sábado, 1 de setembro de 2018






DÚVIDA

Com um olho aprova, com outro fulmina
Maldita sina

Com um pé me segue, com outro me chuta
Me catapulta

Um olho me vê, outro me nega
E não me enxerga

Uma mão me afaga, outra me espanca
Me põe distante

Um braço abraça, outro me empurra
Me trata às turras

O peito suspira, o peito arrota
O bafo da morte

O olhar me adula, o olhar condena
À pesada pena

Sorri de amor, sorri de escárnio
Riso do diabo

O gesto benze, o semblante enxota
Me vê de costas

Sinto paixão, sinto ódio intenso
Mas me convenço

Que o lado certo, o lado primeiro
É o que me cabe

E o lado segundo, reles e imundo
É o que não vale

Inconsequente, só vejo aquilo
Que me interessa

E em meio à dúvida tiro proveito
Do que me resta.  


quarta-feira, 29 de agosto de 2018





ANTÔNIO VIEIRA E EU

São muitas as diferenças culturais que poderiam ter servido de barreira entre Antònio Vieira e eu: diferença de idade, diferença de lugar de nascimento, diferença de história de vida e até diferença de vivências musicais.
Pra ficar só com esta última, pelo lado de Vieira existe um profundo conhecimento das coisas do Maranhão, como suas raízes, seus ritmos populares – bumba-meu-boi, tambor de crioula, tambor de mina – a poesia do cotidiano, as intimidades de São Luís e as coisas deste nordeste, e pelo meu lado está a universalização da música – influências do erudito, do jazz, do blues – e a herança europeia inculcada no sul do país.
Estas diferenças, no entanto não foram suficientes para interferir no respeito mútuo pela arte que manifestávamos, na forma como víamos o mundo e na empatia que prontamente nasceu e assim foi cultivada.
Tornei-me amigo de Vieira e estivemos juntos no mesmo palco por diversas vezes, cada um dando vazão ao seu modo de interpretar, ao seu padrão musical e ao seu repertório.
E, por sugestão do próprio mestre, por diversas vezes dividimos a mesma canção.
Juntos, cantávamos “Smile” obra prima de Charles Chaplin, eu em inglês (“Smile though your heart is aching / smile even though it’s breaking / when there are clouds in the sky you’ll get by”) e ele retrucando em português (“Sorri quando a dor te torturar / e a saudade atormentar / os teus dias tristonhos, vazios”), na versão escrita por Djavan.
O mesmo acontecia com “Contigo En La Distancia” – bolero de Cesar Portillo de La Luz (“No hay bella melodia / en que no surjas tú / ni yo quiero escucharla / si no la escuchas tú”), ao que Vieira aparecia com a versão de Paulo Gilvan, feita para o Trio Irakitan (“Não existe melodia / em que não surjas tu / nem eu quero escutá-la / se não a escutas tu”)...    
Estivemos juntos também nas mesas de bar e nas casas dos amigos, eu com a minha cerveja e ele com o seu refrigerante, que bebia de forma parcimoniosa enquanto me brindava com seus incontáveis “causos” que dariam um delicioso livro de crônicas, incluindo algumas histórias da sua juventude e a origem de muitas das suas incontáveis composições, algumas delas impagáveis, outras impublicáveis.
Fazem falta as gargalhadas que ele provocava ao final de cada história, que muitas vezes precediam a sua entrada em cena para sob os holofotes, onde desfilaria mais uma sessão de música, ginga e encantamento.
O mestre Antônio Vieira nos deixou em abril de 2009, quando tinha 88 anos e muitos planos para outros voos dentro da música popular brasileira.
Voou para mais longe, levando sua simpatia para junto dos anjos.







SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 28/04/2017
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106,9 Mhz
São Luís-MA

ADRIANO GIFFONI - CAMINHO DO SOM 
  
Depois do advento da bossa nova e dos trios de bossa-jazz, a música instrumental brasileira trilhou um caminho de novas e bem sucedidas harmonias com uma forte influência de brasilidade. Um dos músicos que ajudaram no movimento, não apenas como instrumentista como também como compositor é o contrabaixista Adriano Giffoni. Nascido em Quixadá-CE, Giffoni desenvolveu sua musicalidade em Olinda-PE e em Brasília, mesclando sua origens com a nova música brasileira dos anos 1980, na mesma linha da obra de Paulo Bellinati, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Pascoal Meireles, Nelson Ayres e Celso Pixinga. Em seu décimo álbum, Giffoni nos apresenta onze faixas deliciosas de sua autoria, nas quais passeia com o seu baixo ora elétrico, ora acústico, mantendo um balanço e um suporte seguro para os demais instrumentistas. Participação especial de Roberto Menescal.    

Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini
                                                                                                                                    


segunda-feira, 27 de agosto de 2018





QUEM SOU EU PARA FALAR DE VIEIRA?
Primeira parte

Falar do mestre Antônio Vieira para os maranhenses soa como fazer uma pregação religiosa para o Papa. Mesmo assim vou me arriscar, até porque há seguramente pessoas de outros rincões que gostariam de conhecer ilustrações deste poeta ímpar da nossa cultura.
O músico Antônio Vieira é cantado no Maranhão em prosa e verso, especialmente por aqueles que tiveram a oportunidade de se apresentar ao seu lado nos palcos e nas tertúlias da cidade.
Com certeza muitos desses artistas teriam muito a acrescentar à biografia do menestrel, um senhor muito moleque de gestos largos e olhos irrequietos que mostrava uma grande segurança quando fazia suas apresentações, gerando um intenso magnetismo dentro de um clima de muita simplicidade. 
“Seu” Vieira tinha a timidez dos sábios.
Sua poesia é simples, direta e marcante, sem firulas ou rococós. Mestre na criação e na interpretação, ele cantou a voz do povo, das feiras e das festas populares.   
Sua participação na música brasileira poderia ter ido mais além caso ele tivesse ousado na sua caminhada pelo menos uma década mais cedo, mas mesmo assim, sua biografia tem pontos marcantes.
Vieira foi batizado Antônio em homenagem ao religioso, filósofo, escritor e orador português Padre Antônio Vieira, que veio de Portugal para o Brasil em 1619 enviado pela da Companhia de Jesus. Pode-se dizer que o nosso Antônio Vieira fez jus plenamente ao nome.
Criado por uma família de posses, Antônio teve uma educação esmerada e muitas oportunidades de estudo e de trabalho – foi comerciante, avalista de imóveis, funcionário de emissora de rádio, diretor de hospital, vendedor de telefone e sargento do Exército entre outras ocupações. Fundamentalmente, no entanto, Vieira foi músico e poeta.
Começou a compor aos 16 anos, em 1936, com a música “Mulata Bonita” (“Mulata bonita / com laço de fita / e o corpo gingando / e sabe sambar / chinelas sem meia / ela sapateia / na roda de samba / ela vai cantar”).
A partir daí não parou mais (foram mais de 300 composições catalogadas ao longo da vida – algumas com parceiros como Lopes Bogéa e Pedro Giusti). Entre as suas composições ele dedicava um carinho especial para “Poema Para O Azul” (“O mar é verde-azul / o céu é mais azul / o céu é irmão do mar / e o azul é que os foi ligar / eu que amo o céu / eu que gosto do mar / não sou pelo menos azul / pra com eles me identificar”), composta para a sua mãe de criação.
A sua primeira gravação aconteceu em 1986 com “A Cabecinha Da Dora” (“Na cabecinha da Dora / meu pensamento concentro / tem muito rolo por fora / e pouco miolo por dentro”), mas foi apenas em 1997, aos 77 anos, que ele alcançou seu primeiro grande sucesso quando a cantora Rita Benedetto (então Rita Ribeiro) gravou “Tem Quem Queira” (“Amigo, se andas triste / vai para uma brincadeira / se tu não quer, tem quem queira / se tu não quer, tem quem queira / se é por falta de dinheiro te dou trabalho na feira / se tu não quer, tem quem queira / se tu não quer, tem quem queira”)  e “Cocada” (“Ai meu Deus se eu pudesse / eu abria um buraco / metia os pés dentro, criava raiz / virava coqueiro / trepava em mim mesmo / colhia meus cocos, meus frutos, feliz”).
“Tem Quem Queira” foi tema da novela da Rede Globo “Da Cor Do Pecado” em 2004, e “Cocada” foi indicado para o Premio Sharp 98 na categoria Melhor Canção, valendo a Rita Ribeiro a projeção nacional como cantora.
Seu repertório é vasto, mas a gente pode lembrar “Ingredientes do Samba” (“Se faz samba com pandeiro / com cavaco e cuíca / com requinta, tamborim e violão / entra o surdo, reco-reco / afochê e o apito / as cabrochas, os sambistas e animação”), “Mocambo” (“Mocambo, mocambo / morada, miséria, pedindo socorro / que nem palafita no meio do mangue / e grande favela no alto do morro”), “Por Ti” (“Eu tenho tudo pra sonhar / por isso posso esperar por ti / eu tenho tudo pra cantar / eu tenho só que me alegrar por ti / mas se quiseres me olvidar / eu tenho muito o que chorar por ti / eu sei que posso me acabar / se tu quiseres me deixar sem ti”), “Banho Cheiroso” (“Você deve tomar banho cheiroso / você deve tomar banho cheiroso / pra acabar com essa mofina / e o corpo ficar jeitoso / pra acabar com essa mofina / e o corpo ficar jeitoso / você sente uma moleza / sem ter doença nenhuma / tem a vida atrapalhada / não consegue coisa alguma”) , “O Samba É Bom” (“O samba é bom, melhor sou eu / o samba é bom, melhor sou eu / o samba é bom com cavaquinho e violão / e tamborim pra se fazer a marcação / é, o samba é bom, melhor sou eu / que gosto dele / é, o samba é bom, melhor sou eu”) , “Balaio De Guarimã” (“Meu balaio, meu balaio / meu balaio de Guarimã / meu balaio, meu balaio / meu balaio de Guarimã / ela pediu meu balaio / emprestado até amanhã / ô que falta me faz / meu balaio de Guarimã”), “Menino Travesso” (“Zeca / o menino levado da breca / e que vive de roupa rasgada / que é dono da praça / que é bom na pedrada / quebrando vidraça”), “Patinho Feio” (“Patinho feio / olha pra mim / de onde você veio / com essa cara assim / patinho chato / é bem ruim / além de nascer pato / ser tão feio assim”),  “Cachaça Apanhou” (“Noutro dia me levaram / pro samba de Zé Nagô / e a danada dessa festa / estava boa, sim sinhô / as cabrochas requebravam / e a sanfona nem gripou / e não teve arruaça / só cachaça que apanhou”) e tantas outras, além das citadas anteriormente.
Vieira tem seu trabalho gravado por Rita Ribeiro, Anna Claudia, Ary Lobo, Elza Soares, Sivuca e Célia Maria, entre outros intérpretes.