segunda-feira, 30 de dezembro de 2019





O MURO
(Segundo Excerto)

O dia hoje amanheceu alegre, risonho e cheio de sol.
Um passarinho saltita em cima do meu lado direito, perto do enorme portão de madeira de lei e o entregador de jornal passa pedalando a sua bicicleta.
A empregada do vizinho amontoa um punhado de folhas que caíram das árvores durante a noite de ventania.
O atleta de ocasião passa bufando seu sobrepeso matinal pensando em voltar para casa e comer feito um abade, alguns meninos vão para a escola chutando uma lata vazia e o arbusto plantado há poucos dias tem que suportar o mau cheiro vindo do saco plástico cheio de lixo doméstico que alguém depositou aos seus pés.
Certas noites, quando a lua se esconde por detrás das nuvens e o guarda-noturno trila o seu apito na esquina, vem aquele casal de namorados que me têm como cenário dos seus arroubos amorosos até a lua voltar a se desnudar através dos galhos de bougainville ou o guarda passar por perto dizendo ”boa noite” em um tom acusador.
Mas o amanhecer é sempre lindo, apesar das moscas.
Mesmo com o corpo disfarçado de cal e temendo mais um ataque de vandalismo – outro dia escreverem o nome “Murilo” no meu costado – tenho que confiar no guarda-noturno à noite e no movimento das pessoas durante o dia para não ser agredido. Pensando bem, “Murilo” bem que poderia ser o meu nome, o que dar-me-ia um pouco mais de personalidade.
E assim segue a minha rotina diária, o meu branco se refletindo na barriga suada do atleta de ocasião destas manhãs de sol, a empregada do vizinho varrendo folhas, os meninos indo para a escola, o arbusto bocejando, o saco de lixo aguardando seu transporte de luxo e meu portão se abrindo para que o dono da casa saia todo pimpão dirigindo seu automóvel que, como eu, está também precisando de alguns cuidados.
O entregador de jornal se aproxima assoviando para chamar a atenção da criada que corre toda solerte receber a Gazeta, porque ambos praticam aquilo que poder-se-ia chamar de “um flerte matinal”.    

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019





MEMÓRIAS
(Augusto Pellegrini)

Rebuscando o fundo da gaveta,
encontrei velhas fotografias.
O avô no campo, o primo muito sério,
a irmã sorrindo o riso de menina,
qual o retrato lá no cemitério.

Rebuscando o fundo da gaveta,
encontrei o álbum da família.
O tio Joaquim vestido de soldado,
a tia Alzira junto com as vizinhas,
o gato Anselmo sobre o almofadado.

Rebuscando o fundo da gaveta,
encontrei velhos recortes.
A guerra, o tango, a receita de torta,
a oração feita para Santo Onofre
que esteve fixa por detrás da porta.

Rebuscando o fundo da gaveta,
encontrei o meu passado.
O boletim, a promoção de curso,
o convite à missa de formatura
a pulseira de prata que pendia ao pulso.

Rebuscando o fundo da gaveta,
encontrei cupim e traças.
Papel rasgado em meio a mofo e entulho,
lápis sem ponta, caneta sem carga,
relógio envolto num papel de embrulho.

Rebuscando o fundo da gaveta,
encontrei o meu destino.
Rapaz idoso com a minha idade,
senhor moleque, louco ajuizado,
antigo e velho, mas com mocidade.

Rebuscando o fundo da gaveta,
encontrei o fundo da gaveta.
Nada mais óbvio, mais simples, mais rude
do que uma folha de madeira escura e plana,
cheirosa e fria, como um ataúde.

(Publicado no livro “À noite, todos os gatos” em 1998)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019






NOVOCABULÁRIO INGLÊS
(Copyright MacMillan)

(ver tradução após o texto)

HOMESHORING

First the business world talked about offshoring as employment bases were moved abroad. And now it seems the trend is to move back home again, as companies have seen the benefits of locating staff in cheaper rural areas or basing them at home. HOMESHORING is a cost-effective way of providing an improved level of service from local rather than overseas employees.

            “It’s not as cheap as offshoring… but companies bent on cutting costs also see home agents as a way to avoid some of the consumer complaints common to overseas call centers… During the two next years, one of every 10 U.S. call centers is likely to shift at least partly to home-based agents…Some dub it HOMESHORING.” (Seattle Post Intelligencer, 9th May 2005)
  

TRADUÇÃO

RETORNO ÀS BASES DOMÉSTICAS
Primeiro, o mundo dos negócios falava como era bom manter instalações fora do país. Agora, parece que a tendência é trazer as instalações de volta para casa, pois as empresas perceberam os benefícios de locar seus empregados em áreas rurais mais baratas ou mesmo mantê-los onde estavam antes. O RETORNO ÀS BASES DOMÉSTICAS é uma forma efetiva de reduzir custos, pois melhora o nível dos serviços utilizando empregados locais em vez de usar trabalhadores do exterior

 “Não é tão barato como manter instalações fora do país... mas as empresas preocupadas em cortar custos também veem as instalações locais como uma forma de evitar as reclamações comuns feitas a respeito daquelas localizadas no exterior... Durante os próximos dois anos, a tendência é de que uma em cada dez instalações localizadas no exterior voltem pelo menos parcialmente para o seu país de origem... Algumas pessoas chamam isto de RETORNO ÀS BASES DOMÉSTICAS.” (Seattle Post Intelligencer, 9 de maio de 2005)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019





A NOITE DA MARIOLA
(Excerto)

A orla estava quente e abafada e o céu era tinto de um negro profundo. Uma luz lá distante no meio do mar denunciava o barco pesqueiro à procura da sua presa.
A brisa não soprava, a lua estava apagada e o ar guardava um cheiro forte de frutos do mar em decomposição, bem apropriado para aquele recanto sem paredes, sustentado por caibros de madeira e ornado por mesas e cadeiras rústicas, um soturno e decadente bar de praia que se chamava “A Mariola”, um nome no mínimo estúpido se pretende fazer qualquer analogia ao mar, mas observando uma certa lógica se fizer apologia ao nome da dona, uma bruaca com cara de peixe amanhecido, que tanto demora a servir quanto troca os pedidos, tanto cozinha como serve mal, o que atesta o formidável arroto que Gilberto deixa escapar após deglutir sem digerir um pedaço de robalo com cerveja morna.
Enquanto mastigávamos o peixe com gosto de cartilagem e nos esforçávamos para engolir aquela cerveja com o sabor da noite, presenciamos a chegada de Mariazinha – o nome viemos saber depois.
Mariazinha era uma linda garota de cabelos dourados de ninfa e, acreditem ou não, filha da mocreia Mariola. Era o toque que faltava para transformar aquela choupana num palácio requintado.
Para quem como eu sobreviveu a doze garrafas e à presença insólita de Gilberto, a chegada de Mariazinha foi o bálsamo que faltava para aliviar os desatinos desta noite de São Valentim.
A brisa voltou a soprar e parece que o cheiro de peixe morto cedeu espaço para um delicado perfume francês.
-0-0-0-
Já é quase manhã e outras doze cervejas se foram, incrivelmente a uma temperatura mais apropriada. As garrafas mortas estavam enfileiradas debaixo da mesa e a espuma seca no alto dos copos combinava com os olhos agora opacos de Mariazinha, a paisagem fazendo lembrar uma estepe siberiana. Mariola desapareceu do quadro, mas dava para ouvir o ruído que fazia com as panelas atrás da parede do fundo.
A voz de Mariazinha, que nos faz companhia, já não tem o mesmo viço, e os olhos acesos de Gilberto parecem duas brasas, a voz pastosa como doce de abóbora.
O céu encarna o azulado da madrugada antes de assumir a cor de âmbar do nascer do sol e o mar agora repousa na sua maré baixa deixando à vista uma faixa de areia que forma uma praia tão vasta quanto deserta. Algumas aves de pernas longas e bico comprido fazem seu desjejum lá onde a vista alcança.
Mariola vem, fala alguma coisa e recolhe as garrafas e os pratos enquanto Mariazinha se vai, acenando a despedida com as mãos e some na linha do horizonte, com o vento fazendo colar o vestido de tecido fino por sobre o seu corpo delgado.
Foi uma noitada – soluço! – e tanto. Deveras.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019






SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 25/12/2015
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106,9 Mhz
São Luís-MA

AN ALL-STAR CHRISTMAS

O programa Sexta Jazz de hoje, 25 de dezembro de 2015, presta uma homenagem a um dia que universalmente celebra a paz, a harmonia, o encontro, a confraternização, a alegria e as melhores expectativas para o próximo ano. Hoje, excepcionalmente, os ouvintes do programa estão convidados a fazer um passeio não pelo jazz nos seus variados estilos, como ocorre todas as sextas feiras, mas uma caminhada pelos cânticos natalinos que tradicionalmente acompanham a árvore de Natal, o presépio, as orações, o panetone, a champanhe, os abraços, a visita de Papai Noel e a troca de presentes. Antes que se encerre este dia 25, ainda é tempo do Sexta Jazz desejar a todos os ouvintes da Radio Universidade FM e do programa em especial um Natal de Paz, Saúde e Entendimento! 

Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini


quarta-feira, 18 de dezembro de 2019






MÁGOA DE VERÃO 

(Canção de Augusto Pellegrini)

Se dor fosse como a chuva
Que há em dia quente
Cai, passa depressa
Passa de repente
Mágoa de verão não passa logo, não

Se amor fosse como a folha
De árvore que chora
Cai devagarinho
O vento leva embora
Mas amor não vai, fica no coração

Chove, a noite é fria
Chovem meus olhos também
Foge a paz que havia
Não pode haver mais ninguém
Não pode haver poesia
Não pode haver mais amor
Cadê aquela alegria?
Cadê? A chuva levou

Chove, a noite é quieta
Parece até procurar
Pela luz do dia
Pra esta tristeza acabar

terça-feira, 17 de dezembro de 2019





RESSURREIÇÃO
(Augusto Pellegrini)

Voltei, depois de tanto tempo estando ausente
Fui dado como morto, desaparecido
Eu tinha bons motivos para ter fugido
Sem um aviso prévio pra qualquer parente

Deixei chorosos mãe, irmã e demais confrades
Mas tive que fazê-lo, foi mesmo preciso
Deixar meu bem, meus bens, meu lar, foi dolorido
Parti em silêncio e só, num fim de tarde

E quando eu fui meus caros se desesperaram
Mas a ala dos contrários muito se alegrou
A sanha irada dos malditos desencadeou
Tal foi a virulência que eles demonstraram

Mas eu voltei e surpreendi meus inimigos
Aqueles que me agrediram à socapa
E agora têm que dar a cara a tapa
Engolindo a seco seu infame regozijo

Pra aqueles que me festejavam morto
Minha ressurreição foi um duro golpe
Corja de malfeitores, gente torpe
Figuras amorais, ratos de esgoto

Pros meus amigos que agora estão em festa
Abraços, vinho, muita comemoração
Com a fantasia que encontraram no porão
Dançam e cantam a vida que me resta

Dezembro 2019





quinta-feira, 12 de dezembro de 2019






Crônica para uma Sexta-Feira 13

SOLILÓQUIO
(Excerto II)

E este público falando por sussurros, desordenadamente reunido próximo ao meu esquife, ajuda a criar um cenário de pompa e glória, pois afinal este é ou não é um dia marcante, um dia simplesmente inesquecível?
Na verdade, se nada me incomoda do lado de dentro, imóvel como um objeto e apertado como embutido de presunto, descansando no revestimento almofadado e roxo com a tampa de madeira roçando o meu nariz que nem é tão grande assim, é porque também estou aqui do lado de fora, encantado e divertido com tantas lágrimas debulhadas, tanto sorrisoao léu, tanto desespero autêntico e tantas maledicências lançadas.
Os advogados agora me achamam de “de cujus”, os amigos distantes de “o falecido”, os credores de “que desgraça!”, o coveiro de “mais um”  e os herdeiros de “graças a Deus”, mesmo não havendo um prego torto para herdar ou talvez exatamente por isso.
A viúva, a quem os advogados chamam de “supérstite” não compareceu ao féretro para não ter que encenar ao vivo a choração das carpideiras nem ter que suportar os olhares de misericórdia dos fariseus de farrancho.
Passada a comoção do préstito, todos os interessados hão de encontrar um intérprete para decifrar meu testamento cheio de dívidas e sem nenhum dividendo.
Flutuo como um fantasma por entre os vasos de concreto rústico e suas flores emurchecidas, por detrás das pedras tumulares recobertas de musgo e limo e por sobre as cabeças dos canalhas que fingem sobriedade e se acotovelam, esticando o pescoço como galinhas ciscando para ver o esquife baixar à sepultura amparado por dois pedaços de corda como se fosse uma caixa de cebolas, ora a cabeça batendo contra o lado de cima, ora os pés se achatando contra o lado de baixo, amarfanhando o terno azul marinho grosso demais para o calor que está fazendo, terno que já frequentou tantas cerimônias fúnebres e que afinal tantas vezes vai à fonte, que um dia fica.
Flutuo como um fantasma porque sou um fantasma.
De nada me serve agora o dinheiro que eu devia, que eu não devia e que me deviam, o que eu não pude gastar, perdi ou deixei de ganhar, estivesse eu em Cafarnaum ou no Vale de Caxemira seria a mesma coisa, assim como em Londres ou Honolulu, e este som abafado do ataúde chegando ao fundo da cova me faz lembrar a Sinfonia do Novo Mundo como a Noite do Monte Calvo.
Já me preocupo com a movimentação que será feita por ocasião do sétimo dia, quando muitos provavelmente virão aqui novamente, e depois no primeiro mês, e no Dia de Finados, e a partir daí as coisas começando a se distanciar... a sétima semana, o sétimo mês, o sétimo ano, a sétima década e assim “ad eternum per omnia saecula, per omnia tempora...”
Enfim, lá vão eles se retirando, menos circunspectos do que deviam, pensando no que irão jantar e que vinho irão beber.
O último intruso atravessa o portão em direção à praça, e eu me recolho dentro do desconhecido.      

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019


NOVOCABULÁRIO INGLÊS
(Copyright MacMillan)

(ver tradução após o texto)





FURKID

If looking after a baby seems like too much hard work, why not think about getting a FURKID? A furry companion, whether it as a dog, cat, or rabbit, might not just be a pet, but a substitute child which we can love and care for as a parent would, but won’t answer us back or eventually want to drive our car!

            “Couples like FURKIDS because they usually give them less trouble in everyday life and their friends are not noisy kids from the neighborhood always messing up the house and meddling in the fridge.” (ABC Network – Australia, 2004)
  

TRADUÇÃO

PELUDOS
Se cuidar de uma criança parece ser muito trabalhoso, por que não pensar na aquisição de um PELUDO? Ter um bichinho peludo, seja um cão, um gato ou um coelho, não significa apenas ter um animal de estimação, mas ter um ser para amar e cuidar como um pai o faria com uma criança, com a vantagem de ele não discutir conosco a respeito dos nossos atos nem de querer eventualmente dirigir o nosso carro!     

 “Casais gostam de adquirir PELUDOS porque eles geralmente dão menos trabalho nas atividades do dia-a-dia e seus amigos não são crianças barulhentas da vizinhança sempre bagunçando a casa e fuçando na geladeira.” (divulgado pela ABC Network – Austrália, em 2004)






PONHA A TRISTEZA LÁ FORA 
1980
(Samba de Augusto Pellegrini)

Ponha a tristeza lá fora
Que a dor desconsola
Só quem lhe quer bem
Ponha a tristeza lá fora
Que a dor desconsola
Só quem lhe quer bem
E então ao findar esta tristeza
Na procura de outra vida
Encontrarás outros pares

Você verá que nas ruas
Nos cantos, nos bares
No meio da lama
No fundo dos lares
A felicidade está perto também
Você verá que hoje o sol
Tem mais beleza
Viola no canto
Batuque na mesa
No braço estendido
O carinho de alguém 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019






SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 26/10/2018
RÁDIO UNIVERSIDADE FM 106,9 Mhz
São Luís-MA

COOL JASZ DUO - JEAN-LUC BÉRANGER & KARIN ANDERSON

Jean-Luc Béranger e Karin Anderson formam o chamado "duo perfeito", apresentando com a sua música muita sensibilidade, refinamento e bom gosto. Ambos são franceses, nascidos em Nantes, o que facilitou o seu encontro e entrosamento ao longo do tempo, tendo como base o padrão jazzístico que ambos cultivam. Jean-Luc é um guitarrista da escola dos grandes mestres do jazz - neste caso mais precisamente do cool-jazz - e Karin faz da sua voz com o timbre levemente grave uma contraposição harmônica junto com a guitarra, produzindo uma sonoridade que alcança a perfeição. O álbum traz uma variedade de standards da música americana da primeira metade do século 20 e também da música brasileira alicerçada na bossa nova dos anos 1960. No programa "Dindi", "Wave", "Autums Leaves", "All the things you are", "Nuages" e "Lullaby of Birdland", entre outras.

Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini
                                                                                                                                    

sábado, 30 de novembro de 2019






UMA NOITE SINISTRA
(Excerto)

E como se não bastasse, ainda esta dor de dente!
Dor de dente, dor de parto, dor de angina, dor nos rins, todas parecem juntas agora, colocando o pélvis, o costado e o peito num só padecimento e se concentrando no lado esquerdo do alto da boca, a língua grossa como uma esponja de lavar louça amortecida por aquela pomada preta e milagrosa – Um Minuto – o nome escrito na caixinha de papelão antiga e rústica.
Uma Cafiaspirina engolida com um gole de água morna junto com uma Neosaldina, depois um Buscopan e uma careta, e sigo em frente tateando como um cego, luzes multicoloridas acendendo e apagando no fundo da retina, meio morto, meio tonto e meio torto, da cozinha para o corredor, do corredor ao banheiro para uma rápida inspeção no espelho e depois rumo ao quarto para pagar o resto dos meus pecados.
Vontade de socar a cabeça no balaústre da escada nem que tudo possa vir abaixo, balaustrada, escada, sacada, e os vinte e tantos ossos da caveira, parietal, frontal, occipital, hospital.
-0-0-0-
Tudo começou com uma bebedeira vespertina e depois veio a noite interminável com a insônia e seus correlatos, vagando pelos aposentos silenciosos até que surge a porta da geladeira encerrando mil delícias para a madrugada.
Eis um pedaço de goiabada piscando para mim num convite quase obsceno – muito bom apara repor o açúcar perdido – e então vem a primeira dentada e a primeira mastigada, e aí o nervo exposto do pré-molar produz aquela pontada fina e aguda que me encheu de cores.
O medo atávico do dentista rapidamente se transformou em amor à primeira vista e me sobreveio uma intensa saudade do doutor Jacinto apesar do ruído da broca, do jato de água gelada e do sopro do ar quente comprimido.
Se eu telefonar para você a esta hora e desatar o nó das minhas desesperanças, caro Jacinto, é bem provável que você me convide para uma consulta rápida e sem volta, um curativo, uma extração e depois um tiro na boca para que eu nunca mais venha a incomodá-lo nas madrugadas.
Cheguei ao fundo do poço. Nada poderá piorar meu sofrimento físico.
-0-0-0-
Parece uma profecia: chutei o degrau da escada.
Não só chutei a peça de granito e cimento com gosto e sem chinelo como fui lançado para o primeiro lance, os óculos se me escapando da cara e se projetando para cima de um vaso com um arranjo de artemijas e a barriga embicando contra a quina do quarto ângulo – a testa no sexto.
Com o polegar do pé em chamas, saio rastejando como um ápode no encalço dos óculos cujas lentes já se encontram tão opacas que francamente não faz mais o menor sentido tê-los ou não tê-los.
Acho que estou entrando em um plano astral só conhecido pelos faquires e outros autoimoladores orientais, este sim é o verdadeiro nirvana, se eu sobreviver a esta experiência vou pregar a Verdade em praça pública, vou elaborar um tratado sobre o efeito da goiabada cascão sobre a salvação eterna, a mais açucarada forma de purificação.
Agora, não há frio nem calor, as dores se transformaram numa dormência cálida enquanto eu sinto meu corpo se fundir com as lajotas do piso e o adormecimento chega enfim em forma de desmaio.
Somente a haste dos óculos me incomoda um pouco, pressionando a área compreendida entre a orelha e a fronte como um torniquete movido por um parafuso milimétrico.
O resto é sombras.      


quinta-feira, 28 de novembro de 2019







NOVOCABULÁRIO INGLÊS
(Copyright MacMillan)

(ver tradução após o texto)

BUSTITUTION

You arrive at the station, exhausted after work, to discover that your train has been substituted by a bus. You get on the bus and join a group of unhappy, complaining people. You’re another victim of BUSTITUTION, and as the bus drives slowly down the road, you know that your journey will take at least twice as long as usual.    

            “Britain’s biggest rail union has condemned the decision to replace Wolverhampton-Walsall local rail services with a ‘fast coach service’ from next April. The move, the first BUSTITUTION under new powers created by the 200 Railways Act, was confirmed in the SRAs Route Utilisation Strategy for the West Midlands.” (RMT.org.uk, 26th July 2005)
  

TRADUÇÃO

SUBSTITUIÇÃO DE TRANSPORTE COLETIVO
(Tradução adaptada)
Você chega ao terminal de ônibus depois de um dia cansativo de trabalho e descobre que o seu ônibus costumeiro foi substituído por um circular. Você entra no circular e se junta a um grupo de infelizes que se queixam o tempo todo. Você á mais uma vítima da SUBSTITUIÇÃO DE TRANSPORTE COLETIVO e enquanto o circular segue vagarosamente pelas ruas da cidade você tem certeza que a sua viagem vai levar o dobro do tempo normal.     

 “O maior sindicato de transportes da Grã-Bretanha condenou a decisão de substituir o serviço da linha Wolverhampton-Walshall por uma linha de ônibus “rápida” a partir do mês de abril. A mudança, primeira SUBSTITUIÇÃO DE TRANSPORTE COLETIVO da nova política de transportes feita pela 200 Railway Act, foi confirmada pelas autoridades de acordo com as novas estratégias implantadas para a região de West Midlands.” (divulgado pelo site RMT.org.uk em 26 de julho de 2005)

quarta-feira, 27 de novembro de 2019






SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 27/04/2018
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106,9 Mhz
São Luís-MA

HARRY CONNICK JR.

Considerado um dos artistas americanos mais brilhantes dos últimos trinta anos, o cantor, pianista, ator e apresentador de televisão Harry Connick Jr. chegou a ser considerado o sucessor de Frank Sinatra na preferência do público. Um recordista de venda de discos e em turnês pelo mundo, Connick alia um excelente piano-jazz ao estilo mix entre Thelonious Monk e Errol Garner a uma voz feita para cantar standards, o que faz dele o "one-man show" que todos apreciam. A gravação deste álbum foi feita em 1992, e Harry Connick desfila alguns sucessos como "Stardust", "After You've Gone", "Tangerine" e "Caravan" transmitindo muita balada e muito jazz, com a participação especial do pianista Elis Marsalis, do cantor Johnny Adams, do baixista Ray Brown e saxofonista Ned Goold.

Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini
                                                                                                                                    





domingo, 24 de novembro de 2019



INFINITO

Teu infinito é misterioso como a noite
Mas tua noite infelizmente é bem finita
Em vão eu tento decifrar os teus açoites
Que me machucam e trazem caos na minha vida

Então procuro compreender esse teu lado
Que afirma coisas que de fato não existem
Assim, percebo que estou sendo ludibriado
E enfeitiçado por fantasmas que me assistem   

Eu sinto a mente esvaziar quando te vejo
Como se fosse dissolvida em puro ácido
E me sufoco ensandecido em meu desejo
Prevendo a morte como meu próximo passo

Meu infinito infelizmente não se cruza
Com tua linha paralela e bem distante
Somos dois corpos a vagar, que ninguém ousa
Aproximar, pois se repelem num instante

Teu infinito é misterioso como a morte
E como a morte nosso futuro é insondável
Nosso infinito não tem foto, só recorte
Feito de papel velho, sujo e inusável

Novembro 2019



sexta-feira, 22 de novembro de 2019







NÃO VOU JAMAIS AMAR 

(Samba de Augusto Pellegrini – Marinho – Luís Albuquerque)

Me vejo perdido num canto
A chorar de aflição
Passado, saudade
Lembrança, desilusão
Palavras que têm consistência
Num samba, é verdade
Mas que na realidade
Só fazem magoar um coração

Pedaços da minha vida
Espalhados ao chão
Colhidos e reconfessados
Por meu violão 
Se toda a filosofia
Pudesse assim demonstrar
Toda a verdade contida
Num samba na mesa de um bar
Confesso, então eu diria
Ironia, melhor não falar
Em samba e na poesia
Não vou jamais amar

1976

segunda-feira, 18 de novembro de 2019






SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 12/01/2018
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106,9 Mhz
São Luí-MA

1930'S JAZZ BIG BANDS 

Nos primeiros anos do século 20 o jazz sofreu a sua primeira grande ruptura, quando o estilo tradicional de Nova Orleans, influenciado pelas danças de salão europeias que tocavam em Nova York e Chicago deu início ao que se chamaria mais tarde de swing das big bands. Os registros daquela época são bastante precários, mas o Sexta Jazz decidiu resgatar algumas das orquestras que foram o berço do jazz que viria a seguir e apresenta algumas gravações antológicas dos anos 1930. Os ouvintes hão de perdoar a qualidade do som em virtude da tecnologia de gravação daquele tempo feitas em discos de cera sem qualquer mixagem, mas por outro lado irão ouvir peças antológicas que fazem parte da música universal e que poucas vezes foram mostradas em emissoras de rádio, pelo menos neste século. As raridades incluem Benny Goodman, Count Basie, Duke Ellington, Jimmie Lunceford (na foto), Earl Hines, Ben Pollack, Red Norvo, Erskine Hawkins, Teddy Hill, Chick Webb, Fletcher Henderson, Cab Calloway e outros.

Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini
                                                                                                                                    





domingo, 17 de novembro de 2019






O PORCO
(Excerto)

Radamés estava muito preocupado com o julgamento que seria realizado na terça-feira, pois não via por onde ganhar a causa e começava a ver pelo binóculo as terras que estavam em questão. Pior, não tinha a menor confiança no seu advogado, um tal doutor Calixto Fortes, um sujeito cheio de pose que lhe fora indicado por um amigo.
Percebendo que a nau estava indo a pique, ele perguntou timidamente se havia alguma forma de seduzir o juiz, com alguma conversa ou algum  “presentinho”, ao que o doutor respondeu que o juiz seria um tal Pompílio de Taques, daqueles da velha guarda – in-cor-rup-tí-vel! – e completou dizendo que o juiz levava uma vida muito simples, sem luxos, e que a sua verdadeira paixão – depois das leis, é claro – eram os leitões que ele criava num sítio que possuía no interior.
Radamés aparentemente se resignou. Para ele, a justiça lhe parecia fortuita e cega, com os olhos vendados e a espada na mão, pronta para ceifar cabeças sem qualquer critério pesando os prós e os contras de um julgamento na sua balança de dois pesos e duas medidas.
-0-0-0-
Terça-feira.
Lá estavam todos os implicados no segundo andar do Fórum onde ficava a Sexta Vara: Radamés, cheio de preocupações, doutor Calixto, cheio de anéis, Vivaldo – seu adversário – cheio de certeza e advogado dele cheio de presunção e papéis.
O oficial abriu a porta e convidou todos a entrar.
No alto da sua imponência, o Meretíssimo Pompílio de Taques pigarreou, leu as laudas como de praxe, permitiu as justificativas e apartes sem prestar muita atenção, e foi curto e grosso na sentença.
- Tendo em vista os fundamentos dos autos, condeno o senhor Vivaldo Perequê a devolver as terras questionadas e proclamo seu legítimo dono o senhor Radamés Plutarco. Caberá ao senhor Vivaldo Perequê o pagamento das custas processuais e etcetera etcetera, etcetera...
Com a sentença proferida, as partes se dissolveram escada abaixo, doutor Calixto cofiando a barba rala com brilho nos olhos, o incrédulo Vivaldo Perequê dardejando um olhar de fúria para o seu atônito advogado e Radamés se concentrando em um enorme quadro no hall que mostrava uma cena campestre onde alguns leitõezinhos chafurdavam felizes na lama.
-0-0-0-
Doutor Calixto, envaidecido como um pavão, se dava ares de importância.
- Não disse a você, Radamés, não disse a você para confiar no meu trabalho?
- Só que as coisas nem sempre acontecem naturalmente, doutor. A gente às vezes tem que dar um empurrãozinho por fora...
- Como assim, empurrãozinho, Radamés, como assim?
- Bem doutor, não foi propriamente pelo seu trabalho que a gente ganhou a questão, mas pelo meu presente...
- Presente, Radamés, que presente?
- O porco que dei de presente para o Doutor Pompílio.
- Você deu um porco de presente para o Doutor Pompílio? Não pode ser, Radamés, não posso acreditar que o Doutor Pompílio iria vender a sentença por um porco!
- Nem eu iria acreditar nisso, doutor, depois que o senhor me disse que o homem é incorruptível!
- Mas então... que diabo de história é essa? – exasperou-se o advogado.
- É que eu mandei um porquinho todo cor-de-rosa pro juiz, com um bilhetinho preso a uma fita vermelha amarrada no pescoço do bicho.
- ... e então...?   
- ... e então o bilhetinho pedia com todo o respeito que o juiz aceitasse o porquinho como presente, e era assinado por Vivaldo Perequê...