sexta-feira, 9 de setembro de 2016





O INÍCIO DE UMA NOVA ERA

A era Tite na seleção brasileira começou auspiciosamente. Em dois jogos oficiais realizados a equipe mostrou mais em termos de organização e tranquilidade do que Dunga mostrou em dois anos.
Analisando as duas partidas que transportaram a seleção do sexto para o segundo lugar nas Eliminatórias da Copa 2018 em menos de uma semana, observamos um amadurecimento que finalmente nos faz acreditar em um futuro menos sombrio.
Bastaram duas partidas, seis pontos conquistados, dos quais três como visitantes, para que a lógica das forças do futebol no continente fosse restabelecida, colocando Uruguai, Brasil e Argentina, pela ordem, nas três primeiras posições, com apenas um ponto os separando.
Em ambos os jogos o Brasil mostrou as falhas naturais de quem inicia um trabalho e deve ter trazido algumas dúvidas ao treinador com respeito a um melhor aproveitamento de certos jogadores.
Individualmente eu ainda questiono as presenças de Paulinho, Taison e Giuliano na lista de convocados, mas ainda é cedo para qualquer afirmação. Afinal, Paulinho foi titular nos dois jogos, e se não brilhou também não comprometeu, e os outros dois entraram em campo com a partida já decidida, praticamente apenas para sentir o ritmo de jogo e buscar entrosamento com os demais jogadores.
Por outro lado, Marcelo esbanjou qualidade pela ala esquerda e confirmou a todo mundo que Dunga, que o manteve afastado por razões pessoais, não passa de um indivíduo rancoroso que coloca suas desavenças pessoais acima do bem do grupo e não entende nada de futebol.
Chamou a atenção o posicionamento da defesa, que tomou apenas um gol nas duas partidas, ainda assim marcado contra pelo zagueiro Marquinhos.
Também chamou a atenção a presença de um volante marcador – Casemiro – que se destaca no desarme limpo e na correta entrega de bola, a ponto de o treinador Zinedine Zidane declarar que na sua formação atual o Real Madrid tem no jogador o seu destaque mais importante (apesar de Cristiano Ronaldo ser o craque do time).
O que se viu, em suma, foi uma seleção mais leve, mais solta, mais confiante e mais brasileira. Quer enfrentando uma torcida equatoriana empolgante em Quito, quer mostrando a cara para a exigente torcida brasileira em Manaus, os jogadores jamais perderam a serenidade e o autocontrole. O clima entre a comissão técnica, os jogadores e a imprensa ficou descontraído, ao contrário das carrancas e do nervosismo mostrado pela seleção anterior.
Neymar não se fixou apenas no lado esquerdo e jogou por todas as partes do ataque, obrigando os defensores equatorianos e colombianos a mudar a forma de marcação, o que abriu espaços para a penetração dos outros atacantes brasileiros.    
A impressão que ficou é que os jogadores (muitos dos quais participaram das formações anteriores) tiraram um enorme peso das costas, pois a seleção de Dunga e Gilmar Rinaldi tinha a cara desagradável e suspeita da CBF, coisa que parece não ter contaminado a nova direção técnica.
É muito cedo para qualquer afirmação, mas parece que com Tite as convocações obedecerão a um critério técnico, não a imposições de dirigentes e agentes Fifa como acontecia com Gilmar Rinaldi, ele próprio um ex-agente.
Tite levou com ele muitos jogadores que ele conhecia da sua passagem vitoriosa no Corinthians – Gil, Marquinhos, Fagner, Paulinho, Renato Augusto, Willian e Taison – embora muitos deles já fizessem parte do grupo entes que ele assumisse, e apesar da minha discordância como analista sobre a chamada de alguns, cabe a ele analisar e confirmar nas próximas convocações a justeza da sua atitude.     
Se contra o Equador nós tivemos um placar enganoso, pois a vitória por 3x0 foi exagerada pelo equilíbrio apresentado em campo (1x0, gol de pênalti de Neymar já estaria de bom tamanho), contra a Colômbia uma vitória por três ou quatro gols estaria na proporção correta pelo que apresentaram os dois times.
Não dá para notar se houve alguma evolução no trabalho e desenvolvimento da equipe de um jogo para o outro, mas uma coisa ficou patente: nossos adversários podem até falar grosso mas começam a temer novamente o poderio do futebol brasileiro, que ultimamente andava tão em baixa.   



(Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 09/09/2016)





sexta-feira, 2 de setembro de 2016






O FANTASMA DO REBAIXAMENTO

Enquanto segue o Campeonato Brasileiro, começam a crescer as expectativas de quem vai terminar a competição no fatídico Z4, como se convencionou chamar a zona de rebaixamento, passaporte carimbado para a Série B.
A parada obrigatória neste meio de semana causada pela partida da seleção brasileira pelas Eliminatórias da Copa do Mundo contra o Equador facilita este exame sobre a pontuação das equipes, e mesmo que no domingo ela venha a sofrer algumas alterações isto não afetará substancialmente a análise como um todo.
No momento, amargando a última posição com 13 pontos está o América-MG, 13 pontos atrás do Coritiba, que tem 26 e seria o primeiro a se safar se a degola fosse hoje.
Tudo indica que o América está liquidado, e no seu encalço, também numa situação precária, ainda que respirando, está o Santa Cruz, com 19 pontos.
A partir daí começa um verdadeiro drama, pois nada menos de oito clubes, entre eles São Paulo, Botafogo, Cruzeiro e Internacional flertam perigosamente com o lado de baixo, porque a distância entre o 11º e o 18º é de apenas quatro pontos.
Normalmente a gente faz uma análise da pontuação de um campeonato olhando para a parte de cima da tabela, pois é de lá que surgirão o campeão e os classificados para diversos torneios.
No momento, seis pontos separam o quarto colocado Corinthians do líder Palmeiras, isto é, começa a haver um distanciamento entre os clubes que ocupam esta faixa na tabela, diferentemente do que acontece na zona da lanterna.
Isto torna extremamente excitante (para uns) ou preocupante (para outros) olhar para o lado de baixo, porque lá estão três candidatos que nunca tiveram o desprazer de pertencer à Série B – os já citados São Paulo, Cruzeiro e Internacional. Eles terão que mostrar às suas torcidas e à opinião pública por que são chamados de “grandes”, pois até agora são, ao lado de Flamengo e Santos, os únicos grandes do eixo Rio-São Paulo-Minas-Rio Grande do Sul que nunca visitaram a divisão de acesso.
O sobe e desce dos clubes tem sido favorável ao Cruzeiro, que saiu da zona de rebaixamento e vem subindo de produção, ao passo que o Botafogo mantém uma média medíocre e São Paulo e Inter continuam colecionando fiascos.
As três próximas rodadas serão cruciais para as pretensões desses quatro clubes, e incluem os confrontos diretos São Paulo x Cruzeiro e Cruzeiro x Botafogo.
Cada um vai se defender como puder.
O São Paulo, depois de mudar de técnico quatro vezes depois de 2015, passando de Murici Ramalho para Juan Carlos Osório, Dorival Guidoni (Doriva) e Edgardo Bauza, e também trabalhar com três interinos, trouxe o cordato Ricardo Gomes num momento crítico onde os jogadores não se entendem, torcedores invadem o Centro de Treinamento, a diretoria se vê às voltas com contratações que não funcionam e os conselheiros pedem a cabeça do diretor de futebol.
No mesmo período, o Botafogo trocou de técnico três vezes, começando por Renê Simões, passando por Ricardo Gomes até ele se transferir no meio da temporada para o São Paulo e está atualmente com Jair Ventura Filho.
O Cruzeiro também mexeu bastante. De 2015 para cá teve o comando de Marcelo Oliveira, Vanderlei Luxemburgo, Mano Menezes, Deivid de Souza, Paulo Bento, e conta novamente com Mano Menezes na tentativa de recuperar o seu bom futebol.
O Internacional teve uma campanha regular com Diego Aguirre em 2015, dispensou o técnico e até agora não conseguiu encontrar um bom substituto. Depois de tentativas malsucedidas com Argel Fucks e Paulo Roberto Falcão está tentando mais uma vez Celso Roth, tido por muitos como ultrapassado.
Está difícil saber quem irá cair. Os torcedores dos “grandes” ameaçados preferem colocar Figueirense, Coritiba, Vitória ou Sport no seu lugar para fazer companhia ao Santa Cruz e ao América, mas sabem que não será tão fácil assim.
Nos últimos dez anos foram rebaixados seis dos chamados “grandes”, o que é um mau sinal considerando que em cada campeonato dezesseis clubes se salvam e só quatro caem.
Nessa loteria indesejável já foram premiados o Vasco da Gama (três vezes, em 2008, 2013 e 2015), o Botafogo (2014), o Palmeiras (2012) e o Corinthians (2007).
Isso só nos últimos dez anos.
 




 (Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 02/09/2016)




sábado, 27 de agosto de 2016






RESENHA OLÍMPICA

As competições de uma Olimpíada se desenvolvem de uma forma tão intensa e paralela que fica impossível ao analista fazer comentários pontuais durante o seu transcorrer. Somente agora, quando terminaram os saltos, os pontos, os golpes, os mergulhos e as corridas, é que se pode emitir opiniões e fazer uma contabilização do celebrado certame.
Em primeiro lugar é bom que se ressalte que imediatamente após a memorável noite de abertura, para provar que em matéria de festa o brasileiro é imbatível, desarmou-se o clima negativo que estava instalado por conta de inabilidades políticas, equívocos administrativos, despreparo técnico e suspeita de muita coisa errada na condução financeira das obras.
As peças foram se encaixando e as coisas começaram e entrar nos eixos.
Começaram os jogos e o público entrou no jogo, lotando estádios e locais de competições, confraternizando com turistas e transmitindo o lado brasileiro bom de conviver, apesar das vaias a alguns atletas argentinos. 
Saímos de um clima de maledicência e entramos numa atmosfera de alegria e descontração. Todos os temores de atentados, calamidades e outras tragédias felizmente não se consumaram. Houve as costumeiras reclamações – e em contraponto os usuais elogios – quanto à segurança, organização e acomodações, mas nada que pudesse causar maiores discussões. As ocorrências policiais também aconteceram dentro na normalidade para um evento que congrega tanta gente.
A morte de um treinador alemão após um acidente de trânsito, um assalto de mentira a nadadores americanos e o assassinato de um soldado no complexo da Maré foram os pontos mais aflitivos dos 19 dias de disputas.
O poder paralelo do crime deu um tempo, como havia feito na Copa do Mundo, com exceção de algum fato isolado que não teve repercussão na imprensa nacional ou internacional.
Tirando o problema do esverdeamento da água do complexo aquático, que acabou também resolvido a contento, nada de muito especial aconteceu com os campos de provas, como se temia a princípio.
As provas náuticas disputadas em mar aberto não mereceram muitas reclamações dos atletas, como receavam os organizadores, e ninguém foi internado com intoxicação. Os casos de zica ficam para os próximos meses.
O resultado no campo esportivo, porém merece uma reflexão.
Com exceção das Forças Armadas (que deram o seu valioso quinhão), a sociedade civil – escolas, clubes – e o poder constituído, incluindo aí o COI, as Federações e o Ministério do Esporte, não fizeram qualquer esforço para que os nossos atletas fossem mais competitivos.
Das 19 medalhas no total – contando ouro, prata e bronze – as Forças Armadas foram responsáveis por 13, o que nos faz sonhar com um desempenho melhor em Tóquio-2020 se o seu trabalho tiver continuidade e for aperfeiçoado.
Frustrou-se, porém a expectativa de que conseguiríamos terminar entre os dez primeiros, porque na verdade se tratava de uma expectativa, não de um planejamento. Os homens do COI esperavam que as medalhas caíssem do céu, sem investimento e sem incentivo.
O Brasil manteve a tradição histórica dos últimos anos e ficou atrás apenas dos Estados Unidos entre os países do continente americano, mas como anfitrião deixou muito a desejar, terminando as competições em 13º lugar, atrás de sete europeus (Grã Bretanha, Rússia, Alemanha, França, Itália, Holanda e Hungria), três asiáticos (China, Japão e Coreia do Sul) e um oceânico (Austrália).
Mesmo assim, vale a pena considerar que esta colocação foi a melhor da história olímpica do Brasil, desde a primeira edição dos jogos em Antuérpia-1920.
Como donos da festa, nas últimas dez Olimpíadas somente ficamos melhor do que a Grécia em 2004, que terminou em 15º.   Dos outros anfitriões, três foram campeões em seus domínios (Estados Unidos – duas vezes, URSS e China), a Grã Bretanha terminou em 3º, a Austrália e a Coreia do Sul em 4º e a Espanha em 6º.
O ponto positivo, porém, foi a conquista de 7 medalhas de ouro, superando nosso recorde de 5 medalhas conquistadas em Atenas (em todas as 21 participações antes do Rio-2016 havíamos conseguido apenas 23 ouros).
Quanto à lisura dos Jogos, à parte o episódio do doping russo e da negativa do lutador egípcio em cumprimentar o seu oponente judeu, tudo correu bem, embora tenha pegado mal a grosseria do Super Neymar com alguns torcedores depois da quebra do tabu olímpico. É importante que alguém lhe faça ver que assim como é preciso saber perder, é também importante saber vencer.
Não esquecendo jamais o lema do Barão Pierre de Coubertin, idealizador das Olimpíadas: “o importante não é vencer, é competir”.
Sempre com postura e dignidade.



(Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 26/08/2016)




sexta-feira, 19 de agosto de 2016





A MORTE DO CHEFÃO

A morte do poderoso chefão do futebol João Havelange aos 100 anos de idade não chegou a ser nenhuma surpresa, pela obviedade do tempo.
João – na verdade Jean-Marie Faustin Goedefroid de Havelange – dividia opiniões. Para alguns, era um exemplo de dirigente esportivo, para outros, um exemplo a não ser seguido.
 A importância de Havelange pode ser medida por uma pesquisa feita pelo COI – Comitê Olímpico Internacional, que o aclamou como um dos três “dirigentes do século 20” ao lado do Barão de Coubertin, fundador do COI e idealizador dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, e de Juan Antonio Samaranch, ex-presidente do COI.    
Havelange ajudou a alavancar o futebol brasileiro (durante a sua gestão o Brasil conquistou os três primeiros títulos mundiais) e pode-se dizer que se tivéssemos um Havelange hoje no comando talvez as coisas estivessem diferentes. Pesa sobre ele, no entanto, graves denúncias de improbidade administrativa, que se tornaram mais e mais fortes a partir da sua eleição para a presidência da Fifa em 1974 e forçaram a sua retirada pela porta do fundo quarenta anos depois, ameaçado que estava de sofrer um desgastante processo aos 95 anos de idade.
Em agosto de 1997, portanto há exatos 19 anos, eu escrevi um artigo rascunhando os traços da personalidade desse homem, desenhados, a priori, através de informações colhidas à distância, o qual comento hoje com os devidos retoques da atualização.
Havelange estava “escondido” na Europa havia duas décadas quando, numa das inúmeras tentativas das bem-sucedidas reeleições de Ricardo Teixeira na CBF, ele veio ao Brasil para com o seu prestígio tentar alavancar a simpatia do seu (na época) genro. E Havelange acabou em São Luís, onde convidou todos os cartolas grandes e pequenos (eu era apenas um cartolinha que presidia a pequena Sociedade Esportiva Tupan) para um concorrido jantar no então Hotel Vila Rica.
Ao conhecê-lo pessoalmente compreendi porque o mundo o reverenciava tanto. Muito alto, forte, sisudo, voz de trovão, expressão severa, olhar penetrante, ele encarnava como ninguém a figura do chefão – temido, respeitado e jamais contrariado.
Carioca com nome e sotaque francês e porte de viking, ele era um homem com feições de pedra, sempre exibindo uma cara de poucos amigos, embora afável e cavalheiresco na intimidade, desde que não lhe pisassem os calos.
Aquele foi um desses famosos jantares onde todo mundo se farta do melhor vinho e do melhor uísque e das melhores iguarias, um desses famosos jantares que ninguém paga, mas alguém paga (sempre paga, pelo preço da sedução).
São aqueles jantares onde os convidados são convocados para prestar uma homenagem a alguém e acabam se comprometendo, mesmo sem se comprometer, a concordar com alguma coisa debaixo dos panos com a qual discordamos, no caso o apoio do Maranhão na reeleição de Teixeira.
Durante o jantar eu troquei umas poucas palavras com doutor Havelange, que agradeceu a minha presença com muita deferência e deu a entender que aquele ágape poderia significar a ressurreição do futebol maranhense, hoje reduzido a dois times na Série C e D.
Na época, na qualidade de presidente da Fifa, o melífluo Havelange mostrava o seu lado fanfarrão, ao ameaçar a exclusão do Brasil da Copa da França caso o presidente FHC e o Congresso Nacional viessem a aprovar os ditames da Lei Pelé, que sugeria a desvinculação da arbitragem das federações, propunha a transformação dos clubes em empresas, regulamentava a lei do passe, responsabilizava civil e criminalmente os atos dos dirigentes e estabelecia outras medidas que poderiam ter ajudado no bom andamento do esporte mas punha em risco a impunidade de alguns apaniguados. 
Tratava-se de uma picuinha pessoal de Havelange contra Pelé iniciada em 1983, quando o ex-atleta afirmara que havia corrupção na CBF dirigida por Ricardo Teixeira, o que de certa forma foi confirmado mais tarde com as denúncias que foram surgindo.
Havelange não estava procedendo como um estadista, que é o que se esperava do presidente de uma entidade que congrega tantos países. Ele estava procedendo como um ressentido comum que busca simplesmente atingir um desafeto de qualquer forma, sem atentar sequer para o desatino que está cometendo.
No fim, na luta de Dom Quixote contra os moinhos, o cavaleiro venceu, pois de todos os pontos apenas a regulamentação da lei do passe foi aprovada, o que abriu a brecha para o surgimento dos malfadados agentes e empresários, mas isso já é uma outra história.




 (Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 19/08/2016)





segunda-feira, 15 de agosto de 2016







O EFEITO NEYMAR

Por razões de fechamento de página, estou escrevendo este artigo antes do jogo Brasil x Dinamarca. Assim, quando você estiver lendo o seu O Imparcial de sexta-feira, o Brasil olímpico já terá definido a sua sorte na caminhada rumo ao pódio do futebol masculino. Terá seguido em frente na esperança de ganhar uma medalha – de preferência a de ouro, jamais conquistada – ou terá ficado no meio do caminho, o que significará, independentemente do placar, um  vexame ainda maior do que o de 2014 com a recente Copa do Mundo de péssima memória.
Nos dois casos, desponta a bola da vez Neymar que, talvez por jogar na Espanha, terra de Cervantes, possa estar sendo comparado a Dom Quixote, um intrépido fidalgo que se transformou em um cavaleiro de triste figura.
Maior nome das Olimpíadas no futebol, Neymar não pode ser responsabilizado pelo futebol sonolento apresentado pelo time nas duas primeiras partidas, mas não pôs a bola debaixo do braço e falou “deixa comigo!” – gesto que se espera dos grandes comandantes. Mostrou nervosismo e falta de estrutura emocional pouco condizente com a camisa amarela que já foi envergada por líderes do quilate de Zito, Pelé, Didi e Romário.
Por conta dos acordos de cavalheiros entre a CBF e o Barcelona, alinhavados com a participação do próprio Neymar, nosso atual número um deixou de participar da derrocada da seleção canarinho na Copa América, e ficou claro que apostaria todas as fichas nos Jogos Olímpicos que, igual à Copa, iriam ser disputados em território brasileiro.
Durante a preparação, o técnico Dunga foi finalmente defenestrado, Tite assumiu o comando geral, mas decidiu que seria muito precipitado assumir o futebol olímpico, quer pela falta de tempo que teria para impor a sua filosofia de jogo quer por usar o raciocínio lógico de manter Rogério Micale, técnico que já vinha trabalhando com o grupo, para comandar a equipe na competição olímpica.
Tudo poderia dar certo não fosse a avidez da CBF em reforçar o grupo que fora cultivado por Micale com três jogadores alheios à sua filosofia de trabalho e ao entrosamento necessário com os demais jogadores.
Com a convocação de Neymar, Fernando Prass e Renato Augusto os jogadores foram informados que o capitão da equipe, Rodrigo Caio, entregaria a faixa para um dos três, o que desagradou ao grupo.
Mesmo a contragosto, os jogadores teriam preferido que Fernando Prass tivesse tido a primazia, mas mesmo antes do goleiro ser dispensado por contusão, Micale deu a faixa a Neymar, jogador tido como arrogante e individualista, o que fez ferver o caldeirão na concentração e nos treinos.
Em momento algum Neymar tentou se aproximar do grupo neste início de trabalho e seu distanciamento e falta de diálogo azedou o clima de vez.
É o que se comenta nos bastidores.
Veio o primeiro jogo contra a África do Sul e Neymar jogou o seu futebol à parte, pouco participando no aspecto coletivo da partida. Na segunda partida, contra o Iraque, quase não apareceu, e uma crise de nervos fez com que ele desobedecesse a orientação da organização e se negasse a dar entrevistas ao final da partida.
Tudo zero a zero, menos a atitude do ídolo, que continuava marcando seus gols contra.  
Pra piorar a situação, Rogério Micale demonstrou publicamente que não conseguia comandar o craque e corre o risco de cair em descrédito com todos os outros jogadores.
Este episódio veio apenas acrescentar a falta de estrutura técnica e emocional que está levando o futebol brasileiro para o fundo do poço.
Os jogadores brasileiros desta geração são mimados, estão mais preocupados com o corte de cabelo do que com a imagem esportiva, têm milhões de dólares rondando as suas cabeças, agem com falta de comprometimento com a profissão e com o público que lota teatros para apreciar a sua exibição como artistas que são e, finalmente, são comandados por técnicos e diretores sem pulso e sem moral para tomar decisões firmes, pois paparicam os atletas ao invés de orientá-los.
Pode ser que eu queime a língua (no caso, os dedos) e Neymar venha a ressuscitar, trazendo com ele a confiança para todo o grupo, que a equipe desencante e venha conquistar o ouro e a alegria olímpica, proporcionando finalmente um pouco de orgulho para o torcedor.
As perspectivas são desfavoráveis, e a mudança de atitude de Neymar é o grande trunfo que o Brasil olímpico precisa para torná-las favoráveis e vitoriosas.
Isto pode ter acontecido contra a Dinamarca, cujo futebol apresentado nas partidas anteriores também não foi nenhuma Brastemp.
Assim sendo, voltaria a empatia entre técnico e jogadores, o espírito de união do grupo e a esperança de espantar a bruxa que nos assombra há alguns anos.  




(Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 12/08/2016)




sábado, 6 de agosto de 2016





DOR DE COTOVELO

Aos 38 anos, e já com poucas perspectivas de ser algum dia chamado para defender a seleção brasileira principal, o goleiro Fernando Prass – ex-Grêmio, Coritiba e Vasco, e há três anos atuando pelo Palmeiras – exultou ao ser convocado para a seleção olímpica.
Aproveitando o regulamento que permite sejam incluídos no grupo de convocados até três atletas acima de 23 anos de idade, a CBF optou por trazer jogadores que além de adicionar experiência ao grupo sejam fundamentais em três setores nevrálgicos – o gol, a armação das jogadas e a lucidez e eficiência do ataque.
Para tanto vieram Prass, Renato Augusto, do Corinthians, e Neymar, do Barcelona.
O sonho e a responsabilidade de conquistar para o Brasil o único galardão que o país não possui – a medalha de ouro olímpica – deram a eles um alento especial, principalmente ao “veterano” Neymar, que chegou a abdicar da Copa América para poder fazer parte do grupo olímpico, que pode ser uma marca histórica na sua carreira e representa a possibilidade de restaurar o nome do Brasil dentro do seu território.
Estranhamente, Renato Augusto não foi titular no amistoso contra o Japão, mas Neymar mesmo sem brilhar mostrou a importância da sua presença não apenas se impondo como capitão do time como também pelo respeito que despertou na defesa adversária.
Fernando Prass não jogou. Pior: foi dispensado por motivo de contusão.
Uma fratura no cotovelo direito não apenas o tirou dos Jogos como também vai afastá-lo do Palmeiras presumivelmente até o final do ano.
É estranho que o goleiro não tenha feito um só treino com bola antes de acusar a contusão.
Se não houve jogo, queda ou choque do jogador com um companheiro da seleção, só resta uma alternativa: a contusão estava sob controle no seu clube e, embora se tratasse de algo sério, os preparadores físicos dosavam o tipo de exercício, sendo que na seleção pode ter havido algum esforço mais intenso nesta preparação.
Jogando pelo Palmeiras, Prass sabia como contornar o problema ao fazer as suas defesas, embora sempre acusasse um certo mal-estar no cotovelo fatídico.
Pelo bem ou pelo mal, a situação agora está resolvida, pois o goleiro já foi operado e aguardará o tempo necessário para voltar, infelizmente somente apenas a tempo de brilhar mais um ou dois anos antes de encerrar a carreira.
Para o seu lugar chegou Weverton, do Atlético Paranaense, 28 anos.
Muitas situações de corte às vésperas da estreia em Copas do Mundo fazem parte da história da seleção brasileira principal.
Em 1970, o atacante titular Rogério (Botafogo), contundido, cedeu seu lugar ao goleiro Leão (Palmeiras).
Em 1974, o goleiro Wendell (Botafogo) foi substituído por Waldir Peres (São Paulo), e Clodoaldo (Santos) saiu para a entrada do atacante Mirandinha (São Paulo) no grupo.
Em 1978, houve dois cortes por contusão pré-Copa: saíram Nunes (então jogando pelo Santa Cruz), para a convocação de Roberto Dinamite (Vasco), e Zé Maria (Corinthians), para a chamada de Nelinho (Cruzeiro).
Em 1982, o promissor Careca (Guarani) foi cortado e em seu lugar foi chamado Roberto Dinamite (Vasco).
Em 1986, Mozer (Flamengo) se machucou e Mauro Galvão (Inter) foi chamado. O volante Toninho Cerezo (Roma) também se contundiu e foi substituído por Valdo (Grêmio).
Em 1994 Mozer (desta vez jogando no Olympique) foi novamente dispensado, sendo chamado para o seu lugar Márcio Santos (Bordeaux). No mesmo ano, Ricardo Gomes (PSG) cedeu seu lugar ao zagueiro Ronaldo (São Paulo).
Em 1998 machucou-se Flávio Conceição (La Coruña) e foi substituído pelo lateral Zé Carlos (São Paulo); Márcio Santos (São Paulo) foi cortado para a chegada de André Cruz (Milan). Ainda em 1998, Romário foi cortado e substituído por Émerson (Grêmio).
Em 2002, o mesmo Émerson (agora jogando pela Roma) cedeu espaço para a chegada de Ricardinho (Corinthians).
Em 2006, o volante Edmilson (Barcelona) foi cortado na última hora e para o seu lugar foi chamado Mineiro (São Paulo).
Em 2010 e 2014 fez-se uma pausa no ciclo e não tivemos nenhum corte por contusão a dias da estreia na Copa.
Nos casos de 1970, 1994 e 2002, os jogadores cortados devem ter sentido uma certa dor de cotovelo ao ver seus substitutos ostentando a medalha de campeão do mundo, provavelmente ouvindo um samba-canção de Lupicínio. 

(Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 05/08/2016)



terça-feira, 2 de agosto de 2016







Crônica publicada no suplemento literário da Revista Poética Brasileira editada pelo jornalista, poeta, compositor e editor Mhario Lincoln e postada no site ACERVUM.COM.BR  


HISTÓRIAS DE PLÁGIOS

Augusto Pellegrini

Corria o ano de 1929. Era uma noite de fevereiro, e o compositor Noel Rosa estava muito zangado no seu quarto, pois sua mãe havia escondido toda a sua roupa para evitar que ele saísse para a boemia.
Para desabafar, o poeta compôs um samba, ao qual deu o título de “Com que roupa?” (“com que roupa que eu vou / pro samba que você me convidou?”), que viria a se transformar no maior sucesso daquele ano no Rio de Janeiro.
Dias depois, devidamente vestido, ele levou o samba para a apreciação do maestro Homero Dorneles, seu amigo.
Quando Noel começou a cantar – “Agora vou mudar minha conduta...” – o maestro, sentado ao piano, o interrompeu e falou:
“Noel, este samba não pode ser levado a público. Você acabou de compor o Hino Nacional!...”
De fato, a melodia e os acordes do samba eram exatamente aqueles que haviam sido feitos um século antes por Francisco Manuel da Silva.
Homero deu uma retocada na melodia e a música seguiu sua trajetória ilustre sem Noel correr o risco de ir parar nas masmorras de Getúlio Vargas.
Esta é uma das muitas histórias de plágio de música que se ouvem por aí.
Muitas vezes o plágio é inconsciente, pois o autor tem arquivado na sua memória alguma codificação musical que aflora à sua mente sem que ele se aperceba de que se trata de algo já existente. Ele pode até ter a impressão de que alguma coisa lhe soa familiar, mas tem a firme convicção de que se trata de uma criação sua. Deve ter acontecido com Noel.
Outras vezes o plágio é consciente.
Tom Jobim admite que os compassos iniciais do “Samba de Uma Nota só” (“Eis aqui este sambinha / feito de uma nota só / outras notas vão entrar / mas a base é uma só”) foram compostos tendo como base a introdução pouco conhecida de “Night and Day”, de Cole Porter (“Like the beat beat beat of the tom-tom / when the jungle shadows fall / like the tick tick tick of the stately clock / as it stands against the wall”).
Na verdade, Tom era um pesquisador musical, e buscava nas raízes da música, principalmente a brasileira, inspiração para seus temas ecológicos e campestres e nunca fugiu ao debate: ele afirmava que suas colocações incidentais não eram plágio, mas sim a prestação de uma homenagem.
Talvez seja esta a explicação pelo tema e para a divisão sincopada da música “Águas de Março” (“É pau, é pedra / é o fim do caminho / é um resto de toco / é um pouco sozinho”) que parece ter vindo  de “Água do Céu”, (“ É chuva de Deus / é chuva abençoada / é água divina / é alma lavada”, de J.B. de Carvalho, gravada em 1956 pela cantora Leny Eversong), que por sua vez fora adaptada de um ponto de macumba de 1933 – “É pau, é pedra / é seixo miúdo / roda baiana / por cima de tudo”.
O plágio, consciente ou não, acaba sendo alvo de processos judiciais que não raro terminam com o perdão do compositor que se diz lesado mediante o pagamento de polpuda multa e fica tudo por isso mesmo.
Não foi apenas Jobim que passou por essa saia justa, embora nunca tenha sido processado. A história relata diversos casos de plágios (comprovados ou não) que acabaram gerando grandes pendengas jurídicas.
Um dos casos mais famosos envolve dois roqueiros do primeiro mundo.
John Lennon teve que fazer um acordo extrajudicial com Chuck Berry (o teor do acordo permanece em segredo até hoje) por causa da melodia de “Come Together” (“Here come old flat top, he come / groovin’ up slowly / he got joo-joo eyeball / he one holly roller / he got hair down to his knee/ got to be a joker, he just do what he please”) muito semelhante à “You Can’t Catch Me”, de Berry (“I bought a brand-new air-mobile / it custom-made /   ‘twas a Flight De Ville / with a pow’ful motor / and some hideaway wings / push it on the button and you can hear her sing”).
Outro ex-beatle, George Harrison, também se viu denunciado ao compor “My Sweet Lord” (“My sweet Lord / hm my Lord / my sweet Lord / hm my Lord / I really want to see you / really want to be with you / really want to see you Lord / but it takes so long, my Lord”) , lançada em 1970, acusado de ter plagiado a música “He’s So Fine” (“He’s so fine / wish he were mine / that handsome boy over there / the one with the wavy hair / I don’t know how I’m gonna do it / but I’m gonna make him mine / the envy of all the girls / it’s just a matter of time”), gravada em 1962 por uma grupo feminino chamado The Chiffons.
Harrison jamais admitiu o plágio, mas mesmo assim teve que pagar ao autor de “He’s So Fine”, Ronald Mack, cerca de 400 mil euros de indenização para que o processo fosse arquivado.
O saxofonista Charlie Parker não tinha esses escrúpulos. Ele apanhava músicas consagradas do cancioneiro americano e as transformava fazendo releituras sofisticadas no estilo bebop, e assumia a paternidade simplesmente mudando o seu título. Mas fazia isto às claras, e nunca teve problemas com reclamantes na justiça.
Assim, “How High the Moon” (de Morgan Lewis) serviu como base para a sua “Ornithology”, “Indiana” (de James F.Hanley) inspirou “Donna Lee”, “Honeysuckle Rose “ (de Fats Domino) gerou “Scrapple from the Apple”, “Cherokee” (de Ray Noble) serviu de mote para “Ko-Ko” e “I Got Rhythm” (de George Gershwin) deu origem a “Confirmation”, entre outras.  
O máximo da homenagem, porém, parece ter sido aquela prestada pelos americanos George Forrest e Robert Wright com a canção “Stranger in Paradise” composta em 1953 para o filme “Kismet” (“Take my hand / I’m a stranger in Paradise / all lost in a wonderland / a stranger in Paradise / if I stand starry-eyed / that’s a danger in Paradise / for mortals who stand beside an angel like you ”), cuja melodia retratando esta primeira parte foi inteiramente copiada das “Polovtsian Dances” (“Gliding Dance of the Maidens”), da ópera “Prince Igor” composta pelo russo Alexander Borodin.
Muitos músicos estão envolvidos neste imbróglio, porque Borodin morreu em 1887 deixando a música inacabada, cabendo a Nikolai Rimsky-Korsakov e a Alexander Glazunov a sua finalização em 1890.
Como se vê, plágio também é cultura.



sábado, 30 de julho de 2016






A VILA DA DISCÓRDIA

Foram detectados sérios problemas de infraestrutura na Vila que serve de alojamento aos atletas. Os problemas estão sendo solucionados, com a finalidade de permitir o deslocamento e a mobilidade das pessoas. A organização dos Jogos é objeto de crítica e muitos atletas de diversos países manifestam um alto grau de insatisfação, no que são referendados pela imprensa estrangeira.
O leitor deve achar que estamos nos referindo aos prédios onde australianos, argentinos, suecos, italianos e bielorrussos se recusaram e entrar por conta de problemas elétricos e hidráulicos – fios desencapados, vazamentos – além da sujeira generalizada nos apartamentos e corredores a poucos dias da abertura dos XXXI Jogos Olímpicos de Verão do Rio de Janeiro (alguns deles contrataram empresas especializadas por conta própria para poderem ter condições de habitação).
Mas não é bem assim, pois o primeiro parágrafo se refere aos Jogos Pan-Americanos de 2007, retratando o afundamento do calçamento das ruas e vias de acesso que circundavam a Vila dos Atletas, com muitas poças e poeira dificultando a circulação das pessoas.
Na época não houve uma reclamação acintosa por parte das delegações nem a sugestão do prefeito – então César Maia – de colocar um canguru, camelo ou elefante para adoçar a sensibilidade dos convidados.
Em nove anos, com exceção do prefeito, nada mudou, e se mudou o fez para pior: além das condições dos imóveis, fazendo levantar suspeita sobre a qualidade estrutural da obra, o atual prefeito expôs o nome do Brasil ao mundo e o seu próprio nome ao ridículo quando se comprometeu a colocar um canguru na frente dos prédios ocupados pelos australianos para amenizar a falta de competência na entrega das obras.
A chefe da delegação australiana respondeu que não precisava de cangurus, mas sim de encanadores e eletricistas (e de um prefeito mais bem-educado, esqueceu de completar).
Como iria se sentir o nobre prefeito que já foi subprefeito, vereador,  deputado federal e secretário do governo, portanto afeito às obrigações litúrgicas e diplomáticas de um político, se o governo da Austrália se comprometesse a colocar chimpanzés na frente de um eventual alojamento brasileiro em Auckland para tornar a delegação feliz?
Os citados Jogos Pan-Americanos ensejaram reclamações por parte dos atletas de beisebol e mountain bike / BMX que consideraram as instalações da Cidade do Rock e do Morro do Outeiro impróprias para a realização das provas.
De antemão podemos garantir que haverá uma chiadeira geral com respeito às provas náuticas realizadas no mar ou na Lagoa Rodrigo de Freitas, cuja poluição salta aos olhos, não necessitando sequer de uma análise laboratorial.
Em 2009, dois anos depois do Pan, quando o Brasil (no caso, o Rio de Janeiro) foi escolhido para sediar a Olimpíada, seus responsáveis – Governo Federal, representado pelo Ministério dos Esportes, Governo Estadual, Prefeitura, Secretarias e membros do Comitê Olímpico – já tinham estado às voltas com os problemas, previstos ou imprevistos, de 2007.
Nada mais lógico na época que fossem pensadas soluções antecipando os problemas de 2016, considerando que as dificuldades na organização de uma Olimpíada, que congrega cerca de 200 nações e mais de 10.000 atletas é sem dívida mais complicada do que a dos Jogos Pan-Americanos, que reuniram 662 atletas de 42 países quando da sua realização.
Os cuidados devem ser os mesmos, mas a complexidade aumenta em todos os sentidos – alimentação, estrutura, diferença de costumes, equipe de apoio, rigor no controle dos atletas e dos demais membros das delegações – principalmente com respeito à segurança, numa época onde a ameaça do terror assombra a todos, em especial aos cidadãos dos países mais diretamente envolvidos neste conflito invisível, como França, Alemanha, Inglaterra, Bélgica e Estados Unidos.  
O estado de alerta que domina os governantes brasileiros e a população do Rio de Janeiro acaba tirando um pouco o brilho das competições, mas nesta hora todos os dedos se cruzam e todas as orações são feitas para que tudo transcorra em ordem e lisura.
Isso contando com a colaboração do poder criminoso paralelo do Rio, que aparentemente vai minimizar os ataques às UPPs para que a Vila da Discórdia não se transforme em Vila da Vergonha.
Ou da Tragédia.

(Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 29/07/2016)



sábado, 23 de julho de 2016






DE PATO A GANSO

Enquanto um vai, outro vem. Promessas que não deram muito certo, cada qual vai procurar brilhar e dar um grau na carreira em outro lugar.
Sempre tudo regado a milhares, milhões de dólares.
Ganha o jogador, ganha o clube, ganha o empresário, ganha o patrocinador, ganha o comentarista, mas geralmente perde o futebol.
Pato deixa a Europa para trás e se reapresenta ao Corinthians, clube que tem que abrigá-lo mais por uma questão contratual do que sentimental. No fundo, os dois – jogador e clube – se odeiam, mas os dois têm que representar o seu papel. Os torcedores torcem o nariz, a diretoria conta e reconta o salário altíssimo que engrossa o passivo do clube e o técnico Cristóvão Borges, também vítima da desconfiança de todos – torcedores e dirigentes – segue coçando a cabeça e esperando que um anjo do Senhor ilumine a todos e faça com que o atleta se encaixe no seu plano de trabalho sem gerar muito conflito.
Ganso deixa o Brasil para trás e faz o caminho inverso. Parte com a marca daquele que deveria ter dado certo mas não deu, gerado no Santos de Neymar e tido na época como o craque do time sem jamais ter se firmado como uma figura indispensável. Depois tentou alavancar o futebol do São Paulo, para onde sob muita reclamação da torcida peixeira. Na seleção, foi ignorado pelos técnicos que se sucederam no comando. É mais uma tentativa de um jogador desacreditado se firmar no complicado futebol europeu.
Assim é o futebol, onde a unanimidade é uma coisa muito rara e a manutenção de um status passa por muitos detalhes que vão desde a oportunidade criada e aproveitada e a conquista dos indispensáveis títulos, de preferência tendo o jogador em foco como figura principal.
Muitos se perguntam o que teria sido de Pelé se ao invés de se encontrar com um time estruturado como o Santos, onde teve companheiros do quilate de Zito, Mengálvio, Coutinho e Pepe, tivesse ido parar na Portuguesa.
O mundo do futebol divide seu rebanho entre aqueles que fizeram acontecer – e aí se situam Messi, Cristiano Ronaldo, Ibrahimovic, Suárez, Neymar e alguns outros, para ficarmos apenas na atualidade – e os outros, entre os quais estão aqueles que perderam o bonde da história e os que estão começando agora, sonhando alto. 
Os clubes costumam trazer jogadores de renome para defender a sua camisa pelo aspecto técnico (afinal, um bom jogador é sempre bem-vindo) e também por uma questão de marketing, pois existem patrocinadores que apostam alto na marca.
Às vezes funciona, outras não.
O Flamengo, por exemplo, vai inchando o seu elenco com jogadores de qualidade que na prática não estão melhorando o padrão do time. A contratação de Leandro Damião, outro que já deveria ter dado certo, é vista pelos torcedores como uma temeridade, principalmente porque a posição – centroavante – já está razoavelmente coberta por um figurão, Paolo Guerrero, e por uma agradável promessa – Felipe Vizeu.
Para o meio do campo, no entanto, pode ser que a repatriação de Diego – aquele mesmo que surgiu ao lado de Robinho no Santos de 2002, passando com algum sucesso por Portugal, Alemanha, Itália, Espanha e Turquia – venha suprir o toque de refinamento que o time precisa.
Como as janelas de transferência acabaram de fechar, somente algum ilustre desempregado da Zona do Euro poderia mostrar seu futebol no nosso país tropical, como fez o holandês Clarence Seedorf em 2012 ao decidir dar um pouco de gás ao Botafogo.
O mercado sul-american, no entanto, está andando a todo vapor.
Entre os doze principais clubes do Brasil – quatro de São Paulo, quatro do Rio, dois de Minas e dois do Rio Grande do Sul – existem no momento cerca de 45 estrangeiros fazendo parte do elenco, vindos dos diversos países da América do Sul.
Na quarta-feira o número foi acrescido de outros jogadores hermanos. O São Paulo, que perdeu Calleri, já contratou o atacante Andrés Chavez e está fechando com o lateral Buffarini, ambos argentinos. O Internacional trouxe o uruguaio Nico López, e o Atlético Mineiro acaba de fechar com o venezuelano Rómulo Otero.
O tricolor estava praticamente fechado com o atacante argentino Caraglio mas desistiu da compra, possivelmente preocupado com os problemas que a contratação traria para os locutores esportivos durante a transmissão dos jogos.



 (Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 22/07/2016)




sexta-feira, 15 de julho de 2016





ORGANIZADAS NO COMANDO

E então uma mente brilhante chegou à conclusão que o problema da violência no futebol seria resolvido com a adoção de uma medida visceral: os clássicos teriam torcida única. Simples assim.
Muita gente ponderou que esta medida iria contra o espírito lúdico que cerca o esporte por aumentar o número de restrições que em nada contribuem para melhorar o nível do espetáculo, como a proibição de o torcedor portar bandeiras e entoar cânticos considerados provocativos, além do veto à inocente cervejinha vendida em copos de plástico.
No caso da partida entre São Paulo e Atlético Nacional (da Colômbia), disputada há uma semana no estádio do Morumbi, a presença de torcedores de apenas um clube se mostrou inócua.
Ali não foi aplicada a regra draconiana, nem precisava. Afinal, a torcida adversária estava a 4.500 km confortavelmente vendo a partida pela televisão em Medellin. Compareceram apenas uns poucos gatos pingados, uma gota num oceano de mais de 60 mil torcedores tricolores presentes.
E mesmo assim, o pior aconteceu.
Ao final da partida, com a derrota dos brasileiros, houve pancadaria e corre-corre nas imediações do estádio com direito a presos e feridos, assustando aqueles que foram prestigiar o São Paulo, inclusive mulheres e crianças.
O fato serve como recado ao Ministério Público que mete o bedelho onde não deve e toma medidas equivocadas: foi um jogo de torcida única, o que mostra a inconsistência da decisão tomada.
Mais uma vez fica patente que o problema da violência não está atingindo exatamente os estádios, mas as suas cercanias, ou até além, quando delinquentes comuns se encontram em estações de metrô ou nas principais vias de acesso.
E mais uma vez fica patente que o problema da violência não vem do torcedor, mas sim dos fora-da-lei que constituem as torcidas organizadas, sejam de qual clube forem. São bandidos comuns, muitos com passagem pela polícia e outros tantos foragidos da justiça. São apenas criminosos da pior espécie travestidos de torcedores.  
Para eles não existe a lei, e contra eles as autoridades baixam a guarda de uma forma covarde e incompreensível.
Depois dos incidentes da noite de quarta-feira, dirigentes e conselheiros do São Paulo pressionaram o presidente Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, para que o clube rompesse com as organizadas, especialmente a Torcida Independente e a Dragões da Real, as duas maiores entre as sete existentes, mas o presidente recuou.
Sabe-se que as torcidas organizadas gozam de prestígio junto aos clubes, como ingressos e transporte grátis, ajuda financeira para a compra de material, entrada facilitada para os treinos do time e local para manter uma sede dentro das instalações dos estádios.  
Além disso, têm voz e voto nas decisões da diretoria, mesmo não estando previsto no estatuto do clube, ajudam a eleger presidentes, nomear diretores e demitir dirigentes e jogadores.
É uma verdadeira Máfia que age como uma eminência parda, usando o terror como ferramenta de trabalho, e é sabido também que muitos dos seus membros são envolvidos com outros tipos de crime, como tráfico de drogas e afins.
Ficou claro que o presidente Leco não quis abrir qualquer tipo de represália contra esse bando de facínoras porque teme por si, pela sua família e pelo seu patrimônio.
Enquanto dirigentes são reféns de bandidos e torcedores comuns têm que abdicar da ida ao estádio, as autoridades fazem de conta que medidas idiotas como a proibição de venda de bebida alcoólica em bares nas proximidades dos estádios e a divisão do estádio entre as torcidas adversárias irão resolver o problema.
As autoridades têm que fazer esses arruaceiros respeitarem a lei, colocar os marginais na cadeia ou pelo menos mantê-los longe dos estádios nos dias de futebol. A reincidência está demais e a população exige do poder constituído que medidas austeras sejam tomadas para a sua proteção.
Se diversidade de preferências, multidão ruidosa  e cerveja como descontração promovessem a violência gratuita o carnaval brasileiro seria a maior guerra civil.      



(Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 15/07/2016)