quarta-feira, 22 de abril de 2020






ÁLBUM DE FORMATURA
(Excerto)

No princípio, Ícaro não havia percebido que existia alguma coisa de errado com aquela fotografia. Mas não demorou muito para ele ter uma estranha sensação de que existia um inexplicável vazio, uma suspeitosa ausência, a falta de um certo algo.
Sentiu um ligeiro desconforto ao mirar aquelas faces de trinta anos atrás quando jovens promissores e sorridentes posavam com o diploma nas mãos. Pacientemente, perscrutou todos os detalhes e resolveu contar todos os formandos – um, dois, três, quatro... quinze, dezesseis, dezessete... vinte e oito, vinte e nove, trinta.
Trinta formandos, isto está errado, acho que eram trinta e dois. Contou e recontou: trinta.
Resolveu ligar para o Gastão, que fazia parte do grupo e com quem ainda mantinha a antiga amizade, para confirmar – e Gastão confirmou: foram trinta e dois formandos.
Voltou a olhar para a foto, viu a sua própria imagem rejuvenescida e também a do Gastão, que já mostrava uma calva incipiente, demonstrando um futuro de poucos cabelos.
Ligou novamente, pediu para Gastão apanhar o seu álbum e foram conferindo um a um. Gastão ia falando e Ícaro verificando – Jacinto, Arlete, Tomé, Pereira, Ícaro, Gastão, Boanerges, Lindolfo, Ruth... Rubinho, Arthur, Telma, Martinho, Cícero, Josué, Berenice...
Ícaro deu um salto na poltrona. Martinho e Josué não estavam na foto, o que provocava aquela sensação de ausência que ele havia sentido.  
Quando questionou os nomes, teve de Gastão a notícia que Josué havia falecido há cerca de três anos e Martinho há menos de um mês.
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Agastado com o inexplicável, Ícaro jogou o álbum no fundo de uma gaveta e resolveu esquecer do assunto.
Passaram-se alguns meses quando ele recebeu um telefonema de Gastão, para informar que o colega Lindolfo havia morrido num acidente numa estrada secundária do Rio de Janeiro. Alguém na contra-mão, parece.
A notícia lhe trouxe o álbum à memória.
Mesmo sem vontade, foi impelido a buscá-lo no recesso da gaveta. Foi direto para a foto e constatou aquilo que temia: Lindolfo não estava mais entre Boanerges e Ruth, deixando um vazio que agora lhe parecia bastante claro.  
O álbum lhe queimava as mãos.
Pensou em ligar para Gastão mas desistiu nos primeiros números. Aquilo era aterrorizante e não fazia sentido, tinha que pensar melhor no que fazer. Aparentemente, dado o caso do Martinho e Josué, a foto em poder do Gastão não deveria ter sofrido nenhuma alteração.
Como Gastão estava morando a mil quilômetros de distância, era impossível lhe mostrar o álbum como prova do estranho fenômeno. Dito pelo telefone, Gastão iria pensar que ele havia enlouquecido ou estava bêbado.
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Certa noite, Ícaro acordou se sentindo muito mal. Dor no peito, falta de ar, tontura. Tomou um gole de água, foi até a sala, sentou-se na poltrona e tentou descansar. Não era a primeira vez que sentia aquele problema, mas estava adiando a visita ao médico como se temesse pelo pior. No mínimo seria aconselhado a deixar de fumar.
Acendeu um cigarro para espantar os demônios, quando se deparou com o álbum, que fora imprudentemente deixado na mesinha de centro. Meio relutante, esticou o braço e abriu na página da infausta foto. Sua cara sorridente não passava agora de uma sombra borrada entre Pereira e Gastão.
Sua imagem estava desaparecendo lentamente...




segunda-feira, 20 de abril de 2020





HISTÓRIAS DE PLÁGIOS
Augusto Pellegrini
Corria o ano de 1929. Era uma noite de fevereiro, e o compositor Noel Rosa estava muito zangado no seu quarto, pois sua mãe havia escondido toda a sua roupa para evitar que ele saísse para a boemia.
Para desabafar, o poeta compôs um samba, ao qual deu o título de “Com que roupa?” (“... com que roupa que eu vou / pro samba que você me convidou?”), que viria a se transformar no maior sucesso daquele ano no Rio de Janeiro.
Dias depois, devidamente vestido, ele levou o samba para a apreciação do maestro Homero Dorneles, seu amigo.
Quando Noel começou a cantar – “Agora vou mudar minha conduta...” – o maestro, sentado ao piano, o interrompeu e falou:
“Noel, este samba não pode ser levado a público. Você acabou de compor o Hino Nacional Brasileiro!...”
De fato, a melodia e os acordes do samba eram exatamente aqueles que haviam sido feitos um século antes por Francisco Manuel da Silva.
Homero deu uma retocada na melodia e a música seguiu sua trajetória ilustre sem Noel correr o risco de ir parar nas masmorras de Getúlio Vargas.
Esta é uma das muitas histórias de plágio de música que se ouvem por aí.
Muitas vezes o plágio é inconsciente, pois o autor tem arquivado na memória alguma codificação musical que aflora à sua mente sem que ele se aperceba de que se trata de algo já existente. Ele pode até ter a impressão de que alguma coisa lhe soa familiar, mas tem a firme convicção de que se trata de uma criação sua. Deve ter acontecido com Noel.
Outras vezes o plágio é consciente.
Tom Jobim admite que os compassos iniciais do “Samba de Uma Nota só” (“Eis aqui este sambinha / feito de uma nota só / outras notas vão entrar / mas a base é uma só”) foram compostos tendo como base a introdução pouco conhecida de “Night and Day”, de Cole Porter (“Like the beat beat beat of the tom-tom / when the jungle shadows fall / like the tick tick tock of the stately clock / as it stands against the wall”).
Na verdade, Tom era um pesquisador musical, e buscava nas raízes da música, principalmente a brasileira, inspiração para seus temas ecológicos e campestres e nunca fugiu ao debate: ele afirmava que suas colocações incidentais não eram plágio, mas sim a prestação de uma homenagem.
Talvez seja esta a explicação pelo tema e para a divisão sincopada da música “Águas de Março” (“É pau, é pedra / é o fim do caminho / é um resto de toco / é um pouco sozinho”) que parece ter vindo  de “Água do Céu”, (“ É chuva de Deus / é chuva abençoada / é água divina / é alma lavada”, de J.B. de Carvalho, gravada em 1956 pela cantora Leny Eversong), que por sua vez fora adaptada de um ponto de macumba de 1933 – “É pau, é pedra / é seixo miúdo / roda baiana / por cima de tudo”.
O plágio, consciente ou não, acaba sendo alvo de processos judiciais que não raro terminam com o perdão do compositor que se diz lesado mediante o pagamento de polpuda multa e fica tudo por isso mesmo.
Não foi apenas Jobim que passou por essa saia justa, embora nunca tenha sido processado. A história relata diversos casos de plágios (comprovados ou não) que acabaram gerando grandes pendengas jurídicas.  
Um dos casos mais famosos envolve dois roqueiros do primeiro mundo.
John Lennon teve que fazer um acordo extrajudicial com Chuck Berry (o teor do acordo permanece em segredo até hoje) por causa da melodia de “Come Together” (“Here come old flat top, he come / groovin’ up slowly he got /  joo-joo eyeballs he want / holly roller he got / hair down to his knee/ got to be a joker, he just do what he please”) muito semelhante à “You Can’t Catch Me”, de Berry (“I bought a brand-new air-mobile / it was custom made / it was a Flight DeVille / with a powerful motor / and some hideaway wings / push it on the button and you will hear her sing”).
Outro ex-beatle, George Harrison, também se viu denunciado ao compor “My Sweet Lord” (“My sweet Lord / hm my Lord / my sweet Lord / hm my Lord / I really want to see you / really want to be with you / really want to see you Lord / but it takes so long, my Lord”) , lançada em 1970, acusado de ter plagiado a música “He’s So Fine” (“He’s so fine / wish he were mine / that handsome boy over there / the one with the wavy hair / I don’t know how I’m gonna do it / but I’m gonna make him mine / the envy of all the girls / it’s just a matter of time”), gravada em 1962 por um grupo feminino chamado The Chiffons.
Harrison jamais admitiu o plágio, mas mesmo assim teve que pagar para a ABKO Music, detentora dos direitos de “He’s So Fine”, composta por Ronald Mack, cerca de 580 mil dólares para que o processo fosse arquivado.
A música “Surfin’ USA”, sucesso dos Beach Boys,  era praticamente uma cópia de “Sweet Little Sixteen”, de Chuck Berry. Acusados de plágio, Carl Wilson e Mike Love – compositores de “Surfin’ USA” – resolveram o problema simplesmente adicionando o nome de Chuck Berry nos créditos da composição.  
O saxofonista Charlie Parker não tinha esses escrúpulos. Ele apanhava músicas consagradas do cancioneiro americano e as transformava fazendo releituras sofisticadas no estilo bebop, e assumia a paternidade simplesmente mudando o seu título. Mas fazia isto às claras, e nunca teve problemas com reclamantes na justiça.
Assim, “How High the Moon” (de Morgan Lewis) serviu como base para a sua “Ornithology”, “Indiana” (de James F.Hanley) inspirou “Donna Lee”, “Honeysuckle Rose “ (de Fats Domino) gerou “Scrapple from the Apple”, “Cherokee” (de Ray Noble) serviu de mote para “Ko-Ko” e “I Got Rhythm” (de George Gershwin) deu origem a “Confirmation”, entre outras   
O máximo da homenagem, porém, parece ter sido aquela prestada pelos americanos George Forrest e Robert Wright com a canção “Stranger in Paradise” composta em 1953 para o filme “Kismet” (“Take my hand / I’m a stranger in Paradise / all lost in a wonderland / a stranger in Paradise / if I stand starry-eyed / that’s a danger in Paradise / for mortals who stand beside an angel like you ”), cuja melodia retratando esta primeira parte foi inteiramente copiada das “Polovtsian Dances” (“Gliding Dance of the Maidens”), da ópera “Prince Igor” composta pelo russo Alexander Borodin.
Muitos músicos estão envolvidos neste imbróglio, porque Borodin morreu em 1887 deixando a música inacabada, cabendo a Nikolai Rimsky-Korsakov e a Alexander Glazunov a sua finalização em 1890.
Como se vê, plágio também é cultura.




  
 


quinta-feira, 16 de abril de 2020





COMO NASCEM AS CANÇÕES

(Parte 5)


Na música internacional poucos músicos foram tão reverenciados após a morte como John Lennon, assassinado a tiros em 1980.
Músico, guitarrista, cantor, compositor e ativista, John Lennon era uma unanimidade mundial, e sua morte violenta pelas mãos de um admirador causou comoção em todo o mundo.
A partir de 1982 as composições a ele dedicadas se multiplicaram, inclusive por parte dos seus ex-companheiros dos The Beatles. Neste ano, Paul McCartney compôs “Here Today” (“Hoje, Aqui”), gravada no álbum “Tug Of War” (“Cabo De Guerra”) – (“And if I say I really knew you well / what would your answer be? / If you were here today / Ooo ooo here yoday / Well, knowing you / You’d probably laugh and say / That we were worlds apart / If you were here today / Ooo ooo here today…”) – (“E se eu disser / Que eu realmente te conhecia bem / Qual seria a sua resposta? / Se você estivesse hoje aqui / Ooo hoje, aqui / Bem, conhecendo você / Você provavelmente cairia na risada e diria / Que nós éramos de mundos diferentes / Se você estivesse hoje aqui / Ooo hoje, aqui”). Cada vez que Paul canta esta música em um show, ele não consegue evitar as lágrimas.  
George Harrison compôs “All Those Years Ago” (“Todos Aqueles Anos Passados”) – (“I’m shouting all about love / While they treated you like a dog / When you were the one / Who has made it so clear / All those years ago…” / “…Deep in the darkest night / I send out a prayer to you / Now in the world of light / Where the spirit free of lies / And all else that we despised”) – (“Estou esbravejando sobre o amor / Enquanto eles trataram você como um cão / Quando você foi o cara / Que deixou tudo bem claro / Todos aqueles anos passados… / … Dentro da noite mais escura / Eu faço uma prece pra você / Agora no mundo da luz / Onde o espírito fica livre das mentiras / E de tudo aquilo que a gente menosprezava”).
Ringo Starr lançou a sua homenagem apenas em 2010, com a música “Peace Dream” (“Sonho De Paz”) – (“Last night I had a peace dream / You know how real dreams can be / The world was a better place / For you and me, can’t you see? … / …No need for war no more / Better things we’re fighting for / No more hunger, no more pain / I hope the dream comes true someday”) – (“Na noite passada eu tive um sonho de paz / Você sabe quão real os sonhos podem ser / Este mundo era um lugar melhor / Para você e para mim, viu? ... /... Não havia mais necessidade de guerras / Havia coisas melhores para lutarmos por elas / Não havia mais fome nem dor / Espero que este sonho se transforme em realidade algum dia”).
Outros músicos da linha pop e rock também deixaram seu recado. Elton John compôs “Empty Garden” (“Jardim Vazio”) – (“What happened here / As the New York sunset disappeared / I found an empty garden among the flagstones here… / …And we are so amazed / We’re crippled and we’re dazed / A gardener like that one / No one can replace”) – (“O que aconteceu aqui / No momento em que o sol se punha em Nova York / Eu encontrei um jardim vazio aqui no meio dos paralelepípedos … / … E nós estamos tão espantados / Estamos enfraquecidos e confusos / Um jardineiro como ele / Ninguém poderá jamais substituir”).
Em 2012, Bob Dylan deu a sua contribuição com “Roll On John” (“Vá Em Frente, John”) – (“Doctor, doctor, tell me the time of day / Another bottle’s empty, another penny spent / He turned around and he slowly walked away / They shot him in the back and down he went / Shine your light / Movin’ on / You burned so bright / Roll on, John”) – (“Doutor, doutor, me diga que horas são / Outra garrafa vazia, mais um centavo gasto / Ele se virou e lentamente se afastou / Eles atiraram nas costas dele e ele caiu / Ilumine com a sua luz / E segue em frente / Você iluminou de uma forma brilhante / Vá em frente, John”).
Fred Mercury prestou seu tributo a John Lennon com a música “Life Is Real” (“A Vida É Real”), também composta em 1982 – (“Guilt stains on my pillow / Blood on NY terraces / Torsos in my closet / Shadows from my past / Life is real, life is real… / …Music will be my mistress / Loving like a whore / Lennon is a genius / Living in ev’ry pore / Life is real, so real”) – (“Manchas de culpa no meu travesseiro / Sangue nos terraços de Nova York / Estátuas de bustos no meu armário / Sombras do meu passado / A vida é real, a vida é real... / ... A música será a minha amante / Amando tal qual uma puta / Lennon é um gênio / Vivendo em cada poro / A vida é real, tão real”). 
O tributo de Paul Simon veio através de “The Late Great Johnny Ace” (O Finado Grande Johnny Ace”) – (“I was reading a magazine / And thinking of a rock and roll song / The year was nineteen fifty-four / And I hadn’t been playing that long / When a man came on the radio / And this is what he said / He said I hate to break it to his fans / But Johnny Ace is dead”) – (“Eu estava lendo uma revista / E pensando numa canção de rock and roll / Estávamos em 1954 / E eu não tocava havia muito tempo / Quando um homem interrompeu o programa de rádio / E isto foi o que ele disse / Ele disse – infelizmente eu tenho que informar aos seus fãs / Que Johnny Ace morreu”).   
Roger Waters, baixista do Pink Floyd, deu a sua contribuição em 1983 com “Not Now John” (“Agora Não, John”) – (“Not now, John / We’ve got to get on with the film show / Hollywood waits at the end of the rainbow / Who cares what it’s about as long as the kids go? / Not now, John / Got to get on with the show”) – (“Agora não, John / Nós temos que continuar com a exibição do show / Hollywood aguarda no fim do arco-íris / Quem se importa com o que isto signifique contanto que as crianças forem? / Agora não, John / Nós temos que prosseguir com o show”) e em 1984 David Gilmour, guitarrista do grupo, veio com “Murder” (“Assassinato”) – (“... I don’t want this anger that’s burning in me / It’s something from which it’s so hard to be free / But none of the tears we cry in sorrow or rage / Can make any difference or turn back the page”) – (“Eu não quero esta raiva que queima em mim / É algo muito difícil de se libertar / Mas nenhuma das lágrimas que choramos de tristeza ou ódio / pode fazer alguma diferença ou fazer voltar a página”).
The Cramberries gravaram “I Just Shot John Lennon” (“Eu acabei de matar John Lennon”), de Noel Anthony Hogan e Dolores Mary O’Riordan, de 1996 –  (“It was the fearful night of December eighth / He was returning home from the studio, late / He has perceptively known that it wouldn’t be nice / Because in nineteen-eighty he paid the price / John Lennon died, John Lennon died… / … With a Smith & Wesson thirty-eight / John Lennon’s life was no longer a debate…”) – (“Foi uma terrível noite de 8 de dezembro / Ele estava voltando para casa, vindo do estúdio, era tarde / Ele teve o pressentimento de que não seria legal / Pois em 1980 ele pagou o preço / John Lennon morreu, John Lennon morreu... / ...Com uma Smith & Wesson, 38 /  A vida de John Lennon não estava mais em discussão...”) .
O nome da música – “I Just Shot John Lennon” – consta ser a primeira frase dita pelo assassino Mark Chapman ao ser preso após disparar os tiros.


              

quarta-feira, 15 de abril de 2020





INSISTÊNCIA
(Augusto Pellegrini

Por que você insiste pra que eu feche a porta?
Eu sei que já é tarde, mas se mantém o calor
Pois o sol intenso da tarde nos incendiou
Pode ser noite, mas cálida, e é o que importa
Em contraposição com o seu mau humor

Por que você insiste para que eu feche a boca?
Se eu gosto de falar a sós comigo mesmo
Na falta de um interlocutor que me compreenda
E faça eco à minha conversa vã e louca
Feita de notas musicais, como um solfejo

Por que você insiste para que eu não ouça?
Se tudo o que desejo é ter o ouvido aberto
Para saber o que de mim fala este vento
O gotejar da água que que na poça empoça
E o farfalhar das folhas que estão por perto
  
Por que você insiste que eu abandone o vinho?
Se é ele que me faz noturna companhia
Enquanto aguardo em vão por aquele sorriso
E aquele olhar sereno pra aquecer meu ninho
Tornando esta mansão um pouco menos sombria

Por que você insiste que eu não sinta a noite
E a sua companhia amiga e benfazeja?
Se isto parece agora ser tudo o que me resta
Para tentar fugir da dor do seu açoite
Pois este instante é tudo o que minh’alma almeja

A porta, a boca, o vinho, e esta noite quente
Me fazem companhia, ao lado da sua ausência
Quem sabe a manhã venha e traga novidades
Você sorrindo lindo e desbragadamente
Me olhando com ternura... e sem tanta insistência

Jun 2017
 
 


 
     


segunda-feira, 13 de abril de 2020





COMO NASCEM AS CANÇÕES

(Parte 4)


A bossa nova logo se desentendeu consigo mesma graças a uma corrente que contestava o seu lado burguês. Para eles, a poesia bossanovista se fixava apenas nas belezas do Rio e deixava de lado antigas queixas sobre a qualidade de vida do carioca menos privilegiado.
Uma ala dissidente procurava buscar como fonte de inspiração o lado B da cidade – o morro, a favela e a pobreza – um movimento interessante que acabou valorizando músicos e compositores de outras vertentes, como Cartola, Zé Keti, Nelson Cavaquinho e mesmo João do Vale, agregando-os à juventude intelectual progressista que frequentava o local – Carlos Lyra, Edu Lobo, Baden Powell, Oduvaldo Vianna Filho, Ruy Guerra, Nelson Lins e Barros, Dori Caymmi, Sérgio Ricardo.
O movimento também descentralizava o foco da bossa nova e nacionalizava a visão crítica social, inserindo no contexto compositores como Chico Buarque, Capinam, Gilberto Gil e Dominguinhos.
Nara Leão, que havia se imortalizado como “a musa da bossa nova” era ao lado de Elis Regina e Maria Bethânia o principal motor incentivador da nova cena.
Um dos compositores que mais lutaram nesse sentido foi Carlos Lyra, o mesmo da sereníssima “Se É Tarde, Me Perdoa” (“Se é tarde, me perdoa / Mas eu não sabia que você sabia / Que a vida é tão boa / Se é tarde, me perdoa / Eu cheguei mentindo, eu cheguei partindo / Eu cheguei à toa /  Se é tarde, me perdoa / Trago desencantos de amores tantos pela madrugada / Se é tarde, me perdoa / Vinha só, cansado”).
Deixando a poesia de lado, Lyra saiu em defesa do lado pobre do Rio e compôs coisas como “Feio Não É Bonito” (“Feio não é bonito / O morro existe, mas pede pra se acabar / Canta, mas canta triste / Porque tristeza é só o se tem pra cantar / Chora, mas chora rindo / Porque é valente e nunca se deixa quebrar / Ama, o morro ama / O amor aflito, o amor bonito que pede outra história...”) ou “Maria Moita”, um hino ao feminismo em plenos anos 1960 (“... Deus fez primeiro o homem, a mulher nasceu depois / Por isso é que a mulher trabalha sempre pelos dois / Homem acaba de chegar tá com fome / A mulher tem que olhar pelo homem / E é deitada ou em pé, mulher tem é que trabalhar...”).
Tom Jobim e Vinícius de Moraes também entraram na onda e compuseram “O Morro Não Tem Vez” (“O morro não tem vez / O que ele fez já foi demais / Mas olhem bem vocês / Quando derem vez ao morro / Toda a cidade vai cantar”).
Além de buscar inspiração nas raízes mais sofridas do povo do Rio de Janeiro, Carlos Lyra também engrossou a onda social-nacionalista na mesma linha de José Ramos Tinhorão, Gianfrancesco Guarnieri, Chico de Assis e Geraldo Vandré ao denunciar a “invasão americana” na música brasileira.
Lyra compôs “Influência Do Jazz” (“Pobre samba meu / Foi se misturando, se modernizando / E se perdeu / E o rebolado, cadê? /Não tem mais / Cadê o tal gingado que mexe com a gente? / Coitado do meu samba, mudou de repente / Influência do jazz”), mais ou menos nos mesmos moldes de “Chiclete Com Banana”, composto por Gordurinha e Almira Castilho, gravada por Jackson do Pandeiro em 1959 também na onda do nacionalismo (”Eu só ponho bebop no meu samba / Quando Tio Sam pegar o tamborim / Quando ele pegar / No pandeiro e no zabumba / Quando ele aprender que o samba não é rumba...”).
Walter Santos, um baiano cuja voz e atitude lembravam João Gilberto, sustentou a discussão com “Samba Só” (“Bossa nova ou samba-jazz / Sambalanço ou samba só / O que importa é que o balanço é bom / Interessa é balançar / Bossa nova ou samba-jazz / Nosso samba agora está demais / Ah, meu samba, fizeram tanta confusão / Disseram que você desafinava / Ah, meu samba, quanta ingratidão”), e Leny Andrade veio de “Estamos Aí”, de Durval Ferreira e Mauricio Einhorn (“Só se for agora a bossa vai prosseguir / Todo mundo vai gostar, nosso samba é demais / Bossa nova vai mostrar que pode arrasar / Se falar de sol e amor, de mar e luar / E de gente que cantando vai / Gente que só tem na alma paz e amor / E pro mundo todo vai mostrar então / Que a bossa nova cresce / Que a bossa nova vence / Que a nossa bossa vale, estamos aí!”), e completava com um magnífico scat bem na linha do bebop.  
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Edu Lobo, que já havia composto com Vinicius a romântica “Canção Do Amanhecer” (“Ouve, fecha os olhos meu amor, é noite ainda / Que silêncio / E nós dois na tristeza de depois / A contemplar o grande céu do adeus...”),  também entrou no movimento da “nova música popular” dentro de uma abrangência maior, cantando a saga do retirante nordestino em fuga do seu destino para o sul do país, como em “Borandá” – “vamos embora” no linguajar do sertão – (“Vam’borandá, que a terra já secou / Borandá / Vam’borandá, que a chuva não chegou / Borandá / Já fiz mais de mil promessas / Rezei tanta oração / Deve ser que eu rezo baixo / Pois meu Deus não ouve não...”) ou “Chegança” (“Estamos chegando daqui e dali / E de todo lugar que se tem pra partir / Trazendo na chegança foice velha e mulher nova / E uma quadra de esperança...”).  
Foi quando Roberto Menescal e Luiz Fernando Freire responderam com uma música na tentativa de acabar com a polêmica que já começava a dividir os músicos do Rio ao mesmo tempo em que justificava coexistência do “mar-amor-luar” e da “lata d’água na cabeça”, estado de coisas que apontava um dos sérios problemas sociais do estado.
A música se chama “Vê”, foi composta em 1964, e segue assim – (“Vê, entende a gente / Que é feita de amor / E simplesmente à vida dá valor / E sem razão pra tanta reunião / Pra nós importa a voz do coração / E o nosso tema consiste de ternura / Mas só entende quem tem a alma pura / E não depende de quem não vê / Que o mundo é cor / Que o mundo é céu e mar / E que uma flor não vai alienar / Uma canção que é feita pra cantar / E a discussão não vai adiantar / Quem tanto fala devia embora andar / Na mesma praia um dia vai achar / O mesmo céu e aquele mesmo mar...”).
Marcos e Paulo Sérgio Valle também entraram na onda do desagravo da bossa nossa com “A Resposta” (“Se alguém disser que o teu samba não tem mais valor / Porque ele é feito somente de paz e amor / Não ligue não, que essa gente não sabe o que diz / Não pode entender quando um samba é feliz / O samba pode ser feito de céu e de mar / O samba bom é aquele que o povo cantar / De fome basta o que o povo na vida já tem / Pra que lhe fazer cantar isso também?... / ... Falar da terra na areia do Arpoador / Quem pelo pobre na vida não faz um favor / Falar do morro morando de frente pro mar / Não vai fazer ninguém melhorar”).
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Alheias ao movimento surgiram peças um pouco mais raras, mas não menos belas, como as composições que mostram o diálogo entre duas pessoas –  como “Sinal Fechado”, obra prima de Paulinho da Viola lançada por ele no V Festival de MPB da TV Record em 1969 (“Olá, como vai? / Eu vou indo, e você, tudo bem? / Tudo bem! Eu vou indo correndo, buscar meu lugar no futuro, e você? / Tudo bem!  Eu vou indo em busca de um sono tranquilo... quem sabe? / Quanto tempo, pois é, quanto tempo...”), ou “Amigo É Pra Essas Coisas”, composta por  Aldir Blanc e Silvio da Silva Junior em 1970 e imortalizada pelo MPB4 (“Salve! Como é que vai? / Amigo, há quanto tempo! / Um ano ou mais / Posso sentar-me um pouco? / Faça o favor / A vida é um dilema / Nem sempre vale a pena / A... / O que é que há? / ...Rosa acabou comigo / Meu Deus, por que? / Nem Deus sabe o motivo / Deus é bom... / Mas não foi bom pra mim / Todo amor um dia chega ao fim...”). Ou ainda a antológica “Teresa Da Praia”, de Antônio Carlos Jobim e Billy Blanco, que já havia sido composta em 1954 para as vozes de Dick Farney e Lucio Alves (“Lucio, arranjei novo amor no Leblon / Que corpo bonito, que pele morena / Que amor de pequena, amar é tão bom, tão bom / Oh, Dick, ela tem o nariz levantado / Os olhos verdinhos bastante puxados / Cabelos castanhos / E uma pinta do lado...”).
       

SEGUE
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sábado, 11 de abril de 2020





SONHEI COM FLORES 
(Augusto Pellegrini – Odair Ferreira ‘Fala Macio’)

Sonhei com flores
É sinal de alegria ou de tristeza?
Sonhei com flores
Era um paraíso, que beleza
Sonhei com flores
Enfeitando o meu jardim
Vi a criança trazendo flores para mim
Uma rosa nascendo
Num crescendo sem fim
Um arco-íris de lilases
Cravos e jasmins

Meu Deus
Não sei por que acordei
E as pétalas de cores
Pelo chão eu derramei
Ao ver mimosa flor perdida em pranto
Pela vida em desencanto
À realidade eu voltei
Ao ver mimosa flor perdida em pranto
Pela vida em desencanto
À realidade eu voltei

1979


sexta-feira, 10 de abril de 2020





UMA PEQUENA HISTÓRIA BÍBLICA

Efraim era o criado favorito de um bem sucedido negociante chamado Salatiel, que morava numa aldeia próxima ao Monte Ebal, ao norte de Nablus, um dos centros principais do Reino de Jerusalém. Ele se tornara o criado favorito por ter sempre agido com ética e retidão, exercendo o seu trabalho com zelo e respeito, qualidades dedicadas às funções que lhe eram atribuídas.
Cumpria fielmente seus deveres de empregado, tanto ao cuidar do rebanho de cabras quanto ao zelar pelas videiras. 
Salatiel era um homem muito rico e muito justo, e buscava tratar todas as pessoas com as quais convivia – criados, parentes, clientes e outros comerciantes – com muito respeito e consideração.
Certo dia, Salatiel chamou Efraim e lhe confiou o seu cofre, pois iria se ausentar por algumas semanas e queria ter certeza de que seu patrimônio estaria bem cuidado.
Efraim garantiu ao patrão que zelaria pelo tesouro como se zelasse pela própria vida, e Salatiel partiu confiante em que faria bons negócios nas cidades para onde estava indo e que o seu dinheiro estava em boas mãos.
Na verdade, Salatiel havia escondido a maior parte da sua fortuna numa caverna onde só ele conhecia a localização. Deixara com Efraim apenas um cofre contendo 100 moedas de ouro e muitas pedras para que ficasse bem pesado, e o que fazia de fato era apenas um teste de fidelidade, pois realmente não havia a menor necessidade de que um criado tivesse que guardar o seu tesouro.
Por ser o favorito do comerciante, Efraim era constante objeto da inveja do restante da criadagem, e assim que o patrão desapareceu no horizonte, Azarias, que mantinha uma certa liderança sobre os outros criados, maquinou uma história para deslustrar a imagem do favorito aos olhos de Salatiel e se colocar no lugar dele.
Mesmo sem saber o valor contido no cofre, ele resolveu denunciar ao patrão quando da sua volta que Efraim havia aberto o cofre e surrupiado algumas moedas.
Assim resolveu e assim o fez.
Quando Salatiel voltou, foi informado por Azarias e pelos outros criados que Efraim havia traído a sua confiança, aberto o cofre e roubado algumas moedas. E os outros criados foram além, dizendo ao chefe que da próxima vez em que ele se ausentasse, era em Azarias que Salatiel devia confiar, pois Efraim não se mostrara digno de tal confiança.
Desgostoso com o problema, pois depositava inteira confiança em Efraim, Salatiel decidiu averiguar. Primeiro, abriu o cofre e contou as moedas. Ficou satisfeito com o que viu e sentiu um grande alívio por saber que seu julgamento sobre Efraim era justo e correto. O cofre continha as exatas 100 moedas de ouro.
Ao mesmo tempo Salatiel ficou triste por saber que a sua casa abrigava víboras como Azarias e pensou na melhor maneira de puni-lo.
Como não era um homem violento e como, na verdade, seu patrimônio não havia sido lesado, Salatiel decidiu que faria apenas um breve discurso e levaria Azarias à execração junto à comunidade.
Reuniu a criadagem, relatou o fato e declarou que sob o seu teto só poderiam ficar aqueles que tivessem a alma pura e bons propósitos. Acusações infundadas e a disseminação da discórdia entre irmãos eram atos do demônio e isto não poderia ser tolerado.
Finalizou dizendo: “Quem inventa maldades a respeito do seu próximo, denunciando que ele esteja fazendo mal feitos, demonstra um caráter mesquinho. Quem espalha notícias falsas ou sem comprovação é porque tem na sua mente a mesma sujeira que perpetrou para incriminar um inocente. Nunca acreditei que Efraim fosse capaz de me trair ou de agir com improbidade, mas tenho certeza de que, no seu lugar, Azarias teria agido sem retidão, pois sua cabeça é capaz de conceber tal vilania. Que este exemplo sirva de lição a todos os que, por motivo de inveja, procuram se elevar em detrimento de outros. Agindo com nobreza e dignidade, todos terão a sua vez, mas usando a língua viperina e atitudes escusas estarão se afastando da credibilidade e de Deus”.
31.12.2013

quinta-feira, 9 de abril de 2020







Para quem se interessa por jazz, segue uma entrevista que eu dei para o Almanaque Saraiva em 10 de outubro de 2012.
(Augusto Pellegrini)

É possível precisar “quando”, “onde” e “como” surgiu o jazz?
Não é fácil situar com precisão dentro do tempo como o jazz apareceu, mas é possível traçar algumas coordenadas.
O jazz, como nós o conhecemos hoje em dia é o resultado de uma série de ingredientes que foram sendo acrescentados pelos músicos a partir da última década do século 19, tais como o canto do negro escravo – seja nas work songs seja nos hollers – a louvação religiosa, as formações de bandas militares, as baladas originárias da Europa, o ragtime e principalmente o blues, esse já cultivado desde os anos 1850. Estas influências foram se estreitando para produzirem um som musical absolutamente diferente do convencional, a partir da blue note (notas diminuídas na linha melódica) e do off-beat (uma inversão no acento percussivo), sabiamente explorados por alguns artistas de rara sensibilidade, entre eles o pianista, compositor e ator de vaudeville Jelly Roll Morton.
Convencionou-se dizer que o jazz nasceu em New Orleans, mas na verdade a sua semente se encontrava espalhada em diversos outros lugares à beira do Rio Mississipi, nos estados de Missouri e Carolina do Sul, e em Kansas City. Foi New Orleans, no entanto, que sedimentou o estilo e congregou o maior número de músicos qualificados para interpretá-lo. A cidade, cosmopolita por excelência, oferecia todas as condições para uma revolução musical de tal porte.
Pode-se dizer que o jazz surgiu da necessidade de construir uma música realmente americana, a partir do blues e da miscelânea cultural representada por negros, crioulos, caribenhos, brancos e europeus que habitavam a América e que denunciavam a necessidade de se acabar com a estagnação que a música européia enfrentava havia séculos.

Muitos creditam a Elvis Presley o título de rei do rock. Na sua opinião, quem seria o rei do jazz? Duke Ellington, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Miles Davis? Por que?
As pessoas sentem a necessidade de classificar por ordem de importância os profissionais de qualquer área que atinjam uma condição de excelência naquilo que fazem. Assim, na música erudita, é muito comum serem atribuídos valores comparativos entre Bach, Beethoven e Mozart, por exemplo, como se fosse possível dar notas de avaliação para o seu trabalho e para a sua genialidade.
O mesmo ocorre com o jazz. Da mesma forma que Elvis foi chamado de “o rei do rock”, Benny Goodman foi denominado “o rei do swing”, sem nenhum demérito a outros grandes músicos do estilo – Artie Shaw, Glenn Miller, Harry James, Count Basie, Chick Webb, só para citar alguns.
Assim, é uma tarefa árdua situar quem teria sido a figura mais importante do jazz, mas nos parece lógico que deva ser alguém dos primórdios, que tenha influenciado todos os demais que vieram a seguir – e isto exclui Parker, Gillespie, Monk, Davis ou Coltrane, todos irrefutáveis inovadores, mas que surgiram na esteira de algo já existente.
Ellington é um caso à parte, pois seu jazz, embora impregnado da negritude do blues, possuía um experimentalismo que de certa forma o afastava da simplicidade e da pureza com que o jazz foi concebido.
Em minha opinião – corroborada por não menos do que Wynton Marsalis e Miles Davis – o grande nome do jazz de todos os tempos, aquele que influenciou todas as gerações de jazzistas, fossem eles trompetistas ou não, foi Louis Armstrong, considerado pelo crítico Gary Giddins como “o Bach, o Dante e o Shakespeare da música americana”. 
     
Ao longo dos anos, o jazz deu origem a alguns subgêneros: do swing ao bebop, do hard bop ao free jazz, entre outros Como o senhor avalia estas variações? O senhor teria alguma favorita entre tantas? Por que?
O jazz sempre se mostrou ser uma música mutável, como de resto o são praticamente todas as manifestações artísticas, sejam elas musicais, cênicas, plásticas ou literárias. As modificações são inevitáveis, principalmente no jazz, um estilo musical que permite liberdade ao executante, fazendo o intérprete muitas vezes se fundir com o compositor. Há que se notar que exceto na passagem do swing para o bebop e dos estilos bop para o free-jazz ou o jazz-fusion, as variações que aconteceram ao longo do tempo não foram bruscas. O jazz tradicional – stomp, blues de New Orleans e Dixieland foi seguido pelo estilo Chicago, uma espécie de ponte entre o tradicional e o swing, a música das grandes orquestras – privilegiando líderes de grupo, maestros e arranjadores. E os estilos bop se seguiram naturalmente, dentro da mesma característica – bebop, hard bop, cool jazz, West Coast, third stream, funky – privilegiando a criatividade do intérprete e o improviso, e a partir do free jazz ele se desvinculou de todas as convenções, possibilitando uma gama de jazz moderno – fusion, smooth, funk, acid –, com uma alta dose de tecnologia, que deu outra característica ao jazz, mas sem descaracterizá-lo.
Pessoalmente prefiro o jazz dos primórdios até os anos 1980, pela minha própria vivência e formação. Digamos que eu sou mais sensível ao jazz tradicional, ao jazz das big bands e aos estilos bop.  

Muitos autores afirmam que o rock teria sido responsável pela, digamos, derrocada do jazz nos anos 60. O que o senhor pensa disso? Essa afirmativa procede?
Essa afirmativa procede em parte, devido ao engajamento da juventude pós-guerra. A juventude sempre teve um papel importante no destino das coisas, especialmente nas artes. É bom lembrar que o swing encontrou seu ponto alto exatamente quando os adolescentes e jovens adultos deram o seu aval, participando das sessões dos ball rooms e “tietando” seus ídolos, e que a invasão do jazz nas universidades se deu exatamente quando os jovens universitários descobriram o West Coast e o cool jazz . Era inevitável, portanto, que a juventude de outra época voltasse sua atenção para outro movimento. Mesmo assim, não houve a “derrocada” do jazz convencional como preconizada. Ele apenas seguiu outro rumo, mais maduro e talvez mais elitista. A incursão de músicos tidos como convencionais dentro do jazz fusion – como Miles Davis e Gil Evans – no entanto, aproximou bastante a juventude do rock ‘n’ roll dos aficionados do jazz, e precipitou o surgimento de outros músicos que agradavam ambas as partes – tradicionais e contemporâneos – como Chick Corea, Pat Metheny e Weather Report.
 .
Que avaliação o senhor faz do jazz que é feito hoje no Brasil e no mundo? Em pleno século XXI, o gênero continua a evoluir? Ou estaria atravessando um momento de estagnação? Da nova geração, quem são os grandes representantes do gênero aqui e lá fora?
Confesso que no momento não tenho acompanhado a evolução e o movimento do jazz pelo mundo afora. A globalização fez surgir nomes em todo o universo, muitos deles realmente muito bons, e a rotina diária me impede de acompanhar tudo como eu desejaria. Mas o tiro de partida que foi dado no sul dos Estados Unidos na passagem do século 19 para o século 20 provocou uma corrida que não terá mais fim, pela simples razão de que o jazz possibilita milhões de combinações musicais e culturais, e estimula a criatividade a tal ponto que os músicos se multiplicam. É claro que temos que separar o joio do trigo. A expansão mundial do jazz também fez aparecer um sem número de oportunistas que pretendem fazer jazz, mas o que produzem é uma música de qualidade medíocre. Isto pode ser facilmente constatado na internet, que é o Deus e o Diabo nosso de cada dia.
Não consigo declinar os nomes de grandes representantes do gênero, mas seguramente entre os novos nomes que chegaram para ficar estão a cantora e baixista Esperanza Spalding, a jovem cantora Renee Olstead, uma grata surpresa, os saxofonistas-tenor Scheila Gonzalez e Walter Smith III, o trompetista Ambrose Akinmusire e o pianista Fabian Almazan.
O Brasil está produzindo uma boa safra, mesmo tendo se engajado no projeto do jazz com muito atraso em comparação com a Europa. Acredito que a nossa grande marca ainda seja representada por músicos mais veteranos, como a Traditional Jazz Band, o trompetista Claudio Roditi e a pianista Eliane Elias (os dois últimos radicados nos Estados Unidos), a pianista-cantora Tania Maria (radicada na França) e alguns mais jovens, como o Julio Bittencourt Jazz Trio e o trio Delicatessen Jazz. E toda a turma que continua interpretando o bossa-jazz.

terça-feira, 7 de abril de 2020





O GATO CINZA   
(Excerto II)

O som da música invade a sala e embriaga os meus ouvidos enquanto a chuva cai vagarosamente numa sinfonia de pingos que soa em descompasso com o compasso do cravo.
Pressinto algum perigo como se fosse um inseto assustado, e um medo irracional me invade e me gela o sangue nas veias.
Imprudentemente, deixo a janela escancarada e fito com os olhos perdidos os galhos da castanheira balançarem ao sabor do vento. Um som vindo de fora se confunde com a música de Frescobaldi como se alguma corda do cravo tivesse se partido em mil pedaços transformando a harmonia em algo áspero e destrutivo.
(Toccata Seconda, em sol menor).
Então surge a aparição, como uma visagem.
Sentado no beiral da janela, tendo a chuva e a castanheira como fundo, o gato cinza sorri para mim. Sorri um sorriso debochado e sobrenatural, caçoa e zomba de mim e de tudo o que represento.
Mais do que tudo, sorri um sorriso que me amedronta. A Toccata Seconda será a segunda e última, me parece.
O gato cinza está estático. Seus dentes e suas unhas estão à mostra e o seu olhar avermelhado me deixa imóvel na poltrona, sem forças para me levantar, para tentar fugir, para me defender ou sequer dialogar.
Os segundos passam como se fossem horas, minha expectativa cresce e a cena fica paralisada como numa fotografia.
Ele me fita, e a sua expressão se torna cada vez mais humana, mais aterrorizante e mais provocadora. Mais diabólica.
A música cessou e o silêncio sepulcral é apenas quebrado pelo ruído compassado da agulha sobre o disco de vinil e pelo ritmo alucinante provocado pela chuva da estação.
Então, o inesperado acontece.
Ele me lança um derradeiro olhar e, tomando impulso como se fosse se lançar contra a minha garganta, gira o corpo e levanta voo como um pássaro assustado saindo janela afora em direção ao desconhecido, passando célere pelo poste de iluminação e sumindo nos céus como uma coruja em debandada.
Um relâmpago cai junto com o troar de um trovão, e depois volta a reinar o mais profundo silêncio dentro da sala.

sexta-feira, 3 de abril de 2020






COMO NASCEM AS CANÇÕES
(Augusto Pellegrini)

(Parte 3)


A bossa-nova, oficialmente lançada em 1958, congregou diversos compositores e intérpretes da Zona Sul carioca e criou bordões que exaltavam a beleza e o romantismo personificados como o sol, o mar e o azul do céu de Copacabana.
A bossa nova nasceu da necessidade de afastar o mau humor causado pelo samba-canção com suas letras sofridas que falavam de desamor, desilusão, traição e desencanto – que os progressistas chamavam de “fossa”.
Músicas como “Vingança”, de autoria de Lupicínio Rodrigues, numa gravação de Linda Batista de 1951 (“Eu gostei tanto, tanto quando me contaram / Que te encontraram chorando e bebendo / Na mesa de um bar / E que quando os amigos do peito por mim perguntaram / Um soluço cortou sua voz, não lhe deixou falar... / ... Mas enquanto houver força em meu peito eu não quero mais nada / Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar / Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada / Sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar”), ou “Ninguém Me Ama”, de Antônio Maria, gravado por Nora Ney em 1952 (“Ninguém me ama, ninguém me quer / Ninguém me chama de meu amor / A vida passa, e eu sem ninguém / E quem me abraça não me quer bem / Vim pela noite tão longa de fracasso em fracasso / E hoje, descrente de tudo, me resta o cansaço / Cansaço da vida, cansaço de mim / Velhice chegando e eu chegando ao fim”), ou ainda “Bar Da Noite”, de Haroldo Barbosa, gravado pela mesma Nora Ney em 1957 (”Garçom, apague essa luz que eu quero ficar sozinha / Garçom, me deixe comigo, que a mágoa que eu tenho é minha / Quantos estão pelas mesas bebendo tristezas / Querendo ocultar / O que se afoga no copo renasce na alma / Desponta no olhar / Garçom, se o telefone bater, e se for pra mim / Garçom, repita pra ele que eu sou mais feliz assim / Você sabe bem que é mentira, mentira noturna de bar / Bar, tristonho sindicato dos sócios da mesma dor / Bar, que é um refúgio barato / Dos fracassados do amor”).
Os que procuravam por uma saída menos trágica tiveram um alento quando surgiram as figuras mais amenas de Dick Farney, Lucio Alves, Johnny Alf e Sylvia Telles, mas eles procuravam mais do uma letra que se parecesse com a ensolarada realidade da Zona Sul. Eles também queriam uma harmonia que aproximasse a música brasileira da sonoridade de Barney Kessell, Jim Hall, Dave Brubeck, Chet Baker ou Bill Evans.
A questão começou a ser solucionada com um ex-pianista de boate chamado Antônio Carlos Jobim, conhecido como Tom, que a partir do início da década de 1950 já vinha prestando bons serviços à música brasileira compondo, fazendo arranjos e dirigindo gravações, e através de Johnny Alf, um cantor-pianista que propôs ao público uma harmonia diferente, utilizando-se de uma forma arrojada de interpretação.
E a cidade contribuiu com as suas belas praias, com a paisagem paradisíaca e com o Beco das Garrafas, como eram chamadas as boates Bottles’ Bar e Little Club, enfiadas na Rua Duvivier, no coração de Copacabana, palco das futuras apresentações de samba-jazz – Sergio Mendes, Os Cariocas, Durval Ferreira, Leny Andrade, Luiz Carlos Vinhas, e tantos outros.
Mas o Dia D da revolução tão esperada aconteceu com o aparecimento de um cantor-violonista chamado João Gilberto, que deu novos rumos à música brasileira em termos de tempo, contratempo e acordes inusitados e jamais pensados (só o aparecimento de João Gilberto na música brasileira mereceria pelo menos um capítulo inteiro, ou quem sabe um livro completo!).  
A partir de João Gilberto apareceram outros nomes de cantores e compositores, as gravações do novo estilo passaram a ser lançadas pelas gravadoras e a nova tendência do mar-amor-luar começou a tomar conta do Rio e se espalhar pelo eixo musical Rio-São Paulo – embora João, antigo crooner de conjunto vocal executasse boa parte do seu trabalho explorando compositores e sambistas antigos e dando a eles a sua roupagem toda particular.
Já no seu primeiro LP – “Chega De Saudade”, lançado em 1959 – João mesclou composições de Jobim, Vinícius, Lyra e Bôscoli com músicas mais antigas de Caymmi, Marino Pinto, Zé da Zilda e Ary Barroso.     
Da safra nova que começou a conquistar o mercado, a dupla Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli era uma das mais profícuas, com músicas de intensa poesia, como “Rio” (“Rio, que mora no mar / Sorrio pro meu Rio que tem no seu mar / Lindas flores que nascem morenas / Em jardins de sol / Rio, serras de veludo / Sorrio pro meu Rio que sorri de tudo / Que é dourado quase todo dia / E alegre como a luz”), “O Barquinho” (“Dia de luz, festa de sol / E um barquinho a deslizar / No macio azul do mar / Tudo é verão e o amor se faz / Num barquinho pelo mar / Que desliza sem parar / Sem intenção, nossa canção / Vai saindo desse mar / E o sol beija o barco e luz / Dias tão azuis”) e “Você” (“Você, manhã de tudo meu / Você, que cedo entardeceu / Você, de quem a vida eu sou / E sei mas eu serei / Você, um beijo bom de sol / Você, em cada tarde vã / Virá sorrindo de manhã ...”).
Alguns bossanovistas bissextos como os irmãos Marcos e Paulo Sergio Valle também compuseram músicas cheias de poesia que a moçada cantava na praia e nos apartamentos de Ipanema, como “Samba De Verão” (“Você viu só que amor? / Nunca vi coisa assim / E passou, nem parou / Mas olhou só pra mim / Se voltar vou atrás / Vou seguir, vou falar / Vou dizer que o amor / Foi feitinho pra dar / Olha, é como o verão / Quente o coração / Salta de repente / Para ver a menina que vem...”), e Sergio Ricardo, que mais tarde também engrossaria a turma do protesto, trazendo um viés noturno e soturno para a bossa nova, mesmo falando de mar e amar, como em “Poema Azul” (“O mar beijando a areia / O céu, a lua cheia / Que cai no mar / Que abraça a areia / Que mostra ao céu e à lua cheia / Que prateia os cabelos do meu bem...”).
O ápice do romantismo bossanovista veio com “Garota De Ipanema”, de Antônio Carlos Jobim, então já um músico consolidado, e Vinicius de Moraes, um diplomata em desencanto (“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça / É ela, menina, que vem e que passa / Num doce balanço, a caminho do mar / Moça do corpo dourado do sol de Ipanema / O seu balançado parece um poema /  É a coisa mais linda que eu já vi passar”) e com “Corcovado”, de Tom (“Um cantinho, um violão, esse amor, uma canção pra fazer feliz a quem se ama...), que impropriamente deu início ao jargão “um banquinho e um violão”, que fazia alusão às reuniões aos encontros dos músicos do novo sistema nos apartamentos da Zona Sul. 

SEGUE