quinta-feira, 31 de outubro de 2019



LITERATURA ESPORTIVA

SESSENTA ANOS

O dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues não deixou por menos: depois dos fracassos de 1950 e 1954, ele profetizou que o Brasil jamais venceria uma Copa do Mundo porque seus jogadores tinham um “complexo de vira-latas”. Escreveu, falou e repetiu, para quem não tinha lido nem ouvido sua sentença de morte.
Só que sessenta anos atrás, os vira-latas se transformaram em leões.
E o Anjo Pornográfico “teve que engolir o escrete”, para usar uma expressão semelhante à que mais tarde seria proferida por Zagallo – que era jogador em 1958 – quando, como técnico, venceu a Copa América em La Paz em 1997, ao esbravejar contra as críticas que vinha sofrendo por parte da imprensa.
Quando Zagallo berrou para as câmeras de TV – “Vocês vão ter que me engolir!” – o Brasil já havia levantado a Copa do Mundo quatro vezes – 1958, 1962, 1970 e 1994 – e a zanga do velho lobo dizia respeito exclusivamente a si, não à seleção.
Nelson Rodrigues, morto em 1980, não chegou a ver a expressão de fúria do treinador, mas já havia visto sua teoria a respeito dos vira-latas ir a pique três vezes.  
Ao voltar sessenta anos no tempo, percebemos que o Brasil de 1958 foi um país iluminado, como descrito pelo jornalista Joaquim Ferreira dos Santos no seu livro “Feliz 1958 – O ano que não devia terminar”, pois uma série de acontecimentos positivos coroaram a arrancada para o seu desenvolvimento e reconhecimento que culminaria dois anos depois com a fundação de Brasília e a consequente interiorização e industrialização tão necessárias.
Foi no ano de 1958 que João Gilberto lançou o disco “Chega de Saudade”, que fundava oficialmente a bossa nova. Foi em 1958 que o cinema novo foi exportado para a Europa, com o filme “Rio, Zona Norte”, de Nelson Pereira dos Santos, feito um ano antes. Em 1958 a arte arquitetônica de Oscar Niemeyer passou a ser sinônimo de modernidade e bom gosto em todo o mundo.
Foi também em 1958 que Maria Esther Bueno, nossa tenista maior, ganharia o primeiro dos seus dezenove títulos de Grand Slam e que Eder Jofre, nosso maior pugilista, conquistaria o título nacional de peso galo, dando início à sua vitoriosa carreira no exterior.
E foi em 1958 que a seleção brasileira de “Didi, Garrincha e Pelé deu o seu baile de bola”, como cantava Jackson do Pandeiro, e conquistou a sua primeira Copa do Mundo, com direito a uma goleada por 5x2 na final contra a Suécia anfitriã.
Assim, 1958 foi o ano em que o Brasil se internacionalizou com uma base sólida na beleza musical, na qualidade do esporte e também pela beleza da sua arquitetura, como diz Joaquim Ferreira dos Santos.
O mundo de 1958 ainda era branco-e-preto, e assim ficou por mais de dez anos, até tingir a década de 1970 de um colorido psicodélico e entrar num universo de cores artificiais construídas pela tecnologia do fim do século.
Em termos de futebol, 1958 foi o ano em que Nelson Rodrigues teve que mudar o seu discurso e que marcou a saga do torcedor canarinho, que a cada Copa disputada (ganha ou não) começou a pintar calçadas, a decorar as residências com bandeiras e as ruas com bandeirolas, e a fazer um carnaval fora de época escudado na euforia dos jornais, nas ondas do rádio – depois da televisão – e nas concentrações públicas feitas para comemorar ou simplesmente torcer.
Aquele tempo era mais fácil, pois o torcedor que ia aos estádios nos gloriosos fins de semana gozava da intimidade de Garrincha, Pelé, Zito, Nilton Santos, Vavá, Gerson, Tostão, Jairzinho, Rivellino e tantos outros, eis que todos eles atuavam no Brasil, se digladiavam uns contra os outros nos clássicos de domingo e podiam ser vistos nas ruas do bairro em que moravam.
Com o passar do tempo, quer pela exportação dos nossos selecionáveis, nos privando da sua companhia, quer pelo preço cobrado pelos ingressos para ver a “canarinho” jogar, quer pela exiguidade de jogos realizados no nosso território, quer pela falta de credibilidade dos senhores de gravata que comandavam o espetáculo, o futebol do escrete saiu das gerais e foi para os camarotes.
A torcida começou a torcer menos e a aplaudir mais, como se estivesse em um teatro. Famílias inteiras paramentadas se divertiam como uma tarde no Grand Circus, e os palavrões começaram a rarear.
O torcedor comum canalizou o seu carinho no seu time de coração e foi aos poucos sendo substituído por este outro tipo de entusiasta, que não perde tempo com o futebol de clubes, só assiste jogos da seleção e torce coberto de artefatos – camisa amarela, bandeiras, peruca, selfies, buzina, apito, reco-reco, surdo e tamborim – sem saber sequer o nome daquele jogador que saiu na foto ao lado do Neymar.
Sessenta anos representam duas gerações, e na velocidade cada vez maior em que o mundo gira, duas gerações representam muita mudança.
    
  


terça-feira, 29 de outubro de 2019






SAMBA DA POSSIBILIDADE 

(Letra de Augusto Pellegrini para melodia de Renato Winkler – canção para um casal de cantores)

Bem que você poderia ser o meu amor
Para tanto bastaria querer e sorrir
Olhar para mim, ser tudo, ser mais
Ser Maria, enfim, viver de beijos
Neste jardim
Quanta beleza há neste desejo

Bem que você poderia me dizer que sim
Para tanto bastaria experimentar
Há tanto pra dar e tanto que ser
É só deixar (tem minha mão...)
Acontecer

Bem que você poderia
Ser o meu amor
(que é tudo bom, quem dirá?)
Vim lhe dizer o que é belo, o que é bom  
(que é tudo bom, quem dirá?)
Vim lhe dizer o que é belo, o que é bom...
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NOVOCABULÁRIO INGLÊS
(Copyright MacMillan)

(ver tradução após o texto)

GRIEF TOURIST

You might not be interested in visiting the grave of a person who died tragically, but some people, known as GRIEF TOURISTS, are. Specially arranged coaches take visitors to the scene of a tragedy. People flock in their thousands to the memorial of a celebrity they felt they “knew”.

            “…The phenomenon of conspicuous compassion reached a “fearsome” peak in August 2002, when thousands of GRIEF TOURISTS descended on the Cambridgeshire town of Soham to leave flowers and cuddly toys in memory of the murdered schoolgirls Holly Wells and Jessica Chapman.” (The Telegraph, 23rd February 2004)
  

TRADUÇÃO

TURISTA DO LUTO
Você pode não ter o mínimo interesse em visitar o túmulo de uma pessoa que morreu de forma trágica, mas existem aqueles, conhecidos como TURISTAS DO LUTO, que têm. Profissionais altamente especializados levam os visitantes até a cena de tragédias. Milhares de pessoas se dirigem a monumentos erigidos para celebridades que eles tratam como se fossem velhos conhecidos.

 “Esta compaixão manifesta é um fenômeno que alcançou um alarmante pico em agosto de 2002, quando milhares de TURISTAS DO LUTO se dirigiram à cidade de Sohan, Cambridgeshire, para colocar flores e brinquedos em memória a Holly Wells e Jessica Chapman, duas jovens estudantes assassinadas.” (publicado no The Telegraph em 23 de fevereiro de 2004)

segunda-feira, 28 de outubro de 2019





INSÔNIA
(Augusto Pellegrini)

A noite segue lenta, abafada e sem sentido
E os cordões do sono pendem lassos do meu lado
Em meio ao silêncio, ouço o som dos meus ouvidos
E em brasas me reviro sobre o lençol molhado

Lá longe canta o galo antecipando o novo dia
Mas é cedo, é madrugada, tudo está escuro e sem vida
Ganidos e rosnados complementam a fantasia
Sonho sonhos descorados, sonho becos sem saída

Minhas mãos buscam socorro em vão, no meio do nada
E imagens nebulosas vagueiam por minha mente
O mesmo rosto de sempre aparece na sacada
Do quarto, no quarto andar deste velho apartamento

O ar está abafado, não sopra nenhuma brisa
Eu sinto o corpo pesado e me incomoda a camisa
Tento esticar meu braço para procurar as horas
Mas vou tateando às cegas, o relógio foi-se embora

Mantenho os olhos fechados, mas os sinto bem abertos
E aquela música estranha ressoa na minha mente
No meu torpor vejo e sinto a porta chegando perto
Numa ameaça velada, como um perigo iminente

Uma hora, duas horas, lentamente esvai o tempo
E o sono teima em não vir, só agonia por dentro
Mais outra hora se passa, e o cérebro entorpecido
Pelo cansaço desmaia, um fantasma adormecido

A luz do dia enfim surge, deixa o quarto iluminado
Adormeço, finalmente, sem ter um anjo a meu lado
Prostrado quedo no leito como se morto estivesse
Após outra noite longa que a vigília trama e tece 

Outubro, 2019

quinta-feira, 24 de outubro de 2019





SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 05/01/2018
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106,9 Mhz
São Luís-MA

JAMES CARTER - PRESENT TENSE

James Carter é um saxofonista de jazz da geração nascida nos anos 1970 que tem atualmente muito prestígio nos Estados Unidos. Carter toca o sax-tenor e soprano, a flauta e a clarineta, mesclando o estilo dos antigos expoentes com um pós-bop de vanguarda, conseguindo assim transitar com facilidade por diversos estilos de jazz, o que o possibilitou gravar com o mesmo brilhantismo homenagens a Django Reinhard e Billie Holiday e trabalhar com músicos modernos na linha do jazz contemporâneo. James Carter tinha 17 anos quando fez sua primeira turnê, ao lado de Wynton Marsalis, e depois participou da famosa Big Band de Charles Mingus, chamando a atenção do produtor Michael Cuscuna, com o qual fez diversos shows e trabalhos de estúdio. Este disco aqui apresentado, chamado Present Tense, foi gravado em 2008, e traz composições suas e de velhos expoentes, o que mostra mais uma vez que a essência do jazz convencional permanece viva mesmo entre os músicos de vanguarda.

Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini

terça-feira, 22 de outubro de 2019






I REMEMBER KAFKA  
(Excerto)


Estou mudando de residência.
A reentrância do tubo de esgoto onde eu mantinha o meu aprazível logradouro passou a não mais satisfazer as minhas necessidades depois que começaram a usar um detergente à base de amoníaco que me revolta as vísceras e me atormenta e me afugenta e me atordoa a cada banho tomado.
Somos, na verdade, criaturas indefesas à mercê dos homens que insistem e nos desbaratar à sua maneira – uma delas é degradando a natureza com seus agentes químicos e desengordurantes ou atacando desde as paredes do sumidouro aqui em baixo até a camada de ozônio lá em cima, abrindo um buraco para que o sol algum dia cozinhe a água do mar, derreta cidades inteiras e asse bilhões de humanos e vertebrados.
Só nós, seres indefesos, é que iremos sobreviver a mais outra catástrofe nos embrenhando pelas fendas e pelas cavernas, como temos feito nos últimos milênios.
Mas mesmo assim estou mudando de residência.
Achei um armário confortável, de madeira, onde guardam cereais e farinha, e não descobri nenhum vestígio de veneno – nós aprendemos que devemos sempre desconfiar de certas guloseimas que nos parecem saudáveis, mas escondem bioletrina, butóxico de piperonita, octibiciclohepteno-dicarboximido ou até coisas piores.
Aqui no meu novo cantinho eu me sinto confortável, e posso filosofar em relativa segurança.
A natureza que nos fez odiadas e repelidas é a mesma que exalta a beleza das joaninhas e das borboletas. Ela também nos fez pacíficas e inofensivas, pois não atacamos, não mordemos, não mutilamos nem devastamos o ecossistema e talvez por isso sejamos perseguidas como bichos danados.
Na busca constante pela verdade, numa troca de experiências com a vida e com outras criaturas, nós aprendemos no entanto que a discriminação da qual somos objeto não atinge somente a nós, mas a milhões de outros que como nós são caçados e esmigalhados numa devastação constante, como se fosse possível exterminar toda uma espécie de invertebrados.  
-0-0-0-
Mas esses homens são mesmo uns tolos.
Basta a gente resolver usar as asas que a natureza nos deu, revoluteando no terraço ou na sala de jantar numa agradável noite de verão, para provocar uma sarabanda geral. Um grito de alerta aqui, um grito de nojo ali, mãos protegendo rosto e cabelo, e eu me divirto vendo belas mulheres desesperadas e homens maduros e sisudos correndo desbaratadamente para fugir do confronto ou procurando instrumentos de ataque e defesa – vassouras, espanadores e jornais enrolados.
Tão grandes e tão poderosos, tão cultos e tão soberbos, tão importantes e tão valentes, tão idiotas...  


segunda-feira, 21 de outubro de 2019






Letra de Augusto Pellegrini para música de Renato Winkler, anos 1970

AMOR ANTIGO 

Meu amor antigo
Mora na saudade
De um tempo feliz
Que ficou tão longe
Tão perdido e ido
Lá no meu passado
Da menina que olhava
Dentro dos meus olhos
Da primeira namorada
Do primeiro sonho

Hoje estou cansado
De não mais amar
De não encontrar
Entre os meus caminhos
O do amor antigo
Que está na saudade
Da primeira namorada
Que o amor sentia
Mas, de medo, não falava
Medo de acordar

Hoje tão sozinho
Sigo ainda à procura
Desse meu desvelo
Pela criatura
Que vive a meu lado
E mora na saudade









NOVOCABULÁRIO INGLÊS
(Copyright MacMillan)

(ver tradução após o texto)

NOUSE

If you’ve ever worried about the size or shape of your nose, 21st century technology has provided a whole new way of appreciating it, especially for those of us with physical disabilities. Our noses are no longer just for smelling things, but can be used for moving things too in operating a NOUSE, a device which has the same pointing function as a computer mouse but is controlled by movements of the nose.    

            “The computer mouse is no longer so mighty. A Canadian engineer has invented a system that enables a computer user to push a cursor across a screen simply by moving his or her nose. He calls his nose-driven mouse a NOUSE… and predicts that the NOUSE will appeal to people who have carpal tunnel syndrome… His next plan is to adapt the NOUSE to use by paralyzed patients in hospitals.” (Current Science, 11th February 2005)
  

TRADUÇÃO

MOUSE NASAL
Se você já se mostrou preocupado com o tamanho ou formato do seu nariz, a tecnologia do século 21 já conseguiu uma maneira totalmente nova para que ele possa ser apreciado, especialmente por aqueles que têm alguma deficiência física.  Nossos narizes não terão a função apenas de cheirar coisas, mas poderão também mover coisas, se funcionarem como um MOUSE NASAL, um dispositivo com a mesma função de um cursor movido pelo mouse do computador, mas que é controlado por movimentos do nariz.   

 “O mouse do computador não é mais tão poderoso. Um engenheiro canadense inventou um sistema que possibilita ao usuário de um computador mover o cursor sobre a tela simplesmente movendo o próprio nariz. Ele chama este novo MOUSE NASAL de “nouse”... predizendo que o “nouse” será muito atrativo para pessoas que sofrem de STC – Síndrome de Túnel Cárpico (uma doença que causa formigamento, dor e insensibilidade nas mãos)... Seu próximo projeto é adaptar o “nouse” para pacientes paralisados em leitos de hospitais.” (publicado na revista Current Science em 11 de fevereiro de 2005)

domingo, 20 de outubro de 2019






ERA UMA VEZ TRÊS

Era uma vez três. Dois espanhóis e um francês.
Os três amavam a mesma mulher.
Julián, Julio e Jules certo dia se encontraram numa praça da cidade para discutir o assunto e resolver as diferenças.
Julián, que era barbeiro, portava uma navalha no bolso. Julio, que era cozinheiro, trazia no bolso de trás uma faca de cozinha. Jules, sem nenhum motivo aparente, tinha no bolso um canivete suíço.
Sabe o que aconteceu?
Então preste atenção que eu vou contar:

Era uma vez três. Dois espanhóis e um francês.
Os três amavam a mesma mulher.
Julián, Julio e Jules certo dia se encontraram numa praça da cidade para discutir o assunto e resolver as diferenças.
Julián, que era barbeiro, portava uma navalha no bolso. Julio, que era cozinheiro, trazia no bolso de trás uma faca de cozinha. Jules, sem nenhum motivo aparente, tinha no bolso um canivete suíço.
Sabe o que aconteceu?
Então preste atenção que eu vou contar:

Era uma vez, três...


sábado, 19 de outubro de 2019





CANTO E DESENCANTO
(Augusto Pellegrini)

Se eu escuto é porque falam
Tenho que dizer que ouvi
Se eu vejo é porque fazem
Tenho que dizer que vi
Se esta voz não é só minha
Mas de muita gente aqui
Tenho que dizer no canto
Todo o grande desencanto

1968