sexta-feira, 2 de outubro de 2015






COM JEITO VAI 

“Vai com jeito, vai, senão um dia a casa cai...” – já dizia uma marchinha carnavalesca de Braguinha, também conhecido por João de Barro, gravada por Emilinha Borba em 1956.
A letra da marchinha dizia respeito a uma garota sapeca que aceitava convites festivos de namorados também sapecas, e acabou servindo de alerta aos desavisados para que cuidassem do seu comportamento profano porque quando menos se espera a casa que pensávamos ter erigido sobre uma rocha foi construída em terreno arenoso, e cai (Mateus 7.24.27).
Ir das delícias da opulência para o amargor do inferno é apenas uma questão de tempo.
José Maria Marin partiu direto de um dos melhores hotéis de Zurich para  uma das melhores prisões da Suiça – Dielsdorf, Limmattal, Pfäffikon, Meilen, Winthertur, não se sabe ao certo – porque foi pego com a boca na botija com outros sete dirigentes ligados à Fifa, num processo movido pela justiça dos Estados Unidos. Na agenda, irregularidades e corrupção na escolha das sedes das Copas do Mundo de 2018 e 2022 e contratos de exclusividade para a transmissão dos jogos.
O atual presidente da CBF Marco Polo Del Nero teve que declinar de um convite para se reunir com outros presidentes de confederações também na Suíça para discutir sobre a reforma da entidade e sobre as novas eleições para substituir o atual presidente Blatter, porque se ele sair do Brasil poderá ter o mesmo destino do seu antecessor. Os americanos denunciam que Del Nero dividiu propina com Marin e Ricardo Teixeira, e a desistência da viagem é a maior prova que algum crime foi cometido.
Na semana passada foi a vez do poderoso Jérôme Valcke, afastado de suas funções de super-secretário geral da entidade por suspeita de ter participado de um esquema de venda ilegal de ingressos para a Copa 2014. Possivelmente a sua ida para a cadeia seja apenas uma questão de tempo.
No olho do furacão se encontra atualmente o presidente Joseph Blatter que tem a sua possível participação na bandalheira investigada, com fortes indícios de negociações espúrias com a Concacaf.
Esta semana foi a vez de dois outros ilustres caírem na malha da investigação: o ex-craque Michel Platini, atual presidente da UEFA – União das Federações Europeias de Futebol e virtual candidato a substituir Blatter na presidência da Fifa, e o atual craque Neymar junto com a sua sagrada família.
Platini está sendo acusado de ter recebido 2 milhões de dólares de Blatter de forma irregular – um fato curioso, pois pelo que se sabe ambos são inimigos cordiais, pois o francês sempre que possível dá as suas alfinetadas no presidente da Fifa, tendo inclusive sugerido a sua renúncia ou destituição.
Já Neymar, juntamente com seu pai, seu agente, o Santos e o Barcelona, está sendo investigado por apropriação indébita e crimes fiscais, além de corrupção e fraude em fundos de investimentos, e isto poderá dar muito pano pra manga.
O jogador já acusou o golpe, pois após ter recebido a notícia teve uma atuação apagada contra os alemães do Leverkusen pela fase de grupos da Liga dos Campeões.
Do lado de cá do Atlântico, emanam de Curitiba mandados de prisão a torto e a direito, punindo cidadãos aparentemente acima de qualquer suspeita – políticos, empresários, administradores públicos – por terem ultrapassado a linha da decência, da ética e da moralidade.
Na verdade, este tipo de infração, em maior ou menor escala, sempre existiu. No futebol, o jornalista britânico Andrew Jennings há muito denuncia a corrupção na Fifa, e em outros campos de atividades sempre houve suspeita de falta de lisura em contratos, transações e movimentações financeiras.
Nada parecido, no entanto, com as descobertas acontecidas no século 21, o século da lavagem da roupa suja.
Os desavisados perderam o medo e a compostura, e agora começam a pagar pelos seus pecados.
Assim, as casas vão caindo, e não foi por falta de aviso.

 

(artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 02/10/2015)

 

 

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015







 ECOS DO 7º LENÇÓIS JAZZ & BLUES FESTIVAL

São Luís não tem o hábito de comentar espetáculos artísticos depois que o evento termina. É como se as emoções também fizessem as malas e partissem junto com os artistas que fizeram a cena.
Se por um lado isto pode evitar o constrangimento do redator quando ele precisa comentar os às vezes inevitáveis equívocos ocorridos, por outro lado deixa de manter viva a chama que aqueceu o público por algumas horas e que corre o risco de jamais ser acendida novamente.
Assim, é necessário que se faça um registro para a posteridade.
O 7º Lençóis Jazz & Blues Festival realizado em São Luís foi sem dúvida um dos pontos altos da qualidade musical levada aos palcos da cidade em 2015, posto que reuniu em dois dias, no mesmo local, seis atrações que a cidade terá dificuldade em rever, tal a importância dos músicos e das suas agendas lotadas. Não vou comentar a etapa Barreirinhas, igualmente vitoriosa – que contou com astros internacionais, nacionais e locais – porque não estive lá presente. Deixo a tarefa para um comentarista que possa resumir em palavras o encanto das noites de jazz naquele paraíso.
Mas de Barreirinhas me restou uma conversa descontraída com o pianista Darrell Lavigne, que lá havia se apresentado na semana anterior e veio para São Luís para ministrar um workshop sobre Creole Music e dar algumas pinceladas sobre a música e a cultura de New Orleans, uma prova do amadurecimento do Festival, cujos organizadores merecem o meu aplauso.   
Em São Luís a produção foi também muito feliz não apenas na escolha dos convidados, mas também na sequência que foi estabelecida em ambas as noites do festival, sempre iniciando com uma apresentação jazzística moderna para aquecer as turbinas do bom gosto, passando pela brasilidade da bossa nova para convidar o público a cantar com os artistas e terminando com um mexe-remexe frenético que incluiu elementos do jazz & blues na música mágica dos Beatles e no mais puro black & soul music que convidou o público a deixar as cadeiras de lado e cair na dança.
Tudo começou na noite de sexta-feira, 25 de setembro.
No palco, a primeira atração – o André Marques Sexteto – um grupo que decolou numa viagem maravilhosa e inovadora, misturando sons nordestinos como o baião e pitadas do bumba-meu-boi com o que há de mais progressivo no jazz contemporâneo. André é um gigante de pouco mais de um metro e meio de altura, mas a sua tímida simpatia o faz crescer ainda mais. 
A sonoridade forte dos metais – trombone e trompete – em contraponto com a singeleza das notas do piano e uma criativa inversão entre melodia e harmonia deu a tônica da apresentação do grupo.
O tempo recuou mais de cinquenta anos para dar passagem à bossa cheia de estilo de Roberto Menescal e Wanda Sá, fazendo o público navegar ao som de O Barquinho, Rio e outras composições do par perfeito Menescal & Boscoli e outros compositores que também foram premiados com o passar do tempo.
Menescal é como o vinho, e um vinho muito especial, cujo sabor se encorpa nos nossos ouvidos a cada taça tomada, a cada música executada.
A alegria e o companheirismo mostrados pelos Blues Beatles ainda nos camarins se transferiu para o palco, misturando irreverência e descontração, e revelando uma boa dose de blues com fortes citações dos elementos sonoros da banda de Liverpool.
Donos de uma forte presença de palco e liderados por um vocalista que irradia energia, a banda encerrou a noite num clima de alto astral, deixando antever mais curtição da boa para a noite de sábado.
Sábado chegou, e quem foi à Praça Maria Aragão não se arrependeu.
Começando com o pianista Gadi Lehavi, um menino de dezenove anos nascido em Israel e residente do mundo, que encantou com uma técnica apurada e uma simplicidade emocionante. Seu parceiro, o veterano e competente baixista brasileiro Paulo Russo valorizou in extremis a sua performance musical.
Entre canções jazzísticas interpretadas com rara inspiração, Gadi tocou Pixinguinha e Cartola e também tocou os corações de quem estava presente, num momento de puro encanto, fazendo o público delirar.
Na sequência tivemos a categoria e o carisma de Daniel Jobim, neto de Tom, que levou para o palco a imagem, a voz e os acordes do avô, num momento belo e introspectivo, pois se resumiu exatamente a isso – piano, voz, e uma imagem que lembrava o velho Tom de terno preto e chapéu Panamá, como era do seu feito. “Passarim quis voar”, e desta vez voou para o alto do Corcovado. Sua modéstia cativou a todos, na plateia, no palco e nos camarins.
Faltou o charuto, mas deixa pra lá.
A noite chegou ao seu clímax com os Serial Funkers que abusaram do estilo black não apenas nas músicas como também no look. Comandados pelo cantor Regis Paulino, os Funkers também botaram o pessoal para dançar, esbanjando vitalidade, criatividade nos arranjos, competência e, sobretudo negritude, qualidade essencial para quem deságua na leitura soul, black e funk.
O festival chegou ao fim com aquele gosto de “quero mais”.
Quem perdeu, perdeu.

sábado, 26 de setembro de 2015







COMEÇAR DE NOVO 

A seleção brasileira foi novamente convocada, desta vez para começar a luta pela classificação para a Copa do Mundo de 2018, a ser disputada na Rússia.
As Eliminatórias sul-americanas terão a participação de dez países, sendo que os quatro primeiros estarão classificados automaticamente e o quinto colocado ainda terá uma chance de disputar uma repescagem contra um representante do continente asiático.
Cada seleção disputará nove jogos em casa e nove no campo dos adversários, o que torna aparentemente mais confortável a trajetória do Brasil e da Argentina, times muito difíceis de ser vencidos quando atuam nos seus próprios domínios.
No entanto, dada a atual turbulência por que passa o futebol brasileiro, todo cuidado é pouco.
Depois de ficar em quarto lugar na Copa 2014 disputada em casa, o Brasil tem a oportunidade e a obrigação de se redimir diante da sua torcida e diante do mundo, que perdeu a confiança na tão decantada qualidade do “melhor futebol do mundo”.
A lista de Dunga não apresenta grandes novidades depois dos amistosos contra Costa Rica e Estados Unidos, e nem poderia ser diferente.
Na verdade, com a impossibilidade de contar com Neymar e Daniel Alves, mais alguns lesionados menos importantes, Dunga não está buscando uma formação com novos nomes, está simplesmente contando com o que existe no mercado, mesmo tentando dar uma cara renovada à seleção.
A safra não é muito encorajadora, pois dos vinte e três nomes da lista temos no máximo seis jogadores que poderiam ser realmente considerados numa convocação séria, se não como titulares absolutos, pelo menos para compor o grupo.
Mas o grande problema da seleção não são exatamente os jogadores.
O grande problema é que o mundo evoluiu e a gente continua jogando o mesmo futebol de vinte anos atrás.
O leitor dirá que neste interregno nós ganhamos uma Copa – 2002 – mas então nós tínhamos jogadores melhores que esses que estão aí, e tivemos nosso trajeto facilitado por enfrentarmos seleções sem expressão, além de uma ajudazinha aqui e ali da arbitragem contra a Bélgica e contra a Turquia.
Vencemos a Alemanha na final, é certo, mas o nosso esquema de jogo já se mostrava em declínio.
Se o leitor analisar bem, verá que a coisa não mudou muito em termos de ordem tática: naquele tempo havia a chamada “ligação direta” com chutões da defesa para a correria de Ronaldo, que fazia valer a sua técnica e o seu vigor para, com a ajuda de Rivaldo, criar o pânico na defesa adversária. Hoje o chutão vai em direção de Neymar.
Como Neymar não joga as duas primeiras partidas, a eficiência desta jogada fica um tanto comprometida.
O futebol hoje em dia pode ser resolvido até sem a necessidade de um craque; basta que os jogadores tenham um nível razoável, assimilem a noção de conjunto, ocupem todos os espaços e se movimentem constantemente. E tenham um bom preparo físico para correr 120 minutos se necessário.
O grande problema para estes jogadores, no entanto, é a deficiência nos fundamentos: os atacantes se atrapalham na hora do gol e os defensores se confundem no posicionamento, deixando vazios para que um avante esperto chegue para definir.
Os técnicos estrangeiros estão alguns anos à frente dos técnicos brasileiros – e a gente pode sentir isto claramente apenas observando qualquer partida de uma liga europeia e as partidas disputadas pelos times da Séria A do Campeonato Brasileiro.   
Além disso, o prestígio da seleção também anda em baixa.
Depois de Diego Costa, que no ano passado trocou o Brasil pela Espanha, chegou a vez de Rafinha, lateral do Bayern Munich. Convocado por Dunga, e sabedor de que na cotação do treinador está atrás de Daniel Alves, Danilo e Fabinho, preferiu a Alemanha, onde depois que se naturalizar poderá eventualmente ser o substituto do lendário Philipp Lahm, que se aposentou da seleção.

 

 

 

(Artigo publicado no caderno SuperEsportes do jornal O Imparcial de 25/09/2015)

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015







OLHO NO LANCE! 

Os torcedores do século passado que assistiam futebol pela TV devem se lembrar de um dos bordões televisivos criados pelo locutor esportivo Silvio Luiz para animar a narração sempre que havia alguma jogada com perigo iminente de gol.
“Olho no lance!!! – gritava ele.
O título deste artigo não se deve, porém, a uma homenagem ao velho narrador – que aos 81 anos ainda se encontra na ativa – nem faz uma simples visita ao passado. Ele se deve a uma esperança futura.
Pelo andar da carruagem – eis aqui outras pérolas do Silvio – está chegando a hora de soltar um grito na garganta e conferir no replay.
Finalmente alguém está se mexendo a fim de modernizar a arbitragem do futebol e utilizar a tecnologia para corrigir as tão frequentes distorções do homem do apito, mesmo que por enquanto fique apenas nos torneios e campeonatos principais.
E a frase “Olho no lance!” tem um significado duplo porque, caso a proposta seja aprovada, o futebol passará a contar com um olho muito especial e imparcial, posto que eletrônico, para analisar os lances polêmicos do jogo.
É uma conquista dos torcedores, dos jornalistas, das redes sociais e das pessoas de bom senso, que estão fiscalizando com mais atenção as atitudes dos poderosos.
Na sua edição de domingo último, o caderno SuperEsportes de O Imparcial trouxe a notícia em primeira mão para fazer companhia ao aperitivo que acompanha a leitura do jornal e antecede o almoço familiar.
A CBF acabou cedendo às reclamações dos clubes das Séries A e B, que a cada rodada se veem prejudicados por erros grosseiros de arbitragem, e está criando um projeto a ser aprovado pela Fifa para a adoção de recursos tecnológicos na arbitragem brasileira a partir de 2016, quiçá alcançando depois uma abrangência mundial.
O projeto está a cargo do ex-árbitro Manoel Serapião Filho, atualmente diretor da Escola de Arbitragem.
Antes de entrar nos detalhes do plano da CBF, vale a pena lembrar que não é de hoje que as coisas da arbitragem são vistas com muita preocupação, e que no Brasil já aconteceram muitos casos nebulosos que chegaram a decidir campeonatos sem que houvesse uma condição de direito de que o erro fosse consertado.
Em pelo menos duas vezes os fatos se transformaram em escândalo e foram levados aos tribunais – em 1982, com a Máfia da Loteria Esportiva e em 2005, com o affair Edilson Pereira de Carvalho. E deve ter muita coisa escondida debaixo do tapete.
É de se imaginar que num país onde se descobre que a corrupção corrói as entranhas de órgãos do governo, de empresas estatais e de grandes grupos empresariais, o esporte não esteja imune. Então, qualquer dispositivo que seja criado para acabar, ou pelo menos minimizar com os malfeitos de arbitragem será imensamente bem-vindo.
Afinal, como bem disse o poeta Guimarães Rosa, “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”.
Não é a primeira vez que alguém levanta esta bandeira. Desde a época de João Havelange, muitos clubes e jornalistas sugeriam para que recursos extracampo fossem utilizados para auxiliar a arbitragem e fazer resultados mais justos.
Naquele tempo a tecnologia era precária, mas mesmo assim teria sido possível evitar muita injustiça se uma comissão de notáveis pudesse ter criado um plano adequado para o momento.
Mas Havelange sempre foi contra a ideia por achar que “o futebol perderia a sua graça se não houvesse polêmica”, uma declaração própria de quem está no comando de muita bandalheira, como veio a ser provado recentemente.
A Fifa, com sua tradição secular, também sempre se mostrou contra, e o assunto tem sido página virada nas reuniões dos velhinhos da International Board, que sempre acabam com muitos tapinhas nas costas, charutos e chá com rosquinhas, mas poucos resultados de ordem prática. 
A sugestão de mudança propõe a criação de um árbitro adicional denominado Árbitro de Vídeo, que pode informar ao árbitro de campo eventuais incorreções não assinaladas ou assinaladas erroneamente após rever o lance algumas vezes pelo replay através de diferentes câmeras.
O Árbitro de Vídeo terá a atribuição de corrigir erros técnicos e disciplinares gritantes que possam alterar o resultado ou o desenvolvimento de uma partida.
Em tempo de televisão e de câmeras “Big Brother” espalhadas a torto e a direito, este sistema será um divisor de águas, servindo também como professor de arbitragem para os árbitros mal preparados ou mal intencionados.
É a tecnologia a serviço da transparência e da honestidade.   

 

 

 

 

(artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 18/09/2015)

 

 

sábado, 12 de setembro de 2015







AS REGRAS DO JOGO 

No último Fla-Flu, o rubro-negro abriu a contagem com um gol irregular. O zagueiro Wallace ajeitou com o braço um cruzamento e o resultado foi um chute à queima-roupa de Sheik dando início ao naufrágio tricolor. Final, 3x1 para o Flamengo.
Do jeito que o Fluminense jogou iria acabar perdendo de todo jeito, se livrou até de uma goleada histórica, mas isso não alivia a crítica por mais um erro grosseiro de arbitragem.
O Campeonato Brasileiro está contaminado, contando todos os erros que se sucedem há pelo menos sete rodadas.
E são erros que significam grandes lucros para alguns e grandes perdas para outros, num óbvio atentado contra a lisura do esporte.
Isto não significa, vejam bem, que o campeonato esteja sob suspeição, mas a contagem de pontos na tabela de classificação pode ser considerada ilegítima, pois numa disputa por pontos corridos, três pontos que forem conseguidos por vias tortas podem significar um distanciamento indevido de um time para outro, muitas vezes inviabilizando uma recuperação, jogando por terra todo o trabalho executado e colaborando decisivamente para a conquista do título por um determinado clube.
A estatística vai registrar o nome do campeão, mas não mencionará se a conquista possa ter sido fruto de arbitragens espúrias.
A Comissão de Arbitragem procura disfarçar a sua incompetência e afasta um árbitro aqui, um auxiliar ali, mas não chega ao cerne do problema.
Falta, na verdade, uma gestão séria no futebol brasileiro, e um dos motivos parece ser a subordinação da Comissão de Arbitragem à CBF.
Acobertado por uma direção prepotente e guiado por uma mão misteriosa, o árbitro de futebol acaba tendo o mesmo status de um ministro do Supremo, embora não passe de um cidadão comum.
O árbitro é corporativista e totalmente avesso às críticas e ao diálogo, toma decisões como se fosse o próprio Rei Salomão e não aceita a opinião contrária nem dos próprios auxiliares, que estão ali para ajudá-lo.
Erra e não admite que errou. Justifica a sua incompetência ou má fé acusando a tecnologia que aponta os seus malfeitos. E, na mesma medida em que se considera intocável, ele usa pesos e medidas diferentes e contraditórios para com técnicos e jogadores, punindo uns e não punindo outros a partir da sua simpatia pessoal.
A história da arbitragem no Brasil aponta fatos curiosos.
Em 2005 o Campeonato Brasileiro foi conspurcado com uma decisão absolutamente estapafúrdia do Tribunal de Justiça Desportiva, que mandou tornar sem efeito uma série de onze jogos realizados e ordenou que as partidas fossem jogadas novamente, o que obrigou os times a utilizar outros jogadores e atuar dentro de outras condições, o que causou uma reviravolta na tabela, num casuísmo sem precedentes na história do futebol.
Isto porque houve a denúncia de que um árbitro – Edilson Pereira de Carvalho – havia manipulado resultados.
Passados dez anos, o próprio Edilson admite que combinou resultados para favorecer a chamada Máfia das Apostas, mas em apenas três das onze partidas que foram anuladas e que, ironicamente, nenhum dos resultados combinados chegou a ocorrer.
Ele foi além e disse que “não era só ele que manipulava resultados”, mas teve que se calar porque não tinha provas para implicar outros apitadores.
Edilson era um dos árbitros Fifa indicados pela CBF. De acordo com ele, dos dez árbitros da elite na época, “três eram incompetentes e dois estavam lá por nomeação política”.  
Em entrevista concedida ao site Globo.com o ex-árbitro diz que suspeita que o problema foi utilizado para beneficiar algum clube e lança dúvidas sobre a arbitragem de Márcio Rezende de Freitas na partida em que Corinthians e Internacional empataram 1x1, com a não marcação de um pênalti do goleiro corintiano Fábio Costa sobre o colorado Tinga, que sofreu a penalidade e acabou penalizado com uma expulsão por uma suposta encenação. 
Arredio, Edilson não afirmou nada, mas deixou subentendidas várias coisas.     

 

(Artigo publicado no caderno SuperEsportes do jornal O Imparcial de 11/09/2015)

 

sábado, 5 de setembro de 2015





SÉRIE B EM DESTAQUE 

Não me recordo de na era dos pontos corridos o Campeonato Brasileiro da Série B fechar a segunda rodada do returno com tanto equilíbrio.
Pra se fazer uma ideia, a diferença que separa o líder – Botafogo-RJ – e o quinto colocado – Paysandu-PA – é de apenas dois pontos. E é de quatro pontos a diferença entre o primeiro e o sétimo colocado, no momento o Náutico-PE.
No meio do sanduiche, isto é, entre o segundo e o quarto lugar estão Vitória-BA, Sampaio Corrêa-MA e Paysandu-PA, pela ordem. Todos, portanto, com reais condições de assumir a liderança na próxima rodada ou de dormir na oitava posição.
Na prática, todos têm evidentes possibilidades de conquistar o título, e sonoras possibilidades de terminar o turno na zona de classificação para a Série A de 2016.
É claro que uma situação como essa só acontece porque os times têm mostrado muita irregularidade nas suas campanhas.
Os quatro primeiros colocados têm um percentual de aproveitamento de 61,9 a 58,7% (o nosso Sampaio tem 60,3% de sucesso).
Grosso modo, isto significa seis resultados positivos em dez jogos realizados, mas como a estatística não tem alma, ficam no mesmo pacote as vitórias fora de casa, as derrotas em casa, os empates improváveis e os empates heroicos.
Uma coisa é certa: qualquer destes cinco primeiros colocados que enfileirar uma sequência cinco ou seis vitórias e conseguir ganhar uns quinze a dezoito pontos de enfiada nas próximas partidas começará a sentir o gostinho definitivo de habitar a zona de acesso à Série A e até sonhar com o título, principalmente se os adversários começarem a vacilar, como todos têm feito até o momento.
O Sampaio Corrêa terá uma verdadeira prova de fogo nestas próximas seis partidas, e precisará acumular o maior número possível de pontos se quiser manter suas pretensões para pelo menos terminar o returno entre os quatro líderes.
Com exceção do Ceará-CE, que está no momento ocupando a penúltima posição, a quem o Sampaio enfrenta em casa daqui a duas rodadas, o que vem por aí é um convite à superação.
A começar pelo próximo adversário, Náutico-PE (7º colocado), em Recife. Também fora de casa o Sampaio enfrentará o Criciúma-SC (9º) e o Bahia-BA (4º), recebendo, além do já mencionado Ceará, também o América-MG (6º) e o Santa Cruz-PE (8º).
No sétimo jogo, o Tubarão receberá o Botafogo-RJ (1º colocado no momento), isto é enfrentará praticamente todos os seus adversários diretos numa sequência direta.
Pra quem curte um desafio, o Sampaio Corrêa terá que se desdobrar e dar provas de muita garra e maturidade num espaço de trinta dias contando com o desgaste físico e emocional, viagens a Recife, Salvador e Criciúma, e eventuais perdas de jogadores por contusão e suspensão.
Isto se o inoportuno (embora sempre oportuno) questionamento sobre o silêncio mantido pelo presidente Sérgio Frota pela venda do Centro de Treinamento José Carlos Macieira feita em 2009 por Antônio Cícero Oliveira Martins para e empresa Hispamix não venha causar um racha de proporções imprevisíveis no comando tricolor, levando a encrenca para dentro de campo e mexendo com a cabeça dos jogadores.
Afinal, os atletas, que de tempos em tempos enfrentam problemas com atraso de salário, também gostariam de saber, assim como os torcedores e os jornalistas de O Imparcial, onde foram parar os R$ 6,75 milhões da venda do terreno, que aparentemente ainda não foi legalizada por problemas de documentação.
Dentro e fora do campo, o Sampaio Corrêa vai enfrentar uma verdadeira batalha e precisará de determinação, cabeça no lugar e muito futebol no pé para sair dela ileso.

      

   

 

 

 

(artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 04/09/2015)

 

 

sexta-feira, 28 de agosto de 2015






EURICO E A SIBÉRIA 

Há cerca de quinze dias o Vasco da Gama – e por extensão todo o futebol brasileiro – foi brindado por uma declaração emitida pela boca do seu próprio presidente Eurico Ângelo Marcio de Oliveira Miranda: se o clube cair para a Série B do Campeonato Brasileiro ele “vai procurar o ponto mais distante da Sibéria e se mudar para lá”.
E proibiu a palavra “rebaixamento” em São Januário.
Esta declaração pode ser alvissareira ou não, dependendo do ponto de vista.
Há quem defenda Eurico e os seus métodos pouco ortodoxos de gerenciar as coisas do Vasco, justificando seus arroubos por conta da paixão sem limites que tem pelo clube. Para estas pessoas, se cada clube tivesse o seu Eurico as coisas estariam melhor no futebol brasileiro.
Há porém quem o acuse de ser um caudilho prepotente e truculento que se beneficia do clube e trata a imprensa, os opositores e o mundo com um tacape na mão, não proporcionando qualquer benefício ao esporte, quer como lazer quer como negócio.
Na prática, a situação de momento não lhe é favorável.
Com vinte rodadas já disputadas e faltando dezoito jogos por clube para o final do certame, parece que o presidente – que ressurgiu das cinzas trazendo com ele de volta “o respeito ao futebol carioca” – pode começar a procurar uma agência de viagens e algum corretor de imóveis em Irkutsk.
O Vasco está em último lugar na tabela, a seis pontos do penúltimo colocado e a nove pontos de sair da zona de rebaixamento, uma posição extremamente delicada para o momento atual.
Em edições anteriores, clubes que estavam nesta zona de pontuação não conseguiram se salvar da vassourada final, mas ainda que respirando por aparelho os jogadores do Eurico vão lutar para reverter a situação a fim de manter o presidente residindo na Cidade Maravilhosa, banhada pelo sol e pelo mar e adornada por um céu azul de bossa nova. Apesar de às vezes se assemelhar a um urso, com certeza o presidente não iria se dar bem com o clima siberiano.
Os matemáticos do esporte estimam que para sair desta posição incômoda, com apenas 13 pontos conseguidos em 60 disputados, o clube tem que obrigatoriamente vencer dez dos dezoito jogos restantes e torcer para que os seus companheiros da parte de baixo da tabela não façam a parte deles.
Ainda de acordo com os matemáticos, a chance do Clube da Colina despencar ladeira abaixo e se esborrachar na segunda divisão é no momento de 95%.
Consultei os matemáticos, os bruxos e o oráculo, e embora não tenha conseguido obter qualquer conclusão definitiva, parece que nas treze vezes que o campeonato foi disputado pelo sistema de pontos corridos, desde 2003, nunca um clube conseguiu se salvar tendo chegado a tal situação.
A mudança de técnico e a heroica eliminação do Flamengo na Copa do Brasil podem ser uma indicação que o time vai encontrar o seu rumo, mas a pálida apresentação contra o Goiás na rodada passada continua deixando a torcida com as barbas de molho. A nau do Almirante está fazendo água e soçobrando perigosamente desde que aportou num porto seguro com a conquista do Campeonato Carioca, e é bom que se diga, com o presidente Eurico no comando.
Não há como negar o sucesso e os bons resultados da agremiação quando foi dirigida por Eurico Miranda. Com ele, desde 1986, o Vasco soma 48 títulos nos 22 anos em que esteve sob a sua mão forte.
Como presidente eleito do clube foram na verdade apenas 6 – Taça Rio em 2001, 2003 e 2004, Taça Guanabara em 2003 e Campeonato Carioca em 2003 e 2015 – mas foram 42 conquistas como Vice Presidente e Diretor de Futebol, cargos na verdade de fachada, pois era ele quem de fato comandava e decidia, apesar da existência de um presidente de direito.
Assim, sob a direção de Eurico, o Vasco conquistou outras 7 Taças Guanabara, outros 7 Campeonatos Cariocas e outras 5 Copas Rio, além de 3 títulos pelo Campeonato Brasileiro e um pela Libertadores, o que, convenhamos, não é pouco.
Anjo ou demônio, Eurico já está em contagem regressiva para ou proporcionar uma redenção histórica para o clube cruzmaltino ou pagar um mico do tamanho as Sibéria por ter sido tão boquirroto.     

     

 

(Artigo publicado no caderno SuperEsportes do jornal O Imparcial de 28/08/2015)

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015





OS FABRICANTES DE RESULTADOS 

Há muito tempo eu não abordava em meu artigo um tema tão eterno quanto prosaico – “Incompetência ou má fé”: “A influência de uma má arbitragem no resultado dos jogos de futebol e na consequente conquista de títulos”, caput e subtítulo apropriados para uma defesa de tese de doutorado sobre o assunto “Esporte – Decência, Honestidade e Moralidade”.
A ocasião, no entanto, se tornou propícia neste momento, tal o montante de erros observados nas três últimas rodadas do Campeonato Brasileiro em vigência, beneficiando flagrantemente uns e prejudicando outros, deliberadamente ou não, mas provocando uma sensível mudança nas primeiras posições, a ponto de distanciar clubes que estavam lutando pari passu para uma diferença de quatro pontos ou mais.
A reclamação é geral, mas um ou outro time se cala, aplaude os pontos conseguidos de forma não muito honesta e os seus torcedores se divertem com a “choradeira” dos demais.
Infelizmente, este é o Brasil que reclama dos políticos e dos empresários corruptos.
Vou omitir o nome dos santos e dos milagres, na certeza de que aqueles que têm pecados a confessar sabem que é a eles que me refiro, e de que sentirão algum dia o peso da consciência. Quanto aos que foram injustiçados pelo mau desempenho da arbitragem – inclua-se aí o árbitro principal e os árbitros assistentes (tempos atrás chamados de juiz e bandeirinhas) – meus respeitos pela indignação que sentem por terem sido lesados.
Pode até ser compreensível que um cidadão que corre quase quinze quilômetros por todo o campo enquanto a bola vai e vem com velocidade e enquanto jogadores cheios de malandragem fazem de tudo para ludibriá-lo cometa um equívoco aqui e ali. Mas é intolerante quando este equívoco se repete com uma constância irritante, muitas vezes beneficiando o mesmo lado, e parte de um cidadão que deveria ter sido treinado apenas para ser o mediador de uma partida de futebol, sem a necessidade de ser arrogante, injusto e prepotente.
Os árbitros tomam decisões discutíveis mesmo estando a trinta metros do lance, muitas vezes contestando a opinião do assistente ou do quarto árbitro (havia me esquecido dele) que têm a visão mais privilegiada do que a dele. Ou fecham os olhos para irregularidades grosseiras usando sem qualquer critério pesos e medidas diferentes.
Truculento, o homem de preto (que agora enverga o vermelho, o azul ou o amarelo, mudando a cor da camisa, mas não mudando a atitude) condena ao cartão vermelho tanto as jogadas mais violentas ou as reclamações mal educadas quanto uma simples disputa de bola ou um pedido de explicação, dependendo do jogador e do time em questão.
Vozes benevolentes surgem a seu favor, com a velha ladainha de que “errar é humano”.
Sem dúvida, errar é humano, mas há erros toleráveis e erros intoleráveis.
Atendo-nos ao futebol, o goleiro pode tomar um frango, o cobrador pode perder um pênalti, o articulador pode errar um passe a dois metros do companheiro. Mas se o goleiro tomar dez frangos, o cobrador perder dez pênaltis e o articulador errar dez passes em uma pequena sequência de jogos ele é sacado do time e vai para o banco de reservas.
O árbitro, porém, pode errar à vontade, e quanto mais erra mais parece ser respeitado pela Comissão de Arbitragem. Seu prêmio maior é ser rotulado “árbitro Fifa”, como se a sigla Fifa pudesse representar qualquer coisa de respeitável nos dias corruptos que vivemos.
Uma arbitragem suspeita pode inverter resultados, criar campeões, punir inocentes, invalidar o conceito de justiça no esporte e provocar enorme prejuízo financeiro para clubes que investem pesado e podem se ver alijados do prêmio maior de uma conquista, tanto esportiva quanto financeiramente falando.
Há que se punir os árbitros adequadamente com afastamento temporário, rebaixamento para apitar jogos de categorias inferiores e desconto pecuniário, para que Suas Senhorias prestem mais atenção no que fazem, tenham a humildade de reconhecer seus erros e exerçam o seu trabalho com mais responsabilidade.

Nota: Este artigo foi escrito em homenagem aos árbitros Dewson Fernando Freitas (PA), Luiz Flávio de Oliveira (SP) e Leandro Pedro Vuaden (RS) e seus respectivos auxiliares, que com suas atuações de segunda categoria conseguiram acender toda esta polêmica.

   
 

(artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 21/08/2015)

 

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2015





BOAS E MÁS LEMBRANÇAS 

O Estádio Governador Magalhães Pinto, mais conhecido como Mineirão, vai completar cinquenta anos de existência no próximo mês. A sua inauguração aconteceu no dia 5 de setembro de 1965 e foi marcada por um fato curioso.
Ao invés das autoridades políticas e esportivas programarem um evento que reunisse equipes locais ou mesmo uma seleção mineira competindo com algum adversário, eles optaram por uma partida entre a seleção brasileira e a seleção do Uruguai.
Os uruguaios continuavam atravessados na nossa garganta desde a vitória quinze anos antes no Rio de Janeiro – aquele fatídico 2x1 que nos custou a perda da Copa do Mundo – e os mineiros sonhavam com uma magnífica vingança que pudesse acalmar as dores de 1950, além de augurar para o estádio um futuro promissor de grandes jornadas.
Mas aí o fato curioso não ficou só na ausência do futebol mineiro na inauguração do seu megaestádio.
Como a decisão dos mineiros foi tomada meio em cima da hora, contrariando a sua tradição de agir de forma meticulosa e detalhista, a CBD (antigo nome da CBF) teve dificuldades em formar uma seleção que pudesse minimamente representar o país sem o risco se dar um vexame inauguratório.
Afinal, o Uruguai continuava a ter um time bastante respeitável e havia terminado de forma invicta a sua participação nas eliminatórias para a Copa de 1966.
Os papões do futebol brasileiro no momento – o Santos de Zito, Pelé e Coutinho e o Botafogo de Gerson, Garrincha e Jairzinho – tinham outros planos e não poderiam ceder seus jogadores para formar uma seleção de respeito.
A solução então foi apelar para um único time, com titulares, reservas e comissão técnica para, entrosado, assumir a responsabilidade de encarar as complicações da partida.
O time escolhido para representar o Brasil foi o Palmeiras, único time que naquele dado momento rivalizava com os dois papões, tanto no âmbito doméstico, contra o Santos, como no âmbito nacional, contra o Botafogo.
O alvi-verde, comandado pelo argentino Filpo Nuñez – o único estrangeiro a dirigir uma seleção brasileira em toda a história – tinha uma plêiade de craques que se destacavam com um futebol altamente técnico e competitivo, entre eles Djalma Santos, Ademir da Guia e Julinho Botelho, além de outros que por diversas vezes vestiram a camisa da seleção em outras oportunidades, como Valdir de Moraes, Djalma Dias, Dudu, Zequinha, Germano e Servílio.  
A seleção brasileira, ou melhor, o Palmeiras, exibiu um futebol de alto nível e venceu a Celeste Olímpica por incontestáveis 3x0, gols de Rinaldo, Tupãzinho e Germano e deu um selo de qualidade às festividades da inauguração.
O troféu da partida ficou na sede da CBF por 23 anos, até que em 1988 ele foi entregue para o Palmeiras, numa justa homenagem pela vitória conseguida em nome do escrete.
Quase 50 anos depois, na rodada do último fim de semana o Palmeiras voltou a se apresentar no Mineirão, agora todo reformado dentro do padrão Fifa, para enfrentar o Cruzeiro, pelo Campeonato Brasileiro. Para lembrar a data festiva e ao mesmo tempo homenagear a seleção canarinho, a equipe trajou um uniforme especial, com a camisa no tom amarelo-canário e o calção azul.
Mas a cumplicidade do velho Mineirão com a seleção brasileira, construída de uma forma vitoriosa desde a sua inauguração, parece que foi interrompida com o surgimento do novo Mineirão, reformado para recepcionar a Copa do Mundo de 2014.
Bastou o Palmeiras entrar em campo vestindo o uniforme da seleção para que a síndrome dos 7x1 tomasse conta do espetáculo, e o que se viu foi outra derrota verde-amarela, talvez não tão acachapante, mas definitiva.
Assim, a homenagem palmeirense saiu pela culatra.

 

(Artigo publicado no caderno SuperEsportes do jornal O Imparcial de 14/08/2015)

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015







AS ÁGUAS DA GUANABARA 

Uma investigação conduzida pela agência de notícias Associated Press revelou que a Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos palcos paradisíacos que hospedarão alguns esportes aquáticos dos XXXI Jogos Olímpicos de 2016, possui um nível de contaminação 1.700.000 vezes acima do que seria considerado alarmante numa praia americana no sul da Califórnia.
Para que fique bem claro, vou repetir, desta vez citando o número por escrito: um milhão e setecentas mil vezes maior do que qualquer nível aceitável pelas leis americanas. Desconheço o que dizem as nossas leis ambientais.
John Griffith, um renomado biólogo marinho que trabalha em um instituto independente chamado Southern California Coastal Water Research Project (Projeto de Pesquisa da Água Costeira do Sul da Califórnia), examinou os protocolos, a metodologia e os resultados dos testes encomendados pela Associated Press e concluiu que boa parte da lagoa contém água de esgoto puro composta por detritos ejetados por banheiros e água servida, sem o menor sinal de tratamento. É um material de tal toxicidade que produz de tempos em tempos na lagoa uma enorme quantidade de peixes mortos que ficam boiando, em decomposição.
A contaminação da água pode ser vista em fotos aéreas que mostram uma larga mancha cinzenta cobrindo mais de 60% da sua superfície.   
Talvez as autoridades brasileiras deem os ombros para o problema e justifiquem que o brasileiro, habituado com as praias contaminadas das grandes cidades, tira de letra este índice de poluição.
A Associated Press não revelou se conduziu alguma medição na Baía de Guanabara, mas possivelmente o valor alarmante não seria muito diferente.
O que as autoridades brasileiras não levam em conta é que os nossos logradouros aquáticos não serão utilizados apenas pelo atleta brasileiro que possui esta eventual imunidade, mas pelos seus colegas estrangeiros e por milhares de turistas ávidos por curtirem as mais famosas praias do mundo durante o desenrolar dos Jogos.
A declaração das autoridades – leia-se os responsáveis pelo governo e pela prefeitura do Rio de Janeiro – propõe uma solução que seria hilariante se não fosse tão ridícula: a Lagoa Rodrigo de Freitas e a Baía de Guanabara estarão totalmente despoluídas em ... 2030!!!
Não podemos esquecer que o Brasil foi escolhido para sediar os Jogos em outubro de 2009, portanto teve seis anos para estudar, analisar e se adaptar ao caderno de encargos que, diferentemente da Fifa para a Copa do Mundo, exigiu apenas e tão somente o que era realmente necessário para a prática das atividades programadas.
Essas exigências diziam respeito a todos os esportes, e havia uma preocupação na época sobre as condições oferecidas para as competições aquáticas – natação, saltos ornamentais, polo aquático e nado sincronizado (feitos em piscina) e maratona aquática, iatismo, remo, vela e canoagem (feitas em espaço aberto – mar, lagoa ou rio), exatamente porque havia denuncias de que as condições de insalubridade das áreas abertas requeriam providências urgentes.
Passaram-se os anos, e tanto os governos estadual e municipal quanto o COB – Comitê Olímpico Brasileiro usaram e abusaram da retórica e se esqueceram de dar condições ao Parque Olímpico para receber mais de 200 delegações entre países e territórios.
As obras estão 80% concluídas no geral – com exceção do velódromo para as provas de ciclismo indoor, que alcança apenas 60% – mas obras deste tipo são fáceis de ser maquiadas, o que não acontece com um lugar contendo um exército de coliformes fecais, metais, hidrocarbonetos e compostos orgânicos insalubres que podem provocar nos atletas – e turistas – problemas como vômito, diarreia, hepatite e outras coisas que não podem ser maquiadas.
Falta exatamente um ano para a abertura dos Jogos, e o que preocupa na verdade é a despreocupação do governador, do prefeito, dos secretários da saúde e do senhor Nuzman, presidente do COB.
Afinal, é bom lembrar que Deus pode até ser brasileiro, mas parece que Ele anda meio afastado, pois estava de férias durante a Copa do Mundo e nada garante que esteja presente no litoral carioca durante as Olimpíadas, porque, convenhamos, até Ele tem que se proteger.  

 

 

(artigo publicado no caderno Super Esportes do jornal O Imparcial de 07/08/2015)