sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

 


EU E A MÚSICA
(Augusto Pellegrini)

QUEM SOU EU PARA FALAR DE VIEIRA?

Final

São muitas as diferenças culturais que poderiam ter servido de barreira entre Antònio Vieira e eu: diferença de idade, diferença de lugar de nascimento, diferença de história de vida e até diferença de vivências musicais.
Pra ficar só com esta última, pelo lado de Vieira existe um profundo conhecimento das coisas do Maranhão, como suas raízes, seus ritmos populares (bumba-meu-boi, tambor de crioula, tambor de mina), a poesia do cotidiano, as intimidades de São Luís e as coisas deste nordeste, e pelo meu lado está a universalização da música – influências do erudito, do jazz, do blues – e a herança europeia inculcada no sul do país.
Estas diferenças, no entanto não foram suficientes para interferir no respeito mútuo pela arte que manifestávamos, na forma como víamos o mundo e na empatia que prontamente nasceu e assim foi cultivada.
Tornei-me amigo de Vieira e estivemos juntos no mesmo palco por diversas vezes, cada um dando vazão ao seu modo de interpretar, ao seu padrão musical e ao seu repertório.
E, por sugestão do próprio mestre, por diversas vezes dividimos a mesma canção.
Juntos, cantávamos “Smile” obra prima de Charles Chaplin, eu em inglês (“Smile though your heart is aching / smile even though it’s breaking / when there are clouds in the sky you’ll get by”) e ele retrucando em português (“Sorri quando a dor te torturar / e a saudade atormentar / os teus dias tristonhos, vazios”), na versão escrita por Djavan.
O mesmo acontecia com “Contigo En La Distancia” – bolero de Cesar Portillo de La Luz (“No hay bella melodia / en que no surjas tú / ni yo quiero escucharla / si no la escuchas tú”), ao que Vieira aparecia com a versão de Paulo Gilvan, feita para o Trio Irakitan (“Não existe melodia / em que não surjas tu / nem eu quero escutá-la / se não a escutas tu”)...    
Estivemos juntos também nas mesas de bar e nas casas dos amigos, eu com a minha cerveja e ele com o seu refrigerante, que bebia de forma parcimoniosa enquanto me brindava com seus incontáveis “causos” que dariam um delicioso livro de crônicas, incluindo algumas histórias da sua juventude e a origem de muitas das suas incontáveis composições, algumas delas impagáveis, outras impublicáveis.
Fazem falta as gargalhadas que ele provocava ao final de cada história, que muitas vezes precediam a sua entrada em cena para sob os holofotes, onde desfilaria mais uma sessão de música, ginga e encantamento.
O mestre Antônio Vieira nos deixou em abril de 2009, quando tinha 88 anos e muitos planos para outros voos dentro da música popular brasileira.
Voou para mais longe, levando sua simpatia para junto dos anjos.

 


NOVOCABULÁRIO INGLÊS

(Copyright FluentU)

(ver tradução após o texto)

 

HUNG and HANGED   

The difference between HUNG and HANGED can be deadly.
 

HUNG is the past of the verb “hang”.

 

“I HUNG my painting on the wall and I HUNG my clothes on the clothes line.”           

           

HANGED is the deadly exception, it’s the past tense of “hang” in one very particular situation (when it means to execute a criminal by hanging them with a rope). In that case, the past tense of “hang” is HANGED.

 

“The judge sentenced the murderer to be HANGED.”

 

“The criminal was HANGED in the prison.”

  

                                                                                                                                  

            TRADUÇÃO

 

DEPENDURADO e ENFORCADO  

A diferença entre as palavras HUNG (dependurado) e HANGED (enforcado) é mortal.

HUNG é o passado do verbo “hang” (pendurar).  
   

            “Eu pendurei o quadro na parede e as roupas no varal.”

 

HANGED (enforcado), a exceção mortal, é o passado do verbo “hang” numa situação muito particular, e significa executar um criminoso por enforcamento dependurando-o numa corda. Neste caso, o passado de “hang” é HANGED.

“O juiz sentenciou o assassino à pena de enforcamento.”

“O criminoso foi enforcado na prisão.”

 

 

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

 


PÁGINAS ESCOLHIDAS

O FANTASMA DA FM (1992)
(Augusto Pellegrini)

CLICHÊS – O GERENTE DO BANCO

Estamos em 1975.
A Senhora Redondinha, beirando os sessenta, repousa as ancas no assento da cadeira e reclama, toda indignada, que o banco lhe remeteu o extrato errado.
“Vamos verificar, madame”, enquanto procura a ficha da cliente com a mão esquerda, atende o telefone com o ouvido direito, ouve o recado da moça do setor de cobrança com o ouvido esquerdo e dá o seu aval naquele cheque sem provisão de fundos daquele cliente especial com a mão direita.
“Aqui está, madame, o extrato está correto, a senhora não contou com o saque feito no dia 23” – cumprimenta o cliente que passa em frente a sua mesa com a cara amarrada “Bom dia, doutor Roberto!” – e a Senhora Redondinha vai embora aquiescendo, mesmo sem compreender – “Tudo bem, vou ver com o meu filho…”.

E chega a Senhora Ranzinza.
“Olha aqui, Anísio! Devolveram outra vez o meu cheque!”
“Vamos ver o que houve, dona Encarnação… Elisabete, traga a listagem três-quatro-quatro! – e põe seu visto em mais um borderô enquanto vê entrando o “Senhor-Mais-Do-Que-Grosso”, que se aproxima engrossando de vez.
“Pois sim, pois não, o senhor tem razão, vamos verificar…”

E assim se sucedem o Senhor Enrolado, a Senhorita Impaciente, O Doutor Tenho-Muita-Pressa, O Senhor Papo-Furado e outros clientes quetais.

E assim, de escaramuça em escaramuça, chega afinal o horário de fechamento e o atendente-vigilante-porteiro começa a fechar as portas de vidro. Lá fora, o Senhor Atrasado, A Senhora Última-Hora e o Senhor Tenho-Que-Resolver-Este-Assunto-Hoje gesticulam, se acotovelam e batem no vidro.
O atendente-vigilante-porteiro fica impassível como se tivesse desligado o motor e engolido a chave.

Anísio, o gerente, ainda usa um telefone em cada ouvido enquanto rabisca uma aplicação de última hora num bloco de papel com a mão direita e folheia a três-quatro-quatro com a esquerda, um olho na listagem e outro na porta para ver se o Senhor Muito Importante chegou – como de hábito – após o fim do expediente.

 

(Agruras de um gerente de banco antes da informatização)


 

domingo, 2 de janeiro de 2022

 


EU E A MÚSICA
(Augusto Pellegrini)

QUEM SOU EU PARA FALAR DE VIEIRA?

Primeira parte

Falar do mestre Antônio Vieira para os maranhenses soa como fazer uma pregação religiosa para o Papa. Mesmo assim vou me arriscar, até porque há seguramente pessoas de outros rincões que gostariam de conhecer ilustrações deste poeta ímpar da nossa cultura.
O músico Antônio Vieira é cantado no Maranhão em prosa e verso, especialmente por aqueles que tiveram a oportunidade de se apresentar ao seu lado nos palcos e nas tertúlias da cidade.
Com certeza muitos desses artistas teriam muito a acrescentar à biografia do menestrel, um senhor muito moleque de gestos largos e olhos irrequietos que mostrava uma grande segurança quando fazia suas apresentações, gerando um intenso magnetismo dentro de um clima de muita simplicidade. 
“Seu” Vieira tinha a timidez dos sábios.
Sua poesia é simples, direta e marcante, sem firulas ou rococós. Mestre na criação e na interpretação, ele cantou a voz do povo, das feiras e das festas populares.   
Sua participação na música brasileira poderia ter ido mais além caso ele tivesse ousado na sua caminhada pelo menos uma década mais cedo, mas mesmo assim, sua biografia tem pontos marcantes.
Vieira foi batizado Antônio em homenagem ao religioso, filósofo, escritor e orador português Padre Antônio Vieira, que veio de Portugal para o Brasil em 1619 enviado pela da Companhia de Jesus. Pode-se dizer que o nosso Antônio Vieira fez jus plenamente ao nome.
Criado por uma família de posses, Antônio teve uma educação esmerada e muitas oportunidades de estudo e de trabalho – foi comerciante, avalista de imóveis, funcionário de emissora de rádio, diretor de hospital, vendedor de telefone e sargento do Exército entre outras ocupações. Fundamentalmente, no entanto, Vieira foi músico e poeta.
Começou a compor aos 16 anos, em 1936, com a música “Mulata Bonita” (“Mulata bonita / com laço de fita / e o corpo gingando / e sabe sambar / chinelas sem meia / ela sapateia / na roda de samba / ela vai cantar”).
A partir daí não parou mais (foram mais de 300 composições catalogadas ao longo da vida – algumas com parceiros como Lopes Bogéa e Pedro Giusti). Entre as suas composições ele dedicava um carinho especial para “Poema Para O Azul” (“O mar é verde-azul / o céu é mais azul / o céu é irmão do mar / e o azul é que os foi ligar / eu que amo o céu / eu que gosto do mar / não sou pelo menos azul / pra com eles me identificar”), composta para a sua mãe de criação.
A sua primeira gravação aconteceu em 1986 com “A Cabecinha Da Dora” (“Na cabecinha da Dora / meu pensamento concentro / tem muito rolo por fora / e pouco miolo por dentro”), mas foi apenas em 1997, aos 77 anos, que ele alcançou seu primeiro grande sucesso quando a cantora Rita Benedetto (então Rita Ribeiro) gravou “Tem Quem Queira” (“Amigo, se andas triste / vai para uma brincadeira / se tu não quer, tem quem queira / se tu não quer, tem quem queira / se é por falta de dinheiro te dou trabalho na feira / se tu não quer, tem quem queira / se tu não quer, tem quem queira”)  e “Cocada” (“Ai meu Deus se eu pudesse / eu abria um buraco / metia os pés dentro, criava raiz / virava coqueiro / trepava em mim mesmo / colhia meus cocos, meus frutos, feliz”).
“Tem Quem Queira” foi tema da novela da Rede Globo “Da Cor Do Pecado” em 2004, e “Cocada” foi indicada para o Premio Sharp 98 na categoria Melhor Canção, valendo para Rita Ribeiro a sua projeção nacional como cantora.
O repertório de Vieira é vasto, mas a gente pode lembrar “Ingredientes do Samba” (“Se faz samba com pandeiro / com cavaco e cuíca / com requinta, tamborim e violão / entra o surdo, reco-reco / afoxé e o apito / as cabrochas, os sambistas e animação”), “Mocambo” (“Mocambo, mocambo / morada, miséria, pedindo socorro / que nem palafita no meio do mangue / e grande favela no alto do morro”), “Por Ti” (“Eu tenho tudo pra sonhar / por isso posso esperar por ti / eu tenho tudo pra cantar / eu tenho só que me alegrar por ti / mas se quiseres me olvidar / eu tenho muito o que chorar por ti / eu sei que posso me acabar / se tu quiseres me deixar sem ti”), “Banho Cheiroso” (“Você deve tomar banho cheiroso / você deve tomar banho cheiroso / pra acabar com essa mofina / e o corpo ficar jeitoso / pra acabar com essa mofina / e o corpo ficar jeitoso / você sente uma moleza / sem ter doença nenhuma / tem a vida atrapalhada / não consegue coisa alguma”) , “O Samba É Bom” (“O samba é bom, melhor sou eu / o samba é bom, melhor sou eu / o samba é bom com cavaquinho e violão / e tamborim pra se fazer a marcação / é, o samba é bom, melhor sou eu / que gosto dele / é, o samba é bom, melhor sou eu”) , “Balaio De Guarimã” (“Meu balaio, meu balaio / meu balaio de Guarimã / meu balaio, meu balaio / meu balaio de Guarimã / ela pediu meu balaio / emprestado até amanhã / ô que falta me faz / meu balaio de Guarimã”), “Menino Travesso” (“Zeca / o menino levado da breca / e que vive de roupa rasgada / que é dono da praça / que é bom na pedrada / quebrando vidraça”), “Patinho Feio” (“Patinho feio / olha pra mim / de onde você veio / com essa cara assim / patinho chato / é bem ruim / além de nascer pato / ser tão feio assim”),  “Cachaça Apanhou” (“Noutro dia me levaram / pro samba de Zé Nagô / e a danada dessa festa / estava boa, sim sinhô / as cabrochas requebravam / e a sanfona nem gripou / e não teve arruaça / só cachaça que apanhou”) e tantas outras, além das citadas anteriormente.
Vieira tem seu trabalho gravado por Rita Ribeiro (Benedetto), Anna Claudia, Ary Lobo, Elza Soares, Sivuca e Célia Maria, entre outros intérpretes.  

sábado, 1 de janeiro de 2022

 


MAIS UMA QUARTA-FEIRA  

Canção/ Marcha-Rancho com música de Renato Winkler e letra de Augusto Pellegrini)

 

Vem ver

Do povo esta fantasia

Do samba a melancolia

Quarta-feira é só tristeza

Vem ver

O desfile diferente

No cordão tem tanta gente

Mas o samba fez silêncio

Canta sempre

A caminho de casa

E vai

Percorrer madrugada

E vai

No outro ano tem mais

Vem ver

Esta estrela matutina

Que ilumina a rua estranha

Traz mil cores

Agora

Acabou toda a alegria

Tem trabalho no outro dia

Outro sol

 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

 


TEMPOS DIFÍCEIS

(Augusto Pellegrini)

Tempos difíceis vivemos
De confinamento e tédio
Mas nosso melhor remédio
É conformar com o que temos

Temos que ficar em casa
Como fosse numa cela
E assim se esvai vida bela
Pois quebraram nossa asa

Mudou tudo em nossa vida
A noite, a roda de amigos
Mesmo assim ainda consigo
Tê-la menos reprimida

Com a tecnologia
Eu vejo de tudo um pouco
Mas o que me deixa louco
É a mesmice do dia-a-dia

Deixei de cantar, é certo
Nas noites de vinho e jazz
Pois não posso por meus pés
Lá fora, no descoberto

Não posso pra rádio ir
Pra fazer o Sexta Jazz
A assim fico, num viés
Sem falar, sem produzir

O meu programa querido
Com quase quarenta anos
Com pesar e desengano
Passou a ser repetido

As minhas aulas de inglês
Entre outras empreitadas
Começam a ser adiadas
Quem sabe pro outro mês

A alternativa, então
Mesmo com vã contumácia
É caminhar até a farmácia
Para medir a pressão

Ou ir ao supermercado
Nas horas mais sossegadas
Ver prateleiras esgotadas
Do produto procurado

E pra aumentar a lambança
Dizem, se bem me lembro
Que antes de chegar setembro
Não haverá qualquer mudança

Já me sinto enferrujado
Com a falta de movimento
Ansiando pelo momento
De ser enfim libertado

Poder cantar como antes
Enturmar com quem se ama
Renascer com o programa
E levar a vida adiante

Março 2020

 

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

 


PÁGINAS ESCOLHIDAS

O FANTASMA DA FM (1992)
(Augusto Pellegrini)

CLICHÊS – O FILME DE BANG-BANG

No alpendre de uma barbearia abandonada uma placa balança como se fosse o corpo do enforcado e um velho desdenta do masca um fiapo de capim, com o chapéu enterrado sobre os olhos. Uma caneca de estanho repousa sobre o corrimão contendo um resto de café requentado.
Corte.

Um homem está à procura dos bandoleiros que destruíram a sua casa, incendiaram o celeiro e mataram o velho Joe. John Wayne, no mais emocionante papel de sua carreira.
Corte.

Maureen O’Hara de cabelos vermelhos se atira nos braços do gala e pede para ele não ir. Um generoso decote revela um opulento par de tetas que o poeta chama de regaço, nas o nosso herói não presta atenção em detalhes, e então vem o beijo e a partida.
Corte.

Saloon cheio de gente bebendo uísque de milho e Jack Palance pede mais um para o garçom assustado. Ele faz cara feia, ele tem cara feia, ele é um cara feia, toma o seu gole e limpa a boca com o dorso da mão esquerda.
Corte.

John Wayne entra triunfalmente no saloon com um chute na porta de vai-e-vem. Silêncio sepulcral. Enfim o confronto. Ao cabo de algum tempo o bandoleiro é arrastado pelas pernas depois de um “uppercut” na ponta no queixo, um cruzado de direita no fígado e uma bala no abdome. No fundo musical ouve-se “High Noon”, enquanto John Wayne atravessa a rua empoeirada e parte em direção ao seu destino.
A cena se perde no horizonte, diante de uma revoada de touceiras.

The End.

(Imagens da matinê de domingo)


 

 SINOPSE DO PROGRAMA JAZZ DE 11/10/2019
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106,9 Mhz
São Luís-MA

DUKE ELLINGTON - RING DEM BELLS

Uma das maiores personalidades artísticas do século 20 e referência mundial como compositor, líder de orquestra, pianista e inovador, Duke Ellington é e sempre será uma figura obrigatória em questões de jazz.
Ellington compôs e interpretou músicas de big band, swing dançante, jazz para pequenos conjuntos, baladas, suítes e música sacra, tudo sempre com uma forte presença de blues, sua eterna inspiração. Ele já compareceu algumas vezes no Sexta Jazz, mas nunca é demais lembrar a sua estatura musical em outro programa especial, onde o selo Double Play faz uma coletânea de suas obras, numa investidura histórica e antológica. Aqui o ouvinte vai se reencontrar com músicos que fizeram parte da orquestra durante décadas, como Harry Carney, Johnny Hodges, Barney Bigard, Paul Gonsalves, Cootie Williams, Ray Nance e outros. No programa, "Take The A Train", "The Mooche", "One O'Clock Jump" e "Perdido", entre outros sucessos.   

 Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini

                

domingo, 26 de dezembro de 2021

 


EU E A MÚSICA
(Augusto Pellegrini)

OS REIS DO IÉ-IÉ-IÉ – A DESCOBERTA

É certo que o jazz sempre fez parte da minha vida.
Afinal, quando criança tive uma saudável iniciação ao ser apresentado aos discos de ebonite, os chamados “bolachões” gravados em 78 rpm com as orquestras de Benny Goodman, Harry James, Artie Shaw e Xavier Cugat, e aquele tipo de música me conquistou de uma forma definitiva.
O material foi se modernizando e passou a ser prensado em discos com 33 rpm, ao mesmo tempo em que o gosto se aprimorava com a evolução do jazz, passando do swing das grandes orquestras para as firulas do bebop de Gillespie e Parker e mais tarde desembocar no jazz branco de Dave Brubeck e Chet Baker e no refinamento do cool-blues e da chamada “third-stream music” cultuados pelo Modern Jazz Quartet.
Na década de 1950, houve porém um desvio de rota.
É que o rock dos precursores chegou com a força da country music, foi invadido pela essência do boogie-woogie e do blues, e trouxe uma nova linguagem que também passou a acompanhar o meu gosto musical, representado pela arte de Little Richard, Elvis Presley, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis e outros mais.
Como acontece com toda novidade, não demorou muito para que surgissem aproveitadores com músicos e músicas de menor qualidade e começassem a ocupar espaço nas gravadoras e emissoras de rádio, prenúncio triste do que iria acontecer 70 anos depois.
A turma que reverenciava o jazz e o rock que era comprometido com a qualidade ignorava essa injunção puramente comercial e continuava trocando figurinhas em lojas de discos e em clubes improvisados, e sempre sobrava espaço para ouvir um lançamento recente na casa de um dos aficionados.
Eis que me vejo convidado para ouvir na casa do amigo Élcio Bottini o LP “Place Vendôme - The Modern Jazz Quartet & The Swingle Singers”, um disco que reunia o MJQ – John Lewis (pianista, arranjador, diretor musical e principal compositor do quarteto), Milt Jackson (vibrafonista), Percy Heath (contrabaixista) e Connie Kay (baterista que tocava com extrema leveza) – e o grupo vocal composto por cantores franceses e regido pelo maestro Ward Swingle, americano, especializado em vocalizar música de cunho barroco.
A mistura deste barroco, recheado de fugas e de uma harmonia tonal bachiana, com a leveza do blues do MJQ, produziu uma das mais refinadas obras de jazz de que se tem notícia.
Ao chegarmos na casa do Élcio, no entanto, aconteceu o impasse: a irmã mais nova do meu amigo estava entretida com o aparelho de som ouvindo uma daquelas novidades a princípio detestáveis, um grupo pop inglês com quatro “bonitinhos” cantando músicas descartáveis para consumo imediato. Ela disse que era um grupo chamado The Beatles, que estava levando à loucura garotas como ela pelos quatro cantos do mundo.
Ora, e eu lá teria paciência para ouvir um grupo de cantores fabricados para levar adolescentes à histeria? É claro que Élcio e eu nos recusamos a perder tempo com aquilo e nos afastamos o máximo que pudemos da sala onde se realizava a audição.
Aguardamos pacientemente no jardim da casa até que chegou a nossa vez de entrar e poder ouvir o desempenho angelical e elegante do MJQ e dos cantores de Ward Swingle, com muito blues em cada acorde vindo de dois dos mais qualificados grupos musicais jamais formados.

-0-

De repente, uma mudança abrupta do cenário.
Eis-me, alguns meses depois, na então progressista cidade de Ribeirão Preto (como diziam na época os documentários que antecediam os filmes nas salas de cinema), enfadado, enfarado, entediado e enfastiado, sem nada que fazer na tarde quente das três horas, caminhando pela praça principal da cidade, batizada de Praça Dom Pedro II.
Na falta de algo mais consistente resolvi me aventurar indo ao cinema para assistir – imaginem – ao filme “Os Reis do Ié-Ié-Ié” (“A Hard Day’s Night”, no título original) que apresentava exatamente o tal quarteto de cabeludos que eu me recusara ouvir na casa do amigo Élcio.
Operou-se a transformação: a cada instante meu interesse e entusiasmo foi crescendo, pois o filme feito sobre um roteiro maluco de Alun Owen e muito bem dirigido por Richard Lester, desafiava a lógica na magia do preto-e-branco, alternando situações inusitadas num perfeito contraponto entre o irônico e o absurdo com músicas de um delicioso desenho melódico.  
Eu acabara de descobrir The Beatles, que nos próximos dez anos revolucionariam a música, muitos músicos, a própria história do rock e os costumes de toda uma geração, levando esta tendência mais além, mesmo depois de a banda ser desfeita.  
Se naquela tarde eu tivesse atendido ao chamado da irmã do Élcio, quem sabe teria gostado de imediato da nova música, mas com certeza o impacto não teria sido tão grande.
Ao sair do cinema corri até as Lojas Americanas e comprei o LP, que seria a primeira aquisição de toda a coleção catalogada do grupo, depois acrescido de gravações pirata que não estão em catálogo e de muito material da fase solo de cada um dos Paul, John, George e Ringo que fizeram a banda.

 


NOVOCABULÁRIO INGLÊS

(Copyright FluentU) 

(ver tradução após o texto)

 FARTHER and FURTHER

 

These two words are very confusing. FARTHER and FURTHER are adverbs, and both may have the same meaning but are used in different situations and context. They’re pronounced in a similar way too, but with a slight difference – in the “far” and “fur”.

 

FARTHER is used when we’re talking about physical distance.

 

“As a passenger in a car, you can ask the driver ‘How much FARTHER until we reach our destination?’”

  

            “In race, you can say ‘She ran FARTHER and faster than him’”

           

           

FURTHER is used for more abstract situations.

 

“The human resources representative told me: ‘If you have any FURTHER complaints, please tell me’”

 

“The professor told us: ‘If you have any FURTHER questions, you can ask me at the end’”

 

   

 

 

                                                                                                                                 

            TRADUÇÃO

 

ADICIONAL e MAIS ALÉM  

Estas duas palavras (FARTHER e FURTHER) podem promover alguma confusão. Ambas são advérbios e têm um significado semelhante, mas são usadas em diferentes situações e contextos. Sua pronúncia é também bastante parecida, com uma ligeira diferença no “far” e no “fur”.


            FARTHER (“adicional”, “mais afastado”, “além de”) é usado quando nos referimos a distâncias físicas.     

            “Como passageiro de um carro, você pode perguntar ao motorista ‘quanto falta para a gente chegar?’”

“Numa corrida, você pode dizer ‘ela correu mais rápido e chegou mais longe do que ele’”


FURTHER (“além disso”) é usado para situações mais abstratas.

“O responsável pelos direitos humanos disse: ‘Me informe se você tiver mais alguma reclamação’”

“O professor falou: ‘Se vocês tiverem perguntas adicionais podem fazê-las no fim da aula’”