domingo, 22 de setembro de 2013




TÉCNICOS NA CONTRAMÃO

A surpresa veio a galope, no lombo da virada – quase uma goleada – que o Flamengo sofreu na quarta-feira diante do Atlético Paranaense, em pleno Maracanã.
Jogo acabado, torcida vaiando, jogadores cabisbaixos (afinal, como explicar um placar de 2x0 se transformar em 2x4?), e lá vai Mano Menezes, altivo e circunspecto, em direção ao vestiário, olhar fixo em algum ponto do futuro, passando pelos repórteres como se eles não existissem, e deixando antever que alguma coisa iria logo mais saltar para fora dos eixos.

Horas mais tarde, dentro da sua habitual arrogância, Menezes declarou que estava demissionário, com uma voz grave e uma expressão de pensador estampada no rosto, e adiantou que o motivo seria “porque os jogadores não assimilam as minhas instruções, razão pela qual o time não mostra padrão de jogo e não deslancha no campeonato”.

Quer dizer, Mano é daqueles técnicos do time do “eu ganho, nós empatamos e eles perdem”.

Ocorre que quando o mestre não ensina corretamente os alunos têm problemas de assimilação, e este pode ser um dos segredos da falta de resultados do Flamengo de Mano Menezes.

Os jogadores com certeza não estavam acomodados, e tudo indica que o professor não utilizou técnicas de motivação, não usou a metodologia correta, não praticou o treinamento necessário nem soube interagir com o grupo, e isto parece resumir a caminhada quase inglória do técnico pelo rubro-negro.

Eu sempre critiquei Mano Menezes, principalmente por ocasião da sua melancólica passagem pela seleção brasileira, exatamente por essa postura autocrática e despótica, que o mantém distante tanto dos jogadores como da imprensa. Ele passa a impressão que o mundo nada mais é do que um conglomerado de ignorantes que não conseguem captar as mensagens brilhantes da sua inteligência privilegiada.

No Flamengo a coisa foi um pouco pior. Mesmo sem contar com material humano de primeira, ele poderia ter dado mais consistência ao time se não tivesse se equivocado tanto, na escalação, nas instruções e nas substituições.

Como bem lembrou o jornalista Lúcio de Castro, da ESPN, a forma como Mano Menezes abandonou o barco do Flamengo à deriva é semelhante à atitude do capitão Francesco Schettino, do Costa Concórdia, que tombou na costa italiana há 1 ano e 8 meses: sorrateira, arbitrária e covarde.

O rubro-negro não vai deixar barato: pela irresponsabilidade da sua decisão unilateral, o agora ex-técnico vai ter que indenizar o clube com cerca de 800 mil reais, o mesmo valor que o clube teria que pagar se o tivesse demitido.

Dentro do aperto atual do Flamengo, quem assume o seu lugar é o auxiliar Jayme de Almeida Filho, ex-jogador, flamenguista da cepa, e filho do também ex-jogador Jayme de Almeida, que vai tentar injetar no elenco a chama que parece faltar para incendiar o desempenho do time.

Na contramão de Mano Menezes, Muricy Ramalho voltou ao São Paulo para dirigir um elenco em frangalhos, fazendo a pior campanha da sua história, e conseguiu somar nove pontos em quatro partidas disputadas, levando a equipe no penúltimo para o décimo-quinto lugar, o que não é muito, mas apresentou uma sensível melhora no rendimento do grupo.

É claro que ninguém pode prever com precisão o sucesso ou o insucesso do treinador num campeonato tão difícil como este, mas o que está em discussão não é o desempenho de um time, e sim o caráter e a personalidade de um treinador.

   

domingo, 15 de setembro de 2013


 

A convocação de Júlio César


Todo mundo gosta de vez em quando de brincar de técnico de futebol. O assunto chega a ser matéria obrigatória nas mesas de botequim e nas manhãs de segunda-feira, quando os mais experientes, depois das gozações de praxe recebidas dos torcedores adversários, comentam as bobagens cometidas pelo técnico de plantão e expõem as soluções óbvias para consertar a qualidade do time, incluindo aí mudança de jogadores, alterações táticas e até – é claro – a troca do treinador!

Todo cidadão apaixonado por futebol tem na ponta da língua a formação ideal do time que ele colocaria em campo, seja clube ou seleção, justificando a escolha e as eventuais dispensas com explicações doutrinárias, táticas e filosóficas que às vezes (ou muitas vezes) entram em confronto com o desejo de outros torcedores. E, é claro, todo cidadão apaixonado por futebol já chamou alguma vez (ou muitas vezes) de burro o técnico do time para o qual ele torce ou está torcendo naquele momento, seja no estádio seja diante da TV.

A polêmica da semana, que foi inclusive objeto de enquetes em mais de um programa esportivo, diz respeito à convocação antecipada do goleiro Júlio César pelo técnico Felipão para a Copa do Mundo que vai acontecer só daqui a dez meses.

Júlio César está atualmente no banco de reservas do Queens Park Rangers, clube rebaixado à segunda divisão do campeonato inglês, mas teve seu nome confirmado em uma entrevista antes do jogo em que o Brasil bateu a seleção portuguesa por 3x1 em Boston.

Visivelmente irritado ao ser questionado sobre o problema, o técnico declarou que, “para acabar com a frescura”, Júlio César já está convocado entre os três goleiros mesmo sem jogar e mesmo se estiver jogando mal, porque goleiro é uma questão de confiança. Assim, o goleiro recebeu um privilégio que nem o badalado Neymar, o queridinho da mídia e dos torcedores, conseguiu.

A rigor, não se conhece na história do futebol brasileiro nenhum caso de jogador que tenha tido a sua convocação confirmada para uma competição com quase um ano de antecedência.

É sabido que o futebol – e aí falamos de times e de jogadores – obedece a ciclos e varia como a maré. O Corinthians, campeão mundial em dezembro de 2012 e o Atlético Mineiro, campeão da Libertadores deste ano, são exemplos recentes de equipes que encantaram os torcedores e caíram sensivelmente de produção num espaço de seis meses.

O craque Lucas, vendido pelo São Paulo ao PSG, foi figura obrigatória nas convocações de Mano Menezes, mas começa a perder espaço com Felipão e no time francês. O mesmo acontece com Leandro Damião, que enfrenta seu inferno astral dentro do próprio Internacional. Mas nada tão sério que não possa fazê-los se reerguer.

São incontáveis as histórias desta gangorra, o que faz com que o técnico prudente jamais aposte todas as suas fichas em um determinado jogador com tamanha antecipação.

Ganso já chegou a ser melhor que Neymar, Diego era melhor que Robinho, e ambos acabaram não resultando no que se esperava em termos de seleção brasileira. Esperanças como Lulinha, Kerlon – o “foquinha” –, Lenny, Keirrison e William José fizeram água e desapontaram técnicos e torcedores, quando todos apostavam as suas fichas num futuro promissor.

Tudo bem, Júlio César não é nenhuma promessa, já é um jogador rodado, etcetera e tal, mas somente um visionário pragmático como Felipão para ter tanta certeza que a conquista do hexacampeonato vai depender dos pés (e das mãos) deste afortunado goleiro. 

 

A HISTÓRIA DO ITAQUERÃO  

Na semana passada eu comentei sobre o custo da construção do Engenhão e a contramão que este custo representa se comparado com o que foi gasto com os estádios construídos ou reformados para a Copa do Mundo.

Por ocasião do Pan-2007, houve uma gritaria danada sobre os gastos exagerados e inexplicáveis que comprometeram a transparência da administração, especialmente com referência ao Comitê Olímpico comandado por Carlos Arthur Nuzman, que foi objeto de uma CPI carioca que era pra ser, mas não foi.

Na época, já se podia adivinhar que poucos anos depois seria vez da Copa do Mundo ter os seus administradores colocados no banco dos réus.

Parece não haver dúvida que os pilantras do país se reuniram em torno da ideia de superfaturar tudo o que fosse possível por ocasião da Copa 2014, para não apenas fazer fortuna fácil como também para utilizar uma boa “margem de lucro” a fim de adoçar campanhas políticas e firmar alianças vantajosas para alguns políticos envolvidos. Uma vergonha.

Um dos mais emblemáticos exemplos é o da construção da Arena de Itaquera, que abrigará seis jogos da Copa do Mundo, entre os quais a abertura e uma das semifinais. Essa construção tem uma história a ser contada, conforme prometido no último artigo.

Tudo começou quando a Fifa definiu que a abertura da Copa 2014 seria na cidade de São Paulo e que a final seria no Rio de Janeiro.

Naquela ocasião, o então presidente Lula declarou, com satisfação, que a escolha de São Paulo para a abertura do Mundial era perfeita, porque já tínhamos o Morumbi pronto (na verdade, quase pronto) para o evento.

Uma série de circunstâncias, no entanto, fizeram com que a declaração do presidente caísse no vazio e que ele próprio deixasse de se manifestar a respeito.

Para começar, o relacionamento azedo do presidente do São Paulo com a cúpula da CBF. Evidentemente, Ricardo Teixeira faria todo o possível para não dar ao seu desafeto uma tão importante honraria.

Baseado nisso, Andrés Sánchez, então presidente do Corinthians, começou a alinhavar com a Construtora Odebrecht a construção de um estádio para o clube, confiante em que o presidente Lula, além de corintiano de carteirinha, visse com bons olhos uma empreiteira de porte alinhada com os interesses da Copa e do governo, e que desse o seu aval à iniciativa.

Era a oportunidade de o Corinthians conseguir, quase de graça, o seu tão sonhado estádio, desnecessário para a realização do mundial, mas extremamente necessário para que Sánchez alcançasse seu grande objetivo. Era também a oportunidade de Sánchez se vingar pessoalmente de um inimigo figadal – o folclórico Juvenal Juvêncio, presidente do São Paulo.

Previsto inicialmente para custar cerca de 600 milhões de reais, custo que seria bancado pelo clube e pela iniciativa particular, o estádio já está na casa de 1 bilhão, e boa parte do dinheiro utilizado foi injetado pelo erário público, seja através do BNDS, seja através de renúncias fiscais da Prefeitura pela isenção de impostos, seja ainda por dinheiro diretamente bancado pelo Governo estadual para os gastos com as estruturas móveis. Outra vergonha.

Ou o orçamento foi muito mal elaborado ou o superfaturamento é evidente. Em virtude das pessoas envolvidas, fico com a segunda hipótese.

Desta forma, o cidadão paulista está compulsoriamente contribuindo para a construção de um estádio que não é necessariamente o do seu time, para a eleição de políticos que jamais teriam o seu voto e para o enriquecimento imoral de empresas e de pessoas que não ligam a mínima para o esporte. Vergonha.

terça-feira, 3 de setembro de 2013


 
SAUDAÇÕES AO NEW-MARACANÃ

Quando da realização dos Jogos Pan-Americanos de 2007, o Rio de Janeiro foi brindado com um estádio poliesportivo zero quilômetro, batizado com o grandiloquente nome de Estádio Olímpico João Havelange, popularmente conhecido como Engenhão.
Como a cidade já possuía o Maracanã, o Engenhão foi construído mais para abrigar as modalidades de atletismo do que para servir de palco para o futebol (lá seriam disputadas apenas quatro partidas pela competição).
O estádio foi erigido para acomodar mais de 46 mil pessoas sentadas, com a possibilidade de ser ampliado para 60 mil ocupantes tendo em vista 2016, e era considerado o mais bonito e moderno da América Latina. Custou  aproximadamente 400 milhões de reais, uma ninharia, se comparado com o custo do ainda não acabado estádio do Corinthians, estimado em quase um bilhão (mas este é um assunto que fica para uma próxima vez).
Construído com recursos públicos, o Engenhão foi posteriormente arrendado para o Botafogo, e apesar da distância do centro nervoso do Rio de Janeiro acabou servindo para a realização de muitos jogos. Desde o fim de março deste ano, no entanto, está interditado por problemas na futurista cobertura, com risco real de desabamento, de acordo com os laudos.
Agora que a cidade já pode contar com o New-Maracanã, não há previsão de quando serão iniciados os serviços de reforma, e como ninguém tem pressa, o Botafogo voltou a ficar sem casa.
O New-Maracanã tem uma história a ser contada.
O Maracanã é um estádio com 63 anos de idade que já havia sofrido duas grandes reformas (em 1999 e 2007), mas manteve as características do projeto arquitetônico inicial. Para a Copa do Mundo, ele poderia ser simplesmente adaptado às necessidades da Fifa, mas foi posto literalmente abaixo e teve a sua arquitetura – um dos cartões postais do Rio de Janeiro – brutalmente violentada.
O custo total das três reformas atinge a casa dos 2,4 bilhões, transformando-o em um dos seis estádios mais caros do mundo.
Quando foi imposto o tal padrão Fifa, a astúcia e o engenho humano se colocaram em campo para que muita gente ganhasse muito dinheiro, mesmo que isso custasse o esfacelamento de outros complexos esportivos e uma desapropriação desumana de áreas habitadas e de marcos históricos.
Depois de pronto, o New-Maracanã ficou bonito e fashion como uma obra de exposição, mas perdeu o glamour e a identidade.
Pior, o estádio foi praticamente dado de presente para um consórcio de empreiteiras e investidores que não colocaram um centavo na sua construção e vão se beneficiar das benesses do seu funcionamento, através de uma licitação que se denuncia viciada e preparada para atender interesses aparentemente escusos que passam pelos Governos Estadual e Municipal e por empresas que garantem a campanha eleitoral de alguns políticos da Cidade Maravilhosa.
Como o Vasco tem São Januário e o Botafogo – em tese – tem o Engenhão, a lucratividade do Consórcio vai depender dos contratos feitos com o Flamengo e o Fluminense, mas os termos são desvantajosos para os clubes, que começam a espernear.
O Flamengo está inclusive disposto a levar seus jogos para Brasília, apesar do custo e da logística, ou para Juiz de Fora, e o Fluminense reluta em assinar o contrato, se contentando em jogar em Volta Redonda.
Por outro lado, entidades e manifestantes pedem o fim da concessão e querem que o estádio seja operacionalizado pela Prefeitura, segundo o aforismo “quem pariu Mateus que o embale”. Há ainda muita história para ser contada.   
 
                                                                                                    
 

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O CHARME DO CABELO

Um atleta é um atleta, um intelectual é um intelectual. Não se exige que um intelectual seja um super-homem estabelecendo marcas esportivas nem que um atleta seja um filósofo ou pensador.
Mas assim como é saudável a um intelectual abandonar os seus livros de vez em quando e executar alguma prática esportiva, é bastante proveitoso que um atleta de vez em quando beba alguma dose de cultura.
Já vi muito intelectual andando de bicicleta, nadando e até jogando bola, mas nunca soube de um jogador lendo os clássicos, por exemplo, isso pra não forçar muito a barra.
O que o artigo abaixo descrito (publicado no dia 13 de junho de 2011 no Caderno E do jornal O Estado do Maranhão) coloca em discussão não é a mania de os jogadores de futebol inovarem no seu corte de cabelo – coisa que há séculos os jovens o fazem, não apenas jogadores, mas também intelectuais de vanguarda e músicos, de uma forma geral, pois é evidente que o que está do lado de fora da cabeça não necessariamente retrata o que existe do lado de dentro.
O que o artigo visa espicaçar é o baixo nível intelectual da grande maioria dos jogadores de futebol, evidenciado nos estilos musicais de sua preferência, no lazer praticado, no “modus vivendi” e no vazio enorme que suas entrevistas ou declarações transmitem.
Eles não sabem sequer valorizar a própria história.
Na malfadada era Dunga, um repórter comentou com um dos milionários jogadores selecionados sobre Nilton Santos (uma das lendas do futebol entre 1948 e 1964, bicampeão mundial e alcunhado como “Enciclopédia”) e teve como resposta “já ouvi falar, mas não sei quem é...
Algum dia escreverei sobre o baixo nível atlético dos intelectuais, mas isto é um outro assunto.     



Por estranho que pareça, o artigo de hoje vai falar sobre... cabelo!
Talvez o mote principal não devesse ser cabelo, mas cabeça, que nos jogadores de futebol é muito mais usada para expor o que vai do lado de fora do que para mostrar alguma coisa que porventura exista do lado de dentro. O tema mais correto então talvez fosse “cabeça oca”.
Já disseram que cabeça não foi inventada apenas pra usar chapéu. Como o chapéu está fora de moda, e o boné – seu substituto – não freqüenta as cabeças como possivelmente desejaria, os donos das cabeças criaram um adereço de certa forma natural para diferenciá-los do mundo profano que os cerca, produzindo tranças, miçangas, rabos-de-cavalo e, ultimamente, cortes e formatos esquisitos, que fazem do visual do jogador alguma coisa semelhante a um ser de outros planetas.    
Existem no mundo do futebol cabeças vazias que raciocinam apenas na hora do jogo, cinestesicamente, mecanicamente. Alguns atletas também usam a cabeça propriamente dita para fazer gols, provocando a alegria e histeria coletiva, pouco interessando ao torcedor o que o dono da cabeça tem dentro dela.
É sabido que, com raras, raríssimas exceções, jogador de futebol é um tipo de indivíduo que não se classifica pela cultura nem pela contra-cultura, mas sim pela inexistência de cultura. Ele se dedica ao pagode, forró e baile funk, adora colecionar carrões para carregar os amigos de infância e gosta de exibir Marias-chuteiras que sempre lhes dão dor de cabeça e planejam golpes visando arrancar o seu dinheiro. Nas horas vagas, eles não lêem nem estudam (não há razão pra isso, pois já faturam uma pequena fortuna sem ter que usar o intelecto) e jogam vídeo game.
Para a parte esclarecida da população, eles não passam de agentes do lazer. Ninguém convidaria um jogador de futebol para um debate sério acerca de problemas sérios, pois as suas cabeças não possuem os mecanismos necessários para processar as idéias, por simples que sejam.
Mas de repente o mote passa a ser realmente “cabelo”, ou a falta dele.
Há uma década, a moda era raspar o couro cabeludo, alguns para compensar a carência capilar natural, outros para fazer charme – exemplo de Ronaldo e Roberto Carlos.
A moda pegou e ainda hoje aqueles que abraçaram a causa continuam passando a navalha no cocuruto para imitar os seus ídolos.
Após um breve interregno, onde jogadores com cara de mau – por coincidência todos volantes – inauguraram a era moicana, surgiu Neymar, o novo imperador da moda.
E aí o seu penteado, uma mistura de moicano, mandril e pica-pau, tomou conta do jet-set e contaminou pelo menos meia dúzia de meninos da Vila mais um bocado de pretendentes a Neymar, que tirando o belo futebol que possui em nada acrescenta em termos de modelo para a juventude.
Então todo jogador começou a perceber, ou pelo menos a imaginar, que a fórmula do sucesso não estava nos pés e sim na cabeça, ou melhor, no cabelo.
A última novidade foi apresentada por Robinho, que no entanto chegou com dez anos de atraso.

sábado, 21 de maio de 2011

Esporte também é cultura

O que vem abaixo do chapéu é uma transcrição do artigo que eu publico semanalnente no caderno E+, de esportes, no jornal O Estado do Maranhão.
O que me levou a escrever tal artigo, que foge da análise crítica ou da polêmica esportiva propriamente dita, foi a crescente irritação em ver (e ouvir) o Hino Nacional Brasileiro interpretado por cantores medíocres na busca de uma inovação equivocada, com uma interpretação pessoal abaixo dos padrões do bom gosto.
Não que eu seja do tipo que costuma pregar obediência e veneração aos símbolos da pátria - bandeira, escudo, selo e hino -  muito embora esteja provado que a degradação de um povo tem muito a ver com a banalização destes símbolos. O que me irritou foi a gratuidade quase insolente de uma interpretação pífia produzida através de uma voz trêmula e aguda de cantores que pensam que vivemos num país de chapéus de abas largas, cinturões e botas, cheirando a esterco e crina de cavalo.
Cantores que encarnam o sertanejo autêntico, como Rolando Boldrin, Renato Teixeira e Sérgio Reis, por exemplo, não se renderam à breguice do chamado sertanejo universitário, uma das pragas que assolam nossas plagas.
Nem se meteram a deturpar a forma e o conteúdo do nosso hino.   


Na cola do que acontece no mundo civilizado, virou praxe aqui pelo Brasil a execução do hino nacional por ocasião dos grandes eventos esportivos.
Existe em São Paulo inclusive uma lei estadual que obriga esta execução em qualquer evento esportivo oficial, seja ele um grande clássico de futebol ou uma partida mixuruca da terceira divisão (se isto é cumprido ou não, aí são outros quinhentos).
Em noventa por cento dos casos, a execução é feita pela banda de uma corporação militar ou mesmo via eletrônica, com o hino sendo entoado pelos alto-falantes dos estádios.
Nos outros dez por cento, cada apresentação sofre retoques tão pessoais que em breve os intérpretes estarão entoando alguma canção desconhecida, dada a disparidade dos arranjos, da harmonia e até da linha melódica.
No passado remoto e no passado recente já tivemos o hino louvado por Fafá de Belém por ocasião das Diretas Já, e destruído por Vanusa num evento público na Assembléia Legislativa de São Paulo.
No esporte, a tradição secular e comportada das bandas marciais vinha sendo mantida, até que, calcado nos megaeventos americanos, os organizadores decidiram colocar cantores para abrilhantarem o ato cívico-esportivo.
E aí começou a se evidenciar o mau gosto e a falta de sensibilidade musical dos produtores do show.
Ainda este mês antes da Fórmula Indy, quem cantou o hino nacional foi o novo astro da música sertaneja Luan Santana, um boneco sem voz e sem expressão, ou seja, tudo aquilo que não precisamos para representar qualquer coisa que se diga vibrante e patriótica.
O desastre prosseguiu quinze dias depois antes da final paulista entre Santos e Corinthians, quando outros sertanejos, Hugo e Tiago desentoaram o hino nacional com tudo o que tinham de direito.
Não é segredo para ninguém a minha posição a respeito de qualidade musical, envolvido que sou com o jazz e assemelhados há trinta anos só no Maranhão.
Mesmo assim, eu não aprovaria um arranjo jazzístico do hino só por considerar a qualidade do jazz acima das outras coisas. 
Respeito o (mau) gosto de muita gente, mas sinceramente acho que eles deviam curtir as suas preferências nos locais apropriados junto com seus pares, ou nos programas televisivos específicos que nos permitissem mudar de canal na busca de algo mais palatável aos ouvidos (se é que isto seja biologicamente possível).  
Ao exibir intérpretes sem a menor qualidade, os organizadores não apenas agridem as pessoas que possuem um rigor artístico mais aprimorado como denigrem a importância deste símbolo pátrio e expõem ao ridículo os próprios artistas, que são benquistos e bem sucedidos nos seus guetos específicos, quer seja uma casa noturna especializada ou uma vaquejada esquematizada exatamente para isso.
A execução do hino nacional antes de um evento esportivo de alta importância deveria ficar a cargo de uma banda militar convencional, de uma orquestra sinfônica ou de um cantor de verdade, respeitando a melodia, os sustenidos e bemóis originalmente concebidos pelo maestro Francisco Manuel da Silva.
Afinal, esporte também é cultura. 

terça-feira, 5 de abril de 2011

RETALHOS E REBOTALHOS (EXCERTO)


Este é um trecho de um conto chamado "Retalhos e Rebotalhos", publicado no meu livro "O Fantasma da FM", que foi lançado em dezembro de 1992. O conto narra a trajetória e as vicissitudes de um músico "da noite" que se vê obrigado a se ajustar às exigências do público para manter o emprego.  
Neste trecho, o leitor irá conhecer um pouco das origens do músico e a sua visão crítica a respeito da sua luta pela sobrevivência, se não em termos de vida, pelo menos em termos de arte.


Ricky López é um saxofonista tenor que também ataca de alto. Ele se chama Ricardo Porfírio Máximo de Souza Lopes, nascido em Oliveira dos Brejinhos, no sertão baiano, soprador de berrante, tocador de bois, mas hoje é Ricky López, músico que tenta a vida nos Jardins, o Éden incrustado na Paulicéia, o sax, as luzes, o agitado e frenético “way of life”.
Ricky mora no primeiro andar de um prédio de apartamentos com jardim verde-florido e tudo mais, cinzeiro, cigarro, camisa amarrotada e copo d’água pela metade, o cenário enfeitado por uma pirogravura mostrando a fachada da antiga Faculdade de Medicina e um calendário de parede Pan-Am, com fotos daqueles lugares da Alemanha e da Suíça que estão definitivamente fora do nosso alcance e do nosso bolso e da nossa cultura.
Sapato tombado de lado, meia revirada, mesa de centro com capas de discos de vinil – Lester Young, Cannonball Adderley, Jimmy Giuffre – Ricky López “wants to be on the top”.  
Mas Ricky Porfírio anda arregaçando com os nervos.
Primeiro a adaptação. Afinal, começara tocando na banda da brejeira Oliveira, aprendendo o sopro com o tio Emérito – “olhe aqui, menino, isto é uma palheta, isto é um bocal, o saxofone é mais bonito, tu ficas bem com o instrumento no pescoço!” – na verdade, ele mais parecia um boi de parelha com aqueles arreios todos e o pescoço pendido para baixo, feito bago de uva, mas ele não deixou por menos, soprou e soprou, aprendeu a diferenciar fusas de semi-fusas, e percebeu que existia algo mais do que o bonito, algo muito mais sensual e humano na voz do sax-tenor, nas curvas do sax-tenor, no “sax-so-funny”, no “sex-soul-phony”, com todos os seus tentáculos e todas as suas ventosas, as tentações do vício, as tentações da carne, as tentações da noite, a carta da tia chorosa, da tia Jerusa,  - “volta, filho, vem de volta tocar seu bombardino nas festas da cidade, deixa isso de aventura, chega de tanta querência, tio Emérito está esperando, já está com oitenta mas ainda é forte e parrudo, ainda apronta suas chamuscadas nos forrós da praça, ainda curte a sua cana brava na vida caiana!”.  
Mas Porfírio foi ficando, foi se adaptando à metrópole, passou longe do demônio dos vícios, soprou numa festa de estudantes de direito e caiu no gosto dos presentes – “toca Summertime!!, toca Stardust”” – e ele que só sabia soprar o Cego Laurentino, na calada das madrugadas foi se esgueirando por entre as casas musicais, e foi se habituando com o vibrato de Coleman Hawkins ou com a enxurrada de notas de John Coltrane nas noites solitárias ou nos dias de granizo.
Nascia Ricky López, artista de jazz, paletó largo, camisa estampada e colorida, sapato branco e dedos ágeis, apertando aqui e ali, acariciando a coluna dorsal do seu sax dourado, cujo brilho refletia todas as cores e todas as caras apesar da fumaça embaçada e da meia obscuridade das lâmpadas cada vez mais “dim”.   
É preciso ser artista para ser artista.
É preciso ter persistência para enfrentar as portas batidas na cara quando à procura de oportunidades, é preciso ter estômago para não vomitar na cara daquele figurão que pensa que sabe tudo e te trata como um idiota, é preciso ter saco para aturar aquele público errado, sempre pedindo para você tocar aquela música que você não conhece ou que conhece e detesta, é preciso ter sorte para descobrir um emprego onde você possa dar asas às emoções das notas musicais, das suas notas musicais, bem entendido, e ainda ganhar o miseravelmente necessário para cobrir o mínimo das suas necessidades.
É preciso ser de pedra para aturar o desaforo daquele acretinado que pede para você tocar a música errada na hora errada, e vê-lo, um apanágio da incultura, gargalhar acompanhado pela fêmea mais “cover girl” do pedaço, ela também uma burra de penacho para concordar com aquela cara, com aquele jeito, com aquele mau gosto e provavelmente com aquele bafo.
É preciso ser falso para conseguir chegar ao prazer todas as noites tocando exatamente a mesma coisa, é preciso ser mágico para tentar encontrar naquela harmonia alguma nota ou alguma pausa escondida, alguma passagem que não seja rotineira.
É preciso seu um gênio para sair daquele buraco às quatro da manhã, observando a decadência pouco a pouco tomar conta de cada um dos “habitués” de voz pastosa, o garçom colocando três ou quatro doses a mais na conta – esta é para o santo – e a sempiterna reclamação que nunca resolve absolutamente nada.
É preciso ser um santo para estudar música seis horas por dia.
É preciso ser Deus para tocar como Charlie Parker.



quinta-feira, 31 de março de 2011

SEXTA JAZZ COM ANDREA CANTA

  

As andanças pelo mundo afora do músico maranhense Nosly sem dúvida lhe renderam muitos dividendos em termos de estudo, vivência e aprimoramento. Ainda bem que, de vez em quando, ele divide com a gente a experiência e o conhecimento adquiridos em outras terras, de modo que estes dividendos acabam rendendo juros também por aqui.
Assim, foi Nosly o responsável por trazer a lume a cantora Andrea Canta, nascida na Alemanha – Düsseldorf, para ser mais preciso – mas vestida com todas as roupas da latinidade e da moderna música internacional.
O projeto foi na verdade uma prévia do que se pretende fazer em outubro deste ano no III Lençóis Jazz & Blues Festival, um trabalho lapidado pelo dublê de músico e produtor Tutuca.
É a terceira vez que a cantora visita o Brasil, onde já esteve participando de shows e de workshops numa intensa troca de experiência entre os valores musicais aprendidos na sua terra natal e aqueles que ela vem descobrindo pelo mundo.
Como seu próprio nome indica, Andrea canta, e canta muito bem. Quem conferiu sua apresentação na quinta-feira 24 de março no Botequim, sabe do que eu estou falando.
Acompanhada pelo próprio Nosly no violão, além de Jair Torres na guitarra, Mauro Sérgio no baixo e Isaías Alves na bateria – com direito a canja do saxofonista Sávio Araújo – Andrea passeou por diversos estilos que variaram entre a música popular brasileira, o reggae, o soul, os ritmos latinos e o pop internacional, além de alguma investida no jazz, tudo com muita alegria e firmeza de quem sabe o que está fazendo.
Andrea Canta adquiriu uma vasta experiência ao trabalhar com grandes nomes da música moderna nos Estados Unidos, na Inglaterra, em Cuba e na Jamaica.
Ela confessa seu fascínio desde muito jovem pela música brasileira e cubana, fazendo com que desenvolvesse um trabalho baseado nessas influências, o que acabou por levá-la a Havana onde gravou com uma das mais conceituadas bandas daquelas bandas, a Ng La Banda.
Ela tem também experiência como compositora e produtora de estúdio, com gravações realizadas pela EMI, Wea, Highlife Time e outras, incluindo nos seus trabalhos “cuts” da world music e da dance music e a música “Beachball”, um hit internacional gravado ao lado do grupo Nalin & Kane.
Vocês têm um encontro marcado com Andrea Canta e a sua música nesta sexta-feira, dia 1 de abril – de verdade! – no Sexta Jazz da Rádio Universidade, oito da noite.
Lá, vamos ouvir a música de Andrea Canta e uma entrevista curiosa em half English – half Portuguese.
Bilíngüe, como a própria música de Andrea exige.

sexta-feira, 18 de março de 2011

UM MILHÃO PARA BETHÂNIA



O Ministério da Cultura autorizou a cantora Maria Bethânia a captar R$1,3 milhão para um projeto que privilegia a postagem no seu blog (seu, dela) de 365 mini-vídeos de 1 minuto cada, um para cada dia do ano.
É como uma oração, como um mantra.
Você inicia o dia ouvindo uma reconfortante poesia ao módico preço de R$ 3.561 reais que você não paga, mas alguém paga.
O projeto se denomina “O Mundo Precisa de Poesia” e, ao contrário do que poderiam esperar os fãs apaixonados pela voz melodiosa da cantora, ela realmente não canta, apenas declama poemas.
Talvez o título mais adequado fosse “Bethânia Precisa de Dinheiro”.
Ao autorizar o refinado pedido, o MinC não fez nada de errado, apenas usou a forma da lei, pois existe o chamado “Mecanismo de Incentivo Fiscal”, criado em 1993, para estimular a iniciativa privada a investir em obras cinematográficas brasileiras por meio de renúncia fiscal.
O uso de vídeos em blogs e afins é apenas uma adaptação da palavra “cinematográfica”, portanto, a terminologia não vem ao caso, e o projeto tem a mesma validade de um longa-metragem ou de um ensaio produzido por um videomaker.
Há que se entender também que os empresários que decidiram investir no projeto não fizeram mais do que utilizar o que a lei faculta, e se decidiram jogar mais R$ 1 milhão no projeto de um único artista é porque admitem que terão uma contrapartida pela exposição diária a um sem número de visitantes que acessarão o blog. Assim, os empresários que apostam no sucesso do empreendimento também não fizeram nada de errado, pois consideram que terão um retorno garantido.
Só que existem artistas que acham que a Lei Rouanet foi feita especialmente para eles.
Em 2008, a empresa de Maria Bethânia pediu autorização para buscar R$ 1,8 milhão em patrocínio para bancar sua turnê com a cantora e dançarina cubana Omara Portuondo. O pedido foi negado, mas o ministro interino da Cultura, Juca Ferreira, passou por cima da decisão e mandou aprovar.   
Projetos que chegaram à casa do milhão de reais também beneficiaram Ivete Sangalo, Carlinhos Brown e Claudia Leitte, o que poderia passar a impressão de que cultura musical baiana é a única que vale a pena no Brasil.
Não é o caso, pois existem outros projetos milionários tramitando, como Maria Rita (R$ 2,2 milhões para cinco shows com músicas de Elis), Marisa Monte (R$ 5 milhões para quatro shows) e Erasmo Carlos (R$ 1,2 milhão para um único show). Deu a louca no mundo!
Acrescente-se que ninguém está errado, pois todos são amparados pela lei.
Uma lei idiota que não estipula limites de captação e joga R$ milhões nas mãos de dois ou três afortunados, quando poderiam fracionar em porções menores para possibilitar que outros artistas também fossem contemplados.
É até um escárnio que um país como o Brasil, cuja carência de incentivos culturais bem intencionados inibe o surgimento de muitos valores por falta de investimento em shows, registros fonográficos e/ou audiovisuais e pequenas turnês, possua uma lei mal feita como essa.
Junto meu protesto ao roqueiro maldito Lobão, que apesar das alucinações parece ser um dos poucos artistas lúcidos a bradar contra esta bandalheira oficial.