segunda-feira, 28 de julho de 2014






FAIR PLAY

 (ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 28/07/2014)

Existe um assunto mal resolvido no futebol. Tão mal resolvido que a própria International Football Association Board – que é quem define as regras a as orientações para a aplicação dos senhores árbitros – se omite e escapa pela tangente.
Para este assunto, de uma forma geral, não existem regras claras nem interpretativas por parte da arbitragem, cabendo aos jogadores no calor da disputa decidir o que pode e deve fazer com base nas suas próprias observações, na sua formação ética e na necessidade de vencer.
Estamos falando do “fair play”.
Fair play, traduzido por “jogo limpo”, é uma atitude que pode ser tomada em qualquer situação, não apenas no futebol, e tem o significado oposto do da “Lei de Gérson”, onde se preconiza que o cidadão – brasileiro, de preferência – deva levar vantagem em tudo.
Mas é sobre o fair play – jogo limpo – no futebol que estamos falando.
A ocorrência mais comum do fair play é quando um jogador se machuca em um lance não faltoso, isto é, o árbitro manda a partida prosseguir. Neste caso, por um acordo de cavalheiros, o jogador do time contrário ao atleta contundido joga a bola para fora  a fim de possibilitar o atendimento médico ao companheiro de profissão. Isto é mais do que jogo limpo, é conduta humanitária.
Afinal, e se o jogador estiver necessitando de cuidados urgentes e inadiáveis? E se o problema for tão grave que o prosseguimento da partida possa resultar em uma tragédia?
Vez por outra, o árbitro toma a frente do problema e paralisa a partida para o atendimento, e na maioria das vezes – graças a Deus! – o jogador deixa de se contorcer e se levanta lépido e fagueiro, enquanto o seu time retoma a posse da bola para decidir se a mantém ou devolve para o adversário.
Muitas vezes, porém, o jogador que cai simula contusão apenas para paralisar o jogo ou retomar a posse da bola, e isto definitivamente não é jogo limpo.
Ocorre que boleiro é boleiro, esperto e matreiro, e conhece toda a malandragem do adversário, até porque também a pratica. E às vezes se nega a colocar a bola para fora porque sabe que o gesto da vítima é pura teatralidade.
Aí então, como se diz na gíria futebolística, o pau come! Os adversários investem contra ele com ganas de esganá-lo e cabe então ao mediador tomar as devidas providências para acalmar a turba, com um simples chega pra lá ou a distribuição de cartões para os mais exaltados.
Quanto mais malandro for o futebolista – e os sul-americanos são mestres nisso – mais frequente será a encenação. Quanto mais o jogador se contorcer no gramado maior será a certeza de que tudo não passa de embromação.
Este tipo de atitude é mais raro no futebol europeu e muito mais raro no futebol asiático, por respeito ao público, ao adversário e a si próprio.
Os árbitros, tão senhores de si quando marcam com convicção faltas e pênaltis existentes ou não, e ainda com maior convicção distribuem ou não distribuem cartões, dependendo de um critério absolutamente pessoal, ficam intimidados diante de uma situação como essa que estamos discutindo.
E o fair play acaba se limitando a isso, como se não existisse sujeira ética ou malandragem em outras situações de jogo, onde a firmeza do árbitro seria fundamental.
Demora na reposição de bola e na substituição de jogadores quando o resultado interessa ao time que as pratica também é absoluta falta de fair play, por exemplo.
Mas é muito comum isso acontecer e geralmente fica tudo por isso mesmo, sem que o árbitro tome qualquer medida punitiva.

 

quinta-feira, 24 de julho de 2014






ELEFANTES DOURADOS

 (ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 24/07/2014)

De todos os estádios construídos ou reformados especialmente para serem utilizados em algumas poucas vezes na extinta Copa, chamam a atenção as arenas de Cuiabá, Manaus e Brasília, não necessariamente nesta ordem.
Obras muito bem projetadas pela moderna arquitetura, serviram ao propósito desejado pela organização do torneio, que não poupou dinheiro para erigir monumentos fora do contexto e da realidade em que vive o país. Tudo em prol do muito comentado e pouco digerido “padrão Fifa” e dos inevitáveis gastos mal explicados e muito convenientes para muita gente.
Passada a febre que contagiou as cidades-sede com as passagens de muitas seleções e a realização de algumas partidas empolgantes, a administração caiu em si.
Não é necessário pensar em fórmulas mirabolantes nem em complicados estudos científicos para que o absurdo seja constatado. A plena e fria aritmética explica.
A Arena Pantanal, de Cuiabá, foi construída para abrigar um público de 43 mil espectadores, custou R$ 570 milhões e foi palco de quatro partidas. O público que assiste aos jogos regulares disputados no estádio dá uma média de 4.600 torcedores por partida, contando com os clássicos regionais e com partidas que têm a participação de clubes de outros estados.
Por mais que a Copa do Mundo tenha despertado nos habitantes da região um gosto especial pelo futebol, e por mais que o estádio ofereça conforto para o torcedor, esta média não irá crescer significativamente, e continuará na faixa dos 10% da lotação projetada.
Ocorre que a manutenção de um gigante desses é muito cara e exige cuidados constantes para evitar a sua deterioração.
A construção do estádio já demandou muito dinheiro dos cofres públicos com um improvável retorno. Acrescente-se a isto a taxa de desvalorização de um patrimônio público e chegamos ao tamanho da encrenca em que o futebol do Pantanal se meteu.
Com certeza, a Federação local, em parceria com a Prefeitura e talvez com o Governo Estadual faça uma programação de jogos com atrações de outros estados, ou até de outros países, mas isto terá também um custo alto, o que só fará aumentar a bola de neve.
Um jogo com uma equipe de outro lugar demanda despesas com passagens aéreas, hospedagem, cachê ou participação na renda, e mais algumas inerentes ao funcionamento do estádio.
Resta saber quem assumirá o risco e quantas vezes a mágica desse empreendimento poderá dar certo.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado a Manaus e Brasília.
A Arena da Amazônia, que também abrigou quatro jogos da Copa, custou R$ 670 milhões, foi construída para um público de 42.000 pessoas e tem um público médio de 3.300 pagantes.
O Estádio Nacional de Brasília recebeu seis jogos, custou R$ 1,4 bilhão, tem capacidade para 68.000 espectadores e o público médio de pouco mais de 1.000 pessoas.
Estes estádios, assim como a Arena das Dunas em Natal têm sido chamados pela imprensa de “elefantes brancos”.
Pela proporção gigantesca da sua inutilidade e do prejuízo financeiro provocado ao Estado brasileiro, que reflete nos nossos bolsos, prefiro chamá-los de elefantes dourados, pois brilham como ouro, embora não passem de uma fina bijuteria.  

 

 

terça-feira, 22 de julho de 2014






                                                AS MUDANÇAS COMEÇARAM

 (ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 22/07/2014) 

Tentando superar o sentimento fúnebre dominante e dar uma satisfação às cobranças pesadas feitas através da mídia esportiva, a CBF começou a se mexer tendo em vista as futuras atividades da seleção brasileira.
De acordo com o presidente Marin, “as mudanças começaram”.
Algumas decisões foram tomadas logo após a derrota para a Holanda, como as demissões de Felipão, Parreira e toda a comissão técnica de campo.
Diz o presidente que mais do que o desgosto pela derrota pesaram a empáfia e a falta de respeito dos comandantes para com os jogadores.  
Nos dias seguintes todo o resto da turma foi defenestrado, inclusive os arrogantes e presunçosos Doutor Runco e Rodrigo Paiva. E todos já vão tarde.
Feita a faxina, a CBF havia ficado de anunciar o nome do novo técnico, deixando claro que em hipótese alguma seria um treinador estrangeiro.
A imprensa comentou que o “estrangeiro” poderia ter sido o ex-jogador Leonardo, e as apostas começaram recaindo sobre Tite e Muricy.
Em nome das “mudanças”, porém, o presidente Marin escolheu Dunga, que tem uma limitada experiência como técnico, e sua escolha é na verdade um verdadeiro retrocesso. Dunga não é um estudioso, não tem diálogo e continua vivendo na década de 1990. Dias piores virão.
Por enquanto Marin mantém o técnico do futebol de base (e “olheiro” mal sucedido) Alexandre Gallo, mas tudo indica que o próximo técnico vai assumir a responsabilidade por todas as divisões da seleção.
Sendo assim, as mudanças começam de fato, “pero no mucho”, pois se restringem à seleção, mantendo a organização do futebol dos clubes na mesma. Pelo visto, não existe qualquer empenho em mudar a filosofia de trabalho e acabar com os vícios existentes.
Pra começar, como bem apontou o jogador Alex, do Bom Senso F.C., “quem comanda o futebol brasileiro não é a CBF, é a Rede Globo, que determina desde a tabela até os horários dos jogos para combinar com a sua grade de programação”. À CBF sobra apenas a administração das seleções, mas nem isto está sendo bem feito.
A entidade continua chamando para o seu time apenas os velhos parceiros, pois considera mais importante a obediência cega aos seus princípios do que uma renovação pra valer. Assim, continua cercada de profissionais ultrapassados que jamais tiveram a humildade de notar que, apesar deles, o mundo evoluiu.
Mas a falta de visão de Marin, Del Nero & Cia. vai além.
Para a Coordenação de Futebol da CBF, com plenos poderes para navegar em qualquer área (mas com poderes de decisão limitados à aprovação dos chefes), o presidente chamou o ex-goleiro Gilmar Rinaldi, que nunca exerceu função semelhante, pois sua experiência se baseia no trato financeiro com atletas, posto que é agente Fifa desde 1999, trabalhando com corretagem de jogadores. Isto transforma sua convocação em um perigoso conflito de interesses. O ex-jogador Romário declarou temer “que ele possa fazer do seu cargo na CBF um grande balcão de negócios”. Tudo é possível.
Independentemente disso tudo, parece claro que Gilmar Rinaldi não possui o perfil exigido para o cargo, jamais fez um curso de gestão esportiva e não parece vir com ideias de mudanças.
A CBF precisaria ter a humildade de convocar um grande conselho de notáveis e dele participar com os ouvidos abertos a propostas e sugestões, mas é pouco provável que isto aconteça.
O futuro do futebol brasileiro está incerto e pode ainda levar muito tempo para que ele venha a se acertar.
O tempo dirá.

quinta-feira, 17 de julho de 2014







A COPA – CONSIDERAÇÕES FINAIS


(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 17/07/2014)


A magia da Copa do Mundo já faz parte do passado. Mas antes de voltarmos a atenção para as nossas coisas domésticas vale a pena praticar um pouco de reflexão sobre os trinta dias que empolgaram o mundo esportivo.
Primeiro, faça-se a feliz constatação de que apesar dos inevitáveis senões as previsões catastróficas que se projetavam não foram concretizadas.
O tráfego aéreo e a mobilidade urbana não foram piores do que costuma acontecer nos períodos normais de pico. O tráfego de veículos foi espertamente reduzido com a adoção de feriados nas cidades onde aconteceriam jogos e para uma grande maioria de turistas habituados a aventuras, todas os problemas e vicissitudes foram levados na maior esportiva.
Todos os estádios tremeram, mas nenhum desabou.
Algumas manifestações e protestos chegaram a acontecer, reunindo grupos irrisórios de militantes, mas foram cessando aos poucos porque o eco dos torcedores era imensamente maior.
Não se têm notícias sobre apagões ou problemas mais sérios com a banda larga ou com as conexões telefônicas e evidentemente foi batido o recorde de postagens via redes sociais e mensagens de e-mail. Jornalistas e turistas estrangeiros foram unânimes em declarar que chegaram ao Brasil bastante preocupados e saíram bastante satisfeitos.
De lucrativo, a rede hoteleira, os profissionais do turismo, as companhias aéreas e todos os espertalhões que cobraram os olhos da cara para faturar alto e tirar a diferença do resto do ano, entre eles taxistas, vendedores ambulantes e locadores de ocasião. De negativo, a redução das vendas no comércio, a queda de produtividade das empresas, a balbúrdia em áreas residenciais, a máfia dos ingressos, uma ou outra inevitável pancadaria e a sensação anestésica de que tudo está às mil maravilhas por aqui.
No Maranhão, até as tradicionais festas juninas perderam um pouco do seu interesse, e donos de restaurantes que não montaram telões para congregar os ruidosos torcedores ainda estão contabilizando os prejuízos. 
No campo político, acreditamos que o mau desempenho da seleção brasileira não terá repercussão alguma sobre as eleições que se aproximam porque o povo parece estar bastante seguro em não misturar futebol com política, apesar de os candidatos, os seus marqueteiros e os partidos acharem que podem ganhar ou perder votos com isso. Mesmo a realização da Copa, objeto de discussões entre a turma dos “a favor” e dos “contra” acabou ficando no empate, pois até os críticos mais mordazes do evento se renderam à mágica do espetáculo.
No campo, o Brasil trouxe à baila velhos problemas vivenciados em Copas anteriores – e bem anteriores, se começarmos a contar a partir do “já ganhou” de 1950. Naquela ocasião, políticos e oportunistas sagraram o Brasil campeão antes da partida final, e em 2014 o recado da dupla Parreira-Felipão era que “o Brasil já está com a mão na taça” antes sequer de entrar em campo na partida de estreia.
Em 1966, como agora, a trapalhada foi feita na convocação. Centenas de jogadores foram chamados e testados, mas os selecionados definitivos acabaram não atendendo às expectativas e naufragaram com o time.
Em 2006 o comando sob as ordens de Parreira se mostrou frouxo e ultrapassado, como frouxa foi a postura dos jogadores em 2014, evidentemente influenciados pela falta de postura tática do técnico e pela discutível psicologia aplicada.
De 2010 herdamos a arrogância e a falta de competência na hora de tomar decisões em como virar o jogo e utilizar o banco de reservas.
Definitivamente, uma seleção que não treina opções de jogo nem se prepara para jogar de uma forma específica contra cada adversário não pode mesmo dar certo.

segunda-feira, 14 de julho de 2014






A FESTA CHEGA AO FIM

(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 14/07/2014)

Chega ao fim a Copa do Mundo dos paradoxos, objeto de festa e de discórdia, de grandes exibições e de surpresas, de alegrias e de frustrações.
O Brasil se propôs realizar a Copa das Copas e, no que diz respeito ao futebol, conseguiu. A Copa foi repleta de lances fantásticos, de jogos eletrizantes, craques, gols e muita vibração. Um sucesso, enfim.
Em nome da emoção, os aspectos negativos foram minimizados e a imprensa, de um modo geral, vestiu a camisa do evento. Comentaristas de diversas áreas – economia, política e variedades – deixaram de lado a inflação, a sucessão presidencial e as temporadas de música para discutir com fervor coisas como a tática utilizada pela Bélgica e os pecados de Luiz Felipe Scolari.
Durante trinta dias o futebol dominou a pauta da notícia e mostrou que o esporte pode ser mais forte do que a desorganização, a falta de planejamento e as mazelas de um país.
A grande mensagem que a Copa passou para o mundo foi a de congraçamento, pois a segurança especial montada nas proximidades das arenas, a violência, a truculência e o enfrentamento perderam de goleada para a festa proporcionada pelos turistas de diversos países e regiões do Brasil.
Infelizmente a seleção brasileira não fez a sua parte.
Por mantermos a antiga arrogância (continuamos achando que somos os melhores e fechamos os olhos para o crescimento técnico de outras seleções), não acompanhamos a evolução por que o futebol passa no resto do mundo e apresentamos um padrão técnico inferior às outras potências do esporte, decepcionando até os adversários.
A rigor, países como Irã, Argélia, Grécia, Costa Rica, Austrália e Estados Unidos, com um material humano limitado, apresentaram um futebol mais organizado e rico de opções do que o Brasil. A seleção brasileira só conseguiu ser mais estruturada do que as seleções dos países africanos, que devido à falta de disciplina e comando se encontram atualmente no fundo do poço.
Esta fraqueza foi evidenciada quando passamos às duras penas pelo Chile e pela Colômbia, e foi definitiva nos 7x1 sofridos ante a Alemanha e os contundentes 3x0 diante da Holanda. Na disputa pelo terceiro lugar, o domínio holandês foi tão grande que ninguém teve sequer coragem de reclamar dos dois gols irregulares da Laranja Mecânica. Pela diferença do futebol apresentado, a derrota viria de qualquer maneira.
A falta de um esquema de jogo ficou patente desde a estreia contra a Croácia, e os jogadores foram impotentes para evitar uma despedida menos constrangedora.
A torcida e a imprensa clamam por uma radical mudança na mentalidade dos dirigentes esportivos. Não sei se isto será possível ou se irá surtir algum efeito, pois o que deu certo na Alemanha não necessariamente dará certo no Brasil, pela disparidade de comportamento e mentalidade dos dois povos.
O fato é que o torcedor brasileiro teve que se conformar com o quarto lugar na competição e vai guardar a camisa amarela para uma próxima ocasião.
E a grande festa da Copa ficou por conta de Alemanha e Argentina.
Com todos os ingredientes de dramaticidade, os alemães conquistaram o título apenas na prorrogação, e com certeza mereceram a vitória, pois ao longo da sua trajetória foi uma seleção que mostrou um futebol mais moderno, solidário e brilhante.
A conquista alemã representa, enfim, a vitória do trabalho e da seriedade.
A Argentina acabou sendo uma grata surpresa para quem não esperava que conseguisse chegar tão longe, e o bruxo mexicano, que entre outras coisas previu que os hermanos levantariam a taça, vai ter que rever seus conceitos.

 

sexta-feira, 11 de julho de 2014






O SONHO ACABOU

 (ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 11/07/2014)

As expectativas de que o Brasil chegaria à grande final da Copa foram pelo ralo depois da avassaladora passagem do tornado alemão que reduziu a pó as pretensões verde-amarelas. O pior é que 7x1 parece que foi pouco pelo que fizeram os dois times.
Cumprem-se assim diversas profecias aziagas que preconizavam um final infeliz para a esquadra de Felipão, entre elas a lenda dos 16 anos (a cada 16 anos, a partir de 1950, o Brasil perde a Copa, o que aconteceu em 1966, 1982, 1998 e 2014). Existe também a previsão do bruxo mexicano Chick Jeitoso que há dois anos anteviu os quatro semifinalistas (Brasil, Argentina, Alemanha e Holanda), a contusão de Neymar, a derrota brasileira nas semifinais e – vejam os senhores – a conquista do título pela Argentina.
Tem também a maldição da Copa das Confederações (tradicionalmente, o seu vencedor não ganha a Copa do Mundo do ano seguinte) e, de quebra, registre-se a presença no Mineirão de um torcedor ilustre, o roqueiro Mick Jagger, que tantos problemas já causou ao selecionado inglês.
Mas, apesar da torcida e da esperança de que as coisas continuariam dando certo como nas partidas contra o Chile e a Colômbia, existia um consenso entre os analistas que no caso da Alemanha o buraco era mais embaixo.
Já comentamos antes que a seleção foi mal convocada, mal treinada e mal escalada, e que tanto o técnico brasileiro como o restante da comissão estavam ultrapassados e fora de sintonia com o que está acontecendo no futebol mundo afora.
Além do mais, a safra atual de jogadores não é das melhores e existe uma carência muito grande de nomes para atuar ao lado da nossa grande estrela – Neymar.
Em 1958 e 1962 a seleção não se limitava a Pelé. Deixando barato, nós tínhamos Garrincha, Zito, Didi e Nilton Santos que faziam a diferença na qualidade das jogadas. Em 1970 Pelé tinha a companhia de Tostão, Clodoaldo, Gerson e Rivelino, pra citar alguns. Na jornada do tetra, em 2014 a equipe era taticamente perfeita na marcação e tinha Romário e Bebeto para desequilibrar. O mesmo pode-se dizer em 2002, com a presença de Ronaldo, Rivaldo, Roberto Carlos e Ronaldinho Gaúcho.
A geração de 2014 ainda está verde ou terrivelmente empobrecida. Da mesma forma que Dunga em 2010, Felipão olha pro banco e coça a cabeça, pois levou consigo jogadores com os quais não pode contar. Fred está mal, mas não dá pra confiar em Jô. Dante está comprometendo, mas seria temeridade trocá-lo por Henrique. Marcelo está falhando, mas como confiar em Maxwell?
A seleção brasileira deu uma clara demonstração que é um time de poucas jogadas – roubo de bolas no meio-campo, lançamentos em ligação direta para a correria dos atacantes e o aproveitamento da bola parada. Como a Alemanha tem uma defesa competente e bem posicionada e não cometeu faltas nem cedeu escanteios, a tal da jogada brasileira ensaiada foi pro espaço.
E os alemães foram além na competência, envolvendo o Brasil com um repertório de jogadas e toques rápidos até chegar com facilidade aos 5x0. O resto foi consequência.
Para se despedir com dignidade, o Brasil tem que mudar a sua postura na disputa do terceiro lugar contra a Holanda neste sábado. E Felipão tem que apostar na recomposição da defesa, com a volta de Thiago Silva, e colocar no meio-campo alguém que saiba tratar melhor a bola, seja recuando Oscar, seja escalando Hernanes.
E no domingo, jogando um futebol melhor, a Alemanha vai para o Maracanã para tentar a quarta Copa da sua História, contra a Argentina, que busca a sua terceira.
Resta saber se a previsão do bruxo irá prevalecer e provocar aquilo que os brasileiros não acreditavam nem nos seus piores pesadelos: o Brasil fora da final e a Argentina campeã.    

 

segunda-feira, 7 de julho de 2014


 
 
 
O BRASIL VAI PARA O TUDO OU NADA

 (ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 30/06/2014)

Bem, partindo do princípio de que o que vale é bola na rede e que o importante são os três pontos (no presente caso, a classificação para a semifinal) o Brasil tem que comemorar muito a vitória contra a Colômbia, mesmo ficando a dever (ainda) o futebol que a torcida espera. Mas, de grão em grão...
A vitória, conseguida à custa de dois gols marcados por zagueiros, voltou a evidenciar a falta criatividade, a dependência das bolas paradas e a ausência de um meio-campo que proporcione aos atacantes mais eficiência nas jogadas de grande área. A equipe jogou mais uma partida heroica e cheia de sofrimento, e esta parece que será a tônica que continuará regendo a jornada da seleção, caracterizada por um grande nervosismo e uma ansiedade sem precedentes. 
Neymar não fazia uma boa partida, visivelmente sentindo os problemas no joelho lesionado no último jogo contra o Chile, e esperava-se que ao anotar 2x0, Felipão fizesse a sua substituição - o que acabou forçado a fazer depois - com a entrada do terceiro zagueiro Henrique para cobrir a cabeça de área e poupar o atacante. Mas a falta de visão do técnico que ao longo dos últimos anos da sua carreira parece estar desaprendendo, acabou sendo determinante para a despedida triste e precoce de Neymar na Copa do Mundo dos seus sonhos.
O afunilamento nos leva agora a enfrentar a Alemanha, como já era esperado, e reduz a Copa ao seu denominador mais simples, espantando as surpresas e colocando na disputa quatro dos favoritos iniciais – por ordem alfabética Alemanha, Argentina, Brasil e Holanda.
Chegou enfim a hora da onça beber água.
As ausências de Thiago Silva, agraciado com um cartão amarelo por um lance infantil e desnecessário, e de Neymar, fora de combate por uma agressão também desnecessária do zagueiro adversário, põem a classificação para a final em risco.
Previsões? Joguem-se búzios, consultem-se oráculos, projetem estatísticas, ou faça-se uso da tecnologia mais avançada e a resposta será a mesma: tudo pode acontecer.
Mas, se prevalecer uma análise rigorosa das reais possibilidades, acredito que a final no dia 13 de julho será disputada entre Brasil e Holanda.
Argentina e Holanda se enfrentaram em apenas 8 oportunidades, com um único triunfo argentino, obtido na prorrogação, exatamente na partida que decidiu a Copa de 1978. No mais, foram 4 vitórias dos holandeses e 3 empates.
As duas seleções têm demonstrado muita garra e determinação, mas a Holanda parece ser no momento mais consistente, com um ataque incisivo e um time compacto, que tem no contra-ataque a sua arma mais letal. Para os hermanos, Di Maria fará muita falta, sobrecarregando o trabalho de Messi, que precisará girar o campo todo para fugir da marcação laranja.
Com base na estatística e nos fatos atuais, acredito mais na Holanda. 
Já Brasil e Alemanha se enfrentaram 22 vezes entre 1952 e 2014, contando uma partida pelos Jogos Olímpicos, uma pelo Mundialito, uma pela US Cup, 2 pela Copa das Confederações, uma pela Copa do Mundo e 17 amistosos, e os números atestam a freguesia alemã: foram 12 vitórias brasileiras, 5 empates e apenas 5 vitórias germânicas, com uma somatória de gols de 44 a 28 a favor do Brasil.
Embora no momento o Brasil esteja apresentando tecnicamente um futebol inferior ao apresentado pelo adversário, a equipe jogará insuflada por uma torcida que não tem poupado esforços em apoiar o time e poderá fazer da ausência de Neymar um motivo de superação, atirando-se ao jogo com um apetite voraz durante todo o tempo e acuando o adversário.
É sabido que o Brasil é uma das seleções mais temidas pelos alemães (a outra é a Itália) e que o peso da tradição poderá prevalecer mais uma vez, como aconteceu em 2002, na pior apresentação germânica naquela Copa, com enormes espaços na defesa que não conseguiu parar um Ronaldo infernal, uma falha capital do seu goleiro – Oliver Kahn, eleito o melhor jogador do Mundial - e a consequente perda do título.  

quinta-feira, 3 de julho de 2014






A HORA DO ESPANTO

(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 03/07/2014)

A sabedoria popular é pródiga em tornar positivas algumas situações incômodas, pra não dizer perturbadoras. Ela diz, por exemplo, que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, que depois da tempestade vem a bonança e que não há mal que sempre dure (embora também afirme que não há bem que nunca se acabe).
Por que a sabedoria popular é geralmente otimista, o mundo vem vivendo a trancos e barrancos à procura daquela luz que deve haver no fim dos túneis, ou seja, a esperança continua sendo a última que morre.
Em questão de provérbios, porém, é sempre bom confiar desconfiando.
No caso do raio que partiu a tranquilidade e a confiança da seleção brasileira depois da deplorável exibição contra o Chile, espera-se que de fato ele não caia novamente, e esperamos que a tempestade não tenha feito muitos estragos para que a bonança seja bem-vinda contra a Colômbia.
Trocando em miúdos, espera-se mais de Felipão na criação de um sistema de jogo e dos jogadores uma atuação mais caprichada e digna da sua fama e prestígio.
Afinal, a maior potência futebolística do mundo, com cinco títulos mundiais conquistados, e com jogadores cantados em verso e prosa por milhões de pessoas, não pode ter desaprendido a ponto de parecer uma equipe de segunda classe.
Espera-se que a terceira parte da profecia não seja cumprida e que o bem realmente não acabe, pelo menos agora, sob os olhos e corações dos seus torcedores.
Vencer a Colômbia requer algum xamanismo para superar a situação desafiadora em que nos encontramos, em plena competição e sem tempo para serem testadas alterações profundas na escalação do time, até porque temos que nos contentar com o material humano que temos em mãos.
Infelizmente, temos que retroceder novamente ao ano de 1950, quando as autoridades esportivas e governamentais deixaram claro que “nós fizemos tudo o que foi necessário para o Brasil ganhar a Copa, e esperamos que os jogadores agora façam a sua parte”. A seleção estava concentrada em Joá, na época um pacato bairro da zona norte que ficava distante do burburinho da Capital da República, mas teve que se mudar para São Januário para que políticos, artistas, clérigos, trabalhadores e desportistas em geral pudessem visitar os jogadores a fim de transmitir confiança e desejar boa sorte.
Não adiantou os jogadores reclamarem da falta de privacidade (embora alguns até se mostrassem felizes com o assédio dos torcedores). Esta intervenção inoportuna fez crescer a responsabilidade, desconcentrou o grupo e elevou alguns egos.
Na véspera da partida decisiva, os jornais estampavam fotos da seleção com a espalhafatosa manchete “Estes são os campeões do mundo!” (jornais foram levados para a concentração uruguaia e serviram de motivação para uma jornada de garra e muita dedicação dos nossos adversários).
A motivação da família Scolari passa um pouco por isso.
Quando os jogadores se apresentaram, Felipão e Parreira deixaram claro que o Brasil iria ganhar a Copa porque tinha um time superior – e a prova disso havia sido o título da Copa das Confederações em 2013 – e porque jogava com o apoio da sua imensa torcida. Nós somos os melhores, os adversários é que devem se preocupar.
A concentração em Teresópolis chegou a lembrar a cidadezinha suíça de Weggis de tão má memória na Copa de 2006, onde havia de tudo – festa, autógrafos, visitas e pagode – mas faltou a concentração necessária para moldarmos nossa atuação na Alemanha.
À parte a má atuação contra o Chile, o Brasil se mostrou uma pilha de nervos na hora da cobrança das penalidades, explicação para as lágrimas e para a falta de atitude de ninguém menos do que o capitão Thiago Silva, de quem se espera equilíbrio e controle emocional.
O jogo contra a Colômbia – mais uma decisão – será numa sexta-feira, e embora não seja 13, é mais uma boa ocasião pra mandar o mau futebol pra escanteio e festejar com os gols necessários para que o Brasil possa seguir adiante.    

segunda-feira, 30 de junho de 2014




QUASE UM MINEIRAZO

 
(ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTES” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 30/06/2014)

 
“Por muito pouco, muito pouco, pouco mesmo”, como dizia nas suas transmissões o locutor esportivo Geraldo José de Almeida, o Brasil não sofreu o castigo de ficar fora da Copa do Mundo realizada no seu próprio país ainda na fase de oitavas de final.
Há 64 anos a derrota traumática se deu na partida final contra o Uruguai, e como o jogo aconteceu no Maracanã, o episódio ficou conhecido como “Maracanazo”, termo lapidado na língua dos nossos algozes.
Mas as eventuais semelhanças entre Mineirazo  e Maracanazo param por aí.
Em primeiro lugar, se nós perdemos em 1950, em 2014 ainda continuamos vivos; temos, porém, o compromisso de evitar um Castelaosazo nas quartas, outro Mineirazo nas semifinais e o temido Maracanazo na grande final.
Ainda é tempo de recuperar a credibilidade junto à torcida e à comunidade esportiva, mas é preciso trabalho e atitude. Vociferar contra a opinião pública não leva a nada.
Contra a Colômbia, caberá aos jogadores e à comissão técnica apresentar aquele futebol que todo mundo espera, pois até os adversários estão constatando com surpresa que o Brasil não foi nos quatro primeiros jogos nem sombra do papão que eles tanto temiam.
Voltando a 1950, sabe-se que o Brasil possuía um time quase perfeito com todas as condições de dar ao seu torcedor a satisfação quer não havia conseguido dar nas Copas disputadas anteriormente. Sua única exibição pífia havia sido contra a Suíça, num empate com sabor de derrota, mas isto foi perfeitamente compensado pelas exibições de gala que depois presentearam o público, com as goleadas de 7x1 e 6x1 contra respectivamente a Suécia e a Espanha, antes que viesse a final inglória.
Mas nesta Copa, a seleção brasileira venceu a Croácia por 3x1 com uma evidente participação da arbitragem, empatou com o México sem gols num jogo onde nossos adversários foram superiores, e ganhou de uma equipe em desagregação – Camarões – vencendo por 4x1 uma peleja que mais parecia um jogo-treino.
A classificação épica contra o Chile no sábado acabou caindo dos céus, considerando o nosso péssimo desempenho.
As lágrimas dos jogadores e a expressão fúnebre da comissão técnica bem retratam o sentimento nacional, que foi de muita preocupação e angústia até que viesse o alívio final depois da “loteria dos pênaltis”.
Poucos jogadores se salvaram da mediocridade apresentada – possivelmente Julio Cesar pela contribuição que deu na hora decisiva, os zagueiros Thiago Silva e David Luís, e Neymar, enquanto teve pernas.
É preciso enfatizar, porém, que os jogadores são os menores culpados por estas apresentações decepcionantes.
O Brasil tem uma comissão técnica retrógrada que fala muito e organiza pouco. É inconcebível qualquer pessoa conceber uma equipe onde os jogadores de meio-campo não conseguem articular uma jogada sequer – fruto de uma má convocação e de orientações equivocadas – e que o ataque seja municiado por chutões da defesa, e “seja o que Deus quiser”.
No banco está Hernanes, talvez o único que poderia fazer a diferença na articulação das jogadas, mas o técnico insiste em manter os privilegiados da sua “família” por conta de (agora se percebe enganosa) vitória sobre a Espanha por 3x0 na Copa das Confederações.
Esta está sendo com certeza uma das melhores Copas já disputadas e, por uma ironia cruel – pois está sendo disputada na sua casa – é possivelmente a pior Copa já jogada pelo Brasil, pior até do que a cansada seleção que perdeu nas oitavas em 1966 e da seleção de Lazaroni, que até agora é comentada com escárnio.
Está na hora de Felipão entender que o papel do técnico não é só motivar seus comandados, mas principalmente de dar a eles um mínimo padrão de jogo.
E transformar este futebol patético em algo que justifique a nossa história.  

   

sexta-feira, 27 de junho de 2014


 
 
 
 
EU E A MÚSICA – YEAH, THE BLUES!
(A CONFISSÃO DE BO DIDDLEY)

Do final dos anos 1980 para cá, o Brasil se tornou um lugar bastante concorrido para a realização de festivais de rock, jazz e blues.
Mas nem sempre foi assim.
Demorou algum tempo para que o público brasileiro viesse fazer parte do roteiro dos megafestivais de música.
Os festivais de rock faziam comercialmente mais sentido na época do que os seus congêneres de jazz, pois tinham como suporte de mídia alguns muito bem sucedidos encontros internacionais que eram produzidos mundo afora.
Isto não significa que o jazz não estivesse acontecendo no cenário mundial, mas parecia mais acertado apostar num movimento mais performático, como as bandas e os astros do rock mundial e os grandes espetáculos de luz e cor, do que numa música que privilegiava mais os ouvidos e a sensibilidade.
Talvez por possuir um apelo mais popular ou pelo fato de o seu surgimento ter sido mais recente – aconteceu durante os anos 1950, quando era chamado de rock and roll – o rock tinha uma boa penetração na classe jovem e era divulgado, embora ainda timidamente, em programas radiofônicos e festinhas de família, onde no final da década Bill Haley disputava espaço com Cely Campello. Isto não acontecia com o jazz e com o blues.
É bem verdade que na Era do Swing o jazz tinha programas radiofônicos com as grandes orquestras tocando ao vivo, mas isto mudou com o fim da Segunda Guerra Mundial e com a mudança da mentalidade da juventude rebelde de então.  
Os jazzófilos e os bluesófilos, por se constituírem num público menor e mais maduro, e por consumirem uma música mais sofisticada, passaram a viver num quase completo anonimato, e se viam obrigados a acompanhar de longe as trajetórias do jazz e dos seus festivais mais famosos – Monterey EUA), New York (EUA), Newport (EUA), Montreux (Suiça), JVC (França), North Sea (Holanda) – através de reportagens de colunas especializadas de jornais ou revistas, ou pelos discos, cujas contracapas nos davam a noção do que se passava por lá, tudo documentado com as devidas fotos. Os discos muitas vezes traziam músicas gravadas ao vivo, o que adicionava uma emoção a mais ao ouvinte.
E a gente só sonhava, ainda que acordado.
De acordo com pesquisas não muito oficiais, o interesse que jazz e blues haviam despertado até então nos apreciadores de música era muito pequeno para que se pensasse num evento de largo consumo, mas essa barreira pouco a pouco foi sendo ultrapassada graças a alguns produtores arrojados que apostaram na inteligência do público e tiveram o apoio de patrocinadores fortes que puderam tornar a ideia viável.
Coincidentemente, e apesar das pesquisas e da diferença na aceitação popular, foi no mesmo ano que jazz e rock aconteceram pela primeira vez no Brasil para as grandes plateias.
A primeira edição do Rock in Rio foi realizada entre os dias 11 e 20 de janeiro de 1985 – evidentemente na cidade do Rio de Janeiro. Ela foi absolutamente marcante e contou com a presença dos internacionais Queen, Iron Maiden, Whitesnake, James Taylor, George Benson, Rod Stewart, Scorpions, Ozzy Osbourne, Nina Hagen e AC/DC, e dos nacionais Ivan Lins, Barão Vermelho, Baby Consuelo, Lulu Santos, Gilberto Gil, Erasmo Carlos, Ney Matogrosso e Kid Abelha, entre outros.
Por ter sido o primeiro, o Rock in Rio foi um evento que precisou de muito fôlego e coragem, mas correspondeu plenamente às expectativas.
O público total chegou a quase um milhão e quatrocentas mil pessoas e respondeu com entusiasmo à aposta do publicitário e produtor Roberto Medina, embora ele próprio tenha admitido que realizar o festival “foi uma maluquice”.
Mas o projeto Rock in Rio foi tão bem sucedido que acabaria se multiplicando nos anos seguintes – Rio de Janeiro em 1991 e 2001, Lisboa em 2004, 2006, 2008 e 2010 e Madri, 2006, 2008 e 2010, e assim segue em frente, sempre com o mesmo nome, o que acabou transformando o festival em uma lucrativa trademark.   
Surpreendentemente, também em 1985 acontecia ao mesmo tempo no Rio e em São Paulo o primeiro Free Jazz Festival, patrocinado pela Companhia Souza Cruz, que aproveitou o nome de um dos estilos de jazz – o free jazz – para promover em grande estilo o lançamento da sua marca de cigarros Free, naquele tempo em que não existiam restrições para a sua propaganda.   
A primeira edição mostrou atrações especialíssimas – entre elas Bobby McFerrin, Chet Baker, Gerry Mulligan, Ernie Watkins, Sonny Rollins, Pat Metheny, McCoy Tyner, Joe Pass, Hubert Laws, Phil Woods, Toots Thielemans, e os brasileiros Azymuth, Cesar Camargo, Egberto Gismonti, Leny Andrade, Luiz Eça, Orquestra Tabajara, Paulo Moura, Sérgio Dias, Zimbo Trio e Uatki, entre outros.
Em 1986 tivemos vinte e dois participantes, sendo quatorze brasileiros e oito internacionais, número que foi sendo mantido com o tempo até o fim do projeto em 2001 (o Free Jazz Festival foi descontinuado devido às leis antitabagistas e em 2003 foi substituído pelo TIM Festival, que perdeu a característica do projeto original e começou a focar um tipo de música alternativa, que inclui indie, eletrônica, rock e – felizmente – o próprio jazz).
Apesar de bastante popular, o Free Jazz Festival nunca chegou a causar o mesmo impacto do Rock in Rio, principalmente porque o rock tradicionalmente, em todo o mundo, sempre reuniu multidões em festivais que eram geralmente realizados em grandes áreas ao ar livre – vide Woodstock-NY, Altamond-Ca, Ilha de Wight-Inglaterra – ao passo que o jazz sempre teve um público menor, mais comportado e, pode-se dizer, mais exigente em termos de estrutura e conforto.
Foi nesse clima, em maio de 1990, que aconteceu o Segundo Festival de Blues no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo (o Primeiro Festival havia acontecido em Ribeirão Preto-SP, na Cava do Bosque, no ano anterior).
O festival teve a produção da LUKR Eventos, comandada por Roberto Cocenza. Também fazia parte da equipe meu amigo e parceiro Renato Winkler que, parodiando Vinicius, viajou muitas canções comigo, e havia interpretado o mestre violonista na película “A Busca E A Fuga”, mencionada no capítulo dedicado a Dick Farney.
Eu e Renato tivemos uma curta, mas profícua, história musical que havia começado em Serra Negra-SP, onde nos conhecemos em meados dos anos 1960. Começamos a compor juntos, e na maioria das nossas composições eu fazia a letra e ele colocava a música, ou eu colocava a letra numa melodia já feita, ou um pouco de cada coisa...

Se a sombra agora mora em mim,
o meu porquê há de virar canção...
(estou triste, triste tanto...)
Só o sorriso bom de uma manhã
fará nascer o meu sorriso sol...
(estou triste, triste tanto...)
Só o renascer de todo amor
que imenso foi, vai me fazer feliz
(vem beijar meu desencanto...)
Volta, faz brilhar novamente a lua,
aquela mesma lua
que iluminou nossa grande noite...
Só o teu olhar traz o luar
pra iluminar o meu anoitecer,
só teu olhar me faz amanhecer...
Por que virar canção se é tão real,
venha depressa disfarçar o mal,
motivação da minha vida e paz,
cante comigo o meu sorriso sol
e o amor manhã também renascerá...

(Amor Manhã – Augusto Pellegrini e Renato Winkler)

Renato possui uma harmonia diferente do convencional e passa para o ouvinte uma cadência bucólica. Ele é também um poeta de rara inspiração nas suas pinceladas cheias de um neologismo sagaz e de rimas no modelo haicai. É numerólogo nas horas vagas, tendo inclusive publicado um livro a respeito chamado “Guia Oracular – A Chave Do Poder Adivinhatório”.
Em termos de música, ao meu lado, foram doze composições ao longo de quatro anos, de 1970 a 1974, muitas delas regadas a muito vermute tinto com gelo, antes de a parceria ser interrompida pelo meu ingresso numa escola de samba, como mencionado no capítulo dedicado a Adoniran, e pela minha partida para São Luís-MA.
Em 1990 eu ainda morava em São Luís, onde estou até hoje, mas Renato insistiu para que eu fosse assistir ao festival em São Paulo e para tanto me enviou uma credencial de imprensa, dessas que a gente pendura no pescoço vinte e quatro horas por dia – “Pellegrini Augusto – Radio Mirante FM – São Luís-MA” – posto que eu era – e ainda sou – radialista especializado em jazz (e blues, embora nem tanto).
O festival transcorreu de uma forma empolgante e reuniu no mesmo espaço músicos antológicos como Magic Slim, Bo Diddley, Buddy Guy, Junior Wells, Koko Taylor, John Hammond, The Blues Machine, Big Daddy Kinsey & The Kinsey Report, Nick Nolte, e os blueseiros locais Ed Motta, André Christóvam e Blues Etílicos.
A grande vantagem de possuir uma credencial é poder ser uma sombra presente nas entrelinhas do espetáculo, nos bastidores, nos camarins, e no hotel onde a troupe se hospedava, onde via de regra acontecia alguma jam session para confraternizar o blues, além da possibilidade de entrevistas nem sempre exclusivas, mas sempre muito especiais, e a descoberta maravilhosa de que por trás dos artistas consagrados de escondem seres humanos cheios de história para contar.
Boa parte das histórias acabaram sendo descartáveis, e serviram  apenas para ilustrar alguns dos meus programas radiofônicos, mas uma conversa, em especial, ficou registrada, posto que histórica.
Bo Diddley, nascido Ellas Otha Bates, tinha na época sessenta e dois anos, embora aparentasse ter mais.
Ao contrário da maioria dos artistas presentes, que esbanjavam vitalidade, Diddley mantinha uma atitude melancólica e pouco sorridente, como se se ressentisse de alguma coisa, muito embora aparentemente tudo corresse às mil maravilhas na turnê blueseira. Bo Diddley era o “low profile” que não combinava com a vibração do evento.
Cantor, guitarrista, compositor (suas músicas eram assinadas como Ellas McDaniels), Bo Diddley com sua guitarra quadrada foi um dos elos mais importantes que uniu o blues ao rock and roll e influenciou, entre outros, os astros Buddy Holly, Jimi Hendrix, Eric Clapton e Elvis Presley, além dos Beatles e dos Rolling Stones.
Foi exatamente a menção a Elvis Presley que esquentou o assunto e soltou a língua do velho bluesman.
Apesar de ser mundialmente reconhecido como um dos maiores artistas do blues e do rhythm & blues, Bo Diddley reclamava que a sua carreira poderia ter sido muito mais bem sucedida se alguns produtores de discos e de shows não tivessem interferido de forma tão negativa e decisiva no seu desenvolvimento.
Ele, Diddley, teria sido o pioneiro a mostrar nos palcos a famosa performance do “rebolado do rock and roll” que se imortalizou com Elvis e que os pudicos dos anos 1950 consideravam obsceno e atentatório aos bons costumes (mas que os jovens rebeldes sem causa simplesmente adoravam).
Possivelmente”, prosseguiu Diddley, “tenha sido um outro negro, Chuck Berry, quem realmente iniciou aquele tipo de dança lasciva, mas Berry podia ter tudo – ritmo, drive, empolgação – mas não conseguia passar para o público nem um pingo de malicia ou de sensualidade. Chuck era mais feio do que eu. E riu, pela primeira vez durante a nossa conversa.  
Bo Didley era – na sua própria descrição – negro, feio e de baixa estatura, o que ia contra os padrões de beleza universalmente aceitos. A novidade era, porém, tão empolgante que os produtores de shows decidiram que o rebolado devia ser incrementado por um outro cantor, desde que fosse branco, bonito, atlético e sensual.
Assim, nos meados dos anos 1950, Bo Diddley foi descartado e caiu no limbo do rock and roll.
Os produtores saíram então em campo à cata do homem com o biótipo ideal que tivesse o DNA para vender discos e aguçar o espírito da juventude, e descobriram um jovem cantor e guitarrista natural do Mississipi que estava fazendo um relativo sucesso no rádio e na televisão cantando uma espécie de ballad-country e de rock-blues.
Seu nome era Elvis Presley, ex-motorista de caminhão que estourou para o grande público com o bluesThat’s All Right Mama” (Arthur Crudup) e “Blue Moon Of Kentucky” (originalmente uma valsa escrita em 1946 por Bill Monroe), músicas que receberam um tratamento diferente por parte do guitarrista Scotty Moore e do baixista acústico Bill Black, nascendo daí o estilo “rock-a-billy”, uma fusão de country com rhythm & blues. 
Depois de uma série de baladas românticas, que no futuro iriam se constituir no ponto alto das suas interpretações – como “Love Me Tender” (George R.Poulton, W.W. Fosdick  e Ken Darby), “Lovin’ You” (Jerry Leiber e Mike Stoller) – o rebolado pra valer começou em 1957 com “Jailhouse Rock” e “King Creole” (ambas de Jerry Leiber e Mike Stoller).
De acordo com Diddley, foi aí que os produtores “roubaram” a sua ideia e que um eventual título, “The King of Rock‘n’Roll”, lhe teria sido usurpado.
O depoimento histórico foi encerrado abruptamente com a chegada de alguém da produção convocando Diddley para uma foto, a pedido de um repórter.  Não tenho certeza, mas ficou a impressão de que sobrou no rosto do velho bluesman um certo ar de alívio quando ele se despediu de mim, o que provavelmente acontecia por quase quarenta anos sempre que seu coração se abria para algum desconhecido.