terça-feira, 19 de fevereiro de 2019






FLOR DO MANGUE
(Augusto Pellegrini)

Pobre puta de alma destroçada
Sem rumo exato e com destino incerto
É sempre vista e sempre rejeitada
Como o fio de esgoto que passa por perto

Rosa sem viço, flor despetalada
Olhar sem brilho, coração em postas
Voz sem vontade, imagem desfocada
Pesado fardo a carregar nas costas

Surge outro dia sem futuro ou paz
E ela oferece muito mais que um beijo
Quem passa sente um misto de desejo
E desolação, que a magra imagem traz

Falsa alegria, libido canhestro
De quem fez da vida um pacto de sangue
Uso e descarte é a sina que lhe resta
Estrela apagada, pobre flor do mangue

Fevereiro 2019


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019






NOVOCABULÁRIO INGLÊS
(Copyright MacMillan)

(ver tradução após o texto)

GRIPE SITE

If you feel that you’ve had a bad deal as a consumer, and you want to protect others from the same fate, the internet provides you with the golden opportunity to tell the whole story. Launch a GRIPE SITE, and you can give all the facts about faulty goods or deficient services to a worldwide audience.

“Quick-tempered Americans really lose it when they’ve been had as consumers. Increasingly they are taking out their anger on strongly worded internet GRIPE SITES”. (USA Today, 7th February 2005)

TRADUÇÃO

Se você sente que está fazendo um mau negócio como consumidor e quer proteger outras pessoas do mesmo destino, a internet lhe propicia a oportunidade única de divulgar o seu problema.  Crie um PORTAL DE DENÚNCIAS e você poderá publicar todos os detalhes sobre mercadorias defeituosas ou serviços deficientes para que todo mundo saiba.

 “Os americanos ficam fulos de raiva e chegam a perder o controle quando têm problemas como consumidores. Eles estão cada vez mais aliviando a sua raiva através de PORTAIS DE DENÚNCIAS onde eles podem esculhambar à vontade”.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019






O CONTADOR DE HISTÓRIAS
(excerto)

          Quem desce a Rua da Misericórdia tem a impressão de que está se dirigindo ao fundo de um poço. Lá em baixo, mesmo quando brilha o sol, a luz parece não chegar com intensidade nem irradiar o seu calor.
          Muitas pessoas vão à praça quase todos os dias, vindas de diversos lugares, e descem os duzentos metros de rampa em direção à casa de numero 341, um pequeno sobrado com pintura verde descascada em frente a um calçamento cheio de trincas, por onde crescem ervas rasteiras que formam figuras irregulares, mas mesmo assim bastante agradáveis de se ver. Essas pessoas peregrinam com a intenção de consultar um mago, e têm na mente a fantasia e a esperança de resolver as suas dores da alma.
          Na casa, ao lado da porta e de uma janela que está sempre fechada, há uma placa que serve de chamariz e indicativo a tantos visitantes – PROFESSOR GALBA – e em letras menores – QUALQUER QUE SEJA O SEU PROBLEMA, ELE SERÁ RESOLVIDO.
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          Certo dia surgiu no consultório um homem estranho que não quis preencher ficha nem declinar qual seria o seu problema, apenas se identificou como Inspetor Ramalho.
          O professor ficou impressionado com o porte do indivíduo: meia idade, altura avantajada, ombros largos, má catadura, calvo da testa até o alto da cabeça, mas com cabelos desordenados nas laterais, chegando mesmo a cobrir as orelhas. Trajava um casaco escuro por cima de uma camisa xadrez, o que lhe conferia um aspecto de lenhador, não fosse o corpo magro e esguio, embora espadaúdo.
          O Inspetor foi direto ao ponto: na próxima semana iria trazer uma pessoa para ser consultada, e esta pessoa, no menor prazo possível deveria ser estimulada a cometer suicídio. Para tanto, o professor receberia uma alta quantia, que seria paga depois que o cidadão partisse desta para melhor.
          Caso se negasse a atender ao pedido, o professor seria preso por prática ilegal da profissão e sua vida se transformaria num inferno, correndo mesmo o risco de perdê-la numa das esquinas tortuosas da cidade (e fez um gesto assustador com a mão, cortando o ar com energia – zás – como se estivesse rasgando uma garganta).
          Olhou fixamente nos olhos do assustado professor e deu um aviso: “Você não conseguirá me localizar nem adianta fazer qualquer denúncia à polícia, pedindo proteção. Eu sou a polícia”.
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          Num final de tarde, o sombrio Inspetor apareceu no consultório na companhia de um homem rechonchudo e de faces coradas como um bebê premiado, um tipo que simplesmente ama a vida e a quem nada poderia causar desespero ou a busca de soluções extremas, exatamente o oposto do que se espera de um suicida.
          O professor Galba chamou o Inspetor para a sua sala, pois precisava conversar sobre alguns detalhes que no seu dizer facilitariam a empreitada.
          Sentaram-se frente a frente e o professor ofereceu um vinho do Porto para aquecer a conversa e facilitar o diálogo. O Inspetor concordou de bom grado em tomar alguns goles e o professor apanhou a garrafa, serviu os dois cálices e começou uma peroração que indicava ao policial que tudo estava sob controle e que o plano seria cumprido sem maiores dificuldades.
          O Inspetor sorveu o vinho de uma talagada só, mostrando apreciação pela qualidade da bebida e pela cumplicidade do professor, e decidiu tomar mais uma dose, desta vez civilizadamente, enquanto o plano de execução da ideia era explicado em detalhes através de uma bem elaborada história.
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          Dez dias depois, os jornais da cidade falavam com estardalhaço sobre um corpo encontrado debaixo da ponte, ao lado sul do porto. A cidade, normalmente tranquila, estava alvoroçada, pois raramente servia de modelo para manchetes deste tipo.
          O cadáver encontrado era magro e calvo, e apresentava um profundo talho na garganta, mas os exames de praxe mostraram que a vítima havia sido envenenada por cianureto, provavelmente ingerido com vinho do Porto.
          A vítima era um policial aposentado chamado João Madeira, que já fora também conhecido por Rebouças, Trancoso e Ramalho e que atualmente vivia de pequenos expedientes.
          As coisas no número 341 da Rua da Misericórdia continuaram funcionando normalmente.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019







NOVOCABULÁRIO INGLÊS
(Copyright MacMillan)

(ver tradução após o texto)

FLEXITARIAN

You’ve got a problem: your friend who is coming to dinner is a strict vegetarian, and your parents-in-law will be expecting to eat meat. How much easier life would be if your friend were a FLEXITARIAN, prepared to eat a little meat or fish for the evening just to make life simpler for you.

“FLEXITARIANS adhere mostly to the vegetarian diet as a healthy lifestyle rather than following an ideology. They feel an occasional meal that includes fish, fowl or meat is acceptable.” (Los Angeles Times, 8th June 2004)

TRADUÇÃO

Você está com um problema: seu amigo que vem para o jantar é estritamente vegetariano, e os seus sogros gostariam de comer carne. A sua vida seria bem mais fácil se seu amigo fosse um VEGETARIANO FLEXÍVEL, preparado para comer um pouco de carne ou peixe no jantar pelo menos para tornar as coisas mais fáceis para você.     
“Os VEGETARIANOS FLEXÍVEIS de uma forma geral são adeptos do vegetarianismo não por ideologia, mas por se tratar de um modo de vida mais saudável. Eles consideram aceitável ocasionalmente comer peixe, aves ou carne”.

sábado, 9 de fevereiro de 2019







CARTAGO
(Augusto Pellegrini)

A morte rasga a carne da vil soldadesca
Em meio à intensa névoa e a um grande rebuliço
E a virgem segue nua e exposta ao sacrifício
Toda banhada em sangue na cena dantesca

A horda invade a praça, as ruas e as vielas
Ao som do grito louco dos conquistadores
O fogo queima tudo, portas e janelas
E os moradores lutam, sucumbindo em dores

O massacre segue solto, gritos e gemidos
Os animais se lançam numa cruel debandada
Espadas ceifam vidas em brutal alarido
E o sangue lava as ruas e corre nas calçadas

Como ponto final a um século de guerras
Um povo escravizado, a vida num impasse
O invasor espalha sal na conquistada terra
Para que o chão estéril nunca mais vicejasse

Não temos uma guerra, é execução, somente
Pois o povo indefeso não é feito de soldados
Pura maldade de um invasor inclemente
É Roma destruindo a República de Cartago
 

Fevereiro 2019






NOVOCABULÁRIO INGLÊS
(Copyright MacMillan)

(ver tradução após o texto)

FAT TAX

As you put these Danish pastries, chocolate biscuits and jelly beans into your trolley think how much more expensive your shopping bill would be if anything temptingly sweet and delicious were subject to a FAT TAX. Still, it shows that the government cares about your health, and is trying to prevent heart disease.

“Fat should become an election issue and the party that pledges to introduce a FAT TAX will win huge approval ratings. The FAT TAX is already in place in some parts of the United States… Nineteen states, including New York and California already levy special taxes on snack foods, sweets and soft drinks.” (The Times, 18th April 2005)

TRADUÇÃO

Quando você põe no seu carrinho de supermercado todas aquelas massas dinamarquesas, biscoitos de chocolate e jujubas, pense quanto mais caro seria a sua compra se todas aquelas tentações doces e deliciosas fossem sujeitas a um IMPOSTO SOBRE GORDURA. Isto também mostraria que o governo está preocupado com a sua saúde e busca prevenir problemas cardíacos.    
“A gordura deveria ser um assunto debatido em eleição, e o partido que sugerir a introdução de um IMPOSTO SOBRE GORDURA conseguirá altos índices de aprovação. Este imposto já é cobrado em alguns lugares dos Estados Unidos. Dezenove estados, incluindo Nova York e Califórnia já arrecadam impostos especiais sobre petiscos, doces e refrigerantes”.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019





SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 10/11/2017
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106,9 Mhz
São Luís - MA

DIANE SCHUUR

Diane Schuur é uma das mais conceituadas cantoras americanas. Sua carreira tem sido uma coleção de sucessos e a sua tessitura vocal tem a negritude de Ray Charles, Etta James, Tina Turner e B.B. King, com quem ela contracena em algumas músicas do programa. Mesmo correndo o risco de ser taxado de politicamente incorreto, pode-se dizer que Diane, que é  loira e muito branca, canta deliciosamente como uma negra. Ela é chamada na intimidade de Deedles, possivelmente pelo trinar do seu canto, é cega de nascença, o que amplia a sua sensibilidade como cantora e como pianista. Aos 64 anos já percorreu o mundo na companhia de músicos como Quincy Jones, Stan Getz, B.B.King, Dizzy Gillespie, Maynard Ferguson, Ray Charles, Joe Williams e Stevie Wonder, com quem saiu em turnês, entre outros. Nesta audição, Diane Schuur canta diversos standards da música americana, como "It Had To Be You", "They Can't Take That Away From Me", "Just One Of Those Things", "Deep Purple" e "Autumn Leaves"
.  
Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini

                                                                                                                                     

sábado, 2 de fevereiro de 2019






O ATOR

(Excerto)

Timóteo se transformou em diretor teatral porque nunca conseguiu ser ator nem teve a coragem de ser crítico. Por isso sempre tratou com desdém tanto os atores como os críticos, e somente conseguiu encarnar a nobre função de diretor – e apenas naquele teatro, vejam bem – por ser o genro do dono, outro estafermo que se dizia empresário teatral, mas não sabia distinguir entre teatro e circo mambembe.
Benito, o dono, se autoproclamava “empresário teatral Benito Rubaloca” – dizem que espanhol – e costumava divulgar as suas produções com toda força nas páginas de cultura dos diários e semanários locais.
Rubaloca sentia uma rútila alegria quando via o seu nome estampado nas páginas dos periódicos, e costumava dizer que seu sonho era ser eternizado no Diário de Notícias.
Na época que ora relato, ele anunciava com grande estardalhaço – “Produções Rubaloca apresenta O Defunto Virgem, um clássico da dramaturgia”, que era ambientado numa fazenda americana do fim do século 19 e exibido no Teatro Aliança, um prédio reformado que mantinha a aparência e a arquitetura do cinema que fora, sessenta anos atrás.
Como parte do elenco estava sua atriz predileta, Dorotéa Vaughan – nascida Maria dos Anjos Silva – que se considerava uma musa, embora no fundo não passasse de uma canastrona mal-acabada.
Bonita ela não era, embora tivesse um certo porte, pois sua altura tinha o tamanho exato do seu convencimento e, apesar da pouca idade, pois ainda não chegara à casa dos trinta, utilizava uma maquiagem exagerada que a tornava semelhante a uma boneca japonesa de porcelana.
Todos na companhia sabiam que certas coisas proibidas estavam acontecendo entre os dois, meio às escondidas e meio às escancaras, mas sabiamente de eximiam de qualquer comentário. Essas “coisas proibidas” – “impróprias”, talvez fosse o termo correto – justificavam a preferência do tolo Benito pela frívola prima-dona, que era sempre elencada como atriz principal da companhia, independentemente do gênero levado em cartaz.  
No palco, Dorotéa exagerava nos gestos e na impostação como se um texto de Molière tivesse sido escrito por Sófocles, emitindo agudos vocais tão estridentes e desagradáveis que sua voz soava como um sistema de som com microfonia, apesar de todas as nossas apresentações serem acústicas.
Não sei do timbre da sua voz no silêncio do particular, mas deveria ser do agrado do velho Rubaloca, que por ser um sátiro sem princípios não dava muita importância para princípios de fonoaudiologia, preferindo dar atenção a outros atributos mais palpáveis.
Na peça, Dorotéa desempenhava o papel da mulher de um fazendeiro, a quem trai com um vendedor de escovas do condado, num drama fetichista de difícil compreensão para o público, segundo teorizava o autor, um desconhecido à procura de uma plateia, chamado Eraldo Montalvão.
Felizmente meu papel nesta peça – eu representava Pavel, a voz da consciência do vendedor de escovas – se resumia a um monólogo de três minutos, que apesar de exigir um forte vigor histriônico, pelo menos me reservava ao direto de ser histriônico sozinho, sem a má companhia da Dorotéa Vaughan.
Minha entrada se dava no fim do primeiro ato, quase um entreato, e sua importância na trama era ligar o passado e o presente. Eu não era um personagem, mas um pensamento, quase um fantasma, que servia para lembrar aos circunstantes a filosófica existência das causas sobre os efeitos.
Minha atuação se fazia sem a liturgia do drama e sem a emoção dos grandes espetáculos.
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Timóteo saiu de circulação, e a última vez que foi visto vendia frutas na feira, também sem exibir o menor talento.
Rubaloca, o pivô da questão, levou três tiros da esposa quando ela descobriu a traição e teve enfim seu nome eternizado no Diário de Notícias como sempre fora o seu desejo, muito embora na página policial.
Quanto a mim, desde então sou um mais um personagem da vida real à procura de uma persona no palco, saudoso do camarim que guarda aquele silêncio que antecede o espetáculo e daquele calafrio que antecipa a entrada triunfante no palco.
E, na falta de um Tennessee Williams, sigo à espera de um Eraldo Montalvão para escrever as minhas falas.
    




terça-feira, 29 de janeiro de 2019






VAIDADE
(Augusto Pellegrini)

A fogueira da tua vaidade
Também queimou teus encantos
Desmascarou a verdade
E enganou muitos e tantos
 
A cegueira da tua vaidade
Causou em muita gente espanto
E ao mostrar tua intimidade
Transpareceu o desencanto

A claridade da chama
Te cegou completamente
E de uma maneira estranha
Revelou tua alma doente

Quando esta febre passar
E tu te olhares no espelho
Verás que ficaram marcas
Que mudaram por inteiro
Tua credibilidade
E o antigo porte altaneiro

Talvez nunca seja tarde
Para tentar um recomeço
Pois quando a chama não arde
É possível que o apreço
Volte e venha fazer parte
Do teu próximo endereço

Janeiro 2019

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019





SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 16/06/2017
RÁDIO MIRANTE FM
São Luís-MA

ANTONIO ADOLFO - HYBRIDO   

Antonio Adolfo é o tipo de músico que está constantemente se reciclando e buscando novas alternativas musicais a cada trabalho apresentado. Desde a década de 1960, quando começou a se interessar pelo jazz e pala bossa nova, o pianista e compositor fez parte de montagens de teatro musical, frequentou a elite do histórico Beco das Garrafas, acompanhou cantores em shows e gravações e participou de festivais e trilhas sonoras de novelas antes de embarcar para os Estados Unidos e alargar os seus horizontes. Neste seu novo trabalho, Antonio Adolfo faz uma recoleção da obra do saxofonista Wayne Shorter, ex-Weather Report, que com seu espírito experimentalista permite ao pianista fazer arranjos híbridos numa mistura de jazz, afoxé e samba, na busca de uma mistura de culturas, estilos musicais e raças. O título do álbum, "Hybrido (uma mistura do inglês "hybrid" com o português "híbrido") - From Rio to Wayne Shorter", mostra como se processou toda esta viagem. 

Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini