sexta-feira, 22 de maio de 2015






A DESCOBERTA DA PÓLVORA 

A notícia saiu na mídia durante a semana, com o devido estardalhaço:
“Documentos mostram que a CBF ‘vendeu’ a seleção brasileira – Contrato feito por Ricardo Teixeira favorece empresário”.
Pode ter sido uma bomba para muita gente, mas para quem acompanha o futebol e a seleção, a notícia teve o impacto de um traque junino.
Afinal, os inexplicáveis amistosos realizados ao redor do mundo e a inexplicável convocação de jogadores que a rigor não teriam condição de serem chamados sempre teve um aspecto muito suspeito.
Então vem o jornal O Estado de São Paulo e revela os dados de um contrato que mostra como o futebol da seleção brasileira se transformou numa mina de ouro para a CBF e para alguns empresários. De acordo com o jornal, “a entidade leiloou a seleção em troca de milhões de dólares em comissões a agentes, cartolas, testas de ferro e empresas em paraísos fiscais, longe do controle da Receita Federal brasileira”.
Assim, de acordo com a denúncia, a CBF não apenas estaria cometendo falta de ética como também incorrendo em crimes fiscais, puníveis pela lei.
Pelo acordo, a convocação dos jogadores deveria atender a certos critérios estabelecidos pelo parceiro comercial da CBF, ou seja, a necessidade de valorizar este ou aquele atleta com vistas a ser negociado com o mercado internacional e a escolha do local e dos horários dos amistosos deveriam obedecer à conveniência da exposição dos convocados e à negociação dos parceiros da CBF com outros parceiros.
O jornal publicou a minuta do contrato firmado entre a CBF e a Internacional Sports Events (nome híbrido meio português-meio inglês), empresa sediada nas Ilhas Cayman tendo como testa de ferro o Grupo DAG – Dallah Albaraka Group, sediado na Arábia Saudita.
Pelo contrato, a CBF cede os direitos de exclusividade para “organizar, hospedar, realizar, administrar, comercializar e produzir as partidas da seleção brasileira em qualquer lugar do mundo, inclusive no Brasil”, e assegura que os jogadores que estarão em campo “serão sempre aqueles considerados titulares”, ressalvando-se os que eventualmente sejam convocados atendendo aos interesses dos parceiros.
O contrato havia sido assinado em 2006 e foi renovado em 2011 por meio de um aditivo, sendo ambas as vias assinadas pelo então presidente Ricardo Terra Teixeira e por Moheydin Kamel, sócio do Grupo DAG, em nome da ISE.
Em 2012 a ISE tornou a transação ainda mais nebulosa, sublicenciando o contrato para a Kentaro, empresa que passou a administrar a operação.
Como o mandato de Teixeira estava no fim, coube a outro empresário, Juan Figger, costurar um acordo com a dupla José Maria Marin-Marco Polo Del Nero, que iriam, cada um a seu tempo, substituir o presidente no comando da entidade.
O fato é que Teixeira alinhavou todo o esquema e foi um vencedor porque mesmo fora da CBF continua mandando na seleção (da qual ainda recebe um salário de cerca de 100 mil reais por mês como “assessor internacional”) ao lado dos seus parceiros comerciais, porque o contrato somente expira em 2022, a não ser que haja um distrato entre as partes o que, convenhamos, é muito pouco provável, considerando os milhões de dólares envolvidos.
Assim, a não ser que o barco venha a soçobrar por conta de algum mal feito detectado pela Receita Federal e que daí surjam uma CPI, uma intervenção da Procuradoria Geral da República ou uma investigação feita pela Polícia Federal, o senhor Teixeira e os seus parceiros comerciais não terão motivos para preocupação (desde que a seleção não se desvalorize a ponto de perder mercado, o que também é altamente improvável).
A notícia bomba do O Estado de São Paulo pode ser uma redescoberta da pólvora, mas seu poder de destruição é muito pequeno, com exceção do rombo formidável nos cofres da CBF e nas finanças do Brasil, que vê o seu dinheiro bem guardado nas Ilhas Cayman sem receber um tostão de imposto.

 

 

 

 (Artigo publicado no caderno SuperEsportes do jornal O Imparcial de 22/05/2015)