segunda-feira, 13 de junho de 2016






RECEITA PARA SAIR DA CRISE

O jogador Douglas Costa, atacante do Bayern München foi cortado da seleção brasileira que disputa a Copa América nos Estados Unidos por motivo de contusão.
Em Porto Alegre, onde aproveitou a parada das atividades na Europa para descansar lado da família, ele concedeu uma entrevista para o jornal Zero Hora, onde assinalou alguns pontos que entram em sintonia com a minha forma de analisar a decadência do futebol brasileiro.
Para ele, os principais problemas se resumem ao exercício da técnica, à aplicação tática e a um técnico competente.
Expressando-se com muita clareza – e com muito cuidado para não cair em desgraça com a CBF, apesar de ter colocado Dunga numa posição não muito confortável – ele criticou o futebol praticado por aqui, disse que estamos precisando de um Pepe Guardiola e que nenhum time brasileiro teria condições de disputar uma Champions League, cujo nível é bem mais elevado.
Na semana passada eu mencionei que iria tocar neste assunto com mais profundidade, e a entrevista de Douglas Costa abriu a deixa que eu precisava.
Trocando em miúdos, os problemas do futebol brasileiro podem ser divididos em três partes.
Primeiro a CBF, que é responsável pela organização e pelo calendário.
Do jeito que está, com os clubes disputando múltiplos torneios durante todo o ano, os atletas não têm como treinar, pois sua vida se resume ao ciclo “jogo-viagem-reapresentação-avaliação física-viagem-hotel-jogo-viagem...”, e por aí segue.
A CBF perdeu a sensibilidade de administrar o futebol como um todo e está mais preocupada com aquilo que sempre deveria ter sido o seu “métier”, ou seja, a seleção brasileira. Ocorre que na atual conjuntura, o presidente está trabalhando com uma espada pendurada e balançando sobre a cabeça e tem dificuldades para manter os contratos de patrocínio vitais para que as seleções possam se manter em atividade. O futebol da seleção proncipal perdeu muito do seu poder de venda, pois deixou de proporcionar espetáculo, e tudo isso acaba por força deixando o futebol dos clubes em segundo plano.
É mais que chegada a hora de ser feito um grande pacto entre a CBF e os clubes a fim de fundar uma Liga sólida e séria que administre o futebol dos clubes como um todo. As pequenas ligas piratas, solitárias, dissidentes, ranzinzas e sem força – como a atual Primeira Liga – só ajudam a tumultuar, pois não têm força nem legitimidade.
Em segundo lugar, nossos técnicos estão vinte anos atrasados com relação aos de outros países – inclusive os sul-americanos.
A forma de jogar dos times estrangeiros, mesmo quando contam com jogadores não mais que razoáveis, mostra um futebol de ocupação de espaços, deslocamentos, toque rápido de bola e muita dedicação, e nada disso se vê nos clubes brasileiros por falta de orientação e acompanhamento técnico.
Nossos técnicos “não dão certo” no exterior, e deve existir uma boa razão para isso; ainda esta semana, dois medalhões brasileiros (Vanderlei Luxemburgo e Mano Menezes) foram demitidos de dois clubes da segunda divisão chinesa.
Por outro lado, os técnicos estrangeiros que chegam para treinar equipes brasileiras lutam com a maior dificuldade para impor uma filosofia de jogo, face ao sistema viciado que atualmente é utilizado nos clubes – vide Edgardo Bauza (São Paulo), Juan Carlos Osorio (ex-São Paulo) e Paulo Bento (Cruzeiro).
Por último, o rendimento das equipes poderia ser melhor se os jogadores se preocupassem mais em treinar fundamentos essenciais para a prática da sua profissão do que com o “hair stylist”, com as boutiques da moda, com as baladas de funk, pagode e sertanejo, com a exposição ao lado das Maria-Chuteiras e com as horas gastas fazendo selfies ou tuitando bobagens.
Jogadores como Zico e Rogério Ceni, só para citar alguns, passavam horas depois dos treinos oficiais aprimorando a cobrança de faltas e pênaltis, e às vezes pagavam do próprio bolso para ter a companhia de um jogador das categorias de base ajudando no treinamento.
Cafu foi transformado por Telê Santana de um limitado volante a um lateral que ajudou a potencializar a função de “ala” no futebol mundial. Nele, Telê aprimorou também a cobrança de escanteios e os cruzamentos mortais para a grande área adversária.
Ter talento é uma coisa. Fazer bom uso do talento é algo bem diferente.     


 (Artigo publicado no caderno de Esportes do jornal O Imparcial de 10/06/2016)



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