quinta-feira, 28 de agosto de 2014






ARQUIBANCADAS VULNERÁVEIS

(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 28/08/2014)

É uma triste constatação, mas o brasileiro, tão cordato e amistoso, tão hospitaleiro e agradável, tão criativo e gentil, continua mostrando o seu lado negativo, em termos de comportamento.
O sujeito gosta de criticar os poderosos – que procedem criminosamente e não são punidos à altura por causa das brechas na lei, do compadrismo e da legislação em causa própria. Mas quando chega a sua vez, o mesmo sujeito deixa de fazer a sua parte.
Parece que as palavras “postura” e “honestidade” só servem para fazer engrossar as páginas dos dicionários e para apontar os deslizes dos outros. Para muita gente, o que vale geralmente é o “jeitinho brasileiro”.
Eu não estou me referindo àqueles que não respeitam filas nem vagas para deficientes ou idosos, nem àqueles que sujam a cidade, os que ficam com o troco a mais, ou os que levam a caneta Bic do escritório para uso do filho.
Como a minha praia é o futebol, estou me referindo à conduta do brasileiro como torcedor.
Longe de mim julgar os palavrões individuais ou o canto coletivo para ofender o torcedor adversário, o árbitro ou algum jogador. Afinal, a torcida contrária, mesmo também mesclada de garotos e senhoritas faz a mesma coisa, pois estamos, para o horror do vovô ou da vovó, vivendo “tempos modernos”.
É lamentável, no entanto, a prática de arremessar copos plásticos, chinelos e radinhos de pilha na direção de algum desafeto e a constante ameaça aos profissionais da imprensa.
É lamentável também notar que a moda agora é depredar cadeiras e sanitários dos estádios, mesmo quando o depredador torce pelo time da casa, que joga no seu estádio e vence o jogo!
Com a escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo, a Fifa recomendou, entre outras coisas, que fossem reformadas ou construídas oito “arenas” (e fizeram doze) e que os torcedores fossem cadastrados para facilitar a sua identificação em caso de necessidade (o atraso nas obras e a preocupação voltada para outras prioridades deixou esta recomendação de lado).
Além disso, a fim de dar mais conforto e segurança para o torcedor, a Fifa limitou a lotação dos estádios, eliminou os fossos e os alambrados e solicitou que os organizadores colocassem assentos plásticos numerados e coloridos, como é de praxe nos principais estádios da Europa e dos Estados Unidos.
A lotação foi respeitada – mesmo com os ingressos falsos que inundaram as praças, possivelmente por causa do preço exorbitante – e o torcedor comum foi substituído por uma plateia com a aparência e comportamento de público de temporada lírica (apesar de terem insultado alto e bom som a presidente da República!).
Os fossos e os alambrados foram eliminados, ocorrendo apenas um pequeno incidente no jogo Estados Unidos x Bélgica, quando um espectador vindo de uma área destinada aos cadeirantes invadiu o gramado.
Quanto aos assentos, eles custaram entre 280 a 1.300 reais cada um e ao término da Copa estavam todos em perfeito estado de conservação. Bastou, porém, começar a temporada local e o torcedor habitual tomar conta das arquibancadas para que as partidas começassem a apresentar um saldo negativo que mistura falta de cuidado com falta de educação.
Cada partida nas arenas recém-inauguradas contabiliza a destruição de meia centena de cadeiras, graças à falta de carinho do torcedor pelo seu patrimônio.
A gente se pergunta se, quando está em casa vendo o jogo pela televisão, essa gente comemora os gols subindo nas cadeiras e poltronas ou se destrói seu mobiliário quando o jogo termina com a derrota do seu time de preferência.
Em artigos anteriores foram comentados muitos aspectos negativos que apequena o futebol brasileiro, e de certa forma tratamos o torcedor comum como vítima de um sistema perverso e dos “hooligans” das organizadas.
Parece, no entanto, que este torcedor comum não aprendeu ainda como fazer a parte que lhe cabe.       

 

 

segunda-feira, 25 de agosto de 2014






DECISÃO PRECIPITADA

 
(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 25/08/2014)


Já falamos sobre a nova convocação dos jogadores da seleção e demos uma pincelada rápida sobre as possibilidades de um sucesso imediato.
Mas tudo é irrelevante, pois depois do insucesso da Copa, a CBF deveria ter se recolhido para meditação e deixado o futebol de seleção rolar apenas nas categorias de baixo, visando a preparação dos jogadores olímpicos e tentando descobrir novos talentos, prontos para serem promovidos.
Afinal, para isso foi mantido o técnico e coordenador Alexandre Gallo.
Eu quero crer que os amistosos deste ano, principalmente contra Colômbia e Equador, sejam completamente inoportunos a esta altura dos acontecimentos, e quero crer também que a chamada de Dunga para comandar a seleção também tenha sido precipitada.
Tudo indica que a CBF ainda não entendeu bem o que está acontecendo. O presidente Marin deve acreditar que os 7x1 germânicos que nos tirou o sonho do hexa foi apenas um mero acaso, não levando em consideração nem o placar nem as especificidades técnicas e psicológicas que levaram a ele.
O problema é que Dunga e Felipão possuem basicamente o mesmo perfil: ambos primam pela disciplina e pelo amor à Pátria, cada qual do seu jeito.
Felipão busca seduzir os jogadores para que eles façam parte de uma grande família – a Família Scolari – onde a lealdade ao comandante e a subserviência tática devem ser o ponto nevrálgico para a consecução dos resultados positivos.
Antes de analisar o que e como o jogador pode render com um pouco de ousadia e iniciativa, ele analisa a capacidade do atleta em absorver a sua filosofia e seguir ordens. Assim, mesmo quando trabalha com jogadores especialistas em executar determinadas funções, Felipão impõe a eles um novo posicionamento e uma nova função, tornando a equipe burocrática e sem brilho.
Já Dunga prega o amor pela Pátria como se cada jogador adversário fosse um soldado inimigo, e comemora as vitórias como se ostentasse nas mãos a cabeça decapitada do oponente. Sua alegria se manifesta às avessas, pois enquanto outros agradecem aos céus, choram e riem de felicidade, ele grunhe xingamentos e exibe gestos de revolta...
O problema é que o desenho tático de ambos é o mesmo – uma defesa rebatedora, um time forte e fechado no meio do campo, e um definidor lá na frente para fazer aquele golzinho salvador. Por isso, não causou nenhuma estranheza que dos dez jogadores convocados por Dunga que haviam participado da Copa, cinco foram aqueles escalados por Felipão para fazer a marcação no meio do campo, isto é, o esquema limitado ao desarme – uma das causas da nossa falta de opções – deverá ser mantido.
Felipão não tinha um municiador que acertasse passes de meia distância, Dunga também não tem. Felipão não tinha um articulador e organizador de jogadas para facilitar a vida dos atacantes, Dunga também não tem. Felipão não tinha uma variação de jogadas que poderia confundir os adversários, Dunga também não terá, considerando os nomes convocados.
Corremos o risco de iniciarmos mal a jornada com o novo técnico e aumentar a desconfiança do mundo sobre a qualidade do nosso futebol.
Por isso, o mais prudente seria ter fechado a nossa seleção principal pra balanço. Aí, teríamos uma pausa para discutir, ponderar, analisar, descobrir novas opções de coordenador, técnico e jogadores, e só então tentar um caminho renovado, com os pés no chão.
Ao invés da nomeação de Gilmar Rinaldi, o ideal teria sido chamar uma comissão formada por pessoas de confiança – e Gilmar até poderia ser um deles – para observar a situação atual e as tendências do futebol brasileiro e do futebol mundial e, ao cabo de algum tempo apresentar um relatório que pudesse servir de base para a formação de uma nova comissão técnica com condições de alavancar o nosso futebol a partir do próximo ano.  

  

quinta-feira, 21 de agosto de 2014



CORNETANDO A CONVOCAÇÃO

 (ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 21/08/2014)

Saiu a primeira convocação do técnico Dunga na sua reestreia na seleção. A convocação servirá como base para os cinco amistosos que serão jogados este ano, numa tentativa de apagar a vexatória exibição das duas últimas apresentações no Mundial.
Esta lista vale para os dois primeiros jogos, que serão disputados em setembro – Colômbia, dia 5 em Miami e Equador, dia 9 em Nova Jersey.
Na sequência virão Argentina (10 de outubro em Pequim, valendo pelo Superclássico das Américas), Japão (14 de outubro em Cingapura) e Turquia (12 de novembro em Istambul). São todos adversários perigosos, considerando a fase atual do nosso futebol.
Para estes três últimos jogos pode-se esperar algumas novas convocações como, por exemplo, Thiago Silva, que está contundido, e talvez seja dada uma oportunidade para o ex-sãopaulino Lucas e para o cruzeirense Dedé.
Dunga chamou apenas 22 jogadores (deixou o terceiro goleiro de fora) e repetiu 10 nomes da lista de Felipão. São eles Jefferson, Maicon, David Luiz, Fernandinho, Luiz Gustavo, Oscar, Ramires, Willian, Hulk e Neymar.
Isto não é muito promissor, pois devido a certas semelhanças no estilo de Dunga e de Felipão, vamos continuar tendo um time marcador e pouco técnico. Tudo indica que Dunga vai encher o meio de campo com os seus guerreiros, abrindo mão de um armador de habilidade que saiba prender a bola, buscar espaço para os companheiros e fazer lançamentos e passes corretos.
O único que poderia fazer este trabalho, muito embora não seja exatamente o seu estilo – pois ele é mais um ponta de lança – é Oscar, que foi tão mal utilizado na Copa.
As novidades podem ser analisadas por parte.
O goleiro Rafael Cabral e os laterais Danilo e Alex Sandro já tiveram sua chance na seleção com Mano Menezes e com o próprio Dunga, mas nunca chegaram a encantar.
Filipe Luís e Marquinhos também foram chamados para alguns amistosos com Felipão e atualmente jogam um bom futebol nos seus respectivos clubes, Chelsea e PSV, onde são titulares.
Miranda, que teve a sua não convocação para a Copa questionada, vai ter a oportunidade de mostrar se a sua presença teria valido a pena, e o corintiano Gil, pela primeira vez convocado para uma seleção, é uma incógnita, pois é um zagueiro seguro, mas ainda não teve o devido batismo.
Elias está sendo convocado para fazer aquilo que se esperava de Paulinho na Copa do Mundo, isto é, ser um meia armador que se transforma em atacante surpresa. Ele faz isso muito bem no Brasil, mas quando jogou na Europa foi bem vigiado e não brilhou.
Outro jogador cuja ausência foi reclamada na Copa é o meia-atacante Phillipe Coutinho, que joga um futebol de toques curtos e deslocamentos, bem ao estilo europeu. Talvez tenha problemas se estiver no mesmo time que Oscar.
A grande novidade foi a dupla cruzeirense Everton Ribeiro e Ricardo Goulart. Eles se ajustam perfeitamente dentro do esquema de Marcelo Oliveira, técnico do Cruzeiro, mas serão expostos a um sistema de jogo totalmente diferente que é imposto pelo técnico da seleção. Com eles, a seleção ganharia leveza e imprevisibilidade, mas leveza e imprevisibilidade são duas palavras que não constam no livro de cabeceira do sargento Dunga.
Sobra Diego Tardelli, que até agora tem se mostrado não mais do que um eficiente jogador de clubes brasileiros.
Evidentemente Dunga convocou os jogadores de Felipão conferindo a eles status de titular, até por respeito ao seu próprio estilo travado e ranzinza de armar o time. Isto indica que a seleção vai ser novamente dependente de Neymar, o que não é bom para ninguém. No Barcelona, e mesmo no Santos, Neymar jogava com os companheiros e também para o time, mas na seleção ele precisa de um time que jogue sem ele e para ele, a fim aliviar a marcação pesada que lhe será imposta.
E com Fernandinho, Ramires, Luiz Gustavo e Hulk, isto fica um pouco difícil.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014






O FUTEBOL BRASILEIRO EM BAIXA – PARTE III

 (ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 18/08/2014)

Nos dois últimos artigos, analisamos alguns dos fatores que estão levando o futebol brasileiro a um baixo nível de consumo interno e a um inacreditável descrédito internacional.
No geral, faltou um componente a ser analisado e que diz respeito diretamente aos organizadores do futebol no Brasil, que vão desde a CBF, as Federações Estaduais, os clubes e até a emissora que banca a maior parte do dinheiro dos clubes.
Este componente esbarra em duas perguntas simples, mas apropriadas.
Por que os jogos dos certames da segunda e terceira divisões da Inglaterra e da Alemanha levam mais torcedores aos estádios do que a grande maioria das partidas da nossa Série A? Será que o povo brasileiro ainda gosta de futebol?
A primeira pergunta é mais fácil de ser respondida: o público inglês e alemão é maior porque lá os torneios são mais bem organizados, a maior parte dos ingressos é vendida com antecedência por um preço pré-fixado e quem quiser ir ao estádio comprando seu ingresso na hora pagará um preço justo para o espetáculo. A violência foi também praticamente banida e as distâncias entre as cidades são mais curtas.
Além disso, as condições que os estádios oferecem no que diz respeito à segurança do torcedor, à sua proximidade com terminais de transporte urbano e à ausência de oportunistas que incomodam se oferecendo para cuidar do seu veículo e de cambistas querendo lhe empurrar alguns ingressos – muitas vezes falsificados! – são uma motivação para quem quer passar uma tarde de lazer assistindo ao vivo a uma partida de futebol.
A segunda pergunta ainda precisa ser respondida.
Por mais que o torcedor brasileiro aprecie um bom jogo de futebol, ele encontra alguns obstáculos que pouco a pouco fazem com que ele se afaste dos estádios.
O primeiro obstáculo é exatamente a carência de um bom espetáculo pela ausência atual de um futebol vistoso e produtivo. Salvo honrosas exceções, os jogos que temos visto ultimamente são terrivelmente ruins.
Os jogadores, de um modo geral, se especializaram em dar chutões, errar passes e fazer jogadas bisonhas, e os nossos técnicos abusam de um esquema de defensivo, feio e travado, tentando a sorte nos contra-ataques ou num erro do adversário. Com isso, há um grande nivelamento entre as equipes que deveriam ser grandes e as equipes medíocres.
Para piorar, o horário dos jogos espanta o torcedor, pois partidas são disputadas tarde da noite em estádios mal localizados, inibindo a presença de público pelo problema de transporte e principalmente pela violência urbana e pela insegurança angustiosa a que o torcedor está exposto.
Na verdade, o torcedor está sujeito a dois tipos de violência, a oficializada, que grassa pelas cidades na forma de assaltos, sequestros-relâmpago e latrocínios, e a oportunista – torcedores que espancam torcedores adversários com paus, pedras, rojões, pedaços de ferro, soco inglês, e todo o arsenal que você possa imaginar, normalmente patrocinados pelas torcidas organizadas que por sua vez são patrocinadas polos próprios clubes.  
Finalmente, por causa da inexistência de uma política de preços, os clubes majoram os ingressos a níveis insuportáveis. Ir ao campo de futebol nos dias de hoje se tornou um divertimento muito caro, pois incluindo o ingresso e as despesas periféricas, como estacionamento, gorjetas, e uma ou duas cervejas, o torcedor não gastará menos de 150 reais, o que limita a sua presença nos estádios a no máximo uma vez por mês. Se ele levar o filho ou mais alguém da família a despesa multiplica.
Pode ser que o brasileiro continue gostando de futebol, mas os donos do espetáculo estão tornando o seu prazer cada vez mais impossível.
Sorte das emissoras de TV por assinatura e seus pacotes “pay-per-view” que oferecem transmissões repletas de câmeras e recursos, fazendo com que o futebol dos estádios passe a ser um lazer do passado.  

 

 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014







O FUTEBOL BRASILEIRO EM BAIXA – PARTE II

(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 14/08/2014) 

No artigo anterior nós comentamos que o jogador brasileiro está perdendo qualidade e não é mais invejado como o era há uma ou duas décadas.
Isto talvez se deva a outro problema que explodiu a partir de 1998 com a implantação da Lei do Passe, quando os clubes perderam os direitos sobre os jogadores que produziam nas suas categorias de base e abriram espaço a espertalhões que se autodenominam agentes ou empresários. Foi quando começou a excessiva mercantilização que ajudou a puxar o futebol para baixo.
O clube era então o “dono” do jogador e só permitia a sua transferência para algum outro clube se o seu presidente assim o permitisse. Na prática, esta “escravidão” era atenuada pelas conversas entre o clube e o jogador, de modo que a incidência de uma tiranização era na verdade muito pequena, contra a total tiranização que é hoje exercida pelo empresário sobre o atleta e sobre os clubes, sejam os clubes formadores ou compradores. Adicione-se a essa massa podre as relações espúrias entre agentes e dirigentes de clubes e começaremos a entender até que ponto isto afeta a vida e o rendimento do atleta.
A safra colhida pelos ávidos agentes e empresários – que estão aliciando garotos a partir de 10 anos de idade com a promessa de levá-los para clubes europeus – nunca está suficientemente madura, mas sempre rende muito dinheiro para o aliciador e algum para a família do jogador, restando para o jovem atleta apenas a esperança de dias gloriosos e a incerteza de vencer.
A perspectiva de uma vida milionária para si e para a família deixam os jovens – naturalmente despreparados – com a cabeça nas nuvens, e isto é o primeiro passo para o fracasso e a frustração.
Só que, despreparado e obedecendo as ordens do seu agente mentor, o jogador entra num mundo irreal de deslumbramento que tanto pode levá-lo à categoria de superstar como fazer com que ele entre num caminho ruim e sem volta.
Sem direitos efetivos sobre o jogador, e com o dinheiro falando cada vez mais alto, os clubes formadores de jogadores aceitam o canto da sereia porque sempre sobra algum para eles.
Ocorre então que muito jogador sai do Brasil direto para algum clube de segunda linha na Europa sem nunca ter passado por uma experiência pelos nossos campos e se tornam totalmente desconhecidos do torcedor comum. Basta um brilhareco qualquer e lá está o jovem convocado para a seleção com a qual ele tem dificuldade em se identificar, onde será treinado por um técnico cujos conceitos entram muitas vezes em choque com o que ele está assimilando no país onde atua.
O leitor poderá questionar se este problema é localizado apenas no Brasil, e eu direi que não, pois o mercantilismo é um fenômeno que acontece em todo mundo. Mas a ganância financeira nos outros países, notadamente na Europa, é compensada por práticas mais honestas e por uma política voltada às categorias inferiores que permite um certo equilíbrio entre o custo da formação de um atleta e o seu benefício tanto técnico como financeiro.
Além do mais, no Brasil são cometidas as maiores loucuras com as finanças dos clubes porque o gerenciamento do futebol não possui uma regulamentação que responsabilize o presidente e os dirigentes dos clubes quanto a qualquer descalabro financeiro.
Assim, um clube pode estar endividado e à beira da insolvência, com atraso nos salários e imensos débitos trabalhistas, e mesmo assim continua contratando jogadores caríssimos e pagando salários incompatíveis com o seu balanço financeiro, o que apenas faz aumentar o tamanho do problema. E a dívida segue empurrada para o sucessor.
Com tudo isso, não existe clima para a formação de jogadores o os técnicos vão se sucedendo no comando unicamente preocupados com o presente, o que nos faz distanciar cada vez mais dos centros que trabalham com planejamento, eficiência e, diria eu, honestidade.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014






O FUTEBOL BRASILEIRO EM BAIXA – PARTE I

 (ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 11/08/2014)

Vou iniciar nesta segunda-feira uma série de três artigos a respeito deste assunto, fazendo algumas observações para explicar meu ponto de vista sobre o caos que o futebol brasileiro está vivendo, embora sem qualquer pretensão de apontar uma solução efetiva. As outras partes serão publicadas na sequência.
Espantados pelo mau resultado obtido na extinta Copa do Mundo, os setores esportivos da nação estão empenhados em achar respostas e soluções para o que se chama de “reconstrução do futebol brasileiro”.
É claro que existe algum exagero nesta visão apocalíptica, porém este exagero tem o seu lado positivo, porque o inconformismo e a vontade de rever os atuais conceitos poderão ajudar a consertar as coisas que estão erradas.
Parece que todos os envolvidos com o esporte estão mais ou menos preocupados com a situação, inclusive a Rede Globo – por razões óbvias – menos a CBF, para quem tudo parece estar caminhando às mil maravilhas.
Mas é de fato um exagero atribuir todas as mazelas administrativas, o caos financeiro e a produção bissexta de craques à altura de representarem “o melhor futebol do mundo” simplesmente à derrocada na Copa.
O Brasil não perdeu a Copa por causa destes ingredientes, pois vem sendo derrotado há tempos dentro e fora do campo, não apenas na qualidade do seu futebol mas também no que podemos chamar de “fatos sociais”, muito devido às pessoas colocadas em lugares estratégicos que agem apenas em benefício próprio, sem se preocupar com a coletividade – e o escândalo do superfaturamento dos estádios que por si já têm a sua utilidade questionada é uma prova recente do que estamos dizendo, pelo menos no campo esportivo.
Na verdade, a Copa terminou sem nenhuma surpresa, pois quatro das cinco seleções que eram consideradas favoritas chegaram às semifinais, e o Brasil não deve ser demonizado por ter ficado em quarto lugar.
A falta de ética no comportamento do brasileiro é quase endêmica e tem raízes em uma série de fatores que, devidamente analisados e ponderados só poderão ser resolvidos a longo prazo, desde que as mangas sejam arregaçadas agora, as feridas sejam expostas e não falte a chamada vontade política.
Vamos começar pela qualidade atual dos nossos jogadores.
Os comentaristas mais antigos são unânimes em afirmar que o futebol disputado hoje perdeu o romantismo, e que os craques do passado dariam lições de futebol a qualquer Neymar de hoje em dia.
Isto é uma meia-verdade, pois no passado também havia os cabeças de bagre. A essência do futebol mudou, e atualmente a competitividade e a força física também fazem parte do jogo. É impossível comparar a forma de jogar de Zizinho, Didi e Falcão (para usarmos como exemplo craques de épocas distintas) com os maestros de hoje em dia, até porque o tipo de futebol praticado hoje no Brasil praticamente eliminou a função de “maestro”.
Um dos motivos que contribuem para a pobreza do jogo atual é que os jogadores, na sua maioria, estão sendo formados em escolinhas – onde se privilegia a disciplina tática em desfavor do desenvolvimento lúdico – ou são originários das quadras de futsal, pois está cada dia mais difícil para um jovem bater bola na praia ou nos campos de várzea.
Com certeza a safra atual não é das melhores, e a prova disso é que os clubes estrangeiros com poder de compra estão importando cada vez menos jogadores brasileiros se compararmos com o que acontecia há dez anos.
É necessário que se faça uma reformulação completa na política de desenvolvimento do futebol de base, começando por mesclar disciplina com lazer e exigir que o jovem atleta seja exposto à educação como um todo para que ele possa ter a oportunidade de buscar outros caminhos na vida caso não seja bem sucedido em alguma peneira selecionadora.
Quando se trata a matéria prima com cuidado, a tendência é que tenhamos um produto final de melhor qualidade. E esta qualidade com certeza vai contribuir para equipes mais bem sucedidas nas gerações futuras.
No próximo artigo analisaremos outras variáveis para que o futebol volte a ser “a alegria do povo”. 

 

 

 

 

quinta-feira, 7 de agosto de 2014






PLIM-PLIM – OS DONOS DO FUTEBOL
 
(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 07/08/2014)
 
Se é que havia alguma dúvida sobre quem tem os direitos de administrar o futebol dos clubes brasileiros, a cortina finalmente se abriu e mostrou o que todo mundo já sabia.
A Rede Globo, através da Globo Esportes, na pessoa do seu diretor Marcelo Campos Pinto, convocou os 20 clubes da Série A para uma série de reuniões na sua sede em São Paulo a partir desta quinta-feira, 7 de agosto, para “estreitarmos nosso diálogo com vistas à melhoria do futebol e, em especial, da capacidade de investimento dos clubes na formação dos jogadores”.
A Globo será representada por Roberto Marinho Neto, Renato Ribeiro, Anco Marco Saraiva, Pedro Garcia e Eduardo Gabba, e a CBF também mandará um representante, ainda não definido.
Supostamente, pelo que diz o próprio estatuto da CBF, caberia a ela esta convocação, e não é de conhecimento público que esta tarefa possa ser terceirizada.
Os dirigentes dos clubes ficaram surpresos e com certeza preocupados porque terão que lidar diretamente com o dono do dinheiro e isto pode acabar com certos desmandos, quem sabe os obrigando a uma prestação de contas e a alguma responsabilização civil sobre a verba que a Globo lhes destina. Até porque também estão na pauta de discussões o “processo de gestão dos clubes e das entidades da organização do desporto, a equação financeira e as oportunidades de novas receitas nos estádios”, isto é, a Globo vai entrar de sola no processo de administração do futebol, o que a CBF nunca fez nem pretende fazer, e o Ministério do Esporte não pode fazer porque a CBF não é uma instituição governamental.
Em outros países, a Federação geralmente cuida apenas dos assuntos da seleção, em todas as suas categorias, e existe uma Liga composta pelos clubes que administra as competições dos clubes.
No Brasil, o Clube dos 13 foi criado exatamente para isso, quando em 2000 a CBF desistiu de fazer o campeonato por causa de problemas com a Justiça Esportiva e fez com que ele se transformasse na cinzenta Taça João Havelange, que depois foi reconhecida como válida para efeitos de estatística do Campeonato Brasileiro.        
Mas o Clube dos 13 nunca passou de uma entidade amorfa que jamais se preocupou em administrar o futebol dentro das suas necessidades, preferindo se dedicar apenas à negociação da gorda verba de patrocínio oferecida pela Rede Globo, que a partir daí começou de fato a gerenciar a situação.
Esta convocação visando analisar com profundidade o que está acontecendo com o futebol brasileiro não representa de fato nenhuma novidade, e deve ser vista sob dois pontos de vista críticos diferentes.
Existe um lado assumidamente negativo, pois dá à raposa o direito de vigiar o galinheiro. Se a Rede Globo já pinta e borda à vontade, fazendo com que o futebol brasileiro seja apenas mais um departamento da sua instituição, pois define os horários dos jogos e possivelmente a própria tabela de acordo com seus interesses comerciais, a tendência é que isto se institucionalize. Os clubes que proporcionam maior audiência já são bastante beneficiados pela distribuição desigual da verba de direitos de televisão (que só na Série A será da ordem de um bilhão de reais em 2015), e a tendência é que esta desigualdade aumente dependendo dos rumos e dos humores da emissora.
O lado positivo da história é que alguém está finalmente preocupado em consertar as coisas em termos de organização antes que a CBF e os dirigentes dos clubes, com a sua proverbial incompetência e falta de visão, acabem de vez com o que ainda resta.

terça-feira, 5 de agosto de 2014




                                                              OS GRINGOS
(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 04/08/2014) 
Muito ainda se discute a respeito da contratação de um técnico estrangeiro para modernizar a estrutura tática do futebol brasileiro.
Boa parte da imprensa é a favor, por entender que os treinadores brasileiros estão acomodados, não reciclam os seus conhecimentos nem procuram entender as novidades que estão acontecendo no mundo, especialmente na Europa. O torcedor, no entanto, ainda está um pouco reticente, como se considerasse uma certa falta de patriotismo entregar nossa riqueza futebolística nas mãos de um aventureiro.
Os dirigentes, por seu turno, não querem nem tocar no assunto, e os técnicos desconversam, mas evidentemente temem por uma perda de mercado, que já está um tanto incerto mesmo na competição doméstica pelo cargo.
O Palmeiras resolveu apostar pra ver, e mesmo diante da disponibilidade de diversos profissionais patrícios, alguns mais, alguns menos gabaritados, trouxe o argentino Ricardo Gareca, que tem no seu currículo alguns títulos não muito expressivos dirigindo os clubes Talleres e Vélez Sarsfield, da Argentina e o Universitário, do Peru.
É bem verdade que os treinadores brasileiros, mesmo com a fama e o poderio do futebol pentacampeão também não acrescentaram muito quando foram contratados para trabalhar no exterior. Os mais emblemáticos, Felipão e Luxemburgo, não deram certo em dois dos mais importantes clubes do mundo – Chelsea e Real Madrid – e outros treinadores como Zico, Joel e Parreira não chegaram a efetivamente brilhar nas suas experiências internacionais.
Felipão chegou a dar um certo impulso no futebol português, mas ficou no meio do caminho, até por conta das limitações dos jogadores da terrinha.
Muitos dos nossos jogadores, no entanto, já encantaram o mundo – e a lista é grande, de Julinho a Evaristo, de Falcão a Careca, de Romário a Ronaldo, de Rivaldo a Ronaldinho Gaúcho. Estranhamente, o sucesso dos futebolistas brasileiros sempre se deu na Europa, nunca no continente sul-americano, talvez por questões financeiras, mas também porque na América o seu futebol não seria tão resplandecente, dado o estilo de jogo praticado pelos latinos do lado de baixo do equador.
Mas ao mesmo tempo em que vivemos uma entressafra de exportação, nossos clubes começaram a importar com mais frequência.
Os 12 principais clubes do Brasil (4 de São Paulo, 4 do Rio de Janeiro, 2 de Minas e 2 do Rio Grande do Sul) contam no momento em suas equipes com 36 jogadores estrangeiros, o que dá uma média de 3 jogadores por equipe.
O Palmeiras é o recordista de importações, 6 no total, algumas delas pedidas pelo técnico Gareca, que se sente mais à vontade podendo contar com atletas que ele conhece.
São Paulo e Atlético Mineiro são os que têm menos jogadores estrangeiros na equipe, apenas um cada.
São no total 17 argentinos, 7 paraguaios, 5 uruguaios, 2 colombianos, 2 chilenos, 1 peruano e 1 boliviano, além de Eduardo da Silva, que nasceu no Brasil mas tem nacionalidade croata.
Muitos deles são jogadores de qualidade e titulares indiscutíveis nos clubes brasileiros que defendem.
Os destaques vão para Darío Conca (Fluminense) e Andrés D’Alessandro (Internacional), verdadeiros maestros na organização das suas equipes, e para Paolo Guerrero (Corinthians), Hernán Barcos (Grêmio) e Marcelo Moreno (Cruzeiro) artilheiros que têm feito a diferença nos seus clubes.
É interessante notar que existe uma carência de bons jogadores brasileiros tanto nas funções de meio-campo e assistências aos companheiros (caso de Conca e D’Alessandro) como na definição das jogadas como goleador (casos de Guerrero, Barcos e Moreno), aqui no Brasil e também no exterior.

quinta-feira, 31 de julho de 2014






                                                              ELE VOLTOU!

 (ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 31/07/2014)

O professor está de volta, e teve um Maracanã lotado para recepcioná-lo, bem do jeito que ele gosta. Mais de 40 mil torcedores estavam tão animados que nem pareciam preocupados em saber que o time ocupava naquele momento a última posição no Campeonato Brasileiro deste ano.
É claro que os ingressos estavam mais baratos, mas nem isto serve pra diminuir a importância da presença de Vanderlei Luxemburgo.
Justiça seja feita, o folclore do futebol não seria o mesmo sem a sua presença, com os seus aforismos, as suas lógicas ilógicas e a sua postura de imperador romano.
O professor deixou de lado o terno da Armani que costumava vestir para mostrar um visual à europeia e adotou o mesmo uniforme usado pelo resto da comissão técnica, um indício positivo de que sua mania de grandeza pode ter arrefecido. 
Rubro-negro declarado, seu maior desejo como treinador é fazer do seu Flamengo um grande campeão e depois se aposentar cheio de louros.
Uma das vantagens do professor é não inventar muito. Com ele, os jogadores normalmente atuam em posições definidas, existem os titulares e os reservas naturais e qualquer novo esquema tático revolucionário passa longe da sua prancheta.
Uma das desvantagens, no entanto, é a sua autoestima exacerbada. Além de ser o líder, ele tem a necessidade de ser a figura mais importante do grupo, e apenas em raríssimas ocasiões conseguiu comandar um elenco de estrelas sem entrar em atrito com Deus e o mundo, como em 1993, quando liderou o Palmeiras de Edmundo, Evair, Antonio Carlos e Edilson e se saiu muito bem.
Também tem a seu desfavor o fato de não ter se reciclado nos últimos anos, por achar talvez que não tem mais nada para aprender, erro comum aos treinadores brasileiros, que teimam em virar a cara para os novos conceitos.
Esta é a quarta vez que Vanderlei Luxemburgo dirige o Flamengo, onde nunca conseguiu fazer muito sucesso.
Em 1991, ele comandou o time em 52 oportunidades, lançou diversos jogadores importantes – Marcelinho, Djalminha, Paulo Nunes, Zinho – mas não ganhou nenhum título. Em 1995 foram apenas 48 jogos, mesmo comandando “o ataque dos sonhos” – Romário, Edmundo e Sávio. A guerra de egos com Romário, a briga com alguns dirigentes e a perda da Taça Guanabara foram responsáveis pela sua saída, a pedido da torcida. Em 2010 Luxemburgo foi contratado para salvar o clube do rebaixamento, como agora, e chegou a ganhar o título carioca de 2011. Depois de um ano à frente do elenco e 98 jogos disputados, acabou caindo devido a sérias divergências com alguns diretores e de problemas criados com Ronaldinho Gaúcho, a estrela do time, tudo somado ao desgaste da então presidente Patrícia Amorim.
Nesta sua nova investida Luxemburgo vai tentar reinventar o futebol brasileiro que está atualmente com a sua autoestima em baixa. Mais do que isso, vai tentar fazer o Flamengo voltar a ser um time respeitado, como há muito tempo não o é. E, mais ainda, vai tentar fazer o seu nome ser mais uma vez levado em conta quando se fala em técnico de ponta.
Em primeira instância, sua chegada fez bem tanto para ele, que andava arredio depois de um pífio aproveitamento de 38% no Fluminense em 2013, como para o clube, que há oito jogos não sabia o que era fazer três pontos – uma das razões pela sua incômoda posição na tabela.
Resta saber se esta parceria vai continuar dando certo.
Pelo que se observou, a equipe evoluiu e criou um novo ânimo, mas ainda está longe de apresentar um futebol de qualidade. Num jogo às vezes medíocre e jamais brilhante, o gol isolado de Alecsandro foi a única coisa de qualidade que realmente aconteceu.

segunda-feira, 28 de julho de 2014






FAIR PLAY

 (ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 28/07/2014)

Existe um assunto mal resolvido no futebol. Tão mal resolvido que a própria International Football Association Board – que é quem define as regras a as orientações para a aplicação dos senhores árbitros – se omite e escapa pela tangente.
Para este assunto, de uma forma geral, não existem regras claras nem interpretativas por parte da arbitragem, cabendo aos jogadores no calor da disputa decidir o que pode e deve fazer com base nas suas próprias observações, na sua formação ética e na necessidade de vencer.
Estamos falando do “fair play”.
Fair play, traduzido por “jogo limpo”, é uma atitude que pode ser tomada em qualquer situação, não apenas no futebol, e tem o significado oposto do da “Lei de Gérson”, onde se preconiza que o cidadão – brasileiro, de preferência – deva levar vantagem em tudo.
Mas é sobre o fair play – jogo limpo – no futebol que estamos falando.
A ocorrência mais comum do fair play é quando um jogador se machuca em um lance não faltoso, isto é, o árbitro manda a partida prosseguir. Neste caso, por um acordo de cavalheiros, o jogador do time contrário ao atleta contundido joga a bola para fora  a fim de possibilitar o atendimento médico ao companheiro de profissão. Isto é mais do que jogo limpo, é conduta humanitária.
Afinal, e se o jogador estiver necessitando de cuidados urgentes e inadiáveis? E se o problema for tão grave que o prosseguimento da partida possa resultar em uma tragédia?
Vez por outra, o árbitro toma a frente do problema e paralisa a partida para o atendimento, e na maioria das vezes – graças a Deus! – o jogador deixa de se contorcer e se levanta lépido e fagueiro, enquanto o seu time retoma a posse da bola para decidir se a mantém ou devolve para o adversário.
Muitas vezes, porém, o jogador que cai simula contusão apenas para paralisar o jogo ou retomar a posse da bola, e isto definitivamente não é jogo limpo.
Ocorre que boleiro é boleiro, esperto e matreiro, e conhece toda a malandragem do adversário, até porque também a pratica. E às vezes se nega a colocar a bola para fora porque sabe que o gesto da vítima é pura teatralidade.
Aí então, como se diz na gíria futebolística, o pau come! Os adversários investem contra ele com ganas de esganá-lo e cabe então ao mediador tomar as devidas providências para acalmar a turba, com um simples chega pra lá ou a distribuição de cartões para os mais exaltados.
Quanto mais malandro for o futebolista – e os sul-americanos são mestres nisso – mais frequente será a encenação. Quanto mais o jogador se contorcer no gramado maior será a certeza de que tudo não passa de embromação.
Este tipo de atitude é mais raro no futebol europeu e muito mais raro no futebol asiático, por respeito ao público, ao adversário e a si próprio.
Os árbitros, tão senhores de si quando marcam com convicção faltas e pênaltis existentes ou não, e ainda com maior convicção distribuem ou não distribuem cartões, dependendo de um critério absolutamente pessoal, ficam intimidados diante de uma situação como essa que estamos discutindo.
E o fair play acaba se limitando a isso, como se não existisse sujeira ética ou malandragem em outras situações de jogo, onde a firmeza do árbitro seria fundamental.
Demora na reposição de bola e na substituição de jogadores quando o resultado interessa ao time que as pratica também é absoluta falta de fair play, por exemplo.
Mas é muito comum isso acontecer e geralmente fica tudo por isso mesmo, sem que o árbitro tome qualquer medida punitiva.