sexta-feira, 28 de agosto de 2015






EURICO E A SIBÉRIA 

Há cerca de quinze dias o Vasco da Gama – e por extensão todo o futebol brasileiro – foi brindado por uma declaração emitida pela boca do seu próprio presidente Eurico Ângelo Marcio de Oliveira Miranda: se o clube cair para a Série B do Campeonato Brasileiro ele “vai procurar o ponto mais distante da Sibéria e se mudar para lá”.
E proibiu a palavra “rebaixamento” em São Januário.
Esta declaração pode ser alvissareira ou não, dependendo do ponto de vista.
Há quem defenda Eurico e os seus métodos pouco ortodoxos de gerenciar as coisas do Vasco, justificando seus arroubos por conta da paixão sem limites que tem pelo clube. Para estas pessoas, se cada clube tivesse o seu Eurico as coisas estariam melhor no futebol brasileiro.
Há porém quem o acuse de ser um caudilho prepotente e truculento que se beneficia do clube e trata a imprensa, os opositores e o mundo com um tacape na mão, não proporcionando qualquer benefício ao esporte, quer como lazer quer como negócio.
Na prática, a situação de momento não lhe é favorável.
Com vinte rodadas já disputadas e faltando dezoito jogos por clube para o final do certame, parece que o presidente – que ressurgiu das cinzas trazendo com ele de volta “o respeito ao futebol carioca” – pode começar a procurar uma agência de viagens e algum corretor de imóveis em Irkutsk.
O Vasco está em último lugar na tabela, a seis pontos do penúltimo colocado e a nove pontos de sair da zona de rebaixamento, uma posição extremamente delicada para o momento atual.
Em edições anteriores, clubes que estavam nesta zona de pontuação não conseguiram se salvar da vassourada final, mas ainda que respirando por aparelho os jogadores do Eurico vão lutar para reverter a situação a fim de manter o presidente residindo na Cidade Maravilhosa, banhada pelo sol e pelo mar e adornada por um céu azul de bossa nova. Apesar de às vezes se assemelhar a um urso, com certeza o presidente não iria se dar bem com o clima siberiano.
Os matemáticos do esporte estimam que para sair desta posição incômoda, com apenas 13 pontos conseguidos em 60 disputados, o clube tem que obrigatoriamente vencer dez dos dezoito jogos restantes e torcer para que os seus companheiros da parte de baixo da tabela não façam a parte deles.
Ainda de acordo com os matemáticos, a chance do Clube da Colina despencar ladeira abaixo e se esborrachar na segunda divisão é no momento de 95%.
Consultei os matemáticos, os bruxos e o oráculo, e embora não tenha conseguido obter qualquer conclusão definitiva, parece que nas treze vezes que o campeonato foi disputado pelo sistema de pontos corridos, desde 2003, nunca um clube conseguiu se salvar tendo chegado a tal situação.
A mudança de técnico e a heroica eliminação do Flamengo na Copa do Brasil podem ser uma indicação que o time vai encontrar o seu rumo, mas a pálida apresentação contra o Goiás na rodada passada continua deixando a torcida com as barbas de molho. A nau do Almirante está fazendo água e soçobrando perigosamente desde que aportou num porto seguro com a conquista do Campeonato Carioca, e é bom que se diga, com o presidente Eurico no comando.
Não há como negar o sucesso e os bons resultados da agremiação quando foi dirigida por Eurico Miranda. Com ele, desde 1986, o Vasco soma 48 títulos nos 22 anos em que esteve sob a sua mão forte.
Como presidente eleito do clube foram na verdade apenas 6 – Taça Rio em 2001, 2003 e 2004, Taça Guanabara em 2003 e Campeonato Carioca em 2003 e 2015 – mas foram 42 conquistas como Vice Presidente e Diretor de Futebol, cargos na verdade de fachada, pois era ele quem de fato comandava e decidia, apesar da existência de um presidente de direito.
Assim, sob a direção de Eurico, o Vasco conquistou outras 7 Taças Guanabara, outros 7 Campeonatos Cariocas e outras 5 Copas Rio, além de 3 títulos pelo Campeonato Brasileiro e um pela Libertadores, o que, convenhamos, não é pouco.
Anjo ou demônio, Eurico já está em contagem regressiva para ou proporcionar uma redenção histórica para o clube cruzmaltino ou pagar um mico do tamanho as Sibéria por ter sido tão boquirroto.     

     

 

(Artigo publicado no caderno SuperEsportes do jornal O Imparcial de 28/08/2015)