sábado, 12 de março de 2022

 


      PÁGINAS ESCOLHIDAS

O FANTASMA DA FM (1992)
(Augusto Pellegrini)

 VIDA DE ARTISTA

A caminhonete ia aos solavancos pela estrada estreita, tortuosa e esburacada. A chuva, que desabara numa curta, embora forte pancada, já fora quase que totalmente absorvida pelo terreno arenoso, mas algumas poças d’água renitentes ainda se mantinham apresadas com uma boa porção de lama líquida que vez por outra borrifava o para-brisa.

A estrada coleava como serpente, rasgando o chão sem acostamento e cercada por uma densa mata que adivinhava pássaros e insetos, e quem sabe macacos e outros animais de pequeno porte.

Na entrada da cidade-acampamento havia um portal de madeira e uma guarita com sujeitos exibindo cara de poucos amigos que faziam uma inspeção superficial, anotavam a placa do veículo, horário e nome do motorista e me mediam de alto a baixo como o fariam todos os delegados e inspetores policiais deste mundo.

A informação passada pela empresa não mencionava nenhum campo de concentração como isto aqui parece ser, apenas falava de um pequeno núcleo habitacional com hospital, cinema e supermercado, as casas dos engenheiros de um lado e as dos empregados sem patente do outro, assim como se separam os tomates bons dos tomates podres. Lá no fundo, o canteiro de obras emergia da terra como uma plataforma espacial em processo de montagem.

O prospecto da empresa, impresso em caríssimo papel “couché”, só não mencionava os botecos e a zona de meretrício que se formava ao longo de uma avenida que nascera do lado de fora da cerca e que era a única diversão dos peões nas suas horas de folga.

Foi esse o palco em que recitei meus primeiros papéis nesta vida de pioneiro de grandes implantações industriais nos quatro cantos do país. A plateia e a produção do espetáculo variavam com a latitude do empreendimento, mas o script era praticamente sempre o mesmo.    

 

(Recordações dos tempos de peão de trecho, uma homenagem a todos aqueles que enfrentaram essa delícia de guerra) 




sexta-feira, 11 de março de 2022

 


SEPARAÇÃO 

1968

(Samba de Augusto Pellegrini)

 

Quanto custa

Haver separação

Pode ter lágrima

Pode ter tristeza

O desencanto

A desilusão

 

Quanto vale

Desesperança e dor?

Se há a esperança

Da volta vir um dia

Um novo encontro

A nova canção

 

Quanto custa

Mas tem que ser assim

Neste momento

Ficar é não é possível

É preferível

Sorrir na despedida

 

Depois, quem sabe

Com a mudança que vier

Voltarão as escolas de samba

Coloridas de flor e mulher

Voltará o sorriso criança

Será o meu mundo

Transformado em céu

 

 

quarta-feira, 9 de março de 2022

 


COMO NASCEM AS CANÇÕES
(Augusto Pellegrini)
 

(Parte 2)

Herivelto Martins compôs muitos sambas-canções tendo como tema a vida conjugal tumultuada que levava com a cantora Dalva de Oliveira. Havia entre eles um amor bandido – ele um boêmio irrecuperável, ela uma mulher ciumenta e cheia de caprichos.

Entre as composições de Herivelto dirigidas à Dalva, temos “Caminhemos” (“Não, eu não posso lembrar que te amei / Não, eu preciso esquecer que sofri / Faça de conta que o tempo passou / E que tudo entre nós terminou / E que a vida não continuou pra nós dois / Caminhemos, talvez nos vejamos depois”), gravada em 1947 por Francisco Alves, e “Cabelos Brancos” (“Não falem dessa mulher perto de mim / Não falem pra não lembrar minha dor / Já fui moço, já gozei a mocidade / Se me lembro dela me dá saudade / Por ela vivo aos trancos e barrancos / Respeitem ao menos meus cabelos brancos... / ... E agora, em homenagem ao meu fim / Não falem dessa mulher perto de mim”), gravada pelos Quatro Ases e um Coringa em 1949.

Foi em 1947 que Herivelto compôs “Segredo”, quando as brigas do casal eram muito intensas e tudo indicava que a separação já se tornara inevitável (“Teu mal é comentar o passado / Ninguém precisa saber o que houve entre nós dois / O peixe é pro fundo da rede / Segredo é pra quatro paredes / Não deixe que males pequeninos / Venham transformar os nossos destinos... / ... Primeiro é preciso julgar pra depois condenar”), gravada pela própria Dalva.

A separação aconteceu em 1950, e depois dela Dalva recorreu a dois amigos compositores – J.Piedade e Osvaldo Martins – para gravar “Tudo Acabado” (“Tudo acabado entre nós, já não há mais nada / Tudo acabado entre nós hoje de madrugada / Você chorou, eu chorei / Você partiu, eu fiquei / Se você volta outra vez eu não sei / Nosso apartamento agora vive à meia-luz / Nosso apartamento agora já não me seduz / Todo o egoísmo veio de nós dois / Destruímos hoje o que podia ser depois”).

Seguindo a mesma linha de raciocínio, ainda em 1950 ela voltou a desabafar com a gravação de “Errei Sim”, um samba “mea culpa” que Ataulfo Alves havia composto há alguns anos (“Errei sim, manchei o teu nome / Mas foste tu mesmo o culpado / Deixavas-me em casa me trocando pela orgia / Faltando sempre com a tua companhia / Lembro-te agora que não é só casa e comida / Que prende por toda a vida / O coração de uma mulher / As joias que me davas / Não tinham nenhum valor / Se o mais caro me negavas / Que era todo o seu amor / Mas se existe ainda quem queira me condenar / Que venha logo a primeira pedra me atirar”).

 

domingo, 6 de março de 2022

 


O TURFEBOL

(Augusto Pellegrini) 

           Há muito tempo, as corridas de cavalos – conhecidas na intimidade como “turfe” – eram muito populares. Os principais jornais do Rio e de São Paulo dedicavam páginas inteiras às corridas que se desenrolavam no Hipódromos da Gávea e de Cidade Jardim, num ambiente de cheio de charme e tensão que juntava a parte plebeia dos apostadores com a alta sociedade local.
            As emissoras de rádio tinham locutores como Ernani Pires Ferreira e Vicente Chieregatti que narravam com emoção as tardes ou noites turfísticas – “Atenção!!! Foi dada a largada...” – com a participação de analistas e repórteres, como manda uma boa transmissão.

            Cavalos como Gualicho, Helíaco, Quiproquó, Adil, Farwell, Tirolesa (esta, uma égua) fizeram a alegria de muita gente, conduzidos por jóqueis vitoriosos da estirpe de Luiz Rigoni, Oswaldo Ulloa e Francisco Irigoyen.

            De repente o turfe se calou. Os jornais deixaram de publicar, as emissoras deixaram de narrar, as pessoas deixaram de acompanhar, e a alegria dos cavalos murchou. O turfe ainda existe, sim, até hoje, mas ninguém faz a menor ideia do que acontece lá dentro, e ninguém se interessa mais com isso.

            Traçando um paralelo com o futebol, as dificuldades que o torcedor tem atualmente para acompanhar os jogos do seu time são imensas. Ele tem que assinar pelo menos meia dúzia de canais alternativos de televisão ou internet, ficar pesquisando na rede para ver onde e se o jogo que ele gostaria de assistir será transmitido, ficar na dependência do sinal para a região onde mora e outras chatices mais ou menos dispendiosas.

             Ir ao estádio, nem pensar, com os ingressos a preço de ouro, aliado a todas as preocupações com os procedimentos sanitários e o risco de sofrer agressões, ter o ônibus ou o carro apedrejado ou ser atirado nos trilhos do metrô se estiver vestindo a camisa do adversário.

            A ganância com que os dirigentes e a mídia estão tratando o futebol está afastando os torcedores, que na falta de ver seu time jogar acaba arrumando outra distração e aos poucos irão dar menos e menos importância a uma coisa que está cada vez mais difícil e cara de ver.

           O chavão é velho, mas vale a pena mencioná-lo: devido à avidez com que querem ganhar cada vez mais e mais, os organizadores – clubes, federações, imprensa patrocinada, empresas de marketing esportivo, emissoras de televisão – vão acabar matando a galinha dos ovos de ouro.

           E transformar nossa diversão das noites de quarta-feira, dos sábados e das tardes de domingo num futuro turfebol.

 

Março 2022   

              

 


À PROCURA DO MEU EU

(Augusto Pellegrini)

Saí um dia à procura
Do meu eu mais que perfeito
E retornei contrafeito
Pois depois de tanta lida
Percebi que nesta vida
Não há meu eu que dê jeito

Saí um dia à procura
De um amor verdadeiro
E passei um ano inteiro
Batendo de porta em porta
Pra saber se alguém se importa
Com este meu eu romanceiro

Saí um dia à procura
De algo meu proibido
Como um vício desmedido
Que me levasse à loucura
E percebi que a procura
Tornou meu eu desvalido

Saí um dia à procura
De um tesouro à deriva
Pra tornar mais atrativa
Esta vida de problemas
E vi meu eu num dilema
Entre o fato e a expectativa

Saí um dia à procura
De um destino, embora incerto
Fui em frente, peito aberto
Não passei do desejado
Recuei, amedrontado
Sem ter salvação por perto

Saí um dia à procura
Do meu mundo verdadeiro
E era você, por inteiro
O meu eu que eu procurava
No fim, não passou de um sonho
A imagem que se formava

Saí um dia à procura
Daquela paz almejada
Notei que no fim da estrada
Tinha alguém à minha espera
Entre a surpresa e a quimera
Era o meu eu que lá estava
 

Outubro 2018