quinta-feira, 26 de junho de 2014







À ESPERA DE UM FUTEBOL CONVINCENTE

 
(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 26/06/2014)

 
Aproveitando a euforia da goleada brasileira sobre Camarões, vamos falar um pouco de futebol, pois afinal uma Copa do Mundo não se resume a torcida, acontecimentos extracampo, corrupção, cartolagem e erros de arbitragem, assuntos que temos abordado ultimamente.
O ingrediente maior de um torneio deste calibre é o futebol praticado em campo e neste quesito a Copa disputada no Brasil está sendo superior às últimas edições, quer pela emoção que as partidas estão proporcionando quer pela quantidade de gols anotados, pois estamos na casa de três tentos por partida.
Apesar das atuações convincentes da Alemanha, Holanda e França, ainda é cedo para que se faça qualquer prognóstico porque a fase de grupos que se encerra hoje é apenas um aperitivo do que está para vir, e o Brasil, é claro, continua a figurar entre os favoritos.
Mas nas oitavas de final, qualquer escorregão será fatal, e mesmo considerando o inevitável desnível de certos jogos, surpresas acontecem e podem significar para muita seleção com pinta de favorita a eliminação prematura do torneio.
Com três jogos disputados, todas as equipes já moldaram definitivamente o time e o sistema de jogo ideal para seguir adiante. Também já analisaram em detalhes como se comporta o adversário, quais os seus pontos-chave e qual o seu setor mais vulnerável.
Ao Brasil cabe enfrentar o Chile, velho conhecido – e freguês – em Copas do Mundo. Nos três confrontos já realizados, o Brasil sapecou 4x2 (Copa do Chile – 1962), 4x1 (Copa da França – 1998) e 3x0 (Copa da África do Sul – 2010). Em todas estas partidas o Chile vinha precedido de alguma fama. Na prática, porém, a esquadra chilena sempre fez água.
Possivelmente esta seja a seleção mais bem estruturada que o Chile já montou para disputar uma Copa do Mundo, incluindo aquela jogada no seu próprio país. O Chile de hoje possui uma defesa que não dá espaços, um meio-campo marcador e criativo e um ataque envolvente comandado por Alexis Sánchez e Eduardo Vargas.
No entanto, a mística da camisa amarela pesa, e pesa muito, o que poderá fazer com que os chilenos joguem preocupados e não consigam produzir o futebol que estão mostrando até agora.
O Chile tem a seu favor o fato de poder atuar como franco atirador, pois aparentemente quem tem a obrigação de vencer é o Brasil. Quanto mais os chilenos dificultarem a movimentação brasileira mais o time anfitrião se sentirá incomodado pela pressão da torcida.
O Brasil já começa a partida com uma carta no bolso, que poderá ser usada no momento adequado: o preparo físico. O jogo será realizado à uma da tarde sob o sol de Belo Horizonte, e como ficou evidente na partida disputada contra a Holanda, os chilenos caem de produção nos últimos vinte minutos de jogo e afrouxam o poder de marcação. O calor poderá fazer a diferença.
Mas o Brasil tem que melhorar muito o seu desempenho.
Por mais que o técnico Felipão, fique irritado com os questionamentos da imprensa, a seleção ainda está devendo. O goleiro Julio Cesar tem vacilado nas poucas vezes em que foi exigido (o próprio gol sofrido contra Camarões aconteceu porque o goleiro não procurou interceptar a trajetória da bola que cruzou a pequena área bem na sua frente).
Os dois laterais estão marcando mal. Marcelo ainda tem funcionado bem como ala avançado, mas Daniel Alves não marca nem apoia, e está longe de mostrar um bom futebol.
Como o nosso meio-campo não é criativo, os atacantes têm que se contentar com a ligação direta via lançamentos longos ou chutões de David Luís e Thiago Silva.  
A seleção brasileira está vivendo da boa fase de Neymar e dos erros dos adversários, o que, convenhamos, é muito pouco para quem pretende ser campeão do mundo.   

segunda-feira, 23 de junho de 2014








A FORÇA DA TORCIDA


(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 23/06/2014)


A Copa do Mundo é o mais importante torneio de futebol do mundo, com perdão da redundância. Ela congrega teoricamente as 32 melhores seleções do planeta e possui um apelo e visibilidade de tal tamanho que chega a emocionar e prender a atenção até de pessoas que normalmente não se interessam pelo futebol.
A geopolítica do esporte e a necessidade da exposição do futebol para fazer frente às exigências mercantilistas de empresas e instituições que apostam alto para lucrar muito obrigam uma setorização de países para que todos os continentes sejam representados no torneio. Com isso, algumas seleções tradicionais acabam cedendo espaço para outras de menor calibre que, com raras exceções, participam das Copas apenas como figurantes.
Das dezenove edições já disputadas desde 1930 (a edição atual é a vigésima), a Copa teve 78 países participantes, dos quais apenas 8 conseguiram conquistar o troféu (5 vezes o Brasil, 4 vezes a Itália, 3 vezes a Alemanha, 2 vezes a Argentina e o Uruguai, e 1 vez a Inglaterra, França e Espanha). Os outros 70 menos privilegiados tiveram que se contentar com a condição de coadjuvante.
Nas 19 Copas disputadas apenas 6 vezes o país anfitrião ganhou a taça e fez a felicidade da sua torcida.
O Brasil, apesar de pentacampeão, não está entre eles – como todos sabem, sediou a Copa em 1950 e não se deu bem. Quem fez a festa em casa e festejou com ela foram o Uruguai (1930), a Itália (1934), a Inglaterra (1966), a Alemanha (1974), a Argentina (1978) e a França (1998). A Itália, a Alemanha, a França e a Espanha, porém, já passaram também pela desagradável experiência de perder a Copa diante do seu público.
Isto é uma prova de que torcida a favor pode ajudar, mas não necessariamente ganha jogo. Dependendo da pressão exercida e da condição psicológica dos jogadores pode ser até um fator negativo.
O Brasil-2014 está numa situação ambígua.
Seus comandantes adotaram o discurso de que o título é apenas uma questão de tempo e conseguem ver alguma evolução entre as partidas contra a Croácia e contra o México, apesar de os analistas terem visto o contrário. Mas há rumores de que os jogadores se sentem inseguros e alguns novatos demonstram claramente que a camisa está pesando – afinal, encarar a primeira Copa em casa não é fácil.
A imprensa está desconfiada, como sempre, pois por mais que tente transmitir confiança sabe que o Brasil não possui mais o glamour e a qualidade que teve em outros tempos e que esta seleção não é essa coca-cola toda. 
Por outro lado, a torcida canarinho não é uma torcida de clube, que se fecha em torno da equipe e vai até o fim com ele mesmo em situações adversas, como vimos recentemente com as campanhas de Cruzeiro e Atlético na Libertadores.
A torcida da seleção tem na sua maioria famílias de classe média alta que tiveram condições de arcar com os custos da aventura de ocupar uma cadeira numa das arenas cheirando a tinta e que são flagradas pelas câmeras indiscretas fazendo selfies para se auto-registrar na festa ou se empolgando quando sua imagem aparece no telão do estádio, mesmo com o desempenho e o resultado da seleção deixando a desejar.
Tudo indica que o Brasil deve passar sem problemas contra Camarões no jogo de hoje, até por conta da desarmonia existente entre os africanos, mas o que preocupa na verdade é o emparceiramento que virá pela frente.
A torcida terá um papel fundamental no crescimento técnico da seleção, mas para isso precisa apagar a má impressão deixada no jogo contra o México, onde torcedores astecas cantaram, gritaram e incentivaram muito mais do que os brasileiros presentes, mais preocupados em curtir a festa do que em empurrar o time.

 

quinta-feira, 19 de junho de 2014





A COPA E AS COISAS QUE A TV NÃO MOSTRA


ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 19/11/2014

 

Dentro do campo de jogo, a Copa brasileira está sendo um notável espetáculo de participação popular.
O problema é o que acontece nos bastidores de uma festa que deveria ser perfeita, dado o investimento feito, mas que peca na organização como se fosse uma simples quermesse de bairro.
O Brasil não é pioneiro nessa esculhambação – isso já aconteceu, por exemplo, na África do Sul – mas de qualquer forma isto não é desculpa para que os problemas sejam aceitos sem discussão. Afinal, está em jogo o falado “padrão Fifa” e a promessa de que esta seria “a Copa das Copas”.
No estádio da abertura faltou energia elétrica durante certo tempo, caiu a internet e não havia rede wi-fi para comunicação. Lá mesmo um problema hidráulico inundou o vestiário visitante, e os torcedores que estavam nas arquibancadas móveis foram aconselhados a não exagerar na vibração porque a estrutura não parecia confiável.
Em Natal, a Arena das Dunas foi aberta para o público sem a liberação do Corpo de Bombeiros, o que seria uma irresponsabilidade se não estivéssemos em um país onde laudos parecem ser simples formalidades. Quase todos os estádios ainda têm algum acabamento para ser feito e a famosa área do entorno continua mantendo o aspecto de um canteiro de obras.
Assim, se nas chamadas quatro linhas as coisas vão se sucedendo com muita animação (embora com algumas decisões arbitrais bastante discutíveis), com espetáculos que passam muita emoção desembocando em um número de gols acima da média, a gente começa a perceber que sobram problemas na outras dependências dos estádios.
Os serviços “padrão Fifa” deixam a desejar, desde a dificuldade para conseguir entrar no estádio até a falta de refrigerante, cerveja e comida. Os voluntários responsáveis pelo abastecimento das cabines de transmissão e das salas dos jornalistas parecem ter sido mal treinados e demoram horas para providenciar um simples copo de água mineral – sem dúvida muito necessária para ajudar a espantar o calor de quase trinta graus na maioria das arenas.
Constatou-se no Itaquerão que quem comprar ingresso para uma determinada parte das arquibancadas móveis terá apenas 25% de visão do campo de jogo, tendo que se contentar em admirar uma frondosa viga de concreto. 
Do lado de fora das chamadas arenas e das áreas mais ou menos delimitadas para a circulação do público torcedor, manifestantes continuam tentando chamar a atenção da imprensa internacional, a polícia continua reprimindo, as prisões acontecendo e o discurso segue confuso.
As manifestações misturam greves por melhores salários com reivindicações políticas, mas já estão perdendo o apoio da população, que começa a demonstrar cansaço e deseja retomar a liberdade de locomoção e acabar com os transtornos que a situação está causando. Como a imprensa, preocupada com a festa de sons e cores que se desenrola em função do evento, não está mais dando muita cobertura ao movimento, a tendência é acontecer um certo esvaziamento nos protestos.
As manifestações poderão crescer depois que a febre do torneio terminar, mas nesta altura do campeonato parece ser bastante inócuo, para não dizer estúpido, sair quebrando tudo empunhando faixas com dizeres “Não vai ter Copa” ou “Fora Fifa”.
Nas cidades sede, alheios a tudo isso e devidamente protegidos por uma muralha que separa os dois Brasis – o da festa e o do protesto – turistas fantasiados e extrovertidos se confundem com os brasileiros que querem aproveitar este momento único e procuram se divertir e deixar a tristeza pra lá, mesmo quando as suas seleções não vão bem ou ficam dando vexame.
Há uma intensa vibração pela Copa e pelo copo e uma grande preocupação das autoridades para que nada de anormal ocorra durante o período, principalmente com os turistas.
Enquanto isso, a seleção brasileira vai empatando com o México deixando o torcedor com a pulga atrás da orelha. Uma pulga do tamanho de um elefante.

segunda-feira, 16 de junho de 2014







COMEÇOU A GRANDE FESTA DO FUTEBOL
 

(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 16/11/2014)

 

Foi dada a largada para a maratona da Copa, e vamos ter um mês inteiro mesclando euforia e choradeira, críticas e elogios, surpresas e constatações.
A festa do futebol é grande, e os estádios lotados com gente de todas as raças e todas as camisas são prova disso. Tradicionalmente, como ocorre em todas as Copas, os torcedores, sejam amigos ou adversários, se respeitam e confraternizam, numa demonstração que o esporte pode – e deve – ser um catalizador de energias positivas.
O colorido dos estádios e o alarido produzido pela massa em festa traduzem a importância do espetáculo. É como um carnaval fora de época com maior duração, que tende a ficar mais e mais vibrante na medida em que as fases são ultrapassadas, adquirindo um sabor especial se o Brasil continuar caminhando rumo à final.
Por isso, há que se separar o aspecto lúdico e esportivo desta competição do que acontece do outro lado do muro, como passeatas, desordem pública e repressão policial.
Eu sou um apaixonado pelo futebol e acompanho a Copa do Mundo desde 1954 (em 1950 participei timidamente da tristeza da família). A transmissão era precariamente feita pelo radio e a emoção ficava por conta do que passavam os locutores.
Em 1958 o radio ainda foi o grande responsável pelo sentimento dos torcedores, mas eles já se aglomeravam em praças públicas ao redor de painéis sonoros.
Em 1962, dada a proximidade do Chile, onde se realizava o torneio, as partidas eram gravadas em vídeo-tape e as fitas eram despachadas por avião para serem mostradas na televisão dois dias depois dos jogos. Em branco e preto.
Somente em 1970 tivemos a alegria de assistir aos jogos em tempo real – alguns poucos ungidos conseguiram ver a Copa em cores! – e isto colaborou para a grande festa proporcionada pela torcida que foi presenteada com o título.
A partir daí aconteceu uma evolução tecnológica que chega aos dias atuais com transmissões diretas de todas as partidas para todos os lugares do mundo, um verdadeiro banquete para quem gosta de futebol.
A Copa do Mundo possui uma magia toda especial, pois reúne as melhores seleções do mundo – pelo menos aquelas que sobreviveram à dura prova das Eliminatórias – e também os melhores jogadores, com exceção daqueles que se lesionaram ou que atuam em países que não estão presentes.
Sendo um torneio de curta duração a ordem é errar o mínimo possível nestas primeiras rodadas, pois uma derrota pode custar a possibilidade de seguir adiante. Aqui conta tudo, sejam os pontos obtidos, seja o saldo de gols.
A Copa do Mundo é pródiga em surpresas, podendo castigar os favoritos e reabilitar os desacreditados. Por isso os detalhes são tão importantes.
E tudo tem que funcionar à perfeição. Os jogadores têm que se doar ao máximo, mas dosar as energias e o físico para não caírem de produção, os técnicos têm estudar cada detalhe do adversário a ponto de transformar o jogo numa partida de xadrez, e as disputas de bola devem ser viris, mas não violentas, buscando preservar a integridade dos atletas.
As arbitragens também são um fator importante e ponto de equilíbrio no desenvolvimento sadio da competição.
Por isso, erros absurdos como os que aconteceram nos dois primeiros jogos são inconcebíveis e mostraram que o tão exigido “padrão Fifa” está passando longe deste quesito. Na abertura, o Brasil foi claramente beneficiado e ganhou o jogo por conta disso. No segundo jogo, o México foi claramente prejudicado e deixou de estabelecer um saldo de gols que lhe poderá fazer falta mais adiante.
Uma competição esportiva não pode ter a sua credibilidade manchada por absurdos cometidos por profissionais a quem foi entregue a responsabilidade de arbitrar de acordo com as regras. Infelizmente a Fifa candidamente apenas admite que errar é humano, justifica as barbaridades cometidas pelos trios de arbitragem e o barco segue navegando em águas plácidas como se nada tivesse acontecido. 

quinta-feira, 12 de junho de 2014






É HOJE!!!

 

(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 12/06/2014)

 

Único país a ter participado de todas as Copas do Mundo, o Brasil faz hoje a partida inaugural desta edição tão esperada, tão comentada e tão contestada.
O jogo acontece às cinco horas, depois do encerramento da cerimônia de abertura comandada por Franco Dragone, diretor artístico do Cirque du Soleil. A festa começa às três e meia e vai apresentar entre outras coisas, coreografias com rodas de samba, frevo, capoeira, danças gaúchas, carnaval e malabaristas brincando com a bola, além da música oficial da Copa, cantada por Jennifer Lopez, Claudia Leitte e pelo rapper Pitbull. A nossa torcida é para que o jogo seja melhor do que a música.
Ainda não existem referências sobre quem irá proferir o discurso oficial.
Depois, sob intensa expectativa, a bola rola, e seja lá o que Deus quiser. Na voz do povo, que vença o melhor – isto é, o Brasil.
A história nos tem sido pródiga nas estreias, pois conhecemos apenas duas derrotas nestes 84 anos em que as 18 edições foram disputadas, em 1930 e 1934, exatamente quando ainda procurávamos nos conhecer e avaliar o nosso potencial. É claro que, devido ao formato do torneio naquele tempo, as derrotas iniciais contra a Iugoslávia e a Espanha (2x1 e 3x1) foram não apenas iniciais como também definitivas, pois fomos eliminados no ato.
Ao longo do tempo, exceção feita a 1974 e 1978, quando empatamos com a Iugoslávia e a Suécia – respectivamente 0x0 e 1x1 – o Brasil venceu em todas as estreias. Foram 14 jogos com 40 gols marcados e apenas 10 sofridos (esta marca defensiva poderia ser mais expressiva se não tivéssemos sofrido 5 gols num único jogo contra a Polônia em 1938, quando ganhamos por 6x5).
Com exceção do México – que enfrentamos três vezes sem tomar nenhum gol – e da Coréia do Norte, nossos adversários iniciais sempre foram do bloco europeu. Foram eles a Áustria, a Bulgária, a Checoslováquia, a União Soviética, a Espanha, a Suécia, a Rússia, a Escócia, a Turquia e a Croácia.
Se valer a torcida, o Brasil tem a seu favor o fato de ter sempre vencido as primeiras partidas nas Copas em que levantou o título – Áustria 3x0 em 1958, México 2x0 em 1962, Checoslováquia 4x1 em 1970, Rússia 2x0 em 1994 e Turquia 2x1 em 2002. 
Nós já topamos com a Croácia em um primeiro jogo, em 2002, quando vencemos por um magro 1x0 no Olympiastadium de Berlim, com um gol solitário de Kaká no final do primeiro tempo.
O Brasil contava também com Cafu, Roberto Carlos, Zé Roberto, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Adriano e, livradas as proporções, pois a Copa foi disputada na Alemanha, éramos possivelmente até mais favoritos do que hoje. 
O jogo foi nervoso e difícil, e a Croácia, legítima filha da Iugoslávia, que sempre se mostrou um adversário de espeito, marcou com eficiência e anulou as principais jogadas dos nossos atletas.
Oito anos depois, o Brasil não tem no seu elenco nenhum dos jogadores que atuaram naquela partida, mas a Croácia tem dois, mais velhos mas também mais amadurecidos – o goleiro Pletikosa e o zagueiro Srna. Teria três, não fosse a contusão de Kranjcar.
E não resta dúvida que os croatas vão repetir o estilo de jogo da Copa da Alemanha, procurando manter o time atrás e buscando o contra-ataque, porque para eles segurar um empate seria um resultado heroico.
Já o Brasil precisa melhorar o rendimento que teve nos dois últimos amistosos contra o Panamá e a Sérvia e caprichar na marcação sob pressão para ganhar a posse de bola e evoluir com rapidez, apostando no jogo individual de Neymar para forçar a Croácia a fazer faltas nas proximidades da área, e na capacidade de definição de Fred.
É fundamental que o time marque um gol ainda no primeiro tempo para baixar a pressão da torcida sobre o grupo e poder jogar com tranquilidade.

terça-feira, 10 de junho de 2014





ENTREVISTAS, PAINÉIS E SALTO ALTO

 
ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 09/11/2014

 

Os dias que antecedem uma Copa do Mundo são de uma intensa chatice jornalística, pois não há nada mais complicado do que relatar o anteclímax de um evento.
A imprensa se alimenta de fatos, e quando os fatos inexistem ou estão escondidos resta apenas a especulação, que todos procuram evitar, pois o risco de praticar o antijornalismo é muito grande se o profissional atentar apenas para os boatos e as meias-verdades.
Na falta do que fazer, as emissoras de televisão estão juntando o útil ao agradável – embora inútil e desagradável para os telespectadores na maioria das vezes – apresentando longas e entediantes entrevistas com os jogadores. 
O contrato das emissoras com a CBF obriga a entidade a disponibilizar as suas celebridades cujas entrevistas são mais ou menos direcionadas pelo assessor de imprensa Rodrigo Paiva. Obriga também as emissoras a fazer a cobertura, se não para informar, pelo menos para mostrar a logomarca dos patrocinadores, estrategicamente colocadas num painel amarelo como pano de fundo.
Assim, o telespectador pode entrar em contato visual com os responsáveis pela transmissão das partidas da Copa. E dá-lhe Guaraná Antártica, Vivo, Banco Itaú, Volkswagen, Sadia, Nestlé, Mastercard, Samsung, Gol, Seguros Unimed, Extra, Gilette e Nike, cada qual responsável por uma gorda fatia do faturamento da Fifa, da CBF e das emissoras.
É bom que fique claro para todos que ao declinar estes nomes o autor deste artigo não tem acesso a nem um tostão da verba e que faz menção a eles somente para que o leitor possa imaginar o custo x benefício das fastidiosas entrevistas.
Nas primeiras delas foram entrevistados Felipão, seu escudeiro Murtosa e o coordenador Parreira, que encheram a bola dos jogadores afirmando que o Brasil ganhará a Copa. Depois veio o médico Doutor Runco com a sua entourage tratando os jornalistas com casca e tudo – alguma coisa tinha que sobrar da era Dunga. Só depois os jogadores foram comparecendo, aos pares, dia após dia.
Entrevistas deste tipo não acrescentam nada a quem quer realmente saber sobre as coisas do futebol. Os mesmos repórteres fazem sempre as mesmas perguntas e os atletas dão sempre as mesmas respostas pasteurizadas.
É como se fosse um ritual ensaiado onde não faltam afirmações sobre o ânimo das atletas, o clima de amizade existente entre eles, a confiança no “professor” e nos resultados positivos para a conquista do título e o respeito aos adversários. E não podia mesmo ser diferente, até porque para a maioria dos jogadores faltam o brilho e a eloquência discursiva e sobram recomendações para que roupas sujas não sejam lavadas em público – caso as roupas precisem mesmo ser lavadas, que o sejam no mais íntimo recesso da concentração, de preferência com a participação apenas dos envolvidos e dos seus chefes.
As declarações dos jogadores são sempre os mesmos e manjados chavões, restando ao torcedor uma réstia de esperança de que algum deles tropece e fale alguma coisa fora do script. Mas, entrevistas e painéis à parte, parece ser impossível que não se instale na concentração um clima de oba-oba, pois o entra-e-sai de pessoas ligadas aos patrocinadores, de astros da televisão, familiares e ex-jogadores faz com que a concentração crie um ar de descontração, transformando tudo em uma grande desconcentração.
Segurar a taça antes do tempo e comemorar os gols antes deles ter saído pode ter um efeito muito negativo. 
Está faltando a observância de uma regra que sirva para todos – dirigentes, jogadores e até alguns jornalistas mais engajados: evitar o perigoso discurso do “já ganhou”.  
A história mostra precedentes perigosos, pra não dizer fatais. 

                                                                                        Augusto Pellegrini

sexta-feira, 6 de junho de 2014





A PROFECIA DOS 16 ANOS

 

(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 05/05/2014)

 


A internet publicou há alguns dias um estudo apócrifo que prevê dificuldades no percurso do Brasil nesta Copa do Mundo. Trata-se de um trabalho nada científico, mas muito preocupante para o destino da nossa seleção. Pelo teor das previsões, é bom o torcedor se preparar com rezas, água benta e uma série de toc-toc-tocs na madeira a cada jogo do escrete.
Não há qualquer embasamento nesta teoria desastrosa; na verdade, ela entra em choque com o natural favoritismo da nossa seleção.
Afinal, motivos para este favoritismo não faltam. Somos de fato mais favoritos que os outros favoritos – teoricamente Espanha, Alemanha, Argentina, Holanda e Itália, não necessariamente nesta ordem – porque jogamos em casa e temos um time entrosado, porque tradicionalmente os adversários, na sua maioria, tremem quando estão nos enfrentando e porque Deus é brasileiro.
Alguns numerólogos, no entanto, resolveram construir uma sequência algorítmica que prova por a + b que esta não será a Copa do Brasil. Tudo por causa do número 16.
Vamos ver como a coisa funciona.
Por uma infeliz coincidência, a cada 16 anos depois do desastre de 1950, favorito ou não, o Brasil sofre um revés que significa a perda do título. A sequência cabalística obedece à progressão dos anos 1950, 1966, 1982, 1998 e finalmente chegou a 2014. Assim, é bom Felipão, Parreira e toda a trupe passar por uma benzedura generalizada antes do dia 12.
Em 1950 o Brasil era o grande favorito, e tinha a seu favor o fato de que, com os rescaldos da Segunda Guerra, muitos antigos papões (França, Tchecoslováquia, Hungria, Polônia e Argentina) não estariam presentes; além do mais, o torneio contaria com apenas treze participantes. O Brasil tinha sabidamente uma grande equipe, jogou a partida final dependendo de um empate, começou o segundo tempo vencendo por 1 x 0 e acabou sofrendo a virada para o Uruguai.
A redenção veio oito anos depois. Ganhamos em 1958 com autoridade e repetimos a dose em 1962 com uma seleção envelhecida, mas em 1966 tropeçamos de novo na praga dos 16 anos, com uma campanha pífia e a eliminação ainda na primeira fase com as derrotas para a Hungria e para Portugal.
Quatro anos mais tarde – 1970 – ganhamos novamente, e novamente com autoridade, contando com a ajuda do clima equatorial e da torcida mexicana. Depois disso enfrentaríamos um hiato de vinte anos, com a maldição da sequência nos contemplando em 1982. Neste ano o Brasil formou uma seleção de craques, uma das melhores de todos os tempos, mas perdeu para a Itália mais uma partida em que precisava apenas de um empate.
1994 nos devolveu a alegria de erguer a taça, com uma seleção compacta na defesa, iluminada no ataque por conta de Bebeto e Romário, mas definitivamente sem brilho. O adversário era a Itália, e o título veio apenas na cobrança das penalidades após uma das mais fracas finais de Copa que se tem notícia.
A bruxa dos 16 anos veio com toda a força em 1998, com o Brasil chegando à final com pinta de favorito para ser goleado pela França – 3 x 0 – depois de um inexplicável e inexplicado apagão sofrido pelo craque do time, o atacante Ronaldo, que chegou a ser hospitalizado horas antes do jogo depois de uma convulsão que provocou lágrimas e tensão nos outros jogadores.
Teria esse episódio alguma ligação com o fatalismo dos 16 anos? Não se sabe, mas tendo ou não acabou sendo uma infeliz coincidência, embora na época ninguém tivesse atentado para o problema cabalístico.
Pronto. Chegamos a 2014, exatamente 16 anos depois da derrota no Stade de France, em Saint-Denis. Ou quebramos a escrita ou institucionalizamos a maldição.
Toc-toc-toc.

segunda-feira, 2 de junho de 2014







O TERCEIRO SEGREDO DE FÁTIMA

 

O jogador Ruy Bueno Neto, também conhecido por Ruy Cabeção, esteve em visita à presidente Dilma Rousseff na companhia de outros atletas representando o Bom Senso F.C. a fim de colocá-la a par das desventuras por que passa o futebol brasileiro e das reivindicações da categoria.
Ruy, que já passou por diversos clubes – entre eles Cruzeiro, Botafogo e Fluminense – está temporariamente desempregado depois de uma temporada no Operário-MT, do qual saiu sem receber os devidos salários.
Ipso facto, ele resolveu juntar as suas mágoas às reivindicações do Bom Senso F.C. (reivindicações essas que incluem atrasos de pagamento aos jogadores) e aproveitar a oportunidade para chorar nos ombros da principal mandatária do país, que abriu uma brecha na sua agenda para escutar os boleiros.
Também faziam parte da comitiva os jogadores Alex (Coritiba), Juan e Dida (Internacional) e Gilberto Silva (sem clube), além do ex-jornalista da SporTV Toninho Nascimento, atual Secretário Nacional de Futebol e Direitos do Torcedor.
A conversa versou sobre o calendário da CBF – a quantidade excessiva de jogos que um profissional tem que atuar por ano e o período apertado das férias dos atletas. Ironicamente, versou também sobre o aperto por que passam os jogadores de clubes menos expressivos que, ao contrário, atuam apenas alguns meses durante o ano devido à falta de torneios oficiais.
Também foi exposto à presidente a falta do comprometimento dos dirigentes dos clubes em cumprir as suas obrigações contratuais, ficando às vezes meses sem pagar salários, bichos e direitos de imagem. Esta situação é menos grave para aqueles atletas que recebem salários polpudos – na verdade, poucos – mas é absolutamente crítica para a grande maioria que ganha uma mixaria por mês.
De acordo com Ruy Cabeção, ao ouvir a peroração, Dilma ficou “estarrecida”, pois jamais suspeitara desta triste realidade num país onde os clubes fazem transações milionárias, têm patrocínios também milionários, não prestam conta das suas atividades financeiras a nenhum Tribunal de Contas e não têm as obrigações fiscais de uma empresa regular (isto é, não pagam certos impostos por serem associações sem fins lucrativos). Ela não imaginava “que essas coisas acontecessem no país do futebol, no Brasil pentacampeão”.
Entende-se que a presidente, assoberbada que é com os macro problemas do país – que incluem negociação com partidos políticos, a inquietação da patuleia, viagens diplomáticas, manutenção de uma base política, preocupação com a política econômico-financeira e contatos com sua equipe de marketing para cuidar da imagem – não tenha sido devidamente informada pelos seus assessores sobre os problemas existentes na administração do futebol no Brasil.
Seus encontros com o Ministro dos Esportes, Aldo Rebelo – também presente à reunião, mas possivelmente menos estarrecido – devem ter se limitado aos detalhes sobre a Copa e um ou outro deslize da CBF de boa lembrança.
A situação me faz lembrar o Terceiro Segredo de Fátima, que será divulgado ao conhecimento público até 31 de outubro deste ano.
Reza a lenda que cada novo Papa que assumia o pontifício ao longo do tempo era informado sobre este terrível segredo, ficava estarrecido, chorava, e começava a orar com muita devoção. Em maio de 2000 o Papa João Paulo II divulgou o Segredo em segredo, só para alguns iniciados. Todos oraram e choraram, pois o Segredo vaticinaria coisas terríveis como uma guerra nuclear, assassinatos em massa incluindo o próprio Papa, Bispos e Cardeais e a entronização de um papa impostor – um Antipapa.
Não sei se isto é bom ou ruim para o Bom Senso F.C., mas a presidente, apesar de estarrecida, não chorou nem orou. Também não há notícia que ela, a quarta mulher mais poderosa do mundo de acordo com a revista Forbes, irá tomar alguma providência de impacto para resolver o problema.

quinta-feira, 29 de maio de 2014






O CAOS É AQUI 

 

(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 28/05/2014) 

 

Faltam duas semanas para a partida inaugural da Copa 2014. Em outros tempos os grandes centros do país estariam respirando um clima total de festa e de euforia, mas alguma coisa não está de acordo com o programa, e muitas nuvens cinzentas cismam em embaçar a paisagem.
Pode-se culpar de tudo um pouco, mas o que parece é que a Copa chegou por aqui num momento de conjunção astral inadequado.
O súbito desassossego social é sem dúvida o fator dominante do frisson negativo que paira no ar, pois funciona como um vetor para que as sombras se avolumem e cubram as cidades-sede de temor e incerteza.
Vamos – ou pelo menos deveríamos – receber milhões de turistas que fizeram suas reservas usando a Copa como pretexto para viver as delícias do Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza ou Recife, fazendo de junho-julho um grande carnaval. Mas a Embratur informa com muita apreensão que a lotação dos hotéis ainda está 40% abaixo do esperado.
Muitos empresários do ramo de hotelaria construíram novas unidades ou ampliaram as existentes, contrataram pessoas e modernizaram as estruturas na esperança de um mês de sonho, mas estão esbarrando na situação até pouco impensada de um caos completo que vai aos poucos tomando conta do país, com manifestações, greves e violência.
Existe um verdadeiro levante popular contra tudo o que se conhece, vê e imagina de errado – movimentos que reivindicam melhorias salariais, exigências por uma melhor educação, saúde e segurança, inflação em alta, corrupção nos meios governamentais – e a Copa acabou entrando a reboque, como se a sua realização fosse a única responsável por este estado de coisas.
Ingênuos são aqueles que são contra a Copa apenas porque “o futebol é o ópio do povo” e outras patacoadas do gênero. A Copa do Mundo é, em si, um evento esportivo admirável e reconhecido através dos tempos, e é sempre motivo de orgulho para o país que a patrocina. A gritaria não deveria ser contra a Copa, mas sim contra os oportunistas espúrios que estão se aproveitando da ocasião para transformar o evento em uma feira de negócios – e aqui eu me reservo o direito de não declinar nomes, até porque todos sabem quais são esses nomes.
Os políticos fazem do ufanismo, por um lado, e do desgoverno, por outro, as suas plataformas de campanha, e o povo, entre manifestantes pacíficos, vândalos a serviço de quem quer ver o circo pegar fogo e a população prejudicada na sua mobilidade e segurança, aguarda o desfecho desta maratona que deveria se ater apenas ao futebol, mas que movimenta todo o país de forma negativa como se estivéssemos à beira de uma guerra civil.
Com certeza a falta de conforto nos aeroportos, a mobilidade prejudicada ao redor dos estádios, a ausência de uma rede de comunicação confiável e a exploração turística em todos os níveis são os menores dos problemas.
Os maiores problemas são a atuação de um Estado inerte que não sabe tirar vantagem de um evento que tinha tudo para ser favorável, a falta de rigor no controle dos gastos e a aquiescência tímida a todos os mandos e desmandos da Fifa, que literalmente governará o país por um mês, pelo menos nas cidades que abrigarão os jogos.
Restarão como herança alguns estádios de primeiro mundo erguidos em terras de ninguém, sem perspectivas de manutenção e com uma deterioração prevista em curto prazo (igual ao que acontece com o Engenhão, construído para os Jogos Pan-Americanos de 2007 e hoje entregue ao Deus dará).
A situação chegou a tal ponto que até antigos parceiros e entusiastas, como é o caso de Pelé e de Ronaldo Nazário já estão abandonando o barco e revendo os seus discursos, enquanto a Fifa não para de alfinetar e tratar o Brasil como um país menor.
A propaganda do Brasil no exterior, nesta era de internet e de redes sociais está sendo a pior possível, misturando a triste realidade de um país de extremos a uma ficção assustadora que toma feições de verdade.

 

 

segunda-feira, 26 de maio de 2014






CAMISA AMARELA

 

O compositor e pianista Ary Barroso compôs o samba “Camisa Amarela” em 1939, um ano depois de o Brasil chegar em terceiro lugar na Copa do Mundo da França.
Para quem não lembra ou não conhece, a música começa com “encontrei o meu pedaço na avenida de camisa amarela cantando a Florisbela, oi, a Florisbela...” e pode ser ouvida no youtube nas vozes de Nara Leão, Gal Costa ou Aracy de Almeida. Posso adiantar que vale a pena.
Naquele tempo, as cores do escrete eram branco e azul, e o nosso compositor não fazia a menor ideia de como tudo estaria mudado setenta e cinco anos depois e qual seria a importância de uma camisa amarela no Brasil do futuro.
O escrete adotaria a cor amarelo-canário na camisa quinze anos mais tarde e quatro anos depois dessa adoção deixaria de ser um perdedor. A citada avenida também não mais abrigaria o também decantado carnaval – então quase um bloco de sujos – que seria transportado para um engalanado sambódromo, com direito a arquibancadas, camarotes e cobertura da televisão (também naquela época apenas um sonho em formatação).
Quando morreu, em 1964, Ary já havia percebido o significado de uma camisa amarela, depois de um bicampeonato tupiniquim, bem apropriado para ele que adorava futebol (era também locutor esportivo e um flamenguista alucinado) e amava as coisas do Brasil, que estampou nas suas músicas como poucos o fizeram.
A camisa amarela virou vestimenta obrigatória do cidadão brasileiro de quatro em quatro anos, crescendo de importância ao mesmo tempo em que o samba de Ary caía no esquecimento e dava lugar a outras novidades.
Se a camisa amarela já era uma febre quando a Copa do Mundo era disputada em longínquos rincões, imaginem agora, que a febre vai se espalhar dentro do próprio Brasil e unir os torcedores que roem as unhas durante os jogos da seleção, a despeito de outros tantos que aproveitarão o espaço democrático para fazer manifestações, reivindicatórias ou não.
O clima de futebol está pouco a pouco aquecendo nestas semanas que antecedem o pontapé inicial, e os grandes clubes brasileiros vão se engajando na proposta de colaborar com o evento, cedendo de boa vontade – embora compulsoriamente – seus centros de treinamento para abrigar as seleções estrangeiras, e adotando a camisa amarela como uniforme oficial nos jogos do Campeonato Brasileiro, deixando de lado as suas cores tradicionais.
É claro que por trás desse patriotismo clubístico existe dinheiro – muito dinheiro. Os homens do marketing estão aproveitando a deixa e explorando a tática manjada de criar um novo modelo de camisa oficial – que eles chamam de uniforme número três – para consumo dos colecionadores, dando a eles novas opções de escolha dentro da lojinha dos clubes.
A Nike, parceira da CBF, promoveu o lançamento simultâneo das camisas amarelas dos clubes para os quais fornece o uniforme – Corinthians, Santos, Internacional, Coritiba e Bahia – enfatizando a importância da sua valorização para que os torcedores estabeleçam uma identificação entre os seus clubes e a seleção canarinho.
O Cruzeiro e o Palmeiras também embarcaram na onda, apesar de, respectivamente, terem a Olympikus e a Adidas como patrocinadoras, mas tiveram que pedir o aval da CBF. E a Penalty, em cima da hora, também lançou camisas amarelas para o São Paulo, o Figueirense, o Vasco, o Santa Cruz e o Ceará, que talvez não cheguem a envergá-las no campeonato, mas as colocarão à disposição dos torcedores colecionadores.
Mas existe um detalhe: tem muito torcedor que, mesmo torcendo pela camisa amarela da seleção, não aprova a ideia de ver seu clube mudar de cores e está torcendo o nariz com a descaracterização dos uniformes, por achá-la esdrúxula e descabida.
Porque, no futebol, a tradição ainda conta muito.