segunda-feira, 20 de novembro de 2017




A FÓRMULA UM NO BRASIL

Com a aposentadoria de Felipe Massa, o Brasil perde o seu único representante na Fórmula Um. Com ele vai-se uma boa parte do torcedor que ficava em frente da televisão ligado na Globo nas manhãs ou madrugadas brasileiras. O torcedor brasileiro se sente mais atraído pelo compatriota que está do outro lado da tela do que pelo esporte ou pela competição em si.
Falando um pouco de história, as temporadas desta categoria começaram em 1950, e desde este ano até 1969 a participação dos brasileiros foi bastante irregular, para não dizer pífia.  Durante estes dezenove anos apenas três pilotos fizeram parte do circo – Chico Landi (1951, 1953 e 1956), Hermano da Silva Ramos (1955 e 1956) e Fritz D’Orey (1959), sem alcançar grandes resultados.
Emerson Fittipaldi estreou em 1970, e a partir de então sempre tivemos um ou mais brasileiros nas pistas, com especial ênfase para o próprio Fittipaldi (campeão em 1972 e 1973), Nelson Piquet (campeão em 1981, 1985 e 1987) e Ayrton Senna (campeão em 1988, 1990 e 1991).
Ao todo, foram 21 pilotos brasileiros em 67 anos de provas, mas apenas 5 ultrapassaram a barreira de dez anos pilotando na categoria. Rubens Barrichello foi o recordista, com 19 temporadas, seguido por Nelson Piquet (com 14), Felipe Massa (12) e Emerson Fittipaldi e Ayrton Senna (ambos com 11).
Para se ter uma ideia comparativa sobre a participação brasileira na categoria, vale dizer que desde 1950 até 2017 a Fórmula Um teve um total de 826 pilotos de 39 diferentes nacionalidades representando 198 diferentes escuderias. Atualmente temos 10 equipes na competição.
O Brasil é praticamente inexistente em termos de tecnologia na Fórmula Um porque mesmo com a trajetória brilhante de alguns pilotos, só teve uma equipe legitimamente tupiniquim competindo com as poderosas rivais internacionais, a Coopersucar-Fittipaldi, criada em 1975, que chegou às pistas em 104 ocasiões.
O brasileiro em regra geral não tem muita afinidade com os esportes a motor, e somente com a epopeia de Piquet – e mais tarde de Senna – é que as transmissões pela televisão passaram a ter audiência.
A primeira transmissão ao vivo da Fórmula Um para o Brasil foi feita pela Rede Record na estreia de Emerson Fittipaldi no Grande Prêmio da Grã Bretanha em Brands Hatch, em 1970. A partir daí tivemos algumas transmissões esparsas feitas pela Band e pela Tupi em parceria com a Rede Globo. A Globo assumiu dar sequência nas transmissões a partir de 1981, e foi só então que a Fórmula Um se popularizou no Brasil, atingindo o seu auge na era Ayrton Senna, onde uma curiosa plateia que possivelmente pouco ou nada entendia das filigranas do automobilismo e com certeza detestava o ronco exagerado dos motores se postava em frente aos aparelhos de TV e comemorava cada ultrapassagem como se fosse um gol do seu time, exultando quando Galvão Bueno gritava a plenos pulmões – “Ayrton Senna do Brasil !!! – para celebrar a bandeirada final.
Os verdadeiros amantes do automobilismo com certeza não vão se abalar com o jejum de pilotos brasileiros nos próximos anos, porque gostam das corridas como provas de superação e de talento, quaisquer que sejam os pilotos, e acabam elegendo um deles para torcer durante a temporada.
Resta saber, porém, até que ponto a provável queda de audiência vai influir no ânimo dos patrocinadores e afetar as transmissões. Enquanto isso, cabe às autoridades deste esporte preparar com cuidado as competições nacionais que possam produzir naturalmente um novo candidato a fazer bonito nas pistas do mundo afora.            

 (Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 18/11/2017)





sábado, 18 de novembro de 2017





A VIDA TE ESPERA

Olha, que a vida te espera
Corra, que o tempo já vai
Veja que o mundo já era
Faça, que nada desfaz

Troque a dor por um sorriso
Fazendo desta vida um eterno carnaval
Cada momento um aviso
Que um dia esta festa pode acabar

Peça pra Deus um amigo
Desses que nada destrói
Tente manter este abrigo
Expulse a tristeza que dói

Canta o teu canto primeiro
Ouça o que diz tua voz
Lembra do amor verdadeiro
Esqueça essa dor de ser só

Olha, que a vida te espera
Corra, que o tempo já vai
Veja que o mundo já era
Agora chegou tua vez de cantar

Letra para o samba feito em parceria com Nelson “Zurumba” Gengo

(1979)


sexta-feira, 17 de novembro de 2017





SONHEI COM FLORES

Sonhei com flores
É sinal de alegria ou de tristeza?
Sonhei com flores
Era um paraíso, que beleza
Sonhei com flores
Enfeitando o meu jardim
Vi a criança trazendo flores para mim
Uma rosa nascendo
Num crescendo sem fim
Um arco-íris de lilases
Cravos e jasmins

Meu Deus
Não sei por que acordei
E as pétalas de cores
Pelo chão eu derramei
Ao ver mimosa flor perdida em pranto
Pela vida em desencanto
À realidade eu voltei
Ao ver mimosa flor perdida em pranto
Pela vida em desencanto

À realidade eu voltei

(1959)

quinta-feira, 16 de novembro de 2017






Conto premiado em primeiro lugar no XXI Concurso Literário Cidade de São Luís em 1995.

SOLILÓQUIO

(Parte Quatro e Final)

Tão zelosa tempos atrás, minha mãe já não se importa que gatos mexam e remexam nos nossos seus guardados, nos nossos guardados, nem os ratos, nem os abutres que reviram as gavetas como a um animal putrefato, nosso santuário, minha intimidade.
Mas afinal, o que pretendem os meus detratores? Violentar a minha imagem, já não tão nítida como era ontem, e antes de ontem, excrementar no meu túmulo, apagar os traços da minha memória, apoquentar o juízo dilacerado da minha mãe, meu pai, meu gato, ou simplesmente bisbilhotar sob o pretexto de que da ordem se faz o progresso, se não muito ético, pelo menos patriótico?
Poucos hão de se lembrar dos fios de cabelos brancos que brotavam do alto da minha orelha, fios desafiadores embora desafinados com o negror das sobrancelhas, poucos irão se lembrar da falha do meu dente incisivo e do pequeno sinal entre os olhos, mas todos irão se lembrar, relembrar e comentar as minhas falhas e os meus defeitos, as minhas faltas e os meus preconceitos, os meus insucessos.
Tento comentar estas vilanias com meus novos vizinhos, mas parece que eles pouco se incomodam, vai ver que com o passar do tempo eu também ficarei assim indiferente, assim diferente. Olho para o horizonte e o máximo que consigo ver é o vazio tisnado de negro, agora que a noite se abate novamente sobre a minha cidade silenciosa, e o máximo que consigo depreender dos meus companheiros é um total descaso pelas coisas vãs do mundo dos lobos, do mundo dos gatos.
Sinto-me leve como nunca me senti e respiro o ar da tranquilidade, muito embora repouse a carcaça nauseabunda num buraco sem conforto, minha atual propriedade, assim como foram minha propriedade todas as cadeiras nas quais eu sentei, isto enquanto sentado, todos os livros que eu li, mesmo sendo emprestados, e todos os cinemas e teatros que eu frequentei, pois enquanto eu lá estava aquilo era realmente meu, assim como sempre foi realmente meu este mundo sem o qual ou com o qual eu não faço absolutamente nada, por uma questão de coerência.
Recordo novamente a minha última solenidade, igual a tantas que já aconteceram e a tantas que deverei por força assistir por conta de habitar no natural cenário, e entendo que de nada vale participar do crime para amealhar fortunas, nem espionar a vida alheia e comentar seus desvios e desvarios, se a verdade absoluta se resume e uma chama que se apaga e a uma luz que se acende, dessas que ninguém vê mas que norteia os nossos passos feito um farol.
Penso ver um anjo, mas é só um pombo, penso ver um gato, mas é uma ratazana de cemitério.
O primeiro intruso se aproxima na manhã enevoada, cruza o portão em direção ao lado de dentro e eu então me recolho para dentro do conhecido.
Requiescant in pace.

  



quarta-feira, 15 de novembro de 2017






Conto premiado em primeiro lugar no XXI Concurso Literário Cidade de São Luís em 1995.

SOLILÓQUIO

(Parte Três)

Quanto tempo passará até que eles parem de chorar no meu túmulo e de rir na minha cara, quanto tempo passará para que eles me esqueçam por completo, quantos meses, quantos anos, quantos séculos?
Quanto tempo passará para que eles deixem de se preocupar com onde estarei agora, se na cova úmida do humo e da chuva ou se em todo lugar, participando sem assombrar?
Aquele baixinho de óculos eu pelo menos não conhecia e ele sequer pensava sobre o meu passado, o meu presente e principalmente o meu futuro, entretido que estava com os olhos vidrados no céu azul da mocinha debruçada, mas este outro baixote vesgo e atarracado de ultrapassadas suíças brancas que bem poderia ser meu irmão, ou meu tio, se diverte impunemente sentado na minha poltrona predileta bebendo do meu vinho e prestando atenção, ou fingindo, às perorações peripatéticas dos parentes bem ou mal intencionados que procuram consolar a minha mãe inconsolável, mãe que é pau pra toda obra, mãe que é pai pra toda hora.
O pai da filha que ninguém acredita que é filha, pois mais parece uma incestuosa concubina, deu até algum dinheiro  para o mendigo que vive escorchando o próximo no templo dos mortos, e o parasita ao invés de agradecer cerrou o punho em sinal de ódio tão logo o pai da filha lhe voltou as costas, qual um Brutus embrutecido, isso eu vi nitidamente, e não foi com os olhos que a terra se encarregará de comer, mas com os olhos clínicos de um fantasma recém-nascido.
A abertura do testamento, então foi uma festa.
O advogado contratado para ler o seu conteúdo e cuidar do inventário, como se eu fosse um almoxarifado de peças, procurava se acomodar para diminuir o incômodo causado pelo bico de papagaio a lhe cutucar o fim da coluna cervical e buscava encontrar algum pequeno tesouro para poder rechear o seu recibo de honorários, insensível à mudez sombria da viúva, às alegres suíças do amigo baixinho que segue entornando goles do meu vinho barato e lança olhares de Casanova em direção à minha mulher, agora ex-mulher, à expressão de perda da minha mãe e à sepulcral face semimorta de tia Idalina, que todos pensavam fosse antes que eu.
Todos atentos, mal sabem que a casa cheia de rachaduras e com a tinta descascada já está hipotecada, que o velho carro de pneus lisos como a sola dos meus antigos chinelos que agora têm um antigo dono já foi vendido para o dono do armarinho, e que o único terreno que na verdade possuo – repito com ênfase – QUE NA VERDADE POSSUO – está cercando meu corpo inerte e mal cheiroso, nem todas as alfazemas do  mundo, nem todas as lavandas hão de disfarçar o indisfarçável cheiro da morte que subitamente me domina, e me encanta e me espanta.
Assim foi com o finado primo Umberto, assim foi com o tio José e com o cunhado Antero, todos que seguiram na grande jornada antes de eu ser chamado para dar explicações – e eu, que andava tão preocupado com meus pecadilhos de sexta-feira vejo de repente que não existe nenhum inferno especial para os sátiros de plantão.
Fosse eu um proxeneta, um traficante, um fiscal ou um biltre assassino, então talvez não enxergasse o meu mundo interior, o meu mundo anterior com esta placidez de quem já está encomendado para o céu, de armas e bagagens.
Mas eu sorri de fato o meu sorriso de névoa ao ver a cara de desânimo dos parentes de rapina durante a divisão do meu espólio e o desalento do homem das suíças que de repente parou de velar a viúva – o relógio que atrasa dez minutos por dia para um herdeiro, as velhas fotografias da família para outro, a caneta-tinteiro com meu nome gravado para aquel’outro, as roupas que servem para o primo Ovídio menos aquela camisa cor de abacate que já está puída e respingada em branco de água sanitária e que vai virar trapo de chão ou cama de gato.
O gato, aliás, procura no fundo do armário aquilo que nunca escondeu, dir-se-ia que procura a minha alma sem saber que a minha alma está aqui, a poucos passos de distância do seu delicado nariz, e não me encontra porque é de dia, se fosse à noite, à noite todos os gatos são médiuns, todos os gatos são linces, todos os gatos são.


segunda-feira, 13 de novembro de 2017




A FAIXA DE CAMPEÃO

Pouco ou nada se sabe da origem das faixas que os jogadores de futebol recebem quando conquistam títulos na maioria das competições das quais participam. Sabe-se, no entanto, que a entrega de faixas aos jogadores campeões é uma prática comum desde que o futebol começou a ser jogado na Inglaterra no final do século 19.
Sabe-se também que este tipo de premiação é utilizado em todo o mundo, principalmente nos campeonatos nacionais ou regionais regulares, quando o calendário e o protocolo permitem a sua entrega em campo, pois normalmente a faixa não costuma ser entregue logo após o encerramento da partida que sagra o time campeão, por motivos óbvios.
Isto é bem diferente da distribuição de medalhas nos Jogos Olímpicos, Pan-Americanos, Asiáticos e quetais, porque tal prática já faz parte do ritual de premiação.
Com o atual calendário, nem sempre a definição do título acontece antes da partida final, o que impossibilita a realização da tradicional “partida de entrega de faixas” onde o rival que foi derrotado na competição muito a contragosto entrega aos vencedores as faixas de campeão com o indisfarçável desejo de “carimbar as faixas”, isto é, derrotar o campeão na sua última partida do certame.
Como estamos chegando ao fim do ano, muitos fabricantes de faixas já se assanham para prever para quem serão vendidas as milhares – em alguns casos milhões – de faixas de campeão nos diversos torneios que vão chegando ao seu final. Afinal, as faixas, que teoricamente não deveriam passar de menos de trinta para decorar a galeria doméstica dos jogadores e membros da comissão técnica, são uma exigência dos torcedores que também querem ter este troféu na sua galeria de glórias particular. 
A esta altura dos acontecimentos, poucos são clubes os postulantes a essa encomenda.
No Campeonato Brasileiro, as fábricas de confecções já estão fabricando a pleno vapor as faixas do Corinthians, que comemorará o seu sétimo título brasileiro – 1990, 1998, 1999, 2005, 2011, 2915 e 2017 – restando saber quando o título será efetivamente ganho (se contra o Fluminense, o Flamengo, a Atlético Mineiro ou o Sport). As faixas poderão ser entregues na partida seguinte.    
Já na Série B a situação é diferente. Faltando cinco jogos, o América Mineiro livra dois pontos à frente do Internacional, mas parece que tanto um como outro podem sonhar com o título. Ceará e Paraná correm por fora, mas suas pretensões maiores é ficar entre os quatro primeiros para ascender à Séria A. Não haverá mais nenhum confronto direto entre esses times.
No âmbito continental existem brasileiros na parada, na luta pela tão sonhada faixa de campeão.
O Grêmio chegou à final da Libertadores e vai decidir o título em duas partidas contra o imprevisível Lanús, da Argentina, sendo a final disputada em Buenos Aires. Com 50% de chance de ver os gaúchos campeões, os fabricantes de faixas devem estar em plena ação, pois muitos torcedores já deverão utilizar ao adorno até por ocasião da primeira partida em Porto Alegre, onde uma vitória folgada levaria o time a jogar por um empate no campo adversário.
O mesmo ocorre na Copa Sul-Americana, para cuja semifinal o Flamengo se classificou na bacia das almas, com muita luta e entrega dos jogadores, mas ainda vai ter que aguardar outros resultados saber quais serão os seus adversários.         
Por enquanto a única faixa importante no Brasil que ainda não tem candidatos favoritos à vitória, embora não faltem candidatos a candidatos, é a faixa presidencial. Neste momento histórico, esta faixa anda com a cotação meio em baixa.
  








domingo, 12 de novembro de 2017






Conto premiado em primeiro lugar no XXI Concurso Literário Cidade de São Luís em 1995.

SOLILÓQUIO

(Parte Dois)


De nada me serve agora o dinheiro que eu devia, o que eu não devia e o que me deviam, o que eu não pude gastar, perdi ou deixei de ganhar. Estivesse eu em Cafarnaum ou no Vale de Caxemira seria a mesma coisa, assim como em Londres ou Honolulu, e este som abafado do ataúde que toca con forza o fundo da cova tanto me lembra a Sinfonia Novo Mundo como a Noite no Monte Calvo.
Observo o padre aspergindo água benta mecanicamente como se benzesse uma exposição de máquinas agrícolas e vejo mãos atirando punhados de terra no ritual do derradeiro adeus como manda a tradição e recomenda a etiqueta. Alguns mais ousados atiram flores, obviamente arrancada daquela enorme coroa funerária, já que o preço das flores está – desculpem o brando trocadilho – pela hora da morte.
O senhor baixinho e calvo, portando óculos de grau com aro fino de metal que eu não conheço nem faço a mínima ideia de quem possa ser, um oficial de justiça, talvez, um cobrador, quem sabe, plantado como um pé de couve numa alameda baixa intra lapides, arrisca um olhar para cima como se estivesse olhando o céu ou simplesmente fitasse as nuvens brancas se deslocando vagarosamente pelo pálido azul da manhã, mas o que ele faz na realidade é esticar o rabo do olho para as pernas alvas e o céu de tecido azul da meninota que subiu no mausoléu ao lado e se debruça sobre a cruz para ver melhor, sem sequer desconfiar que quem vê melhor é ele.
O pedinte que faz o seu ponto regular na praça do cemitério coleia entre os participantes do festim que marca o encerramento do meu curriculum vitae na esperança de comover algum desavisado e dele arrancar mesmo que alguns poucos trocados, rejubilando-se no seu íntimo pela vantagem que leva sobre mim, ele vivo, embora um zero à esquerda, e eu irremediavelmente morto.
O cavalheiro de ares distintos, de óculos escuros como pede a ocasião, tendo a seu lado uma exuberante garota que é sua filha, embora ninguém acredite, pensa na conversa que terá daqui a pouco com o gerente do banco para renovar aquele papagaio incômodo que está lhe tirando o sono e não percebe os olhares cúpidos dos circunstantes em direção à sua sensual primogênita.
A reza puxada em voz alta atrapalha a concentração do baixinho de óculos de grau, que se sente em pecado por estar olhando para onde não devia neste momento solene, pigarreia e dá dois passos para a frente não sem antes espiar furtivamente por sobre o ombro num disfarce canhestro para ver o rosto da pequena cunhã – e não é que a danada é bonitinha? – ela estendendo ainda mais o seu tenro pescoço para tentar ver pelo menos uma nesga do caixão que acabara de sumir no fosso, abrindo seus espaços para outros interessados em anatomia descritiva.
Eu já estou impaciente e espero que todos esses intrusos comecem a se retirar dos meus domínios para que enfim eu possa gozar da paz e da tranquilidade a que tenho direito, eu e meus companheiros de fortuna, com quem estou ávido para iniciar imediatamente o congraçamento definitivo que irá emoldurar nossos futuros e intermináveis momentos de solidão e bem estar.
Já me preocupa a movimentação que será feira por ocasião do sétimo dia, quando provavelmente virão aqui de novo chorar os mais chegados, e de novo no primeiro mês, e no Dia de Finados, mas a partir daí as coisas irão se distanciando, a sétima semana, o sétimo mês, o sétimo ano, a sétima década e assim ad aeternum per omnia saecula, per omnia tempora.
Lá vão eles enfim se retirando, palrando alegres como se estivessem saindo de um convescote – “apareça lá em casa”! – “Até a próxima”! (até a próxima?! – sem dúvida o máximo da insensatez dado o momento de pesar, ainda que pretenso, e eu aqui no meu trono veja a paisagem se aquietar e se tingir de cor-de-cinza e de cor de terra, um ou outro mausoléu negro se elevando nas alturas como um edifício importante.

O último intruso atravessa o portão em direção à praça, em direção ao mundo, e eu me recolho dentro do desconhecido.   

sábado, 11 de novembro de 2017






Conto premiado em primeiro lugar no XXI Concurso Literário Cidade de São Luís em 1995,

SOLILÓQUIO

(Parte Um)

O que mais me aborrece em morrer é a primeira noite depois do enterro, é ter que dormir cercado de mortos que não conheço, sem uma companhia que me cutuque as costas pedindo para eu parar de roncar.
Na verdade, também me incomoda o fato de eu não mais roncar, coisa que se acontecesse iria colocar este campo santo em polvorosa e provocar, após o primeiro espanto, reportagens internacionais e pesquisas metacientíficas tão intensas que haveriam de se propagar desde o Titicaca até Catmandu.
Agora, apesar da vizinhança silenciosa e insípida, o que eu vou gostar de fato é da esperada escuridão e da ansiada tranquilidade dentro do meu silêncio, nada de ouvir portas batendo nem grilos cricrilando, nada de chuva tamborilando sobre a terra semi-revolta nem o prolongado pio da coruja, nada poderá incomodar o meu sono profundo aqui nesta caixa almofadada de primeira categoria qual leito acetinado de um grande hotel cinco estrelas, fruto da contribuição dos amigos, dada a exiguidade de fundos dos meus bolsos sem fundo por ocasião do passamento, que no máximo dariam para eu me acomodar em um caixote de bacalhau, fosse a escolha feita a moto próprio.
Me aborrece também ter que ficar calado à vista de tanta insanidade, agora parece que eu vejo melhor os falsos sorrisos e as intenções dúbias, se eu ficasse do lado de fora, entre eles, talvez também estivesse falando mal de mim com um sorriso de escárnio estampado na face hipócrita. Mas como todo bônus tem seu ônus, a eternidade também espera pacientemente por todos vocês para o acerto final de contas, embora o Dia do Juízo sejam todos os dias, é só se esvair o tônus vital e vocês também acabam num buraco, assim como eu.
Pensando bem ser enterrado assim tem mais graça do que ser simplesmente cremado como um pão que o padeiro esqueceu dentro do forno e depois ter as cinzas atiradas ao mar como restos de um churrasco de verão ou no Ganges, como um asceta.
Enterrado assim se tem mais dignidade e a gente pode usar finalmente o terno grosso de lã apesar do calor, tendo ainda de quebra a plateia que nos cerca qual uma alcateia faminta para ter a certeza de que realmente partimos desta para melhor, ou para pior, e que nunca mais voltará a nos ver (embora esteja escrito que nos veremos todos de novo muito antes do que pensam os ímpios e os céticos senhores).
E este público assim desordenadamente reunido entre sussurros ajuda a criar um cenário de pompa e glória, pois afinal este é ou não é um grande dia, um dia simplesmente inesquecível?
Na verdade, se nada me incomoda do lado de dentro, imóvel como um objeto e apertado como embutido de salsicha, descansando no conforto do revestimento da almofada roxa de veludo e cetim e a tampa de madeira de lei roçando a ponta do meu nariz, é porque estou também aqui do lado de fora, encantado e divertido com tantas lágrimas, tantos sorrisos, tanto desespero, tanto enfado, tanto dever cumprido e tantas maldições lançadas.
Os advogados agora me chamam de “de cujus”, os amigos distantes de “o falecido”, os credores de “que desgraça!”, o coveiro de “pobre coitado” e os herdeiros de “graças a Deus”, mesmo não havendo um prego torto para herdar ou talvez exatamente por isso.
A viúva, a quem os advogados chamam de “supérstite” resolveu não comparecer ao féretro pretextando um cansaço insuspeito e uma dor de cabeça suspeita, e afinal não terá que encarar ao vivo a choração das carpideiras nem suportar os olhares de misericórdia dos fariseus de farrancho.
Passada a comoção do préstito, todos os interessados hão de encontrar um intérprete para decifrar meu testamento cheio de dívidas e sem dividendos.
Flutuo como um fantasma por entre vasos de concreto rústico e suas flores emurchecidas, por detrás das pedras tumulares recobertas de musgo e limo, por sobre as cabeças da canalha que finge sobriedade e por dentro dos curiosos que se acotovelam, todos esticando o pescoço como galinhas ciscando para ver o esquife baixar à sepultura atado por dois pedaços de corda e manuseado por dois desnutridos sepultureiros que tratam a embalagem como se fosse uma caixa de cebolas, ora a cabeça batendo contra o lado de cima, ora os pés se achatando contra o lado de baixo, amarfanhando o terno grosso de lá azul-marinho que já frequentara muitos enterros de terceiros e que afinal tantas vezes vai à fonte que desta vez fica, deslocando o nó da gravata para o lado esquerdo como o faria um bêbado, somente as mãos permanecem pousadas uma por sobre a outra provavelmente por falta do que fazer e do que coçar nesta eterna – e ponha eterna nisso – insensibilidade.

Flutuo como um fantasma porque sou um fantasma, vagando ao sol das onze, e fantasma vagando ao sol não arrepia nem amedronta, é transparente como o vácuo, não faz sombra nem ruído, não tira partido do ultrapassado recurso do arrastar de correntes e não causa qualquer espécie de constrangimento.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017





SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 04/11/2016

 THE SWINGLE SINGERS & THE MODERN JAZZ QUARTET

O jazz tem na sua riqueza uma grande variedade de estilos, todos diversos entre si porém mantendo uma característica inequívoca, que é a presença do blues na sua estrutura harmônica. O programa desta noite vai enfocar diferentes situações: os dois primeiros blocos mostrarão artistas e estilos contrastantes, como a big band de Duke Ellington, o jazz mainstream de Zoot e Ray Sims, o avant-garde de John Coltrane e a contemporaneidade de John McLaughlin e Chick Corea. Passado este aperitivo, os dois blocos finais apresentarão duas das maiores expressões dos anos 1960 - o grupo vocal The Swingle Singers e o grupo instrumental The Modern Jazz Quartet fazendo uma incursão naquilo que se chama "third stream jazz", termo criado pelo compositor Gunther Schuller em 1957 que junta o jazz com a música erudita. No programa, músicas de Billy Strayhorn, John Lewis e Johann Sebastian Bach, entre outros.

 Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini


terça-feira, 7 de novembro de 2017






A CORDA

(Parte Dois - Final)

Agora eu compreendo. Mas você não precisa ter medo, pois estava na praia, naquela lua grande, no coco verde, na areia molhada, se divertindo no calor da noite, enquanto alguém cortava a corda.
“A perícia foi quem descobriu que a corda estava cortada. Também, estava de um jeito que não precisava ser perito pra ver. Não sei, não sei, estou apavorado. Acordo todos os dias e vejo a corda balançando, acenando para mim, me convidando para um passeio pelos ares. É um entra e sai de policiais o dia inteiro. Vou acabar ficando louco. O Jeremias jura que não foi ele, tem certeza que não foi ele, pois ele não abre a janela à noite, porque tem frio. (Mas era quase manhã, e o calor está medonho...).”
Tengo frio, y en este piso hace aire demás. No vi cuerda ninguna. No uso navaja. Y, además de eso, estava borracho, era madrugada, era sábado”. “¿Que me importan las cuerdas?”
”O zelador me olha com olhos de inquisição. Eu já nem tenho certeza do que se passou. O Jeremias eu sei que não foi – ‘...la Libertad no consiste en hacer lo que se quiere, sinó en hacer lo que se debe, decia Campoamor’ – Jeremias vive usando frases feitas e convenceu até as paredes de que é inocente.”
“O outro rapaz, o da chave, diz que nunca pediu para ter chave alguma, que foi oferta da casa, e que não iria complicar a vida de ninguém – muito menos a dele – além de outras justificativas cheias de lógica. Resta a mulher, talvez ela tivesse se levantado sorrateiramente e cortado a corda enquanto ele dormia placidamente; mas por qual razão haveria ela de cortar a corda, assim sem mais nem menos?”
Estou impressionado com a narrativa do Zacarias. Ele sai – “adeus, professor!” – (será que vai se suicidar?) com uma gravura debaixo do braço, os ombros balançando de um lado para o outro, o cavanhaque suado e a porta batendo à sua partida.
Volto então aos meus filmes, e a corda agora balança na minha mente. Não tenho nada a ver com o acidente, com o incidente, mas Jeremias tem os seus bons motivos, não pode se complicar ou é deportado, encaixotado e carimbado como um amontoado de arenques – este lado para cima. O outro da chave pode jogá-la num abismo ou num rio, há tantos rios por aí cheios de lodo, quem é que iria procurar uma chave nos intestinos de um rio canalizado? Se bem que o sumiço da chave não prova nada, existe a também a mulher, que bem poderia ter sumido com uma daquelas estatuetas raras que ficam naquelas estantes povoadas de livros – metafísica, dialética, dietética – e vai ver que sumiu mesmo.
É mais fácil achar uma chave no fundo lodoso de um rio do que notar a falta de um elefante naquele apartamento, principalmente se for de marfim. O zelador não iria escalar a lateral do prédio e ficar com as unhas esfoladas, nem subir pela corda e ficar com a palma das mãos pior que as de Cristo depois que lhe pregaram os pregos, para cortar a corda na altura do décimo primeiro andar e correr o risco de cair com ela – subiria no máximo subiria até o quinto – e o pintor, se quisesse se suicidar, tomaria um balde e meio de verniz e teria uma disenteria de envenenar o mundo antes de dar a sua última contorção.
Agora abandono os filmes de vez e acendo a luz fluorescente que fica no teto sobre a minha cabeça. Arrasto o banco para trás e cerro os olhos. Já faz muito tempo, muitas horas, que estou trancado aqui neste estúdio, sem comer e sem dormir. Isto não é uma cela, nem internato, o que estou fazendo aqui que não vou embora?
Já nem sei o que tenho feito, ao certo, os dias e o calendário já perderam o significado e o sentido.
Ponho a mão no bolso – o que é isto!?
É uma chave.
Vejamos – minha não é, pois a minha é verde. A do estúdio também não, que se fecha com cadeado. Também não é chave de carro, e eu não tenho carro.
Lembro-me com clareza que esta chave me foi dada pelo Zacarias, faz mais de um mês. Eu havia deixado um álbum de músicas clássicas sobre a sua cama, e temi que se transformasse em pedestal para uma pilha de livros, então ele me deu a chave para eu ir buscá-lo.
Mas... então eu também possuo a chave do apartamento! E ela queima a minha mão como um talismã do inferno.
A corda.
Zacarias não foi, estava na praia. Jeremias não foi – que lhe importam as cordas? O amigo não foi, vai jogar fora a chave, e assim perder a oportunidade de novas aventuras. A mulher prefere roubar elefantes, e a modelo cuida mais de fotografar seminua. O zelador não tem mais idade para ser alpinista, e o pintor morreu como um tomate.
Só restamos nós, eu e a chave.
Já nem tenho certeza de que fechei a torneira ontem, ao sair de casa. Já nem sei se foi ontem. Fecho outra vez os olhos e nem sei a cor da minha camisa, e se ainda sei que estou de camisa é porque me apalpo e a sinto. E a namorada – estará pacientemente esperando por mim em alguma parte do mundo?
Como posso ter certeza de que não fui eu quem cortou a corda, deslizando como um réptil em direção àquela janela?
Estou começando a sentir enjôo, gravidez é claro que não é, nem maresia. É medo.
Mestre Zacarias me transmitiu todo o seu pavor e toda a sua lógica ilógica.
O que é que eu andei fazendo por aí, se ainda estou com a tesoura entre os dedos? Cortando filmes ou cortando cordas? Escapando da polícia, trancado aqui neste quarto?
Terei sido eu?

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Sigmund falou sobre isso, e não foi pra mim. Talvez para estes loucos, que me rodeiam.
Será que previu algum dos meus dias?
  








Este conto já foi publicado no Facebook e neste blog em 2011. Vou publicá-lo novamente porque muita gente não teve a oportunidade de ler. O conto foi originalmente publicado no livro "Coisas - Autobiografia Crítica dos anos 1960" em 1988, meu primeiro livro de contos.  


A CORDA

Este conto já foi publicado aqui e no blog augustopellegrini.blogspot.com.br em 2011. Vou publicá-lo novamente porque tem muita gente que não teve a oportunidade de ler. O conto foi originalmente publicado no livro “Coisas – Autobiografia Crítica dos Anos 60” em 1988, meu primeiro livro de contos.

(Parte1)

Sigmund falou, e não foi para mim.
Escreveu livros, teceu comentários, expôs teses, realizou conferências.
Pois bem. Não estive presente a nenhuma, não discuti as suas teses; não li nenhum livro seu. Não comentei seus comentários.
Sigmund falou, e não foi para mim. Nem sequer para o Zacarias.

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A corda.
A corda balança como se na extremidade balançasse um cadáver. Um fio de prumo no prumo, dependurado, preso lá no alto do prédio, passando em frente da janela que é só vidro, no décimo primeiro andar, altura suficiente para um homem sentir as sensações de Ícaro, projetar-se nos ares, voar sem asas. Eis a corda.
A corda balança ao sabor do vento e bate na parede corrugada de concreto ao lado do fio de telefone e do para-raios, prendidos com grampos.
A corda está arrebentada, criminosamente arrebentada na altura do décimo primeiro andar, mas puxada para baixo pelo peso do morto enquanto vivo, agora pende frouxa até o nono.
E o andaime lá no chão, aos pedaços.

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Uma das minhas ocupações prediletas é fazer cinema; registrar fatos na máquina e depois colar os pedaços de celulóide, para ver os efeitos.
O dia e a noite passam, os olhos ardem e as costas reclamam, a gente trabalha meio em pé e meio sentado, só pelo prazer de ver a coisa chegar a um fim, montando filmes sem cessar e sem cansar o espírito, é só não se concentrar no mundo profano que nos cerca – os bares repletos e a alegria nas ruas – senão saio correndo do laboratório, paletó na mãos, cheirando a tetracloreto e enjoando o fígado do ascensorista, e vem a desconfiança de não ter dado a atenção devida à namorada que espera.
Arte é arte.
Estava assim absorto nas minhas artes quando surgiu Zacarias, de tez escura, magro e alto, de cavanhaque e sotaque, a preocupação juncando a testa e o pavor ondulando os músculos da face. Tivesse eu uma filmadora às mãos e descarregaria toda a sua corda sobre o seu semblante, para alguma coisa iria servir algum dia, com certeza.
“Olá, professor”, foi ele dizendo para introduzir a conversa. Eu introduzia o negativo no editor. Ele não prestava atenção.
“Olá, Mestre Zacarias!” – respondi eu. Este tratamento nos era familiar.
Sua silhueta com cavanhaque se desenhava numa tela, à minha direita. Suas mãos gesticulavam, nervosas.
“Estou num mato sem cachorro. A polícia anda atrás de mim.”
Estava suando.
O que queria ele que eu fizesse, que o escondesse? Que declarasse em praça pública conhecê-lo e dar fé jurada que ele era inocente? Facilitar sua fuga para o exterior?
Que ele era inocente eu não tinha dúvida, apesar de não saber qual era o crime, apesar de não saber se havia crime. Afinal, a polícia poderia estar atrás dele em busca de um testemunho, ou para encaixá-lo num batalhão de investigadores, ou simplesmente para condecorá-lo. Sim, porque Zacarias merece uma condecoração, mil condecorações. A Cruz de Santo Inácio, a da Ordem das Azáleas ou das Ajácias, ou a do Grande Cã.
“Eu fui pra praia sexta-feira à noite” – começa ele a contar. “A noite estava clara e quente, e eu suarento. Peguei minha roupa de banho e de baixo, apanhei um ônibus e fui pra praia. Não tenho testemunhas, mas estive lá. A praia estava clara e quente, e eu suarento. Era noite, mas mesmo assim tomei banho de mar – você já fez isso? É uma beleza, as ondas estavam altas, a praia deserta e a água vinha molhar até quase o fim da areia, a lua parecia maior, ou era o contraste com o fundo negro do céu. Água de coco gelada, e o cheiro do mar.”
“Tudo maravilhoso. Até esqueci do meu apartamento, dos meus livros. Do lado de fora do meu apartamento tem um monte de andaimes, os pintores estão pintando, e tem uma corda que passa bem em frente a minha janela. Uma corda grossa, cheia de nós, para segurar a madeira e o pintor sentado nela.”
“Pois bem, comigo mora aquele paraguaio, ou boliviano, eu nem sei direito, aquele que pinta quadros de fetos carecas, o Jeremias, incapaz de fazer mal a uma mosca. Ele também não estava em casa na sexta-feira à noite, foi se encontrar com uma mulher, foram para uma boate, e ele voltou só de manhã cedo, cansado demais para ficar acordado, e dormiu.”
“O outro rapaz que tem a chave do apartamento disse que chegou lá por volta das onze da noite e saiu antes de o Jeremias chegar, acompanhado, é claro, e não sabe de nada. Disse que não iria se preocupar com coisa alguma, dada a categoria da mulher que estava com ele. Só vendo pra crer.”
Até aqui eu não tinha entendido coisa alguma sobre a perseguição da polícia.
Ninguém pode ser perseguido pela lei só por morar em um apartamento que tem livros do chão até o teto, livros no guarda-roupa e no banheiro, livros em cima da cama, quadros com figuras folclóricas, cartazes de cinema e de teatro, bonecos de barro, retratos de mulheres nuas de frente e de costas espalhados por toda a parede e rolos de filmes empilhados, mesmo morando com um boliviano, ou paraguaio, mesmo tendo amigos que compartilham a chave, e muito menos ou principalmente por ter uma corda dançando em frente à janela. 
“Estou ficando maluco. Cada vez que acordo, olho a corda e escuto a polícia batendo na minha porta e me levando aos berros pelo corredor cheio de eco e me atirando num elevador e numa cela, e ditando a minha sentença.”
“Cortaram a corda, professor, cortaram a corda com canivete ou tesoura, bem na cara da minha janela!”
Agora eu compreendia. Cortaram a corda. E daí?
Põe outra corda no lugar, paga o prejuízo para os pintores e uma cerveja para o zelador, faz uma festinha de comemoração e convida o Jeremias e o amigo da chave com duas ou três mulheres extras, e deixa o uísque com água de coco rolar sobre os livros de direito e sobre as barrigas lisas.
“Naquela tarde eu estava fotografando uma modelo lá no apartamento. Aquelas poses para publicar em jornal vagabundo, a perna levantada, a saia arregaçada e a blusa desabotoada, você sabe.”
Eu sei.
“De repente, a corda se distendeu mais do que devia e depois afrouxou. Ao mesmo tempo ouvi um grito, parecia o som de uma sirene, que foi sumindo e terminou com o barulho de telhas quebradas. Não tive coragem de olhar. A câmera tremia, o tripé tremia, o prédio tremia. A modelo abotoou a blusa, ajeitou a saia, se debruçou na janela e viu o corpo torcido no telhado cinza, lá em baixo, esborrachado como um tomate.”


sexta-feira, 3 de novembro de 2017






SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 01/05/2015

DIA INTERNACIONAL DO JAZZ

Dia 30 de abril foi universalizado como o Dia Internacional do Jazz, por obra e graça da UNESCO, através do seu embaixador cultural, o pianista Herbie Hancock. A celebração é recente, pois sua oficialização se deu apenas em 2012, coincidindo com o centenário do jazz - muito embora a data precisa de quando tudo começou seja desconhecida e impossível de definir. Fazendo coro a outras comemorações da data que estão sendo feitas em São Luís e no resto do mundo, o programa Sexta Jazz não poderia ficar alheio a esta celebração que premia o bom gosto e a arte musical e vai apresentar um roteiro especial com a presença de alguns grandes expoentes do estilo - entre eles a Orquestra de Duke Ellington, o grupo contemporâneo de John McLaughlin e Chick Corea, a Tabakin-Akiyoshi Big Band, o Oscar Peterson Trio, as orquestras de Benny Goodman e Count Basie, e os quartetos de John Coltrane e Zoot Sims, entre outros. O programa busca mesclar estilos diferentes de jazz para mostrar ao ouvinte a riqueza e a diversificação que a liberdade musical, o improviso e a sutileza harmônica podem provocar.

Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini


quinta-feira, 2 de novembro de 2017




TRIBUTO A CÂNDIDO PORTINARI

(Baseado em um samba-enredo composto em 1978 para o G.R.E.S. Pérola Negra)

Um tributo para o artista
Que com talento e louvor
Apresentou para o mundo
Seu trabalho de pintor
Retratando em cada tela
Imagens do pincel e da aquarela
Do Brasil com sua gente e seu sabor
Levou para outras terras
Mensagens de um mundo novo
Recado de amor à liberdade
Portinari, pintor do povo

Puxa a rede, pescador
Abana, morena, o café
Seresteiro tem amada
Forasteiro tem mulher

Venho da terra vermelha
Onde nasce o cafezal
Cheguei de navio negreiro
Derrubei canavial

Tenho os pés grandes plantados
No seio quente da terra
Na paz, sempre fui vaqueiro
Na esperança, brasileiro
Cangaceiro eu fui na guerra


 



segunda-feira, 30 de outubro de 2017





A MÍSTICA DA AMARELINHA

No seu programa da última quarta-feira o apresentador e jornalista Pedro Bial entrevistou três especialistas  - o jornalista Juca Kfouri, o sociólogo Ronaldo Helal e o cronista Antonio Prata - além do escritor e também jornalista Sérgio Rodrigues, que deu seus pitacos sentado na plateia. O tema versou sobre os inesquecíveis 7 x 1 aplicados pela Alemanha sobre o Brasil na Copa do Mundo de 2014 em Belo Horizonte.
É consenso geral que é mais fácil um raio cair não duas, mas três vezes exatamente no mesmo lugar do que tal tragédia se repetir, sejam quais forem os litigantes e seja qual for o local, por se tratar de duas potências futebolísticas disputando pari-passu uma vaga para a grande final.
Considerando todas as partidas disputadas ao longo de todas as Copas desde 1930 até 2014 somente dez partidas tiveram goleadas com sete gols ou mais, mesmo assim reunindo forças bastante díspares que jamais mostraram o equilíbrio de um Brasil x Alemanha.   
Sérgio Rodrigues ponderou que uma vitória alemã naquela altura do campeonato - expressão que neste contexto pode ser usada com muita propriedade - seria mais do que natural,  porque a Alemanha tinha um time poderoso e o Brasil "não estava bem", isto é, mostrava grandes limitações e vinha apresentando um futebol de deixar o torcedor com a pulga atrás da orelha. Mas nunca por essa diferença de gols.
Os jogadores se sentiam pressionados com expectativa da torcida, com a obrigação de "vingar 1950" - ano em que em muitos casos nem os pais deles haviam nascido - e com as declarações da Comissão Técnica, em particular Carlos Alberto Parreira, que o Brasil já começava a Copa "com uma mão na taça".
A confiança havia aumentado com a vitória por 3 x 0 contra a Espanha - então campeã do mundo - na Copa das Confederações de um ano antes e com a presença de Neymar, cuja participação era simbolicamente comparada à de Pelé em 1958 .
O problema é que, além do desempenho não muito animador, os jogadores entraram em campo contra a Alemanha sob um enorme desequilíbrio emocional, comparável ao sofrido na final de 1998, quando na véspera do jogo o atacante Ronaldo apresentou um misterioso quadro de convulsão e chegou a ser levado para um hospital, deixando todos muito preocupados. 
Desta vez o fator da inquietação foi Neymar, atingido nas costas durante as quartas de final contra a Colômbia e objeto de preocupação de toda a delegação.
As lendas e mistérios que cercam a partida dão conta que os alemães puxaram o freio de mão no segundo tempo após terem feito 5 x 0 na etapa inicial "por respeito à história e à torcida do Brasil" , caso contrário os 7x1 poderiam ter ido mais além. Foi a segunda grande goleada sofrida pelo Brasil em toda a sua história, depois dos 6 x 0 contra o Uruguai no Campeonato Sul-Americano de 1920.
Ronaldo Helal preferiu comentar a reação da torcida. 
Diferentemente da derrota de 2 x 1 para o Uruguai em 1950, onde o povo decretou luto nacional e crucificou alguns jogadores, a reação do torcedor desta vez não foi tão implacável.
Helal credita isto a um distanciamento que foi tomando conta do torcedor com relação à seleção brasileira depois que começou o êxodo dos nossos melhores valores para a Europa e em menor escala para a Ásia e para o Oriente Médio.
Antigamente, diz o sociólogo, o brasileiro via a seleção brasileira como a extensão da Pátria, e qualquer derrota ou tropeço doía muito na nossa soberania porque o derrotado não era a seleção, mas sim o país.
A consciência agora é totalmente diversa. O futebol da seleção brasileira não é mais venerado como uma extensão de patriotismo, é apenas mais um time que se veste de amarelo formado por jogadores que pensam mais na própria valorização e imagem do que na pátria de chuteiras. A grande maioria dos torcedores hoje em dia torce muito mais pelos seus clubes de preferência do que para a seleção, e dão mais ênfase aos clássicos regionais do que às disputas da seleção.
Até o perfil do torcedor que enfrenta uma guerra para ir ao estádio assistir a um clássico e daquele que se paramenta para  ver a seleção é diferente. Um vai para o futebol, outro se preparou para um espetáculo circense. 
A mística da amarelinha mudou de contexto.  

quinta-feira, 26 de outubro de 2017




RETALHOS E REBOTALHOS

(Parte Sete – Final)

Quanto tempo estamos nesta caminhada? Dez minutos, dez horas, dez anos, o tempo é relativo e a única coisa nele que se manifesta é o tique-taque pulsante da minha artéria principal, com os batimentos se sucedendo como o ruído contínuo de uma bomba-relógio.
Ela se desvia dos obstáculos como eu dos morcegos, leve como flor de picão, e agora uma garoa fina começa a cair feito neve me fazendo sentir como um Gene Kelly saltando compassadamente para não perder a distância que nos separa.
Ouço ao longe o som de um trompete, igual àquele de Buddy Bolden que chegava a atravessar o Mississipi com uma clareza e uma força tamanhas que mais parecia a trombeta de Jericó. Tento identificar o tema – “West End Blues” – nada tão descabido como esta música neste momento, mais apropriado seria “Spellbound” e uma gargalhada de Bette Davis.
De repente chegamos a uma praça larga e arborizada, com uma banca de revistas pintada de cinza, bancos de cimentos, alamedas tortuosas que se cruzam aqui e ali dividindo canteiros com plantas baixas e algumas flores molhadas pelo chuvisco que já passou.
Na minha frente, como pano de fundo, uma decoração digna dos pesadelos de tia Jerusa, um cemitério de muro baixo, totalmente gradeado, as grades também pintadas com aquele cinza-prateado para fazer par com a banca de revistas e o enorme portão todo trabalhado se abrindo lentamente num ranger de gonzos. Ela, a minha musa, dá um último adeus para o lado de fora acenando para mim e entra lentamente no meio dos ciprestes, o portão se fechando com mais rangidos e o ruído de uma corrente se enroscando nas grades fazendo as vezes de uma última pá de cal. Depois, o silêncio sepulcral e absoluto, restando em cena apenas eu, meu cabelo arrepiado e embranquecido pelos borrifos da garoa e o coração tentando voltar ao compasso normal sem sair da boca.

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Ana é uma garota muito meiga, um pouco tímida, e possui alta sensibilidade artística. Gosta de pintar suaves aquarelas, de ler os clássicos franceses e de ouvir jazz.
Tem especial preferência pelas músicas da época do bebop, embora não necessariamente pelo bebop, e quando se espicha na poltrona da sala ouve baixinho Lover Man, My Funny Valentine e em especial Round Midnight.
Há alguns meses descobrira um lugar chamado Crème de la Crème que, a despeito da vulgaridade mundana, daquelas mulheres sem classe que nada tinham a ver com ela e daqueles homens mal-intencionados que mais de uma vez já lhe haviam feito propostas impróprias, abrigava um talentoso saxofonista que tocava o que ela gostava do jeito que ela gostava.
Ana não tinha certeza, mas acreditava que ele tocava somente para ela. Ele tocava olhando para ela, e a cada pressão dos seus dedos nas chaves douradas do instrumento causava em Ana um arrepio profundo, como se aquelas mãos lhe estivessem proporcionando uma massagem tonificante.
Esta noite ele abandonara tudo para segui-la, para acompanhá-la. Não chegou perto dela e Ana, dentro da sua discrição e timidez teve apenas a coragem de lhe dar um furtivo adeus.
Na próxima sexta-feira Ana irá falar com ele, explicar que é tudo tão difícil e que se sente envergonhada, intimidada, vulnerável e pequena.
Ana vai dizer a ele que não é fácil ser a filha do zelador do cemitério e ter que morar naquela solidão, no meio das almas.