segunda-feira, 29 de março de 2021

 


AS CORES DO SWING
           (Livro de Augusto Pellegrini)

BANDLEADERS E DISCOGRAFIA


GERRY MULLIGAN (1927-1996) 

Nome completo – Gerald Joseph Mulligan

Nascimento – Nova York-New York-EUA

Falecimento – Darien-Connecticut-EUA

Instrumento – sax-barítono

 

Comentário – Gerry Mulligan é conhecido no mundo do jazz por ter sido o mais famoso – e também o mais perfeito – sax-barítono de jazz da história. Mas ele tem também um histórico de arranjador e bandleader, e se expressava com maestria desde o dixieland, passando pelo swing, até o bebop e o post-bop de vanguarda. Mulligan só não foi absolutamente famoso como chefe de orquestra em virtude da sua atuação impar como saxofonista. Ainda jovem, ele aprendeu a tocar piano, clarinete e todos os tipos de saxofone, e em 1944 começou a fazer arranjos para a banda da sua escola e depois para a banda de Johnny Warrington, que tocava em uma emissora de rádio local. Não demorou muito para que ele começasse a escrever arranjos para algumas bandas mais profissionais como as de Tommy Tucker e George Paxton, preparando-se assim para alçar vôos mais altos. Em 1946, Mulligan fez parte do time de arranjadores da orquestra de Gene Krupa, e logo depois trabalhou como arranjador e compositor para as orquestras de Claude Thornhill, Elliot Lawrence e Stan Kenton. A partir de 1948, Mulligan conseguiu conciliar o seu trabalho de arranjador com o de bandleader e instrumentista, aparecendo na cena musical como um poderoso e criativo saxofonista-barítono e também como um talentoso sax-soprano. Gerry Mulligan dividiu o palco e as gravações com diversos parceiros, como Miles Davis, Chet Baker, Bob Brookmeyer e, mais tarde, Thelonious Monk, Paul Desmond, Johnny Hodges, Dave Brubeck e Stan Getz. Nessa época, ele passou por bons e maus momentos, alternando períodos de grande produtividade com fases de abatimento e crises existenciais ocasionados principalmente pelas drogas, o que veio a interferir decisivamente na sua saúde e na sua carreira. Em 1960, Mulligan montou a sua Concert Jazz Band que brilhou intensamente durante toda uma temporada no famoso Village Vanguard, e durante os anos 1970 manteve uma banda que se reunia de tempos em tempos para realizar turnês. Como músico, Gerry Mulligan se manteve ativo dos anos 1940 aos anos 1990.

 

Algumas gravações 

All About Rosie (George Russell)

All The Things You Are (Oscar Hammerstein II-Jerome Kern)

Blueport (Art Farmer)

Chuggin’ (Gary McFarland)

Funhouse (Gerry Mulligan)

I Know, I Don’t Know (Gerry Mulligan)

Israel (Johnny Carisi)

Motel (Gerry Mulligan)

Mullenium (Gerry Mulligan)

Mulligan’s Too (Gerry Muligan)

Summer’s Over (Gerry Mulligan)

Thruway (Gerry Mulligan)

Walk On The Water (Gerry Mulligan)

Weep (Gary McFarland)

Western Reunion (Gerry Mulligan)

 

sábado, 27 de março de 2021

 


JARDIM ABANDONADO

(Augusto Pellegrini)

Há muito tempo este portão não abre
Está trancado a chave e cadeado
Gonzos estão cobertos de azinhavre
E o ferro se desfaz, enferrujado

Lá dentro o mato já se assenhoreia
E teimosas florezinhas se apresentam
Tentando dar beleza à coisa feia
Que a incúria e o desleixo representam

O lado de dentro um dia foi jardim
Cuidado foi com diligência e esmero
Mas desavenças puseram um fim
E em pouco tempo veio o desespero

Hoje não há jardim, portão não há
Tampouco a natureza em pleno viço
Canteiro bem tratado, isso também não há
Somente a decadência e o descompromisso

A derrocada em tudo se denota
Retrato infame do que um dia foi belo
Só vejo as ruínas daquele castelo
Uma aridez onde a saudade brota

 

Fevereiro 2019

 

 

 





sexta-feira, 26 de março de 2021

 


NOVOCABULÁRIO INGLÊS

(Copyright Cambridge) 

(ver tradução após o texto)

 

KERFUFFLE 

Strange as it may be, this word has been around since the early 1800s. There are two ideas as to how it came to English. It probably came from either Scottish Gaelic or from Celtic Irish, the languages that were used historically in Scotland and Ireland. It means to make a fuss or a bother, mostly unnecessarily and usually when people have different points of view, a minor disagreement that makes quite a bit of noise. 

 

            “Did you hear all that kerfuffle in the office today?”   

            “Due to yesterday’s kerfuffle, I will be leaving the community.”    

            “The cat was so kerfuffled you could hardly see it under all the fur.”                   

           

                        

TRADUÇÃO

 

CONFUSÃO BARULHENTA E DESNECESSÁRIA

Pode parecer estranho, mas a palavra KERFUFFLE é usada desde o início dos anos 1800. Existem duas teorias sobre como ela surgiu no vocabulário inglês – provavelmente ela se deriva do gaélico falado na Escócia ou do celta falado na Irlanda, idiomas historicamente falados nesses países. KERFUFFLE significa fazer confusão a troco de nada, normalmente quando as pessoas têm um ponto de vista diferente, ou seja, uma barulheira danada por conta de um pequeno desentendimento.

“Você ouviu toda aquela confusão hoje no escritório?”

“Devido à discussão de ontem eu vou sair da sociedade.”  

“O gato estava tão estressado que você quase não conseguia vê-lo debaixo de um monte de pelos”.

 

 

 

 


AS CORES DO SWING
           (Livro de Augusto Pellegrini)

BANDLEADERS E DISCOGRAFIA


GERALD WILSON (1918-2014) 

Nome completo – Gerald Stanley Wilson

Nascimento – Shelby-Mississipi-EUA

Falecimento – Los Angeles-California-EUA

Instrumento – trompete

 

Comentário – A história de Gerald Wilson como músico profissional começou em 1939, quando ele tinha vinte e um anos e estreou como trompetista e arranjador na orquestra de Jimmie Lunceford, substituindo o então titular Sy Oliver. Antes, em 1932, sua família havia se mudado para Detroit, onde George estudou música e tocou na Plantation Music Orchestra, já demonstrando os seus dotes de trompetista e de arranjador imaginativo. Pode se dizer que a passagem pela orquestra de Lunceford aprimorou as qualidades de Wilson como arranjador, regente e solista de trompete. Mas em 1942 ele procurou novos ares, para trabalhar sucessivamente com Les Hite, Benny Carter e Willie Smith. Em 1944, Wilson formou a sua primeira big band, chamada Gerald Wilson Orchestra, com a qual interpretava swing e tentava entender o bebop, contando, entre seus músicos, com o trompetista Snooky Young. Sua primeira aventura como bandleader durou pouco tempo: ele decidiu ingressar na orquestra de Count Basie e depois na de Dizzy Gillespie, até que em 1948 ele resolveu desistir da música para se dedicar a uma mercearia. Wilson voltou para a música em 1952 com uma nova orquestra, fazendo aparições na TV. Em 1961, ele reformatou a sua orquestra e realizou diversos álbuns para o selo Pacific Jazz, contando com alguns solistas extraordinários, como Harold Land, Bud Shank e Joe Pass. Ao mesmo tempo em que dirigia a sua banda e tocava trompete, Wilson encontrava tempo para fazer arranjos para Duke Ellington e escrever músicas para a Filarmônica de Los Angeles, além de lecionar História do Jazz na Universidade Estadual da Califórnia. Durante os anos 1980 e 1990, Gerald Wilson continuou liderando suas orquestras na região da Califórnia, e em 1996 teve sua história registrada na Biblioreca do Congresso Americano. Em 1997 ele compôs o tema para o Festival de Jazz de Monterey, chamado “Theme For Monterey” e em 2003 foi indicado para o prêmio Grammy na categoria “The Best Big Jazz Group” (O Melhor Grande Grupo de Jazz”). Gerald Wilson trabalhou até 2009, e em 2011 foi agraciado com o prêmio Grammy pelo álbum “Legacy”e pelo legado que havia deixado para o jazz. Ele morreu aos 96 anos.

 

Algumas gravações 

California Soul (Valerie Simpson-Nicholas Ashford)

Freddie Freeloader (Miles Davis)

I Concentrate On You (Cole Porter)

In The Limelight (Gerald Wilson)

Jeri (Gerald Wilson)

Lighthouse Blues (Gerald Wilson)

Milestones (Miles Davis)

Moment Of Truth (Gerald Wilson)

Monterey Moods (Gerald Wilson)

Patterns (Gerald Wilson)

Perdido (Ervin Drake-Juan Tizol-Hans J.Langsfelder)

‘Round Midnight (Cootie Williams-Thelonious Monk-Bernie Hanighen)

So What (Miles Davis)

The Wailer (Gerald Wilson)

Viva Tirado (Gerald Wilson)

You Better Believe It (Gerald Wilson-Richard “Groove” Holmes)

Yvette (Gerald Wilson-George Stoll)

 

 

terça-feira, 23 de março de 2021

 


AS CORES DO SWING
           (Livro de Augusto Pellegrini)

BANDLEADERS E DISCOGRAFIA


GEORGE RUSSELL (1923-2009) 

Nome completo – George Allen Russell

Nascimento – Cincinnati-Ohio-EUA

Falecimento – Boston-Massachusets-EUA

Instrumento – piano e bateria

 

Comentário – George Russell foi um talentoso compositor, arranjador e bandleader. Ele foi também um dos músicos que trouxeram a modernidade para o jazz orquestrado, notabilizando-se como um grande teórico e sendo o criador de uma idéia de organização musical chamada “Lydian Chromatic Concept of Tonal Organization” (“Conceito Cromático Lidiano de Organização Tonal”), cujo nome faz menção a um antigo país da Ásia Menor chamado Lídia. Esta inovação musical se constituiu em uma experiência tonal que viria modificar o conceito de jazz. Sua teoria consiste em tocar jazz baseado em escalas, ao invés do tradicional sistema de acordes. Seu livro, publicado em 1953, que define e teoriza conceitos musicais específicos, foi sem dúvida o primeiro, e é um dos poucos do gênero que foram escritos por um músico de jazz. Russell iniciou sua carreira como baterista, mas ao ceder seu lugar para Max Roach na orquestra de Benny Carter, ele transferiu o seu interesse para o campo de composição e arranjo. Em 1945 Russell voltou a tocar bateria no grupo de Charlie Parker, mas estava tão envolvido com a sua nova ideia que decidiu abandonar de vez a carreira de músico instrumentista. Sua teoria “lidiana” pavimentou o caminho de músicos como John Coltrane e Miles Davis, e abriu as portas para a inventividade do free-jazz. Como arranjador, Russell trabalhou com Artie Shaw e mais tarde com Claude Thornhill, mas foi insistindo no seu conceito musical que ele encontrou seu verdadeiro caminho. George Russell gravou com Bill Evans, Paul Bley, Billy Taylor, Eric Dolphy, Sonny Rollins e muitos outros músicos de vanguarda. Excursionou pela Europa, radicou-se na Suécia por cinco anos, e lá montou um pequeno grupo para apresentar o seu novo estilo de jazz. É claro que a reação entre alguns jazzistas não foi a princípio das mais favoráveis, principalmente entre aqueles que cultuavam as raízes do jazz mais tradicional, mas nem por isso Russell abandonou o seu projeto. Durante anos George Russell proferiu palestras em universidades e escolas de música e se manteve na ativa até pouco antes de morrer, aos oitenta e oito anos.

 

Algumas gravações 

Au Privave (Charlie Parker)

Autumn In New York (Vernon Duke-Ira Gershwin)

Blues In Orbit (George Russell)

D.C.Divertimento (George Russell)

Electronic Sonata For Souls Loved By Nature (Jan Garbarek-George Russell)

Ezz-thetic (George Russell)

How About You? (Ralph Freed-Burton Lane)

Kige’s Tune (Al Kiger)

Now And Then (George Russell)

Othello Ballet Suite (George Russell)

So What (Miles Davis)

Stereophrenic (David Baker)

The Lydiot (George Russell)

The Outer View (George Russell)

The Stratus Seekers (George Russell)

Time Spiral (George Russell)

Zig-Zag (Carla Bley)

You Are My Sunshine (Jimmie Davis-Charles Mitchell)

 

 

segunda-feira, 22 de março de 2021

 


MEU CONSOLO 

(Samba de Augusto Pellegrini) 1977

 

Minha nega arrumou um emprego

Estragou meu sossego

E ganhou condição

Pois faz parte do seu dia a dia

Fazer companhia

E sair com o patrão

E por isso estou desesperado

E falando sozinho

Fui posto de lado


Minha nega

Não faça mais isso

Retorne pra casa

E essa vida esqueça

Pra curar minha dor de cabeça

Que fica pior cada dia que passa

Eu não posso viver sem carinho

Acordando sozinho

No meu barracão

Peço a Deus que ilumine o caminho

Só tenho o consolo do meu violão

domingo, 21 de março de 2021

 


AS CORES DO SWING
           (Livro de Augusto Pellegrini)

BANDLEADERS E DISCOGRAFIA


ERSKINE HAWKINS (1914-1993) 

Nome completo – Erskine Ramsey Hawkins

Nascimento – Birmingham-Alabama-EUA

Falecimento – Willingboro-New Jersey-EUA

Instrumento – trompete

 

Comentário – Muito popular como bandleader durante a década de 1940, Erskine Hawkins foi apelidado de “o anjo Gabriel do século vinte” pelo seu portentoso sopro de trompetista. Desde criança, Hawkins se interessou por música, tendo aprendido bateria e trombone antes que, aos treze anos, adotasse o trompete como seu instrumento definitivo. Ele começou a liderar grupos de músicos na época em que cursava no Alabama State Teachers College, conduzindo a banda da universidade, chamada “Bama Street Collegians”. Hawkins foi para Nova York em 1934, e lá formou a sua Erskine Hawkins Orchestra, que contava com os músicos Avery Parrish (piano), Dud Bascomb (trompete) e Paul Bascomb e Julian Dash (saxofones). Em 1936 a orquestra de Hawkins fez as suas primeiras gravações e logo alcançou um grande sucesso entre os aficionados do swing. Além de se tornar um bandleader bastante apreciado pelo público, Erskine Hawkins também ficou famoso através de uma orquestra concorrente – a Glenn Miller Orchestra – pela autoria da música “Tuxedo Junction” (em parceria com Bill Johnson, Julian Dash e Bussy Feyne), que Miller adotou como um dos seus carros-chefe. Em parceria com Avery Parrish, Hawkins também compôs um dos sucessos do cantor Billy Eckstine, a música “Because Of You” (não confundir com a balada “Because Of You”, composta por Arthur Hammerstein e Dudley Wilkinson, eternizada pela orquestra de danças do mexicano Luís Arcaráz e pelo cantor Tony Bennett). Em 1953, quando as grandes orquestras de dança começaram o seu declínio, Hawkins partiu em direção ao rhythm & blues, mas também começou a perder prestígio perante o público. A partir daí ele prosseguiu com um grupo menor fazendo pequenas excursões e apresentações esporádicas. Erskine Hawkins se manteve musicalmente ativo desde o início dos anos 1930 até o início dos anos 1980.

 

Algumas gravações 

A Study In Blue (Larry Clinton)

After Hours (Avery Parrish)

Because Of You (Erskine Hawkins-Avery Parrish)

Blackout (Avery Parrish-Sammy Lowe)

Don’t Say You’re Sorry Again (Irving Berlin)

Gabriel’s Heater (Erskine Hawkins)

Hawk’s Boogie (Erskine Hawkins)

I Hadn’t Anyone Till You (Ray Noble)

King Porter Stomp (Jelly Roll Morton)

Lazy Blues (Erskine Hawkins)

More Than You Know (Vincent Youmans-Edward Eliscu-Billy Rose)

Strictly Swing (Erskine Hawkins-Avery Parrish)

Swing Out (Erskine Hawkins-Avery Parrish)

Tippin’In (Marty Simes-Bobby Smith)

Tuxedo Junction (Erskine Hawkins-Julian Dash-Bill Johnson-Buddy Feyne)

Weary Blues (Artie Mathews)

 

 

sábado, 20 de março de 2021

 


CANTO E DESENCANTO

(Augusto Pellegrini)

Se eu escuto é porque falam
Tenho que dizer que ouvi
Se eu vejo é porque fazem
Tenho que dizer que vi
Se esta voz não é só minha
Mas de muita gente aqui
Tenho que dizer no canto
Todo o grande desencanto

1968

 


O TIO E A TIA
(Augusto Pellegrini)

          O tio e a tia se preparam para visitar a velha doente que, dizem, está muito mal e precisa de injeções e cataplasmas.
          A tia é assim mesmo, caridosa e sempre requisitada quando se trata de cuidar dos outros.  
          Durante o dia não é raro aparecerem pessoas com problemas pedindo um benzimento, um chá ou até aconselhamento médico – isto eu vejo há mais de um mês, desde quando cheguei para passar as férias neste interior cheio de natureza, sem luz elétrica, com água de poço, galinheiro, árvores frutíferas e o cachorro Zezinho.
          A tia e o tio moram sozinhos com o Zezinho, que gosta muito de mim, e meia dúzia de galinhas, que me detestam.
          Agora é noite, não sei bem o adiantado da hora, mas faz tempo que escureceu e o tio e a tia se preparam para sair.
          O jantar já foi servido e comido, a louça já foi lavada, e o tio foi fumar na porta da cozinha enquanto eu me entretinha com algumas pedras de dominó tentando construir um castelo.  
          A noite está abafada, pode chover a qualquer momento, mas eles têm que sair pra fazer caridade e pedem para eu ficar em casa – “pode pegar um resfriado, menino, a gente não vai demorar, a casa da dona Hermília fica bem ali depois do campo, logo logo a gente está de volta” – e eu percebo que eles pretendem me deixar sozinho com os meus fantasmas e com os fantasmas dos outros que estão espalhados pela casa.
          O lampião de querosene bruxuleia a sua chama e faz mover sombras sinistras projetadas pelos cantos dos móveis enquanto o avô no porta-retratos parece olhar fixamente para mim cada vez que o tio passa em frente dele com a lanterna de carbureto que vai usar para atravessar o campo. É uma lanterna mais segura no caso de chuva, pois o avô a usava para caçar rãs e ela nunca se apagou apesar da área chafurdada e do vento úmido da várzea.
          O tio veste um casaco preto e se afasta em direção à porta, fazendo com que sua imagem refletida no espelho do fundo da cristaleira se transporte parede adentro.
          Como um sapo, salto do colchão que foi acomodado no chão da sala à guisa de cama e me ponho a calçar as botinas - “eu também vou, não vou ficar aqui sozinho”.
          Tenho um calafrio só em pensar que eles poderiam ter saído depois que eu estivesse dormindo, e um calafrio ainda maior ao lembrar o armário de madeira estalando na cozinha, como se alguém estivesse a lhe abrir as portas. E também aquela lufada de vento soando como uma voz pedindo ajuda.
          “Então você vai e volta andando, é muito pesado para eu lhe carregar no colo se você dormir” - diz o tio com um ar aborrecido, como se eu fosse um peso morto a atrapalhar as suas andanças noturnas.
          E lá saímos em direção ao campo, caminhando em fila indiana, o tio na frente com a lanterna, eu no meio e a tia atrás, a me proteger.
          O céu estava escuro – acho que vai mesmo chover – o vento bate forte e a gente caminha resoluto em direção à casa da velha. O silêncio do campo é cortado pelo som de aves que guincham e batem asas - devem ser as tais corujas agourentas.
                                                           -0-0-0-
          Dever cumprido, injeções, conselhos, curativos e agradecimentos, eis-nos de volta.
          No meio do campo, afastado da trilha por onde caminhamos, vê-se na distância uma pessoa vestida de branco. Na caminhada, nos aproximamos e percebemos que é um homem, parece um soldado e chega a brilhar na escuridão da noite. Está imóvel, como uma sentinela, e não responde ao cumprimento do tio – “boa noite!” – que, nervoso com a mudez do outro, acende mais um cigarro e segue em frente, resmungando.
          Olho para trás uma, duas vezes, e o homem ainda está lá, impávido. Na terceira olhada não o vejo mais, ninguém o vê mais, sumiu como um inseto noturno se escondendo no capim crescido, sumiu como se tivesse sido tragado pelo mato do campo. Já estávamos distantes do local da imagem, mas mesmo assim prudentemente estugamos o passo.
          Sem maiores aventuras chegamos enfim em casa, nos desfizemos dos apetrechos de viagem e entre um comentário e outro e uma caneca de leite quente o tio e a tia finalmente me convencem a dormir.
          O sono custa a chegar, mas quando chega é como uma cortina escura que me protege do mundo, dos temores e do cansaço da caminhada noturna.
                                                            -0-0-0-
          Manhã seguinte, sol a pleno e som de batida de palmas no portão, junto à cerca de madeira ornamentada por flores silvestres. Zezinho latindo, alvoroçado.
          É a vizinha, comentando a plenos pulmões: “Dona Irene, a senhora já soube? Mataram um soldado ontem à noite, no campo. Uma facada no coração!”

 

 

 

 

sexta-feira, 19 de março de 2021

 


SINOPSE DO PROGRAMA SEXTA JAZZ DE 13/04/2018
RÁDIO UNIVERSIDADE FM - 106.9 Mhz
São Luís-MA

ART FARMER

Com quase sessenta anos de carreira, Art Farmer esteve presente na música de jazz desde os primórdios do bebop, e a partir daí percorreu diversos estilos, como o hard-bop, o cool-jazz, o post-bop e o jazz-funk. Farmer tocava trompete e fluegelhorn, além do flumpet, um misto destes dois instrumentos que foi desenhado especialmente para ele. Como muitos outros instrumentistas de sopro, ele começou na música tocando piano, mas ainda adolescente começou a tocar corneta e decidiu-se por este tipo de instrumento. Na sua longa carreira esteve ao lado de músicos como Quincy Jones, Clifford Brown, Benny Carter, Horace Silver e Gerry Mulligan, entre outros. Neste álbum, gravado em 1967, ele conta com a participação de Jimmy Heath (sax-tenor), Cedar Walton (piano), Walter Brooker (baixo) e Mickey Rocker (bateria). O grupo interpreta alguns clássicos como "Song for my father", "'Round Midnight", "Moanin'", "I remember Clifford" e "Take Five".

Sexta Jazz, nesta sexta, oito da noite, produção e apresentação de Augusto Pellegrini