sábado, 11 de setembro de 2021

 


SONETO QUEBRADO...

É noite.
Como se fosse um sonho
(e a gente sonha mesmo, ainda acordado),
eu vejo a flor gentil que se aproxima,
se alegra todo o meu olhar tristonho
a cada metro e a cada passo dado.

Desfaz-se o sonho e tudo se ilumina.
É doce a noite, é doce a musa, é sonho.
É pra você este meu versejado,
pra doce e meiga musa, flor, mulher, menina.

...E ALQUEBRADO

É noite.
A solidão se arrasta
(e a gente vê fantasmas pelo quarto).
A doce imagem já não mais existe,
o olhar opaco permanece triste,
e aquela flor cada vez mais se afasta. 

Desfazem-se ilusões; tudo o que trago
é uma realidade dura após vinte anos
feitos de má certeza e desenganos.
É pra você este meu verso amargo.

 

 

 

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

 


EU E A MÚSICA

A SÃO PAULO DE ADONIRAN BARBOSA

Parte 1

Minha São Paulo
Foi da garoa, tempo frio que já mudou
Cantada pelo filho do italiano
Está mais quente a cada ano
É o samba urbano que chegou
Bexiga, Barra Funda, Lapa e Mooca
E a maloca que, saudosa
Hoje não existe mais
Porém a caravana colorida
Evolui na avenida
Evocando os bons tempos do Brás

Com empolgação
Meu São Paulo é um poema
De Malvina, Adoniran
Mato Grosso e Iracema

Trem das onze
As mariposas vão sambando na estação
Lembrando da moçada o sacrifício
A derrubada do edifício
O antigo Albion
Acende o candeeiro de mansinho
Traz de volta o cavaquinho
Pra encantar meu bem querer
Cidade de trabalho e de progresso
Seu poeta e seu sucesso
Nós vamos cantar outra vez

(“A São Paulo De Adoniran Barbosade Augusto Pellegrini)

Esta é a letra de um samba que eu fiz em homenagem a Adoniran Barbosa no ano de 1975 para concorrer à escolha do samba-enredo para o carnaval de 1976 pela G.R.E.S. Escola de Samba Pérola Negra, Vila Madalena, São Paulo, cujo tema era exatamente “A São Paulo de Adoniran Barbosa”. A música concorreu, não ganhou, mas eu me senti premiado por ter convivido com o poeta, ainda que por breves instantes, pois isso enriqueceu a minha alma.
Gostaria de ter absorvido mais um pouco da sensibilidade de Adoniran, mas o nosso tempo foi muito curto. Enfim, como ele mesmo dizia – “mas isso num faz mal, num tem ‘portança’...”

                                                                 -0-

Desde muito jovem a música sempre me encantou.
Talvez por isso eu gostasse de exercitar o meu lado compositor, na maioria das vezes fazendo sozinho a letra e a melodia da música, mesmo não conhecendo coisa alguma sobre teoria musical nem tendo a prática de tocar qualquer instrumento.
A música era produzida dentro da minha cabeça e, na ausência de um gravador, eu tinha que a cantarolar dezenas de vezes para não esquecer a linha melódica. Enquanto isso, o arranjo e a orquestração – violão, violinos, metais, piano, percussão – iam tomando sua forma definitiva, mas sempre dentro da minha cabeça (os compositores leigos, como eu, sabem do que eu estou falando).
Isto causava sérios problemas quando eu queria cantar as minhas composições acompanhado por algum instrumentista, pois evidentemente a harmonia que ele extraía do instrumento podia ser bem diferente daquela que eu havia concebido.
Quando comecei as minhas tentativas musicais, fui influenciado pela música brasileira da época – coisas de Dolores Duran, Tito Madi, Antônio Maria, Alberto Ribeiro, Fernando Cesar, Klécius Caldas, Armando Cavalcante, Henrique Lobo e Luiz Bittencourt, todos autores de sambas-canções que tinham como intérpretes cantores como a mesma Dolores, o próprio Tito Madi, e também Nora Ney, Agostinho dos Santos, Dóris Monteiro, Lucio Alves, Cauby Peixoto, Dick Farney e alguns outros tantos.
Mesmo assim, a minha música não possuía as características específicas do samba-canção e não obedecia à configuração tradicional dos seus versos, uma sequência simples de primeira estrofe-segunda estrofe, pois o samba-canção convencional quase não utiliza refrãos.
Além do mais, eu “quebrava” a melodia às vezes de forma inusitada, coisa típica – de acordo com a opinião de músicos e especialistas – de quem não é engessado pela teoria e sente mais liberdade para simplesmente expor seus sentimentos.
Então chegou a bossa nova, e eu incorporei o estilo às minhas composições, sem abandonar o jeito da canção e do samba-canção. E continuei distante daquilo que João Gilberto chamava de “samba autêntico” – tipo Ary Barroso, Assis Valente, Ataulfo Alves, Denis Brean – como também do samba-canção tipo deprê, conhecido por “dor-de-cotovelo” – músicas de Lupicínio Rodrigues, Fernando Lobo, Herivelto Martins, Jair Amorim – que abordava o romantismo de forma dramática, como o tango, e dos quais eu até gostava, mas não me identificava a ponto de compor coisas do gênero.
A bossa nova me mostrou que a gente podia fazer poesia com as coisas mais simples do dia-a-dia e da natureza, sem necessidade de utilizar parnasianismos ou erudição nas palavras.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

 


NOVOCABULÁRIO INGLÊS

(Copyright FluentU) 

(ver tradução após o texto)

 

FLIMFLAM 

Now, here’s a cute and funny word that’s been around since the 16th century, according to Merriam-Webster. FLIMFLAM refers to a trick or a ploy to deceive someone.  It’s also used to refer to swindling someone out of money, but it can be just innocent nonsense blabbering talk.


             “If you’re going to buy a used car online, you must be able to separate the FLIMFLAM from the facts.”

             “My little brother has a tendency to talk in his sleep, but it’s always FLIMFLAM that doesn’t make a coherent sense.”

 

             “My sister got a strange payment request supposedly from a financial institution, but she suspected from the beginning that it was just FLIMFLAM.”

 

 

            

            TRADUÇÃO

 

TAPEAÇÃO, VIGARICE, COISA SEM SENTIDO

Eis aqui uma palavra interessante e engraçada da língua inglesa que está em uso desde o século 16, de acordo com a Editora Merriam-Webster. FLIMFLAM quer dizer “trapaça” ou “estratagema” para enganar alguém. É usado também para se referir a “desvio de dinheiro” ou para indicar uma inocente “conversa sem sentido”.

            “Se você vai comprar um carro usado pela internet, você precisa separar a conversa macia do vendedor dos fatos reais.”

“Meu irmãozinho costuma falar enquanto dorme, mas é sempre um amontoado de palavras sem sentido que ninguém consegue entender.”

“Minha irmã recebeu uma fatura de uma instituição financeira para pagamento, mas logo suspeitou que se tratava de golpe.”

 

 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

 


SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 10/05/2019
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106,9 Mhz
São Luís - MA

BLUE NOTE PLAYS THE MUSIC OF COLE PORTER

Na opinião da maioria dos críticos de música dos Estados Unidos, a linhagem dos grandes compositores americanos é encabeçada por Cole Porter. Um dos motivos seria o seu estilo poético irônico e por vezes engraçado, escandalizador, mas sem nunca prescindir do romantismo, usando mensagens que iam de encontro ao sentimento do público da época. Outro motivo é o intrincado e por vezes inesperado rumo que a sua melodia tomava. Figura de realce nos loucos anos 1930, rico e talentoso, ele fez parte de uma geração de notáveis. Porter foi também possivelmente o único compositor popular americano que nunca teve um parceiro. Suas poucas, mas incomparáveis trinta e sete composições sempre e apenas tiveram letra e música dele próprio. Nesta audição, a gravadora Blue Note faz uma coletânea em comemoração aos cem anos de nascimento do compositor (1891-1991) com músicos do seu primeiro escalão e inclui as obras “Night and Day”, “Love for Sale”, “Just One of those Things”, “Easy to Love” e “It’s Alright with Me”, entre outras.

Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini

 

domingo, 5 de setembro de 2021

 


GATINHA DE MAIÔ  

(Bossa de Augusto Pellegrini)

 

Foi outro dia

Que eu vi uma gatinha

De maiô coral

Na beira da praia

Olhando pro céu

Conversando com o mar

E deitada na areia

Ela era um poema

Passando a canção

A minha gatinha

Era tudo que havia

De belo e de bom

 

Não sei como sucedeu

Não sei

No azul dos seus olhos vi

Tudo que era meu

Tudo que era olhar

E eu sou o gatinho

Daquela gatinha

De maiô coral

E hoje estou com ela

E canto pra ela

Somente pra ela

Onde estiver

Estou contente

Com a minha gatinha

De noite e de dia

Gatinha é mulher

 

 

 


EU E A MÚSICA

UM PIANO NO FIM DA TARDE
Parte 2


      No meio de tanta brancura avistamos como que surgindo do nada um piano negro com a asa aberta, que crescia dentro do cenário emitindo acordes jazzísticos formidáveis. O som e a imagem que chegavam até nós, ao invés de quebrar o encantamento da cena, trazia uma aura de imponderabilidade, como se todo o ambiente tivesse de repente começado a flutuar.
      Caminhei em direção ao piano, com o som do jazz agora ocupando todo o espaço, e num instante reconheci “How About You?” (Burton Lane e Ralph Freed), e por trás do instrumento ninguém menos do que Dick Farney, que também estava ali para uma gravação e naquele instante aquecia os dedos – conforme ele nos confidenciou.
      Dick recebeu nossa intromissão com um semblante sorridente e a expressão levemente enigmática, uma extensão dos seus shows de jazz aos quais eu me habituara a assistir em algumas noites de quarta-feira no auditório de A Folha de São Paulo na Rua Barão de Limeira ou em alguma boate da região central da cidade.
      A sua presença solitária naquela hora e naquele lugar parecia estranhamente etérea e conveniente.
      Mr. Farney não perguntou o que fazíamos no seu território – a parafernália que trazíamos em mãos acho que era mais que suficiente para qualquer bom entendedor – mas isto não nos intimidou e logo travamos uma rápida conversa com ele.
      Afinal, estávamos frente a frente com um dos músicos que ajudaram a escrever a história da música brasileira nos Estados Unidos e que fazia parte de uma revolução de ideias que culminaram com o advento da bossa nova dez anos antes, usando como recurso apenas a sua voz e seu piano, como se isso fosse pouco.
      Além de “How About You” Farney gravara standards famosos como “She’s Funny That Way” (Richard A.Whiting e Neil Moret), “These Foolish Things” (Jack Strachey, Holt Marvell e Harry Link), “What’s New?” (Johnny Burke e Bob Haggard) e “You Go To My Head” (J.Fred Coots e Haven Gillespie). A gravação de Farney feita nos Estados Unidos em 1947 para a música “Tenderly” (Walter Gross e Jack Lawrence) havia sido feita em primeira mão, antes mesmo das versões de Sinatra e Nat “King”Cole.  
      Tudo isto sem prejuízo da discografia nacional do final da década de 1940 e de toda a década de 1950, com gravações que serviram de base histórica para o surgimento da bossa nova – “Perdido De Amor” (Luiz Bonfá), “Copacabana” (João de Barro e Alberto Ribeiro), “Nick Bar” (Garoto e José Vasconcelos), “Você Se Lembra” (Haroldo Eiras e Victor Berbara), “A Saudade Mata A Gente” (Antônio Almeida e João de Barro), “Um Cantinho E Você” (José Maria de Abreu e Jair Amorim), “Se O Tempo Entendesse” (Marino Pinto e Mario Rossi), “Somos Dois” (Armando Cavalcanti, Luiz Antônio e Klécius Caldas), “Ponto Final” (Alberto Ribeiro e José Maria de Abreu), “Outra Vez” (Antônio Carlos Jobim) e outras tantas maravilhas.
      Dick Farney sempre se interessou pelo jazz e pelos clássicos americanos, tanto na voz quanto tocando piano, e seu debut na Radio Cruzeiro do Sul foi cantando a mais improvável das musicas – “Deep Purple” (Peter DeRose e Mitchell Parish), na época em que os cantores amadores se especializavam em Noel Rosa, Ary Barroso, Lamartine Babo e Assis Valente.
      Ele apareceu na música brasileira no local e na hora certa – Rio de Janeiro, num momento em que a juventude carioca frequentava a Lojas Murray em busca do que havia de mais moderno em discos de jazz e standards – e provocou inclusive a criação do primeiro fã-clube de que se tem notícia no Brasil, o Sinatra-Farney Fan Club), que infelizmente durou apenas um ano.

                                                            -0-
 
      A nossa filmagem se deu mais tarde, em um ponto distante de onde estava Dick Farney, mas não pude deixar de me quedar estático durante um bom tempo me inebriando com o som daquele piano no fim da tarde. E aquele som – “I like New York in June, how about you?”... – acompanhou o nosso trabalho como uma benfazeja e inesperada trilha sonora.
      Afinal, o filme era mudo, mas felizmente não era surdo...