sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

 


AS CORES DO SWING
           (Livro de Augusto Pellegrini)

BANDLEADERS E DISCOGRAFIAS


CLARKE-BOLAND BIG BAND (formada em 1961, encerrada em 1973)

 

Líder – KENNY CLARKE (1914-1985)

Nome completo – Kenneth Spearman Clarke

Nascimento – Pittsburgh-Pennsylvania-EUA

Falecimento – Paris-França

Instrumento – bateria

 

Co-lider – FRANCY BOLAND (1929-2005)

Nome completo – François Boland

Nascimento – Namur-Bélgica

Falecimento – Bruxelas-Bélgica

Instrumento - piano

 

Comentário – Kenny Clarke se notabilizou como um dos músicos responsáveis pelos primeiros passos do bebop, pois foi o baterista que deu um novo enfoque à forma de tocar o instrumento, indo além da pulsação e fazendo com que a bateria participasse efetivamente da execução da música. Clarke começou tocando bateria, piano, vibrafone e trombone na época de estudante. Em 1935, aos vinte e um anos de idade, ele foi baterista do grupo de Roy Eldridge e depois tocou na Jetter-Pillars Band, na Edgar Hayes’ Big Band e finalmente na orquestra de Teddy Hill, que acabou se desfazendo em 1939. No início dos anos 1940, Clarke era o baterista oficial do Minton’s Playhouse, casa localizada no Harlem onde se realizavam as famosas jam-sessions das madrugadas novaiorquinas que culminaram com o aparecimento do bebop, estilo que viria revolucionar o jazz e abrir todo um leque de possibilidades para interpretações futuras. Em 1952 Kenny Clarke participou da primeira formação do Modern Jazz Quartet antes de se mudar para a França em 1956, onde formou um trio com o baixista Oscar Pettiford e o pianista Bud Powell. Na Europa, Clarke adotou a religião muçulmana e passou a se autodenominar Liaqat Ali Salaam. Em 1961, ele iniciou uma profícua parceria com Francy Boland, pianista e compositor belga residente na França, formando primeiro um sexteto, depois um octeto, e finalmente uma das melhores orquestras europeias da época. Antes de conhecer Clarke, Boland já havia tocado na orquestra do alemão Kurt Edelhagen e com o trompetista Chet Baker. Boland tinha a especial característica de ser um bandleader “quente” que dava aos seus músicos total liberdade de improviso. A Kenny Clarke-Francy Boland Big Band era uma orquestra espetacular, e produzia um som forte e vibrante. Em 1968 eles inovaram numa formação com dois bateristas (quase homônimos - Kenny Clarke e Kenny Clare) e um estupendo naipe de saxofones (Johnny Griffin, Tony Coe, Ronnie Scott, Sahib Shihab e Derek Humble). A orquestra durou quase doze anos, quando Francy Boland mudou-se para a Suíça e passou a trabalhar apenas esporadicamente como arranjador. Clarke se manteve musicalmente ativo desde os meados dos anos 1930 até o início dos anos 1980. Já Francy Boland trabalhou com a música desde os anos 1950 até meados dos anos 1990.

 

Algumas gravações 

Get Out Of Town (Cole Porter)

Griff’s Groove (Francy Boland)

I Don’t Want Nothin’ From Nobody (Jimmy Woode-Kenny Clarke)

Just Give Me Time (Francy Boland)

Long Notes Blue (Here Is Cecco Beppe) (Francy Boland)

My Favorite Things (Richard Rodgers-Oscar Hammerstein II)

My Kinda World (Jimmy Woode)

Night Lady (Francy Boland)

November Girl (Francy Boland-Jimmy Woode)

Saturday Night Dance (Jimmy Giuffre)

Sax No End (Francy Boland)

Sonor (Kenny Clarke)

This Could Be The Start Of Something Big (Steve Allen)

‘Tis Autumn (Henry Nemo)

Topsy (Eddie Durham-Edgar Battle)

Wives And Lovers (Burt Bacharach-Hal David)

You Stepped Out Of A Dream (Nacio Herb Brown-Gus Kahn)

 

 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

 


AS CORES DO SWING
          (Livro de Augusto Pellegrini)

BANDLEADERS E DISCOGRAFIA


Charlie Spivak (1907-1982) (*) 

Nome completo – Charles Spivak

Nascimento – Kiev-Ucrânia

Falecimento – Greenville-South Carolina-EUA

Instrumento – trompete

(*) Alguns biógrafos dão como data de nascimento 1905

 

Comentário – Conta a história que a família de Charlie Spivak emigrou da Ucrânia para a América logo depois que ele veio ao mundo, embora certas fontes garantam que ele na realidade teria nascido nos Estados Unidos – em New Haven-Connecticut – no ano de 1905. De qualquer modo, foi em New Haven, com cerca de dez anos de idade, que Charlie começou a aprender trompete e a tocar na banda da escola. Depois de algumas apresentações em pequenos grupos locais, ainda adolescente, Charlie foi trabalhar profissionalmente como trompetista na orquestra de Don Cavallaro. De 1924 até 1930 Charlie participou da banda de Paul Specht, tendo depois ingressado na orquestra de Ben Pollack e mais tarde trabalhado com os irmãos Dorsey, Ray Noble, Bob Crosby e Jack Teagarden, nesta ordem. Durante dois anos (1936 e 1937) Spivak trabalhou como músico de estúdio e de emissoras de rádio, realizando algumas gravações com as orquestras de Gus Arnheim, Glenn Miller e Raymond Scott. Com o encorajamento e a ajuda financeira de Glenn Miller, Charlie Spivak montou a sua orquestra em 1939. No começo, a experiência não foi muito bem sucedida, mas no ano seguinte ele contratou alguns músicos da orquestra de Bill Downer, que havia encerrado as atividades de bandleader, e conseguiu decolar, mantendo o grupo em atividade até 1959. A música de Spivak tinha um apelo mais dançante do que jazzístico, e a sua orquestra era especializada em baladas românticas e canções populares. Depois de 1959, Spivak comandou algumas orquestras em regime temporário, apresentando-se em Las Vegas e South Carolina, e se manteve em atividade nos palcos e nos estúdios até pouco antes de morrer, aos setenta e cinco anos (ou setenta e sete, de acordo com alguns registros). Músico de longa carreira, que começou em meados dos anos 1920 e se estendeu até o final dos anos 1970, Spivak tinha uma peculiaridade: era um excelente trompetista, dono de uma notável sonoridade, mas raramente improvisava. No entanto, ao lado de Bunny Berigan, acabou se constituindo no modelo de trompete que influenciaria Harry James anos depois.

 

Algumas gravações 

At Last (Mack Gordon-Harry Warren)

Autumn Nocturne (Josef Myrow-Kim Gannon)

Besame Mucho (Consuelo Velázquez-Sunny Skylar)

For Sentimental Reasons (William Best-Deek Watson)

How Deep Is The Ocean (Irving Berlin)

I Only Have Eyes For You (Al Dubin-Harry Warren)

I Remember You (Johnny Mercer-Victor Schertzinger)

I Surrender, Dear (Harry Barris-Gordon Clifford)

It’s Been A Long, Long Time (Sammy Cahn-Jule Styne)

Nature Boy (Eden Ahbez)

Poinciana (Nat Simon-Buddy Bernier)

Sentimental Trumpet (Charles Shirley)

Stardreams (Charlie Spivak-Sonny Burke-Sylvia Dee)

Tenderly (Walter Gross)

We Three (My Echo, My Shadow and Me) (Dick Robertson-Sammy Mysels)

What’s Cookin’? (Charlie Spivak)

 

 


CARTAGO

(Augusto Pellegrini)

A morte rasga a carne da vil soldadesca
Em meio à intensa névoa e a um grande rebuliço
E a virgem segue nua e exposta ao sacrifício
Toda banhada em sangue na cena dantesca

A horda invade a praça, as ruas e as vielas
Ao som do grito louco dos conquistadores
O fogo queima tudo, portas e janelas
E os moradores lutam, sucumbindo em dores

O massacre segue solto, gritos e gemidos
Os animais se lançam numa cruel debandada
Espadas ceifam vidas em brutal alarido
E o sangue lava as ruas e corre nas calçadas

Como ponto final a um século de guerras
Um povo escravizado, a vida num impasse
O invasor espalha sal na conquistada terra
Para que o chão estéril nunca mais vicejasse

Não temos uma guerra, é execução, somente
Pois o povo indefeso não é feito de soldados
Pura maldade de um invasor inclemente
É Roma destruindo a República de Cartago
 

Fevereiro 2019

 

 

 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

 


AS CORES DO SWING
           (Livro de Augusto Pellegrini)

BANDLEADERS E DISCOGRAFIA


CHARLIE BARNET (1913-1991) 

Nome completo – Charles Daly Barnet

Nascimento – Nova York-New York-EUA

Falecimento – San Diego-California-EUA

Instrumento – sax-tenor, sax-alto e sax-soprano

 

Comentário – Charlie Barnet foi um caso raro de um músico de jazz que nasceu milionário. Sua família queria que ele fosse advogado, mas ele preferiu alternar as responsabilidades de músico profissional com uma boa vida de play-boy, o que provavelmente tenha contribuído para que ele não tivesse uma cotação mais alta entre os críticos. Charlie começou a tocar ainda adolescente, tendo como referência os saxofonistas Johnny Hodges, Coleman Hawkins e Sidney Bechet, mas não escondia a sua admiração pelas orquestras de Duke Ellington e Count Basie. Como consequencia, ele montou a sua própria orquestra produzindo uma música e uma sonoridade bastante semelhantes às destes maestros que ele admirava. A orquestra explodiu em 1939 com a gravação da música “Cherokee”, de Ray Noble, que havia recebido um arranjo de Billy May tido como antológico. Como compositor, Barnet também usava o pseudônimo de Dale Bennett, sob qual compôs a música “Redskin Rhumba”, uma extensão de “Cherokee”. Barnet foi um dos primeiros bandleaders a utilizar músicos negros na sua orquestra branca (foi ele, por exemplo, quem lançou a cantora Lena Horne). Por este motivo, sua orquestra foi denominada “the blackest white orchestra of all” (“a orquestra branca mais negra de todas”). Pela sua orquestra passaram o pianista Dodo Marmarosa, o guitarrista Barney Kessel e os trompetistas Bobby Burnet, Roy Eldridge, Maynard Ferguson, Clark Terry e Doc Severinsen.  Em 1949, depois de ter substituído o swing pelo bebop, ele resolveu trabalhar menos e aproveitar mais a sua fortuna, que continuara a crescer em meio à sua atividade musical. Barnet alternava longas férias com breves turnês, o que aconteceu até o fim da sua vida. Ele gravou o seu último disco em 1966, mas continuou ativo como bandleader. Durante a década de 1940, Barnet aproveitou a sua grande popularidade para aparecer em quatro filmes de Hollywood, “Music In Manhattan” e “Jam Session” (ambos em 1944), “Idea Girl” (1946) e “A Song Is Born” (1948). A rigor, Charlie Barnet começou sua carreira de bandleader aos dezesseis anos e se manteve ativo durante mais de sessenta anos, até falecer em 1991.

 

Algumas gravações 

A Lover’s Lullaby (Frankie Carle-Larry Wagner-Andy Razaf)

Cherokee (Ray Noble)

Darn That Dream (Eddie DeLange-Jimmy Van Heusen)

Echoes Of Harlem (Duke Ellington)

Flying Home (Benny Goodman-Lionel Hampton-Sidney Robin)

Indian Love Call (Oscar Hammerstein II-Otto Harbach)

Leapin’ At The Lincoln (Charlie Barnet)

Midweek Function (Charlie Barnet)

My Old Flame (Arthur Johnston-Sam Coslow)

Night Song (Jimmy Mundy-Juan Tizol)

Scotch And Soda (Charlie Barnet)

Skyliner (Charlie Barnet)

Some Like It Hot (Gene Krupa-Frank Loesser-Ray Biondi)

The Breeze And I (Ernesto Lecuona-Al Stillman)

This Is No Dream (Tommy Dorsey-Ted Shapiro-Benny Davis)

What’s New? (Bobby Haggart-Johnny Burke)

 

domingo, 21 de fevereiro de 2021

 


SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 09/11/2018
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106,9 Mhz
São Luís - MA

COOL CAT - CHET BAKER PLAYS AND SINGS

Um dos mais emblemáticos trompetistas da sua época e considerado um ídolo pela geração do cool-jazz, Chet Baker tem um lugar reservado no Panteão do jazz ao lado de outros músicos do mesmo quilate. Chet Baker foi um inovador, tanto na arte de tocar o seu instrumento como na arte de cantar. O som da sua voz era uma extensão do som do seu trompete, e seu jeito de cantar possuía a leveza do West Coast e da bossa nova que crescia nos Estados Unidos. Os capítulos trágicos que fizeram parte da sua vida acabaram por lhe conferir um halo de misticismo que interferiu na sua música, bastante contemplativa. Neste álbum, Chet Baker toca trompete e canta alguns standards da música americana como "Round Midnight", "Blue Moon" e "My Foolish Heart", acompanhado pelo trio que esteve a seu lado durante o seu final de carreira, composto por Harold Danko (piano), Jon Burr (baixo) e Ben Riley (bateria). A gravação foi feita em dezembro de 1986, na Holanda, dois anos antes da sua morte.   

Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini

                                                                                                                                    

 

 


FANTASIA DE UMA ÉPOCA 

(Samba-enredo composto por Augusto Pellegrini para a Escola de Samba Pérola Negra - São Paulo, em homenagem a Zequinha de Abreu) - 1976

 

E veio a noite do século passado

Menino de uma era de encanto e magia

José Gomes de Abreu, no seu reinado

A cidade encantava com uma linda melodia

No céu a lua

E os namorados, braços dados

No jardim a passear

Na rua violões e serestas

E o cantador iluminado pelos lampiões a gás

Na praça dos coretos a festa

Numa homenagem deste tempo

Para o tempo que virá

 

O tico-tico cá

O tico-tico lá

Época feita de ouro

De valsas e choros

Que bom recordar

Olé olá

O tico-tico cá

O tico-tico lá

Época feita de ouro

De valsas e choros

Que bom recordar

 

Em Santa Rita um nome respeitado

Maestro, poeta e compositor

Quantas alegrias ele nos proporcionou

Porém o seu talento era tão grande

Nunca se viu na cidade tal nobreza

Partiu para São Paulo, e então o mundo

Pode apreciar sua grandeza

Um grande dossel de notas musicais

De tanta beleza

 

No planalto de São Paulo

Conseguiu ser o que sempre quis

Tocou Os Pintinhos No Terreiro

Genuíno e bem brasileiro

Sucesso em todo o país

E foi famoso, autor de melodias imortais

Interpretando pro povo nas casas musicais

Cantemos todos, lembrando os tempos que não voltam mais

Interpretando pro povo dos nossos carnavais

 

 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

 


AS CORES DO SWING
           (Livro de Augusto Pellegrini)

BANDLEADERS E DISCOGRAFIA


CHARLES MINGUS (1922-1979) 

Nome completo – Charles Mingus, Jr.

Nascimento – Nogales-Arizona-EUA

Falecimento – Cuernavaca-México

Instrumento – baixo e piano

 

Comentário – Quer pela força e magnetismo emanados pelo seu contrabaixo acústico, quer pelos intrincados horizontes da sua obra, Charles Mingus é um dos mais comentados e controvertidos músicos da história do jazz. Baixista, pianista e compositor, ele também escreveu o seu nome como condutor de uma orquestra que foi construída para transmitir os seus anseios e frustrações. Quando criança, Charles cresceu dentro de padrões muito rígidos e era basicamente obrigado a ouvir apenas música religiosa. No entanto, ele não se furtava em escutar às escondidas discos de jazz, como os da orquestra de Duke Ellington. Esta duplicidade de gêneros acabou sendo responsável pela consolidação de um estilo emotivo e bluesístico que acompanhou Mingus durante toda a sua vida. Ele começou profissionalmente em 1943 tocando contrabaixo com o grupo de Louis Armstrong, passando em 1947 para Lionel Hampton e mais tarde, em 1950, para a banda de Red Norvo. Em 1955, Mingus criou um grupo que promovia workshops especializados em executar as suas músicas. Este grupo fazia um trabalho muito bem elaborado no qual misturava blues, rhythm & blues, gospel, música clássica moderna, música latina e bebop, e seria o embrião da sua futura orquestra. Como elemento regulador do seu som híbrido estava a música de Duke Ellington, que Mingus continuava a considerar o “agente motivador” das suas criações. Como contrabaixista Charlie Mingus foi um músico ímpar. Seu ritmo era muito marcante, e sua pulsação tão forte que o som do seu instrumento se sobressaía do restante da orquestra. Como pessoa, ele era imprevisível, alternando instantes de grande lirismo e ternura com momentos de intensa angústia e irritação, e esta alteração de humor acabou fazendo parte da sua música. Até pouco antes de morrer, vítima de uma esclerose paralisante, ele conduziu a sua orquestra elaborando arranjos surpreendentes que fugiam do convencional e extraíam sonoridades diferentes das usuais.  Charles Mingus se manteve musicalmente ativo por cerca de quarenta anos.

 

Algumas gravações 

A Colloquial Dream (Scenes In The City) (Charles Mingus)

Cumbia & Jazz Fusion (Charles Mingus)

East Coasting (Charles Mingus)

Fables Of Faubus (Charles Mingus)

Good-Bye, Pork Pie Hat (Charles Mingus)

Meditation On Inner Peace (Charles Mingus)

Mingus Fingers (Charles Mingus)

Moanin’ (Bobby Timmons)

Mood Indigo (Irving Mills-Barney Bigard-Duke Ellington)

My Jelly Roll Soul (Charles Mingus)

Orange Was The Color Of Her Dress, Then Silk Blues (Charles Mingus)

Peggy’s Blue Skylight (Charles Mingus)

Pithecanthropus Erectus (Charles Mingus)

So Long, Eric (Charles Mingus)

Three Or Four Shades Of Blues (Charles Mingus)

Ysabel’s Table Dance (Charles Mingus)

 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

 


O VASO ROXO
(Augusto Pellegrini)


          Leocádia veio do nada, como uma lufada de ar que entra por uma fresta de janela sem se fazer notar. Surgiu como um fantasma inoportuno e fechou ruidosamente o guarda-chuva gotejante. Era representante comercial de uma fábrica de teodolitos.
          Quando ela chegou, os sinos tilintaram na cabeça de Giovanni – engenheiro e dono do escritório – como num passe de mágica, como se ele estivesse sob efeito de uma poção de feitiçaria. E tilintaram tão alto, que quase dava para a gente ouvir do lado de fora.
          Assim, quer seja por falarem o mesmo idioma tecnográfico, quer seja por prometerem comungar esquisitices em comum ou ainda por compartilharem o mesmo padrão de pouca beleza – se é que assim pode ser dito – acabou pairando no ar um clima romântico que prometia grandes jornadas amorosas, ornamentada por senos obscenos, cossenos e hipotenusas.
          E fotocópias em profusão.
          Giovanni e Leocádia contraíram núpcias dali a um ano, com as devidas bênçãos do padre e a competente autorização do juiz de paz.


                                                      -0-0-0-


          A aparência de Leocádia piorara sensivelmente desde quando eu a tinha visto pela última vez.
          Estava lívida e envelhecida, com a expressão sombria, e o seu semblante mostrava algo além da sua proverbial antipatia, revelando um profundo pesar e cansaço e talvez uma dispepsia crônica. Parecia uma mulher atormentada.
          Provavelmente a chama que iluminava aquele ambiente se fora embora com Giovanni e talvez, desde a sua morte, as cortinas não mais se abriram mesmo que fosse para deixar entrar o ar poluído da cidade.
          Leocádia caminhou em direção ao quarto e logo depois reapareceu com um pacote embalado em um papel de presente bastante amarelado pelo tempo. Recebi o pacote, um presente que me fora comprado pelo finado Giovanni, agradeci pela atenção e me despedi.
          Chegando em casa, abri o pacote. Tratava-se de um imponente vaso de cristal lapidado, de um roxo intenso que chegava a brilhar quando refletia a luz. O vaso foi colocado na mesinha de centro da sala, ao lado de um cinzeiro de cristal de Murano e de um pequeno enfeite de mesa em forma de elefante, também de cristal, que teve a tromba quebrada e agora se assemelhava a um porco.


                                                         -0-0-0-


          O vaso roxo era uma peça muito estranha. Eu tinha a impressão que à noite, mesmo quando a sala estava às escuras, ele ainda brilhava como se armazenasse luz no seu interior ou como se o cristal tivesse minúsculas partículas fosforescentes na sua estrutura.
          Eu achava estranho e espantoso, mas gostava do interessante fenômeno. Minha mulher, no entanto, começou a sentir-se incomodada e cismou que o bendito vaso tinha alguma coisa de sobrenatural e quis se livrar dele.
          Assim, o vaso roxo foi dado de presente para um amigo, que carregou com ele, desta vez dentro de uma sacola de uma loja de grife.
          Depois disso, nunca mais voltei a ouvir qualquer comentário sobre o luminescente objeto.


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          Certo dia, anos depois, fui ao funeral de um parente distante.
          Terminada a cerimônia, saio serpenteando pelos canteiros do cemitério, e entre o curioso e o distraído vou lendo os nomes dos inquilinos dos jazigos, gravados em baixo relevo ou pintados de dourado junto com as datas de nascimento e morte, ao lado de flores murchas, velas apagadas e retratos de outros tempos. Aremildo Boaventura Gatto, Concita da Purificação Valadares, Zaqueu Tremolim – parece que os mortos sempre têm nomes estranhos e fora de moda – neste aqui um jarro de porcelana, naquele outro a estátua de um anjo, tudo como convém a um bom cemitério.    
          Eis que me deparo com uma surpresa de tirar o fôlego, pois logo depois de um Antenor Belderagas Cruz, surge um túmulo cujo titular tinha muito a ver com o meu passado: lá estava, gravado em granito escuro, mas perfeitamente legível mesmo à luz do fim da tarde que tornava o crepúsculo acinzentado, o nome Giovanni Amedeo Minotti.
          Na foto amarronzada sobre porcelana, estava impressa a sua careca luzidia e a sua expressão de pândego. Ao seu lado havia uma outra foto, de aparência mais antiga, mas que eu obviamente sabia ser bem mais recente, retratando uma mulher que portava na face uma expressão vampiresca. E um nome, escrito com letras menores: Leocádia Efigênia Bustamante Minotti.
          Sobre o túmulo, iridescente sob o fulgor da última claridade do dia, estava o meu antigo vaso roxo.

2013

 

 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

 


AS CORES DO SWING
           (Livro de Augusto Pellegrini)

BANDLEADERS E DISCOGRAFIA


CARLA BLEY (1938-      ) 

Nome completo – Carla Borg

Nascimento – Oakland-Califórnia-EUA

Instrumento – piano e órgão

 

Comentário – Ao contrário da maioria dos músicos de jazz que iniciaram a sua vida profissional ainda adolescentes, Carla Bley somente se interessou pela música aos vinte anos, quando trabalhava em clubes de jazz de Nova York como vendedora de cigarros. Ela possuia, no entanto, alguma formação musical, pois quando criança tocava piano e havia cantado no coro de uma igreja de cristãos fundamentalistas. Até aquele momento ela não havia tentado a música como profissão até que começou a prestar atenção no jazz que rolava nos seus locais de trabalho. Carla se apaixonou pelo bebop e pelo pianista canadense Paul Bley, com quem se casou em 1957, florescendo então o enorme talento de uma pianista-compositora praticamente autodidata, que iria se transformar numa das peças fundamentais do jazz post-bop. Mais ela tarde se interessou pelo free-jazz de Ornette Coleman, de quem passou a adotar o estilo. Além de tocar piano, Carla também escrevia arranjos, realizando interessantes trabalhos para Paul Bley, George Russell e Jimmy Giuffre. Em 1964 Carla se casou com o trompetista Michael Mantler, com o qual formou inicialmente a Jazz Composers Guild Orchestra, que um ano mais tarde teria o nome simplificado para Jazz Composers Orchestra. Dois anos depois, Carla e Mantler fundaram uma associação destinada a apresentar, divulgar e produzir formas não convencionais de jazz, a JCOA – Jazz Composer’s Orchestra Association. O grande público veio finalmente conhecer o trabalho de Carla Bley quando o quarteto do vibrafonista Gary Burton gravou uma seqüência de suas músicas num álbum intitulado “A Genuine Tong Funeral”. Em 1969, Carla Bley compôs e arranjou para a Liberation Music Orchestra, de Charlie Haden, e em 1971 ela cimentou a sua reputação com uma grande obra, a ópera-jazz “Escalator Over The Hill”. Durante os anos 1970 e 1980, Carla Bley continuou dirigindo a sua associação e a compor e gravar para o seu próprio selo, chamado Watt. Nos últimos anos ela também manteve ativa a sua Jazz Composers Orchestra, com a qual faz diversas turnês e gravações e tem trabalhado com o baixista Steve Swallow, com quem é casada atualmente. Aos oitenta e três anos, Carla Bley segue trabalhando com arranjos, composição e apresentações eventuais. Mesmo para quem começou tarde, ela já enfileira mais de cinquenta anos de uma carreira que teve uma enorme influência na modernização do jazz orquestrado.

 

Algumas gravações 

All Fall Down (Carla Bley)

Birds Of Paradise (Carla Bley)

Exaltation / Religious Experience / Major (Carl Spaque Ruggles)

Fresh Impression (Carla Bley)

Goodbye Pork Pie Hat (Charles Mingus)

Heavy Heart (Carla Bley)

Masquerade In Three Parts (Carnation / Dark Glasses / Mustache) (Steve Swallow)

Misterioso (Thelonious Monk)

On The Stage In Cages (Carla Bley)

Peau Douce (Steve Swallow)

Reactionary Tango (Steve Swallow)

Sidewinders In Paradise (Carla Bley)

Strange Arrangement (Carla Bley)

Tijuana Traffic (Carla Bley)

United States (Carla Bley)

Who Will Rescue You? (Carla Bley)

 

domingo, 14 de fevereiro de 2021

 


AS CORES DO SWING
           (Livro de Augusto Pellegrini)

BANDLEADERS E DISCOGRAFIA


Bunny Berigan (1908-1942) 

Nome completo – Rowland Bernard Berigan

Nascimento – Hilbert-Wisconsin-EUA

Falecimento – Nova York-New York-EUA

Instrumento – trompete e vocal

 

Comentário – A história musical de Bunny Berigan como bandleader foi bastante curta, e durou praticamente apenas a década de 1930. Durante este período, porém, ele se tornou tão famoso que chegou a rivalizar com Louis Armstrong e Roy Elgridge na preferência do público pelos trompetistas. Seu sopro, forte, límpido e cristalino, serviu como referência e modelo para Harry James, que apareceria alguns anos depois. Berigan começou tocando trompete em algumas orquestras durante os anos 1920, passando pelas formações de Hal Kemp, Paul Whiteman, Abe Lyman, Benny Goodman e Freddie Rich até os primeiros anos da década de 1930. Fez diversas gravações tocando nas orquestras de Tommy Dorsey e de Glenn Miller, e em 1935 resolveu formar a sua própria banda. No entanto, apesar de ser um excelente trompetista, Berigan não tinha o talento necessário como maestro, nem a firmeza de comando sobre os músicos e tampouco o tino comercial para dirigir uma orquestra. Por conta dessas deficiências, ele acabou indo à falência em 1940. Ficou alguns meses à deriva, e foi então convencido pelo baterista Gene Krupa a voltar para a banda de Benny Goodman em 1941. Mas Bunny Berigan vivia uma vida irregular e bebia muito, e seus insucessos como empreendedor o haviam conduzido a um alcoolismo irreversível. Com a idade de trinta e três anos, depois de uma internação por pneumonia, Bunny Berigan morria de cirrose hepática, após uma curta, embora brilhante, carreira como músico. A sua história pode ser comparada à de Bix Beiderbecke, outro trompetista brilhante que morrera onze anos antes, também vítima de uma luta desigual contra o alcoolismo. Bunny Berigan poderia ter ido mais longe, mas sucumbiu diante da sua fraqueza. Ele se manteve ativo desde meados dos anos 1920 até a sua morte, em 1942.

 

Algumas gravações 

A Study In Brown (Larry Clinton)

Ain’t She Sweet? (Milton Ager-Jack Yellen)

Blue Lou (Edgar Sampson-Irving Mills)

Blues (Bunny Berigan)

Chicken And Waffles (Bunny Berigan)

I Can’t Get Started (Vernon Duke-Ira Gershwin)

I Got It Bad (And That Ain’t Good) (Duke Ellington-Paul Francis Webster)

In The Dark (Bix Beiderbecke)

Jazz Me Blues (Tom Delaney)

Little Gate’s Special (Ray Conniff)

Me And My Melinda (Irving Berlin)

Night Song (Juan Tizol)

Peg O’ My Heart (Fred Fisher-Alfred Bryan)

Skylark (Hoagland “Hoagy” Carmichael-Johnny Mercer)

Stardust (Hoagland “Hoagy” Carmichael- Mitchell Parish)

Walkin’ The Dog (Shelton Brooks)