quinta-feira, 15 de janeiro de 2015








O SALVADOR DA PÁTRIA 

 (ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 15/01/2015) 

Vejo nos comentários esportivos que alguns clubes brasileiros estão se preparando para a temporada apostando em um estilo diferente de reforço.
Normalmente quando se fala em reforço o torcedor logo pensa em um lateral que possa cobrir as deficiências do Joãozinho, que marca bem, mas apoia mal, ou do Zezinho, que apoia bem, mas não sabe marcar. Ou do Pedrão, aquele zagueiro central pé furado que não sabe se posicionar, marca a bola e esquece o adversário, e ainda acha que é o Franz Beckenbauer.
O time carece também daquele maestro para enfiar as bolas corretas para o ataque, pois o armador Felisberto não consegue acertar um passe de cinco metros. E precisa ainda de um centroavante para o lugar de Bernardão, trombador que se atrapalha com a bola na hora de finalizar.
Mas tudo isso, na verdade, demanda muito dinheiro e nem sempre traz os resultados esperados.
Além do mais, os jogadores “sonho de consumo” são caros -  e às vezes eles preferem ficar aguardando na moita sem facilitar a sua transferência porque têm fichas para gastar e não irão tomar nenhuma atitude precipitada. Enquanto isso, os clubes tentam aproveitar algum negócio de ocasião ou jogadores em fim de contrato.
Mesmo assim, os clubes sempre encontram dificuldades porque o mercado está inflacionado e a faixa salarial está muito além da lógica de uma economia em recessão.
É aí que entra o reforço inesperado.
Esse reforço não chegará a vestir a camisa para entrar em campo e tentar marcar os gols salvadores da pátria. Ele ficará boa parte do tempo em um escritório com ar condicionado pesquisando, estudando, preparando relatórios, negociando patrocínio e dando retaguarda ao presidente.
Ele vai atuar na posição de “diretor de futebol”.
O Palmeiras acaba de contratar Alexandre Mattos, ex-diretor bem sucedido do Cruzeiro, para ocupar o cargo de diretor executivo, e Alexandre Mattos acaba de marcar o seu primeiro gol, deixando Corinthians e São Paulo falando sozinho e levando o atacante-revelação Dudu para o Parque Antártica, digo, para o Allianz Parque.
A contratação deste dirigente faz a torcida se lembrar com euforia do período áureo do clube entre 1993 e 2000, a chamada Era Parmalat, quando o alviverde conquistou onze títulos, numa média de quase dois títulos por ano.
É claro que aquele momento foi diferente, pois junto com o dirigente José Carlos Brunoro, egresso do voleibol, vieram muitos e muitos dólares da Parmalat, o que possibilitou a formação de um elenco inesquecível com Marcos, Velloso, Cafu, Arce, Antonio Carlos, Roque Junior, Junior Baiano, Roberto Carlos, Junior, Cesar Sampaio, Rivaldo, Djalminha, Zinho, Edilson, Edmundo, Evair, Muller e Paulo Nunes.
Ninguém sabe a mágica que fez o Alexandre Mattos, como de resto ninguém sabe como funcionam as transações milionárias do futebol, isto é, quem determina, quem avaliza e quem paga.
O que se sabe é que este é o tipo de reforço que está sendo garimpado pelos presidentes dos clubes para lhes dar a sustentação necessária para que mantenham a máquina funcionando com sucesso.
Os clubes que carecem deste combustível estão em palpos de aranha, como o Botafogo, que precisa se contentar com contratações de segunda linha, ou o Santos, que tem que se desfazer de seus melhores jogadores para fazer frente ao pagamento do salário dos demais.      

 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015







HÁ SINCERIDADE NISSO? 

(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 12/01/2015) 

Em 1952, estreava no Teatro Recreio, centro do Rio de Janeiro, um novo espetáculo musical que levava o nome de “Há Sinceridade Nisso?”.
O Brasil, cuja sede de governo era o Rio de Janeiro, era governado na época pelo presidente Getúlio Vargas – que iria se suicidar dois anos depois – e o clamor popular mostrava uma certa insatisfação, do que se aproveitava a oposição política com o auxilio de alguns jornais e comunidades artísticas para exercer suas críticas mordazes e nem sempre sutis.
“Há Sinceridade Nisso?”, produzido por Roberto Ruiz, era um espetáculo burlesco do gênero teatro de revista, e como tal mostrava uma colcha de retalhos incluindo mulheres sedutoras vestindo maiôs e biquinis reluzentes e reduzidos, ricos cenários, um corpo de bailarinas executando coreografias ao som de grandes orquestras, cantores e cantores da moda e sketches teatrais que não mediam palavras para dizer o que os autores do texto pensavam.
Com o tempo, o teatro de revista propôs uma abertura mais ampla para o público e abriu espaço para um tipo de cinema conhecido como “chanchada”, cujo humor escrachado era mais contido.
“Há Sinceridade Nisso?” era uma sátira em torno das promessas, dos pronunciamentos e das atitudes dos políticos e da sociedade da época, e retratava o comportamento brincalhão e descompromissado do carioca.
Mesmo sem significar exatamente a mesma coisa, cabe nos tempos modernos essa mesma indagação quando deparamos com as manobras nos clubes e nas federações para perpetuar este ou aquele no poder.
Suspeita-se que não haja sinceridade alguma nos gestos dos dirigentes esportivos quando eles dizem que estão preocupados em melhorar a imagem e a qualidade do esporte no país.
Candidato único ao cargo de presidente da Confederação Brasileira de Futebol – CBF, Marco Polo Del Nero foi eleito por 44 dos 47 votantes e começa seu mandato em abril deste ano. O atual presidente, José Maria Marin será o seu primeiro vice-presidente por ser o vice mais velho. A eleição foi garantida após a aprovação das contas da entidade (o que nem chegou a acontecer, nem para dar um pouco mais de seriedade ao processo de transmissão de cargo).
Esta pressa no processo tem a ver com prazos a serem cumpridos de acordo com os regimentos internos, que inclusive estabelecem um tempo para que Del Nero faça a transmissão do cargo que ocupa como presidente da Federação Paulista de Futebol.
Como Del Nero assumirá a presidência da CBF, a partir de abril o atual vice da FPF – Reinaldo Carneiro de Barros – assume em São Paulo, e tudo fica em casa.
A disputa pela CBF previa lances mais emocionantes com a chegada de uma chapa de oposição a Del Nero-Marin formada pelo ex-presidente corintiano Andrés Sanchez e pelo presidente da Federação Gaúcha Francisco Noveletto, mas a coisa não evoluiu pela dificuldade de articulação dos dois, que não reúnem muitos simpatizantes dentro do círculo fechado dos presidentes de clubes e federações.
Na sua sabedoria burlesca, o teatro de revistas, uma espécie de Pasquim ou de Charlie Hebdo das artes cênicas, está fazendo falta nos dias atuais. Foi substituído impropriamente por alguns programas humorísticos de televisão, pois o seu caráter de diversão para um público adulto e fechado lhe permitia dizer as coisas mais às claras, à guisa de crítica satírica.
Talvez essas manobras dos nossos cartolas e as suas atitudes nem sempre transparentes justificassem a apresentação de um outro musical – “Tem Gato Na Tuba” – encenado pela Companhia Walter Pinto em 1948.    

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015






O MINISTRO DO ESPORTE 

(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 08/01/2015) 

Muitos comentários negativos sobre a escolha do novo Ministro dos Esportes estão na ordem do dia.
A ONG “Atletas pelo Brasil”, uma influente organização de atletas e ex-atletas, atualmente presidida pela ex-jogadora Ana Moser, e que congrega esportistas de renome, como Raí, Cafu, Dunga, Lars Grael, Bernardinho, Oscar Schmidt, Rogério Ceni, Flavio Canto, Fernando Meligeni, Hortência, Paula, Gustavo Borges, Kaká, Paulo André e Rubens Barrichello, entre outros, não ficou atrás.
Esta organização manifestou oficialmente o seu descontentamento pela escolha de George Hilton para a pasta de Ministro do Esporte neste segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. 
Em nota oficial, a entidade reclamou da falta de critério para a indicação de Hilton exigindo “mais respeito e cuidado com o esporte no Brasil”.
Eles lembram que 2016 será um ano olímpico e que a falta de profissionalismo de uma pessoa na área governamental para lidar com o problema poderá ser um sério entrave para o correto funcionamento de uma competição tão importante como essa, num momento em que pululam denuncias de malversação de verbas e que as empresas responsáveis pelo andamento das obras – já atrasadas – estão respondendo a processos judiciais.
A nota exalta que “infelizmente, há anos, o Ministério do Esporte é usado na barganha política” e que a familiaridade do ocupante do cargo com qualquer tipo de modalidade ou de gerenciamento esportivo é absolutamente nula.
Desde 1937, o esporte nacional era administrado pelo Ministério da Educação (MEC), e apenas em 1995, na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso ele ganhou um Ministério exclusivo, chamado Ministério Extraordinário do Esporte, embora os assuntos técnicos e administrativos fossem ainda controlados pelo MEC através da Secretaria de Desportos a ele vinculada.
No mesmo ano, porém, foi criado o Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto (INDESP), que se desvinculou do MEC e se subordinou ao novo Ministério.
Em 1998 o nome foi mudado para Ministério do Esporte e Turismo, que manteve o INDESP funcionando sob sua subordinação.
Com o presidente Lula, o Turismo ganhou um Ministério próprio e o órgão passou a ter o nome de Ministério do Esporte.
A rigor, apenas entre 1995 e 1998 o Ministério teve alguém alinhado com o esporte no seu comando – Edson Arantes “Pelé” do Nascimento, que dispensa qualquer biografia.
Na gestão FHC o Ministério mudou três vezes de titular, começando por Rafael Greca em 1999-2000 (economista, engenheiro, escritor, urbanista, poeta, editor, historiador e político), passando por Carlos Carmo Melles em 2000-2002 (agrônomo, empresário rural e político) e finalizando com Caio Cibella de Carvalho em 2002-2003 (turismólogo e político).
Com Lula e Dilma, os ministros foram Agnelo Queiroz em 2003-2006 (médico e político), Orlando Silva em 2006-2011 (só político) e Aldo Rebelo em 2011-2015 (jornalista e político).
É pouco provável que, com a evidente exceção feita a Pelé, esses senhores ministros tenham tido algum interesse em qualquer modalidade esportiva, tenham lido colunas de esporte nos jornais por prazer, tenham acompanhado o noticiário esportivo como lazer, ou mesmo chutado uma bola na juventude, e o senhor George Hilton (teólogo, radialista, apresentador de programas evangélicos na TV e político) não foge à regra.
Isto é um retrato do que acontece com a grande maioria dos titulares dos outros Ministérios, pois o interesse maior do governo costuma ser o seu conforto político ao invés do conhecimento técnico da pasta ministerial.  

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015





A COPINHA  

 (ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 05/01/2015) 

Janeiro é o mês onde as equipes começam a engraxar as suas engrenagens tendo em vista a temporada que se inicia com os campeonatos regionais, e vai além com as competições nacionais e internacionais para aqueles mais bem sucedidos.
Os clubes fazem o chamado planejamento, procurando adequar as suas necessidades técnicas e financeiras com a consequente liberação de atletas que não mais interessam e a chegada de outros para serem titulares ou simplesmente comporem o elenco.
Mas janeiro também é o mês da Copinha, como é carinhosamente chamada a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Este torneio de tiro curto faz a alegria dos meios de comunicação esportivos pela cobertura que propicia, e também dos clubes e jogadores pela visibilidade conseguida.
A Copinha existe desde 1969, e de lá para cá 45 edições foram disputadas, com apenas um hiato em 1987 porque a competição era então organizada pela Prefeitura de São Paulo e o prefeito Jânio Quadros decidiu não realizá-la naquele ano.
O Corinthians é o seu maior vencedor, com 8 títulos (e 7 vice-campeonatos, o que lhe confere a proeza de ter sido finalista em 15 das 45 edições disputadas, ou seja, mais de 30%). A seguir vêm o Fluminense, com 5, o Internacional, com 4, e São Paulo, Santos e Atlético Mineiro, com três conquistas cada um.
Entre os 12 principais clubes do país apenas Palmeiras, Botafogo e Grêmio jamais faturaram um título. Em compensação, clubes pequenos como Nacional-SP (1972 e 1988), Marília-SP (1979), Ponte Preta (1981 e 1982), Juventus-SP (1985), Guarani-SP (1994), Lousano Paulista-SP (1997), Roma Barueri-SP (2001), Santo André-SP (2003) e América-SP (2006) já levantaram o caneco (não estou incluindo a Portuguesa, o América Mineiro e o Figueirense nesta relação de “pequenos” considerando a história destes clubes nos seus estados).
No total, os clubes paulistas venceram o torneio 27 vezes, contra 8 dos cariocas, 5 dos mineiros, 4 dos gaúchos e 1 dos catarinenses.
Esta disparidade talvez se explique pela maior quantidade de times paulistas na disputa, mas também tem algo a ver com a dedicação que os centros de treinamento de certos clubes costumam tratar os seus atletas de base.  
Este torneio é visto com muito carinho por agentes, técnicos e dirigentes, pois é historicamente responsável pela revelação de muitos craques que fizeram e fazem parte do universo do futebol.
Alguns dos muitos jogadores revelados na Copinha se tornaram internacionalmente famosos – todos com passagem pela seleção brasileira: Paulo Roberto Falcão (Internacional, 1972), Toninho Cerezo (Atlético Mineiro – 1972), Edinho (Fluminense – 1973), Casagrande (Corinthians – 1980), Raí (Botafogo de Ribeirão Preto – 1985), Cafu (São Paulo – 1988) e Dida (Vitória – 1993).
Kaká (São Paulo – 2001) e Robinho (Santos – 2002) também participaram, mas eram reservas e ficavam no banco (!).
Além desses, temos Djalminha, Junior Baiano, Marcelinho Carioca e Paulo Nunes (todos Flamengo – 1990), Dener (Portuguesa – 1991), morto em um acidente quando despontava para a fama, e o zagueiro Lúcio (Internacional – 1998).
Mais recentemente, a Copinha nos deu Neymar (Santos – 2008) e Lucas (São Paulo – 2010, que então era chamado de Marcelinho).
Só a revelação desses craques já justificaria a existência do torneio.  

 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014


 
 
RIO ANTIGO
Quero um bate-papo na esquina
Eu quero o Rio antigo com crianças na calçada
Brincando sem perigo
Sem metrô e sem frescão

O ontem no amanhã...”
(Rio Antigo – Nonato Buzar e Chico Anysio)
De repente o poeta surgiu do nada.
Não me conhecia, foi-me apresentado – “este é Augusto Pellegrini, faz um programa de jazz aqui na rádio” – e parece que não prestou muita atenção.
Aliás, a rigor parecia que ele nunca prestava atenção em nada, pois seus sentidos estavam mais ligados no irreal, no surreal, no abstrato, de onde lapidava as suas frases, seus pensamentos e os seus acordes.
Sua filosofia de vida.
O poeta estava triste, havia morrido seu irmão, me contaram, e ele deixara o habitat que escolhera, cidade do Rio de Janeiro, para cumprir com seus deveres fúnebres em São Luís e, depois de fazê-lo, resolveu procurar os amigos. Como era dia, foi a uma emissora de rádio e às ruas do Centro velho; fosse à noite, talvez procurasse pelos bares das quebradas.
O poeta não era só poeta.
Cantor, compositor e produtor musical, nascido no interior do Maranhão na pequena Itapecuru-Mirim em 1932 (naquele tempo, muito pequena), Raimundo Nonato Buzar foi brilhar no Rio, para onde viajou aos 21 anos num verdadeiro mergulho no meio do desconhecido.
Fez seu debut nas noites cariocas cantando e tocando as suas composições nos bares da moda – Bottle’s e Little Club – e logo teve o seu talento reconhecido por dezenas de artistas e frequentadores da noite, entre eles donos de casas noturnas, diretores de gravadores e produtores artísticos.
Compôs um total de 162 canções, tanto solo como ao lado de parceiros como Paulo Sérgio Valle, Ronaldo Bôscoli, Carlos Imperial, Chico Anysio, Chico Feitosa, Torquato Neto, Nelson Motta, Paulinho Tapajós, Roberto Menescal, Rosinha de Valença, Orlandivo, Tibério Garpar, João Nogueira, Nosly, Gerude, Rogeryo du Maranhão, e muitos outros. 
Maysa, Elis Regina, Elizeth Cardoso, Nana Caymmi, Cauby Peixoto, Jair Rodrigues, MPB4, Wilson Simonal, Silvio César, Erasmo Carlos, Nelson Gonçalves e Ithamara Koorax, entre outros, gravaram canções suas e ajudaram a imortalizar o seu nome.
Nonato Buzar também atacou de produtor, sendo responsável na RCA Victor por discos de Jair Rodrigues, Wilson Simonal, Turma da Pilantragem, Regininha e Jimmy Cliff e também por um álbum do Festival Internacional da Canção, um concurso de músicas criado por Augusto Marzagão para a TV Globo que durou de 1966 a 1972.
Chegou às paradas europeias com “Vesti Azul” e compôs um punhado de músicas para novelas de televisão – “Irmãos Coragem” (com Paulinho Tapajós), “Verão Vermelho”, “O Homem Que Deve Morrer” (com Torquato Neto) e trilhas para outros programas de tevê e filmes diversos.
O poeta, simples como um detalhe da natureza, não era pouca coisa não, mas não vivia sobre seus louros.  
Sujeito estranho, mas simpático, desdenhava completamente a aura do sucesso obtido principalmente quando estava no Maranhão, seu feudo, onde cultivava amigos e novos amigos com o mesmo desprendimento e a mesma afeição.
Depois de cinco minutos de conversa, ele me confidenciou que devido ao seu luto familiar não se sentia tentado a cair na farra durante a noite e sabia que se encontrasse a turma da boemia nos bares da vida, a coisa iria inexoravelmente descambar para tal.
Então, pediu meu endereço e prometeu me fazer uma visita, para espairecer um pouco, posto que tinha passagem marcada de volta para o Rio na manhã seguinte.
Passei o endereço e as referências – aquela rua do supermercado, na esquina do posto de gasolina, depois de um muro amarelo cheio de pichações – e ele anotando tudo na mente privilegiada.
Veio a noite, eu estou com a televisão ligada falando para as paredes enquanto leio um delicioso romance de Campos de Carvalho – “A Lua Vem Da Ásia” – quando ouço palmas no portão.
Da porta da sala vislumbro a silhueta do meu novo amigo-poeta, faço-lhe a devida vênia e carrego com ele para a sala de jantar, onde meu filho e seu amigo confabulam sobre uma nova composição para a banda em que tocam.
Nonato Buzar é universalista.
Para ele não existem jovens nem velhos, e as suas músicas que mesclam irreverência, força e ternura tanto podem ser apreciadas e tocadas por um grupo de menestréis setentistas como por uma banda de rock inconformista.
Ele pede uma dose de uísque e um violão.
Tudo à mão, é atendido com reverência e tem a seu dispor uma plateia composta por três pessoas. Bebe a primeira dose como um retirante sedento e a segunda com um pouco menos de sofreguidão. Só então se lembra do gelo.
O uísque é de boa procedência – Chivas Regal 12 anos – e ainda não havia sido inaugurado.
Entre um gole e outro, sucedem-se as canções, sob o silêncio respeitoso e o olhar de quem flerta com o inesperado.
“...Eu estou no céu ou estou no carrossel
De pé pro ar, sou barquinho de papel
À beira-mar, sou criança outra vez...

(Dez Pras Seis – Nonato Buzar e Paulo Sérgio Valle)
“...Dizendo que eu devia vestir azul
Que azul é cor do céu e seu olhar também
Então o seu pedido me incentivou...

(Vesti Azul – Nonato Buzar)
“...Nada pra fazer, apenas ver
Que a paixão chegou por causa de
você
Quando se descobre ser capaz de amar assim...
 
(Coração Na Voz – Nonato Buzar, Nosly e Gerude)
“...Num dia igual a qualquer um
Eu despertei dentro de mim
Se fez manhã no meu viver
Se fez igual a terra e o céu...

(Assim Na Terra Como No Céu – Nonato Buzar, Paulinho Tapajós e Roberto Menescal)
...Manhã despontando lá fora
Manhã, já é sol, já é hora
E os campos se abrindo em flor
Que é preciso coragem
Que a vida é viagem
Destino do amor...

(Irmãos Coragem – Nonato Buzar e Paulinho Tapajós)
 “...Camisa verde-claro, calça Saint Tropez
Combinando com o carango, todo mundo vê
Ninguém sabe o duro que dei
Pra ter fon-fon trabalhei, trabalhei...

(O Carango – Nonato Buzar e Carlos Imperial)
“...Vem pra roda, me dê a mão
Traz o seu olhar
Vou girando na roda
Vou cantando à sua espera
Quem me dera um dia ter seus olhos
Cor da primavera...

(Menininha Do Portão – Nonato Buzar e Paulinho Tapajós) 
“...Um pregão de garrafeiro
Zizinho no gramado, eu quero um samba sincopado
Taioba, bagageiro, e o desafinado
Que o Jobim sacou...”
(Rio Antigo – Nonato Buzar e Chico Anysio)
No silêncio da noite, entre goles e canções, apenas meia dúzia de palavras pronunciadas, embora o mestre falasse para si mesmo, os ouvintes não ousando quebrar o encanto da audição.
As palavras vinham com a música.
Fim de uísque, início de madrugada, o poeta se levanta, o semblante tranquilo embora aparentando cansaço, e me agradece com um abraço e um cálido “boa noite”.
E vai de encontro ao alvorecer, seu parceiro de vida.
 
 
 

 
 
 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014





FELIZ NATAL 

(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 22/12/2014) 

Fim de ano.
Hora de a torcida deixar de lado as emoções vividas em 2014 e recarregar as energias para 2015, que vem fervendo, cheio de expectativas e promessas.
É claro que eu estou me referindo ao futebol e ao esporte em geral, pois esta é a praia desta coluna, mas esta previsão vale para as torcidas de qualquer atividade que possamos exercer.
Quanto ao futebol, para quem tem o saudável vício de assistir a eventos esportivos, felizmente sempre existem os jogos dos campeonatos europeus que as tevês por assinatura transmitem durante as pausas dos nossos campeonatos, e os espetáculos acabam se constituindo em um bom pretexto para uma cervejinha com queijo gorgonzola, de preferência com algum amigo que curte o riscado, embora ninguém empunhe a bandeira do time que está jogando nem ofenda a mãe do juiz porque ele marcou um pênalti inexistente.
É fim de ano.
Na falta de atualidades, os cronistas esportivos concentram a sua atenção na montagem das equipes para o ano próximo, na análise sobre o que deu certo e o que deu errado. Discute-se a tradicional dança das cadeiras dos treinadores, a renovação de contratos de alguns jogadores, a liberação de outros tantos e a inevitável contratação de novos reforços.
Ninguém mais fala em táticas e estratégias para as partidas, nas deficiências técnicas das equipes ou na tomada de decisão dos treinadores para tentar virar o jogo. Isto, no momento, é passado. E também é futuro.
As diretorias dos clubes começam a planejar, mas vão além do planejamento. Fazem promessas que sabem não serão cumpridas, procuram alinhavar contratos vantajosos com patrocinadores de porte para aliviar o fardo financeiro que pesa às suas costas e contam com a ajuda de algum Mecenas para trazer jogadores que consigam trazer público para os estádios, mesmo que seja para uma única temporada.
Afinal, isso aconteceu com o fenômeno Ronaldo, com Ronaldinho Gaúcho, com Seedorf, e mais recentemente com Kaká, e de certa forma deu certo, pois aumentou a presença de público e trouxe bons resultados para os clubes que apostaram na fórmula – Corinthians, Flamengo (depois Atlético Mineiro), Botafogo e São Paulo – durante o período em que os craques importados vestiram as suas camisas.
É fim de ano, e talvez o momento seja de reflexão.
É preciso repensar o pagamento de salários fora do contexto para técnicos que ganham entre 500 e 700 mil reais por mês (cerca de 20 mil reais por dia ou 8 milhões e meio por ano), num país como o Brasil.
É preciso também repensar um piso salarial para jogadores, levando em conta um plano de análise de eficiência, comprometimento e resultados, pois uma empresa só consegue dar certo quando as receitas superam as despesas, gerando lucros para reinvestimentos.
É preciso repensar o calendário procurando aprimorar as tabelas dos jogos para aproveitar melhor as viagens longas, levando-se em conta as distâncias deste enorme Brasil.
É preciso que os clubes dispensem mais atenção às suas divisões de base e que as federações procurem fortalecer o futebol do interior, antigo e eficiente celeiro de craques.
É, enfim, hora de valorizar mais o torcedor e trazê-lo de volta aos estádios através de promoções, campanhas de sócio-torcedor e atrativos para tornar os preços dos ingressos menos abusivos.
É hora de desejar Feliz Natal a todos os leitores, e um Ano Novo cheio de coisas boas.

 

 

 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014





BRASILEIROS NA EUROPA  

 (ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 18/12/2014) 

Um estudo recente mostra que os jogadores brasileiros já não são chamados de “os reis do futebol” e que pouco a pouco vão sendo substituídos nas grandes equipes europeias por africanos, europeus e outros latino-americanos.
Na verdade, não é preciso fazer um grande esforço para constatar este estudo, bastando somente acompanhar os campeonatos nacionais do Velho Mundo ou os jogos da Champions League pela televisão.
É claro que ainda existe uma boa porção de brasileiros atuando por aquelas plagas, mas parece que eles não conseguem exercer o mesmo fascínio de outros tempos e, exceção feita a Neymar, não chegam a ser considerados jogadores fora de série pela torcida e pela imprensa local.
O futebol europeu evoluiu como um todo, no sentido de estratégia e gerenciamento. Os clubes mantêm os olhos abertos para os quatro cantos do mundo a fim de observar jogadores e, ao lado da habilidade no trato da bola, sempre necessária porque pode decidir partidas, eles analisam os  fundamentos e a inteligência espacial do jogador, ao se desmarcar e ao perceber quem está desmarcado.
Por isso, os clubes exibem na mesma equipe a postura do jogador alemão, a malícia do brasileiro, a picardia do argentino, a disciplina tática do espanhol, o desprendimento do africano e por aí vai, com a finalidade de oferecer ao público mais do que um espetáculo, mas um espetáculo vitorioso.
E, para aqueles que gostam de números, podemos adiantar que, considerando nove dos principais clubes da Europa – Barcelona, Real Madrid, Bayern Munich, Chelsea, Manchester United, Manchester City, Juventus, Roma e PSG – existe uma quantidade de 25 jogadores brasileiros (dos quais apenas 10 podem ser considerados titulares absolutos) contra 120 outros estrangeiros vindos de diversas partes do mundo.
Isto corresponde a cerca de 21% de mão-de-obra (ou pé-de-obra, se preferirem), o que seria até um numero aceitável se não estivesse oscilando a cada temporada.
Se levarmos em conta porém de que apenas 10 destes 25 são titulares costumeiros – nominalmente Neymar, Daniel Alves, Marcelo, Oscar, Ramires, Willian, Thiago Silva, Marquinhos, Lucas e David Luiz – o percentual cai para 8%.
Os outros estrangeiros que atuam nesses times são distribuídos em 84 europeus, 24 sul-americanos, 9 africanos, 2 centro-americanos e 1 jogador da Oceania.
Os maiores exportadores, depois do Brasil, são a Espanha (com 15 jogadores) e a França e Argentina (com 14 jogadores cada um).
Os técnicos europeus são unânimes em afirmar que não é exatamente qualidade o que está faltando ao jogador brasileiro, mas principalmente disciplina, espírito de equipe e seriedade.
Como alguns dos nossos craques ainda estão procurando mostrar as razões da sua contratação – caso de Casemiro, Douglas, Bernard, e Lucas Piazon, por exemplo – os jornais europeus continuam colocando em questão os altos valores gastos e a competência de quem os contratou.
O fato é que a Europa já foi o palco de muito brasileiro bom de bola, desde os tempos de Julio Botelho, Mazzola e Evaristo Macedo, passando por Falcão, Romário, Ronaldo e Ronaldinho, todos reverenciados até hoje.
Alguns se naturalizaram, caso do maranhense-belga Oliveira, do alemão Cacau, do espanhol Diego Costa, do português Pepe e do croata Eduardo da Silva. Deco chegou a defender a deleção portuguesa, pois tinha dupla cidadania, e Sonny Anderson poderia ter defendido a seleção da França se tivesse se naturalizado.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014





UM VELHO JORNAL DE ESPORTES  

(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 15 e 16/12/2014) 

Qual é o mistério que transforma clubes vencedores, acostumados a brigar por títulos e seguidos por milhões de torcedores fanáticos, em meros cumpridores de tabelas de campeonatos?
Por que motivo clubes de grande tradição, que chegaram a disputar e ganhar torneios e campeonatos importantes, de repente começam a definhar e passam a viver apenas de história?
Nesses casos, a queda parece uma doença insidiosa que começa devagar – um tropeço aqui, um rebaixamento acolá – e quando o clube toma consciência já está lutando pela sobrevivência.
No momento, pelo menos três clubes brasileiros estão nesta corda bamba: Botafogo, Palmeiras e Vasco da Gama, pela ordem do problema.
Talvez pudessem ser incluídos nesta lista o Bahia e o Santa Cruz, pelos relevantes serviços prestados ao futebol no século passado, mas vamos ficar nos três mais tradicionais.
O Botafogo, pela sua situação de insolvência, pela nova queda para a Série B e pela possibilidade remota de montar um time competitivo para trazê-lo de volta à divisão de elite, está prestes a se tornar um novo America do Rio de Janeiro, cuja façanha histórica foi a conquista de 7 títulos de campeão carioca (o último em 1960) e um Torneio dos Campeões em 1982.
Há 32 anos o Ameriquinha não ganha um título relevante e hoje amarga a Série D do Brasileirão. Se o Botafogo não abrir os olhos, também chega lá.
O Palmeiras é outro que precisa se cuidar. O clube foi rebaixado duas vezes nos últimos 12 anos – este ano escapou por um triz – e tem que se renovar para fazer jus ao seu centenário e ao seu moderníssimo Allianz Parque. A reformulação parece que está em curso, e a primeira tarefa do presidente reeleito e da nova diretoria é montar um time para brigar pelo menos até a décima posição no ano que vem, e por uma campanha digna no Campeonato Paulista, o que já seria uma vitória.
O Vasco também está mal das pernas, mas o seu retorno à Série A e a volta do polêmico caudilho Eurico Miranda poderão dar o gás necessário para que o time se recupere. A torcida confia desconfiando.
Outros clubes que algum dia chegaram a causar um certo impacto (Portuguesa, Guarani-SP, São Caetano, Ceará, Paysandu – e agora também o Vitória) estão em um patamar abaixo do nível de importância do futebol brasileiro.
E olhe que não estou me referindo apenas ao que acontece no Brasil, pois este desgaste é um fato corriqueiro que ocorre em todo o mundo, ou seja, no exterior a coisa não é muito diferente.
O grande Torino da década de 1940, base da seleção italiana que era favorita para ganhar a Copa do Mundo de 1950, morreu junto com os seus jogadores no acidente aéreo da Basílica de Superga em 1949, nos arredores de Turim. Isso aconteceu há sessenta e cinco anos e desde então o clube nunca mais foi vencedor, embora ainda seja o quinto maior campeão nacional.  
Mas a Inglaterra talvez seja a campeã dos ídolos decadentes.
Clubes como Nothingham Forest, Leeds United, Sheffield Wednesday e Blackburn Rovers, que já tiveram seus dias de glória praticamente sumiram. No momento o lendário Liverpool está balançando e precisa urgentemente se consolidar se não quiser ter mesmo destino.
Alguns esquadrões europeus que chegaram a ser referência no passado – Estrela Vermelha (antiga Iugoslávia, atualmente Sérvia), Austria Viena e Honved (Hungria) – não são mais citados.
O torcedor até aceita que o seu time tenha um jejum de títulos e alguma queda na produção, mas não se conforma ao vê-lo desaparecer lentamente a ponto de se tornar apenas uma página amarelada de um velho jornal de esportes.    

 

 

 

 

 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014





FECHADO PRA BALANÇO 

 (ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 11/12/2014) 

O ano futebolístico do Brasil termina marcado por grandes emoções.  A jornada foi brilhante para uns, espinhosa para outros, mas como diz o manjado ditado, entre mortos e feridos salvaram-se todos, ou quase todos.
No cardápio, nenhuma conquista ou sequer um vice-campeonato internacional. Apesar de ter sido disputada no Brasil e mesmo com toda a expectativa criada e toda a festa programada, a Copa do Mundo teve a final jogada entre a Alemanha e a Argentina. Ao Brasil restou um honroso (alguns dirão melancólico) quarto lugar.
A Copa representou o maior vexame internacional de toda a nossa história, superando o fiasco de 1950, quando pelo menos chegamos ao vice-campeonato perdendo por um apertado 2x1 (e não eliminados pelos alarmantes 7x1 de 2014) e o resultado final daquele Mundial teve uma repercussão mínima se comparada à globalização e universalização da notícia dos dias de hoje.
Estranhamente, porém, os derrotados de 1950 foram chamados de “covardes” e passaram um bom tempo se escondendo, ao passo que os derrotados de 2014 vão muito bem, obrigado, e o “efeito Alemanha” aparentemente não alterou a sua rotina. Sinal dos tempos.
No âmbito continental, nenhum time brasileiro chegou sequer à final de qualquer das duas Copas disputadas.
A Copa Libertadores teve como campeão o San Lorenzo da Argentina e o paraguaio Club Nacional em segundo, e a Copa Sul-Americana teve o campeão definido ontem à noite entre River Plate, da Argentina, e Atlético Nacional, da Colômbia.
Os clubes brasileiros que chegaram mais perto – Cruzeiro e São Paulo – ficaram nas quartas de final e na semifinal respectivamente.
O ano 2014 deve ser definitivamente esquecido e se possível riscado do calendário brasileiro no que diz respeito aos torneios internacionais e continentais.
No aspecto interno, os mineiros deram demonstração de força, com o Cruzeiro dando um passeio nos pontos corridos do Campeonato Brasileiro e o Atlético se superando na épica conquista da Copa do Brasil.
Os cariocas foram a maior decepção, pois o seu melhor representante – o Fluminense – não passou de um sexto lugar no Brasileiro e o Botafogo caiu para a divisão de baixo, sendo o penúltimo colocado entre os 20 participantes.
É verdade que o Vasco subiu da Série B para a Série A, mas chegou em terceiro, a 7 pontos do Joinville campeão, e em momento algum pareceu almejar  algo mais do que isso.
Apesar de o campeão brasileiro ter sido anunciado com duas rodadas de antecedência, o sistema de pontos corridos mostrou sua eficácia, pois até a última rodada foi mantido um grande frisson, se não pelo título, mas por uma vaga na chave de grupos na Libertadores – obtida pelo Internacional, que com um gol aos 50 minutos do segundo tempo jogou o Corinthians para a repescagem – e pela manutenção de um último clube para a Série A de 2015, com uma vaga disputada a cada minuto de jogo por Palmeiras, Vitória e Bahia, que resultou na queda dos dois baianos.
Localmente, tivemos um ano equilibrado do Sampaio Correa na Série B. O tricolor mostrou um time amadurecido e teve momentos durante a sua trajetória em flertou com entre os quatro primeiros para se habilitar a disputar a Série A no ano que vem. Chegou em décimo lugar, na metade da tabela, mas em momento algum passou pelo desespero de ficar entre os rebaixados.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014






FUTEBOL – NEGÓCIO OU ESPETÁCULO? (PARTE II) 

(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 08/12/2014) 

Talvez o título deste artigo (e também do artigo anterior) devesse ter sido “Futebol – Negócio e Espetáculo”, porque na verdade nos dias de hoje uma coisa não se dissocia da outra. Grandes marcas apostam em grandes espetáculos.
No caso do futebol brasileiro, no entanto, o título talvez pudesse ser “Maus negócios e Espetáculos sofríveis”.
O gerenciamento dos clubes não tem um selo de qualidade, pois os custos aumentam, as dívidas se acumulam e, entra ano, sai ano, a torneira continua aberta sem previsão de que o equilíbrio possa ser restabelecido.
Por outro lado, os jogadores que não recebem salários, direitos de imagem e premiações continuam rendendo 50% do que podem a proporcionam na maioria das vezes espetáculos medíocres.
Os ingredientes que os clubes têm a disposição parecem apropriados para que a receita original funcione e o negócio seja bem sucedido. Estes ingredientes poderiam proporcionar grandes espetáculos, mas por algum motivo a massa desanda, provavelmente devido à falta de um padeiro adequado.
A presença da mídia, a participação de patrocinadores de peso e todo o marketing esportivo que é desenvolvido em torno do negócio promovem e provocam a dança de bilhões de reais para alimentar o mercado do futebol.
Qualquer empreendimento milionário, porém, corre o risco de fazer água se não tiver um gerenciamento à altura do capital investido, isto é, o futebol profissional no estágio em que se encontra não pode ser dirigido como um campeonato de bairro.
Os altos e baixos se sucedem, mas os sucessos dão a impressão de que aconteceram por obra do acaso, sem o menor planejamento, ao passo que os fracassos mostram claramente a existência de erros estratégicos.
O maior problema é que os clubes não funcionam como empresa, e via de regra gastam muito mais do que ganham ou gastam o dinheiro que ainda não ganharam.
Os presidentes dos clubes de futebol são na sua maioria empresários que aparentemente sabem como tocar as suas empresas sem as colocar no negativo, mas não mostram o mesmo carinho pelos clubes que dirigem, uma absoluta irresponsabilidade. Será que as suas empresas contratam seus empregados – por excelentes que sejam – pagando salários que fazem com que a folha de pagamento supere o faturamento?
É meio difícil o futebol se organizar financeiramente num país onde a sociedade está pendurada em dívidas, as empresas estão meio quebradas e o próprio governo gastou além do seu orçamento, isto é, o mau exemplo vem de todos os lados. E olhem que eu não estou falando sobre a corrupção generalizada, fato que – com exceção à nebulosa história do rebaixamento da Portuguesa – não tem produzido no futebol escândalos de porte.
O Brasil está no vermelho e os zeros estão à esquerda – sem qualquer alusão a alguma coloração partidária.
Chegamos ao ponto de ter a esperança de que uma figura tão questionada como o presidente do Vasco Eurico Miranda possa ajudar o futebol a se tornar lucrativo e organizado.
Até a poderosa e bem dirigida Globo Esportes entrou na dança e quase se complicou por causa dos adiantamentos que fez, sendo inclusive acionada pela Justiça no caso do Botafogo como corresponsável por parte do débito do Glorioso, que vai de mala e cuia para a Série B acumulando um passivo de 750 milhões, sem incluir os salários atrasados de toda uma galera.
O futebol brasileiro passa pela necessidade de se estabelecer um teto salarial para jogadores e técnicos, pela responsabilidade fiscal e trabalhista dos clubes, pela ampliação do sistema sócio-torcedor, pela venda antecipada de ingressos através de carnês, por um calendário que privilegie os clubes das quatro divisões, pela profissionalização da arbitragem e pela redução da cota de avareza da CBF.