domingo, 20 de novembro de 2016





OS ENCANTOS DO ESPORTE A MOTOR

Fugindo às suas características de dar palpites sobre o mundo da bola, Gol de Placa desta sexta-feira vai abordar um assunto que entre os brasileiros se tornou extremamente polêmico. Estou de referindo à Fórmula 1.
“Por que polêmico?” – perguntarão os leitores.
Porque, respondo eu, desde a morte de Ayrton Senna, poucos se interessam em dedicar as manhãs e madrugadas de domingo a ouvir o ronco dos motores, como dizem os locutores especializados.
Talvez falte motivação a esses brasileiros, mas não falta tradição nem história nas corridas automobilísticas, pois desde 1902 os motores roncavam no Hipódromo Paulistano em São Paulo. Durante a primeira década do século 20 outras corridas se realizaram por aqui, mas o esporte se tornou definitivo a partir de 1933 com as corridas no Rio de Janeiro no Hipódromo da Gávea.
A profissionalização de fato aconteceu com o piloto Manuel de Teffé, que veio da Europa com o sonho de organizar as provas automobilísticas no Brasil, o que propiciou o surgimento de pilotos como Irineu Corrêa e Francisco Landi.
O circuito de Fórmula 1 começou  suas aventuras em 1950 em Silverstone, na Inglaterra, tendo como grande nome o argentino Juan Manuel Fangio, cinco vezes campeão e duas vezes vice em oito temporadas.
Foi apenas em 1970, em Brands Hatch, também na Inglaterra,  com a estreia de Emerson Fittipaldi, que o Brasil teve um piloto fazendo parte do chamado circo. Ele seria bicampeão em 1972 e 1974 e saiu da categoria após uma fracassada tentativa de fazer andar nas velozes pistas do mundo um carro de fabricação brasileira, de marca Copersucar, mas foi fazer sucesso na Fórmula Indy.
Foi quando a imprensa esportiva brasileira – radio e televisão – começou a transmitir os Grandes Prêmios, com audiência e patrocinadores garantidos, fazendo surgir uma geração de entusiastas que eram ao mesmo tempo mecânicos, pilotos e inovadores, geração que produziria José Carlos Pace,  Maurício Gugelmin, Roberto Pupo Moreno e outros.
A segunda leva de pilotos brasileiros bem sucedidos teve a participação de Nelson Piquet, que conquistou três títulos, em 1981, 1983 s 1987, e também mereceu os holofotes.
Mas foi a terceira leva, com a chegada de Ayrton Senna, que criou toda uma equipe de fãs, levando ao delírio das manhãs de domingo desde aqueles que realmente se identificavam com o automobilismo até aqueles que não tinham a mínima intimidade com o esporte e até relutavam em chamar de esporte aquele conjunto formado por homem e máquina.
Ayrton Senna foi tricampeão em 1988, 1990 e 1991, foi vice em 1993, e deixou a sensação que poderia ter ido além não fosse o acidente fatal de 1994 em Imola, na Itália.
Senna representa uma história à parte para o automobilismo, não apenas no Brasil como também no resto do mundo. Estreou em 1983 e, de acordo com muitos especialistas deixou um legado de conquistas e elevou o nível do esporte a outro patamar. Após mais de vinte anos, pesquisas mostram que o piloto é ainda considerado o melhor de todos os tempos.
A sua ausência causou uma grande baixa entre os telespectadores não apenas porque não apareceram pilotos com o carisma necessário para substituir a sua imagem, mas também porque brasileiro é um torcedor que “não gosta de esporte, ele gosta de vencer”. Mas a falta de um piloto brasileiro competitivo não me impede de admirar outros talentos que fazem do esporte um dos mais considerados no mundo em termos de mídia, torcida e injeção de dinheiro envolvido.
Depois de Senna, a Fórmula 1 mostrou Michael Schumacher (heptacampeão), Sebastian Vettel (tetracampeão) e Lewis Hamilton (tricampeão), sem falar dos bicampeões Fernando Alonso e Mika Hakkinen, todos pilotos de alto nível que sem dúvida também valeram a pena minha atenção nas temporadas automobilísticas de 1994 para cá.
Domingo passado eu tive a oportunidade de rever Senna no carro e na alma do holandês Max Verstappen, que nas voltas finais fez treze ultrapassagens debaixo de intensa chuva, ganhando treze posições e saindo de um décimo-sexto lugar para o pódio.
Então, vale ou não vale a pena continuar prestigiando a Fórmula 1?     


 (Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 18/11/2016)




sábado, 12 de novembro de 2016






BRASIL X ARGENTINA

Quando você estiver lendo O Imparcial desta sexta-feira já estará sabendo o resultado do jogo Brasil x Argentina que aconteceu ontem à noite no Mineirão, após o fechamento da nossa página de esportes.
O Brasil de cara nova atuava como favorito diante de um adversário que estava deixando a desejar nas últimas partidas e que precisava desesperadamente se recuperar, pois corre o risco de não estar presente na lista dos disputantes à Copa do Mundo da Rússia em 2018.
Protagonistas de um dos maiores clássicos do futebol mundial, comparado por exemplo na Europa a um Itália x Alemanha, Brasil e Argentina se enfrentam oficialmente há 102 anos, ou seja, a partir de 1914.
Entre 1908 e 1914 foi realizada uma série de 13 jogos entre combinados brasileiros (com jogadores paulistas ou cariocas) e argentinos, sem o caráter de seleção nacional. Neste período houve 13 jogos com 10 vitórias dos argentinos, 2 dos brasileiros e um empate. No placar, uma verdadeira lavada – 43 x 13 para a Argentina. Mas isto está fora dos números oficiais, pois aconteceu na época do amadorismo.
A partir de 1914 as duas federações começaram a considerar os confrontos como oficiais.
A primeira partida que entra para a estatística foi realizada em 20 de setembro no estádio do Club Gimnasia y Esgrima, em Buenos Aires, a Argentina triunfou por 3x0. Uma semana depois, no mesmo local, o Brasil deu o troco – 1x0.
Até o jogo de ontem haviam sido 102 jogos realizados entre amistosos e disputas de torneios (Copa Rocca, Campeonato Sul-Americano, Copa América, Taça Roberto Cherry, Taça Confraternidad, Campeonato Pan-Americano, Taça do Atlântico, Taça das Nações, Eliminatórias para a Copa do Mundo, Copa do Mundo, Mundialito, Torneio Bicentenário da Austrália, Jogos Olímpicos, Copa das Confederações e Superclássico das Américas) em 101 anos, desde setembro de 1914 até novembro de 2015.
Nesta contabilidade o Brasil leva uma ligeira vantagem, com 41 vitórias contra 36 dos platinos. Foram computados 25 empates. Quanto à artilharia, os  argentinos marcaram 167 gols contra 153 dos brasileiros. A maior goleada corresponde a um 6x1 para a Argentina e, março de 1940 pela Copa Rocca, no Estádio Gasômetro de Boedo, em Buenos Aires. O Brasil respondeu com um 6x2 também pala Copa Rocca em dezembro de 1945 no Estádio de São Januário, no Rio de Janeiro.
Falando de títulos, a Argentina leva vantagem na conquista da Copa América (14 vezes contra 8 do Brasil) e nas Olimpíadas, com 2 medalhas de ouro (o Brasil tem apenas uma). No entanto, o Brasil venceu 5 vezes a Copa do Mundo e 4 vezes a Copa das Confederações (a Argentina foi campeã do mundo 2 vezes a apenas uma vez faturou a Copa das Confederações).
A Copa Rocca, disputada apenas  pelos dois países em 15 edições, tem o Brasil como o grande vencedor, com 11 títulos contra só 4 dos nossos hermanos. O torneio, que havia sido descontinuado em 1976 voltou em 2011 com o nome de Superclássico das Américas ou Copa Dr. Nicolas Leoz.
A estatística favorecia os argentinos com uma larga margem de vitórias e gols sobre o Brasil até 1970, quando os brasileiros reagiram e partiram para o equilíbrio, conseguidos graças a uma invencibilidade de 13 jogos que durou até 1982.
O torcedor brasileiro costuma dizer que detesta a Argentina, apesar de os analistas confessarem que sempre foram atraídos pelo futebol altamente técnico e ao mesmo tempo raçudo dos seus jogadores. Já os argentinos, confessadamente, apreciam sem ressalvas o futebol malandro e cheio de fintas dos brasileiros.
Muitos argentinos brilharam no futebol brasileiro, entre os quais podemos citar Doval (Flamengo e Fluminense). Tevez (Corinthians), Andrada (Vasco), Sorin (Cruzeiro), Fillol (Flamengo) e Ramos Delgado (Santos). A lista dos brasileiros que atuaram na Argentina, é menos extensa, mas não menos importante. Nela estão Domingos da Guia, Heleno de Freitas e Paulo Valentim (Boca Juniors) e Silas (San Lorenzo).        




 (Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 11/11/2016)






sexta-feira, 4 de novembro de 2016





OS FANTASMAS DO ITAQUERÃO

Em plena semana de Halloween e de Finados, o Corinthians foi abalado por mais uma aterradora notícia: uma infiltração encontrada no Itaquerão está provocando o vazamento de 10 milhões de litros de água e poderá ocasionar um deslizamento de terra avassalador, atentando contra a segurança de muita gente, entre torcedores e ocasionais passantes.
De acordo com o laudo, o deslizamento poderá atingir uma área de estacionamento que comporta 350 carros e fica literalmente tomada nos dias de jogo. Pior: a vazante pode passar do estacionamento para a Radial Leste, via expressa que margeia o estádio onde circulam milhares de carros diariamente.
Se a tragédia ocorrer durante a realização de uma partida do clube ela será muito grande, com perdas materiais e humanas na área do estádio e da via expressa.
Fatos como este dão um atestado se ineficiência de toda uma equipe de técnicos e engenheiros, e deixam mais ou menos patente que não houve um planejamento adequado e que provavelmente a técnica e os materiais utilizados fogem às normas e aos manuais.
As bruxas estão soltas, e não é de hoje.
Antes de ser iniciada a terraplenagem, descobriu-se que o local escolhido para a construção era uma região de oleodutos subterrâneos pertencentes a uma subsidiária da Petrobrás, o que encareceu terrivelmente os serviços, pois além da retirada dos dutos houve necessidade de um tratamento especial no solo para prevenir futuras explosões que poderiam ser causadas por gases retidos no subsolo.
No entanto, dinheiro parece não ter sido problema. A Construtora Odebrecht, responsável pela obra, assumiu todos os custos junto à Caixa Econômica Federal, uma atitude nunca vista num contrato comercial, ficando a empreiteira se encarregada das despesas para resolver a compensação financeira somente ao final da obra.
Isto deixou na época muita gente com a pulga atrás da orelha, mas hoje em dia tudo parece muito natural e bem explicado, levando-se em conta todos os escândalos em que se envolveram a Odebrecht, os diretores da Petrobrás e os administradores do país, hoje escancarados ao público.
Mas isso não para por aí.
Sabe-se que a obra custou um bilhão e duzentos milhões  de reais (um bilhão e seiscentos se forem incluídas as despesas financeiras) quando poderia ter custado quase 40% menos, o que se explica pelo superfaturamento dessa construtora que pavimentou o relacionamento com o poder num “toma lá-dá cá” sem precedentes na história da República.
Com a diretoria na cadeia, a Odebrecht está abrindo o bico e os tentáculos das suas declarações começam a atingir políticos e dirigentes esportivos que estariam mancomunados com a fraude.
Apesar do preço exagerado, o estádio não apresenta qualidade. Apresenta sim diversas falhas estruturais que incluem  o risco do deslizamento, a queda de meia tonelada de material do teto, partes com constante alagamento, vazamento de água na área das lanchonetes, danos na pintura e a abertura de buracos de grandes proporções no local de entrada dos torcedores.
Durante a construção, um enorme guindaste caiu matando dois operários e danificando toda uma lateral e parte da cobertura que tiveram que ser refeitas.
Problemas técnicos à parte, o clube se vê às voltas com o um débito de 310 milhões tendo a Caixa Econômica como avalista. O clube precisa quitar a dívida até 2028 em astronômicas parcelas de 5,3 milhões de reais por mês, o que a torna impagável sem a participação de um parceiro externo para injetar dinheiro e usar o seu nome no estádio, com vantagens a ser estudadas (o chamado “naming rights”).
O estranho nisso tudo é que a Odebrecht faturou com a fraude, o governo da época faturou com o prestígio de dar ao clube um estádio que seria usado na Copa do Mundo (ganhando com isso os votos e a simpatia da torcida corintiana), e os partidos políticos regados com parte do dinheiro fraudado revigoraram as suas campanhas e elegeram seus candidatos pelos quatro cantos do país.
Assim, todo mundo ganhou, menos o clube, que serviu de escada para ações inescrupulosas sob o aplauso dos seus dirigentes.
Foi uma vitória de Pirro, porque os Odebrecht estão na cadeia, os governantes da época estão indiciados em vários processos, os partidos que se prevaleceram estão naufragando e o próprio estádio está ruindo e na eminência de ser tomado pela Caixa Econômica por conta das prestações não pagas.    
   



(Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 04/11/2016)





quarta-feira, 2 de novembro de 2016





O Choro Negro de Paulinho

Sempre achei o choro-canção “Choro Negro”, de autoria de Paulinho da Viola, uma obra prima do cancioneiro brasileiro. A melodia e a harmonia possuem aquilo que se chama de pureza estética, e a sua beleza comovente me obrigou a procurar por todas as suas gravações para afinal concluir que as gravações desta música são poucas e que a letra era inexistente.
Conversa vai, pesquisa vem, ao ouvir uma declaração de Sérgio Cabral, descobri que Paulinho pertence à longa linhagem de chorões que consideram que o verdadeiro choro deve ser exclusivamente instrumental.
Sérgio Cabral teria ido à casa de Paulinho com uma letra feita para um choro composto por ele – ele, Paulinho – e antes de mostrar a preciosidade ouviu uma peroração a respeito da falta de sensibilidade de alguns compositores que insistem em colocar palavras nas notas plangentes de um choro-canção, também referido como valsa-choro ou varandão.
“Isto é um crime”, – continuou Paulinho – “é o mesmo que você colocar letra numa valsa de Chopin!”
Cabral depressa mudou de assunto sem sequer tê-lo iniciado, deixou a sua poesia jazer desanimada no bolso traseiro da calça, conduzindo a conversa por outras praias menos dolorosas, e desta forma aprendeu a lição.
Há alguns anos – em 2008, precisamente - insensível às lamentações de Sérgio Cabral, eu resolvi escrever uma letra para o samba-choro de Paulinho, totalmente à sua revelia.
Bem, não exatamente à sua revelia, porque usei todas as formas de comunicação possíveis na época, incluindo mensagem eletrônica e telefonemas à procura do seu agente, para pedir sua permissão a fim de que eu pudesse escrever uma letra que se adequasse ao clima da música.
Como não obtive resposta fui em frente e compus a letra da música, a qual transcrevo abaixo na esperança que os músicos maranhenses da MPB possam eventualmente incluí-la no seu repertório nas nossas tertúlias musicais.
O tema versa sobre um artista que se prepara para adentrar o palco e enfrentar o público. Ele faz isso diariamente, mas o sentimento de emoção, medo e insegurança é sempre o mesmo.
Podem cantar, se por acaso o Paulinho reclamar, eu resolvo.

Obs: eu canto esta música em si bemol.    

                                   
                               CHORO NEGRO     

Há quanto tempo
Este momento eu esperei
Mas gostaria de fugir
E o porquê não sei
O camarim guarda o silêncio
Que antecede o show
Lá fora vozes sussurrando
Sob a luz em meio tom

Olho no espelho
Que reflete o que há em mim
Eu gostaria de sentir
Felicidade, enfim
Escolho a face que usarei
Para enfrentar
Esta plateia colorida
Que me assusta e faz chorar

Na solidão deste monólogo cruel
Sinto na boca um gosto fel
E o coração parece então acelerar
Sigo em silêncio
Em direção ao meu destino
Caminho ao som de um violino
Que me empurra para o palco
E as cortinas de veludo
Ao descerrarem mostram tudo
Rosas vermelhas no cenário
E aplausos quentes como a luz
A emoção me faz chorar
Um choro negro
Que faz parte deste enredo
Que fascina e me seduz










domingo, 30 de outubro de 2016





A LEI, ORA, A LEI

Tenho muitos amigos advogados, outros tantos amigos juízes, e também promotores e professores de direito, e com certeza serei alertado para alguma incorreção que estarei incorrendo. Aceitarei de bom grado qualquer esclarecimento que me seja prestado a fim de clarear as minhas ideias e corrigir o meu rumo, posto que não sou um especialista no assunto.
Mas, por não ser especialista no assunto, falo a língua do cidadão que assim como eu se pergunta o motivo para tanto desrespeito às leis.
Falta de educação, dirão alguns. Falta de noções de ética, dirão outros. Faz parte da nossa cultura, retrucarão terceiros. Falta orientação familiar e escolar, concluirão os mais precavidos.
Qualquer que seja porém o motivo, a gente fica com a sensação de que faltam na verdade autoridade e responsabilidade em se fazer cumprir a lei num país onde as leis não são levadas a sério por aqueles que cuidam das leis e muito menos por quem as descumpre.
Existem 181 mil leis na Constituição brasileira que foram redigidas para serem cumpridas, mas muitas delas, quer por absoluta inobservância ou impunidade, quer por total falta de coerência, quer pelas centenas de brechas que oferecem para o jurista arguto ou quer pela natureza da infração e do infrator, passam batidas e oferecem pouco risco a quem atenta contra elas.
A Constituição atual data de 1988 e foi escrita debaixo de uma necessidade premente de fazer retornar aos cidadãos os direitos que haviam desaparecido por causa de um estado de exceção que durou vinte anos. É, portanto, na velocidade imprimida na História do Brasil nos últimos vinte e oito anos, uma Carta Magna desatualizada.
Por causa disso, ela acabou sendo justa e correta para a época em que foi feita, mas foi se tornando leniente e defasada com o passar do tempo.
Este é o problema de uma Constituição com excesso de leis, artigos e parágrafos: quis ser muito precisa e detalhada e acabou sujeita a diferentes interpretações. Uma Constituição enxuta, com leis em que prevalecessem o bom senso e uma forte noção de direito talvez oferecesse ao cidadão mais segurança e menos incertezas.
Mas, a que vem tudo isso, pergunta o leitor acostumado a ler críticas sobre a convocação da seleção, o gol indevidamente anulado, os problemas do futebol brasileiro e uma ou outra incursão no passado de algum ídolo do esporte?
É que, mais uma vez tivemos que assistir a cenas deploráveis de torcedores e policiais se espancando numa tarde festiva em plena reabertura do Maracanã, num clássico entre os clubes de maior torcida do Brasil.
Diz a música de Francis Hime “Maracanã da festa popular, domingo é lá que a poesia vai rolar”, mas o que rolou foi muita pancada.
Depois da borracha cantar e da calmaria voltar, 42 torcedores corintianos foram presos (desta vez os rubro-negros não brigaram com ninguém) e levados para a delegacia para averiguação e confrontação das fichas policiais. Deles, 11 foram liberados e 31 conduzidos preventivamente ao presídio de Bangu.
Poderia jurar que alguns deles são os mesmos da morte do menino em Oruro, são os mesmos do quebra-quebra no Metrô de São Paulo, são os mesmos de outras tantas confusões permeadas por extrema violência. Ou então, se os baderneiros forem outros, é sinal que o mau exemplo está se propagando assustadoramente por falta de providências mais enérgicas.
Os briguentos foram fichados e serão fatalmente liberados, e o STJD (para ficarmos apenas no âmbito esportivo) simplesmente emitiu uma declaração lacônica proibindo a presença deles nos jogos do Corinthians até o final do Campeonato Brasileiro e – mais uma vez – banindo a torcida organizada Gaviões da Fiel dos estádios de futebol.
Só não diz como esta sentença será operacionalizada.
A Inglaterra padecia do mesmo mal, mas hoje não se notam resquícios de violência nos estádios porque as penalidades, principalmente para um torcedor apaixonado, são rigorosas. Lá, torcedores são banidos dos estádios por infrações bem menos graves do que esta do último domingo no Maracanã.
-0-
Vejam só, eu deveria estar prestando uma homenagem a Carlos Alberto Torres, um dos maiores jogadores do futebol brasileiro, ídolo do Fluminense, do Santos, do Botafogo, do Flamengo e da Seleção Brasileira, morto nesta última terça-feira, e estou gastando meu português com três dúzias de delinquentes que não valem uma clicada.     



 (Artigo publicado no caderno de esportes do jornal O Imparcial de 28/10/2016)


sábado, 22 de outubro de 2016






A VOLTA DO ASTERISCO

A Série A do Campeonato Brasileiro volta a ter um asterisco na tábua de classificação, indicando que uma partida foi encerrada sem que se atribuíssem pontos aos litigantes. Isto não acontecia desde 2013, quando a Portuguesa foi rebaixada pelo Tribunal (no campo cairia o Fluminense).
O clássico Fla-Flu está considerado sub-judice pelo STJD, que analisa a possibilidade da realização de uma nova partida por causa de um alegado erro de direito cometido pelo árbitro Sandro Meira Ricci. No placar, o Flamengo venceu por 2x1.
Tudo porque Meira Ricci validou um gol tricolor denunciado como irregular pelo seu assistente e depois de longos 13 minutos voltou atrás e concordou que o bandeirinha estava certo, mas só após ter sido alertado por uma pessoa alheia à arbitragem, o que não é permitido pelas regras da Fifa.
Não importa na verdade se houve ou não impedimento (parece que houve), pois um erro de arbitragem é tolerado pelas regras por se tratar de um “erro de fato”. O que não pode é haver o tal “erro de direito”, como um time jogar com doze jogadores, por exemplo, e entre as proibições está a chamada “ajuda externa da arbitragem”, que foi exatamente o que aconteceu.
De qualquer forma, mais uma vez o tribunal tem que se intrometer para modificar um resultado obtido no campo, o que, pelas características do jogo, tendo ou não havido o impedimento, termina por frustrar torcedores e jogadores.
Meira Ricci tem colecionado erros grosseiros e continua incompreensivelmente prestigiado pela CBF. Seu erro de agora foi além de tudo covarde porque ele não teve coragem de usar a verdade ao redigir a súmula.
A atuação dos árbitros nas mais recentes rodadas do Campeonato Brasileiro tem beirado a calamidade, tanto por problemas de visão como por erros de interpretação.
Alguns árbitros, mesmo muito bem colocados e próximos ao lance simplesmente não conseguem ver toques de mão na bola ou pênaltis claríssimos ou veem irregularidades em lances normais; por outro lado, a falta de critério e a falta de diálogo entre o árbitro e os seus assistentes continuam gerando situações contraditórias que acabam deixando todo mundo descontente.
Se isto não envolvesse diretamente os quatro primeiros colocados talvez não fosse tão flagrantemente notado, posto que estes erros vêm infelizmente se constituindo num fato corriqueiro no nosso futebol. A arbitragem brasileira é cronicamente péssima e parece que não há jeito de ser consertada.
Assim, palmeirenses, flamenguistas, atleticanos e santistas estão pondo a boca no trombone e se acusando uns aos outros de estarem sendo beneficiados, e os presidentes destas agremiações têm vindo a público desfiar as suas teorias da conspiração.
Alguns pedem a anulação de partidas, outros pedem que determinados árbitros não sejam mais escalados, outros suspeitam de que resultados tenham sido armados na Comissão de Arbitragem, mas todos se esquecem que ao longo destas trinta e uma rodadas já disputadas eles também já tiveram uma mãozinha da arbitragem em seu benefício.
Em outros países, quando investigadas com rigor, situações como estas geraram sérias consequências que inclusive levaram muita gente pra cadeia pela constatação de que resultados eram fabricados por esquemas que incluíam o envolvimento de loterias e outros babados.
Tudo leva a crer que o que acontece no Brasil não chegue a tanto, mas nada impede que seja levada adiante uma investigação séria e que seja feito um processo de capacitação rigoroso para que a Comissão de Arbitragem se certifique da competência de cada um dos seus representantes.
Foi por causa da falta dessa competência que Meira Ricci, um árbitro useiro e vezeiro em criar problemas nas partidas em que apita, leva o Campeonato Brasileiro a este infeliz impasse bem no momento em que recrudescia a luta entre Palmeiras e Flamengo pela liderança.
Por causa disso, o campeonato corre o risco de se transformar numa novela cheia de recursos jurídicos e talvez possa encerrar o ano sem um campeão dentro do campo.
Há exatos onze anos, o Campeonato de 2005 foi conturbado por denúncias contra o árbitro Edilson Pereira de Carvalho que, pressionado, declarou ter recebido dinheiro para fabricar certos resultados. Por esse motivo o STJD cancelou diversas partidas, invertendo profundamente a pontuação da tabela e desequilibrando o certame, que culminou dando o título ao Corinthians.
O engraçado é que apesar de Edilson ter confessado ser um ladrão, nenhuma das partidas apitadas por ele sofreu de fato alguma distorção nos resultados, de modo que o Tribunal acabou forçando a barra indevidamente.



(Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 21/10/2016)




sábado, 15 de outubro de 2016





SOB NOVA DIREÇÃO

Quando comecei a escrever este artigo, imediatamente após o término da partida contra a Venezuela que marcou a quarta vitória consecutiva da seleção brasileira sob o comando de Tite, pensei em dar-lhe o título de “Da água para o vinho”, enfatizando a diferença marcante entre o seu desempenho atual e aquele arremedo de futebol praticado pela equipe de Dunga.
No entanto, resolvi por chamá-lo de “Sob nova direção”, um pouco mais contido, por ser o indicador de que o torcedor brasileiro está feliz e confiante com a mudança do comando técnico, da mesma forma com a qual um cliente reage quando um restaurante que andava mal das pernas – e dos sabores – muda de chef, de cardápio e de administração.
A mudança da água para o vinho, diferentemente do milagre operado por Jesus Cristo nas bodas de Canaã, deverá ser sentida gradativamente durante as Eliminatórias na qual ainda teremos pela frente Argentina, Uruguai, Colômbia e outros menos qualificados.
Afinal, não basta mudar de água para vinho, tem que ser vinho de qualidade!
Ganhar de Bolívia e Venezuela não tem o sabor que o degustador aprecia. Mas ganhar jogando bem – muito bem contra a Bolívia e mais ou menos bem contra a Venezuela – sempre ajuda na autoestima e na soma dos pontos fundamentais para nos conduzir à Rússia em 2018.
O devastador toque de bola contra os bolivianos não foi visto na partida contra a Venezuela, e não me parece que a ausência de Neymar tenha algo a ver com isso. Os venezuelanos, com toda a sua limitação, se defenderam melhor, cobriram os espaços com mais propriedade e dificultaram as coisas para os brasileiros. A prova disso é que o primeiro gol aconteceu logo no início, após uma pixotada grotesca do goleiro venezuelano aproveitada com primor por Gabriel Jesus, e o segundo quase no fim, após um chute improvável e muito feliz do atacante Willian.
É claro que deve ser ressaltado o fato de que em tão pouco tempo, nas mãos de um técnico mais competente, o grupo de jogadores – praticamente os mesmos que atuavam na seleção carrancuda de Dunga – conseguir apresentar um futebol com a cara do Brasil que queremos ver.
O futebol da seleção nesta ainda curta mas promissora era Tite vem mostrando uma variedade de detalhes com os quais já nos havíamos desacostumado, como triangulações, deslocamentos, jogadores procurando o vazio para receber a bola em melhores condições, lançamentos mais precisos, volantes mais técnicos e uma defesa segura que sofreu apenas um gol em quatro partidas, mesmo assim um gol contra do zagueiro Marquinhos. Foram doze gols marcados em quatro apresentações, uma prova de que os jogadores voltaram a acreditar no seu próprio potencial.
A agenda de procedimentos de Tite inclui diálogo franco e honesto com os jogadores e com a imprensa, uma interlocução não subserviente com a CBF, técnicas modernas de treinamento e um prudente distanciamento de agentes e empresários.
O fato mais positivo da gestão Tite é que ele conseguiu devolver a confiança ao jogador e ao torcedor, além de mostrar para o mundo o futebol brasileiro que o mundo estava acostumado a ver no século passado.
Chegar ao primeiro lugar nas Eliminatórias da Copa depois de quatro jogos não era nenhuma obrigação, pois o objetivo ainda é a classificação pura e simples para a Copa de 2018. Mas depois de quatro jogos o Brasil chegou lá, e dá mostras que aquelas nuvens negras que toldavam o nosso céu azul de anil foram embora junto com a antiga comissão técnica de tão má lembrança.
O Brasil está disputando um futebol mais leve, mais técnico e envolvente, sem deixar de lado os toques de efeito típicos do futebolista nativo, e os jogadores se viram finalmente livres de implicâncias e ressentimentos por parte da comissão técnica anterior e sabem que a sua convocação e eventual escalação obedecerá apenas a critérios exclusivamente técnicos, sem ranços nem rancor.
Todas as seleções ainda terão de cumprir nove partidas pelo torneio que classificará diretamente os quatro primeiros países classificados e oferecerá uma repescagem intercontinental para o quinto colocado.
Os próximos adversários do Brasil serão a Argentina, que passa por uma crise técnica, e o Peru, que tradicionalmente não nos dá muito trabalho. Se continuar trabalhando com a mesma objetividade das últimas quatro partidas o Brasil tem tudo para carimbar o passaporte para Moscou nos oferecendo um vinho de ótima qualidade. 

  


 (Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 14/10/2016)






domingo, 9 de outubro de 2016





O NOVO FORMATO DA LIBERTADORES

No último fim de semana a Conmebol decidiu fazer algumas modificações no formato da Copa Libertadores da América, já valendo para a temporada de 2017.
A principal novidade é a duração do torneio, que passa a ser disputado em 42 semanas ao invés das atuais 27, começando em fevereiro e se estendendo até novembro.
Para os clubes brasileiros isto pode ser mais um desafio, pois se a CBF tem dificuldades em administrar o calendário lidando com as poucas datas que temos no momento para os campeonatos domésticos, imagine encaixar estas novas datas no nosso exíguo ano esportivo.
Existe a possibilidade de alguns times terem que encarar mais de noventa jogos no ano, o que é absurdamente exaustivo.
Outra alteração promovida pela Conmebol é o aumento de clubes participantes, passando de 38 para 42. Na prática, porém, não haverá muita diferença pois o inchaço será abatido já na fase da chamada Pré-Libertadores.
Com isso, o futebol brasileiro passa a classificar 7 clubes, sendo 6 vagas para os seis primeiros colocados pelo Campeonato Brasileiro e uma vaga para o campeão da Copa do Brasil. O número pode subir para 8 se os campeões da Copa do Brasil e da Copa Sul-Americana estiverem entre os seis primeiros do Campeonato Brasileiro, e para 9 em 2018 se um clube brasileiro vencer a Copa Libertadores 2017.
O resultado imediato disto é que reacenderam as chamas de todos os dez primeiros colocados no Brasileirão pois o chamado G4 foi ampliado para G6.
No momento, as seis vagas do campeonato estão sendo ocupadas por Palmeiras, Flamengo, Atlético Mineiro, Santos, Fluminense e Atlético Paranaense, mas Grêmio, Corinthians, Botafogo e Ponte Preta seguem no calcanhar dos líderes, de modo que, faltando onze rodadas, a situação do campeonato e dos classificados ainda permanece indefinida.
Os quatro primeiros já terão garantida a participação na fase de grupos, mas os demais terão que disputar a Pré-Libertadores em duas partidas eliminatórias no sistema mata-mata.
Além do Brasil, também Argentina, Chile e Colômbia foram beneficiados com uma vaga a mais cada um.
Os dez clubes da competição que não avançarem às oitavas de final  serão incluídos na Copa Sul-Americana, que será disputada de junho a dezembro do mesmo ano.
A decisão polêmica ficou por conta da disputa da final do torneio, e por ser polêmica será objeto de estudos posteriores, podendo ser adotada apenas em 2018 caso seja acordada pelo Comitê.
A ideia é copiar a Liga dos Campeões da Europa e fazer uma final única em um local preestabelecido (no momento a Libertadores é disputada no sistema ida-e-volta, sendo um jogo na casa de cada um dos finalistas).
Mas no caso da Liga dos Campeões se os finalistas se enfrentam numa final em Lisboa, Paris ou Roma, o deslocamento dos jogadores e torcedores pode ser feito por trem, de uma forma econômica e tranquila, diferentemente do que aconteceria numa final única na América do Sul (e México, que tem 3 times na disputa).
Imaginemos uma final como a de 2016, com um clube do Equador e um time da Colômbia se enfrentando por exemplo cidade de Montevidéu.
As dificuldades logísticas e o pouco apelo comercial podem levar a um fracasso de público, não condizente com a grandeza do torneio. Por outro lado, uma final em Quito e outra em Bogotá colocaria a final em ebulição.
Uma pesquisa conduzida a respeito do assunto mostra que 48% dos entrevistados concordam com a partida única, sob o argumento de que premiaria o melhor time e deixaria a final mais emocionante, mas 31% consideram que os fatores econômicos da América Latina e as enormes distâncias a serem percorridas serão grandes dificuldades a serem superadas. Para 21% dos pesquisados o sistema ida-e-volta deve ser mantido porque o fator “casa” tem que ser levado em consideração.   



(Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 07/10/2016)




sábado, 1 de outubro de 2016





FEITIÇO E O FEITICEIRO

O ano era 1927, e o local era o Estádio de São Januário, o maior e mais moderno da América Latina.
Estava em disputa a final do Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais, e o Rio de Janeiro, que era a sede do Distrito Federal, jogava contra São Paulo.
As duas seleções alinhavam jogadores de grande prestígio na época, como Floriano, Fortes, Pascoal, Nilo e Teófilo pelo lado carioca e Grané, Amilcar, Petronilho, Feitiço e Heitor pelo lado paulista. 
O jogo estava empatado em 1 x 1 quando, aos 29 minutos do segundo tempo o árbitro Ari Amarante marcou um pênalti a favor dos cariocas, num lance que gerou muita discussão.
A bola teria sido interceptada com o braço pelo zagueiro Bianco, mas os paulistas reclamaram que a bola teria batido no peito. Se hoje, em plena era da tecnologia, com o auxílio do replay, às vezes fica difícil chegar a uma conclusão, imagine então naquele tempo.
Assim, não temos uma informação concreta se o árbitro agiu corretamente, se foi mais uma arbitragem caseira ou se simplesmente houve apenas um erro, mas a confusão cresceu como sempre cresce em ocasiões como essa.
Os paulistas ficaram indignados e resolveram complicar as coisas. A bola, colocada e recolocada sobre a marca penal, era chutada para longe pelos paulistas para impedir a cobrança, mas o árbitro não expulsou ninguém. Na confusão que se estabeleceu, a partida ficou paralisada por mais de meia hora, gerando grande desconforto porque na tribuna de honra estava o Presidente da República, Washington Luís.
Como o árbitro se mostrava inflexível e a polícia já começava a tomar algumas providências não muito pacíficas, os paulistas, liderados pelo centroavante Feitiço, se retiraram de campo.
Da tribuna, o Presidente reclamou dos incidentes e deu ordens para que os jogadores retornassem e que a partida fosse reiniciada imediatamente. Ao ser notificado no vestiário, Feitiço proferiu uma frase que se tornou lapidar: “Diga ao Presidente que ele pode mandar no país, mas na seleção paulista quem manda somos nós!”. Há quem diga que o autor da frase teria sido o capitão Amílcar, mas de qualquer forma Feitiço, uma espécie de Romário da época, ficou com o crédito pela irreverência.
Com apenas a seleção carioca em campo e a meta vazia, o pênalti foi cobrado por Fortes, que apesar do nome deu um chute fraco no meio do gol, fazendo 2x1 e dando o título para a seleção da casa.
Após o jogo, a CBD informou a Guilherme Gonçalves, presidente do Santos e da APEA – Associação Paulista de Esportes Atléticos, que Feitiço, Grané e o goleiro Tuffy estavam eliminados do futebol. Um ano depois eles foram anistiados, juntos com outros que haviam mais tarde tido o mesmo destino.
Luís Macedo Matoso era o nome do jogador Feitiço, apelido dado por uma jovem admiradora devido à magia com que ele tratava a bola. Ele era forte no cabeceio e no chute “de bico”, artilheiro nato e recordista mundial pelo Santos como participante de um ataque que fez cem gols em dezesseis partidas (Osmar, Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista) com a impensável média de 6,25 gols por jogo no mesmo ano de 1927.
Esta epopeia de São Januário poderia ter ficado restrita em si mesma, mas teve um desdobramento político inesperado que precipitou uma forte dissidência entre o futebol de São Paulo e do Rio de Janeiro, culminando com o rompimento que iria deixar os jogadores paulistas fora da seleção que disputaria a Copa do Mundo de 1930 no Uruguai – exceção feita a Araken Patusca, que estava em litígio com o Santos e foi inscrito como jogador do Flamengo.  
Aparentemente, Washington Luís, mais preocupado com as lutas palacianas, não deu importância maior ao episódio (acabou deposto em 1930 pelas forças político-militares comandadas por Getúlio Vargas, três meses depois do Brasil ser eliminado da Copa).

(Artigo publicado no caderno de esportes do jornal O Imparcial de 30/09/2016)


domingo, 25 de setembro de 2016




CALAMIDADE DUPLA

Terminaram afinal os Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio de Janeiro trazendo um saldo positivo em termos esportivos e preservando incólume a imagem da Cidade Maravilhosa.
A competição, que nas vésperas havia projetado uma feição carrancuda, acabou saindo a contento, sem ocorrências desagradáveis marcantes, nada além do que pode acontecer numa ocasião festiva dentro de uma cidade de mais de 6 milhões de habitantes que recebeu um reforço populacional de 500 mil turistas.
Os nossos atletas e paratletas tiveram um desempenho dentro do esperado, com vantagem para os últimos, que ficaram em 8º lugar e beliscaram 72 medalhas (14 de ouro) contra um 13º lugar (7 medalhas de ouro, 14 no total) dos atletas sem deficiência física.
Se no campo comportamental e esportivo as coisas não merecem muitos reparos, o mesmo infelizmente não se pode dizer do estado agonizante em que se encontra a cidade do Rio de Janeiro, agravado exatamente porque se comprometeu a fazer uma festa de gente rica em casa de gente pobre.
A urbe convive com um alto índice de tráfico de drogas (o mais alto do Brasil), tem sérios problemas com a saúde pública e com o saneamento, enfrenta atraso no pagamento de salários do funcionalismo público e está financeiramente totalmente fora de controle. O déficit do estado é o maior do país e chega a 19 bilhões de reais, e o estado se encontra sob o regime de calamidade pública, decretado pelo governo estadual desde 49 dias antes do início das Olimpíadas.
O governo federal injetou 2,9 bilhões de reais na realização dos Jogos, que tiveram um custo total de 48 bilhões, incluindo aí a construção de toda a estrutura necessária e obrigatória para o sucesso do empreendimento e a infraestrutura necessária, legada para a cidade, ciclovias e poluição à parte.
A cidade ficou linda, mas boa parte da população teria ficado mais feliz se o dinheiro tivesse sido destinado para colocar hospitais, escolas e prontos-socorros públicos em pleno funcionamento, por exemplo, do que participar das megafestas de abertura e encerramento ou ouvir o Hino Nacional a cada ouro alcançado. 
Como se não bastasse a morte lenta de uma cidade símbolo, os Jogos Olímpicos serviram também para assassinar o vernáculo ao denominar o segundo evento da série como Jogos Paralímpicos.
A fim de uniformizar o nome e torná-lo semelhante aos países de língua estrangeira – “paralympics” em inglês, “paralympiques” em francês, “paralimpici” em italiano, e por aí vai – os países de língua portuguesa, ou seja, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e, é claro, Portugal, inventaram uma palavra que não consta de nenhum dicionário, passando por cima da etimologia (parte da gramática que trata da história ou origem das palavras). E o Brasil entrou no mesmo barco.
A origem do termo “paralímpico” vem do inglês, que misturou a primeira parte da palavra “paraplegic” com a palavra “olympics”, se esquecendo obviamente de que os atletas com deficiência que participam dos jogos não são apenas paraplégicos.
Em português, o correto seria seguir a regra que define o uso do prefixo grego “para”, que indica semelhança, proximidade ou intensidade (como por exemplo nas palavras “paralelo”, “parasita”, “paradigma”, “paradoxo” ou “paranormal”). Jogos Paraolímpicos significaria “tão intenso como os Jogos Olímpicos e muito semelhantes a eles”.  
Até 2011 o Brasil optava por “paraolímpicos”, que seria a forma correta de grafar a palavra. “Paralímpicos”, usados a partir de 2012, está errado por princípio, pois na junção de “para” com qualquer palavra é incomum a supressão da primeira letra da segunda palavra.
Faz algum tempo que o brasileiro está tendo que suportar a mutilação do vernáculo por motivos absolutamente sem sentido, seja gramatical seja semântico.
“Última flor do Lácio, inculta e bela”!
Durante algum tempo tivemos que suportar o termo “presidenta” devido a uma espécie de insistência oficial – felizmente não fomos obrigados por lei a assumir tal descalabro – e agora vemos surgir de além-mar uma determinação que pelo menos a mim afeta profundamente, violando a linguística que serve de norte para os meus textos e para a minha leitura.
Tomara que pare por aí.



(Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 23/09/2016)