segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020





GATINHA DE MAIÔ 

(Sambinha bossa nova composto por Augusto Pellegrini na época da bossa nova)

Foi outro dia
Que eu vi uma gatinha
De maiô coral
Na beira da praia
Olhando pro céu
Conversando com o mar
E deitada na areia
Ela era um poema
Passando a canção
A minha gatinha
Era tudo que havia
De belo e de bom

Não sei como sucedeu
Não sei
No azul dos seus olhos vi
Tudo que era meu
Tudo que era olhar
E eu sou o gatinho
Daquela gatinha
De maiô coral
E hoje estou com ela
E canto pra ela
Somente pra ela
Onde estiver
Estou contente
Com a minha gatinha
De noite e de dia
Gatinha é mulher

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020






A MACHADINHA  
(Segundo Excerto)

Antes do alvorecer, ouvem-se passos descompassados como um coração em sobressalto. Os passos vêm das ruas mal calçadas do outro lado da cidade e a esta altura alcançam o chão pavimentado com pedras, onde algum dia as carruagens deixaram a sua marca tão forte que até hoje sente-se nos ouvidos o poc-potoc das patas dos cavalos.
Alguém  deixou a luz do quarto acesa, e a janela embaçada pela névoa cinzenta parece uma lua irregular e impressionista dependurada no alto da praça.
Ele cambaleia levemente por causa de algum passo em falso, se recompõe, passa pelo chafariz sem vida e olha para o alto onde a janela teimosamente acesa começa a formar um quadro com o escuro do céu já não tão negro, emprestando devagar as cores do alvorecer. Depois, passa pelos becos onde latas de lixo se confundem com insetos e ratos que não dormem.
Penosamente o caminhante alcança o prédio onde mora, abre a porta pesada que geme nas dobradiças  e sobe lentamente um lance de escadas cuja madeira range pelo peso do tempo.
Entra enfim no seu aposento singular, exausto como um sodado batendo em retirada, trêmulo como um assassino compulsivo, arfante como quem cumpriu penosamente com o seu dever.
Joga a valise e o boné num canto, tira o casaco e mostra uma camiseta encardida e manchada se sangue. Há um rasto escarlate também no seu rosto suado, tisnando a barba mal feita.
Senta-se pesadamente ao pé da cama e olha para o chão em direção às botinas enlameadas, depois ergue os olhos e se depara com a bacia da ágate cheia de água onde vai lavar os seus pecados.
Está farto das madrugadas sombrias e do cheiro da morte.
Estia farto de tanto sangue, do gemido surdo, da faca afiada, do rasgar de ventres e da machadinha a dilacerar ossos, está farto da sua sina.  
Ainda pela manhã ele vai ao escritório do frigorífico no qual trabalha para pedir demissão do serviço penoso que faz há anos como magarefe no matadouro da cidade, todas a noites decepando membros, sangrando e esfolando bois.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020





DESCANSO 

(Bossa composta por Augusto Pellegrini lá pelos anos 1960)

Descanso
É gostoso de ver
As nuvens brincando
E figuras formando
Bem alto, no alto do céu
Não penso
Quero fugir da vida
Como o dia perdido
No qual eu fugi de ti

Morreu o sol
Escurece depressa
Igual ao momento
Em que escureceu
No dia sem luz que eu vivi
Desperto
Meu descanso não era
Era sonho, quimera
Eu não fujo, eu não posso fugir


domingo, 19 de janeiro de 2020





POEMA FELIZ
(Augusto Pellegrini)

Felicidade foi-se embora
Escapuliu pela janela
De uma casa pequenina
Pois você não estava nela

Ela é leve como a pluma
Levada ao leu pelo vento
Não para de forma alguma
Inquieta a cada momento

E também brilha no ar
Como se fosse uma estrela
Só quem não percebe o brilho
É aquele que não quer vê-la

A felicidade existe
É só uma questão de ter
É viver na companhia
Daquele que se quer bem

Trechos de felicidades
Extraídos da algibeira
De Seu Jorge, Arlindo e Lupe
Janeci, Fabio e Moreira

São poetas que retratam
Felicidade sem fim
Versejada por Toquinho
Vinicius e Tom Jobim

Felicidade é um momento
O espocar de uma centelha
Mas pode ser bem marcante
E durar a vida inteira

Basta você regressar
Pra mim, naquela casinha
Que a felicidade volta
Para ser minha, todinha

Janeiro 2020


sexta-feira, 17 de janeiro de 2020








SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 12/01/2018
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106.9 Mhz
Dão Luís - MA

1930'S JAZZ BIG BANDS

Nos primeiros anos do século 20 o jazz sofreu a sua primeira grande ruptura, quando o estilo tradicional de Nova Orleans, influenciado pelas danças de salão europeias que tocavam em Nova York e Chicago, deu início ao que se chamaria mais tarde de swing das big bands. Os registros daquela época são bastante precários, mas o Sexta Jazz decidiu resgatar algumas das orquestras que foram o berço do jazz que viria a seguir, e apresenta algumas gravações antológicas dos anos 1930. Os ouvintes hão de perdoar a qualidade do som em virtude da tecnologia de gravação daquele tempo que era feita em discos de cera sem qualquer mixagem. Por outro lado, os ouvintes lado irão conhecer peças antológicas que fazem parte da música universal e que poucas vezes foram mostradas em emissoras de rádio, pelo menos neste século. As raridades incluem Benny Goodman, Count Basie, Duke Ellington, Jimmie Lunceford, Earl Hines, Ben Pollack, Red Norvo, Erskine Hawkins, Teddy Hill, Chick Webb, Fletcher Henderson, Cab Calloway e outros.

Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini
                                                                                                                                    

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020






TEMPEROS À ITALIANA  
(Segundo Excerto)

Na costumeira caminhada dominical em direção ao restaurante, atravessei ruas e dobrei esquinas, o apetite crescendo voraz e a boca salivando pelos pensamentos pecaminosos da gula.
A avenida central mantinha a antiga pose de capital europeia com seus postes forjados em colunatas de ferro ornadas no mais puro estilo parisiense, muito embora tivessem vindo de Londres como atestam as plaquetas afixadas na sua base. A avenida também expunha fileiras de jardineiras de concreto trabalhado de onde brotavam flores silvestres para dar vida aos edifícios sóbrios que compunham a paisagem, além da banca de revistas com seus escândalos expostos e o vendedor da loteria oferecendo a sorte grande em forma de bilhetes.
Parei para conversar com o bilheteiro – “tive um sonho estranho onde um gato pardo corria atrás de um padre de batina preta que pedalava uma patinete”, ao que o bilheteiro, depois de analisar minhas palavras como um psicanalista diante de um divã, respondeu sabiamente que “gato que corre atrás de padre dá cachorro”.
Embora duvidasse da sua interpretação, lembrei-me de uma frase alentadora que fazia parte do repertório do meu avô italiano – “jogar é a única forma de ganhar no jogo”. Tendo por fundamento tal filosofia, adquiri logo as vinte frações do cachorro.
Ipso facto, latu sensu, dobrei e embolsei o amuleto da sorte pensando distraidamente em quantas toneladas de “tagliarini ala puttanesca” seria possível deglutir – regado a um Lambrusco Rosso – caso fosse premiado com tantos zeros à direita da unidade do Tesouro Nacional. Matematicamente havia – dizem – a probabilidade de uma em cem mil, e esta perspectiva só fez aumentar a minha fome.  
Muito satisfeito pela aquisição desta cornucópia lotérica que me propunha um futuro tão promissor, paro afinal diante das portas envidraçadas com desenhos “art-nouveau” do Restaurante Carlino, meu grande sonho de consumo, e entro majestosamente no aromático recinto, sob as vênias dos garçons e do porteiro.
Já me sentindo um milionário, me acomodei numa mesa central para que todos me vissem, analisei o cardápio com o olhar clínico de um especialista sem me preocupar com a coluna dos preços e agi como se o cachorro tivesse vingado.
Afinal, o pior que poderia me acontecer seria aumentar o débito já bastante comprometido do meu cheque especial, cuja número de conta era exatamente o número do cachorro salvador.    

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020





CHOCOLATE QUENTE 
Uma velha canção adolescente, escrita em 1958

(Augusto Pellegrini)

Nosso amor é igual
A chocolate quente
Faz bem pra gente
Quando se está com frio
Prova mais, amor
Diz o que você sente
Se está triste ou contente
Quando está junto a mim

Esquece o mundo lá fora
Você está comigo agora
Escute, preste atenção
Este silêncio nos diz
Não pense em ir embora
Se eu brigar você chora
Fica juntinho de mim
Meu chocolate quente


quarta-feira, 8 de janeiro de 2020









THE GRAMMAR BIBLE

  ENGLISH IN DROPS
               Copyright Michael Strumpf & Auriel Douglas)

                                   (ver tradução abaixo)


NAMING WORDS

NOUNS are naming words. They name people, places, things and ideas.
Imagine a world without names. Imagine, for a moment, the horror and absurdity of ordering a simple meal without naming words.
“I’ll take one of those things with the two soft, round things on the outside and one of those brown mushy things on the inside, and it’s got some red stuff and some yellow stuff and some round green things on it.” Oh, you must mean a hamburger?
You see, I couldn’t even get through this ridiculous scenario without using a couple of generic naming words, such as STUFF or THINGS.
What’s in a name? Sometimes, a name is everything.  
The word NOUN comes from the Latin word NOMEN, meaning “name”. Nouns are names of people, places, things and ideas. Anything we can imagine has a name. If someone discovers a person, place, thing or idea without a name, you can be sure that steps will be taken to remedy the situation.
Any nutritious sentence is chock full of names. In the examples below, each of the capital words is a noun.

My FRIEND BUDDY is a PH.D. in PHYSICS.

The SQUIRREL stole NUTS from the CHIPMUNK.

My DOG watches TELEVISION in the EVENINGS.

The PURPOSE of this EXAM is to check your STATE of HEALTH.

The WEIGHT of GOLD is measured in KARATS.



TRADUÇÃO

O SIGNIFICADO DAS PALAVRAS


SUBSTANTIVOS são palavras que contêm um significado. Elas particularizam e definem pessoas, lugares, coisas e ideias.
Imagine um mundo sem substantivos. Imagine, de repente, o horror e o absurdo de ter que pedir uma simples refeição sem usar substantivos.
“Eu quero uma daquelas coisas com duas coisas redondas e macias em cima e em baixo e aquela coisa marrom amassada do lado de dentro com um pouco daquela coisa vermelha e a outra amarela e aquelas coisas verdes e redondas no meio”. Ah, você quer um hamburger?
Veja só, eu não consegui nem mesmo imaginar este cenário ridículo sem utilizar um substantivo genérico, como COISA-COISAS.    
O que é um substantivo? Às vezes, um substantivo é tudo.
A palavra SUBSTANTIVO (ou NOME) vem do latim NOMEN. Os substantivos identificam pessoas, lugares, coisas e ideias. Tudo o pudermos imaginar tem um nome. Se alguém descobrir uma pessoa, lugar, coisa ou ideia que não tiver um nome, tenha certeza de que alguma coisa será feita para remediar a situação.
Qualquer sentença que tenha sentido está cheia de substantivos. Nos exemplos abaixo, os substantivos estão escritos com letra maiúscula.

Meu AMIGO BUDDY é DOUTOR em FÍSICA.

O ESQUILO roubou as NOZES do outro ESQUILO.

Meu CACHORRO assiste TELEVISÃO à NOITE.

A FINALIDADE deste EXAME é verificar o seu ESTADO de SAÚDE.

O PESO do OURO é medido em QUILATES

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020





ABSTRATO
(Augusto Pellegrini)

Um arranjo de flores pousa sobre o toucador
Enquanto o quarto é mergulhado na penumbra
Provoca em meu olhar imagens mentirosas
E forma formas deformadas em seu derredor

Ora vejo um gato, silencioso, arguto e atento
Depois o gato se transforma em porco
Mas basta apenas o sopro de um leve vento
Para que a imagem se transforme de repente

Agora flana e dança como uma bandeira
Com as cores desmaiadas de vermelho e branco
Diante do espelho espanta o meu espanto
Até que a imagem se transmude enfim inteira

O pleno dia surge, e então a claridade
Põe um ponto final no meu caleidoscópio
Tudo era fantasia, apenas flores mortas de machê
Na luz da manhã, um duro golpe de realidade

Janeiro 2020

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019





O MURO
(Segundo Excerto)

O dia hoje amanheceu alegre, risonho e cheio de sol.
Um passarinho saltita em cima do meu lado direito, perto do enorme portão de madeira de lei e o entregador de jornal passa pedalando a sua bicicleta.
A empregada do vizinho amontoa um punhado de folhas que caíram das árvores durante a noite de ventania.
O atleta de ocasião passa bufando seu sobrepeso matinal pensando em voltar para casa e comer feito um abade, alguns meninos vão para a escola chutando uma lata vazia e o arbusto plantado há poucos dias tem que suportar o mau cheiro vindo do saco plástico cheio de lixo doméstico que alguém depositou aos seus pés.
Certas noites, quando a lua se esconde por detrás das nuvens e o guarda-noturno trila o seu apito na esquina, vem aquele casal de namorados que me têm como cenário dos seus arroubos amorosos até a lua voltar a se desnudar através dos galhos de bougainville ou o guarda passar por perto dizendo ”boa noite” em um tom acusador.
Mas o amanhecer é sempre lindo, apesar das moscas.
Mesmo com o corpo disfarçado de cal e temendo mais um ataque de vandalismo – outro dia escreverem o nome “Murilo” no meu costado – tenho que confiar no guarda-noturno à noite e no movimento das pessoas durante o dia para não ser agredido. Pensando bem, “Murilo” bem que poderia ser o meu nome, o que dar-me-ia um pouco mais de personalidade.
E assim segue a minha rotina diária, o meu branco se refletindo na barriga suada do atleta de ocasião destas manhãs de sol, a empregada do vizinho varrendo folhas, os meninos indo para a escola, o arbusto bocejando, o saco de lixo aguardando seu transporte de luxo e meu portão se abrindo para que o dono da casa saia todo pimpão dirigindo seu automóvel que, como eu, está também precisando de alguns cuidados.
O entregador de jornal se aproxima assoviando para chamar a atenção da criada que corre toda solerte receber a Gazeta, porque ambos praticam aquilo que poder-se-ia chamar de “um flerte matinal”.