quarta-feira, 20 de setembro de 2017




MIRAGEM

Segui uma estrela-guia
Noite afora, noite adentro
Até o raiar do dia
E quando o céu clareou
Ela se mesclou de céu

E o arco-íris distante
Andei até o fim da trilha
E para o meu desencanto
Ao dobrar a última esquina
Ele se mesclou de chão

Uma cigana me disse
Para eu seguir tal caminho
Mas antes que eu percebesse
Que tal caminho era rua
Ele se mesclou de beco

O velho sábio falou
Palavras que eu nunca ouvi
E quando em mim despertou
O desejo de segui-lo
Ele se mesclou de vento

O mar ruge contra as pedras
No vai-e-vem da maré
Mas quando menos espero
Ele ficou calmo e quieto
E se mesclou de paisagem

Vejo teu sorriso franco
No retrato aqui a meu lado
Mas depois de um breve encanto
Por distração ou descuido
Ele se mesclou de nada

Então sigo procurando
Por outras coisas concretas
Elas vêm, mas vão embora
Se mesclando de miragem
Nas minhas horas incertas


Set 2017

terça-feira, 19 de setembro de 2017




CARTA PARA O DESTINO

Escrevi uma carta para o meu destino
Mas errei o destinatário
A carta foi, por engano
Entregue ao destino de um outro
Que não a havia enviado

Na carta fui incisivo
“Quero saber da minha morte
Quando será, onde e como
E o que encontrarei mais tarde
Quando estiver do outro lado”

A resposta veio logo
Também no destino errado
Demonstrando um certo espanto
Pois o outro havia partido
No fim do ano passado

Aprendi então que o certo
É não se preocupar com a morte
Deixá-la ao sabor da sorte
Deixá-la ao sabor do vento
Vivendo o melhor da vida e dela tirando proveito

Set 2017


sábado, 16 de setembro de 2017




O TAL PLANEJAMENTO

Um bom planejamento é fundamental para qualquer que seja o empreendimento ou a atividade que se pretenda exercer, seja ela no âmbito doméstico, profissional ou governamental. Todos concordam com isso.
O problema é que os resultados conseguidos terão estreita ligação com o planejamento realizado e com os procedimentos adotados, isto é, se a coisa não for bem feita o fracasso pode ser retumbante.
Isto vale para o cozinheiro que prepara um jantar para trinta pessoas, para o administrador que pretende alcançar determinada meta proposta pela diretoria, para o mestre-escola que precisa cumprir com um determinado currículo escolar num certo período de tempo, para o atleta que se prepara para uma competição ou para um jogo em particular, para o engenheiro que define etapas de um projeto, para um dirigente esportivo que monta uma equipe para a temporada ou para o turista em férias que não quer correr o risco de imprevistos.
O problema é que, em que pese todo o estudo acadêmico dedicado a esta verdadeira arte - a arte de planejar - e em que pesem os cursos, palestras e livros escritos sobre o métier, os erros de planejamento continuam se sucedendo e colocando em polvorosa muita gente envolvida no processo ou refém dele.
Outro problema é que muita gente planeja à sua maneira, sem ouvir opiniões nem prestar atenção a cuidados comezinhos que poderão fazer a diferença, como analisar a situação e determinar os objetivos, definir estratégias, fazer avaliações constantes e mudar a rota quando e se necessário. 
O acaso é inimigo do resultado perfeito, coincidências só acontecem para aumentar o prejuízo e, de acordo com o que preconiza a Lei de Murphy, "quando deixadas à solta, as coisas sempre terminarão da pior maneira possível".
De algumas décadas para cá, planejamento passou a ser a palavra-chave para os clubes e seleções de futebol independentemente do seu tamanho e das suas ambições.
Ele começa com o reconhecimento da capacitação financeira, a análise do elenco e os critérios de avaliação do técnico e dos dirigentes, e segue com a dispensa de alguns jogadores e a contratação de outros. Aí entra em cena a palavra mágica "pré-temporada", que serve ou devia servir de base para todo o trabalho a ser realizado dali pra frente.
Assim, quando técnicos e jogadores são dispensados durante uma temporada, a tal "pré-temporada" vai pro brejo, pois muita coisa em termos de planejamento precisa ser repensada ou reiniciada.  
É claro que na vida e no futebol nem tudo é feito só de vitórias, portanto um planejamento perfeito deve prever os infortúnios que possam acontecer e se fixar em objetivos realistas e palpáveis. Se eu não consigo ser o primeiro em todas as coisas devo estar entre eles o tempo todo, e possíveis escorregões não poderão desestabilizar a situação nem fomentar crises, sob o risco de os escorregões se transformarem em quedas sucessivas e permanentes.
Por utilizarem um planejamento indevido, os clubes erram de diversas formas.
No atual Campeonato Brasileiro, por exemplo, o Palmeiras pecou por não dar ao certame a necessária importância e privilegiou sua frente de trabalho apenas na Copa Libertadores e na Copa do Brasil. O resultado deste planejamento equivocado foi o pior possível, pois o clube perdeu todas as disputas com muita antecedência e já pode ir pensando num planejamento para 2018. 
Flamengo, Grêmio e outros seguem o mesmo caminho, ao abdicarem da perseguição ao líder Corinthians mesmo tendo ao longo do primeiro turno a oportunidade de se aproximar da liderança (e no segundo turno tiveram uma chance ainda maior, pois o líder enfileirou três derrotas, mas continua folgando na dianteira).
Um clube que briga por títulos deve sempre brigar por títulos e para tal deve possuir um elenco que lhe permita disputar partidas de igual para igual contra qualquer adversário sem a fúnebre necessidade de "poupar jogadores", o que tira o ânimo da equipe e irrita os torcedores.   
Não devemos confundir planejamento com mau planejamento.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017






SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 27/11/2015
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106,9 Mhz
São Luís-MA

FIVE PLAY JAZZ QUINTET 

Tendo como referência o estilo pós-bop, o grupo Five Play Jazz Quintet, formado em 2002 e composto por músicos experientes e estudiosos, toca jazz "para alimentar a mente e o coração", conforme eles próprios costumam dizer. O quinteto tem sua base em Berkeley-Califórnia e produz uma música com construções harmônicas e solos bem modernos, no que é auxiliado por um perfeito casamento a três entre piano, guitarra e sax-alto ou clarineta. Outra particularidade do quinteto é que eles executam músicas apenas de autoria de compositores do próprio grupo - o guitarrista Tony Corman, a pianista Laura Klein - sua esposa - e o clarinetista e saxofonista Dave Tidball. O ouvinte do Sexta Jazz terá nesta semana a oportunidade de ingressar num mundo de sons muito expressivos, modernos e cativantes apresentados pelo grupo, que tem também na sua formação o baixista Paul Smith e o baterista Alan Hall.

Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini


quarta-feira, 13 de setembro de 2017





O ATOR

(QUINTA PARTE – INTERLÚDIO)

A exibição de O Defunto Virgem foi repentinamente interrompida por três tiros de revólver disparados no peito do desditoso Benito Rubaloca, disparados por sua mulher Ignes Rubaloca num acesso de ciúme, diante de meia dúzia de testemunhas, conforme constou nas manchetes dos jornais do dia seguinte e no boletim de ocorrência lavrado na delegacia horas depois do crime.
Dorotéa Vaughan trancou-se no banheiro e só foi de lá retirada quatro horas depois pelo servente do teatro, muito lívida e balbuciante, após a polícia ter levado madame Rubaloca – que depois do terceiro tiro não se preocupou em se livrar do flagrante e prostrou-se sentada numa cadeira esperando pelo seu inexorável destino.
Passado o susto, dias depois Dorotéa aproveitou para tirar vantagem do desditoso episódio e foi se expor em um programa da televisão marrom, para depois contracenar um filme B onde expôs a sua natureza nua e crua para faturar o equivalente a cinco anos de apresentação no Teatro Aliança. No filme, sua beleza estática e sua falta de talento não chegaram a ser problema.
Timóteo saiu de circulação, e a última vez que foi visto vendia frutas na feira, também sem exibir o menor talento.
Rubaloca, o pivô da questão, teve enfim seu nome eternizado no Diário de Notícias como sempre fora o seu desejo, muito embora na página policial.
Quanto a mim, desde então sou um mais um personagem da vida real à procura de uma persona no palco, saudoso do camarim que guarda aquele silêncio que antecede o espetáculo e daquele calafrio que antecipa a entrada triunfante no palco.
E, na falta de um Tennessee Williams, sigo à espera de um Eraldo Montalvão para escrever as minhas falas.
    
2013


            






SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 27/03/2015
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106,9 Mhz
São Luís-MA

WES MONTGOMERY

Nosso convidado desta sexta-feira será um grande ícone da guitarra no jazz: Wes Montgomery. Os analistas costumam dizer que o jazz guitar se divide em duas eras, ou seja, antes e depois de Wes Montgomery. Wes tem a seu crédito ter desenvolvido o fraseado da guitarra apenas depois de adulto, sob a influência do famoso Charlie Christian. O fato é que ele depois influenciou todos os guitarristas que vieram a seguir, incluindo na lista George Benson, Pat Metheny e outros. As músicas que serão apresentadas nesta sexta fazem parte de um álbum chamado Ultimate - Wes Montgomery que traz uma coletânea cuidadosamente escolhida por George Benson, mostrando gravações feitas entre 1965 e 1966, portanto cerca de três anos antes da morte de Wes. Impressiona a leveza e a sonoridade extraída pelos dedos do guitarrista, que tocava utilizando o dedo polegar, sem o auxílio de palheta, e também a sua forma de tocar em oitavas, um sistema chamado block chords, que dava uma melodiosidade bastante expressiva ao instrumento.


Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini

segunda-feira, 11 de setembro de 2017




O ATOR

(QUARTA PARTE – DUETO)

Dorotéa – nascida Maria dos Anjos conforme consta nos implacáveis documentos – me odiava, talvez por saber que o público preferia os meus entreatos à sua exibição em tempo integral. E, embora se apresentasse como a artista principal da trupe, ela sempre deixava transparecer sua total insegurança, tanto dentro como fora do palco.
Esta insegurança se tornou mais evidente após uma tarde de ensaios, quando madame Rubaloca, a esposa do dono, apareceu sem avisar, flagrando a atriz e o señor Benito numa situação profundamente embaraçosa: embora não fosse o diretor de cena, Benito Rubaloca enlaçava a prima-dona nos braços para mostrar ao ator que interpretava o vendedor de escovas como a cena romântica deveria se desenvolver, e a coisa parecia real demais para ser encenação. Timóteo se limitava a ajustar o posicionamento dos atores no palco, e parecia ligeiramente incomodado com a situação.
Mas Timóteo era o anti-diretor por excelência.
A sua presença e as suas orientações sempre soavam perfeitamente dispensáveis na medida em que ele não conseguia passar para o elenco a emoção desejada pela trama. Felizmente para todos, Montalvão – o autor – esteve pessoalmente dirigindo a peça nas três primeiras semanas antes da estreia e transmitiu para os artistas todas as filigranas e trejeitos necessários para um bom desempenho no palco.
Faltam a Timóteo a postura e a afetação dos grandes mestres da encenação. Quem o via circulando pelo palco e pelos bastidores tomá-lo-ia por um mero assistente de produção, tal a sua preocupação com os detalhes pouco significativos do espetáculo e a sua falta de preocupação com a dramaturgia que o enredo exigia.
Estranho é que com todos estes problemas o espetáculo conseguisse lotar o Teatro Aliança em todas as suas três exibições semanais, o que talvez sirva de crédito para o jovem Montalvão. E mais estranho ainda é que os aplausos fossem quentes como a luz, como diz o lirismo da poesia, hora em que todos os participantes se davam as mãos hipocritamente para fazer vênia a um público tão generoso.
A temporada seguia com relativo sucesso apesar dos desacertos internos, e o bonde parecia rolar direitinho sobre os trilhos até madame Rubaloca aparecer novamente de surpresa numa outra tarde de ensaios, me chamar para um “tête-a-tête” nos bastidores e perguntar o que estaria acontecendo entre o pérfido Benito e a ardilosa Dorotéa.
A pergunta veio de supetão, e me pegou de surpresa.
Na falta de saber como proceder, comecei a gaguejar, coisa inadmissível para um declamador de escol, como eu. Pela primeira vez na vida – agora penso que talvez propositalmente, traído pelo inconsciente – não fui capaz de desempenhar meu papel de ator à altura da minha capacidade. Pela primeira vez não consegui ser convincente, e meu olhar hesitante traiu a resposta mentirosa que seria adequada para o momento.
Deve ter falado mais alto o meu insuspeito mau caráter e a possibilidade de colocar um fim nas veleidades de Dorotéa e seu orgulho irracional, para de repente me colocar na pele de um Iago e incendiar de dúvidas a cabeça conturbada, não de Otelo, mas de dona Ignes Rubaloca, dizendo coisas sem dizer, como se estivesse querendo proteger o safado do seu marido, mas encontrando as palavras corretas para envenenar a sua alma.
Então, finalmente percebi ter reencontrado o fabuloso ator que mora em mim. Com a minha soberba e dissimulada atuação eu iria provocar um escândalo de adoráveis proporções, funcionando como uma vingança perfeita para as minhas desditas dentro da companhia.
A pólvora já estava lá, eu apenas riscava o fósforo.


domingo, 10 de setembro de 2017




O ATOR

(TERCEIRA PARTE – BALÉ)


Eu nunca fui, na verdade, muito prestigiado dentro do grupo de Benito Rubaloca. Na noite de estreia de O Defunto Virgem, quando os artistas se deram as mãos e se desejaram uma sincera “merda!” para augurar boa sorte, no máximo um ou outro me mandou à merda, o que não é a mesma coisa e tem um efeito psicologicamente contrário. E assim foi durante o transcorrer da temporada.
Desta forma, eu me sentia só e gostava de ficar só, longe do que eu achava ser a mediocridade geral.
Eu me recordo de certa noite, antes do espetáculo, enquanto o público começava a se acomodar, e eu estava subitamente a sós no camarim, aproveitando para fazer uma revisão da minha vida.
Seguia cheio de dúvidas e de receio: aos quarenta e sete anos ainda não sabia ao certo se desejava realmente ser ator, mas não encontrava uma porta lateral que me apresentasse alguma outra saída. Era como se eu fosse um viciado que a cada dose, a cada peça, a cada ato, se visse mais e mais envolvido com uma coisa que aparentemente lhe dava prazer, mas que talvez no fundo detestasse.
O espelho, enorme e assustador, mostrava meu rosto macilento apesar ou por causa da maquilagem pesada, e as palavras do meu monólogo se misturavam na minha cabeça. Era sem dúvida um verdadeiro milagre que, iniciada a fala inicial, elas se encaixassem perfeitamente e saíssem da minha boca como uma torrente, obedecendo às pausas e às exclamações.
Normalmente eu era aplaudido ao final do monólogo que prefaciava o final do drama, antes que a história retornasse com a participação de Dorotéa & Cia. Eu tinha a impressão – ou pelo menos quero crer – que eles não recebiam o mesmo aplauso caloroso que eu.
-0-
A arte imita a vida, dizem os poetas. Já os sonhadores acham que a vida imita a arte.
Talvez o conceito correto fosse considerar que para certas pessoas vida e arte se confundem num só amálgama, embora para a grande maioria tanto uma como outra inexistam completamente.
Para os néscios, a arte é um bem inalcançável, é um abstrato que jamais será entendido. Para estes idiotas não existe diferença entre ruído ou música, rabiscos aleatórios ou pintura, conversa real ou encenação. Nada os faz ter a percepção de sons harmônicos, nada os faz sentir a emoção das artes plásticas ou entender a diferença entre realidade e engodo. Para eles não existe pausa, para eles não existe ilação. Vivem como se não tivessem alma.
Para estas almas vazias a vida é simplesmente um nascer e vegetar, com a preocupação primária das coisas básicas para a sobrevivência, sem a concepção de momentos mais bem vividos.
No entanto, para aqueles que foram tocados pelo condão de Apolo e que se envolveram na beleza das máscaras do teatro grego e da Commedia dell’Arte, o mundo se abriu desde cedo numa profusão de luzes, sons, cores e gestos. Cada passo dado, cada etapa percorrida ou cada ciclo concluído será sempre marcado por uma explosão de arte.
Estes felizardos respiram arte como se respira o ar, numa associação tão profunda que a inexistência de uma das alternativas implica no desaparecimento da outra.
Esta intensa associação só é possível de ser sentida por quem traz a arte nas veias.
Passei a vida inteira representando para o mundo, meu grande público.
Na escola, fazia-me de interessado para agradar os mestres, mesmo discordando deles e por vezes até os desprezando, muitas vezes achando os seus ensinamentos entediantes e pífios. Em casa, personificava o bom filho para fazer minha mãe feliz, embora nunca tivesse passado de um vil estroina.
Meu pai bem que notava a falta de sinceridade no meu comportamento, mas como ele também tinha algo de podre escondido nas suas ações aparentemente pouco sinceras, ambos preferíamos esconder as nossas ignomínias para manter incólume a harmonia do lar.
Uma espécie de armistício.
Para os vizinhos eu era o rapaz discreto e contido que não se aventurava em encrencas. Os pais me confiavam as filhas quando das festas do bairro, sabedores do caráter errático dos outros jovens e crentes no meu procedimento impoluto. Os idiotas não sabiam que eu era um ator – principiante, sem dúvida, mas mesmo assim um ator – e que eles estavam confiando as suas donzelas a um canalha.
O espelho do camarim me fita.
É estranho que este sentimento de inutilidade se apossasse de mim bem no momento em que eu atravessava a minha melhor fase de intérprete.
Casa cheia três vezes por semana, aplausos benfazejos, e o assédio do público e da imprensa deveriam me alimentar como um afrodisíaco, mas o máximo que fazia era manter as minhas defesas em alerta contra algo que eu nunca soube bem o que é. 
Como um inseto na defensiva.





AS DESPEDIDAS DE PELÉ 
O próximo mês de outubro marcará 40 anos de despedida de Pelé dos campos de futebol. 
Pelé foi um verdadeiro ícone para as gerações passadas, embora não seja entendido ou devidamente apreciado pela geração presente, apesar da farta documentação existente em termos de filmes, livros e reportagens. 
Foram 21 anos de uma carreira exemplar, onde Pelé conquistou todos os títulos possíveis pelas equipes das quais participou. 
Sua estreia como jogador profissional se deu no dia 7 de setembro de 1956, quando ele tinha apenas 16 anos e substituiu o centro-avante Del Vecchio num amistoso em Santo André contra o Corinthians local. O Santos de Zito, Jair Rosa Pinto e Álvaro venceu por 7x1 e Pelé anotou o último gol da goleada depois de aplicar um chapéu no zagueiro e tocar a bola no contra-pé do goleiro, num gol muito parecido com os anotados contra País de Gales e Suécia na Copa de 1958. 
A "Era Pelé" foi marcada pela conquista de títulos regionais, brasileiros, sul-americanos e mundiais. Dos 17 Campeonatos Paulistas disputados de 1956 a 1973, o Santos de Pelé ganhou 12. Depois de Pelé, o Santos ganhou apenas 9 títulos em 39 disputas. 
Pelé se despediu três vezes para plateias e com finalidades diferentes. 
A primeira foi a despedida da Seleção Brasileira. Pelé se preparou com muita dedicação para participar da gloriosa campanha do tricampeonato em 1970 e deixou claro que abdicaria de uma possível convocação para a Copa de 1974. Ato contínuo, resolveu parar em 1971, e sua despedida com a camisa amarela se deu no dia 18 de julho contra a Iugoslávia no Maracanã, onde houve um empate de dois gols. Pelé não marcou - os gols foram de Rivellino e Gérson - e foi substituído no segundo tempo por Claudiomiro. 
Depois da despedida da seleção, Pelé se despediu do Santos. Isto aconteceu no Pacaembu em 2 de outubro de 1974 na partida em que o Santos bateu a Ponte Preta por 2 x 0. Aqui também ele não marcou, cabendo os gols a Claudio Adão e Geraldo (contra). 
Tudo indicava que esta seria a sua saída definitiva dos campos futebolísticos, mas problemas financeiros fizeram com que ele aceitasse um contrato com o New York Cosmos, pois empresários americanos decidiram apostar no crescimento do futebol nos EUA e contrataram alguns craques em fim de carreira para jogar, ensinar e trabalhar como Relações Públicas deste esporte pouco praticado e pouco considerado no país. Com Pelé ou depois dele foram contratados Carlos Alberto Torres, Franz Beckenbauer, Giorgio Chinaglia e outros, na tentativa de alavancar o futebol americano em termos de técnica e interesse. 
Pelé se despediu do Cosmos no dia primeiro de outubro de 1977, quando o New York Cosmos enfrentou o Santos em Nova York e venceu por 2x1. Pelé jogou um tempo com cada camisa e marcou o gol americano contra o clube que o revelou para o mundo. 
Entre 1958 e 2016 Pelé foi agraciado 27 vezes com prêmios que variam de Ballon D'Or (7 vezes), Atleta do Século (3 vezes) e Cavaleiro do Império Britânico em 1997 a Jogador de Futebol do Século (4 vezes), Laureus World Sports Award (indicado por Nelson Mandela) em 2000 e Ordem Olímpica em 2016 (maior condecoração do COI). Pela sua atuação em 1958 na Copa da Suécia, os franceses o proclamaram "Le Roi du Football". 
Enquanto o personagem Pelé é ainda reverenciado em todo o mundo por diversas personalidades, a persona Edson Arantes do Nascimento tem enfrentado muitas situações polêmicas. Suas declarações e atitudes são contestadas por muitos, embora algumas delas tivessem provado ao longo do tempo a sua verdade, como a aparente demagogia em favor das criancinhas em 1974 e a declaração de que "brasileiro não sabe votar" feita depois da reinstalação da democracia no país. O irreverente Romário chegou a dizer que "calado, Pelé é um poeta". 
Outubro é realmente um mês especial para Pelé e para Edson Arantes do Nascimento. Foi em outubro que Pelé marcou duas das suas despedidas e é em outubro (dia 23) que Edson faz aniversário. 
Este ano ambos farão 77 anos. 
  


sexta-feira, 8 de setembro de 2017





O ATOR

(SEGUNDA PARTE - ÁRIA)

Timóteo se transformou em diretor teatral porque nunca conseguiu ser ator nem teve a coragem de ser crítico. Por isso sempre tratou com desdém tanto os atores como os críticos, e somente conseguiu encarnar esta nobre função de diretor, e apenas naquele teatro – vejam bem – por ser o genro do dono, outro estafermo que se dizia empresário teatral, mas não sabia distinguir entre teatro e circo.
Benito, o dono, se autoproclamava “empresário teatral Benito Rubaloca” – dizem que espanhol – e costumava divulgar as suas produções com toda força nas páginas de cultura dos diários e semanários locais.
Rubaloca sentia uma rútila alegria quando via o seu nome estampado nas páginas dos periódicos, e costumava dizer que seu sonho era ser eternizado no Diário de Notícias.
Na época que ora relato ele anunciava com grande estardalhaço – “Produções Rubaloca apresenta O Defunto Virgem, um clássico da dramaturgia”, que era ambientado numa fazenda americana do fim do século 19 e exibido no Teatro Aliança, um prédio reformado que mantinha a aparência e a arquitetura do cinema que fora, sessenta anos atrás.
Como parte do elenco estava sua atriz predileta, Dorotéa Vaughan – nascida Maria dos Anjos Silva – que se considerava uma musa, embora no fundo não passasse de uma canastrona mal-acabada.
Bonita ela não era, embora tivesse um certo porte, pois sua altura tinha o tamanho exato do seu convencimento e, apesar da pouca idade, pois ainda não chegara à casa dos trinta, utilizava uma maquiagem exagerada que a tornava semelhante a uma boneca japonesa de porcelana.
Todos na companhia sabiam que certas coisas proibidas estavam acontecendo entre os dois, meio às escondidas e meio às escancaras, mas sabiamente de eximiam de qualquer comentário. Essas “coisas proibidas” justificavam a preferência do tolo Benito pela frívola prima-dona, que era sempre elencada como atriz principal da companhia, independentemente do gênero levado em cartaz.  
No palco, Dorotéa exagerava nos gestos e na impostação como se um texto de Molière tivesse sido escrito por Sófocles, emitindo agudos vocais tão estridentes e desagradáveis que sua voz soava como um sistema de som com microfonia, apesar de todas as nossas apresentações serem acústicas.
Não sei do timbre da sua voz no silêncio do particular, mas deveria ser do agrado do velho Rubaloca, que por ser o sátiro sem princípios que era não dava muita importância para princípios de fonoaudiologia, preferindo dar atenção a outros atributos mais palpáveis.
Na peça, Dorotéa desempenhava o papel da mulher de um fazendeiro, a quem trai com um vendedor de escovas do condado, num drama fetichista de difícil compreensão para o público, segundo teorizava o autor, um desconhecido à procura de uma plateia, chamado Eraldo Montalvão.
Felizmente meu papel nesta peça – eu representava Pavel, a voz da consciência do vendedor de escovas – se resumia a um monólogo de três minutos, que apesar de exigir um forte vigor histriônico, pelo menos me reservava ao direto de ser histriônico sozinho, sem a má companhia da Dorotéa.
Minha entrada se dava no fim do primeiro ato, quase um entreato, e sua importância na história era ligar o passado e o presente. Eu não era um personagem, mas um pensamento, quase um fantasma, que servia para lembrar aos circunstantes a filosófica existência das causas sobre os efeitos.

Minha atuação se fazia sem a liturgia do drama e sem a emoção dos grandes espetáculos.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Na impossibilidade de conseguir um editor para publicar o meu novo livro de contos, vou continuar publicando as histórias em capítulos no Facebook e no blog www.augustopellegrini.blogspot.com.br. Se algum dia surgir um editor, os contos serão devidamente ordenados.  




O ATOR

(PRIMEIRA PARTE – ABERTURA)

Estou novamente desempregado.
Como o leitmotiv da minha vida sempre foi o palco, não sei se atribuo esta infelicidade à força do destino, como dramatizado por Giuseppe Verdi, ou à força das circunstâncias, coisa que pode acontecer com qualquer mortal envolvido nas farsas do dia-a-dia.
No momento, sou mais um personagem da vida real à procura de uma persona no palco, saudoso do camarim que guarda aquele silêncio que antecede o espetáculo e daquele calafrio que antecede a entrada triunfante em cena.
Tenho parte da culpa neste destino por enquanto inglório, mas na verdade me considero mais uma vítima do enredo, que foi tramado à minha revelia.
A história que ora reproduzo poderá algum dia, se escrita pelas mãos hábeis de um roteirista, se transformar numa épica obra shakespeariana, tal é a natureza das personalidades envolvidas, o drama e a ironia contidos na trama, o ranço operístico e a mensagem bufa.
Essa história começa com o lirismo de uma poesia e termina com a tragédia dos grandes épicos.

-0-

Assim foi desde o princípio, e parece que assim será per omnia saecula, saeculorum, amém: os momentos que antecedem a entrada ao palco são de extrema tensão, de intensa agonia, de uma expectativa doentia, de uma sensação febril.
Agora sei como se sentiam os prisioneiros de Auschwitz-Birkenau quando chegava a hora de adentrar a câmara de gás, uma alternativa indolor – ainda que não inodora – de cumprir com a derradeira tarefa mundana antes de alcançar a vida eterna.
E olhem que muitos deles não tinham consciência do que estavam fazendo, ao contrário de mim. Eu sei a hora de entrar e a hora de sair de cena – eles não sabiam a hora de entrar e só saíam de lá mortos e com os pulmões intoxicados de cianureto, mas pelo menos não tinham que enfrentar o julgamento dos carrascos da plateia.
Como Edwin Booth, eu sinto o coração oprimido quando enfrento o olhar inquisitivo do público que se refestela nas cadeiras a cinco metros de mim, e não duvido que o mesmo tenha ocorrido com Sir Lawrence Olivier com toda a sua arrogância, ou com Sarah Bernhardt com toda a sua aura cativante. Ou com Gassman, algum dia.

Mas Booth, Olivier & Cia. não tinham os problemas que eu tinha – eles eram os astros principais, não um mero coadjuvante, como eu – nem tinham que aturar Timóteo, não o da Bíblia, mas aquele intragável diretor que só tinha palavras idiotas na ponta da língua.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017



CORES


Depois de passados muitos anos
Quando uma mulher fizer a revisão da sua vida
Ela pode dizer com certeza
Que foi amada em diferentes matizes
Cabendo a ela identificar quem foram os pintores

Ela foi amada em azul-claro e em cor-de-rosa
Em ouro, prata, lilás
Mas também em um rubro vivo
Que ficou mais rubro e mais vivo com o passar do tempo
Cabendo também a ela identificar quem foi esse pintor

Mesmo que com os anos apareçam amores alaranjados
Avermelhados ou até brancos como a pureza do lírio
Nada jamais suplantará o rubro
Que pode não ter marcado de rubro a sua vida
Mas com certeza marcou a vida do pintor

segunda-feira, 4 de setembro de 2017




SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 20/05/2016

CHARLIE PARKER - THE BEST OF THE BIRD

Charlie Parker, conhecido como Yardbird ou simplesmente Bird, foi um dos principais músicos de jazz de todos os tempos, criador de uma linguagem inovativa que colocou o sax-alto em lugar de destaque. Até a sua chegada em cena o sax-tenor reinava absoluto nos solos de Coleman Hawkins, Lester Young e Bud Freeman e o sax-alto não tinha a mesma expressividade. A chegada de Parker no ambiente musical, com suas composições e solos rebuscados, fez revolucionar a presença do instrumento e ajudou a instituir a criação do bebop. O melhor de Charlie Parker pode ser confundido com o melhor do jazz instumental.  
 

Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini

sábado, 2 de setembro de 2017




OS SAPATOS DO SENADOR
(QUARTA PARTE – FINAL)

O senador foi comemorar a sua posse no Automóvel Clube profundamente contrariado com o mistério dos sapatos desaparecidos, mas como a noite era de festa, ele logo desanuviou. As conversas com os aliados e a expectativa de conseguir adesões entre os opositores cuidadosamente escolhidos para o evento funcionavam como um perfeito afrodisíaco, e o mistério do desaparecimento dos sapatos passou para um segundo plano.
A filha mimada – e um pouco desmiolada, ponderava ele, com desprazer – havia trazido um namorado novo para a festa, mas ele prestou pouca ou nenhuma atenção no rapaz porque isto não acrescentava nada no seu projeto político. Além do mais ele sabia que o rapaz seria mais um a ser descartado tão logo a paixão de Danielle pelo brinquedo arrefecesse e surgisse um brinquedo novo.
Num determinado momento do coquetel, Dani foi ao jardim trocar ideias com algumas amigas, assim poderia ouvir as primeiras impressões que a ala feminina estava tendo do seu príncipe encantado.
Ancelmo ficou sozinho e à vontade para conhecer melhor o ambiente e paquerar de leve algumas garotas e também algumas madames que ele achou “interessantes”, sozinhas e descartadas num canto do salão, enquanto seus maridos mais faziam confabulações do que propriamente se divertiam – essa era a tônica deste tipo de confraternização.
Sem a companhia de Dani, Ancelmo flanava pelo amplo espaço da festa, entre damas e cavalheiros da mais fina estampa e garçons carregando bandejas com taças de champanhe e copos de uísque e outras com delicados “petits-fours”, sentindo-se totalmente descompromissado e antevendo uma noite de intensa diversão.
Ele andava de um lado para outro procurando por alguém que estivesse registrando ou reportando a festa, buscando sempre oferecer o seu melhor ângulo para provocar – quem sabe? – o interesse de algum diretor de arte pelo seu perfil a fim de dar o tiro de partida numa promissora carreira de modelo e ator.
Só que o tiro saiu pela culatra, pois no meio do caminho tinha, não uma pedra, como diria Drummond, mas uma Rocha, de carne e osso, calçando um par de sapatos usados.
Anacleto Guedes Beirão da Rocha perdeu a respiração e arregalou os olhos quando olhou para os pés do rapaz – aquele namoradinho da sua filha – e se deparou com o belo par de calçados Ferragamo legítimo, fabricado artesanalmente em cromo alemão, preto e luzidio como uma pedra preciosa, ainda virgem.
O senador encerrou polidamente a conversa que mantinha com o vice-cônsul da República da Guiné Bissau, deu alguns passos vagarosos mas resolutos em direção ao rapaz como quem não quer espantar a presa e, enquanto sinalizava para um segurança que se plantava feito um poste próximo à parede, dirigiu-se a Ancelmo em voz baixa, para não quebrar o protocolo:
“Seu playboyzinho de merda” – e então, quase sussurrando – “então, você está calçando meus sapatos, heim?”
E continuou, enquanto Ancelmo olhava para a iracunda figura com a expressão lívida e os olhos arregalados – “Só não mando lhe prender agora mesmo porque não quero provocar confusão na festa e sei que isto é coisa da maluca da Danielle, que vive fazendo graça com os seus namorados usando o meu dinheiro”
E então, aumentando gradativamente o tom da voz – “Só que desta vez usando o meu dinheiro e os meus sapatos!”
O segurança que fora chamado já estava diligentemente ao seu lado, aguardando as ordens. E as ordens vieram de pronto:
“Coloque este cidadão no olho da rua. Mas antes, faça-o descalçar os sapatos e os entregue para o meu motorista!”
Com firmeza, mas muito discretamente, para não causar má impressão – enquanto os convivas bebericavam o champanhe e o uísque das bandejas itinerantes e se deliciavam com canapés diversos ao som de um grupo de cordas que tocava uma peça de Albinoni – Ancelmo, o Bacana, foi colocado na rua como se fosse um saco de lixo. Sem direito a dizer uma só palavra.
Em vão ele procurou divisar a figura salvadora de Danielle entre as pessoas por quem passava, mas finalmente, entendendo o motivo da sua expulsão daquele ambiente ao qual ele definitivamente não pertencia, compreendeu que nem ela, com toda a sua força de persuasão iria mudar o humor e a decisão do velho nem fazer com que o segurança descumprisse uma ordem de tal magnitude.
As aventuras de Ancelmo, o Bacana, sofriam um momento de máxima desventura nesta noite de inesquecível anti-climax, e ele percebeu com clareza, pela segunda vez em poucas horas com os pés pisando o chão nu e frio, que para bacanas como ele existem na vida limites a serem obedecidos.
Dani somente veio entender o desaparecimento do namorado no dia seguinte, após ouvir uma sonora descompostura do pai.



      
 


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

                                                                               




                                                   OS SAPATOS DO SENADOR

                                                         (TERCEIRA PARTE)
                                                                            
O tempo passou depressa e enfim chegou a noite do grande dia.
Expectativas em alta, tudo estava correndo às mil maravilhas, mas na hora em que Bacana, mais bacana do que nunca, estava se vestindo para o evento, um problema inesperado apareceu.
Ele percebeu, horrorizado, enquanto o stylist se encontrava ocupado providenciando os retoques da hora, que Dani havia se esquecido de comprar os sapatos apropriados para combinar com a indumentária.
O traje de gala estava lá no cabide, observando a cena ao lado da camisa branca de brocados e da gravata borboleta pronta para receber o nó do estilista, e até o finíssimo par de meias de seda já repousava sobre a cama pronto para ser calçado, mas o par de sapatos que ele tinha de mais chique eram os tais mocassins, que absolutamente não combinavam com o protocolo.
Ligou para Danielle diante do olhar inexpressivo do stylist e colocou-a a par do infortúnio.
“Tenha calma” – disse ela – “isso não é nada que não possa ser resolvido”. Aconselhou-o então a ficar totalmente preparado, apenas sem os sapatos, e falou que iria apanhá-lo de carro dali a quarenta minutos na porta do prédio, pois teria problemas para estacionar.
Ancelmo seguiu o seu conselho e continuou com o seu bem vestir. Meia hora depois olhou-se no espelho, aprovou o seu visual e decidiu que era hora de dispensar o stylist, que parecia pouco à vontade com visão apocalítica da falta do par de sapatos, como se o rapaz fosse uma obra faltando acabamento.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Danielle foi ao quarto de vestir do pai, felizmente vazio naquela hora, invadiu o armário que enfileirava incontáveis pares de sapatos de todos os modelos e cores e escolheu aquele belo produto cortado e costurado à mão no atelier de Salvatore Ferragamo por seus mestres artesãos, fabricado em legítimo cromo alemão, preto e luzidio como uma pedra preciosa.
Carregou com os sapatos, desceu até a garagem, entrou no carro, engatou a primeira marcha e foi ao encontro do seu amado.
Ancelmo aguardava na porta do prédio, cheio de preocupação em ser visto naquela situação por algum morador que chegasse – ou que saísse – parecendo um príncipe encantado de meias pretas pisando o chão frio da noite de outono. Uma espécie de Cinderela sem sapatos.
Os minutos custavam a passar e Ancelmo começou a se sentir incomodado. Tinha a impressão de que todos olhavam para ele de dentro dos carros que passavam, com a mesma curiosidade de quem olha um macaco enjaulado.
Finalmente Dani apareceu ao volante do seu Porsche prateado, com o refinado par de sapatos repousando sobre o banco.
Ancelmo entrou no carro e ato contínuo calçou a preciosidade com muito cuidado. Folgava um pouco nos pés, mas era melhor do que se estivesse apertado.
E aí foram eles, em direção ao Automóvel Clube, onde grandes emoções os aguardavam.
                                                                         -0-
O senador estava ao mesmo tempo confuso e irritado.
“Onde diabos está o par de sapatos de cromo alemão que eu encomendei especialmente para esta festa? Tenho certeza de que os coloquei aqui!” – resmungava ele, olhando para o armário cujas prateleiras desfilavam dezenas de calçados sociais e esportivos.
“Erivélton!!” – o senador chamou o mordomo. “Você sabe onde estão os meus sapatos novos? Aquele sapato preto que eu mandei vir da Itália na semana passada?”.
Erivélton respondeu que não havia aberto o armário de sapatos hoje, mas que se lembrava perfeitamente do par de sapatos pretos brilhando na primeira prateleira. Mas não fazia e menor ideia de porque os sapatos não estavam lá.  
Sem tempo para continuar procurando e sem outra alternativa viável, o doutor Anacleto resolveu lançar mão de um outro par de sapatos, igualmente preto e igualmente importado, que havia sido usado apenas uma vez, na posse do ministro do Supremo Tribunal.

terça-feira, 29 de agosto de 2017






SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 27/02/2015
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106,9 Mhz
São Luís-MA

 MARK GROSS

Mark Gross é um jazzista norte-americano da escola do hard-bop especializado no sax-alto, que há vinte e cinco anos frequenta as altas rodas do jazz. Formado na Berklee School aos 22 anos, desde então ele participa de parcerias sonoras ao lado de músicos de diversos estilos, desde os mais conhecidos como Lionel Hampton, Dizzy Gillespie, Charles Mingus, Nat Adderley, Dave Holland e os irmãos Wynton e Delfeayo Marsalis, até os mais contemporâneos, tendo feito diversas turnês com eles. Esté o quarto álbum solo de Mark Gross, chamado Blackside, no qual ele evoca tanto o mais puro hard-bop como faz incursões nas baladas e na música brasileira e italiana deixando patente o som às vezes áspero e às vezes doce do seu saxofone. 
     
Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini


segunda-feira, 28 de agosto de 2017





OS SAPATOS DO SENADOR

(SEGUNDA PARTE)

Uma das últimas conquistas do Bacana se chamava Danielle Cristina Guedes Beirão da Rocha – Dani, para os amigos – filha de um senador da República.
Quando Ancelmo a conheceu, logo percebeu que ali o buraco era mais embaixo.
Sua classe social estava num outro patamar e ele não teve jeito de ficar enganando: confessou a ela todos os seus pecados, embora, levando em conta o aspecto maternal característico das mulheres, tenha exagerado num desamparo que na verdade não existia.
Ela se apaixonou pela sua natureza bucólica, sofrida e quase órfã. Ele era um menino grande que necessitava de carinho e proteção, e trazia no peito a marca do poeta incompreendido e sofredor, como um Castro Alves moderno.
Dani o tomou sob sua proteção e a passou a desfilar nos pontos chiques da cidade com Ancelmo a tiracolo, como se levasse consigo um cachorrinho de estimação ou um objeto de luxo.
Para ir à festa de aniversário da Dorinha, deu a ele de presente uma camisa de grife, para a reunião da turma da faculdade um par de mocassins importados. Para a Feijoada Chic, uma t-shirt invocada, e no dia dos namorados, um relógio suíço.
Tudo sem nada receber em troca, a não ser amor.
Todavia, mesmo com toda essa atenção, ou provavelmente até por causa dela, Ancelmo já começava a se sentir entediado, para não dizer preocupado, pois o caso com a senhorinha estava começando a ficar sério e a cada dia ele ia perdendo um pouco mais da sua individualidade.
Diferentemente das outras garotas que haviam passado pela sua vida, Danielle tinha realmente tomado conta da situação e tudo indicava que o namoro seria duradouro e possivelmente desfeito somente se e quando ela assim o decidisse.
Uma das coisas das quais ele mais se ressentia era a crescente falta da liberdade, pois suas farras haviam rareado e os amigos começavam a desaparecer agora que o seu tempo livre era totalmente tomado pela mocinha que dele não se apartava.
Na verdade até que isto não era de todo ruim, pois além de muito bonita e carinhosa, Danielle era cheia de graça e de charme, tratava o namorado como um príncipe e fazia com que ele frequentasse o seu círculo de amizades, gente fina e influente, que poderia até – quem sabe? – ajudar no seu projeto de se tornar modelo algum dia.
Talvez, quem sabe?
                                                                               -0-
O doutor Anacleto Guedes Beirão da Rocha, pai de Danielle, candidato da situação, foi reeleito senador como esperava e, para marcar o início de mais um mandato de tranquilidade, ofereceu um jantar comemorativo no Automóvel Clube.
Entre os convidados, o próprio Presidente da República, ministros do seu partido, os atuais aliados entre os seus pares senadores, alguns dos mais importantes empresários do país, e toda uma gama de gente ilustre. No convite, ao lado do necessário RSVP, e das inevitáveis V.Excias., o timbre da cerimônia com a nobre constatação: traje de gala obrigatório.
Dani não teve dúvidas: iria levar seu namorado para a festa oficial e apresentá-lo aos convidados e também ao pai, já habituado com os seus caprichos. Afinal, não era toda garota, filha de senador ou não, que se dava ao luxo de andar com um gato que parecia artista de televisão.
Ela iria fazer inveja a todas mulheres, casadas ou solteiras, bonitas ou feias, elegantes ou não muito, algumas se aproximando da inevitável terceira idade, outras já no auge da quarta idade, plastificadas e pasteurizadas, e algumas poucas ainda no frescor da juventude, como ela.
Para Ancelmo – ela detestava chamá-lo de “Bacana” e fazia questão de apresentá-lo aos amigos como “Ancelmo, com ” – seria a primeira grande oportunidade de aparecer nos holofotes. Cronistas sociais e apresentadores de programas de televisão estariam cobrindo a festa e não iriam deixar passar em branco o escort da filha do senador.
Tendo isto em mente, Dani carregou Ancelmo para uma dessas lojas que aluga trajes para recepções e ficou claro que não haveria problemas em transformá-lo no cliente mais elegante que já passara pelo local.
Para completar, no dia do evento, ela também iria colocar a dispor do namorado um personal stylist, que ajudaria a cuidar ainda mais da sua já cuidada aparência.


domingo, 27 de agosto de 2017





OS SAPATOS DO SENADOR

(PRIMEIRA PARTE)


A sorte e o azar fazem parte da rotina do cotidiano, pensava Ancelmo (com , como gostava de deixar bem claro). Esta visão filosófica e fatalista lhe servia de alento e de conforto para que ele pudesse suportar os constantes prós e contras da vida.
“A vida é como a maré”, ele conjeturava, “assim, as coisas mudam ou acontecem independentemente da nossa vontade”.
Por causa disso, Ancelmo vivia de uma forma epicurista, para não dizer irresponsável. Conhecido na roda dos amigos como “Bacana”, ele se esforçava no desempenho do seu papel para fazer jus ao epíteto e não desapontar o eleitorado.
Tinha um emprego, sim, mas trabalhava apenas o suficiente para ter algum dinheiro que desse para o gasto e gastava sem se importar com a forma com que gastava nem de que maneira iria repor o numerário.
Ele era o tipo de pessoa que valorizava os fatos, mas não ligava para as consequências, ou seja, não tinha história de passado, dava grande importância ao presente e desprezava o futuro.
Não que Ancelmo fosse destituído de expectativas. Expectativas havia, e todas muito otimistas, mas nada que necessitasse de alguma atenção especial.
Para ele, as coisas se resolveriam ao seu modo, peça por peça se encaixando até formar um quadro favorável e positivo. Ancelmo acreditava que o resultado final da montagem dessas peças sempre lhe seria benéfico.
A sua gastança não era programada e incluía bebida, mulheres, noitadas, e amigos desprevenidos a quem vez por outra patrocinava algumas doses.
Ele também gostava de roupas da moda – embora não necessariamente de grife – e como regra existencial não fazia nenhuma reserva pecuniária porque considerava que, na ciranda da vida, tudo acaba dando certo por si.
Ancelmo tinha uma grande preocupação com a aparência, tanto por uma vaidade que vinha do berço, como também pela idade que já lhe proporcionava alguns retoques de branco na cabeleira preta e bem cuidada, fruto – diziam - da vida mais ou menos desregrada e nada esportiva que cultivava.
Caminhadas, só o estritamente necessário, e a maioria dos exercícios ficava por conta do balanço nas baladas.
Então, para dar alguma contribuição à saúde e para compensar o apelido, Bacana frequentava academia duas vezes por semana, onde “pegava leve”, sem exageros, só pra ficar em forma, manter a barriga enxuta e continuar parecendo alguns anos mais jovem. Esta talvez tenha sido a sua única atitude consistente e duradoura na vida até então.
Para fazer face às despesas, Bacana tinha um emprego de ajudante de tabelião num cartório da cidade, conseguido graças a um relacionamento antigo da família, que morava no distante interior gaúcho, a quase quinhentos quilômetros de Porto Alegre e a quase dois mil do Planalto Central, onde ele residia sozinho numa kitchenette.
Como o salário não era lá essas coisas, apesar dos bem vividos trinta e quatro anos, ele ainda dependia de alguma grana que a mãe, diligente e caridosa, lhe mandava todo mês, sem o aval e o conhecimento do pai, austero fazendeiro e pecuarista de amplos recursos que continuava apostando no futuro do filho, acreditando que ele estava se preparando adequadamente para ser alguém na vida.
De certo modo, Ancelmo também acreditava nisso, pois sonhava em ser algum dia um famoso modelo fotográfico e ter sua cara estampada em comerciais de revista ou – melhor ainda – ter o seu talento exibido em anúncios de televisão, embora certamente talvez não fosse isso que o seu pai esperava.
Apesar de seu comportamento não muito ortodoxo, Ancelmo era um homem de alma pura, e a sua fada madrinha tivera o cuidado em mantê-lo afastado de tentações maiores, como o jogo e as drogas – considerados os piores vilões – e de outras ilegalidades mais corriqueiras, livrando a sua cara até do prosaico vício do cigarro e daquela fezinha enganadora das loterias oficiais.
Então, pelo sim, pelo não, Ancelmo, o Bacana, era o que se podia chamar de “um bom garoto”.
Ele tinha carisma, era alto, simpático, considerado bonito e charmoso pelas mulheres e um sujeito “legal” pelos homens, e em virtude de frequentar os botecos da moda, andava sempre envolvido com alguma garota de boa família, embora em pouco tempo o destino geralmente se encarregasse de mandar cada qual para o seu lado.

(SEGUE)