sábado, 29 de março de 2014




EU E A MÚSICA – TRÊS ATOS COM BILLY PAUL

Existem certas coincidências que acontecem na vida da gente que valem a pena ser lembradas, por insólitas que são.
A marchas e contramarchas da vida me levaram a conhecer o pacato e venerando cidadão Paul Williams, hoje com respeitáveis setenta e nove anos, quando ele havia se transformado cenicamente no divertido e versátil Billy Paul, belo cantor e artista de grande talento que utiliza com maestria a sua voz no black music style, com muito soul, funk e swing.
Mesmo assim, não fossem as ditas coincidências puramente circunstanciais, eu talvez nunca tivesse assistido a um show seu nem tivesse tido a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente.
Ao longo de vinte anos, acabei assistindo não a um, mas a três shows de Billy Paul, sem nunca ter procurado por eles nem gasto um tostão sequer com os ingressos. 
A primeira vez em que Billy Paul veio ao Brasil, no início dos anos 1970, eu ainda morava em São Paulo e tinha uma legião de amigos que eram, à sua moda, envolvidos com música – proprietários e atendentes de lojas de discos, divulgadores de gravadoras, cantores de boates, e relações públicas de artistas.
Dercy Gonçalves, homônimo da comediante e às vezes tão engraçado quanto ela, era divulgador da gravadora Continental e estava preocupado com a entrevista coletiva que Billy Paul daria à tarde num hotel da cidade. Em virtude de eventos paralelos, o intérprete contratado pela gravadora e pela Rádio Bandeirantes, parceira no evento, não poderia estar presente, então Dercy lembrou-se de mim, um amigo que “arranhava” o inglês e que poderia ajudar na coletiva com as perguntas de praxe e a posterior tradução.
A irresponsabilidade é muitas vezes companheira da criatividade e do sucesso.
Para o bem geral de todos, a coletiva não apenas transcorreu de uma maneira melhor que a esperada, como também os promotores ficaram muito satisfeitos e Billy Paul também se divertiu bastante, ou pelo menos assim me pareceu, com a entrevista improvisada.
É bem verdade que ele estava praticamente iniciando a sua carreira internacional e que tudo lhe parecia novo e interessante, e que naqueles tempos românticos estes assuntos não eram tratados com o rigor de hoje em dia.
Ao término da entrevista, a produção do show agradeceu a minha participação e me deu, provavelmente à guisa de pagamento, ingressos para “o show de logo mais à noite”.
Assim eu, que até então nunca tinha ouvido falar de Billy Paul, fui pela primeira vez a um espetáculo seu, realizado no Teatro Paramount, onde fui apresentado aos seus sucessos “Me And Mrs. Jones” (Kenny Gamble e Leon Huff), “Your Song” (Elton John), e “It’s Too Late” (Carole King), com os quais fiquei encantado.
O tempo correu e desembocou na década de 1980.
Certo dia estava eu fazendo nada no estúdio da Rádio Mirante-FM em São Luís-Maranhão,  quando o locutor César Roberto, que também provavelmente fazia nada, perguntou se eu “aguentaria uma dose de música pop num show que aconteceria à noite” (era uma cândida tentativa de fazer piada, porque minha atividade na emissora era produzir e apresentar música de jazz).
Quando retruquei que “dependia do show”, ele foi mais explícito – tratava-se de soul music, com um dos grandes nomes internacionais, Billy Paul. César Roberto havia recebido alguns ingressos da produção para distribuir entre o pessoal da rádio.
Deliciado com a coincidência, e claro que concordei, e à noite fomos nos acomodar nas cadeiras ordenadamente distribuídas na quadra de tênis descoberta do Hotel Quatro Rodas.
Era noite de lua cheia e o céu dos trópicos cintilava de estrelas. A brisa suave que vinha do mar a poucos metros do local não conseguia refrescar o calor emanado pelo show. Billy Paul, que naquela noite estava extraordinariamente animado, desceu do palco para cantar e dançar no meio da plateia, que a aquela altura arrastou as cadeiras do lugar e transformou a quadra de tênis numa autêntica discoteca.
Aproveitei para conversar com Billy e comentar sobre o evento da Radio Bandeirantes em São Paulo, do que ele evidentemente não se lembrou, mas gentilmente fez de conta que havia me reconhecido.
Mais uma década se passou.
Eu estava novamente em São Paulo, desta vez cuidando da edição do meu livro “Jazz – Das Raízes Ao Pós Bop”, quando meu amigo Eduardo Sérgio Fracalanza convidou-me para jantar, após o que iríamos a um show de jazz na casa mais conceituada da cidade.
Depois de uma excelente anchova na manteiga com amêndoas, regado por uma cerveja geladíssima (e não por um bom vinho, como o maître queria), partimos para o Bourbon Street para afinal descobrir que naquela noite especial não teríamos o tradicional jazz do local, mas uma apresentação de... Billy Paul!
O repertório não havia mudado muito nos últimos vinte anos, mas Billy continuava bastante jovial.
Como nossa mesa estava relativamente longe do palco, poupei a ele a gentileza de mais uma vez “se lembrar” dos nossos encontros anteriores.  

 




COPA 2014 – O ASSUNTO DO ANO

 

Toda quinta-feira, a partir desta semana, Gol de Placa vai apresentar uma série de artigos sobre a Copa que se aproxima, buscando manter o leitor informado e procurando responder às suas expectativas e dúvidas.
A cada Copa que acontece o número de pessoas interessadas aumenta, quer seja pelo avanço da tecnologia, quer seja pela mídia engajada pelos bilhões que ela movimenta, quer seja pela chamada “curtição”, que alia a alegria vivida num estádio à diversão de um festival de música. Pura diversão.
Uma prova irrefutável do interesse que a Copa gera no cidadão é a venda de ingressos, que mesmo sendo muito caros vão se esgotando para as partidas mais importantes, as quais vão se tornando ainda mais importantes à medida que o torneio avança e vai confirmando os favoritos.
As pessoas que não têm condição de estar nos estádios vão torcer juntos em casa, em bares ou restaurantes, onde tudo passa a ser pretexto para churrasco, cerveja e samba.
Muitos não se interessam pelo futebol, outros jamais foram a um estádio. Mas todos farão a festa na hora de torcer pela seleção.
Tradicionalmente, mesmo quando a Copa é disputada em rincões distantes, seja Japão, Espanha ou África do Sul, a massa torcedora que sai do Brasil para apoiar a seleção está sempre presente, formando uma alegre brigada verde-amarela, e fazendo a famosa corrente pra frente.
Esta Copa é especial, pois volta a ser disputada no Brasil depois de 64 anos, obviamente sob circunstâncias completamente diferentes.  Mudou a atmosfera, mudaram algumas regras, mudou até o próprio Estádio do Maracanã. O mundo tem um comportamento social, sociológico e tecnológico de um novo século.
Em 1950 o Brasil era mostrado em preto e branco e agora apresenta suas virtudes e defeitos em cores vivas.
Tanto o Brasil quanto o mundo passaram por severas modificações trazidas pelo progresso e pela globalização, como a velocidade da comunicação, a informação instantânea e minuciosa, e a proliferação das redes sociais, tudo isso promovendo um inevitável encontro de culturas e contrastes, de futuro e consequências imprevisíveis.
A Fifa de 1950 era comandada por um idealista inocente que queria promover a união entre os países através do esporte (seu nome, Jules Rimet) e a de 2014 é presidida por um visionário de poucos escrúpulos – Joseph Blatter – que para atingir os seus fins faz uso de chantagem e da conivência dos governos estabelecidos, não raro impondo a sua própria lei.
Para isso, conta com patrocinadores e parceiros poderosos, que investem muito dinheiro para conseguir um retorno que agrade a suíços, gregos, troianos e, no nosso caso, alguns brasileiros espertos e inescrupulosos.
É a partir desta situação que a Copa acabou tomando um caminho errado.
Ao invés de começarmos o ano pintando muros e calçadas com as cores da bandeira, de decorar as ruas com alegres bandeirolas verdes e amarelas que servirão para colorir os arraiais e de vestir fantasias alusivas ao evento, o que se vê são manifestações ardidas contra a realização da Copa no Brasil.
A mídia bem que está se esforçando para fazer o brasileiro entrar no clima, produzindo anúncios e slogans onde a promessa de uma vida cor de rosa passa a ter os tons de verde e amarelo, mas por enquanto muitos brasileiros estão se fazendo surdo a estes apelos.
Existe uma declarada campanha contra a realização da Copa no Brasil, mas esta campanha começou com sete anos de atraso. Agora é tarde.
Chegamos ao ponto em que a Copa é um evento irreversível, e qualquer manifestação que se faça daqui para frente não vai trazer de volta a fortuna do contribuinte que foi gasta com a orgia de obras mal feitas e inacabadas, correndo o risco de precipitar uma tragédia envolvendo turistas e pessoas que não têm culpa da improbidade dos organizadores.

                                                                                                

     

 

segunda-feira, 24 de março de 2014




CRAQUES E COADJUVANTES
 

A seleção brasileira de 1958 é considerada uma das melhores da história. No entanto, o time não era formado apenas por craques, pois mesmo os grandes vencedores têm um jogador aqui ou ali que, de uma forma geral, completam o elenco com dignidade, mas preferem deixar o brilho para outros.
É claro que ninguém está sugerindo que grandes formações estejam repletas de “cabeças de bagre”, mas é natural que exista um certo desnível técnico entre jogadores do mesmo time, e que este desnível seja compensado por aquilo que chamamos de conjunto  e eficiência.
A seleção de 1958 saiu do Brasil um tanto desacreditada, mas foi se ajustando, foi engrenando, mesclou um futebol de competição com um futebol de espetáculo e acabou trazendo a Copa Jules Rimet (a primeira de uma série de cinco Copas do Mundo) para a estante de troféus da CBF, na época CBD.
Os jogadores mais elogiados pela imprensa mundial durante e depois do torneio foram Nilton Santos, Didi, Garrincha e Pelé. A seleção praticava um futebol ofensivo, fazia muitos gols (foram 16 em 6 partidas, com uma média de quase 3 gols por jogo) e o ataque fazia jogadas de enlouquecer, carimbadas pelas fintas de Garrincha, pela elegância e acertos de passe de Didi e pelas coisas inesperadas que o garoto Pelé fazia.
E a defesa tomou apenas 4 gols, todos eles nas duas partidas finais (média de 0,6 gols por jogo), com uma firmeza que simplesmente não deixava os adversários chegar às redes.
Ela era formada por Gilmar, De Sordi (Djalma Santos na final), Bellini, Orlando e Nilton Santos. Este quinteto defensivo se desfez recentemente. Orlando morreu em 2010. Gilmar, De Sordi, Djalma Santos e Nilton Santos se foram em 2013.
E o último destes baluartes, Bellini, encerrou a sua carreira na vida na última quinta-feira.
Não, ele não era nenhum craque, e em toda a história da seleção com certeza existiram jogadores mais refinados na sua posição. Ele não foi um Domingos da Guia, mas também não cometeu nenhuma “domingada” (lance em que o zagueiro tentou enfeitar, se complicou e acabou cometendo o pênalti contra a Itália que eliminou o Brasil da Copa de 1938).
Bellini era firme, sério, comprometido, garantia a defesa e dava conta do recado.
Foi ele o capitão que inaugurou o gesto de erguer a taça com as duas mãos, pois ninguém o havia feito nas quatro Copas anteriores, talvez por não possuírem a sua imponência.
Nesta seleção, nem todos eram craques, mas com certeza todos os que jogaram mostraram um time de personalidade, que teve que enfrentar o “complexo de vira-lata”, história inventada pelo jornalista e dramaturgo Nélson Rodrigues após as desclassificações nas Copas de 1934 e 1938, e as acusações de “covardes”, injustamente atribuídas à seleção de 1950, e de “amarelão”, não pela cor da camisa, mas por ter presumivelmente “amarelado” nas duas derrotas seguidas na primeira fase da Copa de 1966, contra a Hungria e Portugal, ambas por 3x1.
Dos 22 da Copa de 1958 ainda estão vivos Pelé (73), Mazzola (75), Moacir (77), Pepe (79), Zito (81), Dino Sani (81) e Zagallo (82).
Apesar de cinco vezes campeã, a seleção brasileira nem sempre teve exibições de gala – exceto em 1958, 1970 e 1982, esta última incrivelmente perdida na semifinal.
Em termos de clubes, o Brasil mostrou ao mundo outros esquadrões quase perfeitos que também tinham ali e acolá um ou outro jogador que sem ser genial fazia parte de um grupo de gênios.
O Santos de 1960 a 1969 teve Carlos Alberto, Zito, Pelé, Coutinho, Clodoaldo e outros bambas, mas também teve Feijó, Dalmo e alguns menos cotados.
O mesmo se diz do Flamengo de Zico, Adílio, Andrade e Junior, que tinha no grupo os menos talentosos, mas não menos importantes Lico e Nunes.

                                                                                                

quarta-feira, 19 de março de 2014


 

EU E A MÚSICA - PARADA DE SUCESSOS!

Estranhamente, para um artigo que se propõe comentar aventuras musicais, falar sobre futebol parece francamente uma excrescência, embora vozes saudáveis costumem muitas vezes relacionar as duas coisas e eu próprio ter como atividade cultural tanto uma coisa – música – como a outra – futebol – nas minhas digressões literárias.
Assim, num certo dia de 1953, um rapaz de pernas tortas, a quem chamavam de Garrincha – possivelmente pelo seu hábito de, desde criança, caçar passarinhos do mesmo nome – entrou no gramado de treino do campo do Botafogo, lá na Rua General Severiano.
Garrincha foi escalado para jogar na ponta-direita, num espaço de campo defendido por um lateral de nome Nilton Santos, que desde 1948 reinava absoluto no Botafogo e pintava na seleção brasileira, e que viria a ser chamado enfaticamente de “A Enciclopédia”, pois sabia tudo de futebol.
Garrincha não se importou nem um pouco com a fama do seu adversário e começou nesta mesma tarde a sua campanha mundial de desmoralização dos marcadores que a partir de então, até meados dos anos 1960, teriam a infelicidade de enfrentá-lo.
Dizem aqueles que viram o famoso Nilton Santos tomar um grande baile sem música daquele novato desengonçado, que ao término do treino o lateral foi o primeiro a recomendar a sua contratação ao então presidente Ibsen de Rossi.
Considerando que este duelo aconteceu num treino sem maiores pretensões, num dia de semana sem qualquer significado especial, e cercado de nenhuma expectativa, a quantidade de pessoas que garantem ter estado presentes é assustadora, pois de longe suplantaria a lotação do estádio, que era de vinte mil pessoas.
Este prólogo vem a calhar quando se fala do nascimento da bossa-nova.
Aqui não se trata de vinte mil, mas de vinte milhões que de uma maneira ou de outra contam como vivenciaram o evento e como as suas vidas mudaram a partir de então.
Parece que todos passaram por uma experiência semelhante à que eu passei ao serem apresentados à novidade que estremeceria as bases da cultura musical brasileira e modificaria o seu futuro de forma definitiva.
Meu relato é semelhante a milhares de relatos correlatos e a sensação de que algo de muito importante estava acontecendo com a música brasileira é compartilhada com estes milhares de felizardos.

Era 1958, talvez agosto, talvez setembro. Meio-dia.
O sol brilhava, o céu estava colorido de um azul radiante, o Brasil ainda estava eufórico com a conquista da Copa do Mundo na Suécia em junho e tudo parecia cor-de-rosa.
Eu estava no pequeno jardim da minha aconchegante casa no bairro da Aclimação, em São Paulo, que era cercado por um gradil baixo de madeira no estilo Hollywood, com o portãozinho acolhedor para as visitas bem intencionadas; algumas florezinhas bem distribuídas salpicavam o verde de amarelo, rosa e violeta, enquanto lá na cozinha, nas mãos da cozinheira minha mãe, o feijão exalava seu perfume generoso.
O aparelho de rádio – uma portentosa peça do móvel conjugado rádio-e-vitrola dotada de um moderníssimo olho mágico verde-esmeraldino – estava ligado, como sempre acontecia nessa hora, no programa “Parada de Sucessos”, transmitido pela Rádio Nacional de São Paulo, que apresentava as músicas mais tocadas e os discos mais vendidos da semana, na voz vibrante de Hélio de Alencar.
O bordão, anunciado ao som de “Saint Louis Blues” (William C.Handy) tocado pela orquestra de Glenn Miller era – “Paraaada de Sucessosss! – um desfile das músicas que o povo consagraaa! – patrocínio Lojas Assumpção, uma loja em cada bairro para melhor servir você!” – e servia de cenário para 10 caprichados hits da época, entre eles “Balada Triste” (Dalton Vogeler e Esdras Silva) com Agostinho dos Santos, “Escultura” (Adelino Moreira e Nelson Gonçalves) com Nelson Gonçalves,  Interesseira” (Bidu Reis e Murilo Latini) com Anisio Silva, “Meu Mundo Caiu” (Maysa) com Maysa, as internacionais “Cachito” (Consuelo Velásquez) com Nat ‘King’ Cole, “You Are My Destiny” (Paul Anka) com Paul Anka, e as versões “Love Me Forever” (Beverly Guthrie e Gary Lynes) com Lana Bittencourt, “Patrícia” (Pérez Prado) com Emilinha Borba e “Diana” (Paul Anka) com Carlos Gonzaga.
Uma selva bastante diversificada, como se vê, reunindo no mesmo pacote sambas-canções, baladas, boleros e a pop music da época.
Esta diversificação de certa forma incomodava uma certa parcela de jovens que, como eu, se interessavam pelo jazz ou por um tipo de música que contivesse uma mensagem que fosse poética e harmonicamente diferenciada – Sylvia Telles, Os Cariocas, Dick Farney, Lucio Alves, Johnny Alf, Chet Baker, Barney Kessell, April Stevens, Julie London, The Hi-Lo’s – fugindo das estruturas comuns, das paixões desesperadas, dos dós de peito ou das rimas pouco sutis.
A gente sabia, no entanto, que estas músicas não vendiam o suficiente para estar numa parada de sucessos e cada qual se contentava em curti-las no seu ambiente particular.
Eu e a minha turma, por exemplo, ingeríamos altas doses de boa música – e um outro tanto de gim-tônica – no recôndito de nosso garage club, batizado com o sugestivo nome de Bop Street, nome de uma música gravada pelo grupo de rock “Gene Vincent & seus Blue Caps”. Ou então nos revezávamos nas casas de outros amigos para ouvir as novidades que faziam bem para os ouvidos e para o espírito.
De volta àquela hora de almoço que iria mudar a história do mundo, as músicas apresentadas no programa eram anunciadas na ordem inversa, começando pelo décimo até chegar ao primeiro lugar, com Hélio de Alencar gritando bem ao seu estilo: “Em décimo lugarrr – Chega de Saudade, João Gilberto, uma novidade em primeira mão!!!”.
João Gilberto? Quem seria? Que diabo de música seria essa?
A resposta veio em seguida, e a partir daí a música brasileira nunca mais foi a mesma: a flauta mágica de Nicolino Copia, o Copinha, começa a introdução que me deixa estático em frente ao portão. Não é samba, não é choro, não é samba-choro. O violão acompanha com uma batida nunca antes utilizada, com uma divisão estranha adornada por acordes dissonantes, funcionando como um suave acolchoado para acomodar as notas da flauta.
De repente surge a voz, intimista como Chet Baker, preguiçosa como um solo de Lester Young, clara, nítida e articulada como Sinatra, e emitida como um sopro, como a voz de Julie London, sem o menor esforço.
Pronto, acabei de ser apresentado a João Gilberto, que descobriria mais tarde tratar-se de um gênio, não devido à minha avaliação, mas a um conceito universal que regula o bom gosto musical.
Nos próximos dez anos ele iria tomar conta do mundo e seria considerado uma unanimidade nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, pelo seu modo de interpretar e de tocar violão. Músicos de jazz e da música standard se curvariam à sua maneira não convencional e absolutamente discreta de mostrar a sua arte.
No Brasil, surpreendentemente, existe um divisor de águas entre aqueles que o idolatram – pela sua genialidade – e aqueles que o desprezam – quer por não entenderem seu modo de interpretar quer por estranharem sua maneira de interagir com o público.
Almocei às pressas o feijão da minha mãe com todos os acompanhamentos, saí de casa, apanhei o trolleybus e fui ao chamado centro da cidade – Rua Barão de Itapetininga – em direção à loja Breno Rossi para adquirir no ato o disco “Chega De Saudade” (Antonio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes), com João Gilberto, sua voz e violão em 78 rotações, selo Odeon, arranjos e direção musical de Antônio Carlos Jobim (como no caso de Copinha, vim saber deste detalhe muito depois), o que colaborou com a genialidade da gravação; no lado B, “Bim Bom” (João Gilberto). O LP seria lançado em 1959 incluindo outras preciosidades, como “Desafinado” (Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça), “Lobo Bobo” (Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli) e “Brigas, Nunca Mais” (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes).
Esta é a história que, mutatis-mutanti, teve o efeito da chegada do Anjo da Anunciação para os ditos milhões de pessoas que incluem a mim, a minha turma da Bop Street, a turma carioca do Sinatra-Farney e do Dick Haymes-Lucio Alves Fã Clubes, Roberto Menescal, os amigos do jazz, o pessoal de Ipanema e outros bem-aventurados que sentiam estarem sendo abertas naquele momento as portas do Reino do Céu.

segunda-feira, 17 de março de 2014


 
 
 
 
O DOSSIÊ VÔLEI 

Existem mais mutretas entre o céu e a terra do que supõe a nossa ingenuidade. A praga do enriquecimento ilícito toma conta de todos os segmentos da sociedade, como um vírus que se espalha descontroladamente. E, de escândalo em escândalo, assim caminha a humanidade.
O jornalista Lucio de Castro, da ESPN Brasil, que além de comentar as minúcias de uma partida de futebol também faz o tipo de jornalismo investigativo, foi fundo nos bastidores do voleibol brasileiro, esporte considerado o segundo favorito do torcedor, depois do futebol.
O que ele descobriu faz eco ao que, com certeza, acontece com outros esportes e com muitas organizações criadas para promover algum tipo de atividade, esportiva ou não.
Tempos atrás já tivemos uma sequência de denúncias sobre o judô, o taekwondo, o atletismo, o basquetebol e próprio Comitê Olímpico, sem contar o futebol, de múltiplas falcatruas que remontam a época de João Havelange e Ricardo Teixeira, passando pela atual salada de desmandos com o dinheiro público no advento da Copa do Mundo.
No voleibol não poderia ser diferente.
Nas últimas semanas o repórter revelou que em 2013 o superintendente geral da Confederação Brasileira de Voleibol, Marcos Pina, embolsou indevidamente a quantia de 10 milhões de reais em nome da firma SMP – Logística e Serviços Ltda., fundada em sociedade com a mulher, com capital registrado de 10 mil reais.
O pagamento foi feito a título de uma suposta comissão pela SMP pela intermediação do contrato de patrocínio com o Banco do Brasil, coisa que o banco não faz por causa do seu estatuto. Pressionado pelo presidente, Marcos Pina pediu demissão do cargo.
Nesta semana, mais um escândalo: Fábio André Dias Azevedo, dirigente da CBV e braço direito de Ary Graça Filho, presidente da FIVB-Federação Internacional de Voleibol, também faturou 10 milhões em nome da empresa S4G Gestão de Negócios, também a título de comissão.
Ambos os contratos destacavam a “notória especialização” das empresas que intermediaram o negócio, muito embora elas tivessem sido constituídas às vésperas da assinatura do contrato e nunca tivessem participado de qualquer outro negócio.
A história é antiga. Em 1997 a colunista de vôlei Cida Santos, da Folha de São Paulo, já anunciava irregularidades no contrato entre a CBV e o Banco do Brasil pelo mau uso da verba de patrocínio, tendo o deputado federal Augusto Carvalho (PPS-DF) solicitado ao Tribunal de Contas que investigasse o caso.
Na época, o Banco do Brasil passou a exigir da CBV um relatório minucioso sobre o uso da verba de patrocínio, mas a coisa acabou dando em nada.
Há uma intensa indignação por parte de atletas e profissionais do vôlei, que pedem uma investigação rigorosa e uma punição exemplar dos envolvidos.
À parte o clamor popular, de que este tipo de verba poderia ter sido utilizada para fins mais prementes como saúde, saneamento e educação, entendo que o dinheiro deveria ter sido direcionado para o esporte, pois esta era a sua finalidade.
Vinte milhões de reais não é muito para a construção de casas, escolas, hospitais e estradas nem para fortalecer a segurança do cidadão, mas se efetivamente destinados ao esporte teriam proporcionado assistência e treinamento a jovens atletas, melhor organização de torneios, condições mais dignas de trabalho para técnicos, preparadores físicos e auxiliares que vivem de esmola com baixos salários pagos por outros patrocinadores e – por que não? – uma preparação de qualidade para enfrentarmos os Jogos Olímpicos daqui a dois anos.
E o dinheiro? Vai ser devolvido?

segunda-feira, 10 de março de 2014


 

A HISTÓRIA E OS PROGNÓSTICOS OTIMISTAS

 

Considerando que ainda temos três meses pela frente e que as equipes participantes da Copa 2014 ainda estão em fase de preparação, parece cedo para especular sobre quem seria a seleção favorita ao título do torneio.
Afinal, a lista definitiva dos atletas que estarão em campo ainda não é sequer conhecida e algumas surpresas poderão acontecer, quer por idiossincrasias dos técnicos quer por problemas inesperados.
Mas existem prognósticos que indicam os favoritos, e o palpite dos analistas recai sobre o Brasil, dono da festa, a Espanha, atual campeã, a Alemanha, a Holanda e a Argentina, e – com possibilidades mais remotas – Itália, Inglaterra, França e Uruguai, que já lograram levantar a taça. De acordo com qualquer cálculo de probabilidades, o resto é resto, inclusive Portugal e os “cabeças de chave” Colômbia, Suíça e Bélgica.
Qualquer pessoa de bom senso não ousaria afirmar quem será o campeão da XX Copa do Mundo, mas muita coisa pode ser discutida se este bom senso for deixado de lado e raciocinarmos apenas com a lógica.
Feitos os cálculos básicos e levando em conta todas as variáveis, não vejo de que forma o Brasil possa perder essa Copa. Vejam que existem fatores irrefutáveis que nos permitem fazer tal afirmação.
O Brasil jogará do jeito que mais gosta, isto é, impulsionado por uma imensa torcida. E a torcida ficará maior e mais forte à medida que os obstáculos forem sendo ultrapassados. Muito embora a maioria dos jogadores atue no exterior, eles se sentirão jogando “em casa”, mesmo aqueles que nunca atuaram pelos clubes de massa, por aqui. A Copa das Confederações, disputada no ano passado, já nos deu a dimensão de “como o ‘fator torcida’ atua no desequilíbrio emocional dos adversários”, uma bela tese para monografia.
Além do mais, com exceção do México e dos países africanos – e talvez um ou outro sul-americano – jogaremos com o clima a nosso favor.
Nossos maiores rivais europeus vão abrir o bico na metade do segundo tempo por causa do calor, do horário dos jogos e do deslocamento continental a que não estão habituados.
Algumas partidas penalizarão países como Holanda, Itália, Bélgica, Suíça, Alemanha e Portugal, pois serão realizados às 13 horas em lugares tradicionalmente muito quentes como Recife, Brasília, Salvador, Belo Horizonte e até Porto Alegre. As Copas realizadas no México e nos Estados Unidos são eloquentes exemplos de como o preparo físico pode faltar na reta final do torneio para aqueles países não acostumados com um clima muito quente ou a jogar sob um sol de meio-dia.
Como se não bastasse, o Brasil sempre foi uma equipe difícil de ser batida e possui um futebol respeitado internacionalmente – por 11 vezes terminou a Copa entre os quatro primeiros colocados, com 5 títulos e 2 vice-campeonatos.
Além do mais, na história das Copas, o país anfitrião foi 7 vezes campeão e 2 vezes vice, e o teriam sido mais vezes se alguns dos anfitriões possuíssem algum cacife para levantar o caneco, caso da Suíça (1954), do Chile (1962), do México (1970 e 1986), dos Estados Unidos (1994), da Coréia do Sul e do Japão (2002) e da África do Sul (2010), todos anfitriões, mas sem pedigree.
Finalmente, a arbitragem nas Copas tende a ser bastante caseira, como ficou claramente evidenciado nas Copas de 1962 (Chile), 1966 (Inglaterra), 1978 (Argentina) e 2002 (Coréia do Sul) e a história tem registrado pouquíssimos erros contra o Brasil. Ao contrário, o Brasil pode até agradecer alguns sérios tropeços de arbitragem a seu favor como nas partidas contra a Espanha em 1962 e a Bélgica em 2002, exatamente em duas Copas em que o esquadrão canarinho levantou o título. 
Resta então só espantar o fantasma de 1950 e esperar pelo melhor.

                                                                                                

segunda-feira, 3 de março de 2014


 

O ÚLTIMO AMISTOSO

 
A cem dias da estreia contra a Croácia na Copa dos seus sonhos, o Brasil faz nesta quarta-feira o último amistoso antes de a CBF publicar a lista oficial dos 22 jogadores. Vai para Johannesburgo enfrentar a África do Sul no mesmo estádio em que derrotou a Costa do Marfim na Copa de 2010.
Não acredito que os anfitriões possam significar algum problema para a Seleção Brasileira. A última grande zebra nestas condições aconteceu há 24 anos, dias antes da Copa da Itália, em 1990, quando o Brasil de Sebastião Lazaroni perdeu por 1 x 0 para a seleção da Umbria, formada por amadores que disputavam a quarta divisão italiana, prenúncio do que foi a pior Copa já disputada pela seleção canarinho.
É significativo notar que nas Copas anteriores a lista final contemplava os nomes de mais de 90% dos jogadores que costumavam frequentar as convocações anteriores, o que pode parecer muito lógico para a maioria dos países, mas não para o Brasil, porque o sobe e desce do rendimento dos selecionáveis coloca pelo menos 30 atletas em condições de estar na convocação final.
Em 1994, por exemplo, os experientes Sávio e Tulio ficaram de fora na última hora para dar lugar a um imprevisível Ronaldo, que teve seu batismo de fogo e nunca mais abandonou o posto até pouco antes de encerrar a carreira.
Em 1998 foi a vez de Zé Elias e Raí, responsabilizados pela derrota no amistoso final contra a Argentina – 1x0 – e substituídos pelo lateral Zé Carlos e pelo volante Doriva, dois jogadores de pouco trato com a bola que não chegaram a contribuir, e o Brasil acabou perdendo sem a participação deles.
Em 2002 Juan e Djalminha, tidos como certos, foram preteridos por Vampeta e Rivaldo, este vindo de uma contusão. E em 2010 Adriano foi cortado e levaram Grafite no seu lugar, uma temeridade que não deu certo.
Nas cinco últimas edições o Brasil se deu bem nos últimos amistosos antes da publicação da lista oficial, vencendo a Argentina (2x0, 1994, Recife), Iugoslávia (1x0, 2002, Fortaleza), Rússia (1x0, 2006, Moscou) e Irlanda (2x0, 2010, Londres), e isto deve ter pesado na manutenção da grande maioria dos jogadores na lista, com algumas exceções como as citadas acima.
O insucesso ficou por conta da derrota em 1998 para a Argentina (0x1, no Maracanã).
Apesar da pressão exercida sobre os jogadores às vésperas da convocação oficial, parece não haver relação alguma entre os amistosos que definiram a chamada dos 22 da Copa com os resultados obtidos meses depois (fomos campeões em 1994 e em 2002, mas derrotados na final pela França em 1998, e eliminados na quartas de final novamente pela França em 2006 e pela Holanda em 2010).   
Nesta partida contra a África do Sul a Comissão Técnica deixou claro que ainda está fazendo algumas observações.
Conhecendo o trabalho e o raciocínio do técnico Felipão, que inclusive diz estar com a espinha dorsal do time já pronta, parece que as dúvidas consistem em Fernandinho, Willian e Bernard, pouco rodados em termos de seleção. Rafinha já estaria devidamente preterido por Maicon, independentemente da sua atuação no amistoso.
E, apesar de ausentes nesta convocação, Robinho, com a cotação em alta junto à Comissão Técnica, Lucas Leiva e Maxwell poderão se materializar na relação dos que vão disputar a Copa.
Do grupo que esteve na seleção de Dunga, Felipão já tem como certa a presença de Júlio Cesar, Thiago Silva, Daniel Alves e Ramires. Os outros que estão aparentemente fechados com o técnico são David Luiz, Dante, Marcelo, Paulinho, Luís Gustavo, Oscar, Hulk, Fred, Jô, Jefferson e Neymar.
Kaká apesar da sua liderança e espírito de grupo ainda não apagou a má impressão deixada na seleção de 2010 e sua chamada no dia 7 de maio seria uma grande e inesperada surpresa. 

                                                                                                 Augusto Pellegrini

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014



ARTIGO PUBLICADO NO CADERNO “SUPER ESPORTE” DO JORNAL “O IMPARCIAL” DE 24/02/2014

 

DAS COISAS INÚTEIS

 

O mundo está repleto de boas intenções e de projetos inteligentes, presentes em todos os campos de atividades para facilitar a vida das pessoas, a ordem e o cumprimento da lei.
Infelizmente, de boas intenções – diz o ditado – o inferno está cheio; provavelmente de projetos inteligentes também.
A prova disso é a quantidade de coisas inúteis que, como a tal burocracia que atravanca o progresso do Brasil, só atrapalham ao invés de ajudar.
Só para lembrar alguns projetos importantes que não deram certo como deviam, tomemos, por exemplo, a ONU.
A ONU foi criada em 1945 para que os países do mundo vivessem irmanados, resolvendo as suas diferenças diplomaticamente, e para cooperar na solução de problemas sociais, econômicos e humanitários. Desde a sua criação, porém, não conseguiu fazer com que isto funcionasse como previsto.
Outro bom exemplo é a criação das Unidades de Polícia Pacificadora, as chamadas UPPs, feitas para acabar com a ação dos traficantes nos morros e comunidades do Rio. Ao invés da pacificação, o que se tem é um recrudescimento da violência e do banditismo.
Se o leitor puxar pela memória ou consultar o vizinho do lado vai encontrar dezenas de situações semelhantes, o que prova que problema social, existencial, e o escambau, é como uma  casa de marimbondos, se mexer errado o prejuízo é certo.
Mas como nosso assunto é o esporte, em especial o futebol, eu gostaria de analisar junto com o leitor a utilidade do árbitro adicional que se posta atrás da linha de fundo, ao lado do gol, para auxiliar a arbitragem.
Em princípio, ele deveria acompanhar com atenção os lances confusos que acontecem nas imediações da pequena área, em especial nas marcações de pênaltis discutíveis ou de gols onde a bola efetivamente tenha ultrapassado a linha.
Porém, quer porque o árbitro principal não leve muito em consideração as suas opiniões de auxiliar menos graduado, quer porque ninguém tenha dito a ele a razão para ele estar naquele lugar ou, pior, porque ele desconheça as regras básicas do futebol, o chamado quinto árbitro não passa de um cidadão remunerado e uniformizado que tem o seu trabalho protegido pela polícia, algo absolutamente surreal para o brasileiro comum.
É uma função privilegiada, a partir da remuneração (cerca de R$ 1.500 por partida durante cerca de três horas, contando o tempo de vestiário), passando pela tranquilidade (não tem que correr o tempo todo como o fazem o árbitro principal e os assistentes de linha) e pela responsabilidade (afinal, toda a pressão costuma recair exatamente sobre os seus companheiros de equipe).
Este cidadão faz parte das coisas inúteis a que nos referimos no caput deste artigo.
A própria Fifa, preocupada com a incompetência destes profissionais – acredito que depois do gol irregular que classificou a França para a Copa de 2010 – está estudando a implantação de um chip na bola e de câmeras fiscalizando eletronicamente aquilo que o olho do árbitro auxiliar não consegue ver.
Alguns estádios na Europa já possuem o recurso, mas os velhinhos da Fifa ainda precisam oficializar sua utilização. 
Enquanto isso, vamos continuar engolindo profissionais inúteis exercendo uma profissão inútil, como o senhor Rodrigo Saraiva Castanheira, um cego por conveniência que “não conseguiu ver a bola entrar” naquele gol do Vasco. Ou esse rapaz tem problemas de visão, e nesse caso tem que consultar um oftalmologista com urgência, ou possui alguma deficiência de atenção, necessitando dos cuidados de um especialista. Ele não parece ser leviano, apenas incapaz.
Mas, se derem a ele a missão de cuidar de duas tartarugas, uma delas foge.
(Ao tomar conhecimento do erro, Castanheira chorou, ao que tudo indica, lágrimas de crocodilo).

                                                                                                Augusto Pellegrini

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014



O JAZZ COMO FATOR DE INTEGRAÇÃO
 

No final do século 19, os Estados Unidos juntavam os cacos de uma guerra civil que durante quatro anos havia devastado os estados do sul, provocando quase um milhão de mortos.
Feita a paz, começou a luta para a criação de uma identidade nacional em um país cujas raízes haviam sido fortemente influenciadas pelos colonizadores da Grã-Bretanha, França e Espanha até conseguisse a sua independência.
Um dos grandes entraves no aspecto social que o país teve que enfrentar foi a divisão racial entre brancos e negros, um problema que foi minimizado ao longo do tempo, mas que até os dias de hoje ainda mantém seus focos de resistência.
Paradoxalmente, no entanto, um dos fatores que ajudaram a unificar a nação nasceu exatamente deste ponto polêmico e delicado – a atuação conjunta de negros e brancos.
Apesar da busca pela integração do país, fortalecida por leis contidas em uma constituição fortemente democrática, foi o jazz o grande responsável pelo impulso necessário para que norte e sul começassem efetivamente a trocar experiências pessoais, produzindo uma intrincada e eficiente rede de informações que teve a música como tema.
A diversidade musical na passagem do século 19 para o século 20 dividia o país em regiões musicais específicas: no sul, notadamente na Louisiana, descortinava o blues, essência do que seria a música americana no futuro; o norte e o nordeste privilegiavam uma música que continha uma forte marca das orquestras de salão européias; o oeste e o centro-oeste cultivavam a country music, de origem irlandesa. 
A troca de experiências entre os músicos negros autodidatas do sul e os músicos brancos elegantes do norte começou com a diáspora de grupos musicais que partiram de cidades como Nova Orleans em direção a Nova York e Chicago e foram deixando a semente pelo caminho – Kansas City, Saint Louis – fazendo com que, em pouco mais de dez anos, praticamente todo o país começasse a se unir musicalmente em torno de uma só palavra – jazz.
Esta identificação foi tão forte que se transformou em uma marca registrada dos Estados Unidos e em um fator motivador para os americanos que, por um motivo ou outro, se encontravam fora do país.
Naquele tempo – início do século 20 – a Europa era a senhora do mundo.
Países como Inglaterra, França, Itália e Alemanha possuíam uma forte liderança política, cultural e estratégica, o que lhes permitia ditar as regras de comportamento para todo o planeta.
A África era em grande parte colonizada, e mesmo a Ásia sofria uma forte influência deste colonialismo imposto sem qualquer respeito às tradições de cada povo nativo.
O Brasil não era colonizado, mas também era fascinado pelo europeísmo.
As nossas famílias mais abastadas mandavam seus filhos para Paris ou Londres a fim de completarem seus estudos e trazerem para a nova República toda uma bagagem de conhecimento que nos possibilitasse um crescimento “à europeia”.
Na América do Norte, no entanto, a visão de crescimento era outra, tendo como fator de integração um patriotismo exacerbado e um intenso orgulho próprio, o que, ajudado por outros fatos circunstanciais – duas guerras mundiais, por exemplo – levaram o país a liderar o mundo a partir do primeiro quarto do século 20.
O principal fator de integração, no entanto, foi a disseminação do jazz, que diferenciou o país do resto do mundo em termos de música e fez ainda mais, exercendo a sua influência a tal ponto que hoje, à parte as manifestações folclóricas e típicas de cada povo, o jazz se encontra presente no cardápio musical de qualquer lugar do mundo. 
A invasão do jazz começou pela Europa e aos poucos foi tomando conta do planeta de uma maneira lenta, mas forte e irreversível.    

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014





OUTRA VEZ, RACISMO
 

Apesar da estreia dos clubes brasileiros na fase de grupos da Copa Libertadores, o assunto que galvanizou a semana foi a abominável e inexplicável atitude de racismo demonstrada contra Tinga, jogador do Cruzeiro, por torcedores do Real Garcilaso.
Abominável porque o racismo é uma das atitudes mais rasteiras e perversas concebidas pelo comportamento humano.
É inconcebível que pessoas ainda cultivem a índole mesquinha de menosprezar outras pessoas por causa da raça ou da cor da pele. Infelizmente este procedimento parece ser atávico ao ser humano, e não tem perspectiva de mudar. Note-se que não estou falando do racismo ao negro, em particular, mas entre todas as raças, inclusive do negro contra o branco (possivelmente uma reação, mas ainda assim racismo).
Inexplicável porque numa partida de futebol onde atuaram alguns atletas mais negros ou menos negros – além de Tinga havia Dedé e Júlio Baptista – apenas o meio-campista tenha recebido tal tratamento, talvez pelo seu visual rastafári (o que enseja mais um tipo de racismo).
Inexplicável também porque a provocação não partiu de loiros finlandeses nem pálidos caucasianos, mas de peruanos, cuja população é eminentemente formada por mestiços de índios quíchuas, amazônicos e negros, com quase 15% de negros tão negros como Tinga, muitos dos quais presentes nas arquibancadas.
O fato foi devidamente explorado por toda a imprensa mundial, a Conmebol estuda as penalidades cabíveis ao clube peruano, os presidentes do Brasil e do Peru condenaram a atitude da torcida e Tinga voltou para Minas onde recebeu conforto e apoio de cruzeirenses e de rivais atleticanos.
Ao longo da história, o racismo e seus vizinhos mais próximos, como a xenofobia, a intolerância e a perseguição religiosa, têm sido responsáveis por crimes sem conta desde os relatos bíblicos, passando pelas Cruzadas, pela Inquisição e pela Segunda Guerra Mundial. O racismo gera a formação de seitas e associações, que produzem mais racismo e violência.
No atual momento, o racismo é também social, e se manifesta não apenas por meio de injúrias e provocações aos negros, mas também pelo pouco caso com que a humanidade está tratando pessoas menos favorecidas, como pobres e favelados.
Na Itália o racismo é exercido pelos povos do norte contra os do sul, a quem eles chamam de “marroquinos” (ficando então implícito outro racismo – o dos italianos com relação aos africanos).
O torcedor europeu, de uma forma geral, seja da Rússia, Alemanha, França ou Turquia, volta e meia dá demonstrações de racismo contra jogadores negros de qualquer nacionalidade – e olhem que negros e mulatos não faltam nos clubes de lá.
Mesmo entre jogadores são notórios os casos de ofensa racial, embora neste caso exista o componente do calor da competição, sendo geralmente usada na tentativa de desequilibrar emocionalmente o adversário, assim, é preciso diferenciar racismo de ofensas fortuitas.
Tudo indica que muitas vezes as ofensas racistas não tenham a finalidade que confrontar a superioridade de uma raça sobre as outras, mas sim de acender um pavio que gere nervosismo e intranquilidade. Algo assim como xingar a mãe do árbitro ou do jogador adversário.
O atual técnico do Vasco, Adilson Batista, declarou numa entrevista que o brasileiro é hipócrita, porque apesar de condenar o racismo, continua o exercendo oficialmente através das piadas de portugueses, japoneses e judeus, das ofensas desmedidas contra os argentinos e da desqualificação dos povos indígenas da América Latina, inclusive nossos próprios índios.
O assunto é uma fonte inesgotável de discussões e provavelmente jamais será resolvido.