quinta-feira, 26 de outubro de 2017




RETALHOS E REBOTALHOS

(Parte Sete – Final)

Quanto tempo estamos nesta caminhada? Dez minutos, dez horas, dez anos, o tempo é relativo e a única coisa nele que se manifesta é o tique-taque pulsante da minha artéria principal, com os batimentos se sucedendo como o ruído contínuo de uma bomba-relógio.
Ela se desvia dos obstáculos como eu dos morcegos, leve como flor de picão, e agora uma garoa fina começa a cair feito neve me fazendo sentir como um Gene Kelly saltando compassadamente para não perder a distância que nos separa.
Ouço ao longe o som de um trompete, igual àquele de Buddy Bolden que chegava a atravessar o Mississipi com uma clareza e uma força tamanhas que mais parecia a trombeta de Jericó. Tento identificar o tema – “West End Blues” – nada tão descabido como esta música neste momento, mais apropriado seria “Spellbound” e uma gargalhada de Bette Davis.
De repente chegamos a uma praça larga e arborizada, com uma banca de revistas pintada de cinza, bancos de cimentos, alamedas tortuosas que se cruzam aqui e ali dividindo canteiros com plantas baixas e algumas flores molhadas pelo chuvisco que já passou.
Na minha frente, como pano de fundo, uma decoração digna dos pesadelos de tia Jerusa, um cemitério de muro baixo, totalmente gradeado, as grades também pintadas com aquele cinza-prateado para fazer par com a banca de revistas e o enorme portão todo trabalhado se abrindo lentamente num ranger de gonzos. Ela, a minha musa, dá um último adeus para o lado de fora acenando para mim e entra lentamente no meio dos ciprestes, o portão se fechando com mais rangidos e o ruído de uma corrente se enroscando nas grades fazendo as vezes de uma última pá de cal. Depois, o silêncio sepulcral e absoluto, restando em cena apenas eu, meu cabelo arrepiado e embranquecido pelos borrifos da garoa e o coração tentando voltar ao compasso normal sem sair da boca.

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Ana é uma garota muito meiga, um pouco tímida, e possui alta sensibilidade artística. Gosta de pintar suaves aquarelas, de ler os clássicos franceses e de ouvir jazz.
Tem especial preferência pelas músicas da época do bebop, embora não necessariamente pelo bebop, e quando se espicha na poltrona da sala ouve baixinho Lover Man, My Funny Valentine e em especial Round Midnight.
Há alguns meses descobrira um lugar chamado Crème de la Crème que, a despeito da vulgaridade mundana, daquelas mulheres sem classe que nada tinham a ver com ela e daqueles homens mal-intencionados que mais de uma vez já lhe haviam feito propostas impróprias, abrigava um talentoso saxofonista que tocava o que ela gostava do jeito que ela gostava.
Ana não tinha certeza, mas acreditava que ele tocava somente para ela. Ele tocava olhando para ela, e a cada pressão dos seus dedos nas chaves douradas do instrumento causava em Ana um arrepio profundo, como se aquelas mãos lhe estivessem proporcionando uma massagem tonificante.
Esta noite ele abandonara tudo para segui-la, para acompanhá-la. Não chegou perto dela e Ana, dentro da sua discrição e timidez teve apenas a coragem de lhe dar um furtivo adeus.
Na próxima sexta-feira Ana irá falar com ele, explicar que é tudo tão difícil e que se sente envergonhada, intimidada, vulnerável e pequena.
Ana vai dizer a ele que não é fácil ser a filha do zelador do cemitério e ter que morar naquela solidão, no meio das almas.       

  


   




RETALHOS E REBOTALHOS

(Parte Seis)

Um mês, dois meses, três meses de espera e de planejamento, três meses ou mais criando fôlego e coragem como se eu fosse participar de uma competição na qual colocaria a minha vida em risco.
Um planejamento minucioso e exato, com um álibi mais que perfeito, as respostas todas engatilhadas para as perguntas que já devem estar programadas como num interrogatório de espionagem, o tempo sendo controlado como que por um regulador de explosivo, perito em destruição na hora certa, agora eu sei como se sentem os que premeditam matar, roubar ou mesmo vasculhar cofres e gavetas à procura do inexistente.
O cérebro trabalha intermitente como se fosse impulsionado por uma turbina, as imagens vão se sobrepondo, não fantasiadas como num caleidoscópio nem confusas como numa mente febril, mas lógicas, claras e ordenadas, pois a própria consciência se encarrega de eliminar os quadros indesejáveis ou aqueles que não se encaixam na ideia preconcebida, como se faz com uma peça errada num quebra-cabeça.
Para Felipe, o dono do bar, bastaria pedir uma noite de folga, sob o pretexto de qualquer desculpa tola, como todos fazem. Mas eu não posso fazer isso,  porque preciso estar aqui do lado de dentro quando chegar a hora, tenho que esperar para sair no momento certo, talvez alegando uma dor de cabeça repentina ou o aniversário de algum amigo depois da meia-noite.
Para Adelmo, o Dedé, chefe do conjunto que abrilhanta as noites da boate, basta um aceno depois de combinado. Ele e os outros músicos não vão se incomodar em fazer o restante da madrugada sozinhos, afinal o teclado sintetizador de sons pode fazer as vezes do saxofone também, embora nem um surdo pudesse acreditar nessa patranha, mas no fim tanto faz algum tempo de música com o saxofone ou sem o saxofone pois no geral a qualidade da música é ruim de qualquer jeito – agora mesmo estamos ensaiando um novo ritmo “made in Bahia” daqueles terríveis.
Para o respeitável público, uma vênia e uma saída sub-reptícia, pois tirando alguns que têm uma migalha de bom gosto, a maioria nem vai notar o que se passou.
Ainda outro dia apareceu um que pediu para eu tocar La Cumparsita com pizzicato e tudo o mais como fazem as rebecas e os bandoneons, vejam só que absurdo. Cumparsita com pizzicato no sax-alto – Charlie Parker deve ter estremecido na tumba – é a própria essência do desconhecimento da história e do bom senso, algum dia algum insano ainda vai me pedir para tocar o Hino Nacional de trás pra frente e ainda chamar Dedé para cantar.
Só resta então aguardar pela grande noite em meio ao ruído quente e abafado de boteco com cara de boate.
Crème de la Crème, vejam só que pretensão.

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De repente, a porta se abre e ela vem chegando, a dama das sextas-feiras, a musa esvoaçante com o perfil fino e misterioso, apagada como uma insignificância, resplandecente como uma gravura renascentista, solene como uma vela, bela como uma corbelha de hortênsias, pálida como um fantasma de Peter Cushing, vem como uma pluma carregada pelo vento, já murmurando “Round Midnight” sem mover os lábios, como Nica de Koeningswarten olhando apaixonadamente por Bird e Monk, com os braços esticados servindo de mortalha.

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Tão logo a minha deusa se desvaneceu pela porta afora como um fluído, eu arranquei o saxofone do pescoço e o coloquei no seu tripé de apoio. Fiz um gesto para Adelmo, que concordou com um assentimento de cabeça e parti às pressas em direção à saída trombando com os noctívagos que seguravam seus copos – um deles até resmungou quando eu meti o cotovelo no meio das suas costelas – cheguei à porta e disse para o porteiro encasacado – “volto já” – embora soubesse perfeitamente que poderia não voltar, nem nesta noite nem em outra qualquer, pois estava de partida para uma aventura sem rumo, o futuro incerto, as consequências imprevisíveis, assim como se vai para a guerra, com a certeza de que se um dia voltarmos será com o corpo avariado ou com a mente avariada depois de tantos choques e tantas coisas impressionantes para contar.
A musa fantasmagórica caminhava a uns cem metros na minha frente, ainda flutuando no seu vestido de gaze e eu comecei a segui-la sem me fazer notar, me esgueirando pelas reentrâncias das paredes, pelas portas cerradas das lojas comerciais e por detrás das árvores cujas folhagens balançavam ao sabor do vento que começava a ficar mais forte e mais frio.
Nem uma taturana seria tão rasteira e silenciosa. Enquanto ela parecia se mover sobre rodas como um ectoplasma, eu a seguia como um espírito vagando, ambos nos movendo como formigas na trilha, ela ainda resplendente como uma mancha alucinógena e eu alucinado como um touro em transe.
Passam as esquinas, os postes, as casas.
De vez em quando cruzo com algum passante que faz parte do cenário, como de resto também fazem parte da paisagem da madrugada que avança, das latas de lixo aplicadamente estacionadas nas portas das casas e alguns morcegos que teimam em voar seu voo cego bem rente à minha cabeça.  


terça-feira, 24 de outubro de 2017





RETALHOS E REBOTALHOS

(Parte Cinco)

Ando pela cidade à procura do sax perfeito.     
Estes fabricados por aqui têm todo o aspecto de um bom saxofone, tem a cor, o peso, o jeito e o cheiro do bom saxofone, até parece um bom saxofone, mas quando você sopra e ele desafina um quarto de tom, então vem a vontade de jogar tudo pra cima, e aí você sente falta do Selmer Super Action legítimo, aquele que você um dia já acariciou como a mulher amada e já colou os lábios com ternura naquele biquinho que vibra.
Na verdade, eu ando à cata do fênix, não de um fênix comum, embora avis rara como mosca de cabeça branca, mas de um fênix com asas de ouro, tal o preço de mercado do dito, um absurdo de quase três mil dólares, vejam só se é fácil ser músico neste país!
Não faz sentido pagar esse preço para acompanhar cantores medíocres, para se esconder nos cantos da música, para mendigar emprego num barzinho qualquer e ser demitido a três por quatro de subempregos por subpatrões, para satisfazer o ego dos empresários e clientes e ser esfolado por eles e para tocar, enfim, o que o diabo gosta. Só que o diabo tem um mau gosto desgraçado e faz com que pouco a pouco a gente pague um pouco dos nossos pecados junto com a prestação do sax.
Ando também à procura da paz.
Não da paz dos campos e vergeis, nem a paz eterna dos campos santos, mas a paz dos sossegados, sem ruídos, sem sobressaltos e sem ódio concentrado nas veias, destilado como veneno e venenoso como ar deletério.  
Mas as coisas e as pessoas que me cercam me põem fora de mim, o que só faz aumentar a pressão arterial e o meu nível de adrenalina com seu jeito de ser e de estar, de mal entender, de desentender e de provocar.
Odeio o barulho inoportuno de um escapamento de moto ou de caminhão, principalmente quando estou concentrado em Zoot Sims ou Monteverdi ou quando pretendo ouvir as notícias que me interessam na televisão falastrã e quase inútil. Odeio gente burra, essa que confunde provolone em pedaço com queijo prato em fatia, essa gente que não tem sensibilidade, que não tem percepção, essa gente que não sabe, não quer saber e não se importa com quem sabe das coisas, sempre atentas às inutilidades ou ao que acontece na casa do vizinho.
Odeio o som da televisão quando não estou assistindo televisão e odeio barulhos externos quando estou concentrado na televisão. Odeio barulho de liquidificador e batedeira funcionando, principalmente quando o barman insiste em produzir as delícias da casa no meio do meu improviso.
Odeio máquina de lavar lavando, cachorro uivando e portas batendo como se fosse um festival de fogos. Odeio festival de fogos.
Odeio gente mal-intencionada e irresponsável, os nós-cegos, os pouca-prática, os braços-duros, os ferrolhos, os gambiarras e enfim, todos aqueles que prometem e não cumprem ou aqueles que cumprem errado.
Odeio britadeira e compressor em pleno funcionamento.
E bem neste momento, na esquina onde fica a Casa Bevilacqua, que vende meus artigos musicais, há uma parafernália infernal – “Olha a nova lei do inquilinato!” – grita o vendeiro – “É pra hoje, vaca, galo, porco! – retruca o bilheteiro, enquanto aquela loja de discos mambembe toca o mais novo sucesso de vendas a noventa decibéis.
Assim não dá, eu desisto de procurar o meu Selmer Super Action e me recolho a um pequeno e surrado bar de porta de correr para comer um sanduíche de salsicha da boa com mostarda tipo holandesa, acompanhado de um refrigerante gelado que refresca melhor, igualzinho àquele do anúncio.
O jeito depois é voltar devagarinho pro meu apartamento, pros meus discos e pras minhas partituras, deixando o som horroroso do novo sucesso se perder lá no fundo – ainda bem – pois de outra forma ainda estaria ouvindo aquele zunido dentro da concha acústica da minha orelha.

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Aquele sentimento começou a se solidificar, a ficar mais quente, a ficar mais forte.
De repente, Porfírio Ricky López começou a ter uma preocupação a mais além do saxofone, que ele acariciava e dedilhava e tocava com os lábios e estreitava junto ao peito; ele começou a sentir uma inquietação diferente, de olhar nos olhos negros e tristes da dama da meia noite, com “Round Midnight” assumindo uma importância maior que sequer o próprio Monk jamais experimentara, de aguardar ansioso, incomodado mesmo, pela sexta-feira e dentro da sexta-feira sentir o coração bater esquisito, num compasso descompassado como Brubeck tocando “free”, e de se sentir iluminado ao perceber a porta se abrindo e aquele vulto de mulher adentrando o salão como se caminhasse sobre nuvens.
Ele também estava nas nuvens, de repente mais alegre, mais desenvolto, decolando uma torrente de notas no momento em que ela chegava “round midnight” e até parecia sorrir, com a voz baixa emitindo um som que parecia o sopro de um fagote, mas que soava em seus ouvidos de uma forma intensamente melodiosa.
A troca de olhares resumia tudo, e as notas iam saindo em profusão até que ela se afastasse como uma visão, para se perder no ponto de fuga e terminar fugindo pela madrugada, deixando Ricky frenético aguardando mais uma semana, mais um século, até que viesse a outra sexta-feira e os pelos se lhe eriçassem com a perspectiva de um novo encontro, o sangue circulando mais forte e as pupilas se dilatando, não para se acomodar à meia-escuridão do bar, mas para tentar absorver toda a luz que irradiasse do seu lado melancólico de madona.
A princípio, Ricky não quis acreditar que se tratava de paixão. Para ele tudo era um simples compromisso com o mistério e com a curiosidade, o que fazia com que suas células se agitassem como minhocas no álcool.   
Porém, quando aquele sentimento começou a ficar sólido, a ficar quente e a ficar forte, ele compreendeu que estava apaixonado pela ficção que encontrara naquela mulher. Ela não era um ser vivo, era uma personagem de história em quadrinhos ou de conto de terror, e sua paixão maior não era por ela mulher, mas pelo fascínio que sua imagem representava.
Era preciso falar com ela, sentir até que ponto ela era humana, para então ou se apaixonar definitivamente ou quebrar o encanto e voltar a vê-la como sendo simplesmente um detalhe num canto da tela de um Renoir.


segunda-feira, 23 de outubro de 2017






O MELHOR DO MUNDO

(Artigo escrito para O Imparcial de 21/10/2017. portanto antes de Cristiano Ronaldo ser eleito o vencedor do Prêmio Fifa 2017, que aconteceu em 23/10/2017)

A última vez que um jogador brasileiro foi eleito o melhor do mundo pela Fifa foi em 2007, e o premiado foi Kaká. O meia, que atuava pelo Milan, entrava assim para a galeria dos brasileiros condecorados da qual já faziam parte Romário, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho.
Desde 2007 para cá, portanto já completando uma década, apenas uma vez um brasileiro chegou a constar na lista dos três indicados para o prêmio, e este foi Neymar, que ficou em terceiro lugar em 2015. Antes dele haviam sido nomeados entre os três finalistas  Roberto Carlos (1997), Rivaldo (2000), Ronaldo (2003) e Ronaldinho (2006), obviamente além dos que garantiram o primeiro lugar. Convenhamos que isto é muito pouco pela quantidade de brasileiros que atuam e atuaram na Europa e para um universo de 78 jogadores relacionados em 26 anos de premiação.
É bom que se frise que apesar de não ser um critério obrigatório, isto é, não há nenhum artigo no regulamento que obrigue, os jogadores indicados sempre atuam no futebol europeu, que é a grande vitrine do mundo para o espetáculo do futebol. Como a fonte brasileira secou com Kaká, há que se deduzir que os nossos jogadores não conseguiram encantar os treinadores e capitães de equipes votantes nos últimos dez anos, restando a esperança que Neymar consiga reabilitar a tradição de que o jogador brasileiro realmente esteja entre os melhores do mundo.
A lista dos premiados é extensa, porque vem desde 1991, ano em que o premio foi instituído, e já contemplou Lothar Matthäus ( o primeiro), Leonel Messi (5 vezes), Cristiano Ronaldo (4 vezes), Ronaldo e Zinedine Zidane (3 vezes), Ronaldinho (2 vezes),  e Marco Van Basten, Roberto Baggio, Romário, George Weah, Rivaldo, Luís Figo, Fábio Cannavaro e o já citado Kaká, todos com um premiação cada.
Para 2017, o Prêmio já tem os seus três concorrentes finalistas, que são Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar. Messi e Cristiano Ronaldo conquistaram todos os prêmios desde 2008 até 2016 e voltam a ser favoritos em 2017.
O português, contando com os títulos alcançados nesta temporada, inclusive no Campeonato Espanhol, onde o seu Real Madrid suplantou o Barcelona de Messi e Neymar, leva vantagem na disputa. Messi vem se reabilitando neste final de ano, tendo inclusive levado a Argentina a conseguir sua vaga para o Mundial do ano que vem, mas teve um ano menos regular que Cristiano Ronaldo. Quanto a Neymar, suas atuações espetaculares pelo PSG não irão credenciá-lo a lutar pela comenda, pois não estão sendo consideradas pelos jurados, que encerraram a sua análise e fizeram a votação no final de agosto. Fica para o próximo ano.
A participação de Neymar como coadjuvante no Barcelona ao lado de estrelas como Messi - um jogador pra lá de refinado -  e de Luis Suarez - um artilheiro implacável - foi um dos motivos que o levaram a aceitar a milionária transferência para o clube francês, onde ele deverá ser o protagonista principal, tendo Daniel Alves, Marquinhos. Tiago Silva, Di Maria, Draxler, Cavani,  Pastore, Verrati e Mbappé como seus coadjuvantes.
Talvez porque a votação seja feita por treinadores e alguns capitães de equipes importantes da Europa, existe uma flagrante tendência de que os jogadores escolhidos para a lista tríplice façam parte das principais equipes do continente, aquelas que além de se sobressaírem no seu próprio país também tenham tido uma participação marcante nas disputas continentais.
Alguns registros aguçam a curiosidade do torcedor, como o fato raro de Ronaldinho Gaúcho (Barcelona) ter recebido o prêmio sem ter conquistado título algum.
Entre outros fatos marcantes, podemos mencionar também que Ronaldo (PSV) foi o jogador mais jovem a receber o prêmio (ele tinha apenas 20 anos quando foi escolhido em 1996) e que Fabio Cannavaro (Juventus) foi o primeiro e único zagueiro premiado até agora.
O  quadro de medalhas mostra os jogadores brasileiros na liderança com 8 premiações contra 5 dos argentinos, 5 dos portugueses, 3 dos franceses, 2 dos italianos e uma dos  holandeses, liberianos e alemães respectivamente.
   






SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 30/01/2015
RADIO UNIVERSIDADE FM - 106,9 Mhz
São Luís-MA

SWING ERA - TRADITIONAL JAZZ BAND

A Traditional Jazz Band é uma das mais antigas e conceituadas bandas de jazz tradicional brasileiras. Começando em 1964, ainda mantém na sua formação alguns músicos do grupo original e executa um jazz alegre e vistoso que já foi apresentado em todo o Brasil - inclusive em São Luís, nos anos 1982 e 1985 - e em diversos países do exterior, inclusive nos Estados Unidos. Com mais de 50 anos na estrada, a Traditional Jazz Band completou há cinco anos um projeto que incluía não apenas o jazz tradicional de New Orleans, mas também as orquestrações de Duke Ellington e as músicas que fizeram sucesso na Era do Swing, bem como standards inesquecíveis da música americana. Neste Sexta Jazz a TJB vai mostrar seu trabalho calcado no swing com a pegada tradicional, a leveza e o humor que caracterizam as apresentações da banda.

Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini






RETALHOS E REBOTALHOS

(Parte Quatro)

Reordenando as idéias e voltando ao cabaré onde presto meus serviços, o Créme de La Créme, o que me chama a atenção não é aquele cavalheiro de bigode que fala alto enquanto eu toco, nem a cortina sempre entreaberta do banheiro feminino, nem aquela loira oxigenada com cara de devoradora de homens que invariavelmente se senta à minha direita pronta para dar o bote no primeiro japonês ou americano que cair no seu raio de ação, nem os coquetéis falsificados que custam os olhos da cara e nada mais são do que chá mate com suco de maracujá de garrafa, que eles chamam de “drinque da casa especial”.
O que me desperta a curiosidade e agiliza as pontas dos meus dedos em solos febris (acho que Charlie Parker também teve uma visão como essa), é aquela criatura entre o amorfo e o cristalino que aparece todas as sextas por volta da meia-noite, uma mulher pálida e de grandes olhos tristes, com longos cabelos negros, sempre com o inevitável vestido longo, esvoaçante, escuro e fosco.
Essa mulher me fascina pela aura misteriosa, pois parece vir de um mundo diferente, parece desconhecer a luz do sol, e é a única pessoa que pede para eu tocar “Round Midnight”, a cavernosa obra-prima de Monk, sempre com a voz rouca e murmurante e sempre a chegar, por volta da meia-noite.
Aí eu faço a música em um solo lânguido, enquanto os outros músicos, que desconhecem o tema, agradecem comovidos e se espalham pelo salão aproveitando a deixa para entornar alguma bebida, esticar as pernas, os dedos e as idéias.
Esse é o momento sublime da noite, eu trinando as notas com os olhos semicerrados e ela, a vampira, com a expressão radiante e o olhar misterioso me admirando em êxtase, enquanto eu a fito por entre uma grade de cílios, uma visão fantástica e surrealista à luz mortiça do ambiente.
É sempre “Round Midnight”, é sempre por volta da meia-noite, e logo depois ela se esvai como uma nuvem que flutua em direção à porta de trinco dourado e passa por ela rumo a uma outra dimensão, não sem antes voltar a cabeça e sorrir estranhamente para mim.
Ela se vai e o encanto se quebra. Os músicos retornam, recomeça o funk comercializado e o meu karma recomeça.
Passado o arrepio que me ouriçou todos os pelos eu volto então à realidade da noite, com meus companheiros, aquele bigodudo falando ainda mais alto, e a deusa da noite com jeito de artista de novela mexicana dando um bote certeiro em cima de um camarada alto e claro, com cara de dólar.

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Algum dia eu vou largar o meu saxofone e correr atrás da minha musa da outra dimensão, vou segui-la pelas ruas da cidade madrugada afora para descobrir em que sarcófago ela mora.
De repente, só ela me estimula e me entusiasma aqui neste cabaré, pois nas outras noites da semana eu sigo curtindo aquela expectativa estranha, é como alguém ansiando se encontrar com a própria morte, é como um trapezista ensaiando um triplo mortal para a noite de estreia. Esta tensão segue até que chegue novamente a sexta-feira para que eu possa sentir mais uma vez a sua presença diáfana e misteriosa.
O mistério que ela transmite me faz lembrar as histórias contadas por tia Jerusa, como naquela vez em que ela despertou de um sono diferente e se levantou inquieta e afogueada como um sonâmbulo dentro da madrugada escura, com um súbito desejo, estranho e incomum, de ir à igreja da Imaculada.
Tia Jerusa sempre fora devota e igrejeira com suas novenas a suas andanças nas procissões, mas dessa vez tinha um desejo fremente como se estivesse sendo empurrada, como se estivesse sendo puxada por alguma mão oculta, e lá foi ela caminhando apressada pelo calçamento de pedra, a escuridão do céu disfarçando as horas na rua deserta, aqui e ali uma sombra se movendo, aparecendo e desaparecendo por detrás das árvores, um cão ganindo um ganido de agonia, um uivo de lobo, e envolta nas trevas foi surgindo a igreja, esplendorosa no meio da madrugada, as portas escancaradas, o murmúrio de vozes e um órgão lamuriante.
Tia Jerusa foi se aproximando hipnotizada e entrou na nave toda iluminada com velas, a fumaça rala subindo para a abóboda e se confundindo com a pintura das nuvens, o templo repleto de faces sérias e circunspectas, tudo parecia um sonho, todos com o olhar fixo no altar sem prestar atenção na tia Jerusa, que perguntava entre emocionada e incrédula – “mas já é hora da primeira missa?” – enquanto lá no fundo o padre rezava e reproduzia suas homílias em latim – “Gloria Jesus Sacramentissimum” – ao que todos respondiam “Miserere nobis!” – e então “Ave Maria gratia plena, Dominus te cum...” e no ar aquele cheiro forte de cera queimada.   
Ao som abafado do órgão, o Réquiem inacabado que Mozart compôs para o seu próprio féretro, encomendado que fora pelo sobrenatural, enquanto tia Jerusa ficava cada vez mais inquieta, insistindo na pergunta – “mas que missa é esta?” – e, de repente a voz sussurrada e grave do cavalheiro ao seu lado – “silêncio, senhora, respeite a nossa missa!” – “a nossa missa?” – “sim, a nossa missa, a missa dos desencarnados, a missa daqueles que precisam de luz...” – “mas... o senhor...” – “eu morri em mil novecentos e dezessete e ainda preciso de muita prece para descansar em paz...” – e a tia saindo aos tropeções e olhando para as feições sem vida dos fiéis, que murmuravam – “Agnus Dei ora pro nobis pecatoribus...” – sem mexer os lábios, até que ela reconheceu entre eles a dona Mariquinha, que a própria tia Jerusa ajudara a lavar,a vestir e a enterrar há vinte e oito anos atrás, e dona Mariquinha olhando fixamente para minha tia como a Regan MacNeil naquele quarto endemoninhado de “O Exorcista”, e tia Jerusa se desesperando em direção à porta, quanto mais corria mais a porta se distanciava, como num filme de terror.
Aturar olhares indiretos e oblíquos de uma multidão em transe já não é encorajador, então imagine ter que aturar olhares de mortos-vivos vestidos de roupa preta cheirando a terra e naftalina, a pele numa tonalidade cinzenta, com suas sombras se movendo embaladas pelas chamas coruscantes das velas dos candelabros!
Tia Jerusa, a testa fria, as pernas trôpegas, o suor escorrendo pela coluna dorsal e ensopando o vestido de algodão e os braços tremendo como se assaltada por um repentino mal de Parkinson, se arrastou como pode por entre os fiéis descarnados que esticavam as mãos longas e ossudas em sua direção, não como uma ameaça, mas como um pedido de socorro.

O órgão continuou tocando um turbilhão de notas e gemidos, e os sons encheram o ar como há de ser no dia do Juízo Final.