domingo, 13 de fevereiro de 2011

O JAZZ COMO FATOR DE INTEGRAÇÃO

 
(Este pequeno artigo foi escrito para um jornal de escola, mais precisamente para o ICBEU News, e tenta explicar com palavras simples a contribuição que o jazz teve na história dos Estados Unidos e, por extensão, na história da humanidade. Como professor e como educador não pude deixar passar em branco a oportunidade que se apresentou para divulgar um pouco de cultura geral para os jovens, acostumados que estão com o aprendizado específico das matérias oficiais e com uma absoluta falta de orientação cultural nas escolas, que se preocupam a ensinar apenas como vencer na vida e arranjar um bom emprego. Como jazzófilo e como musico não pude me furtar à provocação desta saudável influência, na esperança que esta mensagem acenda nos alunos uma luzinha de curiosidade e propicie o surgimento de outros tantos jazzófilos e apreciadores de música de qualidade).

No final do século 19, os Estados Unidos juntavam os cacos de uma guerra civil que durante quatro anos devastara os estados do sul, provocando quase um milhão de mortos.
Feita a paz, começou a luta para que fosse criada uma individualidade nacional em um país cujas raízes haviam sido fortemente influenciadas pelos colonizadores da Grã-Bretanha, França e Espanha, até ele viesse a se tornar independente no século anterior.
Estranhamente, um dos fatores que ajudaram a unificar a nação nasceu de um ponto polêmico e delicado – a atuação conjunta de negros e brancos.
Apesar das leis contidas em uma constituição fortemente democrática, foi o jazz (ou em primeira instância o blues) o responsável pelo impulso necessário para que norte e sul começassem efetivamente a trocar experiências pessoais, produzindo uma intrincada e eficiente rede de informações que teve a música como tema.
Ao mesmo tempo em que o sul, notadamente a Louisiana, descobria no blues a essência do que seria a música americana no futuro, a música do norte e nordeste do país continha uma forte marca das orquestras de salão européias, enquanto que oeste e centro-oeste cultivavam a country music, de origem irlandesa. 
A troca de experiências entre os populares músicos negros do sul e os elegantes músicos brancos do norte começou com a diáspora de grupos musicais que partiram de cidades como Nova Orleans em direção a Nova York e Chicago e foram deixando a semente pelo caminho – Kansas City, Saint Louis – fazendo com que, em pouco mais de dez anos, praticamente todo o país se unisse musicalmente em torno de uma só palavra – jazz.
Esta identificação foi tão forte que se transformou em uma marca registrada dos Estados Unidos e em um fator motivador para os americanos que, por um motivo ou outro, se encontravam fora do país.
Naquele tempo – início do século 20 – a Europa era a senhora do mundo.
Países como Inglaterra, França, Itália e Alemanha possuíam uma forte liderança política, cultural e estratégica, o que lhes permitia ditar as regras de comportamento para todo o planeta.
A África estava em grande parte colonizada, e mesmo a Ásia sofria uma forte influência deste colonialismo imposto sem qualquer respeito às tradições de cada povo nativo.
O Brasil também era fascinado pelo europeísmo.
As nossas famílias mais abastadas mandavam seus filhos para Paris ou Londres a fim de completarem seus estudos e trazerem para a nova República toda uma bagagem de conhecimento que nos possibilitasse um crescimento “à européia”.
Na América do Norte, no entanto, a visão de crescimento era outra, tendo como fator de integração um patriotismo exacerbado e um intenso orgulho próprio, o que, ajudado por outros fatos circunstanciais – duas guerras mundiais, por exemplo – levaram o país a liderar o mundo a partir do primeiro quarto do século 20.
O principal fator de integração, no entanto, foi a disseminação do jazz, que diferenciou o país do resto do mundo em termos de música e fez ainda mais, influenciando o restante do mundo a tal ponto que hoje, à parte as manifestações folclóricas e típicas de cada povo, o jazz se encontra presente no cardápio musical de qualquer lugar do mundo.        

Um comentário:

julinhoguitarra disse...

Caro Augusto, esse artigo sobre a força integradora do jazz na história dos EUA é muito interessante. Foi demonstrado em poucos palavras, como a música é capaz de unir pessoas de diferentes regiões, interesses, credos e faixas etárias. Parabéns, e que esses artigos sejam disseminados nas nossas escolas e aos nossos formadores de opinião.