sexta-feira, 18 de setembro de 2015







OLHO NO LANCE! 

Os torcedores do século passado que assistiam futebol pela TV devem se lembrar de um dos bordões televisivos criados pelo locutor esportivo Silvio Luiz para animar a narração sempre que havia alguma jogada com perigo iminente de gol.
“Olho no lance!!! – gritava ele.
O título deste artigo não se deve, porém, a uma homenagem ao velho narrador – que aos 81 anos ainda se encontra na ativa – nem faz uma simples visita ao passado. Ele se deve a uma esperança futura.
Pelo andar da carruagem – eis aqui outras pérolas do Silvio – está chegando a hora de soltar um grito na garganta e conferir no replay.
Finalmente alguém está se mexendo a fim de modernizar a arbitragem do futebol e utilizar a tecnologia para corrigir as tão frequentes distorções do homem do apito, mesmo que por enquanto fique apenas nos torneios e campeonatos principais.
E a frase “Olho no lance!” tem um significado duplo porque, caso a proposta seja aprovada, o futebol passará a contar com um olho muito especial e imparcial, posto que eletrônico, para analisar os lances polêmicos do jogo.
É uma conquista dos torcedores, dos jornalistas, das redes sociais e das pessoas de bom senso, que estão fiscalizando com mais atenção as atitudes dos poderosos.
Na sua edição de domingo último, o caderno SuperEsportes de O Imparcial trouxe a notícia em primeira mão para fazer companhia ao aperitivo que acompanha a leitura do jornal e antecede o almoço familiar.
A CBF acabou cedendo às reclamações dos clubes das Séries A e B, que a cada rodada se veem prejudicados por erros grosseiros de arbitragem, e está criando um projeto a ser aprovado pela Fifa para a adoção de recursos tecnológicos na arbitragem brasileira a partir de 2016, quiçá alcançando depois uma abrangência mundial.
O projeto está a cargo do ex-árbitro Manoel Serapião Filho, atualmente diretor da Escola de Arbitragem.
Antes de entrar nos detalhes do plano da CBF, vale a pena lembrar que não é de hoje que as coisas da arbitragem são vistas com muita preocupação, e que no Brasil já aconteceram muitos casos nebulosos que chegaram a decidir campeonatos sem que houvesse uma condição de direito de que o erro fosse consertado.
Em pelo menos duas vezes os fatos se transformaram em escândalo e foram levados aos tribunais – em 1982, com a Máfia da Loteria Esportiva e em 2005, com o affair Edilson Pereira de Carvalho. E deve ter muita coisa escondida debaixo do tapete.
É de se imaginar que num país onde se descobre que a corrupção corrói as entranhas de órgãos do governo, de empresas estatais e de grandes grupos empresariais, o esporte não esteja imune. Então, qualquer dispositivo que seja criado para acabar, ou pelo menos minimizar com os malfeitos de arbitragem será imensamente bem-vindo.
Afinal, como bem disse o poeta Guimarães Rosa, “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”.
Não é a primeira vez que alguém levanta esta bandeira. Desde a época de João Havelange, muitos clubes e jornalistas sugeriam para que recursos extracampo fossem utilizados para auxiliar a arbitragem e fazer resultados mais justos.
Naquele tempo a tecnologia era precária, mas mesmo assim teria sido possível evitar muita injustiça se uma comissão de notáveis pudesse ter criado um plano adequado para o momento.
Mas Havelange sempre foi contra a ideia por achar que “o futebol perderia a sua graça se não houvesse polêmica”, uma declaração própria de quem está no comando de muita bandalheira, como veio a ser provado recentemente.
A Fifa, com sua tradição secular, também sempre se mostrou contra, e o assunto tem sido página virada nas reuniões dos velhinhos da International Board, que sempre acabam com muitos tapinhas nas costas, charutos e chá com rosquinhas, mas poucos resultados de ordem prática. 
A sugestão de mudança propõe a criação de um árbitro adicional denominado Árbitro de Vídeo, que pode informar ao árbitro de campo eventuais incorreções não assinaladas ou assinaladas erroneamente após rever o lance algumas vezes pelo replay através de diferentes câmeras.
O Árbitro de Vídeo terá a atribuição de corrigir erros técnicos e disciplinares gritantes que possam alterar o resultado ou o desenvolvimento de uma partida.
Em tempo de televisão e de câmeras “Big Brother” espalhadas a torto e a direito, este sistema será um divisor de águas, servindo também como professor de arbitragem para os árbitros mal preparados ou mal intencionados.
É a tecnologia a serviço da transparência e da honestidade.   

 

 

 

 

(artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 18/09/2015)

 

 

sábado, 12 de setembro de 2015







AS REGRAS DO JOGO 

No último Fla-Flu, o rubro-negro abriu a contagem com um gol irregular. O zagueiro Wallace ajeitou com o braço um cruzamento e o resultado foi um chute à queima-roupa de Sheik dando início ao naufrágio tricolor. Final, 3x1 para o Flamengo.
Do jeito que o Fluminense jogou iria acabar perdendo de todo jeito, se livrou até de uma goleada histórica, mas isso não alivia a crítica por mais um erro grosseiro de arbitragem.
O Campeonato Brasileiro está contaminado, contando todos os erros que se sucedem há pelo menos sete rodadas.
E são erros que significam grandes lucros para alguns e grandes perdas para outros, num óbvio atentado contra a lisura do esporte.
Isto não significa, vejam bem, que o campeonato esteja sob suspeição, mas a contagem de pontos na tabela de classificação pode ser considerada ilegítima, pois numa disputa por pontos corridos, três pontos que forem conseguidos por vias tortas podem significar um distanciamento indevido de um time para outro, muitas vezes inviabilizando uma recuperação, jogando por terra todo o trabalho executado e colaborando decisivamente para a conquista do título por um determinado clube.
A estatística vai registrar o nome do campeão, mas não mencionará se a conquista possa ter sido fruto de arbitragens espúrias.
A Comissão de Arbitragem procura disfarçar a sua incompetência e afasta um árbitro aqui, um auxiliar ali, mas não chega ao cerne do problema.
Falta, na verdade, uma gestão séria no futebol brasileiro, e um dos motivos parece ser a subordinação da Comissão de Arbitragem à CBF.
Acobertado por uma direção prepotente e guiado por uma mão misteriosa, o árbitro de futebol acaba tendo o mesmo status de um ministro do Supremo, embora não passe de um cidadão comum.
O árbitro é corporativista e totalmente avesso às críticas e ao diálogo, toma decisões como se fosse o próprio Rei Salomão e não aceita a opinião contrária nem dos próprios auxiliares, que estão ali para ajudá-lo.
Erra e não admite que errou. Justifica a sua incompetência ou má fé acusando a tecnologia que aponta os seus malfeitos. E, na mesma medida em que se considera intocável, ele usa pesos e medidas diferentes e contraditórios para com técnicos e jogadores, punindo uns e não punindo outros a partir da sua simpatia pessoal.
A história da arbitragem no Brasil aponta fatos curiosos.
Em 2005 o Campeonato Brasileiro foi conspurcado com uma decisão absolutamente estapafúrdia do Tribunal de Justiça Desportiva, que mandou tornar sem efeito uma série de onze jogos realizados e ordenou que as partidas fossem jogadas novamente, o que obrigou os times a utilizar outros jogadores e atuar dentro de outras condições, o que causou uma reviravolta na tabela, num casuísmo sem precedentes na história do futebol.
Isto porque houve a denúncia de que um árbitro – Edilson Pereira de Carvalho – havia manipulado resultados.
Passados dez anos, o próprio Edilson admite que combinou resultados para favorecer a chamada Máfia das Apostas, mas em apenas três das onze partidas que foram anuladas e que, ironicamente, nenhum dos resultados combinados chegou a ocorrer.
Ele foi além e disse que “não era só ele que manipulava resultados”, mas teve que se calar porque não tinha provas para implicar outros apitadores.
Edilson era um dos árbitros Fifa indicados pela CBF. De acordo com ele, dos dez árbitros da elite na época, “três eram incompetentes e dois estavam lá por nomeação política”.  
Em entrevista concedida ao site Globo.com o ex-árbitro diz que suspeita que o problema foi utilizado para beneficiar algum clube e lança dúvidas sobre a arbitragem de Márcio Rezende de Freitas na partida em que Corinthians e Internacional empataram 1x1, com a não marcação de um pênalti do goleiro corintiano Fábio Costa sobre o colorado Tinga, que sofreu a penalidade e acabou penalizado com uma expulsão por uma suposta encenação. 
Arredio, Edilson não afirmou nada, mas deixou subentendidas várias coisas.     

 

(Artigo publicado no caderno SuperEsportes do jornal O Imparcial de 11/09/2015)

 

sábado, 5 de setembro de 2015





SÉRIE B EM DESTAQUE 

Não me recordo de na era dos pontos corridos o Campeonato Brasileiro da Série B fechar a segunda rodada do returno com tanto equilíbrio.
Pra se fazer uma ideia, a diferença que separa o líder – Botafogo-RJ – e o quinto colocado – Paysandu-PA – é de apenas dois pontos. E é de quatro pontos a diferença entre o primeiro e o sétimo colocado, no momento o Náutico-PE.
No meio do sanduiche, isto é, entre o segundo e o quarto lugar estão Vitória-BA, Sampaio Corrêa-MA e Paysandu-PA, pela ordem. Todos, portanto, com reais condições de assumir a liderança na próxima rodada ou de dormir na oitava posição.
Na prática, todos têm evidentes possibilidades de conquistar o título, e sonoras possibilidades de terminar o turno na zona de classificação para a Série A de 2016.
É claro que uma situação como essa só acontece porque os times têm mostrado muita irregularidade nas suas campanhas.
Os quatro primeiros colocados têm um percentual de aproveitamento de 61,9 a 58,7% (o nosso Sampaio tem 60,3% de sucesso).
Grosso modo, isto significa seis resultados positivos em dez jogos realizados, mas como a estatística não tem alma, ficam no mesmo pacote as vitórias fora de casa, as derrotas em casa, os empates improváveis e os empates heroicos.
Uma coisa é certa: qualquer destes cinco primeiros colocados que enfileirar uma sequência cinco ou seis vitórias e conseguir ganhar uns quinze a dezoito pontos de enfiada nas próximas partidas começará a sentir o gostinho definitivo de habitar a zona de acesso à Série A e até sonhar com o título, principalmente se os adversários começarem a vacilar, como todos têm feito até o momento.
O Sampaio Corrêa terá uma verdadeira prova de fogo nestas próximas seis partidas, e precisará acumular o maior número possível de pontos se quiser manter suas pretensões para pelo menos terminar o returno entre os quatro líderes.
Com exceção do Ceará-CE, que está no momento ocupando a penúltima posição, a quem o Sampaio enfrenta em casa daqui a duas rodadas, o que vem por aí é um convite à superação.
A começar pelo próximo adversário, Náutico-PE (7º colocado), em Recife. Também fora de casa o Sampaio enfrentará o Criciúma-SC (9º) e o Bahia-BA (4º), recebendo, além do já mencionado Ceará, também o América-MG (6º) e o Santa Cruz-PE (8º).
No sétimo jogo, o Tubarão receberá o Botafogo-RJ (1º colocado no momento), isto é enfrentará praticamente todos os seus adversários diretos numa sequência direta.
Pra quem curte um desafio, o Sampaio Corrêa terá que se desdobrar e dar provas de muita garra e maturidade num espaço de trinta dias contando com o desgaste físico e emocional, viagens a Recife, Salvador e Criciúma, e eventuais perdas de jogadores por contusão e suspensão.
Isto se o inoportuno (embora sempre oportuno) questionamento sobre o silêncio mantido pelo presidente Sérgio Frota pela venda do Centro de Treinamento José Carlos Macieira feita em 2009 por Antônio Cícero Oliveira Martins para e empresa Hispamix não venha causar um racha de proporções imprevisíveis no comando tricolor, levando a encrenca para dentro de campo e mexendo com a cabeça dos jogadores.
Afinal, os atletas, que de tempos em tempos enfrentam problemas com atraso de salário, também gostariam de saber, assim como os torcedores e os jornalistas de O Imparcial, onde foram parar os R$ 6,75 milhões da venda do terreno, que aparentemente ainda não foi legalizada por problemas de documentação.
Dentro e fora do campo, o Sampaio Corrêa vai enfrentar uma verdadeira batalha e precisará de determinação, cabeça no lugar e muito futebol no pé para sair dela ileso.

      

   

 

 

 

(artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 04/09/2015)

 

 

sexta-feira, 28 de agosto de 2015






EURICO E A SIBÉRIA 

Há cerca de quinze dias o Vasco da Gama – e por extensão todo o futebol brasileiro – foi brindado por uma declaração emitida pela boca do seu próprio presidente Eurico Ângelo Marcio de Oliveira Miranda: se o clube cair para a Série B do Campeonato Brasileiro ele “vai procurar o ponto mais distante da Sibéria e se mudar para lá”.
E proibiu a palavra “rebaixamento” em São Januário.
Esta declaração pode ser alvissareira ou não, dependendo do ponto de vista.
Há quem defenda Eurico e os seus métodos pouco ortodoxos de gerenciar as coisas do Vasco, justificando seus arroubos por conta da paixão sem limites que tem pelo clube. Para estas pessoas, se cada clube tivesse o seu Eurico as coisas estariam melhor no futebol brasileiro.
Há porém quem o acuse de ser um caudilho prepotente e truculento que se beneficia do clube e trata a imprensa, os opositores e o mundo com um tacape na mão, não proporcionando qualquer benefício ao esporte, quer como lazer quer como negócio.
Na prática, a situação de momento não lhe é favorável.
Com vinte rodadas já disputadas e faltando dezoito jogos por clube para o final do certame, parece que o presidente – que ressurgiu das cinzas trazendo com ele de volta “o respeito ao futebol carioca” – pode começar a procurar uma agência de viagens e algum corretor de imóveis em Irkutsk.
O Vasco está em último lugar na tabela, a seis pontos do penúltimo colocado e a nove pontos de sair da zona de rebaixamento, uma posição extremamente delicada para o momento atual.
Em edições anteriores, clubes que estavam nesta zona de pontuação não conseguiram se salvar da vassourada final, mas ainda que respirando por aparelho os jogadores do Eurico vão lutar para reverter a situação a fim de manter o presidente residindo na Cidade Maravilhosa, banhada pelo sol e pelo mar e adornada por um céu azul de bossa nova. Apesar de às vezes se assemelhar a um urso, com certeza o presidente não iria se dar bem com o clima siberiano.
Os matemáticos do esporte estimam que para sair desta posição incômoda, com apenas 13 pontos conseguidos em 60 disputados, o clube tem que obrigatoriamente vencer dez dos dezoito jogos restantes e torcer para que os seus companheiros da parte de baixo da tabela não façam a parte deles.
Ainda de acordo com os matemáticos, a chance do Clube da Colina despencar ladeira abaixo e se esborrachar na segunda divisão é no momento de 95%.
Consultei os matemáticos, os bruxos e o oráculo, e embora não tenha conseguido obter qualquer conclusão definitiva, parece que nas treze vezes que o campeonato foi disputado pelo sistema de pontos corridos, desde 2003, nunca um clube conseguiu se salvar tendo chegado a tal situação.
A mudança de técnico e a heroica eliminação do Flamengo na Copa do Brasil podem ser uma indicação que o time vai encontrar o seu rumo, mas a pálida apresentação contra o Goiás na rodada passada continua deixando a torcida com as barbas de molho. A nau do Almirante está fazendo água e soçobrando perigosamente desde que aportou num porto seguro com a conquista do Campeonato Carioca, e é bom que se diga, com o presidente Eurico no comando.
Não há como negar o sucesso e os bons resultados da agremiação quando foi dirigida por Eurico Miranda. Com ele, desde 1986, o Vasco soma 48 títulos nos 22 anos em que esteve sob a sua mão forte.
Como presidente eleito do clube foram na verdade apenas 6 – Taça Rio em 2001, 2003 e 2004, Taça Guanabara em 2003 e Campeonato Carioca em 2003 e 2015 – mas foram 42 conquistas como Vice Presidente e Diretor de Futebol, cargos na verdade de fachada, pois era ele quem de fato comandava e decidia, apesar da existência de um presidente de direito.
Assim, sob a direção de Eurico, o Vasco conquistou outras 7 Taças Guanabara, outros 7 Campeonatos Cariocas e outras 5 Copas Rio, além de 3 títulos pelo Campeonato Brasileiro e um pela Libertadores, o que, convenhamos, não é pouco.
Anjo ou demônio, Eurico já está em contagem regressiva para ou proporcionar uma redenção histórica para o clube cruzmaltino ou pagar um mico do tamanho as Sibéria por ter sido tão boquirroto.     

     

 

(Artigo publicado no caderno SuperEsportes do jornal O Imparcial de 28/08/2015)

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015





OS FABRICANTES DE RESULTADOS 

Há muito tempo eu não abordava em meu artigo um tema tão eterno quanto prosaico – “Incompetência ou má fé”: “A influência de uma má arbitragem no resultado dos jogos de futebol e na consequente conquista de títulos”, caput e subtítulo apropriados para uma defesa de tese de doutorado sobre o assunto “Esporte – Decência, Honestidade e Moralidade”.
A ocasião, no entanto, se tornou propícia neste momento, tal o montante de erros observados nas três últimas rodadas do Campeonato Brasileiro em vigência, beneficiando flagrantemente uns e prejudicando outros, deliberadamente ou não, mas provocando uma sensível mudança nas primeiras posições, a ponto de distanciar clubes que estavam lutando pari passu para uma diferença de quatro pontos ou mais.
A reclamação é geral, mas um ou outro time se cala, aplaude os pontos conseguidos de forma não muito honesta e os seus torcedores se divertem com a “choradeira” dos demais.
Infelizmente, este é o Brasil que reclama dos políticos e dos empresários corruptos.
Vou omitir o nome dos santos e dos milagres, na certeza de que aqueles que têm pecados a confessar sabem que é a eles que me refiro, e de que sentirão algum dia o peso da consciência. Quanto aos que foram injustiçados pelo mau desempenho da arbitragem – inclua-se aí o árbitro principal e os árbitros assistentes (tempos atrás chamados de juiz e bandeirinhas) – meus respeitos pela indignação que sentem por terem sido lesados.
Pode até ser compreensível que um cidadão que corre quase quinze quilômetros por todo o campo enquanto a bola vai e vem com velocidade e enquanto jogadores cheios de malandragem fazem de tudo para ludibriá-lo cometa um equívoco aqui e ali. Mas é intolerante quando este equívoco se repete com uma constância irritante, muitas vezes beneficiando o mesmo lado, e parte de um cidadão que deveria ter sido treinado apenas para ser o mediador de uma partida de futebol, sem a necessidade de ser arrogante, injusto e prepotente.
Os árbitros tomam decisões discutíveis mesmo estando a trinta metros do lance, muitas vezes contestando a opinião do assistente ou do quarto árbitro (havia me esquecido dele) que têm a visão mais privilegiada do que a dele. Ou fecham os olhos para irregularidades grosseiras usando sem qualquer critério pesos e medidas diferentes.
Truculento, o homem de preto (que agora enverga o vermelho, o azul ou o amarelo, mudando a cor da camisa, mas não mudando a atitude) condena ao cartão vermelho tanto as jogadas mais violentas ou as reclamações mal educadas quanto uma simples disputa de bola ou um pedido de explicação, dependendo do jogador e do time em questão.
Vozes benevolentes surgem a seu favor, com a velha ladainha de que “errar é humano”.
Sem dúvida, errar é humano, mas há erros toleráveis e erros intoleráveis.
Atendo-nos ao futebol, o goleiro pode tomar um frango, o cobrador pode perder um pênalti, o articulador pode errar um passe a dois metros do companheiro. Mas se o goleiro tomar dez frangos, o cobrador perder dez pênaltis e o articulador errar dez passes em uma pequena sequência de jogos ele é sacado do time e vai para o banco de reservas.
O árbitro, porém, pode errar à vontade, e quanto mais erra mais parece ser respeitado pela Comissão de Arbitragem. Seu prêmio maior é ser rotulado “árbitro Fifa”, como se a sigla Fifa pudesse representar qualquer coisa de respeitável nos dias corruptos que vivemos.
Uma arbitragem suspeita pode inverter resultados, criar campeões, punir inocentes, invalidar o conceito de justiça no esporte e provocar enorme prejuízo financeiro para clubes que investem pesado e podem se ver alijados do prêmio maior de uma conquista, tanto esportiva quanto financeiramente falando.
Há que se punir os árbitros adequadamente com afastamento temporário, rebaixamento para apitar jogos de categorias inferiores e desconto pecuniário, para que Suas Senhorias prestem mais atenção no que fazem, tenham a humildade de reconhecer seus erros e exerçam o seu trabalho com mais responsabilidade.

Nota: Este artigo foi escrito em homenagem aos árbitros Dewson Fernando Freitas (PA), Luiz Flávio de Oliveira (SP) e Leandro Pedro Vuaden (RS) e seus respectivos auxiliares, que com suas atuações de segunda categoria conseguiram acender toda esta polêmica.

   
 

(artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 21/08/2015)

 

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2015





BOAS E MÁS LEMBRANÇAS 

O Estádio Governador Magalhães Pinto, mais conhecido como Mineirão, vai completar cinquenta anos de existência no próximo mês. A sua inauguração aconteceu no dia 5 de setembro de 1965 e foi marcada por um fato curioso.
Ao invés das autoridades políticas e esportivas programarem um evento que reunisse equipes locais ou mesmo uma seleção mineira competindo com algum adversário, eles optaram por uma partida entre a seleção brasileira e a seleção do Uruguai.
Os uruguaios continuavam atravessados na nossa garganta desde a vitória quinze anos antes no Rio de Janeiro – aquele fatídico 2x1 que nos custou a perda da Copa do Mundo – e os mineiros sonhavam com uma magnífica vingança que pudesse acalmar as dores de 1950, além de augurar para o estádio um futuro promissor de grandes jornadas.
Mas aí o fato curioso não ficou só na ausência do futebol mineiro na inauguração do seu megaestádio.
Como a decisão dos mineiros foi tomada meio em cima da hora, contrariando a sua tradição de agir de forma meticulosa e detalhista, a CBD (antigo nome da CBF) teve dificuldades em formar uma seleção que pudesse minimamente representar o país sem o risco se dar um vexame inauguratório.
Afinal, o Uruguai continuava a ter um time bastante respeitável e havia terminado de forma invicta a sua participação nas eliminatórias para a Copa de 1966.
Os papões do futebol brasileiro no momento – o Santos de Zito, Pelé e Coutinho e o Botafogo de Gerson, Garrincha e Jairzinho – tinham outros planos e não poderiam ceder seus jogadores para formar uma seleção de respeito.
A solução então foi apelar para um único time, com titulares, reservas e comissão técnica para, entrosado, assumir a responsabilidade de encarar as complicações da partida.
O time escolhido para representar o Brasil foi o Palmeiras, único time que naquele dado momento rivalizava com os dois papões, tanto no âmbito doméstico, contra o Santos, como no âmbito nacional, contra o Botafogo.
O alvi-verde, comandado pelo argentino Filpo Nuñez – o único estrangeiro a dirigir uma seleção brasileira em toda a história – tinha uma plêiade de craques que se destacavam com um futebol altamente técnico e competitivo, entre eles Djalma Santos, Ademir da Guia e Julinho Botelho, além de outros que por diversas vezes vestiram a camisa da seleção em outras oportunidades, como Valdir de Moraes, Djalma Dias, Dudu, Zequinha, Germano e Servílio.  
A seleção brasileira, ou melhor, o Palmeiras, exibiu um futebol de alto nível e venceu a Celeste Olímpica por incontestáveis 3x0, gols de Rinaldo, Tupãzinho e Germano e deu um selo de qualidade às festividades da inauguração.
O troféu da partida ficou na sede da CBF por 23 anos, até que em 1988 ele foi entregue para o Palmeiras, numa justa homenagem pela vitória conseguida em nome do escrete.
Quase 50 anos depois, na rodada do último fim de semana o Palmeiras voltou a se apresentar no Mineirão, agora todo reformado dentro do padrão Fifa, para enfrentar o Cruzeiro, pelo Campeonato Brasileiro. Para lembrar a data festiva e ao mesmo tempo homenagear a seleção canarinho, a equipe trajou um uniforme especial, com a camisa no tom amarelo-canário e o calção azul.
Mas a cumplicidade do velho Mineirão com a seleção brasileira, construída de uma forma vitoriosa desde a sua inauguração, parece que foi interrompida com o surgimento do novo Mineirão, reformado para recepcionar a Copa do Mundo de 2014.
Bastou o Palmeiras entrar em campo vestindo o uniforme da seleção para que a síndrome dos 7x1 tomasse conta do espetáculo, e o que se viu foi outra derrota verde-amarela, talvez não tão acachapante, mas definitiva.
Assim, a homenagem palmeirense saiu pela culatra.

 

(Artigo publicado no caderno SuperEsportes do jornal O Imparcial de 14/08/2015)

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015







AS ÁGUAS DA GUANABARA 

Uma investigação conduzida pela agência de notícias Associated Press revelou que a Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos palcos paradisíacos que hospedarão alguns esportes aquáticos dos XXXI Jogos Olímpicos de 2016, possui um nível de contaminação 1.700.000 vezes acima do que seria considerado alarmante numa praia americana no sul da Califórnia.
Para que fique bem claro, vou repetir, desta vez citando o número por escrito: um milhão e setecentas mil vezes maior do que qualquer nível aceitável pelas leis americanas. Desconheço o que dizem as nossas leis ambientais.
John Griffith, um renomado biólogo marinho que trabalha em um instituto independente chamado Southern California Coastal Water Research Project (Projeto de Pesquisa da Água Costeira do Sul da Califórnia), examinou os protocolos, a metodologia e os resultados dos testes encomendados pela Associated Press e concluiu que boa parte da lagoa contém água de esgoto puro composta por detritos ejetados por banheiros e água servida, sem o menor sinal de tratamento. É um material de tal toxicidade que produz de tempos em tempos na lagoa uma enorme quantidade de peixes mortos que ficam boiando, em decomposição.
A contaminação da água pode ser vista em fotos aéreas que mostram uma larga mancha cinzenta cobrindo mais de 60% da sua superfície.   
Talvez as autoridades brasileiras deem os ombros para o problema e justifiquem que o brasileiro, habituado com as praias contaminadas das grandes cidades, tira de letra este índice de poluição.
A Associated Press não revelou se conduziu alguma medição na Baía de Guanabara, mas possivelmente o valor alarmante não seria muito diferente.
O que as autoridades brasileiras não levam em conta é que os nossos logradouros aquáticos não serão utilizados apenas pelo atleta brasileiro que possui esta eventual imunidade, mas pelos seus colegas estrangeiros e por milhares de turistas ávidos por curtirem as mais famosas praias do mundo durante o desenrolar dos Jogos.
A declaração das autoridades – leia-se os responsáveis pelo governo e pela prefeitura do Rio de Janeiro – propõe uma solução que seria hilariante se não fosse tão ridícula: a Lagoa Rodrigo de Freitas e a Baía de Guanabara estarão totalmente despoluídas em ... 2030!!!
Não podemos esquecer que o Brasil foi escolhido para sediar os Jogos em outubro de 2009, portanto teve seis anos para estudar, analisar e se adaptar ao caderno de encargos que, diferentemente da Fifa para a Copa do Mundo, exigiu apenas e tão somente o que era realmente necessário para a prática das atividades programadas.
Essas exigências diziam respeito a todos os esportes, e havia uma preocupação na época sobre as condições oferecidas para as competições aquáticas – natação, saltos ornamentais, polo aquático e nado sincronizado (feitos em piscina) e maratona aquática, iatismo, remo, vela e canoagem (feitas em espaço aberto – mar, lagoa ou rio), exatamente porque havia denuncias de que as condições de insalubridade das áreas abertas requeriam providências urgentes.
Passaram-se os anos, e tanto os governos estadual e municipal quanto o COB – Comitê Olímpico Brasileiro usaram e abusaram da retórica e se esqueceram de dar condições ao Parque Olímpico para receber mais de 200 delegações entre países e territórios.
As obras estão 80% concluídas no geral – com exceção do velódromo para as provas de ciclismo indoor, que alcança apenas 60% – mas obras deste tipo são fáceis de ser maquiadas, o que não acontece com um lugar contendo um exército de coliformes fecais, metais, hidrocarbonetos e compostos orgânicos insalubres que podem provocar nos atletas – e turistas – problemas como vômito, diarreia, hepatite e outras coisas que não podem ser maquiadas.
Falta exatamente um ano para a abertura dos Jogos, e o que preocupa na verdade é a despreocupação do governador, do prefeito, dos secretários da saúde e do senhor Nuzman, presidente do COB.
Afinal, é bom lembrar que Deus pode até ser brasileiro, mas parece que Ele anda meio afastado, pois estava de férias durante a Copa do Mundo e nada garante que esteja presente no litoral carioca durante as Olimpíadas, porque, convenhamos, até Ele tem que se proteger.  

 

 

(artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 07/08/2015)

sábado, 1 de agosto de 2015







A CAMPANHA BRASILEIRA NO PAN – PARTE 2 

 

Os atletas do Brasil corresponderam em boa parte às expectativas do COB – Comitê Olímpico Brasileiro e dos analistas esportivos, e fecharam os Jogos Pan-Americanos numa invejável terceira colocação, igualando o total de 141 medalhas conquistadas em 2011, nossa segunda melhor marca da história.
O terceiro lugar na competição é sem dúvida uma colocação excelente, pois ficamos atrás apenas dos Estados Unidos e do anfitrião Canadá, mas à frente de Cuba até com certa folga – foram 41 ouros contra 36 dos caribenhos – o que é bastante significativo se olharmos para o retrospecto.
Nosso terceiro lugar foi conseguido dentro de um universo de 41 países, 10 dos quais não beliscaram sequer uma medalha de bronze e ficaram no zero absoluto.
Em meio às glórias e à certeza do dever cumprido, cabem, no entanto algumas observações.
Muitas das 41 medalhas de ouro obtidas foram fruto de um esforço puramente individual dos atletas.
A grande maioria destes atletas vencedores tiveram que treinar e evoluir em outros países, bancando seus custos por conta própria ou por meio de patrocinadores particulares, isto é, o COB festeja uma vitória da qual não teve uma participação efetiva.
A natação nos brindou com 10 medalhas e um show do velocista Thiago Pereira, candidato certo a fazer bonito nas Olimpíadas. Outras 5 medalhas foram ganhas pelo judô e 3 pelo tiro. É provável que alguns destes medalhistas possam repetir o bom desempenho no próximo ano durante os Jogos do Rio-2016.
O ouro de Juliana dos Santos nos 5.000 feminino também merece destaque por ter sido o nosso único alto de pódio no atletismo, mas seu tempo de 15min45s97– o melhor da sua carreira – está muito abaixo do recorde olímpico (Gabriela Szabo, da Romênia – 14min40s79 em 2000) e do recorde mundial (Tirunesh Dibaba, da Etiópia – 14min11s97 em 2008).
No que diz respeito aos esportes coletivos, ganhamos ouro no basquetebol masculino, no handebol masculino e feminino e no futebol feminino. O futebol masculino segue a escalada de insucessos que nos persegue há algum tempo, e tivemos que nos satisfazer com um bronze sofrido, arrancado contra o Panamá nos estertores da prorrogação. O basquete feminino também regrediu se comparado com as três ultimas edições e perdeu o bronze para Cuba.
Não levamos para Toronto a nossa força máxima no vôlei, já que as equipes principais estavam envolvidas com a Liga Mundial e com o Grand Prix, mas mesmo assim chegamos às duas finais, perdendo o ouro para a Argentina no masculino e para os Estados Unidos no feminino.
Normalmente favoritos, decepcionamos no vôlei de praia, conseguindo no máximo a prata no feminino, derrotados que fomos para o México.
É relevante que se comente que a fim de dar ao Brasil um maior poder de competição o COB achou mais cômodo – e com certeza mais barato – naturalizar alguns atletas para as Olimpíadas do que investir em treinamento.
Na verdade, recuperar o tempo perdido em no mínimo uma década seria uma tarefa impossível, mas deveria ter sido feito pelo menos uma modernização nos aparelhos e nas pistas de atletismo e ciclismo, sucateados desde o Pan-2007.
Esta naturalização de atletas estrangeiros já começou, com o basquetebol reforçado pelo americano Larry Taylor, que desde 2008 defende as cores do Bauru no interior de São Paulo e com o polo aquático, que deve boa parte da prata conquistada a um espanhol, um croata, um sérvio e um cubano.
A esgrima deverá ter a naturalização de uma italiana, uma americana, uma francesa e uma espanhola, e a luta greco-romana contará com um armênio e um cazaque.
Não se conhecem detalhes das negociações, mas sabe-se que apenas o armênio Edouard Soghomonyan custará aos cofres do COB a quantia de 2,6 milhões de reais, e este pode ser o custo de cada naturalização.
Sabendo que nas Olimpíadas todos os países costumam mandar a maior força a que têm direito (e isso vale para o vôlei brasileiro), percebe-se desde já o tamanho da encrenca que os Jogos de 2016 representará para o Brasil.
 


(Artigo publicado no caderno SuperEsportes do jornal O Imparcial de 31/07/2015)

 

sábado, 25 de julho de 2015




Uma noite divertida
Aí você sai de casa no início da noite de uma sexta-feira nobre e arrisca aquele bar da moda junto a três ou quatro amigos, para acrescentar novas sensações à sua vida e adicionar mais uma noite de encantamento no seu currículo.
Você chega, estaciona, entra e se depara com uma casa cheia, gente bonita, um burburinho que atesta muita animação e perspectiva de uma esticada noturna cheia de emoções.
Somos acomodados em uma mesa grande que faz lembrar ambiente de fazenda, de madeira nua e sem adereços, e depois de transcorridos quinze minutos chega enfim o garçom trazendo os cardápios – um para os comes e outro para os bebes – e aí começa nossa angustia, pois ele retorna apenas outros quinze minutos depois para saber o que iremos consumir.
Quinze minutos é bastante tempo para lermos pelo menos duas vezes as ofertas da casa, então já optamos por três chopes, uma cerveja preta e um suco de abacaxi com xarope de pêssego.
Temos duas opções para o chope – caneca de 350 e de 500 mililitros – e optamos pela de 500 por ser mais prática, pois adia-se a demorada visita do garçom, e mais econômica (meu amigo faz os cálculos rápidos usando regra de três e coisa e tal, e conclui que ganhamos assim uns trocados por caneca).
Isto posto pedimos canecas de 500 mililitros e somos informados que eles só servem chope nas canecas de 350 mililitros, pois as de 500 mililitros são reservadas para os sucos.
Questionamos o fato de eles não servirem o chope em canecas de 500 mililitros apesar de constar do cardápio e somos candidamente informados que o cardápio será trocado, e ponto final.
Depois de alguns minutos de negociação, concordamos com as canecas de 350 mililitros e autorizamos a remessa, depois de termos consultado o cardápio dos comes e pedido uma porção de batata rústica – é o que estava escrito lá.
Mais um período de quinze minutos e volta o garçom, desta vez trazendo uma atendente mais graduada para explicar que o chope estava “quente” e que eles aconselhavam cerveja “long neck” que deveria estar gelada (mas que no fim das contas, nem estava tão gelada assim).
Tudo bem, concordamos com a “long neck” para então começarmos outra negociação dolorida – quantas cervejas eles deveriam colocar no balde? – intensa metafísica para quem está acostumado a servir os clientes da noite.
Depois de mais uma aresta aparada, eis que chegam enfim as cervejas, para que pudéssemos fazer um brinde mais de uma hora depois de sentarmos à mesa.
Quinze minutos depois perguntamos pela batata rústica e entendemos que o garçom ainda não havia feito o pedido porque “não sabia se nós iríamos comer as batatas depois de termos trocado o chope quente pela cerveja “long neck” não muito gelada”.
Confirmamos o pedido e eis que, quinze minutos mais tarde e depois de um outro balde com algumas garrafas e pouco gelo, chegam as gloriosas batatas rústicas, duas, para sermos exatos.
O prato consiste de duas batatas grandes cozidas, cada qual cortada longitudinalmente em seis partes, fritas em azeite de oliva e festejadas por um copinho de molho bechamel, e não dá nem para o começo para acompanhar a cerveja à guisa de tira-gosto.
Após confabularmos por alguns minutos sobre a conveniência de pedirmos outra porção de alguma coisa e vermos o tempo escoando pela ampulheta em direção ao dia seguinte, decidirmos por mais um balde de cervejas – agora decididamente quente – e pedimos a conta, que fatalmente chegará após as garrafas já estarem vazias, obedecendo o penoso ciclo de quinze minutos que parece preceder qualquer atendimento a que estejamos submetidos.  
A noite foi afinal divertida porque os amigos são divertidos, mas na próxima vez vamos tomar cerveja e comer tira-gostos em casa.
 





A CAMPANHA BRASILEIRA NO PAN 

O desempenho do Brasil nos XVII Jogos Pan-Americanos que estão sendo disputados em Toronto já supera as nossas expectativas, criando uma atmosfera positiva para o possa acontecer com os nossos atletas daqui a um ano nas Olimpíadas do Rio de Janeiro.
O quadro de medalhas dos Jogos se altera a cada hora, portanto o resultado definitivo somente será conhecido amanhã à noite. Quando, porém, esta matéria foi escrita, já havíamos alcançado a marca de 32 ouros, abaixo apenas dos Jogos disputados no Brasil em 2007 e no México em 2011, quando fechamos com a marca de 54 e 48 medalhas respectivamente. Entre ouro, prata e bronze, já conseguimos 114 medalhas, contra 161 de 2007 e 141 de 2011. Os números obtidos até aqui deverão subir, mas não chegarão a alcançar os dois recordes anteriores.
Os últimos dias de competição sempre reservam muitas emoções e vão proporcionar alguma possibilidade de melhorarmos o nosso índice porque estarão em disputa algumas competições nas quais tradicionalmente somos bastante competitivos no âmbito continental, como futebol, basquetebol, handebol, vôlei e canoagem.
Por outro lado, costumamos levar desvantagem em outras modalidades, como atletismo, beisebol e boxe, além de outros esportes pouco praticados por aqui como raquetebol, hóquei sobre grama e softbol.
Na prática poderemos apenas ser alcançados pela Colômbia e por Cuba, mas não alcançaremos os Estados Unidos, que estão liderando com folga, e o Canadá, que também leva grande vantagem e estatisticamente sempre se posiciona melhor do que o Brasil.
Nas quinze edições já disputadas, a melhor classificação alcançada pelo Brasil foi um segundo lugar em São Paulo-1963, seguida por quatro terceiros lugares – em Chicago-1959, Winnipeg-1967, Rio-2007 e Guadalajara-2011. Este terceiro lugar parece que vai se confirmando também em Toronto-2015.
Nossa participação mais fraca no Pan foi aquela disputada na Cidade do México-1955, onde ficamos em sétimo lugar e nos limitamos a 2 medalhas de ouro num total de 17 alcançadas, mas aquela foi a segunda edição dos Jogos e teve poucos participantes e pouca repercussão. Hoje, a três dias do final desta edição dos Jogos, os 114 pódios conquistados superam o nosso recorde histórico de medalhas, ficando apenas abaixo das marcas de 2007 e 2011.  
Esta marca nos glorifica dentro do limite das três Américas, mas parece não representar muito no contexto mundial, isto é, as dificuldades que iremos enfrentar nos Jogos Olímpicos serão gigantescas, mesmo tendo o Rio de Janeiro como sede, pois além dos americanos e canadenses teremos adversários do tamanho da China, Grã Bretanha, Rússia, Coréia do Sul, Alemanha, França, Itália, Austrália e Japão, somente para citar alguns que costumam ficar na nossa frente. Todos estes países nos suplantaram por ocasião dos Jogos de Londres-2012, última edição disputada, quando terminamos na modesta 22ª posição.
A quantidade total de 108 pódios alcançados pelo Brasil em 18 Olimpíadas realizadas, desde 1920 – a primeira da qual participou – é inferior à conseguida em cada um dos quatro últimos Pan-Americanos.
Nos últimos Jogos Olímpicos de Londres-2012 o Brasil conquistou apenas 3 medalhas de ouro (Sarah Menezes no judô, Arthur Zanetti na ginástica e a equipe do vôlei feminino), comprovando que a participação brasileira nas Olimpíadas tem sido opaca ao longo dos anos.
Até hoje, apenas 23 ouros olímpicos foram obtidos (com o recorde de 5 medalhas em Atenas-2004), e se compararmos com as marcas obtidas nos Jogos Pan-Americanos (401 ouros até hoje) podemos notar com um certo desânimo a diferença de nível entre as duas competições.
A falta de investimentos em novos atletas e em equipamentos e a ausência de uma política de troca de experiência com países que levam o esporte olímpico a sério será infelizmente sentida quando começarem as competições no Rio-2016.

 

(artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 24/07/2015)