adversários foram Islândia, Eslovênia, Noruega, Albânia e Chipre – mas isto não tira o mérito da sua caminhada.
Pra completar, a Suíça detém no momento a sua melhor posição no ranking de seleções, um 8º lugar, logo abaixo do Brasil. O país tem, no entanto, uma baixa produção na Eurocopa, com apenas um 9º lugar em 2008 e um 15º em 2004.
Seu líder e melhor jogador, o marfinense naturalizado Johan Djourou se submeteu a uma cirurgia e está fora da Copa, mas a equipe vem representada por outros bons valores – o goleiro Diego Benaglio (Wolfsburg), os defensores Philippe Senderos (Valencia) e Stephan Lichtsteiner (Juventus), o meia Tranquillo Barnetta (Schalke 04), o atacante Mario Gavranovic (Zurich) e o melhor deles, o meio-campista Xherdan Shaqiri (Bayern Munich).   
O Equador é um país de fraca tradição futebolística e nunca brilhou em competições internacionais.  Participou somente de duas Copas do Mundo, em 2002 e 2006, amargando um 24º e um 12º lugar, respectivamente. Na Copa América o máximo que conseguiu foi um 4º lugar em 1993, jogando em casa.
Pode, no entanto, ser beneficiado pelo clima sul-americano, surpreender algum favorito e passar para a segunda fase. Aí, o que vier será lucro.
O craque do time é o meia Antonio Valencia (Manchester United), de acordo com registros oficiais o jogador mais rápido do mundo, alcançando a velocidade de 35 m/seg, mais até do que o recordista Usain Bolt. Eles também têm os meias Christian Noboa (Dynamo Moscow) e Enner Valencia (Pachuca-México) e os atacantes Joao Rojas (Cruz Azul-México) e Felipe Caicedo (Al Jazira-Emirados Árabes).
Depois de um redondo fracasso em 2010 na África do Sul, a França sofreu uma série de mudanças, conseguiu reencontrar o seu futebol de dez anos atrás e desponta como franca favorita para ficar com uma das duas vagas da primeira fase. Tudo indica que no Brasil os Bleus farão valer a tradição, pois possuem no elenco alguns talentos incontestes encabeçados por Karim Benzema, do Real Madrid, e Frank Ribéry, do Bayern Munich. Outros jogadores que podem fazer a diferença são o goleiro Hugo Lloris (Tottenham), os defensores Patrice Evra (Manchester United) e Eric Abidal (Monaco) e os meias Samir Nasri (Manchester City), Mathieu Valbuena (Olympique de Marseille) e Yohan Cabaye (Newcastle).
Os franceses participaram de 12 Copas, e têm no seu cartel um título – em 1998 ao vencer o Brasil em Paris por 3x0 – um vice-campeonato para a Itália em 2006 e um terceiro lugar em 1958, com uma única derrota – 5x2 para o Brasil nas semifinais.
A França também ganhou duas Copas das Confederações (2001 e 2003) e duas Eurocopas (1984 e 2000).
Honduras é a seleção mais fraca do grupo, e deve na verdade participar como uma espécie de figurante.
Seus grandes feitos internacionais são o vice-campeonato da Copa Ouro Concacaf em 1991 e um surpreendente 3º lugar na Copa América em 2001.
Participou de duas Copas do Mundo (1982 e 2010), e em ambas foi eliminada na primeira fase, num total de três empates e três derrotas em seis partidas.
O destaque é Wilson Palacios, meia do Stoke City; outros jogadores que merecem ser mencionados são o goleiro Noel Valladares (Olimpia), o zagueiro Emilio Izaguirre (Celtic) e os atacantes Jerry Bengtson (New England Revolution-EUA) e Carlo Costly (Guizhou Zhicheng-China).

                                                                                       Augusto Pellegrini

 
 
 
 
 
 
 
ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTE” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 28/04/2014

 

AS DUAS FACES DA COPA DO MUNDO

 

Alguns leitores de O Imparcial têm se manifestado a respeito dos meus artigos, questionando a minha coerência com respeito à Copa do Mundo.
Muitos acham estranho que em um determinado artigo eu teça comentários leves e descontraídos sobre a importância dos jogos e das seleções que estarão se enfrentando no torneio e que no artigo seguinte eu faça observações ácidas e negativas sobre a mesma Copa e seus organizadores.
Antes de tudo, cabe explicar que a função da minha coluna no jornal é comentar sobre esporte – em especial sobre o futebol – tanto que o espaço que me foi cedido está no Caderno de Esportes (apropriadamente chamado de Super Esporte), e foi batizado como “Gol de Placa”.
Minha característica como crítico não é comentar jogos, analisar sistemas, resultados ou decisões técnicas das equipes, muito embora esporadicamente eu o faça, mas explorar temas polêmicos, tendências e situações inusitadas que possam acontecer.
Assim, há que se separar bem a Copa como competição esportiva e como uma possibilidade oportunista de se fazer politicagem e enriquecer fraudulentamente.
Hospedar uma Copa do Mundo é sempre uma primazia, independentemente dos fatos escabrosos que cercaram este evento desde antes da escolha do Brasil como país sede, quando Ricardo Teixeira contratou os serviços de assessoria de ninguém menos do que Jerome Valcke (o que sem dúvida abriu o caminho para a nossa indicação mesmo com a existência de alguns senões, como a extensão territorial a ser coberta pelas seleções), até o superfaturamento da reforma e construção dos estádios com a concordância do Comitê Organizador Local e com o silêncio do poder público.
Esta primazia, se bem administrada, gera lucros e dividendos não apenas sob o aspecto financeiro, mas também do ponto de vista institucional, na divulgação da imagem das coisas positivas do país (as negativas a gente esconde, como disse uma vez um ministro de nome Rubens Ricupero), aumentando o seu conceito aos olhos do mundo e desenvolvendo o turismo.
Mas caso os devidos cuidados não sejam tomados, como em qualquer evento grandioso e com perspectiva de congregar milhões de convidados, a coisa pode degringolar e transformar as perspectivas favoráveis no mais retumbante fiasco. É o risco que estamos correndo.
Não me cabe, porém, apenas acompanhar o coro dos descontentes e desancar a Fifa, a CBF e as autoridades, que são em suma os responsáveis pela bandalheira e pelo desgoverno a que estamos submetidos (estou me atendo exclusivamente à Copa do Mundo, embora o raciocínio, tirando a Fifa e a CBF da linha de tiro, seja o mesmo para as outras dificuldades que o brasileiro vem enfrentando com respeito à corrupção nos altos escalões, à inflação, à falta de segurança, ao sucateamento na saúde e à falência da educação).
Cabe-me também comentar e apreciar os fatos futebolísticos que a ocasião apresenta e, como todo amante do esporte, acompanhar de perto os jogos, os resultados e as tendências, as partidas bem jogadas, os astros em ação, os erros de arbitragem e toda a parafernália de detalhes que cercam uma partida de futebol.
É claro que não podemos nem devemos dissociar as coisas.
Uma campanha desastrosa do Brasil poderá ocasionar um desgaste social e político talvez sem precedentes na história do país, tal a comoção que irá causar, gerando tumulto, protestos, lágrimas, pancadaria e um desassossego muito grande. Já a conquista do título servirá de anestésico e antitérmico, e fará baixar pelo menos temporariamente a temperatura das manifestações populares, dando fôlego aos nossos administradores para repensar as suas políticas e procedimentos e tentar colocar ordem na casa.

 

                                                                                          Augusto Pellegrini

domingo, 27 de abril de 2014







EU E A MÚSICA - UMA ORQUESTRA DANÇANTE


O dia era 19 de outubro de 1978.
Estávamos em Belo Horizonte, eu e um engenheiro americano chamado Bob Mount, a serviço de uma empresa multinacional para a qual trabalhávamos na época.
O dia havia sido quente, abafado e cansativo. Após ficarmos o tempo todo expostos à poluição do Distrito Industrial de Contagem, finalmente voltamos para a cidade no fim da tarde, chacoalhando no Land Rover que nos servia de transporte.
Depois de um banho reconfortante e de um breve repouso, nos encontramos no bar do hotel – o tradicional Hotel Del Rey – para enfim tomar a nossa merecida cerveja bem gelada e fazer os planos para um jantar à mineira (muito embora os pedaços de queijo também mineiro e a delícia de um pão de queijo que honrava a culinária local já de certa forma nos saciassem a fome).
Sobre a mesa asséptica com tampo de fórmica escura, ao lado de um cardápio plastificado e dos indefectíveis porta-guardanapo, cinzeiro e galheteiro encontrava-se um pequeno folder anunciando para “hoje, às nove da noite, o show do ano”’, o que se afigurava simplesmente imperdível: era a orquestra de Harry James se apresentando no Palácio das Artes!
Seduzidos pela oportunidade de assistirmos a um espetáculo memorável, deixamos prontamente de lado a ideia do jantar à mineira para nos engajar numa típica noitada norte-americana.
Bob já havia assistido a uma ou duas apresentações da orquestra de Harry James nos Estados Unidos – ele não sabia precisar exatamente onde, mas acreditava ter sido em Pittsburgh, cidade sede da empresa onde trabalhávamos, e em Houston, onde ele morava – mas para mim, que conhecia James apenas de alguns filmes de Hollywood e de alguns discos, seria uma novidade fantástica. 
O Palácio das Artes ficava a uma distância não muito grande do hotel, mas por via das dúvidas e pelo adiantado da hora resolvemos apanhar um taxi, o que acabou sendo muito providencial porque de repente caiu uma chuva repentina que serviu para amenizar a temperatura da noite, mas que poderia ter esfriado o nosso ânimo.
A porta do teatro apresentava uma fila caudalosa, atrasando o início do show, mas auspiciando o sucesso do espetáculo. Afinal, tratava-se de Harry James, um remanescente das grandes orquestras dos anos 1930, quando surgiu como um dos principais solistas de trompete, e dos anos 1940 em diante, quando liderou uma orquestra que variava entre o swing tradicional e a mais pura e romântica música dançante.
Harry James era possuidor de um sopro peculiar, forte, limpo, macio e tecnicamente perfeito. Dono de um timbre inconfundível aliava muito lirismo a um balanço formidável que convidava à dança.
Já veterano, James trazia consigo para a temporada brasileira uma mescla de músicos bastante rodados – caso do trompetista Nick Buono, remanescente do seu antigo grupo, do baterista Sonny Payne, que durante muitos anos havia feito parte da orquestra de Count Basie, e do trombonista Art Dragon, que tocava regularmente tanto na sua orquestra como na Disneyland Band – com músicos bem mais jovens, como a louríssima e bela saxofonista-barítono Beverly Dahlke-Smith (única mulher do grupo), o baixista Ira Westley com seus cabelos bem na moda dos anos setenta, e um vocalista quase desconhecido chamado Francis Dennis.
Harry James, uma legenda na história da música instrumental, reeditou o brilho da época de ouro do swing e fez uma apresentação de gala, com muito fôlego e muita elegância, sempre imprimindo uma liderança segura sobre o grupo.
As músicas se sucediam dentro de um repertório irrepreensível: “Two O’Clock Jump” (Harry James, Benny Goodman e Count Basie), “Cherokee” (Ray Noble), “Don’t Be That Way” (Benny Goodman, Edward Sampson e Mitchell Parish), “You’ll Never Know” (Mack Gordon e Harry Warren), “More Splutie, Please” (Thad Jones), “Shiny Silk Stocking” (Frank Foster), “You Go To My Head” (J.Fred Coots-Haven Gillespie), “Serenade In Blue” (Mack Gordon-Harry Warren), tendo como base um drive orquestral majestoso que servia de suporte para o som aveludado de James.
Terminado o show, eis-nos de volta ao hotel bastante animados e dispostos a fechar a noite diante de mais algumas cervejas. Afinal, tínhamos assunto de sobra para conversar, Bob lembrando os shows dançantes da sua juventude em Des Moines, no Iowa, e eu me atendo aos discos das grandes orquestras que ouvia desde adolescente.
Novamente no bar, naquela altura quase vazio, experimentamos um petisco mais substancioso, pois afinal não havíamos jantado. Naquela altura já nem fazia sentido a gente reverenciar a culinária local, então partimos para um camarão frito que, dizia o cardápio, era uma das especialidades do hotel.
De repente, entre vozes e gargalhadas, nos deparamos com dois alegres camaradas que vieram ocupar uma mesa ao lado da nossa e se dirigiram ao garçom também pedindo cerveja, mas numa mistura de inglês e castelhano.
Eram um sujeito negro, de meia idade e de estatura baixa e um outro quase ruivo, mais alto, uns vinte anos mais jovem, ambos com a camisa desabotoada no pescoço e as mangas arregaçadas.
Imediatamente, nós os identificamos como músicos da orquestra de James, que coincidentemente estava hospedada no mesmo hotel. Prontamente nos apresentamos e iniciamos uma conversa, o que foi facilitado pelo fato de Mount também ser americano, o que quebrou o gelo instantaneamente.
Os nossos companheiros de fim de noite eram o baterista Sonny Payne e o sax-tenorista Norm Smith, que ficaram felizes por termos estado presentes no show e se declararam encantados com a receptividade do público.
Bob Mount aproveitou para matar saudades das coisas gringas – eles usaram muitas vezes de um linguajar tão coloquial que alguns detalhes me escaparam totalmente, em meio às suas gargalhadas – e eu aproveitei para pedir seus autógrafos na capa do LP que eu havia adquirido no teatro.
Sonny Payne era algo assim como uma figura histórica no mundo das big bands. Desde meados dos anos 1940, Payne havia tocado com diversas orquestras – entre elas Dud & Paul Bascomb, Erskine Hawkins, Count Basie – e em 1966 ingressou na orquestra de Harry James, numa tentativa que James fez de levar para a sua orquestra a “pegada” da cozinha de Count Basie – coisa que James jamais negou. Mais tarde, Payne retornou para a banda de Basie por algum tempo e finalmente voltou a tocar com James, onde estava agora, e onde iria encerrar a sua carreira.
Menos conhecido, Norman Smith havia tocado em diversas bandas, inclusive na orquestra de Ted Herman, da qual saiu para se juntar a Harry James, e era um saxofonista muito seguro, embora não fizesse parte dos mais requisitados.
Atravessamos boa parte da madrugada com muitas cervejas, muitas histórias e muito aprendizado, até que o garçom viesse sinalizar que o serviço de bar seria encerrado.
Quer pelo cansaço, quer pela condição de astro principal, Harry James não desceu para o bar e preferiu tomar a sua cerveja, ou qualquer coisa que o valha, no próprio apartamento, assim como os demais membros da sua entourage, o que foi uma pena.
Na manhã seguinte, o Land Rover seguiu um pouco mais tarde para a nossa missão no Distrito Industrial.
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No dia 27 de outubro, em São Paulo, a orquestra de Harry James encerrava a sua temporada no Brasil, depois de passar pelo Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Curitiba. Esta seria a sua última turnê pela América do Sul, pois o maestro passava por problemas de saúde e começaria a rarear os shows – na verdade James viria a morrer cinco anos depois, em Las Vegas.
O show em São Paulo foi realizado num grande salão chamado Boite Aquarius, e eu novamente participei da grande festa, desta vez sem a presença de Bob Mount.
A Aquarius era uma das discoteques mais badaladas da cidade e sua pista de dança normalmente fervilhava com as músicas quentes do final dos anos 1970 como “I Will Survive” (Gloria Gaynor) com Gloria Gaynor, “Macho Man” (Henri Belolo, Victor Willis e Jacques Morali) com o Village People, “Stayin’ Alive” (Barry Gibb, Robin Gibb e Maurice Gibb) com os Bee Gees e “Dancing Queen” (Benny Andersson e Bjorn Ulvaeus) com o grupo ABBA, com direito à devida decoração e efeitos psicodélicos especiais.
Naquela noite muito particular, tanto a sonoridade quanto a decoração da sala mudou drasticamente, e o ambiente voltou no tempo e variou de “Trumpet Blues” (Harry James) a “You Made Me Love You” (Joseph McCarthy e James V.Monaco), dois dos maiores sucessos de James – que não haviam estado no repertório de Belo Horizonte – e a Aquarius se transformou num grande Savoy Ballroom dos anos 1940.
Depois da apresentação, a orquestra se retirou do palco, mas a música que havia sido gravada no show continuou tocando por quase uma hora para que o pessoal pudesse continuar dançando, e alguns músicos caíram na gandaia junto com o público.
Entre eles, lá estava o nosso amigo Sonny Payne, que esbanjava alegria e dançava um insuspeito lindy hop, para a alegria dos presentes.
Num momento de repouso, voltamos a trocar ideias junto ao balcão do bar, relembrando a madrugada do Del Rey American Bar ao lado de mais outras tantas latinhas de cerveja.
Ele estava feliz em ter vindo para o Brasil e fazia planos para retornar num futuro breve, pegando carona com alguma orquestra que viesse fazer alguma temporada por aqui.
Mas Sonny não conseguiu realizar os seus planos, pois morreu num acidente de carro três meses depois numa estrada de Los Angeles.

sexta-feira, 25 de abril de 2014







COPA 2014 – AS DIFICULDADES DO GRUPO D

O Grupo D da Copa é sem dúvida o mais equilibrado. Ao final da primeira fase pelo menos uma seleção de ponta vai voltar mais cedo para casa.
O grupo reúne nada menos do que três campeões mundiais, representando sete títulos conquistados ao longo de dezenove disputas, a partir de 1930.
Uruguai (campeão em 1930 e 1950), Inglaterra (1966) e Itália (1934, 1938, 1982 e 2006) não deverão ter dificuldades em despachar a Costa Rica, mas um vacilo contra os caribenhos poderá significar o fim de qualquer pretensão.
O Uruguai já participou de 11 Copas do Mundo, com dois títulos e três quartos lugares na bagagem. É conhecido como “Celeste Olímpica” pela cor da sua camisa e por ter sido duas vezes medalha de ouro nos Jogos Olímpicos (1924 e 1928).
No cenário continental, em 43 edições da Copa América e do antigo Campeonato Sul-Americano o Uruguai venceu 15 vezes.
O grande nome da seleção uruguaia é o atacante Luiz Suárez (Liverpool), mas o time tem outros jogadores experientes como Diego Forlán (Bola de Ouro na Copa de 2010 e maior artilheiro do país, hoje com 34 anos e jogando no Cerezo Osaka do Japão), Diego Lugano (zagueiro do West Bromwich) e Edinson Cavani (atacante do PSG).
Muitos dos convocados vão se sentir em casa, pois atuam no Brasil, como Martin Silva (goleiro do Vasco), Alvaro Pereira (São Paulo), Sabastián Eguren (Palmeiras), Maxi Rodriguez (Grêmio) e Nicolás Lodero (Botafogo).  
A trajetória celeste para chegar à sua décima segunda Copa não foi fácil, pois a vaga foi conseguida apenas na repescagem, contra a Jordânia.
A Inglaterra, que se vangloria de ser o inventor do futebol association, tem na verdade uma pálida participação em Copas do Mundo, com apenas um título em 13 disputas, tendo chegado às semifinais apenas uma vez, em 1990.
Dentro da Europa também não obtém sucesso, pois em 14 disputas pela Eurocopa o máximo que conseguiu foi chegar às semifinais em 1968.
Mesmo assim, reza a tradição que é um país a ser temido. Apesar dos times ingleses serem fortes, a seleção fica enfraquecida porque a maioria dos jogadores que disputam a Premier League não são ingleses.
Mas como sempre, o English Team apresenta ao mundo alguns jogadores diferenciados, como os veteranos Steven Gerard (Liverpool), Frank Lampard e Ashley Cole (Chelsea), e o também rodado Wayne Rooney (Manchester United). Atenção também para Glen Johnson, Daniel Sturridge e o jovem jamaicano Raheem Sterling (todos do Liverpool) e Steven Caulker (Cardiff).
Teoricamente, a Itália é a seleção mais consistente do grupo, com uma defesa forte e um ataque criativo. Tradicionalmente a equipe se supera nas Copas do Mundo e geralmente alcança excelentes resultados.
Participou de 18 dos 19 torneios disputados e, além dos 4 títulos conquistados, tem a seu favor um vice-campeonato, um terceiro e um quarto lugares.
Na história da Eurocopa, a Itália conquistou um título (1968) e dois vice-campeonatos.  
A base atual da Azzurra é o time da Juventus. O craque da Itália continua sendo Andrea Pirlo e a segurança vem do veterano capitão e goleiro Luigi Buffon (ambos do time de Turim). Os zagueiros Giorgio Chiellini, Andrea Barzagli e Leonardo Bonucci (todos também da Juventus) são quase intransponíveis, e o ataque fica por conta de Mario Balotelli (Milan) e Alberto Gilardino (Genoa). O time tem ainda Daniele De Rossi (Roma), Sebastián Giovinco (Juventus) e Stephan El Shaarawy (Milan).
A Costa Rica entra como coadjuvante, na esperança de fazer um bom papel e roubar pontos dos favoritos. Segunda colocada nas Eliminatórias, abaixo apenas dos Estados Unidos, apresenta os jogadores Bryan Ruiz (Fulham), Leylor Naves (Levante) e Joel Campbell (Olympiakos) como destaque. Seu principal jogador, Bryan Oviedo, que atua pelo Everton, está contundido, e fora da competição.