EU
E A MÚSICA – A SÃO PAULO DE ADONIRAN BARBOSA
“Meu São Paulo
foi da garoa, tempo frio que já mudou.
Cantada pelo filho do italiano
está mais quente a cada ano,
é o samba urbano que chegou.
Bexiga, Barra Funda, Lapa e Mooca,
e a maloca que, saudosa,
hoje não existe mais,
porém a caravana colorida
evolui na avenida
evocando os bons tempos do Brás
Com
empolgação,
meu São Paulo é um poema
de Malvina, Adoniran,
Mato Grosso e Iracema.
Trem
das onze,
as mariposas vão sambando na estação,
lembrando da moçada o sacrifício,
a derrubada do edifício,
o antigo Albion.
Acende o candeeiro de mansinho,
traz de volta o cavaquinho
pra encantar meu bem querer.
Cidade de trabalho e de progresso,
seu poeta e seu sucesso
nós vamos cantar outra vez...”
(A São Paulo De
Adoniran Barbosa – de Augusto Pellegrini)
Esta é a letra de um samba feito em homenagem a Adoniran
Barbosa em 1975 para concorrer à escolha do samba-enredo do ano, cujo tema era
exatamente “A São Paulo de Adoniran Barbosa”. A música concorreu, não ganhou, mas
eu me senti premiado por ter convivido com o poeta, ainda que por breves
instantes, pois isso enriqueceu a minha alma.
Gostaria de ter absorvido mais um pouco da sensibilidade de Adoniran, mas o
nosso tempo foi muito curto. Enfim, como ele mesmo dizia – “mas isso num faz mal, num tem ‘portança’...”
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Desde muito jovem sempre gostei de exercitar o meu lado de compositor, na
maioria das vezes fazendo sozinho a letra e a melodia da música, mesmo não
conhecendo coisa alguma sobre teoria musical nem tendo a prática de executar
qualquer instrumento.
A música era produzida dentro da minha cabeça, e eu tinha que a cantarolar
dezenas de vezes para não esquecer a linha melódica (afinal, eu não sabia
cifrar, e naquele tempo ainda não existia outra maneira prática de gravar uma
melodia). Enquanto isso, o arranjo e a orquestração – violão, violinos, metais,
piano, percussão – iam tomando sua forma definitiva, mas sempre dentro da minha
cabeça.
Isto causava sérios problemas quando eu tentava cantar as minhas composições acompanhado
por algum instrumentista, pois evidentemente a harmonia que ele extraía do
instrumento era bem diferente daquela que eu havia concebido.
Quando comecei a compor fui influenciado pela música brasileira da época –
coisas de Antônio Maria, Dolores Duran, Alberto Ribeiro, Tito Madi, Fernando
Cesar, Henrique Lobo e Luiz Bittencourt, autores de sambas-canções que eram
interpretados pela mesma Dolores, pelo próprio Tito Madi, por Nora Ney,
Agostinho dos Santos, Dóris Monteiro, Lucio Alves, Cauby Peixoto, Dick Farney e
outros tantos.
Mesmo assim, a minha música não possuía as características específicas do
samba-canção e não obedecia à sequência tradicional dos seus versos (primeira
estrofe-segunda estrofe, pois o samba-canção convencional não utiliza refrãos
com frequência), “quebrando” a melodia às vezes de forma inusitada, coisa
típica – de acordo com a opinião de músicos e especialistas – de quem não é
engessado pela teoria e sente mais liberdade para simplesmente expor seus
sentimentos.
“Sozinho pela
madrugada
não procuro amigos,
só procuro paz.
Partiu, não me disse nada,
não deixou resposta, não,
isso não se faz...
Eu
tenho um pressentimento que me fala
mais alto que o desalento que em mim cala.
Nunca mais encontrarei quem me consola,
e dos sonhos que sonhei eu vivo agora...
Sozinho
pela madrugada,
não procuro amigos,
só procuro paz.
É muito fácil compreender,
mas é difícil resistir.
Sozinho pela madrugada,
vou ficando triste,
vou ficando só...”
(Sozinho Pela
Madrugada – de Augusto Pellegrini)
Mas logo chegou a bossa-nova, e eu incorporei o estilo às minhas composições,
sem abandonar o jeito da canção e do samba-canção. No entanto, continuei distante
daquilo que João Gilberto chamava de “samba autêntico” – Ary Barroso, Assis
Valente, Ataulfo Alves, Dênis Brean – como também do samba-canção tipo deprê, chamado dor-de-cotovelo – Lupicínio
Rodrigues, Fernando Lobo, Herivelto Martins, Jair Amorim – dos quais eu até
gostava, mas não me identificava a ponto de compor coisas do gênero.
A bossa-nova me mostrou que a gente pode fazer poesia com as coisas mais
simples do dia-a-dia e da natureza, sem necessidade de utilizar parnasianismos
ou erudição nas palavras.
“Descanso,
é gostoso de ver
as nuvens brincando,
e figuras formando
bem alto, no alto do céu,
não penso,
quero fugir da vida
como o dia perdido
no qual eu fugi de ti.
Morreu
o sol,
escurece depressa
igual ao momento
em que escureceu
o dia sem luz que eu vivi.
Desperto,
meu descanso não era,
era sonho, quimera,
eu não fujo, eu não posso fugir...”
(Descanso – de
Augusto Pellegrini)
Por trabalhar dentro dessa linha de composição, foi com muita
surpresa que recebi em 1974 um convite para ingressar na ala de compositores de
uma escola de samba, a paulistana G.R.E.S. Pérola Negra, sediada na Vila
Madalena, na época recém-egressa do Grupo B.
O convite partiu de um dos integrantes da ala, um engenheiro chamado Francisco
Siqueira, que eu conheci por força do meu ofício, o nada romântico trabalho de
inspecionar equipamentos, o que eventualmente acontecia na indústria onde ele
era o gerente industrial.
A princípio relutei em aceitar, pois aquilo ia contra todas as convicções
musicais que eu havia cultivado até então – jazz,
samba-canção, bossa-nova – mas dada à insistência do Chico acabei aceitando o
desafio.
Fiquei na escola durante seis anos, fiz parceria com o Chico Siqueira e com outros
compositores, participei das festividades regulares, dos eventos de samba de
quadra, dos ensaios na rua, das escolhas dos sambas-enredos, e logrei ser o
vencedor em 1979 com o samba “Carnaval,
Intrigas e Opiniões” – cujo tema eram
as discussões sobre a origem do samba – em parceria com meu depois compadre
Nelson Gengo (música gravada em LP 230023 pela CBS e elogiada em um artigo de
15 de fevereiro de 1979 no Jornal do Brasil pelo crítico musical José Ramos
Tinhorão).
“Até parece que o
samba
procura imitar a vida
as divergências da história
permanecem na memória.
Nascido no Cariri,
ou então em Salvador,
se veio da ginga dos bambas
ou do jongo do interior,
importante é conseguir
unir todas as correntes,
fazendo com alegria
o canto da nossa gente
Samba,
sambé, sembahó
ou sambaquixaba,
passado que todos discutem,
futuro que nunca se acaba.
Eram
castanholas e pandeiros,
depois flauta e cavaquinho.
Intrigas e opiniões
jamais dividirão
os nossos corações.
No céu um repinique de estrelas
mostrando o carnaval de amanhã,
na terra virá a Pérola Negra
sambando ao som de Aldebarã”
(Carnaval, Intrigas
e Opiniões – Augusto Pellegrini e Nelson “Zurumba” Gengo)
Por ocasião dos desfiles os compositores eram também responsáveis
pela harmonia da escola, o que nos permitia participar deles como um todo,
percorrendo o trajeto em toda a sua extensão, indo e voltando, e tentando
manter as diversas alas cantando em uníssono e com entusiasmo, evitando também o
aparecimento de espaços em branco entre os sambistas, o que a nomenclatura do
samba chama de “buraco”.
Era empolgante a gente se sentir iluminado pelos holofotes sustentados por uma
bateria vibrante e por uma alegria contagiante que descia das arquibancadas
para a avenida, que naquele tempo ainda não era chamada de “passarela do samba”.
Durante o ano a escola se dividia em múltiplas atividades, todas voltadas para
a execução de um desfile perfeito. A bateria ensaiava paradinhas e filigranas
sob a batuta do seu mestre; o cantor principal, chamado de “puxador” cantava o
samba-enredo por horas a fio para afinar as cordas vocais e fazer com que todos
os elementos da escola memorizassem o samba; as costureiras, em geral
familiares dos participantes, produziam as fantasias elaboradas pelo diretor de
carnaval, que acumulava as funções de figurinista; os artistas plásticos se
confinavam em galpões escondidos dos olhos do mundo e preparavam as alegorias e
os carros alegóricos.
Foi nesse ambiente ímpar que eu conheci uma figura também ímpar do poeta
popular Adoniran Barbosa.
Entre outras coisas, Adoniran também era um compositor que não conhecia teoria musical.
O espírito urbano das suas composições retratava o ator que morava nele, às
vezes histrião, às vezes dramático, como de resto o era a sua interpretação
como cantor.
De certa forma éramos dois peixes fora d’água que se encontravam no mesmo
lugar, sob o mesmo céu estrelado, sem ter muita relação histórica com o que se
passava ao redor.
Havíamos aceitado o desafio, eu como compositor, ele como protagonista, e
estávamos no mesmo barco até que o mesmo chegasse ao nosso porto seguro.
Numa escola de samba, as pessoas que são homenageadas com o tema assumem a
condição de padrinhos e madrinhas da associação durante o período que vai da escolha
do tema pela comissão de carnaval até o dia do desfile. Nessa condição, elas
frequentam a escola durante os ensaios, decidem se vão desfilar e de que forma
irão desfilar e se tornam amigos de todos, desde os membros da diretoria até o
sambista de ala mais humilde, embora poucas vezes esta amizade se prolongue
depois do carnaval.
Um dos pontos altos da celebração é a escolha do samba-enredo, quando o
personagem do tema participa de uma festa com direito a ouvir e apreciar mais
de uma dezena de sambas feitos em sua homenagem.
Adoniran não era habituado a comparecer a ensaios, pois os mesmos duravam horas
a fio, e o poeta, apesar de apreciar o sereno que lhe dava inspiração, não tinha
na alma a retumbância de surdos e alto-falantes, mas o aconchego de uma cantina
ou de uma esquina à luz de um poste, onde ele podia sussurrar poesia com sua
pouca voz ao lado de uma taça de vinho ou de um violão solitário e preguiçoso.
Aparentemente também Adoniran não chegou a se comover pelo fato de ser cantado
em prosa e verso, ele que já cantara tantos personagens, fictícios ou não –
Iracema, Ernesto, Nicola, Malvina, Pafúncia, Mato Grosso, Joca, Geralda.
Mas na noite da escolha do samba-enredo ele lá estava, de bigodinho, chapéu e
gravata borboleta, só faltava o cachecol que o acompanhava nas noites garoentas
de São Paulo, e estava – diria eu – muito animado.
Seus olhos miúdos brilhavam com a intensidade dos olhos de um gato e seu sorriso
com o canto da boca equilibrava o costumeiro cigarro sem filtro que aceleraria
a sua morte oito anos depois.
Ele percorreu várias mesas para cumprimentar as pessoas que o aplaudiam, subiu ao
palco para receber homenagens enquanto era saudado pelo presidente da escola –
o que de certa forma lhe constrangeu, homem simples que era – e terminou na
chamada “mesa da diretoria” onde sentavam alguns diretores e compositores.
Amante de um bom uísque, Adoniran foi presenteado com uma garrafa e um balde de
gelo, com o que se regalou.
Um diretor se desculpou pela pobreza da agremiação, que na impossibilidade de
lhe oferecer algo mais requintado optou pelo brasileiríssimo Old Eight e
algumas peças de frango a passarinho feito por uma das tias da escola.
Adoniran se limitou a responder – “num
tem portança” – e em pouco mais de uma hora secou a garrafa.