quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014



O JAZZ COMO FATOR DE INTEGRAÇÃO
 

No final do século 19, os Estados Unidos juntavam os cacos de uma guerra civil que durante quatro anos havia devastado os estados do sul, provocando quase um milhão de mortos.
Feita a paz, começou a luta para a criação de uma identidade nacional em um país cujas raízes haviam sido fortemente influenciadas pelos colonizadores da Grã-Bretanha, França e Espanha até conseguisse a sua independência.
Um dos grandes entraves no aspecto social que o país teve que enfrentar foi a divisão racial entre brancos e negros, um problema que foi minimizado ao longo do tempo, mas que até os dias de hoje ainda mantém seus focos de resistência.
Paradoxalmente, no entanto, um dos fatores que ajudaram a unificar a nação nasceu exatamente deste ponto polêmico e delicado – a atuação conjunta de negros e brancos.
Apesar da busca pela integração do país, fortalecida por leis contidas em uma constituição fortemente democrática, foi o jazz o grande responsável pelo impulso necessário para que norte e sul começassem efetivamente a trocar experiências pessoais, produzindo uma intrincada e eficiente rede de informações que teve a música como tema.
A diversidade musical na passagem do século 19 para o século 20 dividia o país em regiões musicais específicas: no sul, notadamente na Louisiana, descortinava o blues, essência do que seria a música americana no futuro; o norte e o nordeste privilegiavam uma música que continha uma forte marca das orquestras de salão européias; o oeste e o centro-oeste cultivavam a country music, de origem irlandesa. 
A troca de experiências entre os músicos negros autodidatas do sul e os músicos brancos elegantes do norte começou com a diáspora de grupos musicais que partiram de cidades como Nova Orleans em direção a Nova York e Chicago e foram deixando a semente pelo caminho – Kansas City, Saint Louis – fazendo com que, em pouco mais de dez anos, praticamente todo o país começasse a se unir musicalmente em torno de uma só palavra – jazz.
Esta identificação foi tão forte que se transformou em uma marca registrada dos Estados Unidos e em um fator motivador para os americanos que, por um motivo ou outro, se encontravam fora do país.
Naquele tempo – início do século 20 – a Europa era a senhora do mundo.
Países como Inglaterra, França, Itália e Alemanha possuíam uma forte liderança política, cultural e estratégica, o que lhes permitia ditar as regras de comportamento para todo o planeta.
A África era em grande parte colonizada, e mesmo a Ásia sofria uma forte influência deste colonialismo imposto sem qualquer respeito às tradições de cada povo nativo.
O Brasil não era colonizado, mas também era fascinado pelo europeísmo.
As nossas famílias mais abastadas mandavam seus filhos para Paris ou Londres a fim de completarem seus estudos e trazerem para a nova República toda uma bagagem de conhecimento que nos possibilitasse um crescimento “à europeia”.
Na América do Norte, no entanto, a visão de crescimento era outra, tendo como fator de integração um patriotismo exacerbado e um intenso orgulho próprio, o que, ajudado por outros fatos circunstanciais – duas guerras mundiais, por exemplo – levaram o país a liderar o mundo a partir do primeiro quarto do século 20.
O principal fator de integração, no entanto, foi a disseminação do jazz, que diferenciou o país do resto do mundo em termos de música e fez ainda mais, exercendo a sua influência a tal ponto que hoje, à parte as manifestações folclóricas e típicas de cada povo, o jazz se encontra presente no cardápio musical de qualquer lugar do mundo. 
A invasão do jazz começou pela Europa e aos poucos foi tomando conta do planeta de uma maneira lenta, mas forte e irreversível.    

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014





OUTRA VEZ, RACISMO
 

Apesar da estreia dos clubes brasileiros na fase de grupos da Copa Libertadores, o assunto que galvanizou a semana foi a abominável e inexplicável atitude de racismo demonstrada contra Tinga, jogador do Cruzeiro, por torcedores do Real Garcilaso.
Abominável porque o racismo é uma das atitudes mais rasteiras e perversas concebidas pelo comportamento humano.
É inconcebível que pessoas ainda cultivem a índole mesquinha de menosprezar outras pessoas por causa da raça ou da cor da pele. Infelizmente este procedimento parece ser atávico ao ser humano, e não tem perspectiva de mudar. Note-se que não estou falando do racismo ao negro, em particular, mas entre todas as raças, inclusive do negro contra o branco (possivelmente uma reação, mas ainda assim racismo).
Inexplicável porque numa partida de futebol onde atuaram alguns atletas mais negros ou menos negros – além de Tinga havia Dedé e Júlio Baptista – apenas o meio-campista tenha recebido tal tratamento, talvez pelo seu visual rastafári (o que enseja mais um tipo de racismo).
Inexplicável também porque a provocação não partiu de loiros finlandeses nem pálidos caucasianos, mas de peruanos, cuja população é eminentemente formada por mestiços de índios quíchuas, amazônicos e negros, com quase 15% de negros tão negros como Tinga, muitos dos quais presentes nas arquibancadas.
O fato foi devidamente explorado por toda a imprensa mundial, a Conmebol estuda as penalidades cabíveis ao clube peruano, os presidentes do Brasil e do Peru condenaram a atitude da torcida e Tinga voltou para Minas onde recebeu conforto e apoio de cruzeirenses e de rivais atleticanos.
Ao longo da história, o racismo e seus vizinhos mais próximos, como a xenofobia, a intolerância e a perseguição religiosa, têm sido responsáveis por crimes sem conta desde os relatos bíblicos, passando pelas Cruzadas, pela Inquisição e pela Segunda Guerra Mundial. O racismo gera a formação de seitas e associações, que produzem mais racismo e violência.
No atual momento, o racismo é também social, e se manifesta não apenas por meio de injúrias e provocações aos negros, mas também pelo pouco caso com que a humanidade está tratando pessoas menos favorecidas, como pobres e favelados.
Na Itália o racismo é exercido pelos povos do norte contra os do sul, a quem eles chamam de “marroquinos” (ficando então implícito outro racismo – o dos italianos com relação aos africanos).
O torcedor europeu, de uma forma geral, seja da Rússia, Alemanha, França ou Turquia, volta e meia dá demonstrações de racismo contra jogadores negros de qualquer nacionalidade – e olhem que negros e mulatos não faltam nos clubes de lá.
Mesmo entre jogadores são notórios os casos de ofensa racial, embora neste caso exista o componente do calor da competição, sendo geralmente usada na tentativa de desequilibrar emocionalmente o adversário, assim, é preciso diferenciar racismo de ofensas fortuitas.
Tudo indica que muitas vezes as ofensas racistas não tenham a finalidade que confrontar a superioridade de uma raça sobre as outras, mas sim de acender um pavio que gere nervosismo e intranquilidade. Algo assim como xingar a mãe do árbitro ou do jogador adversário.
O atual técnico do Vasco, Adilson Batista, declarou numa entrevista que o brasileiro é hipócrita, porque apesar de condenar o racismo, continua o exercendo oficialmente através das piadas de portugueses, japoneses e judeus, das ofensas desmedidas contra os argentinos e da desqualificação dos povos indígenas da América Latina, inclusive nossos próprios índios.
O assunto é uma fonte inesgotável de discussões e provavelmente jamais será resolvido.

                                                                                                 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014


 

 

O bom senso e o Bom Senso

 

Os campeonatos regionais começaram de vento em popa, como aperitivo do ano esportivo que vem por aí, mas o Paulistão estava na iminência de sofrer uma greve geral. Depois de muitas marchas e contramarchas a propalada paralização acabou ficando só na ameaça.
A ameaça serviu apenas para o Bom Senso F.C. agitar o cenário neste início de ano, depois que suas reivindicações iniciais no ano passado foram solenemente ignoradas pela CBF e pelas federações.
Afinal, a CBF tem motivos de sobra para desconversar e empurrar com a barriga as propostas de Paulo André e Cia. num ano em que ela terá eleições em abril e uma Copa do Mundo em junho. Considere-se ainda a possibilidade de a Justiça intervir no Campeonato Brasileiro.
De qualquer forma, apesar de ser justa a grita do Bom Senso em desagravo às constantes transgressões das torcidas organizadas e das brigas dentro dos estádios, a associação não nasceu por causa disso e sim pela necessidade de um calendário mais humano que não exija tanto dos jogadores.
Por isso, as razões que levariam à paralização do Paulistão neste exato momento não tinham muita consistência, pois o que aconteceu foi uma atitude isolada que nada tinha a ver com problemas de jogadores com o calendário.
O caso foi localizado, não teve a participação de torcidas adversárias nem aconteceu durante uma partida: o Centro de Treinamento do Corinthians foi invadido, jogadores e funcionários foram ameaçados – alguns chegaram a ser agredidos – a polícia mais uma vez não fez nada, a diretoria do clube é omissa e a lei continua agindo no banho-maria em fogo baixo.
O fato é grave, e já aconteceu no passado com Palmeiras, Flamengo, Cruzeiro e com o próprio Corinthians, mas não seria uma paralização de protesto que iria mudar o panorama.
A paralização de uma rodada ou mesmo do campeonato inteiro não iria alterar significativamente este estado de coisas, e as torcidas teriam até mais motivos para vandalizar as sedes e a propriedade dos clubes, dirigentes e jogadores, como represália.
Além disso, existem compromissos comerciais com a televisão que banca o espetáculo, com os patrocinadores que ajudam a contratar e a pagar os jogadores e também um compromisso afetivo com o torcedor que vai ao estádio para ver o seu time jogar, na chuva ou no sol, fazendo frio ou calor, seja dia ou noite.
Por isso, faltou bom senso ao Bom Senso F.C. ao arquitetar a ideia. Por causa disso, ao associação acabou rachando.
O Sindicato dos Atletas comprou a ideia, mas teve o bom senso de minimizar o problema, pois apesar de falar grosso e exigir providências, concordou que os jogos fossem realizados “sob protesto e em estado de greve”.
Bom senso por bom senso, os clubes do interior não se sensibilizaram com a possibilidade de parar de jogar e de arrecadar para pagar as despesas com seus elencos.
Também, as pessoas de bom senso perceberam claramente que este era um problema localizado que deveria ser resolvido especificamente pelo Corinthians, seja através de meios diplomáticos, seja através de ações legais.
Afinal, uma paralização a esta altura do campeonato – sem trocadilho – viria beneficiar apenas o clube mosqueteiro, que vinha de quatro derrotas seguidas e precisava de tempo para se refazer.
Existe realmente a necessidade de uma mobilização séria, mas esta mobilização deve partir da própria CBF e das federações estaduais, na tentativa de exigir do poder constituído condições para que o futebol – paixão maior do cidadão brasileiro – volte a ser disputado dando aos atletas, às instituições a ao público as devidas condições de segurança.
E que os clubes deixem de financiar e proteger os malfeitores.

                                                                                                

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014


 

 

NEGÓCIOS A QUALQUER PREÇO

 

Não é de hoje que as grandes transações no futebol são objeto de dúvidas e incertezas com respeito à sua lisura e moralidade. Desde a primeira grande transferência no Brasil – quando Leônidas da Silva, considerado a primeira celebridade do futebol brasileiro, trocou o Flamengo pelo São Paulo em 1942 por 200 contos de réis – o que não faltaram foram especulações e acusações entre clubes, dirigentes de um mesmo clube e torcedores.
Estas acusações somam denúncias de malversação de verbas, improbidade financeira e contabilidade paralela, e inclui muita gente ganhando dinheiro sem fazer força.
De algum tempo pra cá, juntou-se a este elenco a figura do empresário, alvo do amor de alguns e do ódio da maioria, dependendo de qual lado o vento soprar.
O fato é que em todas as negociações o jogador continua embolsando menos dinheiro do que as instituições, os dirigentes e os atravessadores.
No caso de Leônidas, o Flamengo chegou a pedir a prisão do jogador, acusando-o de haver fraudado seu certificado de reservista para facilitar a transação, isto é, quando se sentem incomodadas as partes apelam pra qualquer tipo de santo.
Se isto aconteceu no âmbito interno com uma “modesta” celebridade de 1940, nada mais natural que este furacão se repita setenta anos depois em uma dimensão muito maior, pois navega em nível internacional com a celebridade “pop” do momento – Neymar Junior.
Mas o tamanho da encrenca desta vez parece ser muito sério, tendo causado inclusive a demissão do presidente do Barcelona, Sandro Rossell, que há algum tempo já havia sido alvo de denúncias em empreitadas escusas com a participação de João Havelange e Ricardo Teixeira.
A renúncia de Rossell obrigou o novo presidente Josep Maria Bartomeu – embora interino – a entrar na casa de marimbondos, dar satisfações à imprensa mundial, especialmente a espanhola, e abrir os livros para uma auditoria fiscal.
Assim, o mundo ficou sabendo que o valor exato da negociação havia sido R$  284 milhões, e não R$ 187, como fôra anunciado.
Há, portanto, algo de podre no Reino da Catalunha, e infelizmente o vazamento ameaça atingir o jogador Neymar, cujo único pecado é ser um craque de bola, objeto de desejo de todos os clubes do mundo, infelizmente cercado de pessoas não muito recomendáveis.
O Santos e a DIS, detentora de parte dos direitos sobre a venda do jogador, reclamam o seu quinhão na diferença de R$ 97 milhões que não haviam sido contabilizados na transação (apesar de Santos e DIS serem desafetos desde a transferência de Ganso para o São Paulo, eles agora estão unidos contra o inimigo comum).
E este inimigo comum não é ninguém menos do que o Sr. Neymar Pai, que contou uma história nebulosa referente a um empréstimo (ou adiantamento para garantir o negócio) de R$ 40 milhões (?!), e só fez complicar mais a situação.
Entre os flagrantes de ilegalidade suspeita-se de lavagem de dinheiro (onde entraria Rossell, usando Neymar Pai como “laranja”), caixa dois (o Barcelona pagando a transferência e as comissões sem a documentação obrigatória) e desrespeito às leis da Fifa que regulam as transferências internacionais de jogadores e proíbem qualquer transação financeira antecipada para não caracterizar aliciamento de atletas com contrato.
Com certeza esta confusão era a última coisa que o jogador queria que acontecesse em um ano em que ele precisa de paz para encarar a Copa do Mundo da sua vida.
Um belo manjar para quem gosta de emoções fortes que já rendeu a demissão de um presidente e promete ficar mais apimentado.

                                                                                                

 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014


 
 
A PENDENGA CONTINUA 

O primeiro Gol de Placa que vou marcar este ano ainda não vai balançar as redes, pois neste início de temporada as coisas extracampo estão prevalecendo sobre as disputas na bola. Assim, terminamos o ano passado focalizando a justiça no futebol e vamos iniciar 2014 falando do mesmo assunto.
A situação do rebaixamento do Campeonato Brasileiro de 2013 continua indefinida, pois esbarra em decisões conflitantes de Varas Cíveis do Rio de Janeiro e de São Paulo e em novas ações coletivas impetradas por torcedores da Lusa. Existem ainda outras liminares espocando aqui e ali enquanto muitos doutores da lei continuam se aprofundando na matéria e justificando seus arrazoados.
Não serei eu, portanto, quem vai dizer o que está certo ou o que está errado, ou sequer imaginar o que irá acontecer.
Problemas da Portuguesa, do Fluminense, do Flamengo e da CBF.
A situação à qual chegamos tem a sua origem na criação do STJD – Superior Tribunal de Justiça Desportiva, feito para discutir e definir as legalidades do esporte no Brasil em rede privada, propiciando maior agilidade processual e rapidez nas decisões a fim de não engessar as competições esportivas.
O próprio estatuto do STJD admite a possibilidade de análise pelo Poder Judiciário conforme expresso na Constituição, quando esgotados os meios da Justiça Desportiva, mas existe um acordo de cavalheiros entre os clubes que preferem não usar deste direito para não criar uma confusão maior que acabaria prejudicando a todos.
Tudo porque, caso o assunto desportivo fosse julgado pelas vias oficiais, anos poderiam transcorrer até que se tivesse uma decisão final em virtude da vilania cometida.
O Brasil não é o país das leis e sim o país da interpretação das leis, o que faz com que a Justiça em si seja colocada em segundo plano se for habilmente trabalhada por um advogado rico em sofismas e silogismos.
A batalha verbal entre juristas consagrados é tão importante que muitas delas se constituem em verdadeiras obras de arte e fazem a delícia do estudioso, muito embora possam levar a verdadeira justiça ao descrédito.
Assim, com todas as possíveis distorções a que uma Justiça não oficial está sujeita, é preferível vê-la agindo com celeridade do que correr o mesmo risco de um veredicto incorreto que leve anos para ser proferido.
O problema dos clubes brasileiros é cultural.
Em outros países clubes caem para as divisões de baixo e tornam a subir (ou não) usando apenas o futebol praticado no gramado por uma equipe de jogadores, não de advogados.
Em 2006 a Juventus, clube de maior torcida na Itália perdeu os títulos conquistados em 2005 e 2006 e foi rebaixada para a Série B. Pergunta-se se a Justiça Desportiva brasileira teria a coragem de fazer o mesmo com Flamengo ou Corinthians, donos das maiores torcidas por aqui. 
É bom que se lembre de que diversos grandes clubes brasileiros já amargaram a Série B e não é por isso que deixaram de ser grandes – pelo contrário, comprovaram a sua grandeza retornando à divisão de elite através dos resultados conseguidos em campo.
Talvez esteja na hora de o STJD fazer algumas alterações na sua legislação, que por ser de natureza privada não depende de uma constituinte.
Seria bem vinda, por exemplo, a disposição que transferisse as perdas de pontos para a competição seguinte ao invés de mexer na classificação, favorecendo ou prejudicando outros clubes que nada tem a ver com o imbróglio.

                                                                                                

terça-feira, 31 de dezembro de 2013


 
 
 
UMA PEQUENA HISTÓRIA BÍBLICA

Efraim era o criado favorito de um bem sucedido negociante chamado Salatiel, que morava numa aldeia ao norte do Monte Gaás. Ele era o criado favorito por ter sempre agido com ética e retidão, exercendo o seu trabalho com zelo e respeito, qualidades dedicadas às funções que lhe eram atribuídas.
Salatiel era um homem muito rico e muito justo, e buscava tratar todas as pessoas com as quais convivia – criados, parentes, clientes e outros comerciantes – com muito respeito e consideração.
Certo dia, Salatiel chamou Efraim e lhe confiou o seu cofre, pois iria se ausentar por algumas semanas e queria ter certeza de que seu patrimônio estaria bem cuidado.
Efraim garantiu ao patrão que zelaria pelo tesouro como se zelasse pela própria vida, e Salatiel partiu confiante em que faria bons negócios nas cidades para onde estava indo e que seu dinheiro estava em boas mãos.
Na verdade, Salatiel havia escondido a maior parte da sua fortuna numa caverna onde apenas ele sabia a localização. Deixara com Efraim apenas um cofre contendo 100 moedas de ouro, e o que fazia na verdade era mais um teste de fidelidade, pois não havia a real necessidade de que um criado guardasse o seu tesouro.
Por ser o favorito do comerciante, Efraim era um constante objeto da inveja do restante da criadagem, e assim que o patrão desapareceu no horizonte, Azarias, que mantinha uma certa liderança sobre os outros criados, maquinou uma história para deslustrar a imagem do favorito aos olhos de Salatiel e se colocar no seu lugar como favorito.
Mesmo sem saber o valor contido no cofre, ele resolveu denunciar ao patrão quando da sua volta que Efraim havia aberto o cofre e surrupiado algumas moedas.
Dito e feito.
Quando Salatiel voltou, ele foi informado por Azarias e pelos outros criados que Efraim havia traído a sua confiança, aberto o cofre e roubado algumas moedas. E os criados foram além, dizendo ao chefe que da próxima vez em que ele se ausentasse, era em Azarias que Salatiel devia confiar, pois Efraim não se mostrara digno de tal confiança.
Desgostoso com o problema, pois depositava inteira confiança em Efraim, Salatiel decidiu averiguar. Primeiro, abriu o cofre e contou as moedas. Ficou satisfeito com o que viu e sentiu um grande alívio por saber que seu julgamento sobre Efraim era justo e correto. O cofre continha as exatas 100 moedas de ouro.
Ao mesmo tempo Salatiel ficou triste por saber que a sua casa abrigava víboras como Azarias e pensou na melhor maneira de puni-lo.
Como não era um homem violento e como, na verdade, seu patrimônio não havia sido lesado, Salatiel decidiu que faria apenas um breve discurso.
Reuniu a criadagem, relatou o fato e declarou que sob o seu teto só poderiam ficar aqueles que tivessem a alma pura e bons propósitos. Acusações infundadas e a disseminação da discórdia entre irmãos eram atos do demônio e isto não poderia ser tolerado.
Finalizou dizendo: “Quem inventa maldades a respeito do seu próximo, denunciando que ele esteja fazendo mal feitos, demonstra um caráter mesquinho. Quem espalha notícias sem comprovação da sua veracidade é porque tem na sua mente a mesma sujeira que perpetrou para incriminar um inocente. Nunca acreditei que Efraim fosse capaz de me trair ou de agir com improbidade, mas agora passo a acreditar que, no seu lugar Azarias teria agido sem retidão, pois sua cabeça é capaz de conceber tal vilania. Que este exemplo sirva de lição a todos os que procuram se elevar em detrimento de outros. Agindo com nobreza e dignidade, todos terão a sua vez, mas usando a língua viperina e atitudes escusas estarão se afastando da credibilidade e de Deus”.

31.12.2013

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013





UMA AVENTURA DE NATAL

 

Nem bem tinha fechado os olhos quando o relógio o despertou.
Dez da noite.
O sono lhe fora pesado e curto.
Os dias de tensão, as noites de vigília, a semana inteira ordenando as idéias, cigarro após cigarro pensando na noite de Natal, na importância da noite de Natal, no presente de Papai Noel.
O tilintar do relógio despertador lhe pareceu o badalar de sinos dentro da caixa craniana, o sobressalto lhe assaltando, a adrenalina concentrada, os nervos em pandarecos.
Mas tinha que se controlar. Não era hora de ficar nervoso, o Natal está a poucas horas, a vestimenta de Papai Noel lhe está sorrindo, acenando e pedindo calma.
Pensou em ficar ainda mais um pouco deitado, dormitando, bem agora que o corpo havia encontrado a posição ideal, nenhum mosquito pra incomodar, aquela preguiça, aquela lassidão.
Mas não podia, queria mas não podia, o dever gritava nos seus ouvidos – hoje é noite de Papai Noel!
Ergueu-se como uma mola.
Se continuasse deitado iria dormir de novo, iria perder a hora e então, adeus sonho, adeus Papai Noel.
No canto, amarfanhada, a roupa vermelha e a ridícula barba branca.
Pensou se não teria sido mais fácil ter deixado crescer a própria barba, embora negra e hirsuta, e depois pintá-la ou passar água oxigenada nos pelos grossos, mas a idéia lhe foi repugnante.
Dentro da cabeça a expectativa crescendo, tremendo, fremindo, nesta noite de pura emoção. Outro cigarro aceso.
Lá fora, a grande noite, o céu estrelado, o vento brando, alguns foguetes espocando aqui e ali, prenúncio de uma grande noite de Natal.
Aqui, a túnica vermelha com alguns fios esgarçados pelo uso, os apliques brancos, a bota preta precisando de uma demão de graxa. No canto, dependurada num prego na parede, a barba branca continuava sorrindo aquele sorriso sem boca, aquele sorriso de Papai Noel.
Aos trinta e dois anos, mais do que nunca, acreditava em Papai Noel.
E nunca Papai Noel lhe fora tão importante, nunca marcara sua vida com tanta tinta como nesta noite de Natal, como uma pintura impressionista.
Agora não era mais um simples e puro sonho de criança, aquele encanto de ficar acordado até que lhe aparecesse o presente, o pacote cheio de laços, a surpresa envolta em papel de seda e celofane crepitante, aquela bobagem de renas puxando o trenó, de chaminés, a meia dependurada na árvore e o sapato na janela.
Agora era real, era vestir a fantasia, colocar a barba, enfiar o capuz até o meio da testa, calçar as botas um número mais largas, apanhar o saco cheio de coisas e partir para a maior noite da sua vida.
Primeiro vestiu a calça fofa, depois enfiou as botas e os dedos dançaram naquele espaço imenso. Depois a túnica. Havia uma mancha de gordura bem do lado esquerdo, foi aquele Papai Noel da lanchonete da última quarta-feira, aquele menino gordinho que deixou cair maionese daquele maldito cachorro quente – onde já se viu comer cachorro quente com maionese?, isto é coisa de americano.
Foi ao espelho e, com muito cuidado começou a colocar a barba, amarrada de um lado e colada de outro, puxa, não sabia que isto era tão complicado!, o nariz parecendo mais vermelho e finalmente o sorriso branco, confiante e feliz.
Agora o capuz. Tomara que não vá atrapalhar, com aquele pom-pom grotesco balançando na ponta – ele continuava achando absurdo alguém usar este tipo de chapéu, nem o verdadeiro Papai Noel com seus mil e seiscentos anos de idade dirigindo seu trenó e suas renas pelas planícies geladas da Lapônia, nem o próprio Polichinelo.
Olhou as horas.
Analisou o conteúdo do saco. Tudo certo.
Olhou novamente para o relógio.
Onze e trinta e cinco. Lá fora um cachorro late, e surge um som ruidoso de canções de Natal com harpa paraguaia, meio fora de moda, gosto duvidoso.
Está na hora de sair.
Puxa o saco não tão pesado para os ombros, levanta os olhos para o teto como se mirasse a abóboda da Capela Sistina, como se pedisse aos céus que esta noite fosse, de fato, a noite mais feliz da sua existência.
Aproxima-se da porta.
Então, o vendaval.
A porta se abre para dentro com um estrondo, o mundo desabando sobre a sua cabeça, as estrelas da Sistina dançando ao seu redor, homens gritando, armas, mãos para o alto, “quieto, se não quiser morrer!”
Papai Noel com as mãos na parede, somente agora ele notou que tinha se esquecido de calçar as luvas, os olhos esbugalhados, o suor escorrendo por dentro da barba, o rim doendo pela pancada da coronha bem manejada, no rosto o ríctus doloroso.
“Tá preso, assaltante safado!”
O plano havia sido descoberto.
No chão, o saco revirado mostra algumas ferramentas, algumas folhas de jornais velhos, uma pistola trinta e oito, dois rolos de esparadrapo, uma bomba caseira de má fabricação e seu amuleto da sorte, uma ferradura de verdade com uma fita vermelha amarrada num dos furos.
O cachorro ainda late, mas agora se ouve o Messias de Haendel.
Bate a meia-noite na noite de Natal.
Sinos repicam marcando a hora da Missa do Galo, o movimento é pequeno, mas sente-se no ar um certo burburinho, como se estivéssemos dentro de uma garrafa de champanhe.  
Na esquina, próxima ao Banco imponente, todo revestido de mármore preto, um rapaz está encostado ao poste. Ajeita o boné para frente e enfia a mão no bolso, nervosamente. Olha para os lados atentamente, como um gato.
A uns cem metros, ao lado de uma placa de estacionamento proibido, junto ao meio-fio pintado de amarelo, dentro de um carro escuro, dois homens se questionam – “não está na hora? – e fumam impacientes, a fumaça toldando o espelho retrovisor.
Em frente ao Banco passa vagarosamente um outro rapaz, disfarçando alguma coisa, olhando para os lados, ansioso. Consulta o relógio sob a luz do poste, os sinos batem, os ponteiros se encontram.
Todos estão esperando por Papai Noel.
Ao longe, os sinos continuam repicando, se confundindo com o som da sirene que se aproxima.

 

 

 

 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013


  

ET INTERPRETATIONEM IUSTICIAE

 

O futebol brasileiro termina o ano convulsionado, cheio de acusações, de ameaças e de direitos defendidos e contestados.
Tudo porque o regulamento do Campeonato Brasileiro, cujo texto foi produzido em comum acordo por todos os representantes dos clubes disputantes, parece que não foi escrito nem lido com atenção ou não foi corretamente compreendido por muitos dirigentes. Dirigente desatento – ou esperto demais – é prenúncio de confusão.
Não vou entrar em detalhes sobre um assunto que é de domínio público e que foi coberto durante boa parte da semana pelos jornais, rádios, emissoras de televisão e redes sociais, mas posso resumir que em princípio o Fluminense jamais reivindicou os pontos da Portuguesa – quem o fez, estranhamente, foi o procurador geral do STJD, Paulo Schmidt, assim que terminou a rodada.
Naquele instante, o Fluminense era só lágrimas e desespero.
A centelha de esperança veio quando o clube ficou sabendo da acusação do procurador, que de uma maneira inédita se antecipou a qualquer recurso e, considerando a sua posição, praticamente decretou o rebaixamento da Portuguesa para a Série B antes mesmo do julgamento. O resto – a votação unânime posterior – foi apenas uma consequência do seu posicionamento.
Ocorre que a CBF não publicou seu boletim em tempo hábil para que a Lusa tomasse conhecimento da penalidade de forma oficial – e a CBF é portanto coautora do delito. Ocorre também que a lei do STJD está em desacordo com o Estatuto do Torcedor (Lei Federal 12.299, de 15/05/2003) e um recurso impetrado pela Portuguesa evocando o texto do Estatuto pode tornar a decisão do STJD nula.
De acordo com juristas proeminentes, as leis esportivas podem regulamentar as competições, mas não são leis e não têm força de lei, devendo portanto, em caso de interpretações discordantes, se submeter à lei magna.
De acordo com informações colhidas aqui e ali, o Brasil é um dos países com o maior número de leis e medidas provisórias que acabam tendo força de lei. Existe uma Constituição Federal que á a mãe de todas as leis e, embora cada estado ou município possa promulgar as suas (que muitas vezes entram em choque com a lei maior), eles não podem passar por cima da Carta Magna.  
O mesmo acontece com aqueles que redigem regulamentos esportivos, regras de condomínios, estatutos de associações recreativas, e quejandos, mas como seus artigos são geralmente feitos em comum acordo entre dirigentes e associados, são poucas as vezes em que as decisões tomadas em função dessa lei menor são contestadas em nome da Constituição.
Eu, pessoalmente, sou avesso a recursos e a recursos sobre recursos no que diz respeito ao futebol, e acho que os resultados obtidos no campo não deveriam ser alterados a não ser que acontecesse um erro de direito, como por exemplo um time atuar com mais de onze atletas ou quando o árbitro toma decisões estapafúrdias por um total desconhecimento das regras.
Acredito que a punição mais correta, em nome da credibilidade do futebol e do respeito ao público torcedor, seria manter todos os resultados e pontos obtidos em campo, penalizando o clube declarado infrator com a perda de um determinado número de pontos quando do início do próximo torneio da mesma categoria.
Qualquer coisa que venha acontecer agora, quer favorecendo o Fluminense quer favorecendo a Portuguesa, já manchou indelevelmente o nome do Campeonato Brasileiro de 2013.

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Estarei de licença durante a época natalina e início do ano. Gol de Placa estará de volta no dia 27 de janeiro de 2014.
Desejo aos leitores e companheiros de O Imparcial, um Feliz Natal, Boas Festas e um ano novo de saúde, paz e prosperidade.  

                                                                                                 Augusto Pellegrini

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013


 

TOLERÂNCIA ZERO
 

Tardiamente, o Brasil começa a se mobilizar para enfrentar a onda de violência generalizada que vem se espalhando pelo país como erva daninha.
Não se sabe se as nossas autoridades estão mais preocupadas com o bem estar do cidadão ou com a imagem do país em um período que antecede um boom inédito de turistas por causa da Copa do Mundo, mas o fato é que finalmente parece que começaram a se mexer.
Hoje, com a globalização da notícia e a instantaneidade das redes sociais, muitas vezes mais precisas e mais rápidas do que o jornalismo convencional, em poucos minutos o mundo fica sabendo de um camarada que se atira da sacada de um shopping center da China após ter se desentendido com a mulher por causa de compras, ou de mais um maluco que sai dando tiros em uma escola nos Estados Unidos, ou ainda um turista canadense que é assassinado em um assalto em plena estrada de Santos, aquela mesma imortalizada por Roberto Carlos.
A imprensa estrangeira está dando muita ênfase aos arrastões nas praias do Rio de Janeiro, aos problemas com turistas que são assaltados em São Paulo, Salvador ou Recife, a assaltos seguidos de estupro em vans que fazem o trajeto Rio-Niterói, e à falta de direção das balas perdidas que descem os morros cariocas sem a menor cerimônia, seja tudo isso fruto de exagero ou não.
Não se sabe ainda quais serão as providências que serão tomadas nem a extensão da punição dos que são até agora beneficiados pela impunidade, mas parece que estamos dando um passo à frente.
Tomara que este passo à frente não seja dado, como diz a piada, em direção a um abismo, e tomara também que – o que parece ser uma infeliz consequência de certas práticas brasileiras – este passo não venha significar mais tarde dois passos para trás.
Pela primeira vez o Estado resolveu intervir pra valer e colocou ninguém menos do que o Ministro da Justiça para comandar, organizar ou intermediar os trabalhos – isto ainda não ficou muito claro.
O fato é que são prometidas diversas ações, a maioria delas criando órgãos reguladores, jurídicos ou penais que esperamos não esbarrem na lentidão dos processos no Brasil e nos famosos recursos que muitas vezes favorecem os criminosos.
No caso dos arruaceiros, a justiça deve ser rápida e sumária, ou o remédio não fará efeito.
A já tardia decisão foi tomada em função dos incidentes de Joinville, onde imperou uma selvageria poucas vezes retratada ao vivo pela televisão.
Entrou novamente na pauta da discussão a necessidade de catalogar os delinquentes num álbum que tenha abrangência nacional e obrigá-los, nos dias de jogos dos seus times, a se apresentarem a uma delegacia duas horas antes do início do jogo sendo liberados apenas duas horas após o seu término. A prestação de serviços comunitários durante algumas horas por semana também faz parte do projeto, sempre que o sujeito seja identificado pelas câmaras do estádio ou fora dele cometendo algum ato lesivo a algum indivíduo ou ao patrimônio, seja ele público ou privado.
Mas este rigor com o vandalismo não deve se prender apenas ao futebol.
Os bárbaros que se travestem de manifestantes para quebrar vitrines, fachadas, bancas de revistas e paradas de ônibus, e que lançam rojões, pedras e coquetéis Molotov também devem passar pelo mesmo tratamento.
A violência gratuita não pode ser aceita de forma alguma, seja seu pano de fundo as divergências entre torcedores ou diferentes posicionamentos ideológicos.

                                                                                               

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013


 A FIFA CONTRA-ATACA

 

Jerome Valcke, Secretário Geral da Fifa, voltou ao Brasil com a corda toda.
Antes de conduzir a chatíssima cerimônia de sorteio dos grupos, ele concedeu uma entrevista que entrou em choque com a postura politicamente correta do seu chefe Joseph Blatter.
Blatter vem ultimamente se preocupando em elogiar o Brasil e está engrossando a corrente patriótica do Comitê Organizador local, buscando convencer o povo em manifestação a curtir as férias de junho-julho aplaudindo o futebol e deixando o quebra-quebra e o inconformismo para a época das eleições – isso ele não disse, mas deixou implícito.
Recentemente, em julho, Blatter chegou a derrapar ao dizer que “a entidade pode ter se equivocado ao escolher o Brasil como sede da Copa 2014”, mas agora, prudentemente, revê o seu discurso.
Mas, se Blatter procura fazer o jogo do contente, Valke passou com o seu trator em cima do protocolo e da diplomacia ao defender a Fifa das acusações que lhe são imputadas, principalmente aquelas referentes aos gastos exagerados com a Copa.
Ele declarou para quem quisesse ouvir que a Fifa não pode ser culpada pelos problemas de educação, saúde e transporte público e que, portanto, as manifestações não devem ser dirigidas contra a entidade. Acrescentou que ela não pode ser responsabilizada pelo atraso social do país. “Este recado é para os políticos brasileiros”, disse ele.
Ele também declarou que nunca houve a exigência por parte da Fifa de que a Copa fosse disputada em 12 sedes nem que novos estádios fossem construídos.  Valke confirmou que a exigência era simplesmente a escolha de 10 sedes e a reforma necessária para adequação dos estádios existentes aos padrões da Copa, além dos detalhes comerciais de praxe.
De acordo com o Secretário, a ideia de aumentar o número de cidades-sede, de derrubar o Maracanã e de construir estádios novos onde talvez não houvesse necessidade partiu dos ex-presidentes Lula – do Brasil – e Ricardo Teixeira – da CBF. Desta forma, a Fifa não aceita que lhe seja imputada responsabilidade pelo gasto excessivo de dinheiro público na obras da Copa ao invés de investir em escolas, hospitais, saneamento e mobilidade urbana.
É bom lembrar que em março de 2012, Valcke já havia jogado pesado por causa da morosidade do andamento das obras – “As coisas não estão funcionando. Muitas coisas estão atrasadas. O Brasil merece um chute no traseiro” – o que gerou uma pronta reação de Aldo Rebelo, Ministro dos Esportes, que ameaçou pedir a sua substituição no Comitê Organizador e proibir a sua entrada no país.
Enquanto Valcke morde, Blatter assopra e exerce o papel de um homem de relações públicas a serviço do Brasil.
No sorteio dos grupos ele apareceu apenas no início da cerimônia e se mostrou claramente mais preocupado em aparar arestas do que em aproveitar o deslumbramento da ocasião, fazendo um discurso previsível no qual exortou o patriotismo do povo brasileiro, a nossa costumeira hospitalidade e a paixão pelo futebol.
Foi, no entanto, mais objetivo do que a presidente Dilma, que timidamente tartamudeou o óbvio, como é do seu feitio sempre que se vê obrigada a improvisar um discurso.
Falha da organização, que poderia tê-la feito ler um texto redigido por um profissional da sua assessoria, o que não chegaria a afrontar com a informalidade do evento, mas daria um toque de legitimidade e poderia mostrar para os olhos do mundo que o Brasil é, sim, um país sério.